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sábado, 1 de agosto de 2015

A longa marcha dos neoliberais para governar o mundo


Com a fundação da Mont Pélerin Society (MPS) em 1947, teve início a longa marcha que levou o neoliberalismo a conquistar uma hegemonia totalitária sobre a economia e a política. Com as dramáticas consequências que ainda hoje experimentamos.

A opinião é do sociólogo italiano Luciano Gallino, professor emérito da Universidade de Turim, em artigo publicado no jornal La Repubblica, 27-07-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Quando eu abro as janelas de manhã, nestes dias, o olhar cai inevitavelmente no Mont Pélerin, para além do lago. É uma montanha suíça a poucos quilômetros de Montreux, conhecida desde os anos 1920 pelos bons hotéis e pelo clima suave.
É também o lugar a partir do qual teve início, com a fundação da Mont Pélerin Society (MPS) em 1947, a longa marcha que levou o neoliberalismo a conquistar uma hegemonia totalitária sobre a economia e a política da Europa inteira. Com as dramáticas consequências que ainda hoje experimentamos.
Gramsci acharia muito interessante a estratégia adotada pela MPS para conquistar a hegemonia, entendida no seu pensamento como um poder exercido com o consentimento daqueles que se submeteram a ele. Em vez de constituir mais uma fundação ou um think tankespecializado em promover este ou aquele ramo da economia, a MPS optou por construir em grande escala um "intelectual coletivo".
Em 1947, quando Friedrich Hayek reuniu um pequeno grupo de economistas e outros intelectuais (incluindo Maurice Allais, Walter Eucken, Ludwig von Mises, Milton Friedman, Karl Popper) para fundar a MPS, os congregados eram apenas 38, em sua maior parte europeus. No fim dos anos 1990, eles tinham se tornado mais de mil, espalhados por todo o mundo, embora a maioria continuasse vindo da Europa.
Radicados em grande parte na academia, esse coletivo intelectual não redigiu ambiciosos manifestos programáticos (as "intenções" formuladas em 1947, no momento da fundação, são uma pequena página bastante banal, que também se pode ler de modo idêntico no site da MPS), nem grande projetos de reformas institucionais. Em vez disso, produziu milhares de ensaios e livros, muitos de nível notável, que giram todos em torno de temas que, para os sócios da MPS, eram e são a essência do neoliberalismo: a liberalização dos movimentos de capital; a superioridade fora de questão do livre mercado; a categórica redução do papel do Estado como construtor e guardião das condições que permitam a máxima difusão de um e de outro.
Graças a esse trabalho imenso e capilar, por volta de 1980, as doutrinas econômicas e políticas neoliberais tinham ocupado todos os espaços essenciais nas universidades e nos governos. Obviamente, não foi apenas a MPS que se consumiu para tal fim, mas o seu papel foi enorme. Não exagerava um historiador do pensamento neoliberal (Dieter Plehwe) quando definiu a MPS, anos atrás, como "um dos mais poderosos órgãos de conhecimento da nossa época".
No entanto, os sócios não se limitaram a publicar artigos e livros. Muitos deles chegaram a ocupar posições centrais no aparato de governo dos maiores países. Nos tempos da presidência Reagan (1981-1988), de cerca de 80 conselheiros econômicos do presidente, mais de um quarto eram da MPS.
As liberalizações financeiras decididas pelo governo Thatcher na primeira metade dos anos 1980, que mudaram o rosto da economia britânica, foram elaboradas, em grande parte, peloInstitute of Economic Affairs, uma filiação da MPS fundada e dirigida por dois sócios,Antony Fisher e Ralph Harris.
A cúpula da indústria francesa e alemã sempre foram numerosos nas fileiras da MPS, entretendo estreitas relações com os sócios provenientes do mundo político.
De destaque foi a participação italiana na MPS. Entre os seus primeiros sócios, estava Luigi Einaudi. Dois italianos foram presidentes: Bruno Leoni (1967-1968) e Antonio Martino(1988-1990), que ainda figura entre os sócios, ao lado de (salvo engano) Domenico da Empoli, Alberto Mingardi, Angelo Maria Petroni, Sergio Ricossa.
