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quarta-feira, 1 de setembro de 2010

A China e o mundo



"O sucesso da economia chinesa exerce uma atração irresistível para os que veem no seu modelo a possibilidade de fácil replicação", constata Antonio Delfim Netto, economista, em artigo publicado no jornal Valor, 31-08-2010.

Segundo Delfim Netto, "fala-se, agora, no Consenso de Pequim. À platitude e ideologia do Consenso de Washington, que iludiu uma geração de economistas com a conversa de "preços no lugar" e não levou a lugar nenhum (como era previsível), o novo consenso propõe uma equação até aqui não resolvida pela história: combinar por muito tempo o sucesso econômico com a falta de liberdade individual".

Eis o artigo.

A rápida evolução da economia chinesa é, de um lado, objeto da admiração e inveja por parte dos países emergentes e, de outro, motivo de preocupação real e ideológica por parte dos países desenvolvidos (que são o centro do capitalismo financeiro). Esses são sempre apoiados num Estado constitucionalmente limitado. Seus governos são escolhidos periodicamente pelo sufrágio universal em eleições abertas, que garantem a competição livre e honesta entre várias organizações partidárias. Neles, a própria Constituição impede o "aparelhamento" do Estado pelo partido eventualmente vencedor. Isso é fundamental para garantir a continuidade e legitimidade do jogo eleitoral.

Nessas sociedades, o "garante" das liberdades individuais é um Supremo Tribunal Federal, cujos membros são constitucionalmente blindados contra qualquer pressão, quer do Executivo, quer das "ruas". O Executivo sempre quer mais poder; o clamor popular quer vingança, não justiça.

Antes de prosseguir, um pequeno desvio. Há constituições e constituições! A constituição "democrática" da velha União Soviética (a URSS), por exemplo, "garantia" a todo cidadão "liberdade de expressão, de imprensa, de reunião e de religião". O pequeno problema é que cada uma dessas palavras tinha significado próprio, definido nela mesma. Por exemplo, "liberdade de expressão" (e todas as outras "liberdades") eram garantidas sob uma condição. Deviam respeitar os "interesses dos trabalhadores de forma a fortalecer o sistema socialista" (Nutter, W., " The Strange World of Ivan Ivanov: 11"). Mas quem eram os trabalhadores? Apenas o próprio sr. Stalin, pelo qual o velho Karl paga a conta até hoje! Qualquer semelhança com propostas que recentemente circularam no Brasil não pode ser mera coincidência...

O sucesso da economia chinesa exerce uma atração irresistível para os que veem no seu modelo a possibilidade de fácil replicação, mas desconsideram o contexto em que ele pode realizar-se. Não se pode viver sem um nome. Fala-se, agora, no Consenso de Pequim. À platitude e ideologia do Consenso de Washington, que iludiu uma geração de economistas com a conversa de "preços no lugar" e não levou a lugar nenhum (como era previsível), o novo consenso propõe uma equação até aqui não resolvida pela história: combinar por muito tempo o sucesso econômico com a falta de liberdade individual.

Os nove membros do Comitê Permanente do Politburo, presidido por Hu Jintao, conhecem bem a história. Tal sistema só funciona enquanto se pode absorver as inovações e as tecnologias desenvolvidas nas economias hoje maduras. A partir daí, a tendência é a volta ao crescimento medíocre e à exacerbação das pressões sociais.

A verdade poucas vezes enfatizadas é que o Politburo chinês é tecnicamente competente e tem à disposição uma das mais treinadas e diligentes burocracias de quantas existem ou existiram no mundo. Depois da destruição produzida por dois séculos de distúrbios, retornou-se à antiga tradição. Já no segundo século (em 124 A.C.), criou-se uma Universidade Imperial para preparar funcionários públicos, que são cooptados por concurso público e cuja progressão é estritamente pelo mérito.

O Politburo sabe que, para repetir mais 32 anos de crescimento a 11% ao ano, precisa alugar, comprar ou conquistar terras e recursos naturais equivalentes a outro território chinês. Está, esperta e calmamente, realizando o seu programa através de empresas estatais (que escondem o Estado soberano). Com isso espera contornar os efeitos dramáticos sobre os preços internacionais de alimentos e recursos naturais que serão produzidos pelo seu próprio crescimento.

Não há nenhuma objeção ao capital estrangeiro no setor de terras e recursos minerais, desde que realizado através de empresas privadas nacionais, mesmo com capital estrangeiro. O que não se pode admitir é a vendê-los a Estados soberanos sob o disfarce de empresas estatais, porque isso pode atingir profundamente o interesse nacional e desqualificar os mercados internacionais na formação de preços. Não devemos desperdiçar nossa complementaridade sinérgica com o desenvolvimento chinês, mas não devemos deixar de olhar o futuro.

As decisões do Politburo revelam que ele entende claramente que sem suprimento externo garantido e a preço controlado, a China provavelmente não poderá repetir mais 30 anos do mesmo crescimento. A conta é simples: se o mundo crescer à taxa de 3% até 2040, e a China reduzir sua taxa para 9%, o PIB chinês (medido em paridade do poder de compra de 2008), que hoje representa 11% do total, representaria 70% em 2040! O resto do mundo teria de diminuir 0,4% ao ano para acomodá-la, o que é improvável economicamente e inaceitável politicamente. Se o resto do mundo crescer a sua taxa histórica de 3% ao ano, para acomodar o crescimento da China (que então passaria de 11% para 44% no PIB global), o crescimento do mundo teria que ser da ordem de 4,5%, o que é claramente impossível diante do problema do aquecimento global.

