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quinta-feira, 20 de março de 2014

O Facebook perderá 80% de seu público

diz estudo da universidade de Princeton

Em três anos, o Facebook perderá 80% de seus atuais usuários. A previsão não é de uma adivinho de um espaço noturno de televisão. É de dois pesquisadores do departamento de Mecânica e Engenharia Espacial da prestigiosauniversidade de Princeton.
A reportagem é de Javier Martín, publicada no jornal El Pais, 23-01-2014.
John Cannarella e Joshua A. Spechler, autores do estudo, não baseiam suas conclusões em pesquisas de tráfego ao uso dos tradicionais medidores, senão na dinâmica de expansão e desaparecimento de doenças infecciosas, como a gripe. Para isso, empregaram a atual ferramenta de GoogleTrends para prever, por exemplo, a expansão da gripe pelo mundo.
O Modelo epidemiológico na dinâmica das redes sociais, título do ensaio, trata de explicar e de prever o rápido crescimento das redes sociais, bem como sua não menos rápida queda, para isso toma como modelo mais sintomático -por ter completado esse ciclo- a rede MySpace que, no início do século era a indiscutível líder mundial para cair no ostracismo em um par de anos.
Segundo sua analogia Gripe-rede socialFacebook alcançou seu pico em 2012 e a partir de então teve uma queda, concretamente de 20% em dezembro de 2013. E para justificá-lo baseiam-se nas buscas através de Google, buscador maioritário no mundo. Seguindo seus paralelismos de curvas de crescimento e queda, os dois pesquisadores estimam que entre 2015 e 2017 o Facebook perderá 80% de seus atuais usuários, que são pouco mais de 1,1 bilhão, isto é que só teria cerca de 230 milhões de usuários.
Não são os primeiros que preveem a queda do Facebook, entre outras coisas porque a experiência assim o diz, mas sim os que a quantificam em tempo e dados, e além disso em uma cifra tão exorbitantes. Sem ir mais longe, há alguns dias o GlobalWebIndex assinalou que no último trimestre o Facebook perdia 3% de usuários, embora lhe tirou importância.
O mesmo Facebook reconheceu uma queda de visitas entre os mais jovens pelo que tenta os recrutar através de serviços que eles empregam, como foi o caso do Instagram, que comprou, ou a rede SnapChat de auto-eliminação de mensagens em segundos, por quem ofereceu 3 bilhões de dólares (7 bilhões de reais), sem sucesso.
O estudo de John Cannarella e Joshua A. Spechler tem, no entanto, o defeito de se basear nas buscas do Facebookatravés de Google, quando já a metade das visitas a esta rede social se realizam desde aparelhos móveis com sua aplicação. Em qualquer caso, bastará esperar o final do ano para comprovar se a rede social cairá esses 20% ou um pouco mais para comprovar esses 80% de perda de audiência.

domingo, 3 de outubro de 2010

WikiLeaks




A organização de denúncias WikiLeaks, que divulgou relatos da guerra do Afeganistão esta semana, transformou a publicação de segredos do governo em sua missão. Muitos veem seu fundador Julian Assange como um herói, mas outros, incluindo o Pentágono, consideram-no uma ameaça à segurança nacional.
Ele entra rapidamente, quase num salto. Antes de cumprimentar qualquer pessoa na sala, procura uma tomada para seu pequeno computador preto.
É um notebook simples e barato, mas as agências de inteligência do mundo pagariam muito dinheiro para terem a chance de ver o que há lá dentro.
O nome dele é Julian Assange. Ele acabou de voltar de Estocolmo, depois de uma breve estadia em Bruxelas. Antes disso, ficou fora do radar por algumas semanas.
Assange é praticamente um homem procurado hoje em dia. É quase como se ele estivesse em fuga.
Cinco agentes do Departamento de Segurança Interna dos EUA tentaram visitá-lo há duas semanas, pouco antes de uma conferência em Nova York da qual ele deveria participar. Mas seus esforços foram em vão. Assange decidiu ficar na Inglaterra depois que seu advogado disse que várias outras agências do governo também estavam muito interessadas em falar com ele. O secretário de Defesa Robert Gates recentemente caracterizou Assange e seu trabalho como “irresponsáveis”.

Fórum para denúncias anônimas


Assange é o criador da plataforma wikileaks.org na internet. Junto com um punhado de funcionários em tempo integral e muitos voluntários, ele opera o site desde 2007. O WikilLeaks reúne e publica material que empresas e agências do governo classificaram como secreto. O site funciona como um fórum para informantes e publica apenas documentos originais – em outras palavras, nada de rumores nem material escrito pela equipe do WikiLeaks.

No passado, o WikiLekas já publicou e-mails escritos pela ex-candidata à vice-presidência dos EUA Sarah Palin, relatórios sobre as atividades corruptas do ex-líder queniano Daniel Arap Moi e documentos secretos do campo de detenção norte-americano na Baía de Guantánamo. Nessa época, o site era visitado principalmente por pessoas da área, mas ganhou atenção internacional em abril, quando Assange convidou um grupo de jornalistas ao Clube Nacional de Imprensa em Washington para assistir a um vídeo.

O filme mostrou o ataque fatal, em 2007, de um helicóptero Apache norte-americano contra um grupo de cerca de doze civis em Bagdá, dois deles funcionários da agência de notícias Reuters. As vozes da tripulação do helicóptero também eram audíveis, seus comentários cínicos acrescentavam horror às imagens do vídeo. Desde o incidente, a Reuters havia tentado, em vão, obter uma cópia do vídeo. Assange, entretanto, conseguiu uma. Foi seu maior furo jornalístico até hoje.





Uma ameaça à segurança nacional


Para alguns, Assange e seus colaboradoras são heróis lutando pela liberdade total de informação e contra qualquer forma de censura. Mas, para outros, eles são traidores.

Do ponto de vista das autoridades norte-americanas, o australiano é uma séria ameaça à segurança nacional – algo que o Pentágono até mesmo colocou em palavras. Já em 2008, os militares norte-americanos classificaram o WikiLeaks como um sério problema de segurança e discutiram qual era a melhor forma de combater o site. Esse documento também vazou para Assange – e foi publicado no wikileaks.org.

Desde então, alguns expressaram preocupações com sua segurança, e até mesmo com sua vida. Mas não está muito claro se o homem que agora estava ligando o seu computador em Londres é perigoso ou está em perigo. Ele certamente chama a atenção: um homem alto e magro com cabelo branco e uma pele que parece pálida demais para o verão – em parte porque passou as últimas semanas preparando seu novo projeto e quase não saiu ao ar livre durante o dia.

Numa sala do quinto andar do prédio que abriga os escritórios do “Guardian”, ele está dando ao jornal britânico, ao “New York Times” e à “Spiegel” uma prévia de um conjunto de mais de 90 mil relatórios individuais sobre a guerra no Afeganistão, a maior parte deles marcados como “secretos”.

“Brutalidade cotidiana”


A publicação desse arquivo, diz Assange, não só mudará a forma como o público vê a guerra, ela também “mudará a opinião de pessoas que ocupam posições influentes na política e na diplomacia”. De acordo com Assange, os documentos “revelam a brutalidade cotidiana e a sordidez da guerra” e “mudará nossa perspectiva não só sobre a guerra no Afeganistão, mas sobre todas as guerras modernas.”

O arquivo contém informações de inteligência, avaliações e muitos nomes, tanto de oficiais militares quanto de fontes. A publicação de documentos militares secretos de uma guerra, que nunca foram pensados para o público, levanta novas questões. Será que isso é jornalismo e está dentro do direito do público à informação? É um olhar legítimo por trás da máquina de propaganda de guerra? Ou é um ato de espionagem, e Assange e seus colaboradores são culpados por revelar segredos do governo? E eles estão no fim das contas prejudicando as tropas internacionais e os informantes afegãos que as ajudam?

Uma base de dados num pen drive


O WikiLeaks e sites como ele já mudaram a forma como governos e corporações lidam com informações delicadas.

Sempre existiram informantes, empregados de companhias ou agências do governo que deixam vazar informações confidenciais para a imprensa para chamar atenção para acontecimentos indesejáveis e corrupção, ou para expor abusos de poder. Mas uma base de dados tão extensa sobre a guerra, que cabe num único pen drive USB e portanto pode ser facilmente publicada na Internet, é um novo fenômeno.

Será que o WikiLeaks é o novo farol do esclarecimento? Ou o site representa uma ameaça às nações democráticas, porque permite que um ex-hacker e alguns colaboradores próximos decidam que peça de informação explosiva revelarão na sequência – sem dar à outra parte a chance de contar seu lado da história ou tomar medidas legais para impedir o vazamento? “Essas pessoas podem publicar o que bem entenderem e nunca são responsabilizadas por isso”, disse o secretário de Defesa Robert Gates, em resposta à divulgação do vídeo sobre o caso do helicóptero em 2007. Raras vezes um membro do governo dos EUA pareceu tão impotente.

O problema começa com o fato de que o WikiLeaks, até hoje, continua sendo muito mais uma ideia brilhante do que uma organização no sentido convencional. Ele não tem uma sede e nem mesmo um endereço, apenas uma caixa posta anônima na Universidade de Melbourne. Até agora Assange e um colega alemão, que se apresenta como Daniel Schmitt, são as duas únicas pessoas envolvidas com o WikiLeks que mostraram seus rostos em público. Do contrário, a operação consiste em pouco mais do que o próprio site, alguns endereços de e-mail e uma conta do Twitter que os organizadores usam para relações públicas. Os servidores, que estão distribuídos pelo mundo todo em lugares com leis que fornecem proteção extensiva a informantes, são o cerne da operação. Doações cobrem os custos anuais de cerca de US$ 258 mil, e Assange e Schmitt nem mesmo recebem um salário.

