quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Efeito estufa, controvérsias e caminhos

 
 
Dar preço ao carbono é um debate mundial crescente entre os pesquisadores envolvidos com a mudança climática. O ponto é como fazer isso de forma a reduzir a emissão de gases-estufa e financiar a adaptação aos impactos da mudança climática. O exemplo de como alguns países vêm se adiantando a isso é um dos pontos altos do livro "O Imbróglio do Clima" organizado pelo economista José Eli da Veiga, que será lançado no dia 26/11, em São Paulo, na livraria Fnac de Pinheiros, a partir das 16 horas.
 
O comentário é de Daniela Chiaretti, publicado pelo jornal Valor, 25-11-2014.
 
É conhecida a visão cética de Veiga ao processo internacional da ONU na costura de um  acordo climático global. Em seu capítulo no livro, o colunista do Valor diz com todas as tintas que a convenção sobre mudança do clima da ONU foi feita às pressas e que "parece ínfima a possibilidade de que se encontre efetiva solução para qualquer problema global em arenas de 193 Estados". Bombardeia o Princípio das Responsabilidades Comuns Mas Diferenciadas (CBDR, na sigla em inglês), um dos pilares da convenção. Esse princípio reconhece que, se todos têm responsabilidade em relação à crise climática, a quota dos Estados Unidos é diferente da de Burundi. É verdade que há muitos matizes nessa comparação (um país em desenvolvimento como o Brasil não pode ter a mesma responsabilidade que outro como o Haiti, por exemplo) e ajustes dessa gradação estão sendo pensados - inclusive pelo Brasil.
 
O livro reúne quatro autores e dá um panorama atual da ciência do clima e suas controvérsias, além da discussão econômica que envolve o debate climático. É um dos momentos em que Veiga discorre sobre as estratégias dos países pioneiros em dar preço ao carbono. Ele lembra que, entre 1993 e 1997, quando as negociações culminaram noProtocolo de Kyoto, a estratégia que venceu foi a do comércio dos direitos de emissão, conhecida por cap-and-trade (estabelecer um teto de emissões e comercializar as licenças para emitir). O exemplo mais expressivo desse mercado de créditos de carbono é o europeu, que envolve 11.500 empresas, responsáveis por 40% das emissões do bloco, mas que está em crise nos últimos anos, com o preço do carbono muito baixo. Esse caminho, segundo o economista, impediu que deslanchasse o "historicamente comprovado recurso à tributação" e acabou fazendo com que "meros 7% das emissões globais decarbono" estejam hoje dentro desses dois mecanismos de formação de preço.
 
Há taxas-carbono na Dinamarca, Finlândia, Irlanda, Suécia, Reino Unido, Noruega e Suíça. O Chile acaba de criar a sua. O exemplo da Columbia Britânica, no Canadá, merece destaque. É, diz o economista, o melhor dos impostos climáticos em vigor. A taxa na província canadense incide sobre a queima de todos os combustíveis fósseis, sem aumentar a carga tributária. Por uma tonelada de carbonoa empresa pode desembolsar US$ 20, mas, para evitar que os negócios sejam prejudicados, a alíquota do imposto de renda das pessoas jurídicas foi reduzida de 12% para 10%. O problema é que o exemplo tem que ser seguido por outras províncias canadenses e por estados dos EUA, para evitar perda de competitividade.
 
"A única maneira eficaz de se administrar a mudança climática é a adoção de uma taxa mundial, mas incidente sobre o consumo, de modo que o preço de qualquer mercadoria também reflita seu correspondente teor de carbono", resume Veiga.
 
O economista e pesquisador em economia do meio ambiente Petterson Molina Vale volta a esse tema em seu capítulo, uma análise atual da intersecção entre as questões climáticas e a economia. Retoma estudos de economistas como Robert Pindyck, do MIT, que "propõe a pergunta fundamental", diz Vale, sobre "qual dever ser o preço do carbono, e responde categoricamente que "ninguém sabe." Ele ilustra as dificuldades de se criar taxas-carbono com o exemplo da França, que desde 2009 discute o assunto, sempre com muita oposição à ideia. "O custo político da imposição de um preço sobre carbono é elevado, pois se trata de um tributo que incide sobre a base da cadeia produtiva (produção de energia) e com isso se propaga pelo sistema de preços".
 
Vale, que foi aluno de Veiga, também desconstrói qualquer esperança que se possa ter sobre "ações do tipo universalista, em que todos os países com emissões relevantes assumem compromissos de forma sincrônica e coordenada". Para ele, são "inviáveis tanto teoricamente quanto na prática". Ele acredita que, depois da fracassada conferência de Copenhague, em 2009, "o eixo da tomada de decisão passa a ser de países, regiões, cidades e empresas". É uma meia-verdade. É fato que países, regiões, cidades e empresas estão se mexendo bastante na questão climática na imensa lacuna da negociação internacional. Mas a maioria esmagadora das empresas fala muito e faz pouco e muitas políticas públicas locais acabam dando em nada - basta jogar uma lupa em várias políticas climáticas estaduais e municipais brasileiras.
 
O acordo climático é complexo porque tem que fechar, ao mesmo tempo, cortes de emissão, fundos de adaptação, fundos climáticos, proteção das florestas e ver como, afinal, governos decidirão sobre transferência de tecnologia se esta é uma esfera de domínio privado - todos, fronts de ação nascidos nos fóruns climáticos internacionais. Mas parece bastante razoável a afirmação de Vale de que "a ação climática se baseará cada vez mais no princípio do aprendizado pelo percurso, passando-se a priorizar a ação local à negociação internacional."
 
Vale surpreende ao indicar ao leitor um expediente pouco comum nos textos dos estudiosos do clima. Diz que quem não estiver interessado em "complexidades técnicas" pode pular alguns itens. É um artifício simpático, que, no entanto, não funciona no primeiro texto do livro, o que trata da ciência do clima e é escrito pela professora Sonia Maria Barros de Oliveira, do Instituto de Geociências da USP. A ela coube a tarefa de atualizar os achados que estão no último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC, na sigla em inglês), o braço científico da ONU. Em linguagem bastante acessível, transcorre sobre as mudanças nas temperaturas da superfície e nos oceanos, nas geleiras e nos gelos marinhos, na concentração de CO2 e metano na atmosfera e até no que se conhece dos últimos 800 mil anos. É um mergulho no que existe de mais atual na ciência do clima.
 
O que dizer do capítulo escrito pelo físico Luiz Carlos Baldicero Molion? Desperta muito interesse o "Alarme falso: o mundo não está em ebulição!", escrito pelo mais famoso pesquisador brasileiro da corrente que nega que o clima esteja mudando em função das atividades humanas. Mas o debate democrático sobre o tema, proposto por Veiga, pode ser frustrado se o leitor desconhecer o que venha a ser o albedo planetário ou não faz ideia do que quer dizer "a desativação colisional". O recado de Molion é claro, no entanto: "Ninguém, no mundo, mesmo nos países avançados, consegue prever o clima com três meses de antecedência, que se dirá com antecipação de cem anos!". Se ele estiver certo e a esmagadora maioria dos cientistas no Brasil e no mundo, errada, então é melhor seguir a recomendação dos crentes e entregar a Deus toda esta história de mudança do clima.
 