O dilema está posto: se correr o bicho pega, se parar o bicho come! É conveniente, pois, reconsiderar a política laxista que até aqui temos tido com o novo-colonialismo chinês, sem deixar de insistir no comércio. Vamos impedir a compra de recursos naturais pelo Estado soberano chinês e, simultaneamente, aumentar o grau de sofisticação de nossas exportações de alimentos e minérios?



domingo, 25 de abril de 2010

O fim da história veloz


Por: VINICIUS TORRES FREIRE


Mundo esteve à beira de uma catastrófica Segunda Grande Depressão, mas reações à crise se mostram conservadoras


A GRÉCIA foi para o vinagre na sexta-feira. No mesmo dia, os países do G20, reunidos em Washington, falavam de planejar o fim dos estímulos fiscais e monetários que evitaram a Grande Depressão. Isto é, um plano para reduzir gastos dos governos e, talvez, tirar os juros do nível zero.
Em suma, a conta da crise está chegando. Serão anos de arrocho e baixo crescimento no mundo rico, na Europa em particular. Apesar de algumas falências bancárias, do processo contra o bancão Goldman Sachs ou do reconhecimento de que as agências de risco foram cúmplices da bandalha da banca mundial, o custo do "ajuste" vai cair mesmo é no lombo do cidadão comum. Por ora, a reação política "popular" é entre nula e escassa.
Mesmo mudanças políticas conservadoras, que mal arranham o "establishment", estão atoladas. Na quinta-feira, Barack Obama fez mais um discurso pela mudança das leis do sistema financeiro americano, novas normas apenas prudentes.
Mas Obama "pediu" que os banqueiros se juntassem a ele, em vez de combatê-lo com lobbies. De resto, o presidente americano começou a fazer tais discursos "populistas" porque sua popularidade baixou e há um difuso sentimento "antielite" nos EUA (política e financeira).
Obama quer surfar nessa onda, que, no entanto, é uma onda conservadora. Os EUA estão entre a onda de conservadorismo popular, "antielite", e o castelo de conservadorismo da elite financeira.
Na Europa, o roteiro escrito para a Grécia mostra que a "grande crise do neoliberalismo", no dizer tolo do que se ainda chama de esquerda, vai sendo resolvida na base do "business as usual".
A Grécia, na prática, quebrou. Está pedindo até US$ 20 bilhões ao FMI e US$ 40 bilhões aos primos da União Europeia, pois estava à beira de dar um calote, em maio. A condição para que os gregos levem o empréstimo é arrocho duríssimo. Corte de gastos com saúde, aposentadorias, salários de funcionários públicos, além de liberalização do mercado de trabalho.
Em suma, a Grécia terá de arrochar o consumo, baixando salários reais, o que não pode fazer via desvalorização da moeda, pois não controla o euro. O caso grego é um aviso para Portugal, Irlanda, Espanha e Itália: comecem logo seus arrochos.
Alguma mudança política pode ocorrer no governo europeu. Viu-se agora claramente que é difícil administrar uma união monetária (o euro) sem que exista um governo europeu, com um Tesouro unificado: como um país, de fato. Isso, porém, é mudança de longo prazo.
Mas isso seria uma mudança "por cima". Nem de longe são visíveis uma revolta popular na Europa ou mudanças partidárias importantes: não há praticamente partidos alternativos, afora os quase fascistas.
Difícil imaginar até mesmo alternativas para a política econômica do Ocidente rico, da Europa em particular. A ascensão da Ásia emparedou a Europa, presa entre custos crescentes do seu sistema social e a necessidade de conter salários para se manter "competitiva" no mercado mundial.
O andar da carruagem da política mundial parece andar no ritmo da mudança gradual -parece que chegamos ao fim da história rápida.




domingo, 27 de dezembro de 2009

Copenhague: O jogo da China




'A China foi a única responsável pelo fracasso da COP'


O autor e jornalista britânico Mark Lynas escreveu nesta terça-feira um artigo para o jornal The Guardian, no qual acusa a China de ser a grande responsável pelo fracasso das COP-15. Ele conta detalhes da negociação final, da qual participou como membro de uma delegação. No texto, ele não especifica qual, mas ele atuou como conselheiro do governo das ilhas Maldivas.

Veja abaixo trechos do artigo, selecionados pelo portal do jornal O Estado de S. Paulo, 22-12-2009, cujo original, em inglês, pode ser lido aqui. 

"Copenhague foi um desastre -- disso ninguém duvida. Isso é muito acordado. Mas a verdade sobre o que realmente aconteceu corre o risco de se perder entre as acusações mútuas que tomam conta da discussão. A verdade é: a China minou todas as negociações, humilhou intencionalmente Barack Obama e insistiu em um tratato péssimo, para os líderes ocientais levassem a culpa. Como eu sei de tudo isso? Eu estava na sala e vi o que aconteceu.

