domingo, 20 de dezembro de 2009

Greve dos imigrantes: uma iniciativa lançada via Facebook


Os canteiros de obras irão parar de uma hora para a outra. As fábricas irão fechar. Os mercados hortifrutigranjeiros ficarão vazios. Abandonados, os campos de tomates. Fechados, restaurantes, hotéis e pizzarias. É um dia sem imigrantes: 24 horas sem empregadas, babás, agricultores, operários, enfermeiros estrangeiros. Quem lançou a primeira greve de imigrantes na Itália foi o Facebook, com dois grupos ativos, milhares de inscritos e uma dezena de associações de imigrantes comprometidos.

A reportagem é do jornal La Repubblica, 15-12-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Além da fronteira, uma iniciativa semelhante já está em curso na França, também graças ao Facebook. Uma jornalista, Nadia Lamarkbi, se perguntou: "O que aconteceria se o nosso país acordasse amanhã sem nós, imigrantes?". O dia escolhido pelos franceses é o dia 1º de março de 2010, e em poucos dias aquela que parecia só uma provocação se transformou em um encontro concreto, com mais de 45 mil inscritos. Não falta um precedente: no dia 1º de maio de 2006, nos Estados Unidos, quem cruzou os braços foram milhares de trabalhadores hispânicos.

Agora a ideia contagia a Itália. São dois os grupos ativos. O primeiro, intitulado "1º de março de 2010, 24 horas sem nós", conta com mais de três mil inscritos (entre italianos e estrangeiros) e se inspira na Jornada Sem Imigrantes, organizada na França, e se propõe a organizar uma "grande manifestação de protesto para fazer com que a opinião pública entenda quanto é determinante a contribuição dos imigrantes na manutenção e no funcionamento da nossa sociedade".

O segundo grupo, ainda no Facebook, chama-se "Blacks Out – Um dia sem imigrantes", fixa a data da greve para o dia 20 de março de 2010 e vê a adesão dos representantes de muitas associações de imigrantes: Eugen Terteleac, presidente da Romenos na Itália; Vladimir Kosturi, presidente da associação Illiria (Albaneses na Itália); Iualian Manta, presidente da Voz dos Romenos; Yacouba Dabre, secretário do Movimento pelos Africanos; Khalid Chaouki, responsável pela Segunda Geração dos Jovens Democráticos; a associação bengalesa Dhuumcatu; Wu Zhiqiang, presidente do Sindicato Chinês Nacional; Hu Lanbo, diretora da revista mensal China na Itália; Gaoussou Ouattara, membro da Junta dos Radicais Italianos.

E não só. Ao grupo, aderem também a Acli (Associação Cristã dos Trabalhadores Italianos, mais de 980 mil inscritos, 4.500 círculos), com o seu presidente Andrea Olivero.

"Um vento xenófobo varre o nosso país – escreve Aly Baba Faye, sociólogo, entre os promotores do grupo 'Blacks Out' – e a resposta da política é uma só: abrir a temporada de caça ao imigrante com a desculpa da irregularidade, declarar guerra à sociedade multiétnica e repropor a equação 'imigrante igual a criminoso'. Por isso – continua Faye em seu apelo – um dia antes da Jornada Mundial contra o Racismo, uma semana antes das eleições administrativas italianas, no dia 20 de março de 2010, a partir das 00h01min, os novos italianos irão parar".

Portanto, dois grupos, para duas datas diferentes. "Mas estamos trabalhando - conta Faye – para unificar as forças e as datas, para que esse compromisso não seja uma ocasião desperdiçada".

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Confrontos em Copenhague


Artigo de Leonardo Boff


"A visão dos representantes da sociedade civil mundial sustenta: a situação da Terra e da humanidade é tão grave que somente o princípio de cooperação e uma nova relação de sinergia e de respeito para com a natureza nos poderão salvar. Sem isso vamos para o abismo que cavamos", escreve Leonardo Boff, teólogo, constando que duas visões se confrontam em Copenhague.

Eis o artigo.

Em Copenhague nas discussões sobre as taxas de redução dos gases produtores de mudanças climáticas, duas visões de mundo se confrontam: a da maioria dos que estão fora da Assembléia, vindo de todas as partes do mundo e a dos poucos que estão dentro dela, representando os 192 estados. Estas visões diferentes são prenhes de conseqüências, significando, no seu termo, a garantia ou a destruição de um futuro comum.

Os que estão dentro, fundamentalmente, reafirmam o sistema atual de produção e de consumo mesmo sabendo que implica sacrificação da natureza e criação de desigualdades sociais. Crêem que com algumas regulações e controles a máquina pode continuar produzindo crescimento material e ganhos como ocorria antes da crise.

Mas importa denunciar que exatamente este sistema se constitui no principal causador do aquecimento global emitindo 40 bilhões de toneladas anuais de gases poluentes. Tanto o aquecimento global quanto as perturbações da natureza e a injustiça social mundial são tidas como externalidades, vale dizer, realidades não intencionadas e que por isso não entram na contabilidade geral dos estados e das empresas. Finalmente o que conta mesmo é o lucro e um PIB positivo.

Ocorre que estas externalidades se tornaram tão ameaçadoras que estão desestabilizando o sistema-Terra, mostrando a falência do modelo econômico neoliberal e expondo em grave risco o futuro da espécie humana.

Não passa pela cabeça dos representantes dos povos que a alternativa é a troca de modo de produção que implica uma relação de sinergia com a natureza. Reduzir apenas as emissões de carbono mas mantendo a mesma vontade de pilhagem dos recursos é como se colocássemos um pé no pescoço de alguém e lhe dissésemos: quero sua liberdade mas à condição de continuar com o meu pé em seu pescoço.

Precisamos impugnar a filosofia subjacente a esta cosmovisão. Ela desconhece os limites da Terra, afirma que o ser humano é essencialmente egoista e que por isso não pode ser mudado e que pode dispor da natureza como quiser, que a competição é natural e que pela seleção natural os fracos são engolidos pelos mais fortes e que o mercado é o regulador de toda a vida econômica e social.

Em contraposição reafirmamos que o ser humano é essencialmente cooperativo porque é um ser social. Mas faz-se egoísta quando rompe com sua própria essência. Dando centralidade ao egoísmo, como o faz o sistema do capital, torna impossível uma sociedade de rosto humano. Um fato recente o mostra: em 50 anos os pobres receberam de ajuda dois trilhões de dólares enquanto os bancos em um ano receberam 18 trilhões. Não é a competição que constitui a dinâmica central do universo e da vida mas a cooperação de todos com todos. Depois que se descobriram os genes, as bactérias e os vírus, como principais fatores da evolução, não se pode mais sustentar a seleção natural como se fazia antes. Esta serviu de base para o darwinismo social. O mercado entregue à sua lógica interna, opõe todos contra todos e assim dilacera o tecido social. Postulamos uma sociedade com mercado mas não de mercado.

A outra visão dos representantes da sociedade civil mundial sustenta: a situação da Terra e da humanidade é tão grave que somente o princípio de cooperação e uma nova relação de sinergia e de respeito para com a natureza nos poderão salvar. Sem isso vamos para o abismo que cavamos.

Essa cooperação não é uma virtude qualquer. É aquela que outrora nos permitiu deixar para trás o mundo animal e inaugurar o mundo humano. Somos essencialmente seres cooperativos e solidários sem o que nos entredevoramos. Por isso a economia deve dar lugar à ecologia. Ou fazemos esta virada ou Gaia poderá continuar sem nós.

A forma mais imediata de nos salvar é voltar à ética do cuidado, buscando o trabalho sem exploração, a produção sem contaminação, a competência sem arrogância e a solidariedade a partir dos mais fracos. Este é o grande salto que se impõe neste momento. A partir dele Terra e Humanidade podem entrar num acordo que salvará a ambos.


quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Quando o mundo da Internet se torna movimento político





Com a difusão da web no mundo, um bilhão e 700 milhões de usuários (¼ da população mundial), certamente existem hoje mais instrumentos para resistir ao poder. Valores e interesses alternativos podem ser melhor defendidos diante daqueles que prevalecem. Entre poder e contrapoder, para usar a expressão de Manuel Castells, o jogo está em aberto (e não fechado em vantagem do primeiro), graças às redes sociais, às comunidades virtuais, ao Facebook, MySpace, Twitter, ao e-mail, a toda forma de Internet móvel e à autocomunicação individual de massa, que caracteriza a paisagem tecnológica contemporânea. A barreira da porta de ingresso para a cena pública se levantou.

A reportagem é de Giancarlo Bosetti, publicada no jornal La Repubblica, 10-12-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A mobilização "lilás" ["cor da vitalidade e da autoafirmação"] do No-B Day [No Berlusconi Day], construída em menos de 20 dias, mostra que a praça web começou a funcionar também na Itália. As "smart mobs", as multidões inteligentes das quais Howard Rheingold fala há anos, já fizeram várias aparições: nas Filipinas, em 2001, foi um movimento organizado com os SMS para impulsionar a renúncia do presidente. Na Espanha, depois do atentato de Atocha, as teses do governo foram descartadas e punidas com o voto, por meio dos celulares. No Irã, a contestação das últimas eleições viajava pelo Twitter. Cita-se entre nós o precedente de Beppe Grillo, com o seu V-Day, mas se tratava de um personagem já muito conhecido.

Pelo contrário, a Praça San Giovanni, no último dia 05 de dezembro, ficou cheia por meio de organizadores pouco conhecidos. Era evidente o caráter "horizontal" da mobilização, acentuado pela colocação dos políticos entre os espectadores.

Nos EUA, a política já foi amplamente redesenhada pela web. Obama havia recrutado Chris Hughes, um dos fundadores do Facebook, para a sua campanha, e ele deve ao YouTube tanto quanto J. F. Kennedy deve à TV e F. D. Roosevelt ao rádio. Trata-se do país com o mais alto índice de penetração da Internet (75%). Entre nós [italianos], menos da metade da população tem acesso à Internet e, por isso, a performance da marcha No-B Day é uma etapa a ser lembrada: a política que tente se adequar.

