quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Um dia sem carne faz diferença



"a adoção de uma dieta vegetariana durante um dia da semana por toda a população dos Estados Unidos seria o equivalente a tirar 20 milhões de carros da estrada"



Surgido nos Estados Unidos, movimento que procura diminuir o consumo de carne ganha adeptos em vários lugares do mundo, inclusive no Brasil. A reportagem é de Jennifer Koppe e está publicada no jornal Gazeta do Povo, 26-08-2009.

Um dia por semana sem comer carne pode ajudar a combater o aquecimento global. É o que afirmam os engajados na campanha Meatless Monday (“Segunda sem Carne”), movimento que surgiu nos Estados Unidos em 2003, com o objetivo de incentivar as pessoas a consumir menos carne.

Segundo um estudo da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), as emissões de gases de efeito-estufa – como o dióxido de carbono, o metano e o óxido de nitrato – associadas à cadeia de produção da carne representam um quinto das emissões totais mundiais. Cerca de 18% das emissões provêm do desmatamento para a criação de pastagens, do transporte da carne, do processamento industrial do alimento e do sistema digestivo dos bovinos. “Calcula-se que o gado emita 80 milhões de toneladas de gás metano (por gases e fezes) por ano. Este gás, por sua vez, tem potencial térmico 21 vezes maior do que o gás carbônico”, explica o professor do Mestrado de Gestão Ambiental da Universidade Positivo Maurício Dziedzic.

O impacto de uma ação como essa parece insignificante, mas, se todos os habitantes dos países ricos adotassem a medida, a diferença seria bastante significativa. De acordo com o escritor norte-americano Michael Pollan, autor de O Dilema do Onívoro, a adoção de uma dieta vegetariana durante um dia da semana por toda a população dos Estados Unidos seria o equivalente a tirar 20 milhões de carros da estrada.

Ação global

O movimento Meatless Monday ganhou adeptos em vários países. Na Inglaterra, o ex-beatle Paul McCartney conseguiu chamar a atenção da mídia ao lançar, em 2008, uma cria da campanha americana: o Meat Free Monday. A filha do cantor, a estilista Stella McCartney, o músico Moby, a atriz Kate Bosworth e a artista plástica Yoko Ono, entre outras celebridades, aderiram ao movimento.

A Câmara de Vereadores da cidade de Ghent, na Bélgica, instituiu que restaurantes, escolas e hospitais ofereçam opções de refeições sem carne na terça-feira. O Dia Vegetariano também ganhou força em Israel.

No Brasil, a Segunda sem Carne deverá ser lançada oficialmente no dia 3 de outubro, no Parque Ibirapuera, em São Paulo. A versão brasileira da campanha é uma iniciativa da Sociedade Brasileira Vegetariana (SBV) em parceria com a Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo e já conta com o apoio do Slow Food São Paulo, do Instituto Nina Rosa e do Greenpeace.

Em Curitiba, a SBV tenta, aos poucos, conscientizar a população sobre os benefícios da dieta vegetariana. A última ação do grupo aconteceu durante os meses de junho e julho em um shopping da cidade. Vinhetas eletrônicas exibidas na praça de alimentação e nos corredores tinham o objetivo de convencer as pessoas a optar por uma refeição sem carne, que hoje em dia pode ser encontrada em quase todo restaurante. “Só o fato de diminuir o consumo já faz uma grande diferença. Muitos problemas ambientais são causados por hábitos que cultivamos. A alimentação não está isolada do mundo e da sociedade”, lembra Ricardo Laurino, coordenador do grupo em Curitiba.

Será que a moda pega por aqui?

O Brasil está entre os países que mais produzem e consomem carne no mundo. Temos o maior rebanho bovino comercial e somos o maior exportador de carne em toneladas. Segundo dados do Serviço de Informação da Carne (SIC), o país registra um consumo per capita de 40 quilos de carne bovina por ano, contra 30 quilos de carne de frango e 12 quilos de carne suína.

Ao mesmo tempo, cerca de 28% dos brasileiros têm procurado diminuir o seu consumo de carne, segundo um estudo da empresa de pesquisas Ipsos. Os motivos envolvem não só a saúde, mas também a preocupação com o meio ambiente. O boicote de grandes redes de supermercados à carne bovina proveniente de fazendas ilegais na Amazônia, por exemplo, chamou a atenção das pessoas para o desmatamento da floresta e a crueldade praticada com os animais durante o abate.

O designer Érico Almeida, 26 anos, e o engenheiro florestal Gustavo Gatti, 35 anos, fazem parte do time que mudou seus hábitos em nome do planeta. “Já faz três meses que não como frango e carne vermelha. Eu me sinto mais leve não só fisicamente. Fico feliz de estar contribuindo de alguma forma”, conta Gustavo. Há quatro anos que o designer só abre exceções em datas especiais. “No aniversário da minha mãe, não resisti”, confessa.

Já Gustavo, analista de projetos ambientais da Fundação O Boticário, diz que foi o trabalho que o convenceu a mudar de atitude. “Tenho acesso a muitas informações a respeito do prejuízo causado por alguns cultivos, inclusive a pecuária. Os números são assombrosos. Por isso, adotei a redução do consumo de carne como estratégia para conscientizar outras pessoas sobre o assunto”, conta.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Brasil copia o anti-ambientalismo chinês


Governo Lula e Congresso Nacional copiam modelo (anti) ambiental chinês


"O cenário ideal de crescimento econômico para o Brasil, imaginado por economistas desenvolvimentistas ou liberais dos governos petista-tucano, reside na conjuntura atual de crescimento da China (casa dos 11% em 2008) e seus investimentos privados impulsionados por megaprojetos industriais e infra-estruturais com regras de licenciamento ambiental e compensação de danos propícias ao empreendedor", escreve Kenzo Jucá, especialista em Desenvolvimento Sustentável e Direito Ambiental (UNB) e assessor da liderança da bancada do PSOL na Câmara dos Deputados. em artigo publicado no Correio da Cidadania e reproduzido por EcoDebate, 24-08-2009. Segundo Jucá, "não há mais espaço no Planeta Terra para que Brasil, China e Índia “tenham o direito” de se desenvolver nos patamares imperialistas de EUA e Europa do passado, linha defendida pela social-democracia ambiental. O tempo histórico não o permite mais.

Eis o artigo.

Na volta do recesso parlamentar em agosto, o Congresso Nacional – através do governo e sua bancada – retoma um dos pacotes de reforma constitucional mais danosos para as presentes e futuras gerações do Brasil e do mundo: o rebaixamento da legislação ambiental brasileira, que era uma das mais avançadas do Planeta Terra desde o fim dos anos 1980 até a era Lula.

Desde o segundo semestre de 2008, foram aprovadas ou editadas uma série de medidas articuladas no pacote de reformas anti-ambientais de Lula. Muitas outras estão tramitando ou prontas para votação em plenário ou nas comissões temáticas do Congresso Nacional. Possuem apensados projetos de lei pertencentes ao pacote de medidas do PAC, como o PLP 12/03 (Sarney Filho) e o PLP 388/07 (do Executivo), que estabelecem novas regras de licenciamento e responsabilidades ambientais e estão juntos na mesa do plenário. Ou ainda o Novo Código Florestal dos ruralistas – PL 5367/09 de Valcir Colatto (PMDB/ SC) – em discussão nas Comissões de Agricultura e de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados.

O atual modelo brasileiro de reforma ambiental e seus projetos de lei e emendas constitucionais são coordenados pelo governo com papel decisivo de sua base parlamentar ruralista e empreiteira do Congresso Nacional. Pretende criar um “ambiente favorável” à nova realidade de crescimento econômico vertical das obras do PAC e ao incremento no avanço do agronegócio sobre a Amazônia. O cenário ideal de crescimento econômico para o Brasil, imaginado por economistas desenvolvimentistas ou liberais dos governos petista-tucano, reside na conjuntura atual de crescimento da China (casa dos 11% em 2008) e seus investimentos privados impulsionados por megaprojetos industriais e infra-estruturais com regras de licenciamento ambiental e compensação de danos propícias ao empreendedor.

Na China, estudos demonstram que 67% das cidades apresentam índices extremos de poluição atmosférica, cerca de 59% dos seus rios possuem alta degradação e 54% dos lençóis freáticos estão bastante abaixo do critério de água potável estipulado pelo Estado da China. O país que mais cresce no mundo sofre séries sucessivas de pequenas e mega-catástrofes ambientais associadas, desde a hidrelétrica Três Gargantas que atinge 116 cidades e desloca 2 milhões de pessoas, até o elevado risco das mais de 20 mil infrações mensais por despejo irregular de dejetos químicos industriais no ambiente. Isso sem falar nas emissões de carbono por queima de florestas e combustíveis. Talvez toda a cadeia ecossistêmica dos seres vivos na China e sua complexidade ambiental estejam comprometidas, devido à relação de interdependência sistêmica existente entre as cadeias, tudo com importante repercussão no ambiente global.

O modelo econômico de crescimento capitalista altamente agressivo (típica herança do autoritarismo estalinista), adotado pela China no último período e que torna o PAC de Lula fichinha, combinado a regras ambientais quase inexistentes, estão possibilitando esse desastre global. A última grande “campanha ambiental” promovida pelo governo chinês, em 2005, acabou desmoralizada com a multa de 200 mil yuans aplicada a uma usina poluidora do rio Jinsha, quantia irrisória diante dos bilhões de yuans em investimentos do empreendimento e da gravidade dos impactos gerados. Anualmente, 20 mil casos de crimes ambientais sérios escapam da justiça chinesa impunemente. E quando não escapam as empresas poluidoras não temem governo, justiça, multas ou legislação ambiental na grande China pós-Mao.