Altamente inteligente


Na reunião em Londres, logo ficou claro a forma como o WikiLeaks depende dos ativistas – e, em grande parte, do pequeno laptop preto de Assange. Também ficou claro que os adversários de Assange têm nesse homem confiante e altamente inteligente de 39 anos de idade um oponente a ser levado a sério.

Assange trabalha obsessivamente na base de dados com a qual o WikiLeaks pretende tornar a guerra no Afeganistão mais tangível. Ele usa uma combinação estranha de jaqueta amassada, camiseta, calças cargueiras e tênis gastos. Ele não fez a barba e tem a aparência de quem não dorme há duas noites. Pessoas bem intencionadas e próximas dizem que ele precisa urgentemente de algumas semanas de férias.

Assange discorda. Seus dedos voam pelo teclado, e vez ou outra ele para e diz alguma coisa. “Precisamos de uma função que relacione os incidentes de acordo com sua importância relativa”, diz ele em sua voz profunda e sonora. Não demora muito e ele instala um filtro que permite aos usuários do site buscarem os milhares de incidentes individuais de acordo com sua “importância”. Assagne escolheu o número de mortes de civis como principal critério. Também é possível buscar por data e região na base de dados, e todos os incidentes estão ligados a um mapa que mostra exatamente em que lugar do Afeganistão aconteceram. É a guerra na forma de uma apresentação multimídia.

“Rá”, diz ele de repente. “Inacreditável”. Ele descobriu outro exemplo grotesco do jargão que os militares usam para descrever a realidade no campo de batalha. O termo é: “ausência de sinais vitais” - em outras palavras, morto. A linguagem da guerra o fascina, o que explica porque o WikiLeaks chamou o vídeo de Bagdá de “Collateral Murder” [“Assassinato Colateral”]. Sua intenção ao escolher o título, diz Assange, era expor o termo cínico “collateral damage” [“dano colateral”] e tornar impossível seu uso.

“Nosso critério é claro como água”


Quando Assange fala sobre esse projeto – ao longo do jantar, por exemplo, durante o qual o australiano pediu apenas duas bolas de sorvete de cardamomo – ele tem a intenção de passar a ideia de que o WikiLeaks é um projeto radical, cuidadosamente concebido. Assange toma bastante tempo para refletir antes de responder às perguntas, e insiste em dar a resposta completa. Ele não gosta de ser interrompido.

Assange diz que teve a ideia básica nos anos 90, e em 1999 reservou o domínio leaks.org. Para Assange, a regra fundamental nas sociedades abertas deve ser a de que todos sejam capazes de se comunicar abertamente sobre tudo. A experiência, diz ele, mostra que onde quer que existam segredos, costuma haver irregularidades, porque pessoas em posição de poder tendem a usar segredos em sua vantagem.

Se esta visão estiver correta, algumas pessoas poderosas no mundo provavelmente deveriam ficar muito preocupadas, porque o WikiLeaks tem supostamente muito material ainda não publicado. Quem decide o que é publicado, e quando?

A fonte, diz Assange. Sempre que recebe uma denúncia anônima, o WikiLeaks pergunta ao informante se ele ou ela acreditam que o material tem relevância política ou moral. “Nosso critério é claro como água, e se ele é atendido, nós publicamos”, diz Assange.

Quem é “nós”? “No final, alguém precisa estar no comando, e essa pessoa sou eu”, diz Assange. “E quando fico em dúvida, sempre publico.”

Vivendo como um nômade


É uma posição notável para uma organização que não divulga nem mesmo os nomes dos cinco funcionários que supostamente emprega – e para um homem que tenta evitar questões sobre sua própria vida. Alguns fatos básicos, de qualquer forma, parecem claros.

Assange nasceu em 1971 numa família de artistas em Queensland, Austrália. Seus pais eventualmente se separaram. Sua mãe se casou novamente, mas o relacionamento também fracassou. Foi tão desastroso, que a mãe o pegou e fugiu do segundo marido, chegando até a viver com um nome falso por algum tempo.

Já nesta época ele já tinha uma vida de nômade, e teria frequentado quase 40 escolas diferentes.

Nos anos 80, a Idade da Pedra da internet, quando o computador pessoal era um Commodore 64 e os modems eram conhecidos como “conectores acústicos”, Assange desenvolveu uma paixão por computadores e redes. Mais tarde ele ganhou renome na comunidade de hackers de Melbourne, depois de entrar em redes corporativas e do governo, incluindo computadores militares dos EUA.

“Era Deus Todo Poderoso andando por aí fazendo o que gostava”, disse um promotor público alguns anos depois. O grupo de hackers ao qual Assange pertencia monitorava até a investigação da polícia federal sobre eles mesmos online. Assange foi eventualmente multado e condenado a um período de liberdade condicional. Uma reportagem de televisão sobre o caso mostra Assange de casaco e óculos escuros, com seus cabelos longos e castanhos presos num rabo de cavalo. O grupo de hackers se autointitulava “Subversivos Internacionais”.

Assange já tinha um filho pequeno quando foi condenado. Ele também era novo quando se tornou pai, e logo se envolveu numa complicada e amarga batalha pela custódia da criança, que durou vários anos – e levou a novos desentendimentos com agências do governo.

Uma tentativa de se vingar?


Será que o WikiLeaks é simplesmente a forma que um hacker magoado e gênio não reconhecido da computação encontrou para se vingar? Por causa de sua história pessoal, será que Assange quando Assange fala sobre o “inimigo” ele não está de fato falando sobre o governo?

É esse tipo de pergunta que os jornalistas costumam fazer a Assange. Ele os odeia com a mesma intensidade com a qual despreza o carimbo de “secreto” nos documentos oficiais. Para ele, o WikiLeaks também é um projeto para transformar a mídia tradicional. Ele quer que os usuários formem suas próprias opiniões com base nos documentos originais, sem nenhum viés jornalístico. Mas com o vídeo “Assassinato Colateral”, o WikiLeaks violou seus próprios princípios por acrescentar um título editorializado, pelo qual Assange recebeu algumas críticas.

O problema, diz o australiano, surge na cabeça do repórter. Ele prefere revistas científicas, com suas notas de rodapé e listas de referências. Embora descreva a si mesmo como um jornalista investigativo, seu trabalho é na verdade mais parecido com o de um arquivista e bibliotecário. Não é nenhuma acidente o fato de ele ter registrado o WikiLeaks como uma biblioteca na Austrália.

Assange e seus colegas podem estar muito satisfeitos com o andamento do WikiLeaks no momento. Há alguns dias, o australiano deu uma palestra para jornalistas investigativos em Londres, enquanto seu colaborador alemão Daniel Schmitt falava em Hamburgo – ambos foram aplaudidos com entusiasmo. Eles receberam o prêmio de mídia da Anistia Internacional no ano passado.

Sob tensão


Mas o projeto está sob tensão desde 29 de maio. Nesse dia, Bradley Manning, soldado norte-americano de 22 anos, foi preso na Base Operacional Hammer no Iraque e levado a uma prisão militar no Campo Arifjan no Kuwait.

Os militares norte-americanos tornaram públicas as acusações contra Manning, um ex-analista militar. Eles alegam que entre 19 de novembro de 2009 e a primavera deste ano, ele baixou o vídeo de Bagdá publicado pela WikiLeaks, assim como 150 mil mensagens diplomáticas secretas do Departamento de Estado norte-americano e uma apresentação secreta em PowerPoint.

Os militares acusam Manning de ter passado o vídeo e 50 relatórios para uma “pessoa que não estava autorizada a recebê-los”. De acordo com um porta-voz do Exército dos EUA, se for condenado, Manning poderá receber até 52 anos de prisão.

Parece que Manning acabou se entregando sem querer. Em 21 de maio, ele teria começado uma série de conversas pela internet com um hacker norte-americano chamado Adrian Lamo. A revista norte-americana “Wired” publicou trechos das conversas.

Dublando Lady Gaga em silêncio


Um dos lados da conversa, que as autoridades norte-americanas acreditam que seja Manning, abriu o coração para Lamo, um completo estranho para ele até então. Ele descreveu como era capaz de acessar as redes secretas SIPRNET e JWICS através de dois computadores, e que também encontrou material desprotegido num computador da Central de Comando norte-americana (CENTCOM). “Não acredito que estou confessando isso a você”, disse ele.

Nas conversas, ele até revelou como teria retirado o material de seu local de trabalho. Ele disse que colocou CDs virgens em seus computadores de trabalho no Iraque, CDs que ele havia intitulado antes de “Lady Gaga”, para criar a impressão de que ele estava levando CDs de música para casa. De acordo com as conversas, Manning disse que “ouvia e dublava em silêncio a música 'Telephone' de Lady Gaga enquanto filtrava o que talvez fosse o maior vazamento de dados da história norte-americana.”

Ele fez várias referências ao WikiLeaks e a Assange, com quem dizia estar em contato. E também sugeriu que estava motivado por uma profunda insatisfação com a situação local e os militares norte-americanos.

Lamo informou o FBI e entregou o registro de suas conversas. Em entrevistas para a mídia norte-americana, ele tentou justificar suas ações dizendo que temia que a segurança nacional estivesse ameaçada. Manning foi preso pouco tempo depois.