"O Imbróglio do Clima"
José Eli da Veiga (org.). Editora: Senac SP. 164 págs., R$ 54,9

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

A obsessão pelo crescimento econômico como patologia social

do blog do Marcio Valley
Tim Jackson, em seu livro "Prosperidade sem crescimento: Vida boa em um planeta finito", surpreende os leitores ao apontar estudos que desvinculam o sentido de prosperidade individual à posse de riqueza. Questionadas, as pessoas tendem a identificar o desejo de prosperidade, precipuamente, ao bom relacionamento com familiares e amigos, à segurança de si e das pessoas a quem quer bem, à possibilidade de realizar coisas pelas quais se sinta gratificado, à manutenção de um emprego decente com renda meramente suficiente para a manutenção de uma vida digna e ao sentimento de pertencimento a uma comunidade da qual possa participar de forma ativa. Jackson denomina de florescimento a possibilidade do indivíduo alcançar esse conjunto de fatores. A prosperidade, assim, está plenamente vinculada à capacidade do indivíduo de florescer. Alcançar riqueza não é, em geral, incluída pelas pessoas como um dos requisitos do florescimento. Uma renda digna, não riqueza, é um elemento considerado, todavia apenas como um meio para o sucesso na meta do florescimento.
Essa espécie de prosperidade que advém do florescimento independe do crescimento econômico. De fato, é possível imaginar uma economia estável, com crescimento variando em função do número de habitantes do planeta e, sendo assim, tanto podendo crescer, como decrescer, na qual as pessoas consigam viver num ambiente de fraternidade, trabalhando com renda digna, realizando o que gosta de fazer e com segurança, ou seja, florescendo em sua condição de ser humano.
Dessa forma, conclui-se que o crescimento econômico que gera uma imensa desigualdade na distribuição da riqueza, mantendo bilhões de pessoas na mais absoluta miséria, e que não possibilita o florescimento individual, é de pouca serventia se considerado sob o prisma da produção de prosperidade.
A obsessão pelo crescimento do PIB, cuja relação com a prosperidade e a felicidade do ser humana é, para dizer o mínimo, improvável, pode, portanto, ser interpretada como uma doença que conduz o ser humano a desprezar as necessidades do sistema ecológico e a materialização do florescimento individual.
Por outro lado, o economista francês Thomas Piketty, no livro "O capital no século XXI", livro que o prêmio Nobel Paul Krugman não hesitou em denominar de "verdadeiramente soberbo", informa que a inflação não foi um acaso ou um infortúnio econômico, mas resultado de uma ação planejada, em fins do século XIX e início do XX, que extinguiu o padrão ouro das moedas fortes, o que foi feito para possibilitar a emissão de moeda sem lastro. O objetivo? Reduzir, através da inflação, a dívida pública das nações e pagar as despesas das guerras. Em outras palavras, inventou-se a inflação para dar o calote na população. Piketti relata que, até então, a economia crescia, com pouca variação, na proporção do crescimento populacional, às vezes um pouco mais, outras um pouco menos. A partir daí, a inflação tornou-se um problema que, até o momento, não possui solução. Além disso, ele descreve academicamente os motivos pelos quais a inflação, mesmo pequena, de 1% ao ano ou inferior, afeta de maneira perniciosa a economia de qualquer país. Quanto maior a inflação, mais rápidos são sentidos os efeitos daninhos.
Não bastassem todos os problemas acarretados pela invenção da inflação, que Piketti descreve em seu livro, há ainda um que talvez seja um de seus mais perversos efeitos: ela é um dos responsáveis pelo surgimento do consumismo desenfreado a partir de meados do século XX, porque, ao corroer o valor da renda, tanto a proveniente do trabalho, como a do capital, obriga a uma recomposição através do aumento real da economia. Quando o enfatizo como um efeito perverso da inflação, faço-o porque tornou-se o consumismo um fetiche social que antropomorfiza o objeto de consumo e coisifica o ser humano. Hoje em dia, raramente alguém é admirado por sua cultura se não materializa esse valor interno em objetos icônicos externos. "Essa pessoa não pode ser considerada culta e erudita se não mora num bairro chique e não dirige um carro caríssimo", é o que pensam ao excluírem de suas relações a pessoa que optou por uma vida frugal.
Há algo mais ridículo do que uma pessoa, em reunião social, puxar conversa jactando-se de possuir uma determinada marca de relógio ou de automóvel e, ainda por cima, perguntar pelas marcas que o interlocutor costuma adquirir? Como qualificar a auto-exibição de frivolidade de alguém que posta na rede social a fotografia do prato que pediu em determinado restaurante? Essa é a perversidade do consumismo: transforma o ser humano, até onde se sabe o único ser vivo possuidor de inteligência racional do universo, em um pateta superficial que desonra a cultura e é obsedado pela inanidade do exibicionismo.
Esse mesmo consumismo fútil e sem sentido é que, em Bauman, é considerado um dos fatos geradores da liquidez da modernidade, onde tudo é fugaz e difícil de conter por muito tempo, qualificando-se o indivíduo pelo que possui e não pelo valor intrínseco de si mesmo. E preocupa Jackson pela vacuidade do ataque feroz aos recursos naturais e pela expansão da ocupação humana em todos os habitats.
Não há dúvida de que o interesse demasiado pelo crescimento econômico decorre inicialmente do aumento populacional. Para gerar emprego e renda, a economia necessita acompanhar o ritmo da variação no número de pessoas que buscam o mercado de trabalho. Como o século XX gerou um incremento populacional até então inimaginável, essa explosão demográfica exigiu um crescimento da economia à altura. O incentivo ao consumismo nasce, em princípio, dessa urgência econômica. Assim, o primeiro elemento culpado pela necessidade do consumismo é a explosão demográfica.