Duas características marcam fortemente a hegemonia da MPS sobre a cultura e a práxis econômico-política dos Estados europeus a partir dos anos 1980. A primeira é a desmesura da vitória sobre qualquer outra corrente de pensamento – especialmente na economia. O keynesianismo, desde as origens o arqui-inimigo da MPS, foi reduzido à insignificância e, com ele, o pensamento de Schumpeter, de Graziani, de Minsky. Sobrevivem aqui e ali, em algum departamento universitário, mas na política econômica da União Europeia contam como zero.
À força de liberalizações inspiradas pela cultura da MPS, o sistema financeiro domina a política não menos do que a economia – como demonstrou mais uma vez o caso grego. Os sistemas públicos de proteção social estão em curso de avançada demolição: não servem, ao contrário, são nocivos, pois cada indivíduo, segundo a cultura neoliberal, é responsável pelo seu destino.
A escola e a universidade foram reformadas, começando pela Alemanha para acabar pelaItália, de modo a funcionar como empresas. Wilhelm von Humboldt deve estar se revirando no túmulo.
A segunda característica da cultura econômica neoliberal de formato MPS é a sua incrível resistência às pesadas refutações que a realidade lhe inflige há ao menos 15 anos. O início dos anos 2000 viu o colapso das empresas dot.com, glorificadas pelos economistas neoliberais, que, em nove de cada dez casos, eram estratagemas nos quais as Bolsas, em nome da hipótese de que os mercados sempre são eficientes, apostavam bilhões de dólares.
O fim dos anos 2000, ao contrário, testemunharam ao quase colapso da economia mundial, minada pelas finanças baseadas deliberadamente em milhões de empréstimos hipotecários que as famílias não tinham meios para pagar.
Depois de 2010, os economistas neoliberais e os políticos por eles doutrinados impuseram às populações da União Europeia as políticas de austeridade, que se revelaram um fracasso total na opinião dos seus próprios promotores. Em síntese, os economistas formatoMPS predispuseram os dispositivos que produziram a grande crise; não a viram chegar; não souberam explicá-la e propuseram remédios que pioraram a situação. Apesar de tudo isso, continuam ocupando a sala de comando das políticas econômicas da União Europeia.
Se alguém pudesse perguntar a Gramsci como é que as esquerdas europeias, independentemente de como se denominem, começando pela italiana, foram abaladas sem opôr resistência pela ofensiva hegemônico do neoliberalismo iniciada em 1947 a partir deMont Pélerin, talvez ele responderia "porque vocês não os souberam imitar".
Ao rio de publicações voltadas a afirmar a ideia dos mercados eficientes, vocês não souberam opor nada de semelhante, para demonstrar com argumentos sólidos que os modelos com os quais se queria demonstrar tal ideia se fundamentam em pressupostos totalmente inconsistentes.
Além disso, continuaria Gramsci, onde estão os seus artigos e livros que, dirigindo-se tanto aos especialistas, quanto aos políticos e ao grande público, cimentam-se para provar, a cada dia, com argumentos sólidos, a superioridade técnica, econômica, civil, moral da saúde pública sobre a privada; das pensões públicas sobre as privadas, diante dos ataques cotidianos às primeiras pela mídia e pelos políticos, baseados geralmente em dados incorretos; do Estado sobre as empresas privadas para produzir inovação e desenvolvimento, hoje, assim como em toda a segunda metade do século XX; da importância econômica e política dos bens comuns sobre o absurdo das privatizações?
Como a natureza tem horror ao vácuo, o vazio cultural, político, moral das esquerdas foi pouco a pouco preenchido pelas sucessivas levas de leitores, eleitores, professores, funcionários de partido e das instituições europeias, instruídas pelo coletivo intelectual que surgiu da MPS.