Entregando os informantes


O caso de Manning se transformou numa situação delicada para o WikiLeaks e Assange. Ela lembra misteriosamente um cenário montado para prejudicar o WikiLeaks que os militares norte-americanos criaram num documento secreto em 2008. De acordo com esse cenário, a identificação bem sucedida, o julgamento e a revelação de indivíduos que passam informações para o WikiLeaks prejudicariam e possivelmente até destruiriam o site, e impediriam que outros tivessem atitudes semelhantes.

Como o fundador do WikiLeaks se sente com a suposta autoincriminação do soldado norte-americano?

“Se acreditarmos na alegação, Manning foi traído por um jornalista e hacker norte-americano que não tem nada a ver com o WikiLeaks”, diz Assange. “Não podemos salvar as pessoas delas mesmas, infelizmente.”

Não temos a mínima ideia se Manning era nossa fonte”


Manning pode também ter sido a fonte do material sobre o Afeganistão, como alguns observadores estão especulando agora? “Não temos a mínima ideia de quem era nossa fonte”, diz Assange. “Estruturamos nosso sistema de forma que não sabemos a identidade de nossas fontes.”

E por que o WikiLeaks quer dar assistência legal a Manning, se o site de fato instalou dispositivos técnicos de segurança para tornar impossível saber quem enviou o material?

“Temos que ajudar todas as nossas supostas fontes”, diz Assange. “Devemos lembrar que independente de Manning ser ou não a fonte do vídeo “Assassinato Colateral” ou de ele estar diretamente ou acidentalmente envolvido com qualquer material que publicamos, ele é um jovem que está preso no Kuwait por ter sido acusado de ser nossa fonte.”

Ficando na casa de apoiadores no mundo inteiro


Depois da prisão de Manning, Assange também desapareceu por algumas semanas, e seus advogados o aconselharam a não viajar para os Estados Unidos. “Um de nossos contatos informou que estavam considerando me acusar de conspirar para a espionagem”, diz ele.

Este é o motivo pelo qual ele se registrou num hotel em Londres com um nome falso e depois desapareceu rapidamente para ficar na casa de um de seus apoiadores, como aconteceu frequentemente nos últimos anos. Ele ficou em vários lugares em todo o mundo, do Quênia à Islândia, onde ele e uma equipe de voluntários preparavam-se para publicar o vídeo de Bagdá.

As precauções valem para todos em seu grupo. Quando Jacob Appelbaum, um conhecido programador da comunidade da internet, defendeu Assange numa convenção de hackers em Nova York há dois fins de semana, ele até mesmo contratou um dublê para se passar por ele depois de dar sua palestra. O próprio Appelbaum foi direto para o aeroporto, levando apenas seu passaporte, algum dinheiro e uma cópia da Constituição norte-americana, e tomou um voo para fora do país.


Cada vez mais cauteloso

Daniel Schmitt, o representante alemão do WikiLeaks que é, ao lado de Assange, a segunda voz mais importante do site, também se tornou mais cauteloso.

Durante um encontro com a “Spiegel” num café de Berlim, Schmitt olha ao seu redor para ver se não há ninguém ouvindo a conversa. Ele também diz que não quer que tirem fotos na sua presença.

A Alemanha é um dos locais mais importantes para o WikiLeaks, e serve como um dos pilares da organização relativamente dispersa. O WikiLeaks recebe muitas denúncias em alemão, recebe assistência técnica de pessoas associadas ao Clube de Computação Chaos, uma influente organização alemã de hackers, e os apoiadores alemães são responsáveis por uma grande parte das doações.

Schmitt, 32, é magro, usa barba e óculos. Ele estudou ciências da computação e trabalhou com segurança de TI antes de se dedicar totalmente ao WikiLeaks. Ele parece comum se comparado ao excêntrico Assange, que era conhecido por andar por Londres de meias e saltar e virar estrela de repente.

Só o começo

Uma fundação chamada “Amigos do WikiLeaks” deve ser lançada na Alemanha este ano. Schmitt está trabalhando num panfleto designado a encorajar as pessoas a revelarem informações, que ele quer que os voluntários entreguem em frente ao Reichstag, onde fica o parlamento alemão, e o Ministério da Defesa. Ele também considerou colocar anúncios no metrô.

Os dois homens, Assange e Schmitt, dizem que o WikiLeaks tem uma montanha de documentos não publicados à sua disposição – e que isso é só o começo.

“Se quisermos usar uma metáfora de alpinistas, estamos apenas no acampamento base”, diz Assange.

Então ele fecha seu pequeno laptop preto, guarda-o dentro de sua mochila de nylon cinza-grafite, e sai da sala.


Tradução: Eloise De Vylder




Fonte:

http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/derspiegel/2010/10/03/o-wikileaks-e-bencao-ou-maldicao-para-a-democracia.jhtm

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Deleuze e o Tarô







Retirei o excelente texto que se segue do Blog: Cosmos e Consciência.
Clique no link para acessar o texto completo, que possui uma interpretação delueziana para as cartas do tarô, aqui não reproduzida.



Deleuze e o Tarô

Rascunho rumo a um pensar em êxtase

Por: Nelson Job

Em magia, como em religião e em linguística,
são as idéias inconscientes que agem.

Marcel Mauss

A filosofia “deleuziana” se presta a quê? Se presta a pensar em limiar, a pensar com, sem amarras, sem limites, em ressonância. Deleuze dialogou com vários filósofos clássicos, com a física, a biologia, a antropologia, a literatura, o cinema, a pintura, a psicanálise, a química etc. Em um artigo anterior, “Ontologia Onírica”, nos dedicamos a evidenciar as ressonâncias entre a filosofia da diferença (tendo Deleuze como atrator), a física “pós-newtoniana”, o hermetismo e a literatura de ficção científica pré-cyberpunk. Tais relações permitem uma ressonância mais específica: a relação entre os principais conceitos de Deleuze (e da filosofia da diferença) com os arcanos maiores do tarô.

Sobre o tarô, pouco desenvolveremos. As imagens devem falar por si. Existem inúmeros livros sobre tarô, mas nenhum deles vai fornecer o mais relevante: a relação intensiva e intuitiva com as imagens.

Uma filosofia como a de Deleuze ser relacionada com um saber pagão como o hermetismo, e, por conseqüência, com o tarô, não nos surpreende. Deleuze, em seu texto “Nietzsche e São Paulo, D. H. Lawrence e João de Patmos” faz um belo elogio ao paganismo (simbólico), que possui conexões vivas, em detrimento do judaísmo e cristianismo (alegóricos) com seu amor abstrato (dar sem nada tomar) e o Apocalipse já industrial (que, com o seu “Juízo” - pré kantiano - Final, nos desconecta com o cosmos).

O paganismo é uma relação de êxtase com o cosmos, onde a vida é celebrada. Não nos surpreende que um antropólogo como Eduardo Viveiros de Castro, dado a reviravoltas deleuzianas, relacione o seu trabalho etnográfico (que envolve o xamanismo Yawalapíti e Araweté) com o filósofo neo-platônico Plotino, em seu texto “A Floresta de cristal”. Nele, é formulada uma operação que nos é cara: “Seria preciso apenas trocar a metafísica molar e solar do Um neo-platônico pela metafísica da multiplicidade lunar, estelar e molecular indígena”.

Plotino é o primeiro grande filósofo do êxtase (lembrando que "êxtase" significa literalmente "sair de si mesmo"). Francis Yates, em seu brilhante “Giordano Bruno e a Tradição Hermética”, o considera o verdadeiro iniciador histórico do hermetismo. Porfírio, seguidor de Plotino, nos diz que seu mestre sofreu quatro êxtases em que ele sofria tremores e tinha visões, donde os textos das “Enéadas” derivavam-se a partir de tais êxtases. Deleuze celebra o conceito de “contemplação” em Plotino, que já era uma relação onde sujeito e objeto se misturavam.

O autor que Deleuze considera o seu “plano de imanência”, Spinoza, também tinha várias influências místicas (a cabala judaica, por exemplo), como afirma Marilena Chauí em sua máquina do tempo “A Nervura do Real”. Vale lembrar que Bergson, outro grande atrator na obra de Deleuze, possui um livro chamado “A Energia Espiritual”, onde afirmava a telepatia e a vida após a morte. As questões de Deleuze seriam místicas, mas não com essa alcunha: mistura de sujeito e objeto, problematização da atomização do eu, conexão intensiva com a Natureza apenas para sair dela rumo ao inominável: o devir contra-natureza e a criação de Corpo sem Órgãos.

Uma relação do tarô com Deleuze já foi feita, sobretudo enfatizando o seu caráter semiótico, por Inna Semetsky. A nossa abordagem é diferente, relacionando conceitos filosóficos. François Jullien - esse um grande autor cujo conjunto de obra é um extensivo trabalho relacionando a filosofia do Ocidente e o pensamento chinês - em seu livro “Figuras da Imanência”, realizou um ótimo estudo relacionando o “I Ching”, antigo livro oracular chinês, com vários conceitos da filosofia da diferença.

O tarô, como quase tudo relacionado ao conhecimento antigo, tem um passado incerto. Costuma-se afirmar que tenha se originado no Antigo Egito, com o hermetismo. Os jogos de carta começaram a se popularizar na Europa no séc XIV e o tarô mais popular – com o qual lidaremos neste texto – conhecido com o Tarô de Marselha, surgiu no final do séc XV, constituído por 22 arcanos maiores, de sentido mais geral e por 56 arcanos menores.