Um traço claro da direção da mudança já é evidente: não se trata da utopia da "e-democracy", mas de uma radical atualização das técnicas da competição. A web anunciava desde o início a queda de barreiras entre os cidadãos e a política. Ross Perot entrava em cena na campanha presidencial norte-americana de 1992 com a ideia da democracia direta via digital. Al Gore promovia as "autoestradas da informação" em 1994, e, em 1995, falava-se da "ascensão da república eletrônica" (Lawrence Grossman).

E nos anos seguintes a Internet verdadeiramente modelou a cena pública, mas não no sentido em que muitos haviam idealizado: democracia direta, assembleias eletrônicas, disseminação do poder. Não, ao contrário, a Internet se mostrou um imbatível instrumento de parte: a Internet é partidária das eleições, porque está na sua natureza a vocação de reunir as pessoas por vias de afinidade, para organizá-las em torno de objetivos comuns. A Rede, para a política, reúne pessoas com pensamentos, interesses, atitudes muito mais semelhantes do que colocar alguns indivíduos diante de outros com ideias e interesses conflitantes. A Rede é a "praça eletrônica", não porque seja uma ideal "ágora" deliberativa, em que as partes confrontam seus próprios argumentos, mas sim porque é justamente "a praça" onde se manifestam por uma ideia comum. Um dia, terá que ser possível obter das tecnologias de rede meios para melhorar todo o sistema democrático, mas no momento é claro quantos benefícios, rapidamente, as organizações partidários e os movimentos sociais podem conseguir em termos de transparência, economia, rapidez, eficácia. Apenas se o quisessem.

A capacidade que temos com a Internet de fazer com que a informação de um de nós possa se estender rapidamente aos outros, a custos baixíssimos ou nulos, tem um grandioso potencial de liberdade. Apenas temos que estar atentos e acautelar-nos com relação ao que Cass Sunstein ("Republic.com 2.0", Ed. Princeton, 2007, e "Going to Extremes", Ed. Oxford, 2009) chama de o risco do "perfect filtering", da filtragem perfeita de indivíduos afins, que a Rede exerce inexoravelmente atraindo o semelhante ao semelhante, com uma autosseleção que tende a excluir vozes discordantes.

A discussão entre pessoas que estão sempre de acordo entre si pode nutrir cumplicidades, desencorajar verificações, aumentar o desprezo pelos outros, fazer com que se cometam erros em cascata, ou melhor, em "cibercascata", até chegar a acreditar como verdadeiras notícias falsas e a polarizar extremismos. É saudável que, de norma, nas praças, também virtuais, circulem ideias em liberdade e pareceres opostos.

A "tirania da maioria" está sempre à espreita, ainda mais em países, como o nosso, que sofrem não apenas da brecha digital (metade da população fora da Rede. Nos EUA, a penetração é de 75%), mas também a breche de imprensa (subiu para 40% o percentual alheio aos meios de imprensa) e onde a dependência da TV generalista para a informação política continua assustadoramente alta (70% para todos, 81% entre os idosos).

O pluralismo da informação continua em sofrimento, o jogo entre poderes e contrapoderes continua em aberto, a competição entre informações do alto do velho mass-medium e informações por baixo das redes sociais está em curso, mas sempre é preciso estar um pouco ansioso pelo resultado final da partida.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

De quantos planetas você precisa?



A água que gasta no banho, a comida que põe no prato e até o tempo em que deixa a luz acesa. O consumo de recursos naturais de uma pessoa pode ser convertido em área. Cálculos internacionais indicam que, para sustentar seu estilo de vida, o brasileiro precisa em média do equivalente a três Maracanãs por ano – área usada, por exemplo, para cultivar alimentos, gerar energia e construir infraestrutura urbana.

A reportagem é de Fernanda Fava e publicada pelo portal do jornal O Estado de S. Paulo, 11-12-2009.

Esse cálculo é conhecido como pegada ecológica, termo criado em 1990 pelos pesquisadores americanos Mathis Wackernagel e William Rees. A pegada usa como unidade o hectare global, que, como o hectare normal, tem 10 mil metros quadrados, mas mede a capacidade de produção de recursos naturais de toda a superfície terrestre – o que inclui áreas de cultivo, florestas, rios e mares, mas não desertos e geleiras. O cálculo pode ser tachado de arbitrário, mas é uma forma de dimensionar o impacto que cada pessoa causa sobre o planeta.

No mês passado, a ONG americana Global Footprint Network divulgou um índice atualizado com a pegada ecológica do Brasil e de outros 150 países, baseado em dados das Nações Unidas de 2006. De acordo com ele, cada brasileiro tem um pegada de 2,25 hectares globais, ou seja, a produção de tudo o que consome precisa de 22,5 mil metros quadrados.

A média brasileira é um pouco menor que a mundial, segundo a qual cada pessoa na Terra consome 2,6 hectares globais por ano. Mas, e aí está o problema, a Global Footprint calcula que o total disponível de área produtiva no mundo, a chamada biocapacidade, é de apenas 1,8 hectare global por pessoa. Além disso, a biocapacidade vem diminuindo – seja pelo aumento da população ou pela degradação de solos e mares.

Isso significa que os 6,6 bilhões de habitantes do mundo consomem juntos quase 1,5 planeta Terra por ano, com base nos dados de 2006. Ou seja: a população hoje usa em 1 ano recursos que o planeta só consegue repor em 18 meses. No relatório de 2008, baseado em dados da ONU de 2003, a humanidade consumia 1,3 planeta.

“É como se o mundo fosse uma caixa d’água que é abastecida por uma torneira e fornece água por outra, mas a quantidade de água que sai é muito maior do que a que entra”, compara o coordenador do Programa de Educação para Sociedades Sustentáveis da entidade ambientalista WWF-Brasil, Irineu Tamaio. “Por enquanto, a caixa ainda tem água, mas muito em breve ficará vazia. Nós já estamos roubando recursos das próximas gerações.”

Segundo a pesquisa da Global Footprint, se nenhuma mudança for feita na velocidade do consumo e na taxa de crescimento da população, a escassez de recursos naturais pode se tornar realidade antes de 2050. Se fossem levados em conta só os padrões dos países mais ricos, essa data-limite poderia estar ainda mais próxima. Os números só não são piores porque nessa média entram nações muito pobres, onde a oferta de alimentos, energia e infraestrutura é escassa e a emissão de poluentes tem níveis mínimos.

Apenas dez países são responsáveis por 50% da pegada ecológica mundial, e o Brasil está entre eles. No topo da tabela estão Emirados Árabes e Qatar. “Os dois são grandes exportadores de petróleo por um lado e, por outro, importam praticamente tudo o que consomem, porque tem uma área pequena e pouco produtiva para dar conta do seu consumo interno”, explica a diretora de Estratégias da Global Footprint, Jennifer Mitchell. Isso faz com que cada morador desses países tenha pegadas ecológicas próximas de 10 hectares globais. “É diferente dos Estados Unidos, que têm uma das maiores biocapacidades do mundo, mas pegada muito alta por causa da mentalidade consumista da sociedade.”

A pegada dos EUA supera em mais de três vezes a média mundial: é de 9,4 hectares globais (ou mais de 11 Maracanãs) per capita. Assim, se toda a população do mundo tivesse os hábitos de consumo dos americanos, seriam necessários 5 planetas para manter seu estilo de vida e os recursos naturais provavelmente se esgotariam em menos de 20 anos.

MENOS IMPACTO

Jennifer ressalta que, com os mesmos padrões de conforto e bem-estar, os europeus conseguiram atingir uma pegada ecológica de 5 hectares globais per capita, a metade da americana. “O número ainda é alto, se comparado com o que há disponível em termos de recursos naturais, mas mostra que é possível ter a mesma qualidade de vida com impacto muito menor.”

Enquanto os americanos já passaram a fazer parte da lista de devedores ambientais mundiais, o Brasil ainda é considerado um dos maiores credores. O consumo representa só 25% da biocapacidade do País, de 8,87 hectares per capita, a maior do mundo. Ou seja: o brasileiro gasta 3 Maracanãs de recursos naturais por ano, mas têm pouco menos de 11 à disposição.

Além da grande área produtiva, o País tem boa parte de seu território coberto por matas e florestas. “Mas isso não quer dizer que os brasileiros possam começar a consumir mais. O Brasil precisa ter uma boa gestão da sua biocapacidade para o bem de todos os países do mundo, que dependem de suas florestas para absorver carbono e de suas terras para produzir recursos”, alerta Jennifer.

Os dados da Global Footprint mostram uma tendência ao equilíbrio no País. A biocapacidade, que vinha diminuindo de 1961 para hoje, parece estar se estabilizando e a pegada ecológica per capita, que variou pouco ao longo dos últimos 50 anos, caiu lentamente. Essas mudanças podem ter sido causadas por fatores como o desenvolvimento tecnológico, que permite plantar mais num espaço menor de terra. Mas Tamaio, da WWF, alerta que essa situação está mudando. “A tendência é que mais gente tenha acesso ao universo do consumo e a demanda por recursos aumente.”

No entender de Jennifer, apenas melhorias tecnológicas não serão suficientes para expandir a biocapacidade e diminuir a pegada ecológica. Para ela, a melhor forma de reduzir os impactos é promover uma mudança de mentalidade e de hábitos de consumo. Tamaio concorda: “Temos que rever nossas necessidades. Será que preciso trocar meu tênis? É uma questão de consumir só o essencial.”

Atualmente, o cálculo da pegada tem mais de 5 mil variáveis. Pode-se medir o impacto ambiental de municípios, empresas e pessoas. Por incrível que pareça, todos esses cálculos são mais complexos do que apurar o uso de recursos naturais de um país. “Os dados dos países estão centralizados na ONU, enquanto números locais muitas vezes estão espalhados ou nem foram calculados.”


Ainda mais complicado é tentar calcular a pegada ecológica individual. Há três anos, o WWF-Brasil criou uma ferramenta de cálculo pelo site. São 15 questões sobre hábitos de consumo de energia, água, alimentação e transporte. O resultado mostra quantas Terras (de 1 a 4) seriam necessárias se todo mundo tivesse consumo semelhante ao da pessoa que respondeu ao questionário.