No Brasil, hoje, empreiteiras e ruralistas ainda mantêm certo respeito e temor à legislação ambiental, conseqüência da própria lei e por serem submetidos muitas vezes a exigências e negociações sob pressões do movimento de massas e ações do Ministério Público. Com o PAC e a reforma ambiental, o que o governo pretende é que não haja mais isso. O que está acontecendo é que o processo democrático de licenciamento ambiental previsto atualmente – que deveria envolver MMA, IBAMA, estados, municípios, CONAMA, conselhos locais e regionais, sociedade civil, comunidade científica etc. – está sendo desarticulado definitivamente, assemelhando-se ao da China.

Os líderes do governo na Câmara dos Deputados, Henrique Fontana (PT/RS); Sarney Filho (PV-MA); o presidente da Comissão de Meio Ambiente, Roberto Rocha (PSDB/MA); o coordenador da bancada agropecuária, Valdir Colatto (PMDB/SC) e o ruralista Onyx Lorenzoni (DEM/RS), compõem o comando da reforma anti-ambiental em curso na Câmara dos Deputados. Falam em desjudicialização do licenciamento ambiental. Falam em agilização do processo. Na prática, querem impedir que questionamentos técnicos e/ou da sociedade civil ganhem dimensão legal capaz de interferir e democratizar o projeto original do empreendedor privado-estatal.

Esse entendimento “chinês” é a base principal dos projetos aprovados: MP 458/09 da grilagem na Amazônia e Decreto-Lei 6848/09 que limita a compensação ambiental em 0,5% do custo da obra. Também orientam os projetos em tramitação os PLP 12/03 e PL 5367/09, os próximos a serem votados após o recesso do Congresso Nacional. Esses últimos determinam que um único ente federado seja responsável pelo licenciamento ambiental, o que hoje é responsabilidade concorrente e complementar entre União, estados e municípios, reforçando os princípios da precaução e da prevenção ambiental. Também acabam com o Estudo Prévio de Impacto Ambiental junto ao órgão licenciador estadual, peça inicial e elementar de qualquer processo técnico sério e consubstanciado de análise de riscos e gestão ambiental. O estudo prévio é o início do dimensionamento da extensão do impacto. Como diz o ditado, pau que nasce torto, nunca se endireita.

O Brasil possui algumas das maiores empreiteiras do mundo, que adquiriram excelência em grandes obras de engenharia e acumularam patrimônios bilionários (Odebrecht, Camargo Corrêa, Engevix-Themag) notadamente a partir dos anos 1950 e do milagre econômico dos 1970 – das três maiores hidrelétricas do mundo, duas são brasileiras. Os Estudos e Relatórios de Impactos Ambientais (EIA/ RIMA) dessas grandes obras só começaram a ser adotados no Brasil no início dos anos 1980, apesar de serem conhecidos no mundo desde os anos 1960.

A Constituição Federal de 1988 e as legislações complementares do CONAMA consolidaram o arcabouço legal sobre meio ambiente existente hoje no Brasil, uma referência internacional. São fruto das mobilizações sociais e conquistas populares das Diretas Já. Esse processo gerou a regulamentação da obrigatoriedade de relatórios e estudos de impactos ambientais e políticas de compensação e mitigação de danos sócio-ambientais com participação da sociedade. É o arcabouço legal que perdurou até o desmonte atual de Lula e seu escudeiro fiel Carlos Minc.

Formam um conjunto de princípios e procedimentos legais e institucionais que eram adotados até há alguns meses atrás, quando começaram a cair com o ataque recente do Congresso, através da frente governo/ruralistas/empreiteiros. É o caso do Decreto 6848/09, que fixa o teto de 0,5% para compensação sócio-ambiental, independentemente do grau de prejuízo à sociedade e ao ambiente causado pela empreiteira e seu projeto. Esse decreto contraria até jurisprudência e decisão do STF, que vincula o valor da compensação ao grau do impacto causado. Contraria também a Conferência Rio-92 e o princípio jurídico do poluidor-pagador, onde prejuízos ambientais são reparados integralmente pelos causadores. O decreto dissocia dano e reparo. É um dos marcos da aliança ambiental Brasil-China. Basta lembrar das multas em yuans. A partir de agora, os símbolos do ridículo anti-ambiental podem ser yuans e reais.

As Resoluções N° 01 e N° 06 de 1986 do CONAMA e outras que seguiram são o marco da normatização e da efetividade da legislação ambiental brasileira após a redemocratização, definindo o conceito legal de impacto ambiental e compensação. A reforma ambiental em curso no Congresso Nacional propõe redefinir os princípios e as regras dos estudos de impacto e compensação ambiental, estabelecidas e adotadas por Poder Público e empreendedores desde os anos 1980.

Sob alegação jurídica de conferir consistência constitucional à normatização ambiental (competência legal que de fato o CONAMA não possui), promove um retrocesso de no mínimo 30 anos, pois a tendência é que se volte a patamares de permissividade ambiental anteriores aos anos 1960. Os investimentos do PAC em infra-estrutura são os maiores feitos no Brasil desde JK e dos governos militares em volume de recursos financeiros. Esquecem apenas que a humanidade evoluiu mais de meio século desde então e descobriu o aquecimento global e as tecnologias limpas. Não há mais espaço no Planeta Terra para que Brasil, China e Índia “tenham o direito” de se desenvolver nos patamares imperialistas de EUA e Europa do passado, linha defendida pela social-democracia ambiental. O tempo histórico não o permite mais.

Lula e o Congresso resolveram abrir definitivamente as alas para empreiteiras executarem os R$ 506 bilhões do PAC e para ruralistas executarem a Amazônia. Ainda há tempo de resistir, unificando a luta de indígenas, ribeirinhos, atingidos por barragens, castanheiras, extrativistas do açaí, seringueiras, parteiras, trabalhadores urbanos etc. Essa população está ameaçada, bem como está o Código Florestal, a Lei do Sistema Nacional de Unidades de Conservação, entre outros marcos da legislação ambiental brasileira.
(...)

As soluções a essa crise ambiental devem partir da negação dos modelos neoliberais que promovem catástrofes humanas e ambientais e às ditas políticas de desenvolvimento sustentado ou eco-sociais e seus eco-procedimentos, que se inscrevem nas vias de ajuste da economia neoliberal aos processos de degradação ambiental e aquecimento global.

A construção de abordagens teóricas e políticas adequadas a esta problemática passam pela afirmação de outra racionalidade de mundo, pela construção da teoria da Racionalidade Ambiental, que Enrique Leff define como o complexo processo de formulação epistemológica interdisciplinar, que habita a visão materialista da história de Marx; o naturalismo dialético de Bookchin; a retórica pós-moderna de Baudrillard; a lei da entropia de Georgescu-Roegen; a termodinâmica dissipativa de Prigogine; o pensamento da complexidade de Morin; a racionalidade comunicativa de Habermas; e a ontologia de Heidegger. É um difícil caminho científico e político, que somente pode ser trilhado por socialistas revolucionários a partir do conhecimento tradicional de populações exploradas ou autóctones.

Quando o gargalo se estreita: manipulação, conflito, e radicalização no coração do Império



Sistema atual americano de saúde deixa 46 milhões de fora


Cerca de 46 milhões de pessoas nos EUA não têm plano de saúde. Como não existe um Sistema Único de Saúde (SUS) no país, significa que, se essas pessoas ficarem doentes, precisarão vender o carro ou hipotecar a casa para pagar as contas do hospital. Despesas médicas são o principal motivo de falências pessoais no país.

A reportagem é de Patrícia Campos Mello e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 23-08-2009.

Parte dos americanos com mais de 65 anos ou portadores de deficiências está coberta por um sistema chamado Medicare, no qual o governo paga os hospitais e médicos que atendem o beneficiário. E parte da população de baixa renda entra no Medicaid, outro sistema bancado pelo governo. Mas grande parte da população - esses 46 milhões - está em um buraco negro. Muitos estão em uma faixa intermediária - não são tão pobres para receber o Medicaid, nem tão idosos para o Medicare -, não têm plano de saúde no emprego e não conseguem pagar um privado..

Os segurados ou têm dinheiro para pagar um plano privado ou têm um emprego que oferece um plano de saúde. Nos EUA, as empresas podem despedir grávidas e até pessoas com câncer. Ter um plano de saúde tampouco garante que a pessoa não terá de pagar por seus tratamentos médicos.

A maioria dos planos estabelece um limite de gastos anual e, em seguida, uma franquia que o seguro só começa a reembolsar depois que o paciente paga sua contrapartida. Os planos também podem se recusar a fazer seguro para pacientes com histórico de doença crônica ou pré-existente.

Para completar, o sistema de saúde é uma bomba-relógio para as contas públicas. O Medicare, por exemplo, vai se tornar deficitário em oito anos.Os gastos com saúde crescem a uma taxa superior à inflação. Os EUA são o país que mais gasta com saúde - US$ 7 per capita, ou 16% do PIB -, mas está em 37º lugar em qualidade de atendimento, ao lado da Eslovênia, segundo o ranking da Organização Mundial de Saúde.

Para que os 46 milhões de cidadãos sem plano de saúde passem a ter um, o governo precisará gastar US$ 1 trilhão ao longo de dez anos. O dinheiro viria de uma gestão mais eficiente do Medicare e do Medicaid e de um aumento de impostos sobre quem ganha mais de US$ 250 mil por ano.

O presidente americano, Barack Obama, quer criar um mercado de trocas de planos de saúde, onde seguradoras privadas competiriam com a seguradora estatal ou cooperativas. Todos os americanos seriam obrigados a ter um plano de saúde e o governo subsidiaria aqueles que não pudessem pagar. A competição reduziria os preços. As seguradoras privadas estariam proibidas de fixar tetos para gastos e franquias, além de não poderem discriminar pacientes. Também haveria painéis para julgar a eficiência de tratamentos de saúde como forma de cortar custos.