Entretanto, a inflação, por desvalorizar a economia ainda que mantidas as mesmas condições, obriga à recuperação desse prejuízo no mínimo em idêntico percentual. Passa-se, dessa forma, a existir um segundo elemento que deve ser pelo menos igual ao crescimento econômico para que tudo se mantenha como está, que é a inflação. Muito simplificadamente, num ambiente de crescimento populacional anual de 2% e inflação igual a 2%, um crescimento econômico inferior a 4% será, em tese, um desastre.
O consumismo surge como salvador da economia. Para incrementá-lo, nasce uma publicidade engenhosa e um artifício demoníaco: a obsolescência programada, mecanismo através do qual as coisas são produzidas para durar um curto tempo, obrigando à sua reposição reiterada e ampliando o consumismo.
Remédio, contudo, que está matando o doente ao impôr o pesado ônus de uma agressão sem paralelos ao ambiente em que vivemos. O extrativismo é feroz, a necessidade de ocupação da terra aumenta a cada segundo. Muitas espécies já foram extintas, outras estão em perigo. Diversos ecossistemas são hoje mera lembrança.
Nesse ponto retornamos a Tim Jackson o problema que ele nos apresenta da impossibilidade de crescimento infinito de qualquer subsistema que integre um sistema finito. A finitude do sistema obviamente determina idêntica finitude de todos os subsistemas nele contidos. O sistema denominado planeta Terra é finito, donde decorre que o subsistema ecológico terráqueo é igualmente finito, assim como finitos são todos os subsistemas desse subsistema, inclusive o sub-subsistema econômico. Portanto, a obsessão pelo crescimento econômico infinito e pela riqueza individual infinita são, tanto uma impossibilidade física, como uma patologia social capaz de conduzir ao aniquilamento da civilização.
Por conta disso, Jackson nos coloca a seguinte questão: o crescimento contínuo da riqueza dos indivíduos que já são muito ricos é uma meta saudável a ser perseguida pela economia política num mundo cujos limites ecológicos já foram alcançados e estão perigosamente sendo ultrapassados?
Como ninguém, nem os ricos, desejam a destruição da civilização, é muito possível que, em médio prazo, se inicie um processo de ausência de crescimento ou mesmo de redução da economia. Se isso ocorrer, entra outra questão: como ficará a renda do trabalho? Segundo Piketti, em situações de ausência de crescimento econômico, a tendência de concentração da riqueza em poucas mãos se acentua. Além disso, a tecnologia e o aumento da produtividade torna cada vez mais desnecessária a mão-de-obra humana. De que forma será possível a criação de emprego num ambiente de economia estagnada, de trabalho desenvolvido por artefatos tecnológicos, com alta produtividade e com concentração de riqueza cada vez maior? É possível que o setor de serviços preencha esses espaços?
Para que o setor de serviços crie a maior quantidade possível de empregos, é imprescindível que se pense em redução drástica do número de horas e de dias trabalhados. O ócio criativo surge desse tempo vago e possibilita o florescimento, com cada um procurando fazer aquilo que o realize individualmente. A busca pela cultura, pela saúde, pelo aperfeiçoamento físico e esportivo, pelo lazer, pelo conhecimento de lugares, pelo aprendizado e produção de arte, enfim de toda atividade que sirva ao propósito de construção da individualidade, naturalmente faz surgir o outro lado da moeda: os prestadores de serviços que serão os auxiliares dessa busca. Professores, médicos, artistas, agentes de turismo, profissionais liberais de toda espécie, produzirão grande parte das atividades e da renda necessária, destacando-se que são atividades de baixa produtividade que, por isso, possibilita o surgimento de empregos em quantidade proporcional à demanda. Basicamente, um cabeleireiro do século XIX estava limitado fisicamente a cortar a mesma quantidade diária de cabelos que hoje em dia um cabeleireiro pode cortar.
Entretanto, o setor de serviços não dará conta de gerar a renda necessária para todos os habitantes do planeta. O que fazer? Duas coisas parecem inevitáveis: a redução da população mundial a patamares administráveis e a diminuição forçada da concentração da riqueza.
A redução da população não é difícil e pode ocorrer de forma bastante acentuada em duas ou três gerações, desde que obstáculos morais e religiosos sejam postos de lado. Numa hipótese drástica, e praticamente impossível, se cada mulher tiver apenas um filho, o número de nascimentos será igual à metade da população em uma geração e à metade disso em duas. Nessa hipótese, em pouco tempo, alcançando-se, talvez, uma população de dois bilhões de pessoas, seria possível adotar a taxa de reposição, que é de 2,1 filho por mulher. Em uma suposição menos radical, se cada uma tiver 1,5 filho, a população se manteria estável durante algumas décadas e depois passaria a decrescer.
A redução da concentração da riqueza é necessária para a produção de renda para uma parcela considerável da população que, ao menos no início do processo de reforma da economia política, não encontraria emprego para auferimento de renda. Caberia ao Estado alocar recursos para essas pessoas. Os métodos para alcançar essa finalidade são variados e vão desde a vedação da formação de grandes conglomerados econômicos, com pulverização da produção, até a cassação de parte considerável do direito de herança, passando pela tributação pesada das grandes fortunas. O controle rigoroso sobre os títulos negociados no mercado, com proibição daqueles não vinculados diretamente ao setor produtivo, é uma imposição.
Paralelamente, o retorno de uma ancoragem real para a moeda aparenta ser salutar.
O fato aparentemente indiscutível é que o capitalismo precisará se reinventar.
Pode ser que Marx estivesse certo quando sugeriu que a superação do capitalismo surgiria de suas próprias crises e contradições intrínsecas. Se essa superação resultará em comunismo ou outra coisa, teremos que aguardar para ver.