Jogar tarô é mais e menos que realizar um “oráculo”. Mais do que “dizer o futuro”, o tarô realiza o princípio hermético de correspondência, a saber: tudo o que está em cima é como o que está embaixo. Desse princípio se desenvolve, por exemplo, a astrologia, que é um embrião da astronomia. O princípio hermético da correspondência é o mais profícuo (e popular, daí um texto apenas para ele: “Fractais quânticos monádicos”) de todos, pois possui ressonância com a teoria do caos (fractais), mecânica quântica (“colapso” de onda) e filosofia, já que o conceito leibniziano de mônada, se origina no hermetismo. Então, jogar tarô é ver o presente, grávido de passado e futuro



Fonte:
http://cosmoseconsciencia.blogspot.com/2010/02/deleuze-e-o-taro.html

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Edgar Morin: Elogio da metamorfose



Artigo de Edgar Morin


“A verdadeira esperança sabe que não tem certeza. É a esperança não no melhor dos mundos, mas em um mundo melhor. A origem está diante de nós, disse Heidegger. A metamorfose seria efetivamente uma nova origem”, escreve o sociólogo e filósofo francês Edgar Morin, em artigo publicado no jornal francês Le Monde, 9-01-2010. A tradução é do Cepat.

Edgar Morin nasceu em 1921, é diretor de pesquisa emérito no CNRS, presidente da Agência Europeia para a Cultura (Unesco) e presidente da Associação para o Pensamento Complexo. Em 2009, publicou Edwige, l’inseparable (Fayard) [‘Edwige, a inseparável’, dedicado à sua esposa morta]. Ler também, La Pensée Tourbillonnaire - Introduction à la pensée d’Edgar Morin, de Jean Tellez (éditions Germina). (“O pensamento turbulento. Introdução ao pensamento de Edgar Morin”).

Segue o artigo.

Quando um sistema é incapaz de tratar os seus problemas vitais, se degrada ou se desintegra ou então é capaz de suscitar um meta-sistema capaz de lidar com seus problemas: ele se metamorfoseia. O sistema Terra é incapaz de se organizar para resolver seus problemas críticos: perigos nucleares que se agravam com a expansão e, talvez, a privatização das armas atômicas; degradação da biosfera; economia mundial sem verdadeira regulação; retorno da fome; conflitos étnico-político-religiosos que tendem a se desenvolver em guerras de civilização.

O aumento e a aceleração destes processos podem ser considerados como o desencadeamento de um poderoso feedback negativo, um processo pelo qual um sistema se desintegra irremediavelmente.

A desintegração é provável. O improvável, mas possível é a metamorfose. O que é uma metamorfose? Nós vemos inúmeros exemplos no reino animal. A lagarta que se fecha num casulo começa um processo ao mesmo tempo de destruição e de autoreconstrução, como uma organização e uma forma de borboleta, diferente da lagarta, permanecendo a mesma. O nascimento da vida pode ser concebido como a metamorfose de uma organização físico-química, que, tendo chegado a um ponto de saturação, cria a meta-organização viva que, embora tendo os mesmos aspectos físico-químicos, produz novas qualidades.

A formação das sociedades históricas – no Oriente Médio, na Índia, na China, no México, no Peru – constitui uma metamorfose a partir de um conjunto de antigas sociedades de caçadores-coletores, que produziu as cidades, o Estado, as classes sociais, a especialização do trabalho, as grandes religiões, a arquitetura, as artes, a literatura e a filosofia. E também as piores coisas: a guerra e a escravidão. A partir do século XXI se coloca o problema da metamorfose das sociedades históricas em uma sociedade-mundo de um novo tipo, que englobará a ONU, sem suprimi-la. Porque a continuação da história, isto é, das guerras, por parte dos Estados com armas de destruição em massa, leva à destruição da humanidade. Ainda que, para Fukuyama, sejam as capacidades criativas da evolução humana que se esgotaram com a democracia representativa e a economia liberal, devemos pensar que, ao contrário, é a história que se esgota e não as habilidades criativas da humanidade.

A ideia de metamorfose, mais rica do que a ideia de revolução, guarda a radicalidade transformadora, mas a liga à conservação (da vida, do patrimônio cultural). Para ir rumo à metamorfose, como mudar de caminho? Mas se parece possível corrigir alguns males, é impossível romper a lógica técnico-científico-econômico-civilizacional que leva o planeta ao desastre. No entanto, a História humana mudou muitas vezes de caminho. Tudo recomeça por uma inovação, uma nova mensagem desviante, marginal, pequena, muitas vezes invisível para os contemporâneos. Assim começaram as grandes religiões: budismo, cristianismo, islamismo. O capitalismo se desenvolveu parasitando as sociedades feudais para finalmente decolar e, com a ajuda de monarquias, desintegrá-las.

A ciência moderna formou-se a partir de algumas mentes desviantes dispersas, Galileu, Bacon, Descartes, e então criou suas redes e associações, se introduziu nas universidades no século XIX, e depois, no século XX nas economias e nos Estados para se tornar um dos quatro poderosos motores da nave espacial Terra. O socialismo nasceu de algumas mentes autodidatas e marginalizadas no século XIX para se tornar uma formidável força histórica no século XX. Hoje, tudo tem que ser repensado. Tudo deve recomeçar.

Com efeito, tudo começou, mas sem que se soubesse. Estamos no estágio de começos, modestos, invisíveis, marginais, dispersos. Porque já existe, em todos os continentes, uma efervescência criativa, uma multiplicidade de iniciativas locais, em conformidade com a revitalização econômica, ou social, ou política, ou cognitiva, ou educacional ou ética, ou da reforma da vida.

Estas iniciativas estão isoladas, nenhuma administração as leva em conta, nenhum partido toma conhecimento delas. Mas elas são o viveiro do futuro. Trata-se de reconhecê-las, inventariá-las, cotejá-las, catalogá-las, combiná-los e de conjugá-las em uma pluralidade de caminhos reformadores. São estes caminhos múltiplos que podem, através de um desenvolvimento conjunto, se combinar para formar o novo caminho que nos levaria em direção à metamorfose ainda invisível e inconcebível. Para desenvolver formas que vão desembocar no Caminho, é preciso identificar alternativas limitadas, que limitam o mundo do conhecimento e do pensamento hegemônicos. Assim, é preciso ao mesmo tempo globalizar e desmundializar, crescer e diminuir, desenvolver e envolver.

A orientação mundialização/desmundialização significa que, se é preciso multiplicar os processos de comunicação e de planetarização culturais, é preciso que se constitua uma consciência da Terra-Pátria, mas também é preciso promover, de maneira desmundializante, a alimentação de proximidade, os artesanatos locais, as lojas locais, a jardinagem suburbana, as comunidades locais e regionais.

A orientação “crescimento/decrescimento” significa que precisamos aumentar os serviços, as energias verdes, os transportes públicos, a economia plural capaz de incluir a economia social e solidária, o desenvolvimento da humanização das megacidades, a pecuária orgânica, mas diminuir as intoxicações consumistas, a alimentação industrializada, a produção de objetos descartáveis e não consertáveis, o tráfego de automóvel, o tráfego de caminhões (em benefício do transporte ferroviário).

A orientação desenvolvimento/envolvimento significa que o objetivo não é mais fundamentalmente o desenvolvimento de bens materiais, da eficiência, da rentabilidade, do cálculo; é também o retorno de cada um às necessidades interiores, o grande retorno à vida interior e ao primado da compreensão do outro, do amor e da amizade.

Já não basta mais apenas denunciar. Precisamos propor. Não basta apelar à urgência. É preciso saber também começar a definir os caminhos que levarão ao Caminho. É para isso que estamos tentando contribuir. Quais são as razões para ter esperança? Podemos formular cinco princípios de esperança.

1. O surgimento do improvável. Assim, por duas vezes a vitoriosa resistência da pequena Atenas à formidável força dos persas, cinco séculos antes da nossa era, foi altamente improvável e permitiu o nascimento da democracia e da filosofia. Igualmente inesperado foi o congelamento da ofensiva alemã diante de Moscou, no outono de 1941, e depois a contra-ofensiva vitoriosa de Jukov que começou em 5 de dezembro e, depois, no dia 8 de dezembro com o ataque a Pearl Harbor, que marcou a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial.

2. As virtudes geradoras/criadoras inerentes à humanidade. Assim como existem em qualquer organismo humano adulto células-tronco dotadas de habilidades polivalentes (totipotentes) próprias às células embrionárias, mas inativas, existem em cada ser humano, em cada sociedade humana, virtudes regeneradoras, geradoras e criativas em estado dormente ou inibidas.

3. As virtudes da crise. Ao mesmo tempo que forças regressivas e desintegradoras, as forças criadoras despertam na crise planetária da humanidade.

4. Com o que se combinam as virtudes do perigo: “Aí onde cresce o perigo cresce também o que salva”. A chance suprema é inseparável do risco supremo.

5. A aspiração multimilenar da humanidade à harmonia (paraíso, depois utopias, depois ideologias libertárias/socialistas/comunistas, depois aspirações e revoltas juvenis dos anos 1960). Esta aspiração renasce no formigueiro de iniciativas múltiplas e dispersas que alimentarão o caminho da reforma, consagradas a se unirem ao novo caminho.