PEGADA HÍDRICA

Apesar da complexidade, a tentativa de quantificar o uso de recursos naturais parece ser uma tendência irreversível. Institutos de pesquisa, empresas, ONGs e ONU estão se debruçando sobre números para calcular o quanto países e produtos usam de água – a pegada hídrica.

A Water Footprint Network (WFN) – ou Rede da Pegada Hídrica – nasceu para criar uma ferramenta capaz de medir o quanto de água está embutido em cada bem de consumo. Com sede na Holanda, a entidade já tem cálculos sobre vários tipos de alimento. Para se fabricar 1 quilo de queijo, por exemplo, são necessários 5.000 litros de água. Para 1 kg de arroz, gasta-se 3.400 litros. Para 1 kg de carne bovina, gasta-se, em média, 15.500 litros, levando em conta a criação do gado e o processamento industrial da carne.

Parte da indústria de bebidas e alimentos está interessada em saber qual é a dimensão do seu gasto com água. A primeira empresa a imprimir sua pegada hídrica nas embalagens foi a Raisio, fabricante finlandesa de cereais. A expectativa de Derk Kuiper, diretor da WFN, é que mais empresas abracem a causa da transparência e divulguem esse dado ao consumidor.

“Os grandes grupos do setor alimentício já começam a perceber que não basta gerenciar a água nas fábricas, reduzindo o desperdício”, diz Kuiper. Segundo ele, para se evitar uma crise hídrica no futuro será preciso trabalhar a cadeia de fornecedores, ou seja, o quanto se consome de água no campo, para produzir os alimentos.

“Veja o exemplo da cerveja: para se produzir um copo de 250 mililitros de cerveja são necessários 75 litros de água. E isso ocorre porque o cultivo da cevada, principal insumo da cerveja, consome 1.300 litros por quilo produzido.”

Foi justamente uma indústria de bebidas a primeira empresa brasileira a participar da WFN. A gigante AmBev em breve deve começar a calcular a pegada hídrica de uma de suas marcas. “A maior parte da pegada vem da agricultura”, diz Sandro Bassili, diretor de Responsabilidade Social da AmBev. “Nosso objetivo é ter um número acurado para trabalhar lado a lado com os produtores de cevada.

SUA PEGADA

A pedido do Sustentabilidade, quatro pessoas de diferentes idades e estilos de vida fizeram o teste da WWF-Brasil:

Talita Xavier
26 anos
Valor da Pegada: 3 planetas

A engenheira ambiental Talita Xavier, de 26 anos, cresceu em contato com a natureza, na zona rural de Itajaí, em Santa Catarina, e aprendeu com os pais a cuidar do meio ambiente. Em casa, ela recicla o lixo e separa resíduos orgânicos para servir de adubo. No supermercado, procura escolher itens produzidos na sua região. Mas sua pegada ecológica é alta, porque ela depende do carro para quase tudo e gasta com roupas e cosméticos. “Como tudo fica distante, não há como não usar o carro.”

Thiago Martins
30 anos
Valor da pegada: 2 planeta

Thiago Martins, de 30 anos, morador de São Paulo há 8, decidiu eliminar de seu cotidiano tudo que possa causar impacto ambiental. Cansado de rodízio, poluição e multas, vendeu o carro e hoje tem um Segway, veículo elétrico. Martins parou de comer carne, instalou um triturador de detritos na pia e instalou painéis solares para gerar energia. “Acredito que, com o meu estilo de vida, tenho créditos de carbono. Limpo o ar em vez de poluí-lo.”

Celso Régis
49 anos
Valor da pegada: 4 planetas


Celso Régis, de 49 anos, mora há 12 em Campo Grande, onde é produtor rural de café. Apesar de consumir alimentos produzidos localmente e de economizar água e energia em sua residência, Régis tem uma pegada ecológica alta.

Além de fazer de 70 a 90 horas de viagens aéreas por ano a trabalho, ele também usa bastante o carro. Roda em torno de mil quilômetros por mês. “Faço pelo menos duas viagens por mês para a fazenda de café, a 200 km de casa.”

Teresa Antunes
56 anos
Valor da pegada: 3 planetas

A mineira Teresa Antunes, de 56, se preocupa com a separação do lixo em casa, em Florianópolis, e lê rótulos dos produtos procurando fabricantes com maior responsabilidade socioambiental. Mas gostaria de fazer mais. Para ela, ainda é um problema lembrar de apagar luzes. O consumo de energia da família é alto: cada um tem seu computador. “Também queria usar menos o carro, mas é inviável, moro num local alto.”

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Terra Madre




Terra Madre: uma aliança planetária que conjuga ética e prazer


A rede Terra Madre, do movimento Slow Food, "é uma aliança planetária por um melhor sistema do alimento, mais humano e sustentável: um sujeito novo, que conjuga ética e prazer, política e beleza", afirma Carlo Petrini, cozinheiro italiano fundador do movimento Slow Food, em artigo para o jornal La Repubblica, 10-12-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O primeiro Terra Madre Day ocorre enquanto o Slow Food completa 20 anos: não é por acaso. O Slow Food, com o Terra Madre Day, cresceu, de fato, em uma rede muito mais ampla do que a própria associação, envolvendo, além dos seus sócios, algo como 2.000 comunidades do alimento de todo o mundo, dando vida a um movimento global que, no entanto, está muito enraizado e difundido em nível local.

Fazem parte dele todos os que sentem o alimento como central para as suas existências e que o veem como um meio para propôr uma mudança, a reivindicação da própria soberania alimentar e uma vontade sadia de democracia participativa.

A rede é composta tanto pelos produtores quanto pelos "coprodutores", isto é, quem rejeitou a ideia de ser consumidor passivo a tal ponto que não quer mais ser identifcado com esse nome. É uma aliança planetária por um melhor sistema do alimento, mais humano e sustentável: um sujeito novo, que conjuga ética e prazer, política e beleza. Um sujeito que, enquanto se realiza o encontro de Copenhage, diz fortemente aos poderosos que é preciso partir de um sistema do alimento diferente para reduzir as emissões e estreitar uma relação harmoniosa com o ambiente.

As comunidades da rede Terra Madre – agricultores e cidadãos do Norte e do Sul do mundo – produzem e consomem alimento sem superexplorar os recursos, mantêm viva a sua própria cultura alimentar, usam energias renováveis, combatem o desperdício e se empenham em comportamentos virtuosos nos seus próprios territórios.

O Terra Madre Day nos dá o sentido de uma rede que toma sempre mais corpo, que se torna ponto de referência concreto para todos aqueles que têm no coração o alimento, o ambiente e as alegrias que podem nos dar. È a partir do que comemos que mudaremos o mundo, fazendo coisas pequenas mas tangíveis na nossa realidade cotidiana, como fazem desde sempre as comunidade do Terra Madre. São a semente de um novo humanismo. Celebremos com elas e sigamos o exemplo.

'Rebelem-se contra a ditadura da velocidade', exorta o pai da Slow Food


Ele cita Sêneca: "A vida não é breve, mas longa. Somos nós que a desperdiçamos". O fundador da Slow Food, Carlo Petrini, combate há 20 anos a ditadura da velocidade, "culpada não apenas pelos males difusos, pelo estresse, pela insatisfação, pela alienação, mas também pela atual crise mundial".

A reportagem é de Alessandra Retico, publicada no jornal La Repubblica, 24-04-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Em que sentido?

As finanças criativas são a "extremização" de um sistema inteiro de valores baseado na velocidade. Criaram uma economia virtual em que o que vale é consumir, e depressa, para recomeçar rapidamente. A essência da nossa sociedade se fundamenta na rapidez, nas necessidades induzidas, nos desperdícios. Um frenesi que nos reduziu a este ponto de recessão, esvaziados de significados e de bens.

A lentidão é um conceito bonito, mas às vezes é vago, anacrônico.

Eu gosto de chamá-la de medicina homeopática. Estaria sendo louco se eu pensasse que ela funciona para todos e sempre, que é um fim em si mesma. Ela é útil se nos confrontar. A lentidão é um governo da própria liberdade. Às vezes, decisões rápidas são úteis, às vezes é preciso refletir. Este é o momento histórico perfeito para recuperar a calma: para não cometer outros erros, para escolher o que mais nos agrada.

Nem sempre é possível, lhe objetariam.

Deixar um e-mail pela metade, estar com quem amamos, comer localmente, inventar o próprio ritmo, decidir que o tempo, e até o tempo livre, existe. Uma alternativa à tirania do mundo globalizado é mais do que possível: basta seguir a terra, a fisiologia da natureza. Faz bem à saúde, constrói uma economia finalmente participativa.


Antigos saberes agrícolas podem nos levar para o futuro


As antigas culturas alimentares não estão um degrau abaixo da ciência acadêmica ou da pesquisa financiada por grupos privados. Nem são imóveis no tempo.

Publicamos aqui um trecho de "Terra madre. Come non farci mangiare dal cibo" [Terra Mãe. Como não sermos comidos pela comida, em tradução livre] (Ed. Giunti, 173 páginas), o novo livro de Carlo Petrini, cozinheiro italiano fundador do movimento Slow Food.

O texto foi publicado no jornal La Repubblica, 20-11-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Se quisermos começar a pensar sobre a comida com bom senso, sem preconceitos, e tentar de algum modo corrigir o sistema global industrial agroalimentar, devemos desfazer absolutamente um lugar comum: a rejeição a priori do passado e de tudo aquilo que tem sabor de passado. Assim como as economias das comunidades são consideradas marginais, e a busca do prazer alimentar, um coisa elitista, também a tradição, os saberes antigos, os estilos de vida mais sóbrios são investidos de um preconceito enraizado e são pontualmente marcados como nostálgicos e fora da realidade. Isso faz com que se liquidifiquem como superados séculos de cultura popular, e que, portanto, grande parte do saber próprio das comunidades do alimento – ou ainda mais as suas origens – não sejam nem levados em consideração.