sábado, 8 de novembro de 2014

Nova biografia de Freud, escrita pela historiadora Elisabeth Roudinesco

 
A vida e a obra de Sigmund Freud (1856-1939), o criador da psicanálise, foram objetos de uma enormidade de estudos. Mais uma biografia, hoje, do célebre autor de “Interpretação dos sonhos” e “Totem e tabu”? Para a historiadora da psicanálise Elisabeth Roudinesco, a escrita de seu “Sigmund Freud — dans son temps et dans le nôtre”(Sigmund Freud — em seu tempo e no nosso) foi uma “imposição”.
A reportagem é de Fernando Eichenberg, publicada pelo jornal O Globo, 27-09-2014.
Com acesso aos novos arquivos abertos pela Biblioteca do Congresso de Washington, nos Estados Unidos, a autora francesa mergulhou na vida e obra do biografado com a intenção de mostrar que Freud é um produto de seu tempo e, ao mesmo tempo, revelar verdades sobre as “lendas negras e douradas” edificadas sobre o personagem. O livro foi lançado este mês na França, pela editora Seuil, e tem publicação prevista no Brasil para 2015, pela Zahar.
Crítica severa de uma psicanálise a-histórica, Roudinesco condena a percepção da obra deFreud isolada do contexto de sua época, estudada como um corpus clínico à parte do mundo em que foi elaborada. Somado a isso os repetidos ataques protagonizados nos últimos 30 anos pelos “antifreudianos radicais”, hoje não se sabe mais quem é Freud, sustenta a autora em entrevista ao Globo em sua casa, em Paris.
Desde a primeira biografia de Freud, de autoria de Fritz Wittels, em 1924, passando pelos três volumes de “Vida e obra de Sigmund Freud”, de Ernest Jones, publicados entre 1953 e 1957 (lançados no Brasil pela Zahar), uma miríade de teses e ensaios foi produzida nos mais variados idiomas, entre os quais o título de referência “Freud: uma vida para o nosso tempo”, de Peter Gay, de 1988 (Companhia das Letras). O minucioso trabalho de 592 páginas de Roudinesco é reivindicado como a primeira biografia francesa do personagem, com uma nova abordagem e distanciamento de um Freud definido como um“conservador rebelde” e criador de uma “revolução simbólica” em um movimento que se perpetua.
Elisabeth Roudinesco será a principal convidada da “IX Jornada Bianual do Contemporâneo”, promovida pelo Instituto de Psicanálise e Transdisciplinaridade, nos próximos dias 3 e 4, em Porto Alegre. No dia 6, estará no Rio para falar sobre “A psicanálise na situação contemporânea”, às 9h, no Instituto de Psicologia da Uerj. OBrasil, para ela, é hoje o “país mais freudiano do mundo”.
Eis a entrevista.
Por que Freud e este livro hoje?
A necessidade se fazia sentir ao longo de um certo tempo de renovar a abordagem deFreud. Sou o primeiro autor francês a fazê-lo, e o último de um longa série. E o primeiro a ir aos arquivos e utilizá-los de uma outra forma. É verdade também que o fim de um ciclo de ondas sucessivas de ódio a Freud, de lendas negativas, de livros negros, já faz 25 anos. Se foi muito longe no antifreudianismo, e se chegou a um ponto em que a opinião pública já estava farta de que se tratasse Freud de nazista, de incestuoso, de canalha. Era preciso restabelecer um pouco de verdade. Eu me dediquei a isto. Os psicanalistas nadam no anacronismo, na interpretação abusiva, porque para eles o contexto histórico não existe. Quis mostrar bem que Freud nasceu num mundo no qual não havia eletricidade, em que a promiscuidade de membros de uma mesma não era a mesma de hoje. Quando ele conta sua vida cotidiana, seja na “Interpretação dos sonhos” ou em outros escritos, é um dia a dia diferente de hoje. Freud foi criado numa família grande, com muitos empregados, sem água corrente. Ele vive nesta promiscuidade em que pode realmente elaborar a teoria dos substitutos. Quando ele vê suas cinco irmãs, vê sua mãe ou seu pai. Há modelos familiares que estão acabando no momento em que teoriza isto. Tive sempre a preocupação de o imergi-lo em seu contexto histórico, e de mostrar que ele e sua obra são um produto de seu tempo.
Na França, o país mais freudiano do mundo, segundo a senhora, há uma rejeição analítica da complexidade da história de Freud. Por quê?
Mais se é freudiano, menos se é histórico. Mas isto está acabando. A França foi o país da renovação da doutrina e não o da herança histórica. Gerações de psicanalistas se interessaram nos textos freudianos de forma estrutural: o corpus sem sua história. Não é um acaso se não houve biografia de Freud na França. Jones, qual seja a crítica que lhe possa ser feita, tem a preocupação da história. O mundo anglófono foi muito mais atento do que o francófono à questão de imergir Freud na história, mesmo se ainda restam como interpretações psicanalíticas. A psicanálise sendo cada vez menos forte na renovação teórica, a preocupação foi de historizar. E nos Estados Unidos, as querelas entre historiadores são muito mais importantes do que as disputas entre psicanalistas. Não é o caso na França. E também não é o caso no Brasil e na Argentina.
O argentino Emilio Rodrigué (1923-2008), primeiro biógrafo latino-americano de Freud, teve, na sua opinião, a “audácia de inventar um personagem mais próximo de um personagem de Gabriel García Márquez do que de um sábio originado da Velha Europa”. A senhora diz que cada país criou seu próprio Freud. Quem é o Freud brasileiro?
Brasil tem esta vantagem de ser aberto a tudo. Os brasileiros são muito abertos à história da psicanálise e a todas as doutrinas, há um sincretismo. É o que foi chamado de antropofagia, este movimento que digere o que vem da Europa fazendo algo novo. Daí esta vivacidade.
Embora a França seja mais forte no plano doutrinal, hoje provavelmente o país mais freudiano do mundo seja o Brasil. Porque no Brasil o ensino da psicanálise se mantém nas universidades de Psicologia, mais do que na Argentina. Mesmo que a implantação da psicanálise tenha sido feita pelos argentinos, que tiveram o golpe de gênio de implantar okleinismo, o freudismo e o lacanismo. Mas a tradição universitária brasileira é muito forte. E o fato de que seja dividida em cidades é muito importante. Não é a mesma coisa no Rio, em Porto Alegre... E eles digeriram tudo que veio da Europa de forma antropofágica. Temos uma abertura maior no Brasil a tudo. O defeito, evidentemente, é que não há escola histórica, mas há uma tradição.
Houve Fernand BraudelClaude Lévi-Strauss, há uma abertura. Os brasileiros são ecléticos, e abertos a novas abordagens, enquanto na França os psicanalistas têm 25 anos de atraso em relação a sua história, infelizmente. E o dogmatismo lacaniano e psicanálitico em geral teve um papel nisso. Mas vamos chegar lá. Já o Freud brasileiro é eclético, é uma mistura de kleinismo, de lacanismo, de invenção brasileira. E neste ponto, Emilio Rodriguécolocou seu tempero. Ele faz variações em seu livro, é um romance latino-americano, se autoriza interpretações extravagantes, ,mas gosto disso, porque ao mesmo tempo há a seriedade do aparelho crítico.