A estratégia da China era simples: bloquear as negociações por duas semanas e, em seguida garantir que a discussão final, a portas fechadas, desse a impressão de que o Ocidente, uma vez mais, falhou com os países pobres. E é claro que agências humanitárias, ONGs e ambientalistas morderam a isca. "Os países ricos intimidaram as nações em desenvolvimento", irritou a ONG Amigos da Terra Internacional.

Tudo muito previsível, mas o oposto do que realmente aconteceu.

O Sudão (cujo delegado, Lumumba DI-Aping, qualificou o acordo como "um pacto suicida para manter o domínio econômico de alguns países") se comproutou como um fantoche da China. Era apenas um de uma série de países que trabalhou, na surdina, para apoiar as negociações dos chineses. Foi um teatro perfeito. A China lacerou o pacto nos bastidores e deixou seus aliados para criticá-lo em público.

Mas foi isso o que realmente aconteceu na reunião de sexta-feira, da qual participaram chefes de Estado de 20 países. Obama ficou horas na mesa de negociação, sentado entre o premiê britânico, Gordon Brown, e do primeiro-ministro etíope, Meles Zenawi. A reunião foi presidida pelo premiê dinamarquês, que estava ao lado do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon. Provavelmente, só cerca de 50 ou 60 pessoas, incluindo os chefes de Estado, estavam na sala. Eu estava acompanhando uma das delegações, cujo chefe de Estado também esteve presente na maior parte do tempo.

O que vi foi chocante. O premier chinês, Wen Jinbao, não se dignou a participar nas reuniões pessoalmente e enviou um diplomata do Ministério das Relações Exteriores do país para se sentar em frente de Obama. O desprezo diplomático era óbvio e brutal, assim como sua implicação prática: várias vezes durante a sessão, os chefes de Estado mais poderosos do mundo foram obrigadas a esperar enquanto o delegado chinês saía para telefonar para seus "superiores".

Para aqueles que culpam Obama e os países, fiquem cientes: foi o representante da China que insistiu que as metas dos países industrializados, previamente acordada de reduzir as emissões em 80% até 2050 fossem tiradas da pauta. "Por que não podemos sequer mencionar os nossos próprios objetivos?", demandou, furiosa, a chanceler alemã, Angela Merkel.O premiê australiano, Kevin Rudd, ficou tão irritado que bateu em seu microfone. O representante do Brasil também criticou a incoerência da posição da China.

Por que países ricos não deveriam nem anunciar unilateralmente seus cortes? O delegado chinês disse que não, e eu assisti, horrorizado, quando Merkel jogou suas mãos em desespero e acabou concordando. Agora sabemos por que: a China apostou, corretamente, que Obama seria culpado pela falta de ambição do acordo de Copenhague.

Apoiada eventualmente pela Índia, a China começou a retirar todos os números que importava, como a meta de restringir o aumento de temperatura em 2 graus e o corte de 50% nas emissões até 2050. Ninguém, talvez com exceção da Índia e da Arábia Saudita, queria que isso acontecesse. Estou certo de que se a China não estivesse na sala, teríamos deixado Copenhague com um acordo que fizesse ambientalistas do mundo todo abrir suas champanhes.

Posição sólida

Então como é que a China conseguiu dar esse golpe? Primeiro, ela estava em uma posição extremamente forte, pois não precisava negociar. "Os atenienses não tinham nada a oferecer para os espartanos", comparou um diplomata. Por outro lado, líderes ocidentais e também os presidentes Lula, do Brasil, Zuma, da África do Sul, Calderón, do México e muitos outros estavam desesperados por um resultado positivo. Obama era o que mais precisava de um acordo forte. Os EUA haviam confirmado a oferta de US$ 100 bilhões aos países em desenvolvimento para lidarem com o aquecimento e a propor, pela primeira vez, ambiciosos cortes (17% abaixo dos níveis de 2005 até 2020).

Acima de tudo, Obama precisava demonstrar ao Senado americano que ele podia convencer a China sobre uma regulamentação básica, para que senadores conservadores não pudessem argumentar que os cortes das emissões de carbono dos EUA dessem vantagens à indústria chinesa. Com as eleições de meio de mandato se se aproximando, Obama e sua equipe também sabiam que Copenhague seria provavelmente a única oportunidade para ir para negociar com propostas ousadas. Isso também reforçou o poder de negociação da China, assim como a completa falta de pressão da sociedade civil na política, quer a China ou a Índia.

Com o negócio dilacerado, a sessão foi concluída com uma batalha final, quando o delegado chinês insistiu em retirar a meta 1.5 graus, tão cara às ilhas, que já estão sofrendo com a elevação dos mares. O presidente Nasheed, das Maldivas, demandou: "Como você pode pedir ao meu país para permitir que sejamos extintos?" O delegado chinês fingiu grande ofensa.



Tudo isto levanta a questão: qual é o jogo da China? Por que a China, nas palavras de um analista britânico "não só rejeitaram metas para si, mas também se recusaram a permitir que qualquer outro país a assumisse metas obrigatórias?" Ele conclui que a China quer enfraquecer o regime de regulamentação do clima agora "para evitar o risco de ser impedida de ser mais ambiciosa em alguns anos".