Muitos acham, porém, que esses painéis resultarão em um racionamento de assistência médica, que um grupo de burocratas poderá negar os tratamentos mais caros aos segurados. Os idosos são especialmente resistentes às reformas, porque a maioria já está coberta pelo Medicare.

Além disso, as seguradoras e os defensores do livre mercado temem que a concorrência com o setor estatal ponha os preços tão baixos que levariam os planos privados à falência.







Reforma do sistema de saúde desperta o extremismo racial nos EUA


Na segunda-feira passada, dois homens foram vistos carregando armas semiautomáticas diante do local onde o presidente pronunciava seu mais recente discurso sobre a reforma da saúde. Questionado sobre o porquê das armas, um dos homens respondeu: "Porque eu posso fazer isso. No Arizona, ainda tenho algumas liberdades." Essas observações somam-se a uma série inquietante de gestos extremistas que exprimem repulsa pelo presidente. Como um manifestante em Maryland que segurava um cartaz com os dizeres: "Morte a Obama" e "Morte a Michelle e a suas duas filhas idiotas".

O artigo é de Michael Jeffries, professor de estudos americanos do Wellesley College, em Massachusetts, publicado pelo jornal inglês The Guardian e reproduzido pelo jornal O Estado de S. Paulo, 23-08-2009.

Obama terá muita dificuldade para se concentrar na política e, ao mesmo tempo, em repelir uma série de ataques da direita. Desde o começo, ele reconheceu que há necessidade de um debate legítimo sobre a melhor maneira de reformar o sistema de saúde, argumentando que seu plano pretende oferecer a máxima eficiência e estabilidade ao maior número possível de americanos. Ele menosprezou as farpas desonestas e incendiárias dos que querem pintá-lo como o diabólico conspirador do "painel da morte".

O presidente chegou a ressaltar o componente emocional das recentes flechadas e a destacar a propensão da imprensa a dar mais atenção a episódios de ira e radicalismo do que a episódios de diálogo educado. Embora se refira ao extremismo exagerado com o qual é recebido a toda hora, ele se recusa a analisar diretamente seu teor ou a especular sobre sua fonte.

Em um artigo publicado no jornal Observer, o comentarista político Michael Crowley argumenta que o extremismo manifestado nas multidões iradas e nos homens armados nas reuniões de Obama nas cidades visitadas representa a última fase da Revolução do Branco Irado na política americana.

Segundo Crowley, esse arquétipo político foi cunhado na década de 90, quando os brancos que elegeram Bill Clinton, em 1992, votaram no Partido Republicano nas eleições legislativas de 1994. Na era Obama, o irado homem branco apareceu como "Joe, o Encanador" na campanha presidencial, protestou contra a nomeação de Sonya Sotomayor para a Suprema Corte e acusou Obama de racismo por seus comentários sobre a prisão do professor Henry Louis Gates.

Crowley faz bem em ligar os pontos entre as manifestações anteriores de ira politizada e as de hoje. Mas é importante reconhecer que, atualmente, a intensidade da raiva que estamos testemunhando difere da de tempos passados em razão da raça de Obama.

Nos piores casos, sentimentos conscientes de medo e ameaça que empurram cidadãos descontentes para uma ira descarada são intensificados por sentimentos subjacentes de ameaça e repugnância pela ideia de que outra pessoa, que não um branco, passe a ser a personificação e o representante da nação.

Se for preciso encontrar um culpado, segundo o conceito do branco irado, Crowley argumenta que a melhor maneira de derrotar esses guerreiros da cultura será reerguendo a economia e destruindo a ira em suas raízes - nas estruturas econômicas, e não em patologias culturais.

O debate sobre a reforma do sistema de saúde é, literalmente, uma questão de vida ou morte, de dor e sofrimento e da proliferação de práticas imorais adotadas pelos planos de saúde. Assim como é importante falar de controle de qualidade e de eficiência, é fundamental definir a reforma da saúde como uma obrigação moral - como algo que devemos uns para com os outros, como americanos e pais das futuras gerações.




''Indústria promove campanha de medo''

As seguradoras estão usando táticas de medo para impedir a aprovação da reforma de saúde, repetindo um padrão já usado durante a tentativa de aprovação da reforma no governo de Bill Clinton (1993-2001). A afirmação é de Wendell Potter, ex-executivo e porta-voz da Cigna, uma das maiores seguradoras de saúde dos EUA. Ele depôs na Comissão de Comércio, Ciência e Transporte do Senado americano em junho e afirmou que, desde os anos 90, as seguradoras ganharam fôlego e poder para dominar o mercado. "O que temos é um sistema de saúde subordinado a Wall Street", disse.

A entrevista é de Janaína Lage e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 23-08-2009.

Eis a entrevista.

Por que o sr. abandonou a carreira nas seguradoras de saúde?

Percebi que as práticas adotadas estavam quebrando o sistema de saúde. As leis não protegem o consumidor o suficiente. Deixei meu emprego em maio de 2008, não queria mais ser um porta-voz da indústria. Decidi falar sobre o tema em junho deste ano.

O que são as táticas de medo das seguradoras?

A indústria financia "grupos independentes". Oferece dinheiro para que eles atuem e assustem as pessoas espalhando que o governo vai assumir o sistema de saúde, que a reforma significa socializar o serviço de saúde e a medicina. Isso já aconteceu.

Quando?

Em 2007, a indústria se mobilizou para desacreditar o filme "Sicko", de Michael Moore. Usou um grupo chamado Health Care America. A ideia era mostrar que os problemas apresentados não eram verdadeiros. Lançaram ainda a Health Benefits Coalition que, no início da década, tentava desviar a atenção de projetos de leis para direitos dos pacientes.

Qual é a diferença entre a ação agora e no governo Clinton?

A estratégia é a mesma: usar aliados em negócios, na mídia conservadora e no Congresso para espalhar desinformação. Uma das diferenças é que eles têm atuado de forma mais covarde. Em 1993, eles assumiam que financiavam parte da campanha de "Harry e Louise" [propaganda que ajudou a afundar a proposta de reforma de Clinton, em que um casal de classe média se desesperava com a burocracia do plano e encorajava o povo a ligar para os representantes no Congresso].

Quem tem interesse em vetar ou interferir na reforma?

Fabricantes de remédios, de equipamentos, membros da comunidade médica, seguradoras. Quem ganha dinheiro com o sistema atual.

Mas há propaganda a favor paga pelas farmacêuticas...

Porque de um lado eles pagam pelos anúncios para passar uma imagem de que apoiam a reforma. De outro, atuam por meio de lobistas e grupos "independentes" para influenciar a opinião pública.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

O lado perverso da persuasão


por Maria Berenice da Costa Machado
LANE MEDICAL LIBRARY, STANFORD UNIVERSITY



A partir do século XX, a história da mentalidade passa necessariamente a ser contada também por meio da publicidade. Para o bem e para o mal, as mais competentes peças de persuasão manejam realidades e ajudam a transformá-las, ao interpretar desejos coletivos latentes e devolvê-los ao público na forma de uma imagem e de uma mensagem a que uma maioria adere. Nada diferente, portanto, de qualquer outra modalidade de comunicação de massa, capaz de criar virtudes ou vícios, atrocidades históricas ou progresso social.

O Brasil foi um laboratório fértil para esse tipo de experiência. Eis um povo, o brasileiro, que almejou mudanças de status no século XX, encantado com as próprias potencialidades e também com propaganda de modernidade que vinha de fora, a apresentar uma classe média em processo de afirmação, com homens bem-sucedidos e uma nova mulher – a cada década mais independente e realizada.

Não demorou para a fantasia atingir o jovem, em especial no pós-maio de 68 na França, quando o mundo foi tomado por valores até então subversivos, que precisaram ser rapidamente incorporados ao sistema pelos meios de comunicação. O culto à liberdade foi então apresentado em várias versões, todas palatáveis, até culminar com o uso de imagens de esportes radicais nos anos 90.



O livro Campanhas inesquecíveis: propaganda que fez história no Brasil, organizado pela editora Meio & Mensagem, traz uma seleção de 84 campanhas inesquecíveis, veiculadas entre os anos de 1960 e 1995 – período em que a mídia passou por forte desenvolvimento. É interessante notar que, desse total de peças, quatro são de marcas de cigarros, hoje proibidas, e sete de bebidas alcoólicas, atualmente ainda autorizadas, mas repetidas vezes criticadas.

Foram escolhidas as campanhas que elevaram os produtos anunciados à condição de ícones do consumo de sua época, que estabeleceram relações emocionais com o público e permaneceram na sua memória afetiva. Seus ingredientes – criatividade, ousadia, ineditismo e pesados investimentos em mídia – revelam o quanto houve de esforço técnico e persuasivo para dar visibilidade à mensagem e provocar no público-alvo um sentimento de identificação e adesão.


Atribui-se algumas vezes à publicidade um papel pedagógico e até civilizador. Certas ações de comunicação do século passado vão nessa direção, em especial na área de limpeza e higiene e de eletrodomésticos. A indústria precisava não apenas apresentar seu produto, mas ensinar a usá-lo e mostrar seus benefícios nas questões de saúde e bem-estar.

Há que questionar, porém, as pedagogias persuasivas que foram utilizadas em outras categorias de bens. De fato, os investimentos maciços em publicidade de cigarros, bebidas alcoólicas e carros velozes hoje afrontam uma melhor consciência da sociedade e o necessário compromisso de empresas e governos com o consumidor.



EXERCÍCIO SOCIOLÓGICO

Constatar isso não elimina a necessidade de dialogar com peças publicitárias flagrantemente nocivas, como um exercício sociológico. Isso porque esse diálogo evidencia a mentalidade dominante em diferentes épocas e os estágios da tecnologia, os padrões estéticos, os comportamentos e os hábitos de consumo em um lugar e um tempo que já vão longe.

