quarta-feira, 31 de março de 2010

Oligarquia, radicalismos e crise climática


Abaixo, duas matérias sobre o aquecimento global que, analisadas em conjunto, permitem-nos compor o atual cenário sobre o aquecimento global...



Céticos do clima falam a ruralistas em SP


Na plateia, grandes agricultores do interior do país e estudantes universitários, vários de agronomia. No palco, dois dos principais céticos da mudança climática contando como o jogo virou -para o lado deles.
Esse cenário insólito foi armado ontem em São Paulo, no Fórum Internacional de Estudos Estratégicos para Desenvolvimento Agropecuário e Respeito ao Clima, promovido pela CNA (Confederação da Agricultura e da Pecuária do Brasil), maior organização em defesa dos interesses dos produtores rurais no país.

A reportagem é de Ricardo Mioto e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 30-03-2010.

O evento começou na noite de domingo, quando o vice-presidente da CNA, Assuero Veronez (representando sua presidente, a senadora Kátia Abreu, que está doente) alertou para que não se cometesse "o erro" de limitar a expansão da agropecuária no Brasil em nome do ambiente "sem as devidas convicções científicas".

Ontem a manhã foi do estatístico dinamarquês Bjorn Lomborg e do climatologista americano Pat Michaels. A dupla esteve em São Paulo há exatos dois anos, num contexto diferente: após o relatório de 2007 do IPCC e antes do fiasco de Copenhague, quando o público apoiava a ciência do clima.

Michaels lembrou o crescente número de americanos que dizem achar que as preocupações com o aquecimento global são exageradas. "Você não pode assustar as pessoas para sempre", comentou Lomborg.

Inquirido sobre se os resultados recentes das pesquisas eram uma vitória, ele disse que se tratavam de "uma demonstração de abertura ao diálogo".

Lomborg disse à Folha que está com a agenda cheia para dar palestras mundo afora. "A receptividade mudou muito."

Os dois céticos não negam que o planeta possa estar esquentando. Mas falam que não é possível afirmar com convicção que os humanos são responsáveis por isso, e que, mesmo que sejam, a ideia de cortar imediatamente emissões de CO2 não passa de histeria.

Michaels reafirmou sua posição de que os governos não deveriam gastar dinheiro contra o aquecimento global. "O mercado fará pressão para o desenvolvimento de novas tecnologias mais limpas."

"É, de certa forma, como se você estivesse no Titanic afundando, soubesse disso, e achasse que o melhor é não fazer muita coisa", disse à Folha o físico Luiz Pinguelli Rosa, diretor da Coppe-UFRJ, que também participou do evento.

Michaels, na sua apresentação, mostrou aos agricultores emails roubados de climatologistas da Universidade de East Anglia. Um deles, do americano Ben Santer, dizendo que, se encontrasse Michaels, ficaria "tentado a bater" nele.

Em comum entre céticos e não-céticos, só o pessimismo sobre a cúpula do clima de Cancún, no fim do ano. "Não acontecerá muita coisa", diz Michaels. Até lá, um filme com Lomborg, baseado em seu livro "Cool It", resposta a "Uma Verdade Inconveniente" de Al Gore , já terá sido lançado. "O produtor é Ralph Winter, que ajudou a produzir "X-Men'", diz.


'Os humanos são muito estúpidos para evitar as mudanças climáticas'', afirma Lovelock


Os humanos são muito estúpidos para evitar que as mudanças climáticas impactem radicalmente sobre as nossas vidas ao longo das próximas décadas. Essa é a dura conclusão de James Lovelock, o ambientalista mundialmente respeitado e cientista independente que desenvolveu a teoria de Gaia.

A reportagem é do jornal The Guardian, 29-03-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Ela surge depois de poucos meses tumultuados em que a opinião pública sobre os esforços para combater as mudanças climáticas foi minada por eventos como os e-mails dos cientistas do clima que vazaram da Universidade de East Anglia (UEA) e o fracasso da cúpula do clima de Copenhague.

"Eu não acho que já estejamos evoluídos ao ponto de sermos espertos o suficiente para lidar com uma situação tão complexa quanto as mudanças climáticas", disse Lovelock em sua primeira entrevista em profundidade desde o roubo dos e-mails da UEA em novembro passado. "A inércia dos humanos é tão grande que você realmente não pode fazer nada significativo".