A senhora muitas vezes respondeu a consecutivas iniciativas dos chamados“antifreudianos radicais”, como a tentativa de interdição de uma exposição sobre Freudem 1996, processos na justiça por difamação ou obras como “Mentiras freudianas”, deJacques Bénesteau; “O livro negro da psicanálise — Viver, pensar e melhorar sem Freud”, organizado por Catheryne Meyer, ou “O crepúsculo de um ídolo, a fábula freudiana”, de Michel Onfray, com quem teve uma acirrada polêmica e que não tardou em atacar este seu último livro sobre Freud. O “antifreudianismo” ainda é forte?
Isto nunca acaba. Mas depois ter sido um movimento majoritário, se torna agora minoritário. Assim como os psicanalistas tiveram sua hora de glória majoritária, hoje são minoritários. Mas eles não vão desaparecer. Michel Onfray respondeu que não precisava ler este livro para saber o que havia nele. Quando se diz isso, é o fim de qualquer debate. Há anos ele recusa qualquer debate comigo, e nós nos conhecemos muito bem. Ele delirou, disse que eu o tratei de pedófilo. De qualquer forma, não é apenas em relação a Freud que ele diz qualquer coisa. Fez o mesmo sobre a BíbliaAlbert CamusSartreSade, e vai continuar. Mas num momento a verdade triunfa. Da mesma forma que caiu a Nova Filosofia, todas estas besteiras que há 30 anos nos envenenam. Foi uma corrente não universitária muito sedutora em seu início, jovem, com personalidades brilhantes. Mas que tinham como maior defeito contar qualquer coisa, como dizer que o goulag já existia em Marx e Engels. Isto é uma contraverdade histórica. E de um certo modo a França está pagando hoje por isto. Hoje, estamos na vingança dos historiadores e dos filósofos universitários contra os filósofos midiáticos não universitários. Estamos no fim da Nova Filosofia, do antifreudianismo radical. Vamos passar à herança real.
A senhora define Freud como um “conservador rebelde”. Por quê?
Sem dúvida é um conservador rebelde. Ele entrou em rebelião contra os modos de pensar majoritários de sua época. Ele é um liberal conservador, que induziu uma revolução do íntimo.
É contemporâneo do socialismo, do comunismo, do feminismo, de todos os movimentos de emancipação. Mas sua característica é que retorne sempre ao Antigo, algo muito típico também de Viena e da cultura alemã. Para fazer uma revolução do íntimo, vai buscar modelos míticos na tragédia grega e não na modernidade literária, a qual, aliás, ele não entende muito bem. Ele tem este aspecto politicamente conservador, vota liberal, trabalha com os sociais-democratas em Viena, não confunde jamais o comunismo e o nazismo, mas não acredita que uma revolução social do tipo marxista vai dar certo. Ele é contemporâneo da Revolução Russa.
Não é a favor das convulsões republicanas francesas. Mas seu movimento psicanalítico é aberto, com discípulos de todas as tendências, progressistas, conservadores. Ele era pela emancipação das mulheres, e contra a supressão das instituições. Há uma imagem muito justa de Freud: era favorável à morte do pai, ao regicídio, mas a favor de que se recolocasse um rei no trono. Isto é explicado em “Totem e Tabu”Freud é regicida na condição de que reinstaure a monarquia depois de ter sido abolida. Não é republicano no sentido francês. Ele gosta muito de Paris, mas não é a favor de revoluções do tipo francês. O modelo para ele é Londres, o modelo econômico liberal inglês, e a cultura do Sul, a Itália e a Antiguidade romana.; e mais longe, a grega, e mais longe ainda, o EgitoFreud é um homem da bacia mediterrânica em seus sonhos, algo muito austríaco, entre o Norte e o Sul, e muito ligado ao modelo de monarquia constitucional. E ele é judeu, o que tem um papel considerável. Não é a favor do sionismo, à criação de um Estado judeu, prefere a diáspora, mas herdou algo desta rebelião. Para época de Freud, o inimigo é a religião. Ele é pela ciência. O que faz com que por vezes, em seu debate com o pastor Oskar Pfister (1873-1956), possa se enganar, confunde religião e fé. Mas para esta geração de homens sábios, originados do materialismo, o inimigo é o religioso. Ele tem isto em comum com Marx. Por isso é um conservador bastante singular. Ele é pela liberdade sexual, contra a pena de morte.
Um dos erros de Freud, segundo a senhora, é o de acreditar na construção de uma ciência.
Não é uma ciência, no sentido das ciências da Natureza. Ele sabia disto, por isso que abandonou o modelo fisiológico-neurológico. Mas não soube inscrever a psicanálise como uma disciplina integral na universidade. O que fez com que sempre tenha sido ensinada nos departamentos de PsicologiaAntropologiaSociologiaLiteratura e Filosofia. Teria podido fazê-lo? Não sei, talvez não. Talvez o destino da psicanálise seja o de não ser uma disciplina à parte. Mas hoje estamos novamente em um retrocesso, na ideia de que o corpo e o movimento são mais importantes do que a palavra. Mas isto não vai durar. Estamos numa encruzilhada, se foi muito longe na explicação estritamente química e orgânica do inconsciente. A psiquiatria biológica não existe mais como psiquiatria, ela é química. Há uma contestação. Quando se questiona a os resultados de Freud com seus pacientes, sua resposta é a de que a técnica psicanalítica trata as neuroses, não as psicoses. Durante trinta anos houve um reinado do “tudo químico”. Isto está acabando. Não por um retorno à psicanálise, mas como explicação demasiado totalitária, e pela rejeição dos pacientes.Freud elaborou uma clínica aplicada em seu início às neuroses. Mas eram neuroses graves. Ele mudou, a partir de 1914 percebeu a incurabilidade. Depois, o saber psicanalítico dominou toda a psiquiatria do século 20. Foi uma boa coisa. Antes do aparecimento dos psicotrópicos, era melhor ir em clínicas nas quais havia uma abordagem psicanalítica do que ser um simples sujeito de sanatório. A partir de 1945, os antigos asilos esvaziaram, foi um enorme progresso. E a ideia de combinar a cura pela palavra com medicamentos, para as psicoses, é uma bela definição. Sabemos que para um melhor tratamento da loucura são necessárias três abordagens, de meio ambiente, psíquica e medical. O problema é que mas nossas sociedades de hoje, com economias orçamentárias draconianas, não temos os meios de curar os loucos com os três meios. Então se passou ao “tudo químico”, que funciona mais rápido, mas que é catastrófico. A tripla abordagem se tornou impossível. Nas sociedades precarizadas como as nossas, os doentes mentais e os prisioneiros são muito mal tratados.
No livro, a senhora desconstrói “lendas” como as da autoanálise ou do complexo de Édipo freudianos.
Eu desfaço o complexo de ÉdipoFreud não escreveu uma só linha, exceto sobre o declínio do complexo de Édipo. Falou do complexo de Édipo por tudo, mas não teorizou. A psicologia edipiana não se sustenta. O complexo de Édipo como psicologia de família não funciona. O genial é fazer crer a cada neurótico que ele é Hamlet ou Édipo em vez de um doente mental. É muito melhor ser um herói de teatro do que um simples doente mental em um sanatório. E ele não foi capaz de escrever sobre a metapsicologia. A autoanálise não existe, é uma lenda forte e inventada. O próprio Freud disse que era a “sua autoanálise”, mas não é uma autoanálise, e sim uma passagem pelo erro para se alcançar a verdade. A correspondência com Wilhelm Fliess (1858-1928) não é uma autoanálise, mas uma errância de sábios. Ele errou no irracional para conseguir elaborar uma doutrina que sai da fisiologia. A “pulsão de morte”, um dos momentos fortes de Freud, não começa em 1919, mas em 1914, quando ele se pergunta, para introduzir o narcisismo, por que nos autodestruímos. Penso também que Freud tinha a convicção de que o que acontecia na realidade social já estava no psiquismo. Isto é apaixonante. E tinha a convicção de que o que ele mesmo dizia era revelador do inconsciente, e apenas traduzia, e que a realidade se passava como no inconsciente. Isto não é verdade, mas quanta audácia!