É paradoxal que a maioria das pessoas reconheça a superioridade – embora, talvez, considerando-a uma prerrogativa elitista – de muitos produtos tradicionais, artesanais, tirados de ingredientes frescos e da estação, produzidos e consumidos localmente, mas depois não reconheça o importante valor das culturas e das competências que os criaram. Quase dizendo: "Sim, são melhores, mas estão fora do mundo, só existem em pequenos nichos, é a mesma coisa que comer mal".

Não acredito que seja o caso de renunciar assim, sem se perguntar se existem alternativas possíveis. Estamos convictos de que, justamente sobre esses saberes, as comunidades fundarão o seu papel de protagonistas da terceira revolução industrial. Não é provocação, mas consciência de que, se o mundo pede energias limpas, produções sustentáveis, reuso e reciclagem, abatimento do desperdício, prolongamento da durabilidade dos bens, alimentos salutares, frescos e de qualidade, as comunidades do alimento não estão apenas em linha, mas já estão até na vanguarda. Seja por causa das técnicas utilizadas, mas ainda mais por causa da mentalidade que as apoia.

De fato, é lógico que não é possível replicar os seus métodos em todo o lugar, fundamentados talvez sobre tecnologias muito limitadas. É normal que esses aspectos da sua existência não sejam exportáveis para todos os lugares – embora em alguns casos não seja impossível – porque são filhos de uma adaptação local, e, no local, funcionam muito bem. Ao invés, é fundamental estudar sua sistematicidade, entendida como harmonização em um sistema complexo, e compreender os seus motivos.

Não se pode continuar considerando os saberes tradicionais e populares como um degrau abaixo dos da ciência que sai das universidades ou da pesquisa financiada por grupos privados. Pelo contrário, eles têm a mesma dignidade. O "savoir faire" agrícola é filho de uma experiência secular, e pouco importa que a sua praticidade seja demonstrada ou demonstrável cientificamente. Assim como também seria errado desejar uma supremacia desses conhecimentos, que eu defini como saberes lentos. É preciso que se instaure um diálogo em que os preconceitos sejam colocados à parte, em que a pesquisa esteja também ao seu serviço, e em que pesquisa e ciência colaborem sobre o mesmo plano paritário.

À tradição, muitas vezes, associa-se também o erro de vê-la como uma dimensão imóvel, que pertence ao passado. Até quem se refere a ela, a relata e a honra corre muitas vezes o risco de cometer o erro de vivê-la como um "unicum" que não evolui, que se interrompeu em um certo ponto. Essa é uma visão que acaba nos separando das nossas raízes, que nos tira a memória daquilo que fomos, da história dos nossos povos.

As comunidades sabem bem disso. Para elas, a tradição não é uma repetição monótona de gestos, ritos e produções. São abertas às novidades e a tudo o que, no sulco da tradição, pode lhes fazer progredir, sabem que é verdadeira aquela frase (da qual se abusa um pouco) que entende a tradição como "uma inovação bem sucedida" e a colocam em prática. Não abandonam o velho pelo novo, ao invés, inserem o novo no sistema complexo que forjou a sua identidade. Sabem de onde provêm e tem muito claro quais são os seus objetivos.

Não devemos decidir se é melhor a tradição ou o progresso, o passado ou o futuro, mas sim rejeitar generalizações, reducionismos e a separação desses conceitos, a sua contraposição. As comunidades existem para a continuidade da tradição, levam-na no coração e protegem a sua memória justamente porque lhes dá identidade em um mundo que tende à homologação, mas sabem bem que cometeriam um grave erro se não quisessem aproveitar os meios que a globalização e a tecnologia lhes oferecem. Querem apenas poder fazer isso de maneira responsável, com bom senso. Querem comer, e não ser comidos.


Fontes:

http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=27789


Não existe aquecimento global", diz representante da OMM na América do Sul



Por Carlos Madeiro

Especial para o UOL Ciência e Saúde

Com 40 anos de experiência em estudos do clima no planeta, o meteorologista da Universidade Federal de Alagoas Luiz Carlos Molion apresenta ao mundo o discurso inverso ao apresentado pela maioria dos climatologistas. Representante dos países da América do Sul na Comissão de Climatologia da Organização Meteorológica Mundial (OMM), Molion assegura que o homem e suas emissões na atmosfera são incapazes de causar um aquecimento global. Ele também diz que há manipulação dos dados da temperatura terrestre e garante: a Terra vai esfriar nos próximos 22 anos.




Segundo Luiz Carlos Molion, somente o Brasil, dentre os países emergentes, dá importância à conferência da ONU


Em entrevista ao UOL, Molion foi irônico ao ser questionado sobre uma possível ida a Copenhague: “perder meu tempo?” Segundo ele, somente o Brasil, dentre os países emergentes, dá importância à conferência da ONU. O metereologista defende que a discussão deixou de ser científica para se tornar política e econômica, e que as potências mundiais estariam preocupadas em frear a evolução dos países em desenvolvimento.



UOL: Enquanto todos os países discutem formas de reduzir a emissão de gases na atmosfera para conter o aquecimento global, o senhor afirma que a Terra está esfriando. Por quê?

Luiz Carlos Molion:
Essas variações não são cíclicas, mas são repetitivas. O certo é que quem comanda o clima global não é o CO2. Pelo contrário! Ele é uma resposta. Isso já foi mostrado por vários experimentos. Se não é o CO2, o que controla o clima? O sol, que é a fonte principal de energia para todo sistema climático. E há um período de 90 anos, aproximadamente, em que ele passa de atividade máxima para mínima. Registros de atividade solar, da época de Galileu, mostram que, por exemplo, o sol esteve em baixa atividade em 1820, no final do século 19 e no inicio do século 20. Agora o sol deve repetir esse pico, passando os próximos 22, 24 anos, com baixa atividade.

UOL: Isso vai diminuir a temperatura da Terra?

Molion:
Vai diminuir a radiação que chega e isso vai contribuir para diminuir a temperatura global. Mas tem outro fator interno que vai reduzir o clima global: os oceanos e a grande quantidade de calor armazenada neles. Hoje em dia, existem boias que têm a capacidade de mergulhar até 2.000 metros de profundidade e se deslocar com as correntes. Elas vão registrando temperatura, salinidade, e fazem uma amostragem. Essas boias indicam que os oceanos estão perdendo calor. Como eles constituem 71% da superfície terrestre, claro que têm um papel importante no clima da Terra. O [oceano] Pacífico representa 35% da superfície, e ele tem dado mostras de que está se resfriando desde 1999, 2000. Da última vez que ele ficou frio na região tropical foi entre 1947 e 1976. Portanto, permaneceu 30 anos resfriado.

UOL: Esse resfriamento vai se repetir, então, nos próximos anos?

Molion:
Naquela época houve redução de temperatura, e houve a coincidência da segunda Guerra Mundial, quando a globalização começou pra valer. Para produzir, os países tinham que consumir mais petróleo e carvão, e as emissões de carbono se intensificaram. Mas durante 30 anos houve resfriamento e se falava até em uma nova era glacial. Depois, por coincidência, na metade de 1976 o oceano ficou quente e houve um aquecimento da temperatura global. Surgiram então umas pessoas - algumas das que falavam da nova era glacial - que disseram que estava ocorrendo um aquecimento e que o homem era responsável por isso.

UOL: O senhor diz que o Pacífico esfriou, mas as temperaturas médias Terra estão maiores, segundo a maioria dos estudos apresentados.

Molion:
Depende de como se mede.

UOL: Mede-se errado hoje?

Molion:
Não é um problema de medir, em si, mas as estações estão sendo utilizadas, infelizmente, com um viés de que há aquecimento.

UOL: O senhor está afirmando que há direcionamento?

Molion:
Há. Há umas seis semanas, hackers entraram nos computadores da East Anglia, na Inglaterra, que é um braço direto do IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática], e eles baixaram mais de mil e-mails. Alguns deles são comprometedores. Manipularam uma série para que, ao invés de mostrar um resfriamento, mostrassem um aquecimento.

UOL: Então o senhor garante existir uma manipulação?

Molion:
Se você não quiser usar um termo tão forte, digamos que eles são ajustados para mostrar um aquecimento, que não é verdadeiro.

UOL: Se há tantos dados técnicos, por que essa discussão de aquecimento global? Os governos têm conhecimento disso ou eles também são enganados?

Molion:
Essa é a grande dúvida. Na verdade, o aquecimento não é mais um assunto científico, embora alguns cientistas se engajem nisso. Ele passou a ser uma plataforma política e econômica. Da maneira como vejo, reduzir as emissões é reduzir a geração da energia elétrica, que é a base do desenvolvimento em qualquer lugar do mundo. Como existem países que têm a sua matriz calcada nos combustíveis fósseis, não há como diminuir a geração de energia elétrica sem reduzir a produção.

UOL: Isso traria um reflexo maior aos países ricos ou pobres?

Molion:
O efeito maior seria aos países em desenvolvimento, certamente. Os desenvolvidos já têm uma estabilidade e podem reduzir marginalmente, por exemplo, melhorando o consumo dos aparelhos elétricos. Mas o aumento populacional vai exigir maior consumo. Se minha visão estiver correta, os paises fora dos trópicos vão sofrer um resfriamento global. E vão ter que consumir mais energia para não morrer de frio. E isso atinge todos os países desenvolvidos.

UOL: O senhor, então, contesta qualquer influência do homem na mudança de temperatura da Terra?

Molion:
Os fluxos naturais dos oceanos, polos, vulcões e vegetação somam 200 bilhões de emissões por ano. A incerteza que temos desse número é de 40 bilhões para cima ou para baixo. O homem coloca apenas 6 bilhões, portanto a emissões humanas representam 3%. Se nessa conferência conseguirem reduzir a emissão pela metade, o que são 3 bilhões de toneladas em meio a 200 bilhões?Não vai mudar absolutamente nada no clima.

UOL: O senhor defende, então, que o Brasil não deveria assinar esse novo protocolo?