Isso não significa que a China não está preocupada com o aquecimento global. Ela tem indústrias eólicas e solar fortes. Mas o crescimento da China baseia-se em grande medida no carvão barato. A China sabe que está se tornando uma superpotência e sua confiança recém-conquistada estava em foco em Copenhague. Sua economia baseada no carvão dobra a cada década, e aumenta seu poder de forma proporcional. Sua liderança não irá alterar essa fórmula mágica, a menos que seja absolutamente necessário.

Copenhague foi muito pior do que apenas um mau negócio, porque ilustra uma profunda mudança na geopolítica global. Esse século está se tornando rapidamento o século da China, mas ela mostrou que sua governança ambiental não só não é uma prioridade, mas é visto como um empecilho para as ações dessa superpotência. Deixei Copenhague desapontado, como não me sentia há tempos. Depois de toda a esperança e de todo o hype, da mobilização de milhares de pessoas, a onda de otimismo bateu contra a rocha do poder político mundial e recuou.

sábado, 10 de outubro de 2009

A queda do Muro de Berlim: governantes ocidentais foram contra



Entrevista com Mikhail Gorbachev


Vinte anos depois, Mikhail Gorbachev conta a história desconhecida do Muro de Berlim. Sentado em seu escritório de Moscou no Leningradskij Prospekt, fala com um fio de voz, com calma. Mas das suas palavras transparece toda a emoção, a satisfação, mas também a indignação por aquilo que viu naquele ano fatal entre 1988 e 1989, que marcou para sempre a história do século XXI.

Lembra-se das pessoas de Berlim que saíram às praças, que lhe gritavam "Gorby, fique conosco", "Gorby, freiheit!", liberdade! Ele retornou com a mente aos acontecimentos que, verdadeiramente, comoveram o mundo, as reuniões com os partidos irmãos, ainda incertos e temerosos, os encontros e os telefonemas com Helmut Kohl, "a inadequação de Honecker", o chefe comunista da Alemanha Oriental, que não sabia entender. E depois "a feroz batalha contra a perestroika que se desenvolvia em Moscou", enquanto na Europa os líderes ocidentais procuravam impedir a reunificação alemã.

A reportagem é de Fiammetta Cucurnia, publicada no jornal La Repubblica, 30-09-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Mikhail Sergheevic, quando o senhor entendeu que, para a Alemanha, havia chegado o momento da unificação?

A história não é feita em um dia, e não poderei lhe indicar uma data precisa. A queda do Muro de Berlim, de fato, foi só o ato final, a culminação de um processo que ocorria há muito tempo. Quando as mudanças começaram a marchar na URSS, ocorreram as primeiras eleições democráticas, e, nos países do Leste europeu, estouraram as primeiras revoluções, de veludo ou não. Quando começou também o processo de desarmamento entre EUA e URSS, com o desmantelamento dos mísseis nucleares, uma triste realidade se mostrava claramente diante de nós: a Alemanha, e só a Alemanha, ficava à margem da grande estrada da história. Eles, os alemães, sentiam-se ofendidos e angustiados por causa isso. E eu os entendo.

Em sua opinião, qual foi o ato de nascimento da reunificação alemã?

Estamos falando de 1988. Foi então que, na Alemanha, ocorreram as primeiras manifestações. Em Moscou, chegava a notícia de cidadãos alemães orientais que procuravam passar para a República Federal através da fronteira húngara, diretamente ou através do vale austríaco. Depois, o mesmo ocorreu com a embaixada alemã na Polônia e na Tchecoslováquia, onde era possível chegar mais agilmente e onde os alemães orientais, então, pediam ajudar para passar para o Oeste. Eram pedidos sempre mais maciços e urgentes, que se tornaram depois um rio transbordante no verão [europeu] de 1989. Mas começaram bem antes que a imprensa se desse conta, muito antes que Hans-Dietrich Genscher [ministro do Exterior alemão] pudesse anunciar, na capital tchecoslovaca, a abertura da fronteira com a República Federal alemã. A história havia se colocado em ação. É inútil procurar relê-la hoje de modo primitivo. Os acontecimentos amadureceram no tempo, até que o seu fluir se tornou tão impetuoso que deixou só duas possíveis saídas: ou encontrávamos o modo de geri-los e governá-los, ou nos derrubavam.


Portanto, ficou logo claro para o senhor que a reunificação alemã era iminente?

O que eu entendi já perto do final de 1988 era que já era tarde demais para frear os eventos. Os alemães não tinham intenção de abandonar as praças e voltar para casa, resistiriam até o final, até a vitória. No dia 26 de janeiro de 1989, enquanto os protestos enfureciam em Berlim, decidi convocar uma reunião do Politburo, ampliada aos militares e aos diplomatas, para sondar os humores. Todos se disseram convencidos de que os alemães não se renderiam.

O PCUS [Partido Comunista da União Soviética] não temia a reunificação alemã?