A senhora aponta como uma das grandes forças de Freud a criação de mitos.
Outra audácia sua foi a de fundar uma ciência fundada nos mitos, na racionalidade do estudo dos mitos. Cada livro de Freud provocou debates no mundo inteiro. Quando ele publica“Totem e tabu”, que vai na contracorrente da antropologia moderna, o mundo acadêmico discute este ensaio completamente fora de moda. Isto significa que ele contribui com algo. Quando escreve seus três ensaios sobre a teoria sexual, em vez de fazer um tratado se sexologia, o caso de todos seus contemporâneos, ele se ocupa da teoria sexual das crianças. Para mostrar que o que se considerava como perversões não o era, e que somos todos perversos.
O que é a “revolução simbólica” de Freud?
A lenda é a de que Freud inventou tudo, de que não deve nada a sua época. Não é verdade. Ele inventa algo da ordem que defini como revolução simbólica, remodelando as representações de sua época. Nisso ele é inovador. Quando se lê os psicólogos contemporâneos de Freud, que são válidos, sua superioridade intelectual, literária e imaginativa é evidente. A fraqueza de Freud foi a de não poder introduzir esta disciplina na universidade. E sua força foi a de ter feito um movimento. Ele não cria uma seita, mas um movimento político, revolucionário, platonista. Ele e seus discípulos têm consciência desde o início de serem portadores de uma revolução simbólica. A prova é a de que possuem a preocupação da memória e da história, contrariamente aos psicanalistas. Tinham o pressentimento de que seu mundo iria desaparecer, o que vai ocorrer primeiro com aPrimeira Guerra Mundial, e uma segunda vez, com o nazismo. Aprecio nos primeiros freudianos - que se disputam todo o tempo e que admiram mas não idolatram Freud – este sentimento de que seu mundo vai perecer. Daí vem a imigração, e o fato de que se deve levar a todos os países do mundo a lembrança de Viena. O exílio de Freud, sua casa, suas coleções, é a ideia de que já que tudo vai morrer com o nazismo, é preciso transportar a memória do movimento. Arquivos, fotografias, tudo é transportado para Washington ouLondres. É um gesto incrível. Freud não crer acreditar que o nazismo vai engolir Viena. Ele sabe, mas não quer aceitar. Ele espera por Hitler, e face a essa pulsão de morte, personalizada em Hitler, recua até o momento em que é preciso partir.
Entre as ditas “lendas fabricadas”, como senhora diz, estão suposições de Freud teria sofrido abuso sexual na sua infãncia, vivido uma relação com sua cunhada, abusado ele mesmo de sua sobrinha-neta ou em seu exílio em Londres abandonado suas irmãs, depois deportadas e exterminadas pelos nazistas.
Eu não encontrei nada disso nos arquivos. O que não se sabe é como foi a vida sexual deFreud antes de seu casamento. Ele teve provavelmente a adolescência de um jovem deViena. Não gostava de prostíbulos, do adultério. As mulheres se casavam virgens. Não se sabe o que houve antes, mas se sabe o que veio depois. Ele tinha a necessidade de ter mulheres em seu entorno. Pratica a abstinência, não quer outro filho. Sua cunhada ocupa um lugar muito particular. É uma segunda esposa não sexuada, ele mesmo o diz. Mas é preciso ser completamente louco hoje para colar retrospectivamente o que é a sexualidade atual sobre o que era naquela época. Não há verdades ocultas, mas quis invalidar os falsos rumores. Houve pessoas que negaram a existência do câncer de Freud, o que é fascinante. Ele também não recomendou a Gestapo. Desminto tudo isso. Se construiu uma máquina de fantasias, sejam negras ou douradas, sobre o personagem.
A senhora coloca Freud no mesmo estatuto de Einstein, DarwinMarxSartreSimone de BeauvoirHannah Arendt ou Michel Foucault: pensadores rebeldes vítimas de rumores e injustiças.
Marx se tornou um explorador de mulheres, repugnante, responsável pelo goulag. Há teorias revisionistas sobre Einstein que dizem não ter sido ele o criador da teoria da relatividade, mas sua mulher. E teria sido um pai abominável porque tinha um filho psicótico. Tudo isto não se sustenta. Sobre Darwin também se inventou muita coisa. E sobre Simone de Beauvoirou Sartre, que foi coberto de injúrias. Foucault foi acusado de ser responsável pela transmissão da Aids, e Jacques Derrida, de nazista. Para mim tudo isto deve ser banido. São visões apocalípticas. Sobre Freud, se discutiu quem teria lhe dado a última injeção. Se pretendeu que se teria ocultado o seu uso de cocaína, o que não é verdade. Se acusouFreud de introduzir a cocaína no mundo moderno. E o Freud fascista, amigo de Mussolini? Isso nunca. Sim, ele fez uma dedicatória a Mussolini, mas é preciso contextualizar. Há frases que Freud não pronunciou e que lhe são atribuídas. Há textos interpretados de forma equivocada, sem o contexto. Há de tudo. Estranhamente, os antifreudianos radicais não criticaram o que é criticável em Freud.
Por exemplo?
Não notaram muito as errâncias de Freud. Passam seu tempo a valorizar teses aberrantes para melhor criticar Freud. Os antifreudianos radicais pensam que Williem Fliess tinha razão contra Freud. Não sou por Wilhem Reich (1897-1957) contra Freud, por Otto Gross (1877-1920) contra Freud. Não é isto que se deve fazer, mas mostrar como o próprio Freud adota teorias extravagantes. É normal que Fliess seja hoje esquecido, ele tinha um sistema de pensamento irracional, mas fascinante. Pode-se ter muita simpatia por Reich, como eu tenho,, mas a teoria do orgônio é delirante. Os antifreudianos radicais passam todo o tempo a procurar antiheróis, não usam as verdadeiras críticas que poderiam ser feitas a Freud.
A senhora vê hoje uma crise do pensamento filosófico e da psicanálise hoje na França?
Estamos numa crise de herança na França, passageira, mas numa crise europeia, mundial do pensamento. Há hoje na França uma renovação evidente da filosofia, há uma geração de 40 anos que vai ser conhecida. Há uma renovação da antropologia, da sociologia. Menos para a psicanálise, porque eles estão acantonados na clínica. Daí a importância de um retorno de um Freud histórico. Penso que saímos de um período difícil do ódio a Freud, e hoje é preciso lê-lo de outra forma, como uma necessidade para os psicanalistas. Há trinta anos, os não psicanalistas leem melhor Freud do que os psicanalistas. O que não quer dizer que sejam maus clínicos. Eles não situam Freud na cultura do tempo de Freud, e assim não sabem situá-lo em nosso tempo. “Em seu tempo e no nosso” quer dizer: Freud que se constrói em seu tempo e que nos ilumina no nosso.