A esperança estava morta. As gerações mais velhas estão decepcionadas com falsas esperanças. As gerações mais jovens se desconsolam com o fato de que não haja mais causas como a nossa resistência durante a Segunda Guerra Mundial. Mas a nossa causa trazia em si o seu contrário. Como disse Vasily Grossman de Stalingrado, a maior vitória da humanidade foi ao mesmo tempo a sua maior derrota, desde que o totalitarismo stalinista saiu vitorioso. A vitória das democracias restabeleceu no mesmo ato seu colonialismo. Hoje, a causa é inequivocamente sublime: trata-se de salvar a humanidade.

A verdadeira esperança sabe que não tem certeza. É a esperança não no melhor dos mundos, mas em um mundo melhor. A origem está diante de nós, disse Heidegger. A metamorfose seria efetivamente uma nova origem.



Fonte:

http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=28829

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

A identidade em tempos de Google



"Como a nossa existência está se tornando um fluxo contínuo de informações, uma infinidade de cursos que vão nas mais diversas direções, não só a identidade se confirma ser sempre mutável, mas corre o risco de se tornar completamente instável."

Essa é a opinião de Stefano Rodotà, jurista e político italiano, professor de direito na Universidade de Roma "La Sapienza", em artigo para o jornal La Repubblica, 14-12-2009. Rodotà é um dos autores da Carta Europeia de Direitos Fundamentais, além de ser ex-presidente da Comissão Ital iana de Proteção de Dados e do Grupo Europeu de Proteção de Dados. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Como se pode hoje responder à antiga pergunta: "Quem sou?". Até ontem, mesmo que entre muitas cautelas, podia-se dizer "eu sou aquele que digo ser". Mas já entramos em um tempo em que sempre mais se deverá admitir: "eu sou aquilo que o Google diz que eu sou". E aí, naquele interminável catálogo do mundo e nos infinitos outros bancos de dados que implacavelmente conservam informações pessoais, é construída a nossa identidade, em formas que sempre mais fogem do controle do próprio interessado.

Sabíamos desde sempre, talvez, que o olhar do outro contribui para definir a nossa identidade. Escrevia Sartre que "o judeu depende da opinião sobre a sua profissão, sobre os seus direitos, sobre a sua vida". Essa dependência cresceu de modo determinante nos últimos 30 anos, desde quando a eletrônica não só tornou possível reunir e conservar uma quantidade tendencialmente infinita de dados, mas principalmente permitir encontrá-los rapidamente, colocá-los em relação entre si e, assim, traçar perfis que se tornam os instrumentos por meio dos quais qualquer um de nós é conhecido, avaliado, continuamente reconstruído. A identidade "digital" triunfa, corre o risco de ser a única mediação com o mundo, colocando problemas antes impensáveis. Como a nossa existência está se tornando um fluxo contínuo de informações, uma infinidade de cursos que vão nas mais diversas direções, não só a identidade se confirma ser sempre mutável, mas corre o risco de se tornar completamente instável, confiada como é a uma multiplicidade de sujeitos, qualquer um dos quais constrói, modifica, faz circular imagens da identidade de outros.

Qualquer um que tenha uma bio grafia na Wikipedia, a grande enciclopédia na rede construída por meio da contribuição de todos os que querem intervir, sabe que é bom mantê-la sob controle, para corrigir erros, eliminar invenções, integrá-la com elementos que os autores consideraram irrelevantes, justamente para evitar que uma falsa identidade seja projetada no mundo.

Um assunto de poucos? Consideremos, então, a comunicação eletrônica no seu conjunto, aquela que envolve todos, incluindo crianças, e que se realiza por meio do telefone fixo e móvel, os SMS, o correio eletrônico, os acessos e a presença na Internet. De tudo isso, permanecem rastros, conservados por lei até durante longos períodos. O resultado? A possibilidade de reconstruir toda a rede de relações de uma pessoa (a quem telefonou ou mandou SMS ou mensagens de correio eletrônico e com qual frequência), sobre os seus deslocamentos (de onde telefonou), dos seus gostos (quais sites acessou), das s uas opiniões ou crenças (com qual partido ou Igreja esteve em contato).

Diz-se porém que nesses casos a garantia é oferecida pelo fato de que não são conservados os conteúdos das conversas ou das mensagens (mesmo que nem sempre isso é assim). Mas essa aparente garantia esconde um risco muito grande. Comparemos com a questão controversa das interceptações. Nesses casos, se falei com uma pessoa envolvida em fatos pouco claros ou ilegais, ainda posso demonstrar que a conversa era totalmente estranha à matéria da investigação. Se, ao invés, da lista de chamadas telefônicas resulta apenas o fato da ligação, permanece a suspeita de um contato equívoco. Não por acaso grandes associações europeias pela defesa dos direitos civis estão pedindo à União Europeia justamente a modificação das normas sobre a conservação desses dados.

Está mudando a natureza mesma da sociedade, que se transforma em "sociedade do registro" , na qual, por razões de segurança ou interesses de mercado, determina-se um ininterrupto fichamento de tudo e de todos. Assim, todos vivem em um universo onde retalhos da identidade de cada um estão espalhados em bancos de dados diversos. Assim, a identidade se torna múltipla; articula-se por meio da apresentação na cena do mundo com uma multiplicidade não apenas de pseudônimos, mas também de representações de si; conhece diversos graus de persistência pública, que variam segundo a intensidade com a qual é reconhecido um "direito ao esquecimento", ligado principalmente à possibilidade de fazer desaparecer da rede informações que se referem a nós.

E a livre construção da personalidade se relaciona sempre mais amplamente ao "direito de não saber", de bloquear a chegada de informações indesejadas. Uma liberdade que poderá ser melhor garantida pelo novo "direito a tornar os chips silenciosos", isto é, do poder da pessoa de dispor de instrumen tos tecnológicos que possam, em qualquer momento, interromper as diversas formas de coleta das suas informações pessoais por meio de aparatos eletrônicos, livrando-se assim de controles externos. Parece evidente que a identidade se define sempre mais claramente com base na relação entre pessoa e tecnologia, na progressiva imersão em um ambiente povoado por "objetos inteligentes", que fornecem infinitas informações sobre os nossos comportamentos.

Mas muda também o significado "relacional" da identidade. As redes sociais, emblema da Internet 2.0, encarnam essa mudança. Recorre-se ao Facebook para ser visto, para conquistar uma identidade pública permanente que supera os 15 minutos de fama que Andy Wahrol considerava que deveriam se tornar um direito de cada pessoa. Alimenta-se o "público" para dar sentido ao "privado". Exibe-se um conjunto de informações pessoais, o "corpo eletrônico", assim como se exibe o corpo fí sico por meio de tatuagens, piercings e outros sinais de identidade. A identidade se faz comunicação.

Mas o que ocorre a essa identidade totalmente virada para o exterior? Ela se torna mais disponível para qualquer um que queira se apossar de um número sempre crescente de informações que se referem a nós, recolhidas em lugares às vezes inalcançáveis e utilizadas por sujeitos às vezes desconhecidos. A identidade corre o risco de se tornar "inconhecível", a sua construção obriga a uma ininterrupta peregrinação em rede, para descobrir quem fala de nós, para impedir abusos. Mas ao longo desse caminho descobrimos como pode se tornar vã a pretensão do "conhece a ti mesmo".

A construção da identidade, portanto, se efetua em condições de dependência crescente do exterior, do modo em que é estruturado o ambiente no qual vivemos, do "digital tsunami" que está se abatendo sobre nós, que alimenta a bulimia informativa de órgãos de segurança e de atores do mercado, todos desejosos de se adonar da crescente quantidade de informações que pode ser produzida por cada contato que estabelecemos, por cada objeto que operamos. Aqui nasce uma ininterrupta produção de "perfis" pessoais, que estabelecem confrontos com modelos de normalidade e levam a assumir uma identidade "obrigada", necessária para a aceitação social, para fugir de estigmatizações ou de custos na atividade cotidiana.

Justamente para evitar esses condicionamentos, projetam-se formas de identidades funcionais, que comunicam ao exterior só aquela porção de identidade estritamente necessária para a realização de um determinado resultado. Partindo da premissa que já estamos no mundo das identidades múltiplas, a pessoa deveria poder autonomamente gerir um perfil que se refere à saúde, um outro para a aquisição de bens e serviços e assim por diante, portanto, uma "rede de identidades" que evite os riscos relaciona dos ao fato de ter que se revelar integralmente ao exterior.

Mas justamente o requisito da autonomia corre o risco de ser cancelado pelas experimentações sobre o "autonomic computing". Pode-se, de fato, criar um esquema que "captura" a identidade em um determinado momento e depois a desenvolve com base em uma série de informações fornecidas por um multiplicidade de fontes, sem participação e conhecimento por parte do interessado. A separação entre identidade e autonomia pode, assim, tornar-se total. Parte-se de uma identidade "congelada", que é depois confiada a algoritmos que irão construir o futuro. Podemos fechar os olhos diante dessa perspectiva, esquecendo que a lógica do algoritmo onisciente está entre as causas da devastadora crise financeira?


domingo, 20 de dezembro de 2009

Greve dos imigrantes: uma iniciativa lançada via Facebook


Os canteiros de obras irão parar de uma hora para a outra. As fábricas irão fechar. Os mercados hortifrutigranjeiros ficarão vazios. Abandonados, os campos de tomates. Fechados, restaurantes, hotéis e pizzarias. É um dia sem imigrantes: 24 horas sem empregadas, babás, agricultores, operários, enfermeiros estrangeiros. Quem lançou a primeira greve de imigrantes na Itália foi o Facebook, com dois grupos ativos, milhares de inscritos e uma dezena de associações de imigrantes comprometidos.