Um dos primeiros registros da indústria tabagista no Brasil sur giu na revista Fon-Fon (RJ, 25/7/1914). Traz a ilustração de um homem fumando junto ao nome da marca e de um pequeno texto: “É costume que as moças e as senhoras não digam mais aos seus noivos e maridos para não fumar (...) esta marca evita o mau hálito, possui perfume agradável, capaz de deliciar as mulheres, é higiênica e chique”.


Nas décadas seguintes, a publicidade de cigarros no Brasil e no mundo dirigiu seus esforços ao estímulo para que as mulheres fumassem. O produto ajudaria a “acalmar os nervos, dar energia e perder peso”, com o testemunho de atores famosos de Hollywood e, por incrível que pareça, de médicos. Eram ainda utilizadas imagens de bebês robustos e atletas para ilustrar as mensagens, de forma a atingir a imaginário feminino.

Se médicos não se importaram em emprestar seu nome à publicidade, menos ainda as corporações. Em meio à Segunda Guerra Mundial, o Mappin Stores, tradicional magazine instalado em de São Paulo, associou a sua marca a pedido de doações de “quase cinco milhões de cigarros para os soldados inglezes (sic)”.


A publicidade continuou sugerindo à mulher fumar. Nos anos 50, anúncio no Anuário das Senhoras relacionava à “classe”. Na mesma época, a revista Manchete estampou um anúncio que atribuía ao cigarro certa “tradição de bom gosto”. A imagem de uma bela modelo internacional fumando, ao lado da embalagem do produto, completava a cena.

Cigarros e tabacos lideram o ranking de investimentos em publicidade no Brasil nos anos 70 e 80. E seguem com foco no público feminino, com o uso de cenas semelhantes: rosto de mulher com cigarro na mão, acompanhado do slogan “o importante é ter charme”.

Mais que o hábito de fumar, a publicidade das marcas de cigarro procurou vender um estilo de vida, ignorando completamente os problemas que o tabaco poderia provocar à saúde. Os anúncios criaram situações de identificação e projeção, inicialmente para promover o “prazer de fumar” associando o hábito a valores subjetivos, explicitados no uso de palavras como “chique”, “luxo”, “charme” e “classe”. Também eram atribuídos ao fumo poderes de “acalmar”, “dar energia” e “emagrecer”.


Na etapa seguinte, mais próxima do quarto final do século, a saudável juventude brasileira passou a ser o foco das campanhas. Tornaram-se comuns as promessas de vantagem, satisfação e principalmente liberdade em tudo e para todos. Bastava que os jovens comprassem a ideia – e o produto!

Durante a década de 90, o debate sobre os malefícios do fumo se acirrou no mundo, e a indústria tabagista substituiu no Brasil seus personagens por arte abstrata. Em janeiro de 2001 foram proibidos anúncios de cigarros nos veículos de comunicação de massa.

Como estratégias de comunicação, todas essas foram campanhas memoráveis e permanecem nos anais da história social – ainda que, hoje, tais mensagens soem inconcebíveis.


São escassos os registros da atividade publicitária no Brasil no período que antecede a chegada da corte de D. João VI ao Rio de Janeiro, em 1808. Restritos a cartazes rudimentares escritos à mão e aos pregões dos comerciantes nas ruas, os anúncios nada mais eram que uma apropriação criativa da tradição oral, como o exemplo que segue: “Atenção, muita atenção, aviso/ Sorvetinho, sorvetão/ Sorvetinho de limão/ Quem não tem duzentos réis/ Não toma sorvete não”.

A instalação da família real impulsionou o desenvolvimento do país e incrementou a formação de um mercado de bens, de serviços e de comunicação. E, com as prensas tipográficas trazidas na bagagem portuguesa, deu-se a instalação da Imprensa Régia, que editava e fazia circular informações no primeiro jornal do Brasil, a Gazeta do Rio de Janeiro.

Além das notícias, o jornal passou a veicular “annuncios” para propagar e tornar público que havia “huma morada de cazas de sobrado” para vender ou gratificar quem pegasse e entregasse “escravo fugido”. Os reclames usavam linguagem simples e adjetivada para chamar a atenção para a venda ou a compra de escravos, animais, imóveis, remédios e outras mercadorias.


A receita publicitária contribuiu para financiar as empresas produtoras de notícias, fruto das inovações tecnológicas da metade do século XIX, ocasião em que o jornalismo deixou a fase romântica, marcada por debates político-literários aquecidos, emocionais e relativamente anárquicos.

Acelerou-se a venda de espaços, tarefa para os “corretores de anúncios”, assegurando assim a sustentação econômica dos jornais e gerando o embrião do que mais adiante seriam as agências de publicidade. Entre 1891 e 1915 funcionou em São Paulo a Empresa de Publicidade e Comércio, a primeira oficialmente constituída para agenciar anúncios.

As novas tecnologias da comunicação, entre elas a fotografia e a cor para a impressão de revistas, aproximaram o país, no início do século XX, do que já vinha ocorrendo na Europa e Estados Unidos. As inovações exigiram profissionais com mais preparo técnico para a criação e a produção dos impressos publicitários. Teve início a chamada fase artística: os anúncios com textos mais elaborados, escritos por intelectuais, acompanhados por ilustrações coloridas, obra de desenhistas e pintores.

A nova estética facilitou a identificação dos produtos anunciados, uma vez que a maioria das pessoas não sabia ler. Na segunda década do século, foi fundada A Eclética, pioneira entre as agências de publicidade, que conquistou contas das multinacionais recém- instaladas no Brasil.

A publicidade brasileira, hoje tão bem conceituada no mundo, profissionalizou-se, definitivamente, na segunda metade do século XX, acompanhando o ritmo das comunicações de massa, que passaram a contar com as tecnologias do cinema, do rádio, da televisão, do computador e das redes de telefonia e de telecomunicações.

(M. B. C. M.)


***


A matéria abaxo, por sua vez, foi publicada originalmente no Blog HypeScience:

Cocaína, morfina e até heroína eram vistos como remédios miraculosos quando foram descobertos. As substâncias que hoje são proibidas estavam legalmente disponíveis no passado.

Os fabricantes de medicamentos, muitos dos quais existem até hoje, proclamavam, até o final do século 19, que seus produtos continham estas drogas.

Veja dez impressionantes propagandas do gênero.


Heroína da Bayer

Um frasco de heroína da Bayer. Entre 1890 a 1910 a heroína era divulgada como um substituto não viciante da morfina e remédio contra tosse para crianças.

Vinho de cocaína




O vinho de cocaína da Metcalf era apenas um de uma grande quantidade de vinhos que continham cocaína e estavam à venda sem nehum controle. Todos afirmavam que tinham efeitos medicinais, mas eram consumidos também pela sua outra qualidade.

Vinho Mariani

O Vinho Mariani (1865) era o principal vinho de cocaína do seu tempo. O Papa Leão 13 carregava um frasco de Vinho Mariani consigo e premiou seu criador, Angelo Mariani, com uma medalha de ouro.

Vinho Maltine


Esse vinho de cocaína foi feito pela Maltine Manufacturing Company de Nova York. A dosagem indicada diz: “Uma taça cheia junto com, ou imediatamente após, as refeições. Para crianças, doses menores.

Peso de papel




Acima, um peso de papel promocional da C.F. Boehringer & Soehne (Mannheim, Alemanha), “os maiores fabricantes do mundo de quinino e cocaína”. Este fabricante tinha orgulho em sua posição de líder no mercado de cocaína.

Glico-Heroína


Propaganda de heroína da Martin H. Smith Company, de Nova York. A heroína era amplamente usada não
apenas como analgésico, mas também como remédio contra asma, tosse e pneumonia. Misturar heroína com glicerina (e comumente açúcar e temperos) tornava o opiáceo amargo mais palatável para a ingestão oral.

Ópio para asma

Esse National Vaporizer Vapor-OL era indicado “Para asma e outras afecções espasmódicas”. O líquido volátil era colocado em uma panela e aquecido por um lampião de querosene.


Tablete de cocaína



Estes tabletes de cocaína eram “indispensáveis para cantores, professores e oradores”. Eles também amenizavam dor de garganta e davam um efeito “animador” para que estes profissionais atingissem o máximo de sua performance.


Drops de Cocaína para Dor de Dente



Dropes de cocaína para dor de dente (1885) eram populares para crianças. Não apenas acabava com a dor, mas também melhorava o “humor” dos usuários.


Ópio para bebês recém-nascidos


Você acha que a nossa vida moderna é confortável? Antigamente para aquietar bebês recém-nascidos não era necessário um grande esforço dos pais, mas sim, ópio.

O frasco acima de paregórico (sedativo) da Stickney and Poor era uma mistura de ópio de álcool que era distribuída do mesmo modo que os temperos pelos quais a empresa era conhecida.

Doses: para crianças com cinco dias, 3 gotas. Duas semanas, 8 gotas. Cinco anos, 25 gotas. Adultos, uma colher cheia. O produto era muito potente, e continha 46% de álcool.



Ainda sobre as bases norte-americanas na Colômbia



Segue abaixo três matérias analisando o contexto geopolítico e as motivações para a instalação das bases norte-americanas na Colômbia.



O primeiro deles é um trecho de entrevista concedida pelo cientista político Luiz Alberto Moniz Bandeira, um dos principais especialistas na história da diplomacia brasileira, e publicada na revista eletrônica Terra Magazine em 18-08-2009.

Ele considera que "o objetivo da ampliação das bases (dos EUA) na Colômbia é restringir a projeção do poder político e militar do Brasil, frustrando iniciativas como a Unasul e o Conselho Sul-Americano de Defesa."



O segundo artigo vai na mesma direção. Trata-se de análise de Juan Gabriel Tokatlian, professor de Relações Internacionais da Universidade Di Tella e membro do Clube Político Argentino, em artigo publicado no jornal Página/12, em 07-08-2009.