É preciso construir o consenso, e a MPS demonstrou saber fazer isso. As esquerdas nem sequer tentaram.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Desigualdade para todos

          
 
Um documentário revela como 400 norte-americanos tornaram-se financeiramente mais ricos que metade da população do país.
A reportagem é de Inês Castilho e Andrew Barker* e publicada pelo sítio Outras Palavras
 
23-01-2013.

Uma forma de medir o aumento da desigualdade de renda é comparar, ao longo do tempo, o salário do trabalhador médio com o do trabalhador do topo do mercado. É o que faz o economista político Robert Reich, ex-secretário do Trabalho dos EUA e professor da Universidade da Califórnia, em Berkeley, no documentário Inequality for All (Desigualdade para Todos), que acaba de ser apresentado no Sundance Festival.l
Em 1978, diz Reich, um trabalhador homem norte-americano típico ganhava cerca de 48 mil dólares anuais, enquanto um profissional de elite recebia cerca de 393 mil dólares anuais. Em 2010, o trabalhador médio viu seus ganhos reduzidos a 33 mil dólares anuais, enquanto o profissional do topo pulou para mais que o dobro, aproximadamente 1,1 milhão de dólares anuais.

Mas a desigualdade torna-se brutal mesmo quando se examinam os rendimentos dos mega-milionários. Eles cresceram tanto nas décadas neoliberais que hoje, conta Reich, as 400 pessoas financeiramente mais ricas dos EUA possuem mais que metade da população do país � �� os 150 milhões de norte-americanos da base da pirâmide.

Cobrindo uma amplo espectro da teoria econômica de modo simples e interessante, o documentário Inequality for All pretende fazer, para a questão da desigualdade de renda, aquilo que Uma Verdade Inconveniente fez para as mudanças climáticas, com Robert Reich no lugar de Al Gore como grande professor. Esforçando-se para manter-se imparcial e oferecendo “respiros” visuais, este é um documentário que quer comunicar-se com um público além dos simpatizantes do movimento Occupy.

Como Uma Verdade InconvenienteDesigualdade para Todos ancora-se em uma longa aula, no caso “Riqueza e Pobreza”, de Robert Reich, em Berkeley, com cortes para entrevistas e recursos visuais – uma coleção de gráficos alarmantes que se alinha a outras tendências socioeconômicas. Reich tem um argumento simples: a ampliação da distância entre ricos e pobres está levando ao fim da classe média e irá paralisar a economia, se não for controlada. Para apoiar sua tese, traça todo o desenvolvimento fiscal do país desde a Grande Depressão, e faz isso com louvável ausência de tom professoral.

Se a classe média não consegue mais se manter, à medida que o custo de vida aumenta e o salário se mantém igual, argumenta Reich, o motor central da economia – os gasto s com o consumo – devem levar o sistema à paralisação. Uma de suas preocupações principais é que, para compensar a estagnação dos salários, os trabalhadores da classe média fizeram empréstimos. Este é um dos gráficos mais chocantes: o salário se mantém imutável na base da tela, enquanto a dívida pessoal sobe para a estratosfera.

Paralelamente, o jovem diretor Jacob Kornbluth acompanha personagens do mundo real, incluindo um empresário multimilionário que argumenta contra seu próprio papel de ‘criador de emprego’ isento de certos impostos, e um casal Mormon que vota no partido Republicano e procura sindicalizar trabalhadores de uma usina geotérmica em sua cidade. Mas o depoimento mais revelador é o de uma trabalhadora mãe de dois filhos cuja demissão do marido fez com que perdessem sua casa. Forçada a dividir um a pequena casa com outra família, ela pergunta: “Como faço para ganhar dinheiro? Não que eu queira ser rica, mas… Como você faz para ganhar dinheiro, quando não tem ações?”

Reich recorda com carinho seu tempo de White House como secretário do Trabalho de Clinton, embora se admita frustrado com o que (não) conseguiu alcançar. Mas, estranhamente, não menciona o importante papel de Clinton na desregulamentação financeira que viria abalar a economia mundial uma década depois. Ainda assim, ele oferece lições a serem aprendidas. Como informa durante o filme, vem pregando contra o crescimento da desigualdade há décadas, e quando começou era considerado de centro. Mas, recentemente, as mesmas ideias levaram a Fox News a tachá-lo de marxista radical.

Em uma das sequências mais tocantes, Reich é arrastado para um diálogo áspero com um trabalhador que se opõe com eloquência à sindicalização. Reich trava com ele um debate de admirável civilidade e, ao mesmo tempo, falta de condescendência. Esse diálogo mostra que não será fácil derrubar os muros que impedem a reforma do sistema financeiro, e a luta que o filme terá de travar para tocar as pessoas que mais precisam ser convencidas.