Molion:
Dos quatro do bloco do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), o Brasil é o único que aceita as coisas, que “abana o rabo” para essas questões. A Rússia não está nem aí, a China vai assinar por aparência. No Brasil, a maior parte das nossas emissões vem da queimadas, que significa a destruição das florestas. Tomara que nessa conferência saia alguma coisa boa para reduzir a destruição das florestas.

UOL: Mas a redução de emissões não traria nenhum benefício à humanidade?

Molion:
A mídia coloca o CO2 como vilão, como um poluente, e não é. Ele é o gás da vida. Está provado que quando você dobra o CO2, a produção das plantas aumenta. Eu concordo que combustíveis fósseis sejam poluentes. Mas não por conta do CO2, e sim por causa dos outros constituintes, como o enxofre, por exemplo. Quando liberado, ele se combina com a umidade do ar e se transforma em gotícula de ácido sulfúrico e as pessoas inalam isso. Aí vêm os problemas pulmonares.

UOL: Se não há mecanismos capazes de medir a temperatura média da Terra, como o senhor prova que a temperatura está baixando?

Molion:
A gente vê o resfriamento com invernos mais frios, geadas mais fortes, tardias e antecipadas. Veja o que aconteceu este ano no Canadá. Eles plantaram em abril, como sempre, e em 10 de junho houve uma geada severa que matou tudo e eles tiveram que replantar. Mas era fim da primavera, inicio de verão, e deveria ser quente. O Brasil sofre a mesma coisa. Em 1947, última vez que passamos por uma situação dessas, a frequência de geadas foi tão grande que acabou com a plantação de café no Paraná.

UOL: E quanto ao derretimento das geleiras?

Molion:
Essa afirmação é fantasiosa. Na realidade, o que derrete é o gelo flutuante. E ele não aumenta o nível do mar.

UOL: Mas o mar não está avançando?

Molion
: Não está. Há uma foto feita por desbravadores da Austrália em 1841 de uma marca onde estava o nível do mar, e hoje ela está no mesmo nível. Existem os lugares onde o mar avança e outros onde ele retrocede, mas não tem relação com a temperatura global.

UOL: O senhor viu algum avanço com o Protoclo de Kyoto?

Molion:
Nenhum. Entre 2002 e 2008, se propunham a reduzir em 5,2% as emissões e até agora as emissões continuam aumentando. Na Europa não houve redução nenhuma. Virou discursos de políticos que querem ser amigos do ambiente e ao mesmo tempo fazer crer que países subdesenvolvidos ou emergentes vão contribuir com um aquecimento. Considero como uma atitude neocolonialista.

UOL: O que a convenção de Copenhague poderia discutir de útil para o meio ambiente?

Molion:
Certamente não seriam as emissões. Carbono não controla o clima. O que poderia ser discutido seria: melhorar as condições de prever os eventos, como grandes tempestades, furacões, secas; e buscar produzir adaptações do ser humano a isso, como produções de plantas que se adaptassem ao sertão nordestino, como menor necessidade de água. E com isso, reduzir as desigualdades sociais do mundo.

UOL: O senhor se sente uma voz solitária nesse discurso contra o aquecimento global?

Molion:
Aqui no Brasil há algumas, e é crescente o número de pessoas contra o aquecimento global. O que posso dizer é que sou pioneiro. Um problema é que quem não é a favor do aquecimento global sofre retaliações, têm seus projetos reprovados e seus artigos não são aceitos para publicação. E eles [governos] estão prejudicando a Nação, a sociedade, e não a minha pessoa.


Fonte: http://noticias.uol.com.br/ultnot/cienciaesaude/ultnot/2009/12/11/nao-existe-aquecimento-global-diz-representante-da-omm-na-america-do-sul.jhtm

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Xangai ergue muralhas para se proteger das mudanças climáticas




José Reinoso
Em Xangai (China)


O aumento do nível do mar ameaça inundar a cidade, motor econômico do país. Centenas de quilômetros de diques tentam proteger a grande urbe.


A água cor de chocolate se agita sem direção aparente sob a luz do entardecer. As barcaças navegam corrente acima no Huangpu, o afluente do Yangtsé que corta Xangai. As bandeiras nacionais vermelhas ondulam sobre os edifícios neoclássicos do quebra-mar do Bund. As obras matraqueiam, o tráfego zumbe. A capital econômica e financeira da China se prepara em ritmo acelerado para realizar a Exposição Universal no ano que vem e ocupar seu turno nos televisores de todo o planeta, como fez Pequim no ano passado com os Jogos Olímpicos. O lema do grande evento: "Melhor cidade, melhor vida".


Mas sobre essa megalópole de 20 milhões de almas pesa uma grave ameaça: ser engolida pelas águas. Não vai acontecer amanhã, mas poderia ocorrer no futuro se não tomarem medidas e não se frear a mudança climática.

Inundações, secas, ondas de calor e graves tempestades de neve aumentaram de frequência no último meio século e serão cada vez mais comuns no Yangtsé, segundo o maior estudo realizado até hoje sobre as consequências do aumento das temperaturas na bacia desse rio, onde vivem 400 milhões de pessoas e onde se originam 40% do PIB chinês.

"A mudança climática tornará cidades costeiras como Xangai mais vulneráveis às elevações do nível do mar, a fenômenos climáticos extremos e desastres naturais ou induzidos pelo homem. Terá um grande impacto sobre sua segurança", afirma Ma Chaode, especialista da organização não-governamental WWF (Fundo Mundial para a Proteção da Natureza) e um dos dois principais coa utores do relatório, que foi redigido por cerca de 20 pesquisadores, entre outros da Academia de Ciências chinesa e da Administração Meteorológica.

O estudo, divulgado em meados de novembro, afirma que as temperaturas médias na bacia, que ocupa uma superfície mais de três vezes maior que a Espanha, foram 0,33 grau mais altas na década de 1990, e a tendência está se acelerando. Entre 2001 e 2005 subiram 0,71 grau e nos próximos 50 anos poderão subir entre 1,5 e 2 graus, o que duplica o aquecimento previsto para todo o país.

"O nível do rio Suzhou [um dos que corta Xangai] subiu muito desde que eu era menino", diz Yuan Yulong, um morador de 77 anos, fazendo um gesto com a palma da mão a meio metro do solo. Yuan olha para o tributário do Huangpu e continua: "Cada vez faz mais calor. As geleiras estão derretendo".

Segundo um recente relatório da Universidade do Colorado (EUA), 24 grandes deltas, dos 33 estudados em todo o mund o, estão afundando devido ao aumento do nível do mar pelo aquecimento global e a ação humana, como a construção de represas, que retêm os sedimentos pluviais, e a excessiva extração dos aquíferos. Os cientistas afirmam que 85% sofreram graves inundações nos últimos anos e calculam que nas próximas quatro décadas a superfície de terra suscetível de alagamentos aumentará 50%.

A maioria desses deltas se situa na Ásia, entre eles o do Yangtsé. Segundo a Administração Oceânica Estatal chinesa, o nível do mar subiu 11,5 cm na região de Xangai nos últimos 30 anos, e calcula que aumentará 20 cm entre 1999 e 2050.

O problema se agrava pelo fato de que a superfície de Xangai está cedendo, devido à extração de água do subsolo e à alta densidade dos edifícios. Segundo o Unescap (organismo das Nações Unidas de cooperação econômica e social para a Ásia-Pacífico), o nível relativo da água na cidade chinesa subirá 43 cm até meados deste século.

As margens do rio Suzhou, situado a poucos quarteirões da central rua Nanjing, a mais famosa de Xangai, são uma das áreas de maior risco de inundações da cidade. Há anos foi instalada em sua confluência com o Huangpu uma barreira móvel de aço com uma centena de metros de comprimento e 5,86 metros de altura para regular as marés que sobem pelo estuário do Yangtsé. Durante um tufão em 1997 a maré subiu em Xangai 5,72 metros, quando a altitude média da cidade é de 3 metros.



"O aumento do nível do mar, somado ao afundamento do solo, pode obrigar a tomar medidas técnicas extremamente caras para cercar cidades inteiras de muralhas", explica Michael Kuhn, pesquisador do Instituto de Tecnologia e Geofísica da Universidade de Innsbruck, Áustria.

Já está acontecendo. Antes das graves inundações sofridas em 1949, Xangai quase não tinha proteção. Desde então foram instaladas comportas nos afluentes do Huangpu e ergueram-se centenas de quilômetros de diques e muros de contenção, tanto na cidade quanto na costa.

Nas últimas décadas, o quebra-mar que protege o Bund foi elevado em várias ocasiões até alcançar 6,9 metros, e atualmente estão sendo reforçadas as paredes do leito do Suzhou, antes uma importante via comercial, ladeado por velhas fábricas e armazéns hoje transformados em bares e galerias de arte. "No ano passado eu tinha diante da loja árvores e flores, agora há essa parede de concreto p elo que pode acontecer", diz Dong, 31 anos, vendedor em uma loja de tubos metálicos. A poucos metros dali, uma dúzia de operários com macacões laranja trabalham em um muro de concreto de 30 cm de espessura e até 2 metros de altura sobre a linha da rua. Na margem em frente, por trás da parede do rio, sobressaem os telhados de algumas casas, cujo andar térreo está em um nível inferior ao do rio.

O Instituto Potsdam para Pesquisa do Impacto Climático, na Alemanha, calcula que o mar poderá crescer 1 metro neste século e 5 metros até 2300. Os habitantes da antiga Pérola do Oriente rejeitam essas previsões apocalípticas. "Isto é Xangai. Aqui não pode acontecer nada", diz orgulhoso o ancião Yuan. "Se a água subir, aumentaremos os muros."


Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves


Fonte: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/elpais/2009/12/08/ult581u3686.jhtm

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Aquecimento: otimismo ou resignação ?







Transcrevo abaixo duas matérias sobre o aquecimento global. A primeira, exibe um otimismo sereno e seguro; a segunda, um pessimismo resignado.
Somos o juiz nessa encruzilhada.