Eram tempos de fogo. No partido, a batalha enfurecia, contra mim e contra a perestroika. Principalmente naquele momento. Estavam em jogo as grandes reformas políticas, as primeiras eleições livres da nossa história milenar. Justamente em 1989, o Politburo se reuniu logo depois das eleições de março. O resultado era impressionante: eleições livres, com listas de sete a 27 candidatos, em vez do nome único a que estávamos habituados. Pela primeira vez, todas as organizações tinham apresentado seus próprios candidatos e, no fim, 35 secretários regionais do partido não conseguiram ser eleitos, mesmo tendo à sua disposição todo o poder e todos os meios. Feitas as contas, porém, 84% dos deputados eleitos eram comunistas. O Politburo não conseguia aceitar que o nosso país, e com ele as nações que faziam parte do Pacto de Varsóvia, decidisse em plena autonomia a mudança dos homens no poder. Assim, logo depois, as forças reacionárias do partido começaram a se organizar e a fazer coalizões contra as mudanças, que percebiam como uma ameaça mortal. Foram golpes muito ferozes. Sempre às escondidas, pelas costas, porque não tinham nem a coragem nem a força de se mostrarem. Mais de uma vez fui obrigado a dar um soco na mesa e me retirar.

E os dirigentes alemães?

Naquele ano, fui à Alemanha duas vezes. Em junho, estive em Bonn, onde me encontrei com Kohl. Foi uma conversa calorosa, muito, muito amigável. Os jornalistas me perguntaram depois se havíamos discutido sobre os episódios alemães. Certamente havíamos discutido. Mas não havíamos decidido nada. Não era uma coisa que podia ser decidida em uma mesa de bar. Será a história, eu disse, que decidirá por nós. Quando? Eu e Kohl demos a mesma resposta, como se tivéssemos nos colocado de acordo: não antes do século XXI. Pelo contrário, as coisas ocorreram diferentemente. Bem rápido ficou claro que aquilo que ocorria na Alemanha não podia ser parado. Kohl me chamou mais de uma vez, já nos telefonávamos seguidamente: "O que fazemos?". Eu lhe dizia: "Fique atento. Não faça movimentos arriscados, senão serão perigosos". Foi então que ele apresentou os famosos dez pontos para a reaproximação entre as duas Alemanhas, que previam uma série de etapas em vista da reunificação. Nós, em Moscou, não fomos entusiastas dessa sua saída, mas as iminentes eleições alemãs lhes obrigavam a fazer alguma coisa.


O que o senhor encontrou em Berlim?

Cheguei a Berlim no dia 06 de outubro de 1989, para os festejos do 40º aniversário da RDT. Lembro que logo me dei conta do clima de inquietação, um fermento novo. Também logo me dei conta que o poder havia perdido a sua ligação com o país. Era uma realidade difundida, que não se referia diretamente à questão do muro. Era como se os alemães estivessem dando abertura à frustração de terem sido abandonados e deixados para trás, apenas eles, enquanto em todos os lados as transformações se impunham nos palácios do Leste. Há meses, as praças estavam cheias, pequenas e grandes manifestações que desafiavam o regime. Quando cheguei, entre os eventos organizados para o 40º aniversário estava também a Fackelzug, a marcha das tochas, na qual participavam os delegados de 28 regiões. Encontrei-me diante de uma massa de jovens e de menos jovens, cheios de entusiasmo, que gritavam "Gorbachev, fique aqui por um mês! Gorby, liberdade!". O primeiro-minis tro polonês, Tadeusz Mazowiecki, se aproximou de mim e disse: "Mikhail Sergheevic, o senhor entende alemão?". "Talvez com um tratado eu teria alguma dificuldade, mas eu entendo o que estão gritando aqui". E ele, em resposta: "Então entenderá que este é o fim".

É verdade que Honecker lhe revelou um dos seus maiores problemas?

Encontrei-o justamente naqueles dias. Foi uma conversa longa, de pelo menos três horas. Observei-o bem e me sentia desconfortável. Tinha a impressão de que fosse totalmente inadequado à grandeza dos eventos que estávamos vivendo. Como se não tivesse a percepção do que realmente tínhamos na nossa frente. Assim, no dia seguinte, pedi que me pudesse encontrar com toda a direção do partido. Não fiz recriminações, nem os incitei a agir. Fiel à linha que havia escolhido, contei sobre a perestroika, de como havíamos chegado tarde com as nossas decisões e por isso havíamos perdido e de como, pelo contrário, havíamos nos apressado muito outras vezes, terminando por tornar a tarefa ainda mais difícil. Os processos em curso, disse-lhes, exigiam grande inteligência. Depois, esse discurso se tornou famoso, resumido na frase "A história pune quem chega tarde".


Mikhail Sergheevic, como se comportaram os líderes europeus? É verdade que salvariam o muro com prazer?

Essa é uma questão dolorosa. À exceção dos EUA, posso dizer que todos estavam contra. Margaret havia se inclinado abertamente pelo "não". Não dizia isso publicamente, mas não fazia mistério durante os encontros oficiais. Andreotti era contrário, e Mitterrand era ferozmente contrário. Mais esperto do que os outros, dizia: "Amo a Alemanha de tal forma que prefiro ter duas". Todos os líderes europeus tinham medo. Mas não faziam propostas sobre como enfrentar a situação. Ficou-me claro que gostariam de impedir a queda do muro e a reunificação, mas queriam que, materialmente, nós os impedíssemos. Com o exército. Com as tropas de Gorbachev. Todos vieram até mim, um depois do outro, pedindo isso, abertamente. Com Mitterrand fomos a Kiev e falamos sobre isso. Só depois, quando tudo precipitou e tratou-se de decidir, todos assinaram.