* A partir do quarto parágrafo, o texto é tradução/adaptação de resenha publicada pel a revista Variety.
 
     

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Consumismo tecnológico

Minha participação é bissexta, mas ainda continuo acompanhando e tentando acrescentar algo interessante a esse blog. Segue uma entrevista enviada a mim por Ricardo Musse com Fernando Tulo Molina, da Universidade de Quilmes. A Entrevista saiu no Jornal da Ciência de hoje, 20/01/2009, e está disponível em http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=61116
Aí vai.
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Notícias
Terça-Feira, 20 de janeiro de 2009

JC e-mail 3682, de 16 de Janeiro de 2009.

12. Falsa neutralidade

Para Fernando Tula Molina, da Universidade de Quilmes, as crenças de que a ciência e a tecnologia são politicamente neutras e de que as inovações são sinônimo de progresso afastam o conhecimento das necessidades sociais
Fábio de Castro
A ciência e a tecnologia estão longe de ser politicamente neutras e as novas descobertas não correspondem necessariamente a progressos para a sociedade, segundo o professor Fernando Tula Molina, da Universidade de Quilmes, na Argentina. Para ele, embora façam parte do senso comum, as noções de neutralidade científica e determinismo tecnológico representam obstáculo para uma ciência democrática, capaz de melhorar a sociedade.
Ideias como essas foram expostas por Molina em nove sessões entre agosto e dezembro de 2008, durante o 15º Seminário Internacional de Filosofia e História da Ciência, realizado pelo Grupo de Filosofia, História e Sociologia da Ciência e da Tecnologia do Instituto de Estudos Avançados (IEA), da Universidade de São Paulo (USP).
O seminário foi um produto do Projeto Temático Gênese e significado da tecnociência: relações entre ciência, tecnologia e sociedade, Universidade de São Paulo, apoiado pela Fapesp e coordenado por Pablo Rubén Mariconda, do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.
Doutor em filosofia pela Universidade de Buenos Aires, Molina permaneceu no Brasil como professor convidado do projeto. No evento, discutiu o tema “Controle, rumo e legitimidade das práticas científicas".
Para avaliar as implicações científicas e sociais das práticas tecnológicas, o professor propõe uma distinção entre a “eficácia” e a “legitimidade” dessas práticas – e busca elementos conceituais para a compreensão das origens culturais dessa distinção e da complexidade dos diferentes atores envolvidos.
Segundo Molina, que também é pesquisador adjunto do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas (Conicet), na Argentina, “essa compreensão contribuirá para que se encontrem os caminhos que levem ao acordo requerido pelas políticas científicas nos espaços de diálogo das instituições democráticas”.
– Uma das idéias centrais desenvolvidas pelo senhor durante o seminário realizado no mês passado em São Paulo é a de que a ciência não pode ser dissociada da política. Como essa questão foi tratada nos debates?
Molina – As discussões tiveram origem em um Projeto Temático apoiado pela FAPESP dirigido pelo professor Pablo Mariconda, do Grupo de Filosofia, História e Sociologia da Ciência e da Tecnologia do IEA, responsável pelo seminário. Esse projeto discute a gênese e os significados da tecnociência. Isso envolve questões históricas, filosóficas e sociológicas, mas no fundo tudo está virando uma área importante ligada à política. Tentamos problematizar duas idéias que hoje são muito fortes em nossa cultura: a neutralidade da ciência e o determinismo tecnológico. Essas duas noções estabelecem no imaginário popular uma idéia de que a ciência é neutra, desprovida de política, quando, na verdade, a ciência – e sobretudo a tecnologia – tem muita política.
– Como esse aspecto político se manifesta?