A reportagem é do jornal La Repubblica, 15-12-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Além da fronteira, uma iniciativa semelhante já está em curso na França, também graças ao Facebook. Uma jornalista, Nadia Lamarkbi, se perguntou: "O que aconteceria se o nosso país acordasse amanhã sem nós, imigrantes?". O dia escolhido pelos franceses é o dia 1º de março de 2010, e em poucos dias aquela que parecia só uma provocação se transformou em um encontro concreto, com mais de 45 mil inscritos. Não falta um precedente: no dia 1º de maio de 2006, nos Estados Unidos, quem cruzou os braços foram milhares de trabalhadores hispânicos.

Agora a ideia contagia a Itália. São dois os grupos ativos. O primeiro, intitulado "1º de março de 2010, 24 horas sem nós", conta com mais de três mil inscritos (entre italianos e estrangeiros) e se inspira na Jornada Sem Imigrantes, organizada na França, e se propõe a organizar uma "grande manifestação de protesto para fazer com que a opinião pública entenda quanto é determinante a contribuição dos imigrantes na manutenção e no funcionamento da nossa sociedade".

O segundo grupo, ainda no Facebook, chama-se "Blacks Out – Um dia sem imigrantes", fixa a data da greve para o dia 20 de março de 2010 e vê a adesão dos representantes de muitas associações de imigrantes: Eugen Terteleac, presidente da Romenos na Itália; Vladimir Kosturi, presidente da associação Illiria (Albaneses na Itália); Iualian Manta, presidente da Voz dos Romenos; Yacouba Dabre, secretário do Movimento pelos Africanos; Khalid Chaouki, responsável pela Segunda Geração dos Jovens Democráticos; a associação bengalesa Dhuumcatu; Wu Zhiqiang, presidente do Sindicato Chinês Nacional; Hu Lanbo, diretora da revista mensal China na Itália; Gaoussou Ouattara, membro da Junta dos Radicais Italianos.

E não só. Ao grupo, aderem também a Acli (Associação Cristã dos Trabalhadores Italianos, mais de 980 mil inscritos, 4.500 círculos), com o seu presidente Andrea Olivero.

"Um vento xenófobo varre o nosso país – escreve Aly Baba Faye, sociólogo, entre os promotores do grupo 'Blacks Out' – e a resposta da política é uma só: abrir a temporada de caça ao imigrante com a desculpa da irregularidade, declarar guerra à sociedade multiétnica e repropor a equação 'imigrante igual a criminoso'. Por isso – continua Faye em seu apelo – um dia antes da Jornada Mundial contra o Racismo, uma semana antes das eleições administrativas italianas, no dia 20 de março de 2010, a partir das 00h01min, os novos italianos irão parar".

Portanto, dois grupos, para duas datas diferentes. "Mas estamos trabalhando - conta Faye – para unificar as forças e as datas, para que esse compromisso não seja uma ocasião desperdiçada".

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Quando o mundo da Internet se torna movimento político





Com a difusão da web no mundo, um bilhão e 700 milhões de usuários (¼ da população mundial), certamente existem hoje mais instrumentos para resistir ao poder. Valores e interesses alternativos podem ser melhor defendidos diante daqueles que prevalecem. Entre poder e contrapoder, para usar a expressão de Manuel Castells, o jogo está em aberto (e não fechado em vantagem do primeiro), graças às redes sociais, às comunidades virtuais, ao Facebook, MySpace, Twitter, ao e-mail, a toda forma de Internet móvel e à autocomunicação individual de massa, que caracteriza a paisagem tecnológica contemporânea. A barreira da porta de ingresso para a cena pública se levantou.

A reportagem é de Giancarlo Bosetti, publicada no jornal La Repubblica, 10-12-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A mobilização "lilás" ["cor da vitalidade e da autoafirmação"] do No-B Day [No Berlusconi Day], construída em menos de 20 dias, mostra que a praça web começou a funcionar também na Itália. As "smart mobs", as multidões inteligentes das quais Howard Rheingold fala há anos, já fizeram várias aparições: nas Filipinas, em 2001, foi um movimento organizado com os SMS para impulsionar a renúncia do presidente. Na Espanha, depois do atentato de Atocha, as teses do governo foram descartadas e punidas com o voto, por meio dos celulares. No Irã, a contestação das últimas eleições viajava pelo Twitter. Cita-se entre nós o precedente de Beppe Grillo, com o seu V-Day, mas se tratava de um personagem já muito conhecido.

Pelo contrário, a Praça San Giovanni, no último dia 05 de dezembro, ficou cheia por meio de organizadores pouco conhecidos. Era evidente o caráter "horizontal" da mobilização, acentuado pela colocação dos políticos entre os espectadores.

Nos EUA, a política já foi amplamente redesenhada pela web. Obama havia recrutado Chris Hughes, um dos fundadores do Facebook, para a sua campanha, e ele deve ao YouTube tanto quanto J. F. Kennedy deve à TV e F. D. Roosevelt ao rádio. Trata-se do país com o mais alto índice de penetração da Internet (75%). Entre nós [italianos], menos da metade da população tem acesso à Internet e, por isso, a performance da marcha No-B Day é uma etapa a ser lembrada: a política que tente se adequar.

Um traço claro da direção da mudança já é evidente: não se trata da utopia da "e-democracy", mas de uma radical atualização das técnicas da competição. A web anunciava desde o início a queda de barreiras entre os cidadãos e a política. Ross Perot entrava em cena na campanha presidencial norte-americana de 1992 com a ideia da democracia direta via digital. Al Gore promovia as "autoestradas da informação" em 1994, e, em 1995, falava-se da "ascensão da república eletrônica" (Lawrence Grossman).

E nos anos seguintes a Internet verdadeiramente modelou a cena pública, mas não no sentido em que muitos haviam idealizado: democracia direta, assembleias eletrônicas, disseminação do poder. Não, ao contrário, a Internet se mostrou um imbatível instrumento de parte: a Internet é partidária das eleições, porque está na sua natureza a vocação de reunir as pessoas por vias de afinidade, para organizá-las em torno de objetivos comuns. A Rede, para a política, reúne pessoas com pensamentos, interesses, atitudes muito mais semelhantes do que colocar alguns indivíduos diante de outros com ideias e interesses conflitantes. A Rede é a "praça eletrônica", não porque seja uma ideal "ágora" deliberativa, em que as partes confrontam seus próprios argumentos, mas sim porque é justamente "a praça" onde se manifestam por uma ideia comum. Um dia, terá que ser possível obter das tecnologias de rede meios para melhorar todo o sistema democrático, mas no momento é claro quantos benefícios, rapidamente, as organizações partidários e os movimentos sociais podem conseguir em termos de transparência, economia, rapidez, eficácia. Apenas se o quisessem.

A capacidade que temos com a Internet de fazer com que a informação de um de nós possa se estender rapidamente aos outros, a custos baixíssimos ou nulos, tem um grandioso potencial de liberdade. Apenas temos que estar atentos e acautelar-nos com relação ao que Cass Sunstein ("Republic.com 2.0", Ed. Princeton, 2007, e "Going to Extremes", Ed. Oxford, 2009) chama de o risco do "perfect filtering", da filtragem perfeita de indivíduos afins, que a Rede exerce inexoravelmente atraindo o semelhante ao semelhante, com uma autosseleção que tende a excluir vozes discordantes.

A discussão entre pessoas que estão sempre de acordo entre si pode nutrir cumplicidades, desencorajar verificações, aumentar o desprezo pelos outros, fazer com que se cometam erros em cascata, ou melhor, em "cibercascata", até chegar a acreditar como verdadeiras notícias falsas e a polarizar extremismos. É saudável que, de norma, nas praças, também virtuais, circulem ideias em liberdade e pareceres opostos.

A "tirania da maioria" está sempre à espreita, ainda mais em países, como o nosso, que sofrem não apenas da brecha digital (metade da população fora da Rede. Nos EUA, a penetração é de 75%), mas também a breche de imprensa (subiu para 40% o percentual alheio aos meios de imprensa) e onde a dependência da TV generalista para a informação política continua assustadoramente alta (70% para todos, 81% entre os idosos).

O pluralismo da informação continua em sofrimento, o jogo entre poderes e contrapoderes continua em aberto, a competição entre informações do alto do velho mass-medium e informações por baixo das redes sociais está em curso, mas sempre é preciso estar um pouco ansioso pelo resultado final da partida.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

O fim da propriedade intelectual ?



O mundo mudou e com ele as formas de propriedade também mudaram”.

Entrevista especial com Sergio Amadeu


Um dos principais defensores do compartilhamento de arquivos pela Internet, Sérgio Amadeu, conversou, por telefone, com a IHU On-Line sobre pirataria, autoria, banda larga entre outros temas que cercam a questão da troca de informações via rede digital. Segundo ele, “a indústria fonogr áfica está em crise, a imprensa e a ideia de gatekeeper estão em crise e também os partidos estão em crise porque no mundo das redes existem várias formas de articulação direta entre os cidadãos”. Sérgio explica que as redes digitais não substituem o Poder Legislativo ao proporcionar uma participação direta da população, mas “permitem que as pessoas que defendem uma determinada causa possam ter essa defesa ampliada para o escopo político sem necessariamente se ligar a um ou outro partido”.