sábado, 1 de novembro de 2014

O Brasil na contramão


"Em 2013, o desmatamento aumentou 29% na Amazônia e não há indícios de que voltará a cair em 2014. Ao contrário, dados preliminares do INPE indicam até a possibilidade de um novo crescimento, coerente com a alta observada também no desmatamento em outros biomas, como o Cerrado e a Mata Atlântica", escreve Marcio Santilli, sócio-fundador doInstituto Socioambiental - ISA , em artigo publicado pelo Instituto Socioambiental - ISA, 24-09-2014.
Eis o artigo.
No momento em que se intensificam as negociações internacionais sobre a mudança do clima, o Brasil retoma a velha diplomacia defensiva, se recusa a renovar compromissos com a redução do desmatamento e aumenta as suas emissões de gases do efeito estufa em 2013, após um período de sete anos em que havia conseguido reduzi-las.
O mundo espera que os governos cheguem a um acordo para iniciar um processo de redução global nas emissões desses gases, até o final de 2015, quando se realizará uma conferência da ONU, em Paris, com a presença de chefes de Estado. Até março, os países deverão apresentar perante a ONU os seus documentos oficiais reportando o que pretendem fazer para garantir que essa redução global ocorra. O(A) presidente(a) que será eleito(a) no próximo mês e empossado(a) em janeiro, terá pouco tempo para definir a posição brasileira a respeito.
Não se trata de qualquer assunto, pois a mudança do clima constitui a maior ameaça produzida pela humanidade contra ela mesma e contra a própria possibilidade de vida na Terra. A concentração crescente dos gases de efeito estufa na atmosfera está provocando o rápido aumento da temperatura na superfície do planeta, com o derretimento das geleiras nos polos e nas regiões de altitude, o aumento dos níveis dos oceanos, alterações nos regimes de chuva e tempestades catastróficas em várias regiões do mundo, anunciando muito sofrimento, prejuízos econômicos gigantes e pior qualidade de vida para as próximas gerações.
Não é mais possível adiar as providências de todos os países para diminuir a poluição provocada pelas indústrias, pela profusão de veículos automotores e pelo consumo excessivo de energias fósseis, como o carvão, o petróleo e o gás natural, que produzem cerca de 80% das emissões de gases estufa. Mas também contribui para agravar o problema o desmatamento e o uso inadequado das terras, que provocam a maior parte das emissões brasileiras e cuja redução constitui a maior e mais urgente contribuição que o país pode dar para se evitar mudanças mais drásticas do clima.
Porém, em 2013, o desmatamento aumentou 29% na Amazônia e não há indícios de que voltará a cair em 2014. Ao contrário, dados preliminares do INPE indicam até a possibilidade de um novo crescimento, coerente com a alta observada também no desmatamento em outros biomas, como o Cerrado e a Mata Atlântica. Ainda que a taxa amazônica em 2014 permaneça nos níveis de 2013, estará se caracterizando que as emissões florestais brasileiras subiram para um novo patamar. Não se trata de uma retomada dos escandalosos picos de desmatamento ocorridos entre 1995 e 2005, mas tampouco de um “aumentozinho”, como disse a presidente Dilma Rousseff em conferência da ONU ocorrida nessa semana, ou de um “ponto fora da curva”, como acreditava a ministra do meio ambiente.
Pior: apesar de dispor de uma matriz energética considerada relativamente limpa, se comparada com a dependência de carvão e de petróleo de várias das grandes economias mundiais, ela está se sujando rapidamente através do uso intensivo de termoelétricas devido aos efeitos da própria crise climática sobre os reservatórios das hidrelétricas, do aumento exponencial da frota automotora movida a petróleo, tendo como pano de fundo a falência da produção de etanol e a emergência do Pré-Sal como referência estratégica do setor energético, numa inflexão carbonífera das políticas de governo.
Significa dizer que após a contribuição notável em reduzir o desmatamento e as suas emissões de gases estufa entre 2006-12, o Brasil voltou a aumentá-las, sem que disponha de alternativas estratégicas de política energética para reverter essa situação nos próximos anos. E isto ocorre quando outros grandes emissores desses gases, como a China e osEstados Unidos, além de vários países da União Européia, vão avançando nas mudanças de suas matrizes energéticas e criando condições econômicas objetivas para reduzir as suas emissões.
Infelizmente, o Brasil vai perdendo a condição de protagonista que havia conquistado em tempos recentes no âmbito dessas negociações internacionais. Estamos entrando na sua fase decisiva pela contramão, reforçando as piores posições e funcionando como freio para as mudanças que a humanidade exige e que não podem mais esperar. Mas tomara que as eleições gerais possam gerar outro clima, de seriedade e de engajamento do governo brasileiro nos esforços que mais interessam aos nossos filhos.

sábado, 25 de outubro de 2014

Desordem de Kissinger

 

Henry Kissinger é incansável. Na semana passada publicou seu décimo quarto livro, "World Order" (US$ 18,83, no Kindle).
O homem comandou a política externa americana durante a década de 1970, no auge da competição contra o império soviético.
Desde o início, orquestrou golpes de mestre: aproximou-se da China e construiu uma ponte impensável com Cairo e Tel Aviv, enfraquecendo a União Soviética na Ásia e no Oriente Médio.
Ainda amarrou o Kremlin a um mecanismo formal de controle de armas nucleares.
Seu projeto de restauração do poder americano não parou por aí.
Quando ficou evidente que a guerra norte-americana no Vietnã estava perdida, foi ideia dele declarar vitória e bater em retirada.
Quando países emergentes do sul montaram uma coalizão para negociar preço de commodities em conjunto pela primeira vez, ele criou o clube dos mais ricos, mais tarde G7.
No processo, Kissinger fez coisas terríveis.
Apoiar Pinochet no Chile, o xá no Irã, Suharto na Indonésia, o apartheid na África do Sul, e nosso Médici foi café pequeno.
Os documentos recém-abertos sobre os desmandos em Camboja, Vietnã e Bangladesh revelam uma história de arrepiar.
Não é à toa que até outro dia havia grupos dedicados a caçá-lo pelos aeroportos do mundo, com ovos podres nas mãos.
Aos 91 anos, Kissinger é um velho obstinado, e "World Order" tem certo tom de resmungo.
Lê-se lá que o sistema internacional só pode ser estável, justo e afluente quando há um concerto de grandes potências dispostas a custear a ação coletiva e determinadas a respeitar diferenças mútuas, apesar de sua diversidade de interesses e valores.
Agora, esse equilíbrio estaria sob a pressão de quatro transformações: a incapacidade dos Estados Unidos de respeitar terceiros; a incapacidade da Europa de atuar como grande potência; a desconfiança de China e Índia a respeito dos rituais e práticas da diplomacia ocidental; e a politização do islã, com sua suposta ênfase na construção de uma autoridade transnacional "à la" califado em Meca.
Qual a conclusão? Ou nossos líderes constroem um novo concerto entre grandes potências ou caminharemos para o precipício da desordem total.
Fazê-lo será árduo, porque as novas tecnologias dificultam o trabalho da velha e boa diplomacia entre os grandes.
Essas ideias têm pedigree conservador e podem ser encontradas já no primeiro livro de Kissinger, o delicioso "Mundo Restaurado" (1957).
Encontram eco no trabalho das três melhores mentes de sua geração, quase nunca lidas em nossos claustros universitários: Raymond Aron, Hedley Bull e George Liska.
Trata-se de uma narrativa na qual há pouco espaço para o Brasil, que merece apenas quatro referências esparsas (por não ser grande potência e por nunca haver desenvolvido uma visão própria da ordem global).
Quem se preocupa com o futuro da política externa brasileira faz bem em ler o calhamaço tomando nota. 