Uma das linhas que está sendo desenvolvida é que essa política pode ser vista com clareza, por exemplo, no chamado código técnico. Esse gravador digital que você está utilizando, por exemplo, possui um design que encerra em si todo o contexto de sua concepção e está ligado a determinadas estratégias. Essas estratégias representam interesses – que, no caso de uma sociedade capitalista, correspondem aos interesses das corporações. São interesses que têm a ver com o consumismo tecnológico. O projeto do gravador já prevê quando ele sairá de linha, isto é, carrega consigo uma estratégia de obsolescência programada. Para que você consuma mais, é preciso que na sua cabeça a aquisição de novos produtos tecnológicos seja entendida como um progresso. Você acredita que está progredindo e tem um aparelho melhor, de última tecnologia. Mas eventualmente os aparelhos mais antigos tinham mais qualidade. Isso é pura política.
– Essa é a idéia do determinismo tecnológico?
Uma crença de que o produto que acaba de ser lançado é necessariamente melhor, mais eficiente e mais desejável? Sim. É uma estratégia de consumo que se baseia na novidade. O produto é um bem cultural que se vale do valor simbólico que tem a “eficácia” na nossa cultura, levando a pessoa a pensar que os produtos desenvolvidos mais recentemente são melhores. Mas isso é uma falácia. Outra falácia está no discurso político oficial dos nossos países: a idéia de que o cientista pode dizer o que é melhor para a sociedade. O cientista não sabe o que é melhor para a sociedade. Não existem nem mesmo elementos conceituais para abordar essa questão. O seminário teve, portanto, a tarefa central de instalar uma discussão e conscientizar sobre alguns erros. Muitos desses erros, como o individualismo, têm origem filosófica.
– Como o individualismo é tratado nessa discussão?
Quando a lógica predominante é a de que alguém só consegue ganhar quando os demais perdem, o resultado é que as pessoas passam a achar que podem ser livres apenas de portas fechadas. O que gostaríamos de opor a essa idéia individualista é a possibilidade de pensar que, ainda hoje, apesar das assimetrias e desigualdades do capitalismo, podemos aprender a nos organizar de um jeito diferente e reaprender a conviver. A convivência é o ponto central da política em um sentido muito antigo, do qual já falava Sócrates. Como todos os atores, tão diferentes, podem conseguir a felicidade e a plenitude no meio de todos, no espaço restrito da pólis? A ideia de democracia que está por trás do seminário é mais profunda que uma noção de igualdade: é a ideia de que somos todos diferentes.
– Qual o efeito desse contexto dominado pelo individualismo sobre o desenvolvimento tecnológico e científico?
Vamos tentar falar do conjunto ciência e tecnologia: a tecnociência. Se as pessoas acreditam que o investimento em ciência e tecnologia leva o país a crescer automaticamente, melhorando a vida da população, temos o determinismo tecnológico. Nesse caso, já que o resultado seria necessariamente bom para todos, o investimento poderia ser feito sem preocupação com a participação da coletividade – esse determinismo tecnológico é favorecido em um contexto individualista.
– Então, sem a participação da coletividade nas decisões científicas e tecnológicas, os avanços do conhecimento não chegam a beneficiar a sociedade?
Acho que é por isso que temos que combater o determinismo tecnológico. Com essa lógica, o investimento não volta diretamente para a população, mas para as corporações. Os investimentos públicos formam técnicos, especialistas e recursos humanos para a universidade e para o sistema tecnológico. Mas essas pessoas poderão desenvolver tecnologias que melhorem as corporações, não necessariamente o país. Se nossa sociedade tem base tecnológica e capitalista, mesmo que se possa desenvolver a melhor tecnologia, ela irá se limitar a desenvolver a tecnologia com melhor custo-benefício. Tudo o que está envolvido com essas tecnologias será avaliado do ponto de vista quantitativo, porque estará orientado pela produtividade. Incluindo as relações com trabalhadores.
– Esse tipo de modelo tecnológico tenderia a agravar o quadro de exclusão social?
Acredito que sim. A tecnologia orientada pela produtividade só é acessível a quem tem determinado poder de consumo. As distâncias sociais que deveriam ser diminuídas por conta da tecnologia começam a aumentar. O crescimento das diferenças sociais agrava a violência. No fim, a tecnologia, que poderia ter um papel de inclusão, acaba fazendo o contrário.
– As tecnologias sociais seriam um possível caminho para contornar esses problemas?