Uma das principais obstruções a uma ação significativa é a "democracia moderna", acrescentou. "Mesmo as melhores democracias concordam que, quando uma grande guerra se aproxima, a democracia precisa ser colocada de lado. Eu tenho um sentimento de que as mudanças climáticas podem ser uma questão tão severa quanto uma guerra. Pode ser necessário colocar a democracia de molho por um tempo".

Lovelock, 90 anos, acredita que a melhor esperança do mundo é investir em medidas adaptativas, como a construção de defesas marinhas ao redor das cidades que são mais vulneráveis à elevação do nível dos oceanos. Ele acha que só um evento catastrófico pode persuadir a humanidade a levar a ameaça das mudanças climáticas a sério, como o colapso de uma geleira gigante na Antártida, como a geleira Pine Island, o que imediatamente iria elevar o nível dos mares.

"Esse seria o tipo de evento que mudaria a opinião pública", disse. "Ou o retorno das tempestades de areia [dust bowls] no meio oeste. Outro relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) não seria suficiente. Só iríamos discutir sobre ele como agora".

O relatório de 2007 do IPCC concluiu que existe 90% de chance de que a emissão de gases do efeito estufa estejam causando o aquecimento global, mas o painel foi criticado por uma afirmação errônea de que as geleiras do Himalaia poderiam derreter até 2030.

Lovelock afirma que os eventos dos últimos meses revelaram os esforços dos "bons" céticos do clima: "O que eu gosto nos céticos é que, na boa ciência, você precisa de críticos que lhe façam pensar: 'Droga, será que eu cometi um erro aqui?'. Se você não tiver isso continuamente, você realmente está em apuros. Os bons céticos fizeram um bom trabalho, mas eu acho que alguns dos ruins não fizeram nenhum favor a ninguém. Você precisa de céticos, especialmente quando a ciência se torna tão grande e monolítica".

Lovelock, que há 40 anos deu origem à ideia de que o planeta é um organismo gigante e autorregulável – a chamada teoria de Gaia –, acrescentou que tem pouca simpatia pelos cientistas do clima que foram pegos no escândalo dos e-mails da UEA. Ele disse que não leu os e-mails originais – "Eu me senti relutante em fuxicar" – mas que o conteúdo divulgado deixou-o "completamente indignado".

"Falsificar os dados é, de qualquer forma, quase literalmente um pecado contra o espírito santo da ciência", disse. "Eu não sou religioso, mas eu digo dessa forma porque eu considero isso muito forte. É o tipo de coisa que você nunca deve fazer. Você precisa manter o padrão".







quarta-feira, 24 de março de 2010

O fim do site Rizoma.net


É uma pena, mas somente hoje percebi que o site Rizoma.net saiu do ar.

Anárquico, vanguardista, provocador, inteligente. O Rizoma foi um marco na cibercultura, divulgando, produzindo ou traduzindo textos, entrevistas, matérias e reflexões libertárias e extremamente inovadoras.

Transgressor e sofisticado, inimigo da vulgaridade e do neo-fascismo jeca que assola o momentum pos-moderno, o Rizoma trafegava/traficava tranquilamente nas fronteiras da arte, filosofia, antropologia, psicanálise ou qualquer outra manifestação da vida, sempre em busca de novos paradigmas, rompendo limites.

No Rizoma pude ler e conhecer mais um pouco do Situacionismo ou das vanguardas punks ou ciber-punks, ou do pensamento anarquista-místico de Hakim Bey, só para ficar nos exemplos mais conhecidos.

Desde o falecimento de seu criador, Ricardo Rosas, o Rizoma vinha passando por mudanças.

No entanto, seu acervo não se perdeu. Parece que o pessoal que continuou a obra do Ricardo está disponibilizando acesso livre, para download, de todo o precioso material publicado.

Altamente recomendado para todos aqueles que se interessam por arte, vanguardas, filosofia, antropologia, anarquismo....

Confira nos links abaixo:




O grande irmão britânico




Big Brother nas lixeiras


A política de vigilância no Reino Unido pode ter alcançado novos níveis. Depois de o governo apresentar uma proposta de implantação de microchips em cães britânicos, há pouco mais de uma semana, é a vez agora de os residentes prestarem atenção ao lixo de suas casas. O grupo de defesa dos direitos humanos Big Brother Watch informou que autoridades de 68 cidades esconderam microchips nas latas de lixo das residências para monitorar os desperdícios de 2,6 milhões de casas.

A notícia é do jornal O Globo, 19-03-2010.