'A economia energética é o recurso do futuro'


É melhor do que o Prozac e não tem efeitos colaterais. Falar com Amory Lovins pode levantar os ânimos até do mais deprimido dos ambientalistas. O fundador do Rocky Mountain Institute (RMI), a mais notável ONG norte-americana comprometida com a sustentabilidade, distila otimismo até nestes dias difíceis que precedem Copenhague.

Multipremiado, inserido pela enésima vez pela Time entre as personalidades mais influentes do mundo, Lovins é estimado universalmente e tem o mérito de ter entendido antes que outros a inevitabilidade de um "green new deal". Basta retomar o seu livro "Capitalismo Natural: Criando a próxima Revolução Industrial" (Ed. Cultrix, 2000) para entender quantas transformações previstas há quase dez anos estão se realizando agora.

A reportagem é de Valerio Gualerzi, publicada no jornal La Repubblica, 03-12-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

O senhor é um dos poucos a não parecer muito perturbado com um fracasso em Copenhague.

As escolhas políticas contam, e seria melhor se tivéssemos políticas inteligentes em vez de estúpidas. Mas, principalmente nos EUA, os negócios associados a uma sociedade civil consciente representam uma força mais dinâmica do que a política. Os governos, e ainda mais os esforços interna cionais complicados como o processo de Copenhague, são muito lentos e têm dificuldades para estar no mesmo ritmo da criatividade do setor privado e da sociedade civil.

E qual é esse ritmo?

O consumo de petróleo nos países industrializados está caindo desde o início de 2005 e continuará assim. A China prevê a eletrificação de 80% dos seus novos carros até 2020. Enquanto isso, muitos fabricantes estão finalmente começando a adotar técnicas de eficiência energética até mais simples e eficazes do que o motor elétrico, intervindo no peso e na carroceria. A outra revolução está acontecendo na produção elétrica a uma grande velocidade. Os EUA, por exemplo, instalaram mais parques eólicos em 2007 do que eletricidade de carbono nos cinco anos anteriores.



Não acredita que Obama é muito tímido com relação ao clima?

O presidente nomeou a equipe mais brilhante que o Departamento p ara a Energia jamais teve. Lidando com duas guerras, um sistema de saúde em colapso e uma grave recessão, ele está fazendo o que pode, ou seja, muito.

A outra indiciada é a China, um país que o senhor conhece bem.

A China, como os EUA, é uma parte importante tanto do problema como da solução, mas com relação a outra nações ocidentais está se movendo velozmente para ser a solução.

A Itália se volta para a energia nuclear: escolha certa?

Entre 2005 e 2008, os EUA tiveram a mais robusta política nuclear e a mais ampla disponibilidade de capitais de todos os tempos, mas tiveram que oferecer novos subsídios. Porém, nenhum dos 33 projetos propostos foi capaz de atrair um único centavo de "equity capitals", porque construir centrais nucleares não é simples. Em 2008, em nível mundial, apenas as energias renováveis "distribuídas" obtiveram 100 bilhões de novos investimentos privado s, atingindo uma capacidade de 40 bilhões de watts. A energia nuclear, zero.

O outro assunto sobre o qual o senhor insiste é a eficiência energética.

É o maior recurso, mais econômico e mais veloz a ser posto em prática, mas ao mesmo tempo é a menos entendida, a menos visível e a menos explorada. Nos EUA, poderemos economizar metade do gás e do petróleo a um quinto do preço.

Para promover a eficiência, o senhor cultiva bananas na sede do RMI, uma construção sem aquecimento a 2.200 metros de altura. Como foi a colheita?

Boa. Realizar esse edifício em 1983 nos fez economizar cerca de 1.100 dólares no custo de construção, porque os materiais isolantes e os outros equipamentos custaram menos do que um sistema de aquecimento para um edifício isolado.





''É um custo muito alto reduzir as emissões''


"Você quer saber o que eu espero de Copenhague? Nada". O francês Pascal Acot, historiador do clima e da ecologia científica, não se ilude sobre a vontade dos grandes do planeta de reduzir as emissões de CO2. Porque custa muito, diz. E porque cada um pensa só em si, preocupando-se apenas com seu próprio quintal.

"Além disso, nenhuma conferência internacional jamais produziu efeitos virtuosos. Bem pelo contrário. Não vejo por que as coisas deveriam ser diferentes na Dinamarca".

A reportagem é de Pietro Del Re, publicada no jornal La Repubblica, 03-12-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Professor Acot, mas o senhor não coloca novas esperanças na chamada "economia verde" da qual o presidente Obama tanto falou depois da sua eleição?

Não, porque, dando um gigantesco passo atrás, o próprio Obama elevou consideravelmente o nível de emissões de gás carbônico permitido. E, apesar disso, não acredito que os países ricos conseguirão respeitar os limites que serão fixados em Copenhague.

Por causa da crise econômica?

Certamente. E também porque a opinião pública está cansada de ouvir falar das consequências das mudanças climáticas. Quando há uma acumulação de medo, no fim as pessoas reagem do modo oposto ao esperado. Na França, por exemplo, os "céticos do clima", ou seja, aqueles que duvidam da vericidade dos alarmes lançados pelos climatologistas, são sempre mais numerosos.

Segundo o senhor, portanto, as catástrofes apocalípticas ligadas ao aquecimento não assustam mais ninguém.

Sim. Basta olhar no que ocorreu com o protocolo de Kyoto, que eu definiria como um fiasco absoluto, já que desde que foi assinado as emissões de gases nocivos aumentaram 25% na Europa e no resto do mundo.

E irá ocorrer a mesma coisa também depois do protocolo de Copenhague?

Temo que sim. Olhe o que ocorreu depois da conferência de Marrakech, em 2002: nada, salvo o fato de que a Rússia pôde emitir 33 milhões de toneladas de CO2 suplementares. A mesma coisa aconteceu no ano posterior em Nova Déli, quando era preciso decidir sobre como enfrentar as emissões de gases nos países menos desenvolvidos. Pois bem, o resultado foi o de adiar toda decisão para 2005. Idem para a conferência de Buenos Aires. Toda vez há apenas declarações de intenÍ ?ões. E não só: toda vez que nos damos conta de que não foi possível atingir os objetivos prefixados pela conferência anterior, levanta-se a barreira, o que é paradoxal.

Como devemos nos comportar para fazer com que, desta vez, a montanha não dê a luz a um rato?

O aquecimento do planeta está destinado a provocar desastres principalmente nos países submetidos a estresse hídrico, no Sahel, por exemplo, mas também em algumas regiões do Mediterrâneo. Dando por óbvio que não conseguiremos diminuir as emissões de gases, o que frearia a desordem climática, a primeira operação a ser feita é a de ajudar as nações em risco, que são muitas vezes extremamente pobres.

Portanto, esse é o verdadeiro desafio de Copenhague?

Sim, e já o perdemos. Porque ajudar esses países a enfrentar as devastações da seca ou das cheias custa muito.

Desculpe a insistência, mas por que os países ricos não deveriam diminuir as emissões de gases?

Mesmo que o conseguissem, nunca seria o suficiente para frear o processo climático em curso. Quanto às bioenergias, são bem-vindas. Mas no momento não bastam para suprir nem 5% das necessidades do planeta. E não nos esqueçamos que estamos em uma situação de crise, e que nesse contexto são sempre as soluções menos custosas que são escolhidas.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Para além da natureza e da cultura




Abaixo, três matérias recentes e que, lidas em conjunto, parecem oferecer algum sentido comum.

Deixo para a inteligência e imaginação do leitor do Blog estabelecer as possíveis conexões...


Internet das coisas: uma revolução na web


O nome já diz tudo. “Internet das coisas” é aquela que irá se conectar à objetos físicos: de um talão de cheques à uma bicicleta. A transição para a web 3.0 cobrirá toda a infra-estrutura necessária (hardware, software e serviços) para suportar esta rede de conexão de objetos. O professor e pesquisador do PPG em Design da Unisinos, Gustavo Fischer, conversou com o IHU sobre o assunto. Em outubro do ano passado a Comissão Européia lançou uma consulta pública que propunha ações para que a região lidere esta “passagem”. As previsões da Europa são de que as primeiras soluções estarão no mercado em cinco anos.

Esta conexão de objetos permite que eles próprios tenham um papel ativo no processo de informação, já que além de fazerem a troca de dados, terão a capacidade de comportarem sua identidade, com as propriedades físicas e informação sobre o ambiente. Será possível, por exemplo, o uso de sensores para o controle de energia e temperatura nas residências, ou a captação de informações sobre os produtos em exposição nas lojas.

Do ponto de vista sociológico, o uso de objetos com essas características possibilita a redução de uma visão inicial e preconceituosa que “divide” o mundo em ambiente real e virtual, segundo o professor. Para ele, ao tornarmos os objetos mais “clicáveis” estaremos tornando a idéia de rede de dados menos submissa às lógicas de um aparelho preso à mesa, ou mesmo a dispositivos móveis convencionais. “A idéia apressada de entender a internet como potencializadora do isolamento e do individualismo ficará ainda mais relativizada. Por outro lado, há sim que se ter uma preocupação com o quanto que esse processo tensiona o campo das privacidades individuais e/ou coletivas. A internet foi fundada na dicotomia entre liberdade e proteção e parece que a cada nova "onda" de soluções advindas dela, essa lógica ou dicotomia se renova”, afirma Gustavo.

A “internet das coisas” permite, ainda, uma integração entre objetos, fazendo com que eles “saibam” a localização uns dos outros e se comuniquem. Para o professor ainda é prematuro tecer afirmativas definitivas sobre como essa prática pode modificar nosso cotidiano, mas a primeira idéia a ser pensada é a de que passaremos a visualizar o espaço e os objetos ao nosso redor com um conjunto de lentes distintas que poderão ser usadas isoladamente ou em conjunto. “Por exemplo: ao dotar um parque com diversos dados (histórico das manifestações que ali já ocorreram) passamos a passear por um território informacional e, eventualmente, poderemos não apenas "ler" os dados previamente colocados ali ligados a serviços, mas quem sabe acrescentar nossas próprias narrativas das cidades (imagens, histórias)”, explica.