Tem arrependimentos?

Pensei várias vezes nisso nestes anos. O que teria ocorrido? Os tanques e os soldados fora das casernas em marcha em Berlim. Muito sangue teria corrido. A Europa nas mãos dos militares de Oriente a Ocidente, armados até os dentes, dois milhões de cada lado. Poderíamos ter chegado à Terceira Guerra Mundial. Estou certo de que seria exatamente assim. E, de resto, disse isso desde o início aos dirigentes dos países do Pacto de Varsóvia, que não nos intrometeríamos mais nos seus assuntos internos. Talvez não tenham acreditado em mim, mas eu mantive a palavra. Nunca interviemos nas suas questões. E foi essa a sua tragédia.

Portanto, o senhor achou legítimas as expectativas dos alemães?

A primeira vez que fui à Alemanha foi em 1966. Ainda tinha no coração a recordação da dor, das destruições, das vítimas e dos horrores do nazismo. Mas quanto caminho os alemães fizeram no pós-guerra! Tanto no Leste quando no Oeste. Humilharam-se, pediram perdão, fizeram uma grande obra de purificação antinazista e democrática. Não é possível imaginar que eles tivessem que responder por Hitler até o final dos tempos. Hoje, todos parecem pensar assim. Mas nessa história há apenas dois heróis: os alemães e os russos.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Ainda sobre as bases norte-americanas na Colômbia



Segue abaixo três matérias analisando o contexto geopolítico e as motivações para a instalação das bases norte-americanas na Colômbia.



O primeiro deles é um trecho de entrevista concedida pelo cientista político Luiz Alberto Moniz Bandeira, um dos principais especialistas na história da diplomacia brasileira, e publicada na revista eletrônica Terra Magazine em 18-08-2009.

Ele considera que "o objetivo da ampliação das bases (dos EUA) na Colômbia é restringir a projeção do poder político e militar do Brasil, frustrando iniciativas como a Unasul e o Conselho Sul-Americano de Defesa."



O segundo artigo vai na mesma direção. Trata-se de análise de Juan Gabriel Tokatlian, professor de Relações Internacionais da Universidade Di Tella e membro do Clube Político Argentino, em artigo publicado no jornal Página/12, em 07-08-2009.

O terceiro artigo, muito mais provocativo e num tom mais radical, é de autoria do venezuelano Luis Britto García - narrador, ensaísta, dramaturgo e autor de mais de 60 livros - e traz também uma análise da presença norte-americana em todo o continente.


1- Entrevista com Moniz Bandeira



A ampliação das instalações militares americanas em território colombiano oferecem quais riscos para a segurança continental?

O objetivo da ampliação das bases na Colômbia é restringir a projeção do poder político e militar do Brasil, frustrando iniciativas como a Unasul e o Conselho Sul-Americano de Defesa. Essas instituições, que dão à América do Sul uma identidade própria, não convém aos Estados Unidos. Não se trata de risco para a segurança continental. A presença dos Estados Unidos sempre foi um fator de desestabilização em todas as regiões do mundo e seu objetivo com a ampliação das bases na Colômbia é fomentar um cisma e impedir a integração econômica e política da América do Sul. A ampliação das bases na Colômbia foi decerto planejada juntamente com a restauração da IV Frota no Atlântico Sul, visando a fortalecer a presença dos Estados Unidos na região e assegurar o controle de seus recursos naturais, como, por exemplo, a água e o petróleo.

Os EUA e a Colômbia caminham para um acordo bilateral. Isso será um erro diplomático do presidente Barack Obama na região?

A ampliação das bases na Colômbia não constitui uma iniciativa do presidente Barack Obama. Ele enfrenta séria oposição interna e não controla todo o aparelho de governo. Não tem muitas condições de reverter a influência do complexo industrial-militar. Atualmente quem pauta a política exterior dos Estados Unidos não é propriamente o Departamento de Estado, mas o Departamento de Defesa, o Pentágono. A militarização da política exterior dos Estados Unidos, formalizada com a criação dos comandos militares, para as diversas regiões, inclusive a América Latina (USSouthern Command), tomou impulso com os atentados de 11 de setembro de 2001. Esses comandos atuam como consulados do Império Americano.

Caso se concretize a ampliação da presença militar americana, o Brasil deve reformular sua política para a Amazônia?

Não há o que reformular na política para a Amazônia como conseqüência da ampliação das bases americanas na Colômbia. Há muitos anos militares dos Estados Unidos trabalham não só na Colômbia como nos demais países limítrofes da Amazônia. E as Forças Armadas estão conscientes da ameaça, ainda que pareça remota. Todos os anos elas realizam operações de treinamento, tendo como primeira hipótese de guerra o enfrentamento com uma potência tecnologicamente superior no teatro de guerra da Amazônia.




Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=24954



2 - As bases americanas na Colômbia têm um alvo: o Brasil


O Conselho Sul-americano de Defesa da Unasul, uma inspiração brasileira, mostrou-se um tigre asiático. Num dos primeiros testes reais, as polêmicas bases estadunidenses na Colômbia não serão alvo de debate no Conselho, isso porque os EUA fizeram forte lobby para que o tema não seja discutido. Ainda mais: as bases americanas na Colômbia têm um alvo: o Brasil e não a Venezuela.