Sérgio Amadeu da Silveira é sociólogo formado pela Universidade de São Paulo, onde também obteve o título de mestre e doutor em Ciência Política. Atualmente, é professor na Faculdade Cásper Líbero e é consultor do Instituto Campus Party. Entre os livros que escreveu, destacamos: Exclusão Digital: a miséria na era da informaçÍ ?o. (São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2001), Software Livre: a luta pela liberdade do conhecimento (São Paulo: Editora Perseu Abramo, 2004) e Ciberespaço: a luta pelo conhecimento (São Paulo: Editora Salesiana, 2008).

Confira a entrevista.


IHU On-Line – Entre os brasileiros que têm Internet em casa, 45% revelam que baixam conteúdo pirata. No mundo, os números são parecidos com a realidade brasileira. A pirataria venceu?

Sergio Amadeu – Não. Eu acho que copiar arquivos digitais ou baixar um arquivo que estava disponível na rede não tem nada a ver com pirataria, porque a metáfora é feita para manter um modelo, são negócios construídos no mundo industrial que não têm mais sentido nas redes digitais. No mundo das redes digitais, quando alguém copia um arquivo, não está tomando nada do original. A metáfora da pirataria não é nada mais do que uma metáfora, ou seja, quando o navio pirata encostava num outro navio e o roubava, ele levava os bens materiais, e o navio que foi roubado fica sem aqueles produtos. Agora, quando você entra num repositório e copia, por exemplo, uma música, isso não tem nada a ver com aquilo que era feito pelos piratas no passado. Aquilo é uma imagem que é equivocada, assim como é equivocada a ação das indústrias de copyright no mundo das redes di gitais. É uma coisa completamente absurda. A Internet é uma rede baseada em computação digital.


Os computadores digitais baseiam-se em cópias o tempo todo, quando abro uma página no meu navegador, o que eu fiz foi copiar instruções binárias e que mandam orientações para meu browser. Toda a Internet é baseada, portanto, em cópia. Falar para não copiar nas redes digitais é ir contra a natureza técnica das próprias redes. Não é à toa que a indústria de copyright está afundando. Isso está acontecendo não por cópia não autorizada por eles, mas por causa da diversidade de produtos culturais que temos disponíveis na rede e que eles nunca tiveram no mundo controlado pelo mass-media. Na semana passada, tive acesso a uma pesquisa que mostra que as pessoas que mais baixam músicas pela Internet são as que mais compram cd’s. Então, o alvo criminal deles é o que sustenta a velha indústria da intermediação. O que está acontecendo com a Internet é basicamente a crise dos vários intermediários, porque ela permite que um grupo de música, por exemplo, entre em contato diretamente com seu fã sem a necessidade da intermediação da indústria do copyright. O mundo digital está alterando muito esse “ecossistema” da produção e distribuição de bens culturais.

IHU On-Line – Processar piora a situação para a indústria de filmes e músicas?

Sergio Amadeu – Eles vão ficar processando pessoas comuns. Veja o caso do Pirate Bay, um site que tinha um cracker, ou seja, tinha um mecanismo de busca onde os próprios internautas se registravam no site e quando alguém buscava alguma música ou vídeo, não baixava do site, mas dos computadores das pessoas diretamente. Essa prática de compartilhamento é muito comum, é uma prática antiga. Um exemplo: antigamente, as pessoas pegavam o vinil, botavam no seu aparelho de 3 em 1, gravavam uma fita cassete, emprestavam para os amigos, e isso não era considerado um grande problema. A questão virou um problema quando essa prática, que é comum, encontrou um meio técnico que permite que a prática seja feita com mais intensidade. Então, processar as pessoas é tão ridículo quanto a frase do Elton John que, há algum tempo, disse: “as pessoas não compram mais minha música por causa da Internet, então peço a vocês que fechem a Internet por alguns anos”. Isso é ridículo!

IHU On-Line – Como você vê iniciativas como a do Partido Pirata?

Sergio Amadeu – O programa do Partido Pirata é baseado na liberdade de compartilhamento, de fluxo de bens culturais, de conhecimento. Eles utilizam o nome pirata num sentido bastante irônico, porque trabalham contra a ideia de que existe a pirataria. Mas eles utilizam esse nome para poder chocar e fazer com que as pessoas prestem a atenção para o que está acontecendo no mundo dos bens culturais e do próprio conhecimento. A tentativa dos grandes grupos é a de bloquear ao invés de garantir a livre disseminação da cultura, o que é muito importante numa sociedade que se baseia cada vez mais em informação. Então, acho que a iniciativa é extremamente interessante nesse sentido.


Por outro lado, acho que é bastante complicado montar um partido só sobre um tema, por isso acho que ele cumpre um papel importante, mas ele é limitado porque é um partido mono temático. Penso que hoje os partidos têm de ter um papel muito mais amplo. Por isso acho que o que está em crise hoje é um conjunto de intermediários, como já havia dito. A indústria fonográfica está em crise, a imprensa e a ideia de gatekeeper estão em crise e também os partidos estão em crise porque no mundo das redes existem várias formas de articulação direta entre os cidadãos. Não estou dizendo que o Poder Legislativo está em crise e que vamos substituí-lo por participação direta da população, mas estou dizendo que hoje as redes digitais permitem que as pessoas que defendem uma determinada causa possam ter essa defesa ampliada para o escopo político sem necessariamente se ligar a um ou out ro partido.


IHU On-Line – A banda larga deveria ser regulada? De que forma?

Sergio Amadeu – Na verdade, no Brasil, precisamos que antes ela seja ampliada. O Brasil tem uma carência muito grande de banda larga, ela está presente em apenas alguns lugares. Na maioria dos municípios, a banda larga ainda não chegou, o que gera uma conexão completamente assimétrica, distante das possibilidades de uso multimídia, o que é um absurdo. Além disso, a banda larga nas periferias das grandes cidades também não chega como deveria. Nós temos que exigir uma regulamentação que faça com que essas operadoras – que são oligopólios que controlam a conectividade – levem a banda larga a ser um serviço unive rsal como é a telefonia fixa.

Também devemos incentivar que os municípios liberem o sinal e criem nuvens de conexão gratuita. Está mais claro que isso reduz o custo enormemente. Várias cidades estão abrindo o sinal e aumentando a conectividade, incentivando as pessoas a comprarem computadores. Um dos grandes problemas no Brasil é o alto custo da telecomunicação. Aqui, o megabitt chega a ser 20 vezes mais caro do que na Europa. Nós temos um modelo absurdo de precificação da comunicação de dados da banda larga. E tem outro problema: mesmo quando a cidade abre o sinal, essa prefeitura tem que comprar o sinal de uma rede de alta velocidade. Geralmente, ela mensura a sua rede para 200 usuários, por exemplo, mas isso incentiva a conectividade e esse número pula para mil. Com isso, vai querer aumentar a disponibilidade de banda no provedor, e esta empresa que provê a rede passa a cobrar o que quiser do município. Ou seja, essas empresas cobram cada vez mais caro quando aumenta o uso , o que acaba gerando uma megacrise nesses municípios que implantam o programa Cidades Digitais. Temos que ter uma regulamentação que seja completamente diferente do que a ANATEL faz hoje no país.


IHU On-Line – De que forma o conceito de autoria foi modificado com a Internet?

Sergio Amadeu – A sociedade cria os seus arranjos culturais, jurídicos e políticos. A autoria, antes do Renascimento, era uma coisa pouco importante para a criação. Com a industrialização, nasce o processo de divisão do trabalho que existe no mundo das fábricas para o mundo das artes. O compositor passa a ser um cara que não executa, o executor é uma função especializada, e isso vai acontecendo com o conjunto das artes. Isso faz parte do desenvolvimento histórico social que est á ligado aos processos e contradições na sociedade, principalmente a ocidental. A ideia de autoria se disseminou a partir do Renascimento, antes não fazia sentido isso, a arte era de domínio comum. Quando a sociedade muda e acaba apostando num tipo de tecnologia que é baseado na troca de bens e materiais, que não tem desgaste nem escassez, de arquivos digitais que podem ser copiados uma vez ou um milhão de vezes sem nenhuma alteração do seu original, nós estamos numa outra fase.

Essa fase dissolve a autoria e coloca novos problemas para essa ideia e retoma noção de que a cultura é um bem comum e que a maior parte das criações têm como base a própria cultura. Aí começamos a ver que não tem sentido sustentarmos uma indústria da intermediação que vive efetivamente do controle da produção cultural. Exemplo: que sentido tem a proteção de uma obra, como diz na nossa legislação, 70 anos depois da morte do autor? Lá atrás diziam que faziam isso para incentivar o criador. O criador morreu há 70 anos, ou seja, não há incentivo ao criador, mas sim estamos mantendo uma indústria da intermediação, que é a maior afetada pelas redes digitais. O mundo mudou e com ele as formas de propriedade também mudam.


IHU On-Line – O senhor já afirmou que a Internet sofre grande influência da cultura hacker. Como podemos compreender essa cultura?