Carne para todos: surge na Holanda o bife hi-tech


É a descoberta que potencialmente poderia abrir a porta para a solução do problema da fome no mundo: carne artificial, produzida em laboratório. Pode-se produzir quanto for necessário, sem limites e até sem o carregamento de emissões de gás nocivos que acompanha os métodos tradicionais usados até hoje, durante milhares de anos, para colocar na mesa essa comida fundamental, isto é, a criação de bovinos ou de outras espécies.

A reportagem é de Enrico Franceschini, publicada no jornal La Repubblica, 01-12-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Já haviam sido feitos outros avanços, mas agora, pela primeira vez, os cientistas anunciaram que a experiência foi realizada perfeitamente: pesquisadores da Universidade de Eindhoven, na Holanda, anuncia o jornal londrino Daily Telegraph, "criaram" um bife de porco fazendo-o crescer a partir de um tecido, um músculo de suíno, imerso em uma espécie de caldo derivado do sangue de fetos animais.

"Perfeitamente" obtido, exceto por uma particularidade de uma certa importância: ninguém submeteu o primeiro bife artificial da história a um teste, ou seja, ninguém o provou. A opinião dominante é que não teria sido acolhida com críticas entusiásticas, mas os especialistas estão convencidos de que o produto é rapidamente melhorável e que poderá ser comestível, de modo a ser lançado no mercado, colocado em venda nos supermercados e lojas de produtos alimentícios dentro de cinco anos.




"O que temos neste momento é o equivalente de um tecido muscular de descarte", diz o professor Mark Post, professor de fisiologia da Universidade de Eindhoven e principal autor da descoberta. "Temos que encontrar a forma de melhorá-lo, mas acreditamos que podemos chegar a isso em tempos relativamente breves. Esse produto fará bem ao meio ambiente e reduzirá os sofrimentos dos animais. Se tiver o aspecto e o gosto da carne, as pessoas irão comprá-lo e comê-lo".

A equipe de pesquisadores liderada pelo professor Post extraiu células do músculo de um porco vivo para depois submetê-lo aos procedimentos de laboratório necessários para fazer com que crescesse um pedaço de carne artificial. As células se multiplicaram no "caldo" de sangue de fetos animais e criaram um novo tecido muscular. O projeto, que tinha o apoio do governo holandês e de uma empresa produtora de salsichas, segue a criação de filés de peixe obtidos de células musculares de pequenos peixes.

As primeiras reações, porém, são discordantes. Na Grã-Bretanha, um porta-voz do Peta, um grupo que luta pela defesa dos direitos dos animais, comenta: "No que se refere a nós, se a carne não é mais um pedaço de animal morto, nós não temos nenhuma objeção de caráter ético". Mas um comunicado da Vegetarian Society, a associação britânica dos vegetarianos, se questiona como "é possível garantir que aquilo que se está comendo é carne artificial em vez de ser carne de um animal mandado ao açougue".

O surgimento da carne crescida em laboratório, indica o Daily Telegraph, poderia reduzir os bilhões de toneladas de gases nocivos emitidos a cada ano pelos animais de criadouros e, ao mesmo tempo, poderia ajudar a satisfazer o constante crescimento da demanda mundial de carne que, segundo estimativas das Nações Unidas, irá dobrar até 2050.

Críticas ao experimento chegaram também do lobby antialimentos geneticamente modificados. Justamente na semana passada, o príncipe Charles, da Inglaterra, um tenaz opositor dos alimentos geneticamente modificados, declarou que iniciativas desse gênero criam um problema, porque "tratam os alimentos como uma mercadoria e não como um precioso dom da natureza ao homem". Sobre o tema, registram-se reações semelhantes também em outros países.

E enquanto isso uma pesquisa divulgada no Reino Unido indica que os homens são mais carnívoros que as mulheres: comem o dobro de carne e são menos conscientes dos riscos para a saúde de uma alimentação à base de gorduras animais.




Nano-agricultura: efeitos gigantescos sobre o crescimento das plantas


Os nanotubos de carbono vêm ocupando os dois lados de uma polêmica no mundo científico há vários anos: de um lado, eles são vistos como um dos materiais mais promissores já encontrados pela ciência, com utilizações possíveis que vão da eletrônica até materiais super-resistentes e ultra leves.

A reportagem é do sítio Inovação Tecnológica, 03-12-2009.

No outro lado da polêmica estão os eventuais efeitos que os nanotubos podem ter sobre a saúde humana. Sendo menores do que as células, alguns estudos apontam que eles possuem uma toxicidade potencial que supera largamente a do já quase totalmente banido amianto.

Nanotubo, hipercrescimento

Mas, de acordo com uma pesquisa feita na Universidade do Arkansas, quando se trata de células vegetais, mais especificamente de sementes de tomate, os nanotubos têm efeitos que podem revolucionar a agricultura, com um potencial gigantesco de elevação da produção.

Os cientistas descobriram que as sementes de tomate expostas aos nanotubos de carbono de parede única - tubos de carbono cuja parede tem um único átomo de espessura - germinaram mais rapidamente e geraram mudas muito maiores e mais fortes do que as sementes da mesma linhagem que não passaram pelo tratamento.

Segundo os pesquisadores, esse efeito de incremento no crescimento dos vegetais pode representar uma revolução na produção de biomassa, seja de alimentos, seja de vegetais para a produção de biocombustíveis.

Nano-agricultura

A descoberta inaugura o campo da nano-agricultura, a aplicação da nanotecnologia ao cultivo industrial de vegetais.

A análise das sementes indica que os nanotubos de carbono penetram na camada externa mais dura das sementes, eventualmente elevando a capacidade de absorção de água, o que poderia explicar o estímulo ao crescimento da planta.

"Os efeitos positivos dos nanotubos de carbono sobre a germinação das sementes poderão ter importância econômica significativa para a agricultura, a horticultura e para o setor de energia, na produção de biocombustíveis," afirmam os pesquisadores.

Os resultados ainda são primários e a interpretação das razões que levaram ao maior crescimento das plantas ainda deverá ser objeto de novos estudos. A seguir, os cientistas deverão avaliar o destino dos nanotubos de carbono depois que as plantas crescem.




Fontes:

http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=28029

e

http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=27992



quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Wolf: Por que Copenhague deve ser o fim do início


Martin Wolf



O encontro de cúpula sobre a mudança climática em Copenhague terá resultados aquém dos esperados. Isso importa? Sim e não: sim, porque o argumento em prol de uma ação é forte demais; não, porque o acordo provável seria inadequado. Tratar da mudança climática será difícil. É crucial atingirmos a meta de forma eficaz. Os prováveis novos adiamentos deveriam ser usados para conseguir exatamente isso.

Meu entendimento de que uma ação decisiva é justificada é contencioso. Os céticos oferecem dois contra-argumentos: primeiro, de que a ciência por trás da mudança climática é altamente incerta; segundo, o de que os custos excedem os benefícios.

Sim, não basta argumentar que a ciência é incerta. Dados os riscos, nós temos que nos certificar de que a ciência está errada antes de seguirmos os céticos. Quando soubermos que não está, provavelmente será tarde demais para agir de forma eficaz. Nós não temos como repetir a e xperiência tendo apenas um planeta.

Felizmente, a evidência sugere que os custos da ação não devem ser proibitivos. O mais recente Relatório de Desenvolvimento Mundial do Banco Mundial argumenta que os custos de restrições mais rígidas contra emissões seriam modestos. No lado do benefício, eu destacaria a importância de evitar o risco de uma catástrofe climática. Nós não temos o direito de correr esses riscos.

Todavia, os céticos prestam um serviço valioso. Eles nos estimulam a continuarmos monitorando os desdobramentos de fato do clima. Eles também nos dizem que a ação tem um custo e alguns custos - deixando bilhões de pessoas na miséria - seriam intoleráveis. Felizmente, como nota o Banco Mundial, os pobres emitem pouco. A redução das emissões obtida com a troca da frota norte-americana de veículos utilitários esportivos por carros com padrões de economia de combustível da União Europeia compensaria as emissões do fo rnecimento de eletricidade para 1,6 bilhão de pessoas atualmente sem acesso a ela.

Apesar da ação ser justificada e provavelmente não proibitivamente cara, será um desafio enorme. Como aponta a Agência Internacional de Energia (AIE) em seu Panorama Energético Mundial, nós precisamos "descarbonizar" o crescimento para limitar as concentrações na atmosfera do "equivalente em CO2" a 450 partes por milhão, o nível considerado consistente com o aumento médio da temperatura global de cerca de 2ºC. Nós precisaríamos fazer de tudo - reduzir a demanda, expandir os renováveis, investir em energia nuclear, desenvolver a captura e armazenamento de carbono, trocar o carvão pelo gás e proteger as florestas - para conseguir isso.

E como estamos nos saindo? Em uma palavra, pessimamente. Apesar de toda a conversa, não apenas o volume mas também o fluxo das emissões está crescendo. A recessão ajudou. Mas nós não podemos - e, evidentemente, nã o devemos - depender do "armageddon" econômico. Como nota a AIE, as emissões de CO2 baseadas em energia aumentaram de 20,9 gigatoneladas (Gt) em 1990 para 28,8 Gt em 2007. A AIE prevê as emissões de CO2, em seu "cenário de referência", em 34,5 Gt em 2020 e 40,2 Gt em 2030 - uma taxa média de crescimento de 1,5% ao ano durante o período.

Crucialmente, os países em desenvolvimento e emergentes são responsáveis por "todo o crescimento projetado em emissões relacionadas a energia até 2030", com 55% do aumento vindo da China e 18% vindo da Índia.

O argumento em prol da mudança dessa tendência o mais cedo possível é que os custos para coibir grandes aumentos na temperatura seriam extremamente altos ou, no pior caso, proibitivos. A AIE argumenta que se a meta é limitar as concentrações dos gases do efeito estufa em 450 partes por milhão, cada ano de atraso na ação visando a trajetória necessária acrescenta US$ 500 bilhões adicionai s ao custo global estimado de US$ 10,5 trilhões. Esses custos resultam da vida extremamente longa dos ativos de capital usados na geração de energia e a vida ainda mais longa do CO2 na atmosfera.