O artigo é de Juan Gabriel Tokatlian, professor de Relações Internacionais da Universidade Di Tella e membro do Clube Político Argentino em artigo publicado no jornal Página/12, 07-08-2009. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Tudo indica que os Estados Unidos poderá utilizar várias bases militares na Colômbia. O acordo, a ser confirmado brevemente, foi apresentado em Bogotá como continuação e complemento da luta contra o narcotráfico e o terrorismo, e em Washington como substituição da base de Manta, no Equador – que os EUA deve abandonar neste ano –, como localizações para levar a cabo “operações contingentes, logística e treinamento”, de acordo com a linguagem do Pentágono.

Visto a partir da situação concreta da Colômbia, não existe nenhum interesse nacional em jogo nesse tema: os avanços do Estado frente aos diferentes atores armados foram relevantes; os vizinhos ideologicamente antagônicos não ameaçam usar força militar contra o país; os vizinhos mais próximos com a situação interna não agridem a Colômbia, nem insinuam fazê-lo; as nações da América do sul não mostraram condutas oportunistas contra Bogotá nem antes, nem agora; e o hemisfério em seu conjunto está procurando deixar para trás a dinâmica custosa e agressiva da Guerra Fria.

Entretanto, o novo compromisso bilateral pode ser analisado e avaliado a partir de outra perspectiva. Uma delas é desde a ótica dos Estados Unidos e desde o prisma da geopolítica global e regional. Nesse sentido, há um conjunto de pressupostos básicos que não foram alterados com a chegada ao governo do presidente Barack Obama.

Nas últimas décadas – e em particular depois do 11-S – produziu-se um desequilíbrio notável entre o componente militar e o componente diplomático na política externa dos Estados Unidos. A militarização da estratégia internacional de Washington implicou num desproporcional gasto na defesa – em relação com qualquer potencial adversário ou individual ou hipotética coalizão, em comparação ao destinado a diplomacia convencional -, uma desmesurada e perigosa preponderância burocrática no processo de tomada de decisões, e uma ascendente autonomia frente aos civis na política pública do país.

Nesse contexto, desde meados dos anos noventa, o Comando do Sul foi se transformando na etnarca militar dos Estados Unidos para o Caribe e América Latina. Estacionado na Flórida, o Comando Sul tende a comportar-se como o principal interlocutor dos governos da área e o articulador decisivo da política exterior e de defesa estadunidense na região. O perfil pro - consular do Comando Sul se observa e comprova mediante a análise empírica do vasto conjunto de iniciativas, ações, desembolsos, exercícios, dados e manifestações que planeja e executa em torno das relações continentais. O restabelecimento da IV Frota é apenas um dos últimos indicadores de uma ambiciosa expansão militar na região que não contou com nenhum questionamento do Departamento de Estado, nem da Casa Branca.

Nesse sentido, o uso de várias instalações militares na Colômbia facilita ao Comando Sul conseguir parte do seu projeto pro - consular: ir facilitando – naturalizando – a aceitação na área de um potencial Estado gendarme no centro da América do Sul. A mensagem principal é para o Brasil e não para a Venezuela. Para além das coincidências políticas e de negócios entre Brasília e Washington, os Estados Unidos buscará restringir ao máximo a capacidade do Brasil no terreno militar e buscará acrescentar sua própria projeção de poder na Amazônia.

Agora, com uma simples manobra diplomática, os Estados Unidos demonstrou que o recente criado Conselho Sul-americano de Defesa (CSD) de inspiração brasileira, é até agora, um tigre de papel. América do Sul, uma região onde não existem ameaças letais para a segurança estadunidense, não há países que proliferem nuclearmente, não se encontram terroristas transnacionais de alcance global que operam contra interesses de Washington, é uma das regiões mais pacificas do mundo, tem regimes democráticos em todos os países e possui, conjuntamente, um baixo nível de anti-americanismo, não poderá discutir porque o Estados Unidos necessita usar bases militares da Colômbia. Nem Bogotá aceita debater o tema – e dali o desdobramento da diplomacia presidencial bilateral desses dias do presidente Alvaro Uribe – nem Washington necessita explicar sua política na região. Em todo caso, o conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, o general James Jones, já visitou Brasília e informou ao governo do presidente Lula a decisão de seu governo.

Na medida em que a América do Sul continue criando instituições que não podem abordar os temas centrais da região, resultará evidente o seu nível de fragmentação e sua incapacidade de assumir os principais desafios da área. Caracas e ainda Brasília podem viver com ele; para Argentina é ruim. Uma vez que Buenos Aires não é um interlocutor chave (seja por amizade ou oposição) de Washington, carece de uma visão estratégica faz anos, e tem perdido influencia na América do Sul e não aporta uma melhor institucionalização regional. A situação do país é todavia mais delicada: o falido nascimento da CSD é muito custoso para a Argentina.