O Brasil tem uma rede muito boa de tecnologia social. Ela tem 700 organizações – a maioria organizações não-governamentais –, sendo 400 muito ativas. Todas pensam em confrontar essa idéia da tecnologia capitalista associada à corporação. Nesse modelo fundamentado na produtividade, não se pode acessar o conhecimento – que deve ser patenteado. O usuário não é dono do meio onde essa tecnologia vai se produzir e não se pode decidir para onde vai o benefício do desenvolvimento.
– Essas tecnologias teriam então mais legitimidade?
As tecnologias sociais têm um papel importante na democratização do conhecimento, mas elas não chegam a garantir a legitimidade da forma como a entendemos. É preciso distingui-la da eficácia. A tecnociência tem eficácia, mas não tem legitimidade social. Esses dois conceitos muitas vezes são confundidos no próprio discurso do desenvolvimento tecnológico, que está baseado na ideia de controle. O que é o controle? Uma coisa é poder controlar a matéria ou a partícula – como pode a nanotecnologia – no espaço e no tempo. Esse é o controle científico, que é necessário e desejável. Mas não suficiente. Outra coisa é poder dar legitimidade a esse controle.
– E como dar mais legitimidade ao controle das práticas científicas?
Para mim, a legitimidade não está no conteúdo das decisões sobre os rumos tecnológicos, mas no jeito como essas decisões são tomadas. Se a decisão foi tomada de maneira coletiva e democrática e daí gerou os rumos e decisões, isso a legitima, não pelo conteúdo, mas pela forma coletiva. O que temos que pensar é quais são os atores em cada âmbito que deveriam participar democraticamente, sendo reconhecidos como diferentes e igualmente importantes, do rumo mais democrático da enorme capacidade tecnológica que já temos. Mas se não conseguimos dar a isso um caráter democrático, então o rumo será tecnocrático e corporativo. A responsabilidade é nossa. A palavra-chave é participação.
– Há propostas para melhorar essa participação?
O controle tecnológico, voltado para o controle da matéria no espaço e no tempo, não tem, em si, nenhuma legitimidade. Propomos dois novos eixos para pensar essa legitimidade: o tempo da educação e o espaço da participação política. Para melhorar essa participação, temos que gerar um espaço de protagonismo social em que os outros atores possam interagir com os cientistas. O especialista tem uma função consultiva importante, um compromisso de indicar as possibilidades, mas não a prerrogativa de ditar os rumos. Com a ajuda dele, o leigo poderia ter a possibilidade democrática de decidir o futuro. Mas isso não acontece. Na nossa organização estamos excluídos de todas as decisões tecnológicas. Não temos o espaço da participação política.
– E quanto ao tempo da educação?
Levamos tempo para educar alguém a ser crítico com a tecnologia e a conhecer sua própria capacidade de decisão e sua autonomia de criatividade. Essa é a dimensão do tempo da educação. Temos que introduzir essa discussão na escola inicial, porque ali as crianças já têm celular, videogames e muitas possibilidades tecnológicas. Seria importante começar a combater cedo a idéia introjetada de que a ciência é apolítica. Ao superar as idéias de neutralidade e determinismo do desenvolvimento tecnocientífico, só nos restará a possibilidade de um desenvolvimento político, democrático, com participação cidadã. Mas esse cidadão crítico ainda não existe, daí a importância dessa dimensão da educação.
– Ainda estamos muito distantes da formação desse cidadão crítico?
Talvez nem tanto. Podemos pensar no que aconteceu com a cultura ecológica. As crianças e as novas gerações já colocam o problema ecológico de forma mais prioritária. Isso ocorreu, entre outros fatores, porque a ecologia começou a ser apresentada às crianças de forma muito forte, desde a escola inicial. Acho que poderia acontecer o mesmo com o problema tecnológico. Para isso temos que começar a refletir com mais clareza sobre lixo tecnológico, obsolescência planejada, qualidade tecnológica, durabilidade, tecnologias para o futuro, tecnologias sustentáveis, tecnologias adequadas aos problemas – e não apenas ao consumo em massa – e tecnologias customizadas, que não impõem uma única solução, como se fôssemos todos iguais.
(Agência Fapesp, 16/1)


OBS: Relacionada a esse assunto, veja ainda a postagem: "A bioética versus o niilismo tecnocientífico"