O cenário alternativo é bem diferente: em vez de 40,2 Gt de emissões relacionadas a energia em 2030, nós teríamos apenas 26,4 Gt. A diferença é imensa. Um relatório da Fundação Climática Europeia mostra que os compromissos assumidos antes de Copenhague não a fechariam.* Mesmo na posição mais otimista, as atuais ofertas ficariam aquém em cerca de um terço das reduções necessárias até 2020 para se chegar a um teto de 450 partes por milhão de equivalente a CO2.

Copenhague seria então apenas um começo. Provavelmente não será nem isso, já que o governo norte-americano é incapaz de fechar compromissos vinculantes e os países em desenvolvimento não estão dispostos a fazê-lo. Mas Copenhague parece o fim do começo. Existe algo próxi mo de um acordo de que o mundo precisa agir. Há, igualmente, um acordo de que, apesar da retórica, pouca coisa útil foi conseguida até agora. O tempo para ação é agora - se não em Copenhague, então logo depois.

Infelizmente, isso não significa que o tipo certo de acordo surgirá. As políticas empregadas devem ser as mais eficientes possíveis. O que isso significa? Eu enfatizaria três critérios.

Primeiro, nós precisamos de preços para o carbono que se apliquem ao longo dos horizontes de planejamento relevantes. O preço não pode permanecer fixo para sempre, mas deve mudar com os eventos. Mas ele precisa ser bem mais estável do que no mercado de permissões da União Europeia. Por esse motivo, um imposto me parece bem mais atraente do que o sistema de comércio de licenças de emissão.

Segundo, onde a redução ocorrer, é preciso separá-la de quem paga por ela. A redução precisa acontecer onde é mais eficiente. É por isso que as emissões dos países em desenvolvimento devem ser incluídas. Mas o custo deve recair sobre os ricos. Isso porque eles podem arcar com isso e porque produziram grande parte das emissões do passado.

Finalmente, precisamos desenvolver e aplicar inovações em todas as tecnologias relevantes. Um estudo do centro de estudos Bruegel argumenta de forma persuasiva que a simples elevação dos preços das emissões de carbono reforçaria a posição das tecnologias estabelecidas. Nós precisamos de subsídios em grande escala para a inovação.**

Enfrentar o risco da mudança climática é o desafio coletivo mais complexo que a humanidade já enfrentou. O sucesso exige uma ação cara e orquestrada entre muitos países para lidar com uma ameaça distante, em prol de pessoas que ainda não nasceram, com uma incerteza inevitável a respeito dos custos de não agir. Nós chegamos ao ponto onde existe um amplo consenso a respeito da natureza da ame aça e do tipo de política que precisamos adotar para lidarmos com ela. Nós poderemos não chegar a um acordo em Copenhague. Mas chegou o momento da decisão. Ou agimos logo - ou finalmente descobriremos se os céticos estão certos. Se fracassarmos em agir, como parece provável, eu espero que eles estejam certos. Mas eu duvido muito disso.

*"Um Levantamento", 17 de novembro de 2009, http://www.project-catalyst.info/



**"Nenhum crescimento verde sem inovação", http://www.bruegel.org/



Tradução: George El Khouri Andolfato



Fonte: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/fintimes/2009/12/02/ult579u2956.jhtm

sábado, 28 de novembro de 2009

Felicidade Interna Bruta: líder do Butão no Brasil



Nem quando vem ao Brasil o Butão fica perto


O primeiro-ministro do Butão esteve no Brasi. "Ele veio ao Brasil ensinar como se administra um país pelos preceitos da Felicidade Interna Bruta (FIB)", escreve Marcos Sá Corrêa, jornalista, em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo, 25-11-2009.

Eis o artigo.

O País perdeu tanto tempo vendo os presidentes Lula e Ahmadinejad torturarem intérpretes para abrir a conexão português-inglês-farsi que não deu a mínima a um visitante muito mais exótico, que andou por aqui quase ao mesmo tempo que o iraniano. No caso, o primeiro-ministro do Butão, Lyongpo Jigme Thinley.

Ele, sim, tinha assunto para encher jornais, pelo menos nos segundos cadernos. Convidado a testar em Foz do Iguaçu um carro elétrico desenvolvido pela Fiat em parceria com Itaipu, pegou o volante na sede da usina e só o largou na sede do hotel.

Em outras palavras, sem ter nada a esconder, divertiu-se escancaradamente. Almoçou no bandejão da empresa. Adorou o canal da piracema, que promove a migração de peixes através da barragem. Passeou pela hidrelétrica, alegando que, dispondo de água a rodo, um dos pratos fortes da exportação butanesa é a energia que vende à Índia e à China.

Mas ele veio ao Brasil ensinar como se administra um país pelos preceitos da Felicidade Interna Bruta (FIB). A ideia brotou anos atrás de uma das monarquias mais isoladas da terra. O Butão não passa de um país com pouco mais de 38 quilômetros quadrados, enrugado por montanhas com mais de 7 mil metros de altitude e coberto de florestas originais em quase 65% de seu território. É habitado por raridades, como o leopardo das neves, elefantes asiáticos, mais de 50 espécies de rododendros e 700 de pássaros e orquídeas inumeráveis. Mas tem menos de 700 mil habitantes.

É o cenário da moda. O livro Buthan, a Visual Odyssey, de Michael Hawley, mereceu uma edição de luxo com 58 quilos de peso, 40 mil fotografias e as dimensões de uma mesa para seis comensais. Sai por US$ 30 mil. Mas tem uma versão menor e barata, por US$ 50. Dizem que foi de lá que, no século passado, o escritor inglês James Hilton tirou a ideia de Xangri-Lá.

O fato é que tudo o que se imagina do Nepal o Butão tem. Menos turismo de massa. Em 2008, ele acolheu 21 mil turistas, que só podem visitá-lo pelas mãos de um guia da agência oficial. A televisão e a internet só entraram legalmente no país há uma década e com recomendações de uso moderado. Sua economia não é lá essas coisas. A moeda local se ancora na rupia indiana. Sua principal indústria é a produção artesanal de peças religiosas. Suas relações diplomáticas com os Estados Unidos, a Rússia e outras potências são feitas via Nova Délhi, na Índia.

O Butão tem uma longa história de guerras, golpes e até impeachments monárquicos. Mas anda cada vez mais quieto. Sua Felicidade Interna Bruta está entregue a um rei que ainda não fez 30 anos.

O novo Rei do Butão


E a um conselho que aplica a receita da FIB a partir de 72 indicadores sociais, onde têm peso o tempo de lazer de cada cidadão e sua bem-aventurança ambiental. Lá, o noticiário policial, por falta de assuntos mais trepidantes, registra queixa de vizinhos por briga de cachorros.

Quando o FIB surgiu, o jornal Financial Times tratou-o como uma viagem mística em marcha a ré. Mas ultimamente as pesquisas de opinião pública atestam que só 3% dos butaneses se declaram infelizes. Há três anos, a revista Business Week, apoiada numa enquete da Universidade da Califórnia em Berkeley, pôs o Butão num honroso oitavo lugar entre os países mais felizes de todo o mundo. Perdia para a Dinamarca, a Finlândia e a Suécia, sem dúvida. Mas, até na categoria dos reinos encantados, ganhava de Luxemburgo. As grandes economias do mundo vinham muito atrás, na poeira do crescimento econômico.




Matérias relacionadas, neste Blog:

Fetichismo do PIB

O Fim da Crise e o capitalismo que virá

O PIB precisa ser colocado em seu papel de coadjuvante

O FIB (Felicidade Interna Bruta) é mais importante que o PIB

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Divulgando Festa !

Este Blog faz uma pausa para uma...festa !!
(parceria com o Blog Epifenomenologia)



Alunos da USP homenageiam Lévi-Strauss com Selvagens Trópicos, festa de despedida e aniversário


Nada de chororô ou liturgia. O que alunos da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP) escolheram para homenagear um dos mais ilustres ex-professores da casa, Claude Lévi-Strauss, que faleceu no último dia 30 de outubro e faria aniversário no dia 28 de novembro, próximo sábado, foi realizar uma festança gratuita, regada a cerveja vendida a R$ 1,50 e animada por sons bem brasileiros.
O nome do evento, Selvagens Trópicos, faz referência ao livro "Tristes Trópicos", publicado pelo antropólogo e filósofo francês em 1955 - uma etnografia romanceada que narra a experiência do autor entre grupos indígenas brasileiros.
O show da banda Totens & Tabus, formada por professores e alunos da Universidade de São Paulo, promete experimentos musicais intrigantes. Um samba-enredo para Lévi-Strauss, talvez? Ou uma bossa nova em Bororo, quem sabe? De qualquer forma, não será algo que ocorre ordinariamente nos corredores da Cidade Universitária.
Entrando no jogo, as garotas Jamille Pinheiro, Larissa Barcellos e Nana Ribeiro cuidam da discotecagem. Tropicalistas como Caetano Veloso, Os Mutantes e Tom Zé devem dar o tom no repertório, além do soul funk de Tim Maia, o sambalanço de Jorge Ben Jor e outras batucadas, acústicas e eletrônicas.
Serviço
Selvagens Trópicos
Data: 27/11, sexta-feira
Horário: 22h - ******* IMPORTANTE: Não-alunos da Universidade de São Paulo devem chegar à Cidade Universitária antes das 20h. ******
Local: Espaço Verde, no Prédio de Ciências Socias da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH)
Endereço: Av. Prof. Luciano Gualberto, 315, Cidade Universitária - São Paulo/SP
Cerveja a R$ 1,50
Entrada Franca
Banda
Totens & Tabus
DJs
Jamille Pinheiro
Larissa Barcellos
Nana Ribeiro
Se você é jornalista e deseja mais informações a respeito da Selvagens Trópicos, entre em contato pelo e-mail selvagenstropicos@gmail.com