3 - A máquina de guerra do Império


“Alguém poderia crer que este formidável desdobramento conjunto da maior potência militar do mundo com o país mais militarizado da América Latina seria para derrotar 10.000 insurgentes e não se sabe quantos traficantes? Aponta, antes, para as reservas de hidrocarbonetos, de água e de biodiversidade da Venezuela, Equador e Brasil”, escreve o venezuelano Luis Britto García, em seu blog, no dia 16-08-2009. A tradução é do Cepat.

Luis Britto García é narrador, ensaísta, dramaturgo e autor de mais de 60 livros.

Eis o artigo:

Os Estados Unidos não podem ocupar militarmente toda a América Latina e o Caribe. Seu Exército conta com dois milhões de efetivos; os nossos têm apenas um milhão e meio. Para nos ocupar deveriam mobilizar outro tanto, deslocando-os de outras operações vitais ou recrutando-os. Ambas as operações são logística e economicamente inviáveis. Também criariam problemas de controle social e contra-insurgência, difíceis de serem controlados.

O Império mantém sua hegemonia mediante a pressão sobre os governos cúmplices, a penetração cultural que apresenta como desejável e as bases que facilitam a intervenção militar. Como disse Bush em 2002 ao formular a nova Estratégia de Segurança Nacional: “Os Estados Unidos necessitarão de bases e estações dentro e além da Europa Ocidental e do nordeste da Ásia, assim como de arranjos de acesso temporal para o desdobramento das forças dos Estados Unidos a grande distância”.

A ocupação militar do mundo

Os Estados Unidos ocupam – em propriedade ou aluguel – 6.000 bases militares em seu território e 872 fora dele. Estas alojavam 253.288 soldados, um número equivalente de familiares e pessoal de apoio e 44.446 estrangeiros contratados, e constavam de 44.870 quartéis, hospitais, depósitos e outras estruturas de sua propriedade, e 4.844 arrendados. Decisões soberanas fecharam algumas: pelos acordos sobre o Canal do Panamá, o Império desocupou a Base Howard em 1999; o Brasil lhes negou a projetada Base de Alcântara, no Maranhão, e Rafael Correa ordenou que desalojassem a Base de Manta, no Equador.

Mas restam ainda ao Comando Sul as bases de Guantánamo em Cuba, Vieques em Porto Rico, Soto Cano em Honduras, Comalapa em El Salvador, e no Peru as de Iquitos, que domina a Amazônia, assim como as de Santa Lucía Huallaga, Santa Lucía e Palmapampa. Outra base dos Estados Unidos funciona no Paraguai: os soldados ocupantes desfrutam de impunidade para violar as leis paraguaias. Assim mesmo, o Comando Sul opera 17 bases terrestres de radares: quatro na Colômbia, três no Peru, e várias bases móveis ou de localização secreta nos Andes e no Caribe.

Bases contra a América Latina

No começo do Terceiro Milênio, os Estados Unidos estalam as bases aéreas Rainha Beatriz em Aruba e Hato Rey em Curaçao, como resposta à negativa de Chávez de permitir a instalação de bases e os sobrevôos na Venezuela. Na Colômbia, onde avança uma intervenção militar massiva, já funcionavam as bases aéreas de Las Tres Esquinas e Larandia: aeronaves militares norte-americanas operam nos aeroportos de Aplay, Melgar, Cali, El Dorado, Palanquero, Medellín, Barranquilla e Cartagena. A partir de uma delas, e apoiado com tecnologia e pessoal norte-americano, a Colômbia fez o seu ataque ao Equador no começo de 2008.

Os Estados Unidos têm total domínio sobre estes enclaves. Assim, a Agência EFE em Bogotá informa que “Em 22 de abril, o Embaixador dos Estados Unidos na Colômbia, William Brownfield, reuniu-se com o ministro colombiano de Defesa, Juan Manuel Santos, e lhe comunicou que o Departamento de Estado decidiu levantar o veto que desde janeiro de 2003 aplicava à base aérea de Palanquero, no centro da Colômbia, que estava sancionada desde 1999 quando aviões saídos dali bombardearam erroneamente um povoado e mataram 18 camponeses”. Os Estados Unidos sancionam, impõem ou levantam vetos às bases militares em território colombiano, e seus soldados são imunes às leis da Colômbia. Ao seu colar de enclaves acrescentam agora as bases de Malambo, Palanquero, Apiay, Tumaco, Bahía Málaga, Tolemaida e Forte Larandia.

A ressurreição de Manta

O Comando Sul obteve do regime entreguista do presidente equatoriano Noboa a Base Aérea de Manta, na costa noroeste, que dominava o Putumayo, estendia a vigilância aérea sobre a região andina e proporcionava inteligência ao Exército colombiano e aos esquadrões da morte treinados e dirigidos pelos Estados Unidos. Segundo Pace, Manta “é a chave para reajustar a nossa zona de responsabilidade, nossa arquitetura (o aparato militar) e para estender o alcance da nossa cobertura aérea de Detecção, Controle e Seguimento nas Zonas Fonte (de produção de drogas)” (Zibechi, 2005). O presidente Rafael Correa ordenou de forma categórica a desocupação de Manta. Em seu lugar, os Estados Unidos projetam a instalação de outras duas com iguais capacidades na Colômbia, uma delas em Cartagena, para as operações da IV Frota do Atlântico.


Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=25015