O terceiro artigo, muito mais provocativo e num tom mais radical, é de autoria do venezuelano Luis Britto García - narrador, ensaísta, dramaturgo e autor de mais de 60 livros - e traz também uma análise da presença norte-americana em todo o continente.


1- Entrevista com Moniz Bandeira



A ampliação das instalações militares americanas em território colombiano oferecem quais riscos para a segurança continental?

O objetivo da ampliação das bases na Colômbia é restringir a projeção do poder político e militar do Brasil, frustrando iniciativas como a Unasul e o Conselho Sul-Americano de Defesa. Essas instituições, que dão à América do Sul uma identidade própria, não convém aos Estados Unidos. Não se trata de risco para a segurança continental. A presença dos Estados Unidos sempre foi um fator de desestabilização em todas as regiões do mundo e seu objetivo com a ampliação das bases na Colômbia é fomentar um cisma e impedir a integração econômica e política da América do Sul. A ampliação das bases na Colômbia foi decerto planejada juntamente com a restauração da IV Frota no Atlântico Sul, visando a fortalecer a presença dos Estados Unidos na região e assegurar o controle de seus recursos naturais, como, por exemplo, a água e o petróleo.

Os EUA e a Colômbia caminham para um acordo bilateral. Isso será um erro diplomático do presidente Barack Obama na região?

A ampliação das bases na Colômbia não constitui uma iniciativa do presidente Barack Obama. Ele enfrenta séria oposição interna e não controla todo o aparelho de governo. Não tem muitas condições de reverter a influência do complexo industrial-militar. Atualmente quem pauta a política exterior dos Estados Unidos não é propriamente o Departamento de Estado, mas o Departamento de Defesa, o Pentágono. A militarização da política exterior dos Estados Unidos, formalizada com a criação dos comandos militares, para as diversas regiões, inclusive a América Latina (USSouthern Command), tomou impulso com os atentados de 11 de setembro de 2001. Esses comandos atuam como consulados do Império Americano.

Caso se concretize a ampliação da presença militar americana, o Brasil deve reformular sua política para a Amazônia?

Não há o que reformular na política para a Amazônia como conseqüência da ampliação das bases americanas na Colômbia. Há muitos anos militares dos Estados Unidos trabalham não só na Colômbia como nos demais países limítrofes da Amazônia. E as Forças Armadas estão conscientes da ameaça, ainda que pareça remota. Todos os anos elas realizam operações de treinamento, tendo como primeira hipótese de guerra o enfrentamento com uma potência tecnologicamente superior no teatro de guerra da Amazônia.




Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=24954



2 - As bases americanas na Colômbia têm um alvo: o Brasil


O Conselho Sul-americano de Defesa da Unasul, uma inspiração brasileira, mostrou-se um tigre asiático. Num dos primeiros testes reais, as polêmicas bases estadunidenses na Colômbia não serão alvo de debate no Conselho, isso porque os EUA fizeram forte lobby para que o tema não seja discutido. Ainda mais: as bases americanas na Colômbia têm um alvo: o Brasil e não a Venezuela.

O artigo é de Juan Gabriel Tokatlian, professor de Relações Internacionais da Universidade Di Tella e membro do Clube Político Argentino em artigo publicado no jornal Página/12, 07-08-2009. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Tudo indica que os Estados Unidos poderá utilizar várias bases militares na Colômbia. O acordo, a ser confirmado brevemente, foi apresentado em Bogotá como continuação e complemento da luta contra o narcotráfico e o terrorismo, e em Washington como substituição da base de Manta, no Equador – que os EUA deve abandonar neste ano –, como localizações para levar a cabo “operações contingentes, logística e treinamento”, de acordo com a linguagem do Pentágono.

Visto a partir da situação concreta da Colômbia, não existe nenhum interesse nacional em jogo nesse tema: os avanços do Estado frente aos diferentes atores armados foram relevantes; os vizinhos ideologicamente antagônicos não ameaçam usar força militar contra o país; os vizinhos mais próximos com a situação interna não agridem a Colômbia, nem insinuam fazê-lo; as nações da América do sul não mostraram condutas oportunistas contra Bogotá nem antes, nem agora; e o hemisfério em seu conjunto está procurando deixar para trás a dinâmica custosa e agressiva da Guerra Fria.

Entretanto, o novo compromisso bilateral pode ser analisado e avaliado a partir de outra perspectiva. Uma delas é desde a ótica dos Estados Unidos e desde o prisma da geopolítica global e regional. Nesse sentido, há um conjunto de pressupostos básicos que não foram alterados com a chegada ao governo do presidente Barack Obama.

Nas últimas décadas – e em particular depois do 11-S – produziu-se um desequilíbrio notável entre o componente militar e o componente diplomático na política externa dos Estados Unidos. A militarização da estratégia internacional de Washington implicou num desproporcional gasto na defesa – em relação com qualquer potencial adversário ou individual ou hipotética coalizão, em comparação ao destinado a diplomacia convencional -, uma desmesurada e perigosa preponderância burocrática no processo de tomada de decisões, e uma ascendente autonomia frente aos civis na política pública do país.

Nesse contexto, desde meados dos anos noventa, o Comando do Sul foi se transformando na etnarca militar dos Estados Unidos para o Caribe e América Latina. Estacionado na Flórida, o Comando Sul tende a comportar-se como o principal interlocutor dos governos da área e o articulador decisivo da política exterior e de defesa estadunidense na região. O perfil pro - consular do Comando Sul se observa e comprova mediante a análise empírica do vasto conjunto de iniciativas, ações, desembolsos, exercícios, dados e manifestações que planeja e executa em torno das relações continentais. O restabelecimento da IV Frota é apenas um dos últimos indicadores de uma ambiciosa expansão militar na região que não contou com nenhum questionamento do Departamento de Estado, nem da Casa Branca.

Nesse sentido, o uso de várias instalações militares na Colômbia facilita ao Comando Sul conseguir parte do seu projeto pro - consular: ir facilitando – naturalizando – a aceitação na área de um potencial Estado gendarme no centro da América do Sul. A mensagem principal é para o Brasil e não para a Venezuela. Para além das coincidências políticas e de negócios entre Brasília e Washington, os Estados Unidos buscará restringir ao máximo a capacidade do Brasil no terreno militar e buscará acrescentar sua própria projeção de poder na Amazônia.

Agora, com uma simples manobra diplomática, os Estados Unidos demonstrou que o recente criado Conselho Sul-americano de Defesa (CSD) de inspiração brasileira, é até agora, um tigre de papel. América do Sul, uma região onde não existem ameaças letais para a segurança estadunidense, não há países que proliferem nuclearmente, não se encontram terroristas transnacionais de alcance global que operam contra interesses de Washington, é uma das regiões mais pacificas do mundo, tem regimes democráticos em todos os países e possui, conjuntamente, um baixo nível de anti-americanismo, não poderá discutir porque o Estados Unidos necessita usar bases militares da Colômbia. Nem Bogotá aceita debater o tema – e dali o desdobramento da diplomacia presidencial bilateral desses dias do presidente Alvaro Uribe – nem Washington necessita explicar sua política na região. Em todo caso, o conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, o general James Jones, já visitou Brasília e informou ao governo do presidente Lula a decisão de seu governo.

Na medida em que a América do Sul continue criando instituições que não podem abordar os temas centrais da região, resultará evidente o seu nível de fragmentação e sua incapacidade de assumir os principais desafios da área. Caracas e ainda Brasília podem viver com ele; para Argentina é ruim. Uma vez que Buenos Aires não é um interlocutor chave (seja por amizade ou oposição) de Washington, carece de uma visão estratégica faz anos, e tem perdido influencia na América do Sul e não aporta uma melhor institucionalização regional. A situação do país é todavia mais delicada: o falido nascimento da CSD é muito custoso para a Argentina.




3 - A máquina de guerra do Império


“Alguém poderia crer que este formidável desdobramento conjunto da maior potência militar do mundo com o país mais militarizado da América Latina seria para derrotar 10.000 insurgentes e não se sabe quantos traficantes? Aponta, antes, para as reservas de hidrocarbonetos, de água e de biodiversidade da Venezuela, Equador e Brasil”, escreve o venezuelano Luis Britto García, em seu blog, no dia 16-08-2009. A tradução é do Cepat.

Luis Britto García é narrador, ensaísta, dramaturgo e autor de mais de 60 livros.

Eis o artigo:

Os Estados Unidos não podem ocupar militarmente toda a América Latina e o Caribe. Seu Exército conta com dois milhões de efetivos; os nossos têm apenas um milhão e meio. Para nos ocupar deveriam mobilizar outro tanto, deslocando-os de outras operações vitais ou recrutando-os. Ambas as operações são logística e economicamente inviáveis. Também criariam problemas de controle social e contra-insurgência, difíceis de serem controlados.

O Império mantém sua hegemonia mediante a pressão sobre os governos cúmplices, a penetração cultural que apresenta como desejável e as bases que facilitam a intervenção militar. Como disse Bush em 2002 ao formular a nova Estratégia de Segurança Nacional: “Os Estados Unidos necessitarão de bases e estações dentro e além da Europa Ocidental e do nordeste da Ásia, assim como de arranjos de acesso temporal para o desdobramento das forças dos Estados Unidos a grande distância”.

A ocupação militar do mundo

Os Estados Unidos ocupam – em propriedade ou aluguel – 6.000 bases militares em seu território e 872 fora dele. Estas alojavam 253.288 soldados, um número equivalente de familiares e pessoal de apoio e 44.446 estrangeiros contratados, e constavam de 44.870 quartéis, hospitais, depósitos e outras estruturas de sua propriedade, e 4.844 arrendados. Decisões soberanas fecharam algumas: pelos acordos sobre o Canal do Panamá, o Império desocupou a Base Howard em 1999; o Brasil lhes negou a projetada Base de Alcântara, no Maranhão, e Rafael Correa ordenou que desalojassem a Base de Manta, no Equador.