Entre os “vigiados”, estão residentes de Belfast, Bristol e Leeds. Segundo o Big Brother Watch, uma pesquisa realizada no ano passado revelou que, a cada dez pessoas, oito eram contra a medida. O relatório informa que a subprefeitura de Belfast já gastou 27,612 mil libras esterlinas em monitoramento de reciclagem e contaminação através de microchips, afetando 125 mil residências.

A intenção dos governos, de acordo com o grupo, é saber quais medidas de saneamento funcionam de forma adequada e também identificar os melhores recicladores para poder premiá-los.

— Este argumento é similar ao que usaram quando instalaram câmeras nas ruas. Diziam que era para nos proteger da delinquência, mas, na maioria das vezes, as câmeras são usadas para vigiar inocentes. Se não há intenções de nos monitorar e nem nos aplicar multas, por que instalaram esses microchips secretamente? — questionou o diretor da organização, Alex Deane.

Os chips, que têm o tamanho de uma pequena moeda, foram instalados na tampa dos latões. Neles, há informações que identificam cada residência e a quantidade de lixo despejado todos os dias.

Corinne Thomson, porta-voz da Associação de Governo Locais da Inglaterra e de Gales, disse que a operação foi realizada de forma discreta por medo de que as latas de lixo fossem vandalizadas.

— Este avanço tecnológico custou um certo dinheiro aos cofres públicos. Acreditamos que (a implantação de chips) nos ajudará a reduzir os custos de reciclagem e isso contribuirá para baixar os impostos — justificou a porta-voz da associação.

A subprefeitura de Belfast declarou que a instalação de microchips começou há sete anos e que a medida não nunca foi secreta.

“Nós temos informação sobre os microchips das lixeiras no nosso site e já produzimos diversas reportagens na revista gratuita ‘City Matters’ que explicam seu uso. Todos os dados são protegidos e somente funcionários autorizados podem consultá-los”, informou o órgão.

Desde a crise do “mal da vaca louca”, centenas de milhares de animais portam um microchip na orelha. Conhecida como o “passaporte bovino”, a placa eletrônica contém dados vitais da espécie e a identidade do proprietário. O ministro do Interior, Alan Johnson, afirmou que quer a mesma medida para os oito milhões de cães britânicos, como parte de uma iniciativa para controlar cachorros perigosos. A lei também poderá exigir um seguro pago pelos donos de cães a terceiros. Com 4,2 milhões de câmeras — uma para cada 14 habitantes —, o Reino Unido foi classificado pelo sociólogo David Murakami-Wood, da Universidade canadense de Queens, como “o país mais vigiado do mundo ocidental”. No entanto, a própria Scotland Yard já afirmou no passado que o sistema de monitoramento das cidades não coíbe a criminalidade.

segunda-feira, 22 de março de 2010

O ódio pelo Ocidente



Professor de sociologia da Universidade de Genebra e da Sourbonne de Paris, ex-parlamentar socialista do Parlamento Federal Suíço, relator especial da ONU para o direito à alimentação, e hoje vice-presidente do comitê consultivo do Conselho dos Direitos Humanos, Jean Ziegler, ao longo da sua vasta experiência internacional em nível diplomático, institucional e político, registra há muito tempo uma aversão generalizada por parte das populações do Sul do mundo e dos seus representantes internacionais com relação ao Ocidente. Um sentimento difuso, que envolve milhões de pessoas e que é arauto de situações trágicas e perigosas.

Reencontrar as raízes desse ódio, buscar desativá-lo, responsabilizando o Ocidente de modo a construir uma sociedade planetária mais justa, respeitosa das identidades e dos direitos de todos é o objetivo que Ziegler se colocou com o seu livro "L'odio per l'Occidente" [O ódio pelo Ocidente] (Ed. Marco Tropea, 263 páginas).

A análise é de Mauro Trotta, publicada no jornal Il Manifesto, 13-03-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A primeira parte do livro é, por isso, ligada às causas pelas quais, aparentemente de modo imprevisto, explodiu na sociedade planetária esse sentimento de aversão para com o Ocidente. A primeira razão localizada é o brusco reaparecimento da memória ferida dos povos do Sul, ou seja, as recordações relacionadas aos sofrimentos e às humilhações sofridas durante três séculos após a ocupação colonial e o escravismo.

Refazendo-se a tese sobre a memória coletiva de Maurice Halbawachs, que morreu em Buchenwald pouco antes da libertação do campo, Ziegler mostra como as sociedades humanas, do mesmo modo que os indivíduos, tendo uma vez sofrido um choque devido a uma agressão de violência inaudita, têm a necessidade de remover esse evento que a consciência não consegue controlar. E, quanto mais traumático é o evento, mais profundamente ele é enterrado na memória.