Sergio Amadeu – A Internet é fortemente influenciada pela cultura hacker. No início da Internet, esse grupo de programadores talentosos enfrentava desafios por livre e espontânea vontade. Ao superar esses desafios, eles compartilhavam com todos os outros as soluções. Essa prática de compartilhamento foi combatida pela indústria de software e hardware e passou a chamar de hackers ou crackers, ou seja, passou a confundir o hacker com um criminoso. Isso é uma disputa semiológica e ideológica. A imprensa é financiada pelos grandes grupos, e, assim, passou a disseminar a ideia do hacker como um criminoso. Os historiadores da rede e da Internet apontam, como no livro A Galáxia da Internet (Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003), escrito por Manuel Castells, que a cultura hacker é uma das culturas fundamentais na criação da rede aberta, não proprietária, que nós temos hoje, que se chama Internet. É uma rede que permite que se crie formatos, novos conteúdos e novas tecnologias sem pedir permissão a ninguém. Uma rede que é de controle, mas que a cultura hacker garante que esse controle não chegue ao indivíduo porque garante a comunicação anônima. Toda essa construção é baseada também e principalmente na cultura hacker.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Um balanço da AVAAZ


Este Blog retransmite um comunicado da AVAAZ - um balanço de suas atividades recentes:



Amigos,



Nós recebemos milhares de emails nos parabenizando e agradecendo pelo relato sobre as últimas campanhas da Avaaz - caso você não viu, leia abaixo o que conquistamos nos últimos meses! A nossa comunidade cresceu rapidamente e está se tornando realmente extraordinária, com uma agilidade e impacto de campanha intensos. Somente nas últimas 10 semanas nós organizamos 9 campanhas nacionais e globais, lidando com assuntos desde mudanças climáticas passando pelo Irã e Guantanamo. Ainda há muito o que fazer sobre todos estes assuntos, mas juntos estamos contribuindo de uma forma poderosa. Veja os destaques das últimas 10 semanas.

Amazônia brasileira - Os membros brasileiros da Avaaz fizeram 14.000 telefonemas e enviaram 30.000 emails para o Gabinete do Presidente Lula em poucos dias(!), revertendo de última hora a medida provisória que iria entregar uma boa parte da Amazônia para o agronegócio para exploração intensiva. Esta foi uma vitória inclusive contra as mudanças climáticas já que a Amazônia é responsável por captar gases de efeito estufa que estão causando o aquecimento do planeta.

Encontro do G8 - Semana passada 130.000 membros da Avaaz assinaram em 48 horas a petição para os países do G8 pedindo a limitação do aquecimento do planeta em 2 graus Celsius, buscando envergonhar os três países que estavam bloqueando as negociações. A petição foi entregue durante o G8 ao Primeiro Ministro do Reino Unido, Gordon Brown (veja a imagem à direita), junto com cartões postais personalizados gigantes.

Do lado de fora do encontro, os membros da Avaaz tiraram a roupa, usando apenas bikinis e sungas verdes, em uma encenação com muito humor para passar a mensagem da campanha. A ação gerou uma grande atenção da mídia (foto à direita). Enquanto isso parceiros da Avaaz aumentaram a pressão na Itália e no mundo todo. Os países que estavam bloqueando as negociações resistiram, mas acabaram concordando com a meta de 2 graus Celsius! Porém, eles falharam em definir ações específicas de como implementar a meta. Nosso desafio agora é garantir que os líderes políticos mantenham seu compromisso com a assinatura de um tratado global vinculante durante o Encontro da ONU sobre mudanças climáticas em Copenhague em dezembro.

Protestos no Irã - Nossa comunidade rapidamente respondeu à crise eleitoral no Irã com uma pesquisa de opinião para saber o que pensa o povo iraniano. Pedimos também para líderes globais não reconhecerem o resultado até que a repressão aos protestos terminassem, e arrecadamos fundos para apoio tecnológico para facilitar o livre acesso dos iranianos à Internet. A forte repressão que se agravou depois dos primeiros protestos dificultou a elaboração da pesquisa de opinião (deveremos ter resultados semana que vem), porém arrecadamos mais de cem mil dólares para o apoio tecnológico de acesso à Internet para os iranianos poderem se comunicar livremente. A situação do Irã permanecem incerta, e nós continuaremos a apoiar a liberdade de expressão e nos opor aos que se aproveitam desta crise para justificar uma ação militar contra o Irã.

Metas climáticas do Japão - No Japão, nós denunciamos as intenções do Primeiro Ministro Taro Aso em definir metas climáticas fracas e insuficientes, o que poderia levar outros países a serem menos ambiciosos também. Financiado por pequenas doações online, a Avaaz encomendou uma pesquisa que mostrou que 63% dos japonese queriam metas mais fortes contra as mudanças climáticas. Publicamos o resultado na imprensa na forma de um anúncio de página inteira no maior jornal empresarial do Japão e no mangá preferido do Aso (veja ao lado). Internacionalmente, a Avaaz publicou um anúncio de página inteira no Financial Times. Mem bros da Avaaz se mobilizaram publicamente se reunindo com os representantes do Japão nos encontros de Paris e Bonn.

Finalmente o Primeiro Ministro anunciou metas mais fortes do que as indústrias poluidoras queriam -- porém ainda muito longe de serem o suficiente para impedir as consequencias catastróficas das mudanças climáticas. Nós então dobramos a pressão com uma conferência de imprensa altamente coberta por jornalistas internacionais, mostrando o Primeiro Ministro japonês como "George W. Aso" -- comparando ele ao Bush por se posicionar contra propostas mais fortes para conter o aquecimento global.


Libertem os presos políticos da Birmânia - Mais de 400.000 pessoas assinaram a petição para o Secretário Geral da ONU Ban Ki Moon pedindo para ele priorizar a libertação da Prêmio Nobel da Paz e presa política Aung San Suu Kyi e outros prisioneiros políticos da Birmânia. A petição foi entregue em uma reunião com o gabinete do Ban Ki Moon e numa conferência de imprensa na ONU em Nova York. O Secretário Geral da ONU fez uma declaração forte pela libertação de Suu Kyi e viajou para Birmânia para tentar se reunir com ela, porém foi recusado pela junta militar. A pressão internacional fez com que a junta adiasse o novo julgamento para estender a sentença da Aung San Suu Kyi, porém será preciso uma pressão muito maior para garantir a sua libertação.

Estados Unidos e Tortura - Uma campanha global para arrecadar fundos, junto com uma petição para acabar com a tortura e fechar o presídio de Guantanamo, permitiu que a Avaaz comprasse um outdoor de 9 andares a poucos quarteirões da Casa Branca, no centro de Washington DC. De última hora a empresa de outdoor se recusou a colocar o anúncio apesar de alguns membros do congresso dos EUA, que são contra Guantanamo, se oferecerem para apresentar o outdoor em uma conferência de imprensa. A Avaaz agora garantiu uma forma alternativa para entregar a nossa mensagem audaciosa, que irá chacoalhar Washington DC com o nosso chamado por justiça.

Conferências da ONU sobre Mudanças Climáticas - No encontro sobre mudanças climáticas em Bonn, membros alemães da Avaaz participaram de uma ação de nossos parceiros onde 500 pessoas soletraram "Yes You Can" (slogan de campanha do Obama), uma mensagem para os líderes, e principalmente o Obama, sobre as negociações climáticas (veja à direita). A ação chamou atenção para a falta de ambição das negociações. A Avaaz também enviou uma equipe de 16 pessoas para acompanhar e se reunir com os representantes das delegações presentes, incluindo membros de 10 países que participaram pressionando os negociadores dos seus países.

Peru - A Avaaz se juntou a grupos indígenas locais e aliados políticos para entregar uma petição global contra as leis que iriam causar uma devastação massiva da amazônia peruana. Publicamos o anúncio ao lado em um dos jornais mais importantes do Peru. O anúncio gerou muita atenção e junto com a pressão política doméstica, conseguimos que o congresso peruano revogasse as leis controversas!

Israel - O Primeiro Ministro Netanyahu preparou um discurso para responder à fala histórica do Presidente Obama no Cairo, em que ele pediu para Israel parar com os assentamentos ilegais em terras palestinas. Nós publicamos um anúncio de página inteira em um dos jornais mais importantes de Israel - o Haaretz - entregando uma petição dos membros da Avaaz de Israel e do mundo inteiro pedindo para o Netanyahu seguir as recomendações do Obama e parar com os assentamentos. Até agora o Netanyahu recusou, mas nós estamos ajudando a construir uma campanha inédita, levando a questão dos assentamentos para a opinião pública israelenses e globais.

As petições, campanhas de captação, manifestações e lobby político que a nossa comunidade está fazendo está tendo um impacto incrível. A Avaaz cresceu mais de 50.000 pessoas por semana, tendo agora mais de 3,6 milhões de cidadãos engajados em todos os países do mundo. Nós somos realmente globais, operando em 14 línguas, já temos 25.000 membros em Singapura, 35.000 na África do Sul, 130.000 na Itália, 50.000 no México... Nunca antes houve uma comunidade como a nossa, capaz de responder rapidamente a questões globais e mobilizar de forma eficaz o poder da sociedade civil global para as maiores necessidades e preocupações da humanidade -- isto é um grande motivo de esperança!

Nesta jornada emocionante, estamos ansiosos pelas próximas 10 semanas, e 10 meses, e 10 anos juntos!

Com esperança,

Ricken, Alice, Pascal, Ben, Veronique, Paul, Graziela, Brett, Raluca, Luis, Raj, Milena, Paula, Iain, Taren, Margaret e toda a equipe Avaaz

PS - para ver os destaques das campanhas da Avaaz em 2007 e 2008, e deixar um comentário, clique aqui:

https://secure.avaaz.org/po/report_back_2/



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SOBRE A AVAAZ

Avaaz.org é uma organização independente sem fins lucrativos que visa garantir a representação dos valores da sociedade civil global na política internacional em questões que vão desde o aquecimento global até a guerra no Iraque e direitos humanos. Avaaz não recebe dinheiro de governos ou empresas e é composta por uma equipe global sediada em Londres, Nova York, Paris, Washington DC, Genebra e Rio de Janeiro.

Avaaz significa "voz" em várias línguas européias e asiáticas.