Mas restam ainda ao Comando Sul as bases de Guantánamo em Cuba, Vieques em Porto Rico, Soto Cano em Honduras, Comalapa em El Salvador, e no Peru as de Iquitos, que domina a Amazônia, assim como as de Santa Lucía Huallaga, Santa Lucía e Palmapampa. Outra base dos Estados Unidos funciona no Paraguai: os soldados ocupantes desfrutam de impunidade para violar as leis paraguaias. Assim mesmo, o Comando Sul opera 17 bases terrestres de radares: quatro na Colômbia, três no Peru, e várias bases móveis ou de localização secreta nos Andes e no Caribe.

Bases contra a América Latina

No começo do Terceiro Milênio, os Estados Unidos estalam as bases aéreas Rainha Beatriz em Aruba e Hato Rey em Curaçao, como resposta à negativa de Chávez de permitir a instalação de bases e os sobrevôos na Venezuela. Na Colômbia, onde avança uma intervenção militar massiva, já funcionavam as bases aéreas de Las Tres Esquinas e Larandia: aeronaves militares norte-americanas operam nos aeroportos de Aplay, Melgar, Cali, El Dorado, Palanquero, Medellín, Barranquilla e Cartagena. A partir de uma delas, e apoiado com tecnologia e pessoal norte-americano, a Colômbia fez o seu ataque ao Equador no começo de 2008.

Os Estados Unidos têm total domínio sobre estes enclaves. Assim, a Agência EFE em Bogotá informa que “Em 22 de abril, o Embaixador dos Estados Unidos na Colômbia, William Brownfield, reuniu-se com o ministro colombiano de Defesa, Juan Manuel Santos, e lhe comunicou que o Departamento de Estado decidiu levantar o veto que desde janeiro de 2003 aplicava à base aérea de Palanquero, no centro da Colômbia, que estava sancionada desde 1999 quando aviões saídos dali bombardearam erroneamente um povoado e mataram 18 camponeses”. Os Estados Unidos sancionam, impõem ou levantam vetos às bases militares em território colombiano, e seus soldados são imunes às leis da Colômbia. Ao seu colar de enclaves acrescentam agora as bases de Malambo, Palanquero, Apiay, Tumaco, Bahía Málaga, Tolemaida e Forte Larandia.

A ressurreição de Manta

O Comando Sul obteve do regime entreguista do presidente equatoriano Noboa a Base Aérea de Manta, na costa noroeste, que dominava o Putumayo, estendia a vigilância aérea sobre a região andina e proporcionava inteligência ao Exército colombiano e aos esquadrões da morte treinados e dirigidos pelos Estados Unidos. Segundo Pace, Manta “é a chave para reajustar a nossa zona de responsabilidade, nossa arquitetura (o aparato militar) e para estender o alcance da nossa cobertura aérea de Detecção, Controle e Seguimento nas Zonas Fonte (de produção de drogas)” (Zibechi, 2005). O presidente Rafael Correa ordenou de forma categórica a desocupação de Manta. Em seu lugar, os Estados Unidos projetam a instalação de outras duas com iguais capacidades na Colômbia, uma delas em Cartagena, para as operações da IV Frota do Atlântico.


Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=25015

terça-feira, 18 de agosto de 2009

É um mito contemporâneo o de que uma pílula mágica soluciona tudo


Entrevista especial com Alicia Stolkiner


“É um mito contemporâneo o de que uma pílula mágica soluciona tudo”, aponta com severidade a professora de Saúde Pública da Universidade de Buenos Aires. Alicia Stolkiner tem acompanhado a evolução da nova gripe a partir do contexto econômico, político e social em que ela está inserida e, assim, afirma que “esse vírus tem atuado como um fator para análise de uma série de funcionalidades sociais e de estados dos sistemas de saúde frente a uma emergência, obrigando a revisar algumas situações e pondo outras a prova”. Assim, nesta entrevista que concedeu à IHU On-Line, por e-mail, Alicia aponta quais são, em sua opinião, os maiores mitos que se criou em torno da disseminação do vírus H1N1 e analisa a atuação dos grandes laboratórios farmacêuticos diante desta “emergência” mundial.

Alicia Stolkiner é psicanalista e doutora em Saúde Pública. Hoje, é professora na UBA. Na Argentina, é representante da Rede de Pesquisa em sistemas e serviços de saúde no Conesul.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – A gripe pode se tornar uma pandemia como se tornou a gripe espanhola no início do século XX?

Alicia Stolkiner
– O comportamento desse vírus, até o momento, não evidencia isso. Ele tem se propagado em forma de pandemia em relação à mortalidade, por uma série de circunstâncias, mas de maneira muito menor. As epidemias são fenômenos biosocioculturais. Todas devem ser compreendidas no contexto econômico, político e social em que ocorrem. A gripe espanhola deixou dezenas de mortos num momento e contexto totalmente diferentes.

IHU On-Line – Quais são os maiores mitos em torno da gripe A (H1N1)?

Alicia Stolkiner –
Em primeiro lugar, como qualquer epidemia, o primeiro mito é que o desconhecido é mais perigoso, acontece, então, que as pessoas se protegem dos estranhos e têm poucos cuidados com aqueles mais próximos. O segundo mito, pelo menos na Argentina, é que a cura depende fundamentalmente de um medicamento e da prevenção através de vacina. Os processos de saúde-enfermidades-atenção são complexos, esquecem que a principal estratégia da defesa é a cura do corpo a partir do sistema imunitário. Este, por sua vez, depende de fatores que não são somente biológicos. É influenciado por variáveis que vão desde a alimentação e o repouso, até o estado de ânimo e o stress ligado às condições de vida. Então, para curar-se é necessário valorizar as tecnologias tradicionais leves: repousar, manter-se num ambiente estável etc. Isso também indica vulnerabilidades ligadas às condições de vida, não só as dos setores da população que não têm direitos básicos (alimento, abrigo etc.) garantidos, como também as daquelas pessoas submetidas a subemprego, condições de contratação precária que impedem de faltar ao trabalho ainda que estejam doentes etc.

É um mito contemporâneo o de que uma pílula mágica soluciona tudo. Com esta gripe, vamos ter que valorizar os cuidados no sentido mais amplo. Não se trata de tomar pílulas e seguir como se estivesse tudo tranquilo. É preciso favorecer e potencializar os fatores protetores e de luta contra a doença em que o corpo e a pessoa têm.

Em algum artigo apontei, inclusive, o risco que significam as dietas hipocalóricas a que se submetem muitas jovens por razões estéticas, vulnerabilizando-se às doenças. Finalmente, acredito que tem acontecido um excessivo alarme levando em conta sua baixa taxa de letalidade. Mais do que mitos, poderíamos falar de uma cultura hegemônica que tende a negar a morte e o risco, naturalizando alguns, inclusive. De toda forma, é mais interessante apontar que esse vírus tem atuado como um fator para análise de uma série de funcionalidades sociais e de estados dos sistemas de saúde frente a uma emergência, obrigando a revisar algumas situações e pondo outras à prova.

IHU On-Line – Em sua opinião, como os grandes laboratórios farmacêuticos estão atuando durante esta “crise da gripe”?

Alicia Stolkiner –
Estima-se que para se manter no mercado mundial, os laboratórios devem lançar anualmente dois ou três produtos capazes de alcançar um milhão de dólares nas vendas. Isso significa que os medicamentos devem avançar criando mercados. Para isso, aprofundam-se dois processos culturais: o da medicalização da vida cotidiana e o da geração da certeza de que todo problema de saúde (e, às vezes, todo e qualquer problema) encontra uma resposta em um produto médico-farmacêutico-tecnólogico.

Antes da epidemia em si, as propagandas de medicamentos destinados a aliviar os sintomas de gripe ou resfriado, a fim de se manter em atividade, favorecerão condutas que logo, durante a epidemia, agravarão a situação. Isto ocorrerá por dois motivos: porque as pessoas só consultarão um médico em casos mais avançados e graves; e porque, ao não manterem-se em repouso, contribuirão para a disseminação de doenças. Deveríamos ter uma maior regulação sobre as propagandas de medicamentos de venda livre ou sobre as propagandas de medicamentos em produtos alimentícios, pois são potencialmente danosos para a saúde.

Também estão em jogo os interesses de produção de uma vacina que seria para todo o mundo (um "A pergunta que está por trás de tudo isso é se a lógica de mercado pode reger a vida dos habitantes do planeta"
negócio incrível) e o famoso Tamiflu, que tem uma curiosa história com o caso da chamada gripe aviária. A pergunta que está por trás de tudo isso é se a lógica de mercado pode reger a vida dos habitantes do planeta.

IHU On-Line – Você pode analisar a evolução viral do H1N1?

Alicia Stolkiner –
Aparentemente sua mutação e origem estão ligadas às formas atuais de produção intensiva de alimentos, neste caso de carne de porco. Sua propagação rápida no mundo é uma mostra da interconexão inevitável da atual fase de desenvolvimento.

IHU On-Line – Qual sua opinião sobre a forma como esta gripe está sendo noticiada?

Alicia Stolkiner –
Acredito que os meios trataram, em geral, mal o tema. Eles responderam de maneira alarmista e com escassa informação útil. Um colega, Federico Tobar, escreveu recentemente: “parece que mitigar o vírus poderia resultar tão difícil quanto o rumor”. É notável que as mortes são permanentemente ressaltadas, mostraram corpos sem vida, mas – com algumas exceções – teve escassa informação destinada aos cuidados coletivos que se deve ter. Todas as mensagens eram destinadas ao cuidado individual pela medida fundamental de não tocar outras pessoas e lavar bem as mãos. Poucas mensagens propiciaram o “cuidar o outro”, para pensar práticas sociais compartilhadas.