sábado, 18 de outubro de 2014

O poder e a finança internacional


 
"Enquanto se mantiver a centralidade internacional da moeda norte-americana, e dos mercados financeiros dos EUA e da Inglaterra, as finanças dos dois países seguirão operando como instrumentos fundamentais da reprodução e expansão do poder global e da hegemonia econômica das duas potencias anglo-saxônicos", escreve José Luís Fiori,em artigo publicado por Carta Maior, 10-08-2014.
Eis o artigo.
A decisão norte-americana de romper com o acordo de Bretton Woods, e  de desregular seus mercados financeiros, tomada na década de 70,  junto com a Inglaterra,  provocou um efeito em cadeia, nos demais mercados do mundo capitalista, desencadeando um intenso processo de liberalização e globalização financeira, e uma enorme concentração da riqueza líquida mundial, nas mãos dos bancos e instituições afins. Este processo de “financierização” da riqueza capitalista se repetiu em todos os níveis e em todos os mercados nacionais, promovendo uma forte convergência dos interesses da finança em todo mundo. Mas esta convergência não homogenizou o poder dos bancos e dos mercados, nem mudou a natureza hierárquica e competitiva do sistema monetário e financeiro internacional.
Os bancos centrais e as grandes instituições financeiras privadas que lideraram este processo e que detém um poder real de coerção sobre a politica econômica dos estados nacionais têm nome e sobrenome anglo-saxão, e tem sua riqueza nominada -  em última instância - na moeda emitida pelos seus dois estados nacionais, ou seja, a Librae o Dólar.   O crescimento acelerado e aparentemente anônimo destes bancos e destes mercados financeiros obscurece muitas vezes o fato de que:

- não existe poder financeiro que não esteja referido a alguma moeda nacional, e que não esteja submetido em última instancia ao poder do estado emissor desta moeda;

- não existem moedas, bancos ou mercados globais, o que existe são moedas e bancos nacionais com poder de circulação e arbitragem supranacional;

- estas moedas de referencia regional ou internacional nunca foram apenas uma escolha do mercado, e sempre envolveram uma prolongada luta e competição entre os estados e suas moedas nacionais, pela  conquista e dominação de territórios econômicos supranacionais cada vez mais amplos;

- é parte do poder dos bancos, agencias e instituições financeiras associadas  as moedas vencedoras, impor aos estados e moedas menos poderosos, as regras e condutas compatíveis com o aumento do seu próprio poder. transferindo os custos de seus ajustes internos para sua periferia monetário-financeira.

Por razões diferentes, vários autores liberais e marxistas costumam sublinhar a grande autonomia contemporânea do capital financeiro e a sua capacidade de submeter os estados nacionais e suas políticas econômicas. Como se existisse um “capital financeiro em geral”, e também existisse uma relação idêntica e homogênea entre este capital e os estados nacionais “em geral”. Quando na verdade se trata de uma relação diferenciada e hierarquizada, como sempre foi através de toda a história do sistema da finança e da economia capitalista.  Uma história que começou por volta do século XIV, com o poder  dos “príncipes” de  impor aos seus súditos o valor dos tributos a serem pagos e o valor da moeda com que deveriam pagá-los, e que também serviam como referencia para todas as demais moedas e títulos utilizados nos mercados que começaram a se expandir nesta época à sombra das conquistas territoriais dos “príncipes” que cunhavam as moedas . Esta relação inicial entre tributos, moedas e trocas, aumentou de intensidade com a expansão das guerras e a necessidade dos príncipes recorrerem ao endividamento junto aos seus  comerciantes-banqueiros, num mercado cada vez mais extenso de títulos e moedas onde nasce o primeiro embrião do capital financeiro, na  “senhoriagem” das moedas e dos títulos dos poderes ganhadores.

Esta história deu um passo gigantesco e um salto qualitativo, nos séculos XVII e XVIII, com a consolidação do poder dos primeiros estados nacionais europeus, e com a “revolução financeira” provocada pela administração e pela negociação das suas “dívidas de guerra”, que estão na origem do capital financeiro moderno, e do próprio capitalismo europeu. Esta revolução começou na Holanda, no século XVII e se completou na Inglaterra, no século XVIII. Os dois países centralizaram seus sistemas de tributação e criaram bancos públicos responsáveis pela administração conjunta, da dívida soberana, na forma de bônus do estado, e da dívida privada, na forma de letras de cambio, que se transformam na base de um sistema de credito cada vez mais elástico, criativo e diversificado, mas sempre referido, em última instancia,  à moeda de conta nacional. E não há duvida que  a fusão entre esta nova finança holandesa e inglesa, a partir de 1689, teve um papel decisivo no fortalecimento e na vitória colonial da Inglaterra, e na projeção internacional da moeda inglesa, a Libra, que foi hegemônica em todo o mundo até sua “quase-fusão’ com o Dólar norte-americano, durante o século XX. Numa espécie de sucessão “hereditária”, que partiu da Holanda e da Inglaterra, e se prolongou nos Estados Unidos, mantendo a supremacia monetário-financeria anglo-saxônica, inquestionável durante os quatro séculos de história deste capitalismo moderno.

Resumindo: dentro do sistema interestatal capitalista só existiram até hoje, de fato, duas moedas de referencia global: a Libra e o Dólar – uma vez que o Florim, a moeda holandesa, jamais teve a dimensão de uma moeda de circulação internacional -  e as duas tiveram e seguem tendo um papel decisivo  na construção e na reprodução do poder  global e associado das duas grandes potencias anglo-saxônicas. Mas nenhuma das duas – nem a  Libra nem o Dólar - se transformou em moeda de referência da noite para o dia. Pelo contrário, a Libra só se generalizou como uma moeda de referencia dentro e fora da Europa, a partir de 1870, quase dois séculos depois do início da escalada do poder da Inglaterra dentro e fora da Europa.  E o Dólar só se transformou numa moeda de referência internacional depois da II Guerra Mundial,  mais de um século depois do início da escalada internacional do poder americano.

Durante o período em que estas duas “moedas internacionais” tiveram uma base fictícia de referência metálica, aLibra e o Dólar tiveram de fato, uma restrição financeira intransponível, imposta pela necessidade de equilíbrio do Balanço de Pagamentos do país emissor da moeda de referência. Mas depois do fim do Sistema de Bretton Woods, em 1973, esta restrição desapareceu, com o novo sistema monetário internacional “dólar-flexível” que não tem nenhum tipo de padrão metálico de referencia.

Por isto, se costuma dizer que ocorreu uma “revolução financeira” na década de 1980, mas esta revolução provocou de fato um retorno às origens da relação entre o poder, a moeda e o crédito. Os EUA voltaram a definir, de forma soberana e isolada - com base apenas no seu poder - o valor da sua moeda e dos seus títulos da dívida pública que se transformaram numa referencia de circulação e liquidez internacional quase automática. E a mais recente “financeirização do capitalismo” cumpriu um papel decisivo na gigantesca acumulação de poder do estado norte-americano, das duas últimas décadas do século XX. Concluindo: enquanto se mantiver a centralidade internacional da moeda norte-americana, e dos mercados financeiros dos EUA e da Inglaterra, as finanças dos dois países seguirão operando como instrumentos fundamentais da reprodução e expansão do poder global e da hegemonia econômica das duas potencias anglo-saxônicos.