Essa memória obscura, porém, não é apagada e depois de um longo período de maturação volta à consciência. É o que ocorreu, por exemplo, com o Holocausto, que começou a ter um reconhecimento coletivo definitivo só duas gerações depois da queda do nazismo, pelo menos, apesar de acontecimentos, amplamente publicizados, como o processo de Nüremberg.

Do mesmo modo, a memória histórica do Sul do mundo, depois de momentos fundamentais para a sua própria reemersão – como a Conferência de Bandung de 1955 que viu o nascimento do Movimento dos Não-Alinhados – parece hoje ter chegado poderosamente à consciência de todos. E às justas reivindicações que os oprimidos dirigem a seus próprios opressores, a resposta, ainda hoje, é marcada pela arrogância, indiferença e desprezo, como mostram os tantos episódios citados no livro do fracasso, provocado pelos ocidentais, das duas conferências contra o racismo de Durban (a última ocorreu em abril de 2009) ao discurso do presidente francês Sarkozy em Dakar em julho de 2007, um tapa na cara dos povos africanos, e não apenas deles.

Se a isso se acrescenta que, há mais de 500 anos, os ocidentais dominam o planeta, as raízes do ódio parecem estar bem mais do que explicadas.

Um domínio que se explica por meio daquilo que, segundo Fernard Braudel escreveu no passado, é a essência mais verdadeira do Ocidente, ou seja, o seu modo de produção, isto é, o capitalismo, que "se fundamenta sobre monopólios de direito e de fato", gerando exclusão e opressão.

E não só: referindo-se a Immanuel Wallerstein, Jean Ziegler nota como o Ocidente é um potentado cujo passatempo preferido consiste em dar lições de moral ao mundo inteiro, usando, porém, uma linguagem ambivalente "quando se trata de desarmamento, de direitos humanos, de não proliferação nuclear, de justiça social planetária".

Assim, relacionando fatos históricos muitas vezes pouco conhecidos e acontecimentos da atualidade contemporânea, mostrando as contínuas humilhações ainda hoje reservadas ao povos do Sul, Ziegler constrói um livro fascinante, atravessado por mais vozes, daquelas dos diplomatas, dos governantes, mas também dos governados, dos oprimidos, movendo-se entre hotéis luxuosos, conferências internacionais, mas também entre periferias, favelas, vilarejos perdidos.

Tudo isso é sustentado por uma escrita ágil e clara e por raciocínios, reflexões e motivações límpidas e praticamente inatacáveis. E ele enriquece o seu texto com dois casos significativos, descrevendo, de um lado, a situação nigeriana, onde o grande poder das multinacionais petrolíferas, dentre as quais a Agip, encontra um apoio perfeito nos governantes do país e, de outro, a revolução boliviana encarnada na eleição do primeiro presidente indígena, Evo Morales.

O autor não se cala nem mesmo sobre os perigos inerentes ao ódio para com o Ocidente, ou seja, a difusão possível de racismos, por assim dizer, ao contrário, que, ligados à cega arrogância ocidental, propõem o etnonacionalismo e o fanatismo tribal.

Contra os predadores do mundo

Jean Ziegler é um estudioso que não compactua com nenhuma moda cultural. Ele poderia ser definido como um socialista ao velho estilo, pela capacidade de analisar as "coisas do mundo" a partir da diferença entre ricos e pobres, entre quem tem poder e quem não tem.

E, por isso, nos seus livros, não se apresenta muito o problema do respeito a um rigor teórico. O método que ele escolhe é o de oferecer amplas respostas sobre rigorosas documentações em torno ao tema que se propõe analisar. Assim, neste "L'odio per l'Occidente" (Ed. Marco Tropea), Ziegler acumula dados e restitui a história das políticas predatórias do Norte do mundo com relação às do Sul.

O livro que o tornou conhecido também na Itália, "A Suíça lava mais branco" (Ed. Brasiliense), uma denúncia do trabalho do sistema bancário suíço com relação ao rio de dinheiro proveniente de atividades ilícitas do mundo. Tese retomada também no ensaio contido em "Il libro nero del capitalismo" (Ed. Il Saggiatore). Nos últimos anos foram publicados: "Os senhores do crime" (Ed. Record), "A fome no mundo explicada a meu filho" (Ed. Vozes), "La privatizzazione del mondo" (Ed. Marco Tropea), e "L'impero della vergogna" (Ed. Marco Tropea).