IHU On-Line – Existe um plano na Argentina para combater a gripe A?

Alicia Stolkiner –
O sistema de saúde argentino é altamente fragmentado e segmentado. O Ministério da Saúde tem de pouca a nula ingerência sobre as decisões que tomam os governos provinciais ou municipais, dos quais dependem os serviços de saúde. Uma parte da população é atendida no sistema de Obras Sociais e a outra pelo sistema privado. Este último notifica mal as informações de atendimentos. Também a epidemia chegou num momento em que a gestão nacional estava debilitada por um processo eleitoral onde houve a mudança do ministro. A concretização de uma política unificada recém começou a olhar para o fim da epidemia. Acredito que a resposta foi tardia, mas isso é um produto das características do sistema.

Finalmente, optou-se pela suspensão de classes e atividades, mas isso não foi acompanhado, por exemplo, pela suspensão de algumas partidas de futebol importantes em que houve grande concentração de pessoas. A suspensão das aulas teve um efeito inesperado, não sobre a gripe, mas em relação à bronquite que, pela primeira vez em anos, parece não ter chegado ao pico epidêmico no inverno.

IHU On-Line – Este vírus é mais violento? Como podemos explicar a morte de jovens por causa desta gripe?

Alicia Stolkiner –
As cifras atuais na Argentina estão indicando que a maior mortalidade não foi em jovens, mas sim na população de 45 a 59 anos. Efetivamente, o vírus atacou aos jovens e, assim, diferenciou-se da gripe estacional que assola fundamentalmente as crianças e os idosos. Também morreram jovens e alguns deles não estavam nos grupos de risco. Acredito que a mortalidade da população jovem e sã pode ter sido incrementada pela prática de amenizar os sintomas e seguir em atividade até que a enfermidade avance. Muitas das consultas se realizaram quando a pessoa já tinha pneumonia bilateral, que foi a principal causa de morte.



quarta-feira, 12 de agosto de 2009

As vertentes e as propostas da "nova ecologia"



Os paladinos da economia verde


A reportagem é de Mauro Trotta, publicada no jornal Il Manifesto, 08-08-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Aquecimento climático, poluição marinha e do ar, deposição de resíduos. Os problemas ligados à ecologia não só se tornaram lugares comuns, mas também influenciam sempre mais na vida de todos. Assim, entre ritmos sazonais que parecem nos enlouquecer, mudanças do território, limitações do tráfego nas cidades, praias não mais frequentáveis, lixo acumulado nas esquinas das ruas, com incômodos ainda mais graves para quem vive próximo de aterros sanitários ou incineradores, os hábitos cotidianos se modificam, para não falar dos danos à saúde que tudo isso comporta e da sensação de fim de mundo sempre mais difundida.

Em tempos de crise econômica, quando o capitalismo neoliberal parece estar com a corda no pescoço, de repente todos se descobrem atentos aos problemas ambientais, e em muitas partes se defende que uma crise global como a atual pode, na realidade, representar uma oportunidade: trata-se só de conjugar a economia com a ecologia. Desse modo, se poderá sair da crise e salvar o atual estilo de vida, tornando-o só um pouco mais ecológico. Caminho aberto então para expressões como "desenvolvimento sustentável", "revolução verde", "nova ecologia política".




Os ditadores do petróleo

Há também quem, justamente partindo da análise da situação ambiental e econômica, se incline para mudanças profundas que modifiquem desde a raiz o atual sistema sócio-econômico. Enfim, parece quase que, no âmbito da análise da situação do ponto de vista econômico e ecológico, duas tendências analíticas e políticas vão tomando impulso e que relembram a clássica distinção entre reformistas e revolucionários, em que os primeiros tendem a manter com algumas correções a estrutura capitalista atualmente em auge, enquanto que os segundos propõem uma saída do neoliberalismo em nome de um outro tipo de sociedade.

Um livro como "Quente, plano e cheio" (Editora Actual, 2008), de Thomas L. Friedman, pertence sem dúvida ao campo reformista. Editorialista do New York Times, vencedor três vezes do Prêmio Pulitzer, Friedman oferece uma descrição clara, de recorte jornalístico, da situação e receitas suas para sair dela.

Parte-se de uma constatação: vivemos em um mundo em que o superaquecimento climático é uma realidade, em que em todo o lugar se afirmou o mesmo estilo de vida em detrimento das diversidades culturais e ambientais, em que o crescimento demográfico parece incontrolável. Continua-se focando sobre os cinco problemas chaves com os quais se deve lutar, ou seja, a demanda crescente de oferta de energia e recursos naturais sempre mais escassos, a transferência de riquezas aos países produtores de petróleo e aos seus "petroditadores", a penúria energética que opõe quem tem energia em abundância e quem tem pouco, as mudanças climáticas, a perda de biodiversidade.

Trata-se, então, de enfrentar essas problemáticas adotando o que Friedman chama de "código verde", ou seja, de um lado utilizar essas tecnologias de modo maciço, desenvolvendo-as posteriormente, como a eólica e a solar, que garantam energia limpa, e, de outro, pressionar uma intervenção governamental decisiva que, empregando tanto o incentivo (leva) fiscal, com deduções e incentivos, tanto legislativo, elevando os limites em matéria de emissões de poluição, funcione como estímulo poderoso para aquela que deveria aparecer como uma "revolução verde".




A moral da frugalidade

Certamente, trata-se de enfrentar a decisiva oposição de grupos poderosos, como o lobby do petróleo, e de adotar procedimentos fortemente impopulares, pelo menos em curto prazo, mas intervenções do gênero não podem ser adiadas. O problema é que não se entende plenamente como uma mudança dessas é possível sem modificações radicais de todo o sistema sócio-econômico.

Parece, enfim, que as instâncias propostas pelo autor se baseiam mais na necessidade moral do que na análise realista das relações concretas no interior do sistema sócio-econômico. Assim, o fato de que tudo deve ocorrer dentro de uma ótica de conservação do capitalismo fica claríssima também pela famosa frase citada por Friedman do Gattopardo [romance histórico do escritor Giuseppe Tomasi di Lampedusa]: "Se queremos que tudo permaneça como é, é preciso que tudo mude".

A moral também está no centro do texto de Jean-Paul Fitoussi e Éloi Laurent, intitulado "La nuova ecologia politica. Economia e sviluppo umano" (Editora Feltrinelli, 124 p.). Desde o começo, os autores afirmam que "a questão ética se encontra no centro dos problemas econômicos". Inclinam-se, porém, contra o paradigma econômico da regulação interna - segundo o qual o mercado, por meio da livre interação de livres atores, retorna sempre para um estado de equilíbrio ideal - em favor do paradigma da regulação externa: "O correto funcionamento da economia de mercado não é concebível sem a intervenção de um agente externo - o poder público -, enquanto a ordem econômica e social surge de um complexo equilíbrio entre decisões individuais e decisões coletivas".

Além disso, partindo de uma análise de algumas das principais teorias econômicas - de Smith e Ricardo a Mill, Keynes, Georgescu-Roegen, Sen - Fitoussi e Laurent delineiam as características fundamentais de uma "economia verdadeiramente dinâmica", um sistema aberto e não fechado, isto é, em que a escassez produzida pela inexorável lei da entropia possa ser combatida pelo atraso, ou seja, diferindo no tempo consumos e prazeres materiais, aproveitando-se do progresso técnico e dos conhecimentos acumulados nesse período de tempo.

Latouche

A escolha de Latouche

Naturalmente, será preciso investir na educação e na pesquisa para desfrutar o tempo ganho e comprometer-se a fundo na defesa do meio ambiente. A noção de atraso deverá ser assim considerada como "um bem público produzido pelos governos e realizado por sistemas de incentivo adequados às escolhas de longo prazo", e, nesse sentido, essa noção "pode existir apenas no longo tempo da democracia". Uma democracia que, com a ajuda de John Rawls e Amartya Sen, quase coincide com a justiça social e é definida como "o regime que mira à repartição, do modo mais justo, os bens primários e à correção, dentro do possível, de desigualdades de capacidade".

Um olhar sobre as várias posições que analisam a crise econômica e ecológica seria incompleto sem a teoria do decrescimento, proposta por Serge Latouche, que teve, por causa de seus traços de novidades, ampla ressonância e de cujo manifesto se ocupou mais vezes. Recentemente, foi publicado um livro interessante de Latouche intitulado "Mondializzazione e decrescita. L'alternativa africana" (Editora Dedalo, 2009, 124 p.) que reúne vários escritos dos últimos anos centrados no continente africano. O interesse do texto reside sobretudo no fato de desnudar, de forma clara e compreensível, as raízes, os fundamentos justamente de origem africana aos quais o autor se inspirou para construir a sua teoria do decrescimento sereno.

Surgem assim das páginas do livro a oposição entre a "racionalidade" ocidental e a "razoabilidade" africana, ou os contrastes e as diferenças que dividem a África das elites, a oficial, presa de modelos e produtos impostos pelo mercado global, e a outra África, a abandonada, dos pobres, mas capaz de resistir e de sobreviver graças à economia neoclânica, à lógica do dom, à solidariedade. E surgem, principalmente, os protagonistas concretos dessa economia vernacular, as mulheres, os artesãos, os agricultores que construíram esse estilo de vida resistente e alternativo ao neocapitalismo que, segundo os defensores do decrescimento, pode representar o único caminho para salvar o mundo. Se Latouche, pela sua tensão a uma mudança radical do sistema sócio-econômico, deve ser contado entre os "revolucionários", um texto como "O ecologismo dos pobres" (Editora Contexto), de Joan Martìnez Alier, pertence ao mesmo campo e com veios mais marcados.

Livro materialista, segundo a própria definição do autor, "O ecologismo dos pobres" é um texto centrado no conflito: entre ecologia e economia, mas principalmente conflito entre grupos sociais, entre linguagens diversas. Assim, Alier define a noção de economia ecológica como o estudo do "choque inelutável entre expansão econômica e conservação do ambiente" e das suas formas. Do mesmo modo, a ecologia política não seria outra coisa que o campo interdisciplinar de estudos centrado na análise dos "conflitos ecológicos distributivos".

A ética do conflito

O livro não é em nada um árido manual de teoria. Pelo contrário, parte-se da distinção entre as principais correntes ambientalistas: a da "wilderness", voltada substancialmente a "preservar e manter o que resta dos espaços naturais íntegros que permaneceram fora do mercado"; a da ecoeficiência, que crê no "desenvolvimento sustentável", na "modernização ecológica", no "bom uso" dos recursos; e por fim uma terceira corrente, chamada "justiça ambiental", ou "ecologismo popular" ou ainda "ecologismo dos pobres". Esta última mostra não uma "reverência sacra pela natureza, mas sim um interesse material pelo ambiente como fonte e condição de sustento; não tanto uma preocupação pelos direitos das outras espécies e das generações humanas futuras, mas sim pelos humanos pobres de hoje... A sua ética nasce de uma demanda de justiça social entre seres humanos, hoje".

Essa corrente está no centro da análise do livro que, com escrita ágil e clara, adentra no relato de vários conflitos em várias partes do mundo, compreendendo suas implicações teóricas, as estratégias utilizadas, principalmente linguísticas mas não só, as formas de luta. Enfim, parte-se da análise das lutas para poder compreender a teoria geral. Assim, por meio de histórias ligadas à proteção dos mangues contra a indústria dos caranguejos, à resistência contra as barragens, aos movimentos contra a exploração de gás e de petróleo em áreas tropicais, aos conflitos pela saúde e pela segurança no trabalho, às lutas ambientais urbanas sobre o uso do solo, sobre o acesso à água ou contra certas formas de deposição dos resíduos, e tantos outros relatos de resistência e luta, Alier atinge plenamente o objetivo que se prefigurava com o seu livro, ou seja, o de observar de perto "o crescimento de um movimento global pela justiça ambiental que pode conduzir a economia rumo à adequação ecológica e à justiça social".

Dos movimentos sociais ao nascimento de uma esquerda global

A "green economy" é a expressão que evoca uma desejável mudança nas relações entre a produção e a proteção do ambiente. Fala-se de "economia verde" há mais de uma década, mas foram Al Gore e Barack Obama que a levaram para a frente dos refletores do grande público. O primeiro, por meio de sua atividade de produtor independente, a impôs como um tema central da agenda mundial. Um trabalho de denúncia premiado em 2007 com o Nobel da paz. O presidente dos EUA, por sua vez, indicou na "green economy" a porta de saída da crise econômica. Mas além da versão "mainstream", a ecologia é também o eixo em torno ao qual gira a proposta de refundar a "esquerda política", à luz dos movimentos sociais em defesa do meio ambiente, de crítica a multinacionais agroalimentares e aos faraônicos projetos de "modernização". É esse o fio condutor do livro "The rise of the global left", escrito pelo estudioso brasileiro Boaventura de Sousa Santos e publicado pela editora Zed Books (www.zedbooks.co.uk).

O perigo da utopia


"Se as utopias de esquerda levaram - em muitos casos - ao totalitarismo, a utopia liberal e sua permanente negação do papel do poder e da preparação para a guerra, na história do capitalismo e das relações internacionais, leva, com freqüência, os intelectuais e dirigentes destes países mais fracos, à uma posição de servilismo internacional".

A análise é de José Luís Fiori, cientista político, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em artigo publicado pela Carta Maior, 11-08-2009 e pelo jornal Valor, 12-08-2009.

Eis o artigo.



"...a geopolítica do equilibro de poderes e a prática do imperialismo explícito deixaram de fazer sentido devido a uma série de novos fatos históricos [...], esta abordagem das relações internacionais não tem mais espaço no mundo em que vivemos, do pós-colonialismo, da globalização, do sistema político global, e da democracia [...] com a globalização, todos os mercados estão abertos e é inimaginável que um país recuse vender a outro, por exemplo, petróleo a preço de mercado..[...] Resulta ainda daqueles fatos que a guerra entre grandes países tambem não faz mais sentido [...] No século XX, as guerras entre as grandes potências não faziam sentido porque todas as fronteiras já estavam definidas?" (LUIZ CARLOS BRESSER PEREIRA, "O mundo menos sombrio", Jornal de Resenhas, nº 1, 2009, USP, p:7. )


Na segunda metade do Século XX, em particular depois de 1968, tornou-se lugar comum a crítica dos "novos filósofos" europeus, que associavam a utopia socialista ao totalitarismo. Mas não se ouviu o mesmo tipo de reflexão, depois da década de 80, quando a utopia liberal se tornou hegemônica e suas idéias tomaram conta do mundo acadêmico e político. Logo depois da Guerra Fria, Francis Fukuyama popularizou a utopia do "fim da história" e da vitória da "democracia, do mercado e da paz". E apesar dos acontecimentos que seguiram, suas idéias seguem influenciando intelectuais e governantes, sobretudo na periferia do sistema mundial.

Basta ver a confusão causada pelo anúncio recente da decisão norte-americana de ampliar sua presença militar na América do Sul. Com a instalação ou ampliação de sete bases militares no território colombiano, que deverão servir de "ponto de apoio para transporte de cargas e soldados no continente e fora dele".( FSP,5/8/09) O governo norte-americano justificou sua decisão com objetivos "de caráter humanitário e de combate ao narcotráfico". A mesma explicação que foi dada pelo governo americano, por ocasião da reativação da sua IV Frota Naval, na zona da América do Sul, no ano de 2008 : "uma decisão administrativa, tomada com objetivos pacíficos, humanitários e ecológicos" (FSP, 9/0708).

Uma das funções dos diplomatas é participar deste jogo retórico que às vezes soa até um pouco divertido. E cabe aos jornalistas o acompanhamento destes debates sobre distâncias, raio de ação dos aviões, ameaça das drogas, etc. Todavia os intelectuais têm a obrigação de transcender este mundo da retórica e dos números imediatos, e também, o mundo das fantasias utópicas, o que as vezes não acontece, e não se trata - evidentemente - de um problema de ignorância. Pense-se, por exemplo, na utopia liberal do "fim das guerras" que já não fariam mais sentido entre os grandes países, e contraponha-se este tese com a história passada e a história do próprio século XX e XXI.

Segundo a pesquisa e os dados do historiador e sociólogo norte-americano, Charles Tilly: "de 1480 a 1800, a cada dois ou três anos iniciou-se em algum lugar um novo conflito internacional expressivo; de 1800 a 1944, a cada um ou dois anos; a partir da Segunda Guerra Mundial, mais ou menos, a cada quatorze meses. A era nuclear não diminuiu a tendência dos séculos antigos a guerras mais freqüentes e mais mortíferas [ alias] , desde 1900, o mundo assistiu a 237 novas guerras, civis e internacionais.. [enquanto.] o sangrento século XIX contou 205 guerras" (Charles Tilly, Coerção, capital e Estados europeus , Edusp, 1996, p. 123 e 131.) Mesmo na década de 1990, durante os oito anos da administração Clinton, que foi transformado na figura emblemática da vitória da democracia, do mercado e da paz, os EUA mantiveram um ativismo militar muito grande. E ao contrário da impressão generalizada, "os Estados Unidos se envolveram em 48 intervenções militares, muito mais do que em toda a Guerra Fria, período em que ocorreram 16 intervenções militares". (Bacevich, 2002: p:143). E mais recentemente, os "fracassos" militares dos EUA, no Iraque e no Afeganistão - ao contrário do que dizem - aumentaram a presença militar dos EUA na Ásia Central e o cerco da Rússia e da China, envolvendo, portanto, preparação para a guerra entre três grandes potências.

Em tudo isto, fica clara a dificuldade intelectual dos liberais conviverem de forma inteligente, com o fato de que as guerras são uma dimensão essencial e co-constitutiva do sistema mundial em que vivemos, e que portanto não é sensato pensar que desaparecerão. Ao contrário do que pensam os liberais, a associação entre a "geopolítica do equilíbrio de poderes" e as guerras, não se restringe ao século XIX, ( já havia sido identificada na Grécia), e o sonho do "governo mundial" das grandes potências, já existe pelo menos desde o Congresso de Viena, em 1815, sem que isto tenha impedido o aumento do numero dos estados e das guerras nacionais.

Neste tipo de sistema mundial, por outro lado, é muito difícil acreditar na possibilidade do "fim do imperialismo", e ainda menos, neste início do século XXI, em que as grandes potências - velhas e novas - se lançam sobre a África, e sobre a América Latina, disputando palmo a palmo o controle monopólico dos seus mercados e das fontes de energia e matérias primas estratégicas. E soa quase ingênua a crença liberal nos "mercados abertos", num mundo em que todas as grandes potências impedem o acesso às tecnologias de ponta, não aceitam a venda de suas empresas estratégicas, e protegem de forma cada vez mais sofisticada seus produtores industriais e seus mercados agrícolas.

Neste ponto, chama atenção a facilidade com que os economistas liberais confundem os mercados de petróleo, armas e moedas, por exemplo, com os mercados de chuchu, queijos e vinhos. Em tudo isto, o importante é que a utopia liberal também pode ter conseqüências nefastas, sobretudo para os países que não estão situados nos primeiros escalões da hierarquia de poder do sistema mundial. Se as utopias de esquerda levaram - em muitos casos - ao totalitarismo, a utopia liberal e sua permanente negação do papel do poder e da preparação para a guerra, na história do capitalismo e das relações internacionais, leva, com freqüência, os intelectuais e dirigentes destes países mais fracos, à uma posição de servilismo internacional.