quarta-feira, 7 de abril de 2010

A gigantesca corrida pela terra e pela água





Pelo menos 20 países africanos estão vendendo ou arrendando terra para cultivo intensivo em uma escala chocante, que pode se tornar a maior transferência de propriedade – para bilionários e megacorporações – desde a era colonial.

O artigo é de John Vidal está publicado no Jornal Brasil de Fato, edição de 18 a 24 de março de 2010. A versão integral do artigo foi publicado no jornal Mail & Guardian, da África do Sul, em 11-03-2010.

Saímos da estrada principal para Awassa, passamos pelos seguranças e dirigimos por 2 km através de terra vazia até encontrar o que em breve será a maior estufa da Etiópia. Localizado abaixo de uma escarpa do Vale do Rift, o projeto está longe de terminar, mas o plástico e a estrutura de aço já se estendem por 50 hectares – o tamanho de 20 campos de futebol.

O administrador da fazenda nos mostra milhões de tomates, pimentas e outros legumes que estão sendo cultivados em fileiras de 457,2 metros, em condições controladas por computador. Engenheiros espanhóis estão construindo a estrutura de aço, uma tecnologia holandesa minimiza o uso de água de dois poços e mil mulheres colhem e empacotam 50 toneladas de alimentos por dia. Em 24 horas, estes viajaram 400 km até Addis Abeba e percorreram 2 mil km de avião para chegar às lojas e restaurantes de Dubai, Jeddah e outras partes do Oriente Médio.

A Etiópia é um dos países mais famintos do mundo, com mais de 13 milhões de pessoas necessitadas de ajuda alimentar, mas, paradoxalmente, o governo está oferecendo pelo menos 7,5 milhões de acres de suas terras mais férteis para os países ricos e alguns dos indivíduos mais ricos do mundo, para exportação de alimento a suas populações.

Os 2.500 acres de terra que englobam as estufas Awassa estão arrendados por 99 anos a um empresário bilionário saudita, nascido na Etiópia: o xeique Mohammed al-Amoudi, um dos 50 homens mais ricos do mundo. Sua empresa, a Arabia Star, planeja gastar, nos próximos anos, até 2 bilhões de dólares para a aquisição e desenvolvimento de 1,25 milhão de acres de terra na Etiópia. Até agora, ele comprou quatro fazendas e já está cultivando trigo, arroz, verduras e flores para o mercado saudita. E espera, eventualmente, empregar mais de 10 mil pessoas.

Mas a Etiópia é apenas um dos 20 ou mais países africanos cuja terra está sendo comprada ou arrendada para a agricultura intensiva em escala gigantesca, o que pode significar a maior transferência de propriedade desde a época colonial.

Corrida pela terra

Uma pesquisa do Observer estima que até 125 milhões de acres de terra foram adquiridos nos últimos anos ou estão em vias de ser negociados por governos e investidores ricos que trabalham com subsídios do Estado. Os dados utilizados foram coletados pelas entidades Grain, International Institute for Environment and Development, International Land Coalition, ActionAid e outros grupos não governamentais.

A corrida pela terra foi provocada pela escassez de alimentos no mundo inteiro que se seguiu ao aumento acentuado do preço do petróleo em 2008, à crescente escassez de água e à insistência da União Europeia para que 10% de todos os combustíveis utilizados em transportes sejam provenientes de agrocombustíveis em 2015.

A China, por exemplo, assinou um contrato com a República Democrática do Congo para cultivar 7 milhões de acres de óleo de palma para ser usado como agrocombustível. Em muitas áreas, tais negócios causaram despejos, protestos e queixas de “grilagem”.

Segundo Nyikaw Ochalla, um indígena Anuakda da região de Gambella, na Etiópia – que vive na Grã-Bretanha, mas mantém contato regular com os agricultores na sua região – , “toda a terra está sendo utilizada. Cada comunidade possui e cuida de seu próprio território, rios e terras agrícolas. Dizer que existe terra improdutiva é um mito propagado pelo governo e por investidores para afirmar que existe terra sobrando ou que ela não está sendo utilizada. As empresas estrangeiras estão chegando em grande número, privando as pessoas da terra que elas têm usado por séculos. Não há nenhuma consulta à população indígena. As ofertas são feitas secretamente. A única coisa que a população vê são pessoas chegando com tratores para invadir suas terras”.

Os compradores

Liderando a corrida, estão empresas internacionais do agronegócio, bancos de investimento, fundos hedge, comerciantes de commodities e fundos soberanos, bem como fundos de pensões do Reino Unido e fundações e indivíduos atraídos pelas terras mais baratas do mundo.

Juntos, eles estão varrendo o Sudão, Quênia, Nigéria, Tanzânia, Malaui, Etiópia, Congo, Zâmbia, Uganda, Madagáscar, Zimbábue, Mali, Serra Leoa, Gana e outros. Somente na Etiópia, já foram aprovados 815 projetos financiados com investimento estrangeiro desde 2007. Qualquer terra que os investidores não conseguiram adquirir está sendo arrendada por aproximadamente 1 dólar por ano cada 2,5 acres.

A Arábia Saudita e outros emirados do Oriente Médio, como Catar, Kuwait e Abu Dhabi, são os maiores compradores. Em 2008, o governo saudita, que era um dos maiores plantadores de trigo da região, anunciou que vai reduzir sua produção de grãos em 12% ao ano para conservar sua água. E destinou 5 bilhões de dólares em empréstimos com taxas de juros preferenciais para as empresas do país que quiserem investir em nações com forte potencial agrícola.

Enquanto isso, a Foras, empresa saudita de investimento, apoiada pelo Banco de Desenvolvimento Islâmico e ricos investidores sauditas, planeja gastar 1 bilhão de dólares adquirindo terras e cultivando 7 milhões de toneladas de arroz para abastecer o mercado interno nos próximos sete anos.

A empresa diz que está estudando a possibilidade de adquirir terras em Mali, Senegal, Sudão e Uganda. Ao voltar-se para a África com o objetivo de cultivar seus alimentos de primeira necessidade, a Arábia Saudita está economizando o equivalente a centenas de milhares de galões de água ao ano. A água, afirma a ONU, será o recurso determinante nos próximos 100 anos.

Um novo colonialismo

Devlin Kuyek, pesquisador da ONG Grain, uma das entidades que pesquisam a aquisição de terras africanas, diz que investir na África hoje é visto por muitos governos como uma nova estratégia de abastecimento alimentar. “Os países ricos estão de olho na África não somente pelos grandes retornos de capital, mas também como uma apólice de seguro. A escassez de alimentos, os protestos em 28 países ocorridos em 2008, o abastecimento de água em declínio, as alterações climáticas e o enorme crescimento populacional tornaram as terras atrativas. A África tem a maior parte das terras do mundo e, se comparadas com outros continentes, são baratas”.

“As terras agrícolas na África subsaariana está dando 25% de retorno em um ano, e as novas tecnologias podem triplicar o rendimento das culturas em um curto espaço de tempo”, afirma Susan Payne, diretora executiva da Emergent Asset Management, um fundo de investimento britânico que pretende gastar 50 milhões de dólares em solo africano. “O desenvolvimento da agricultura não é apenas sustentável, é o nosso futuro. Se não tivermos muito cuidado e atenção para aumentar a produção de alimentos em até 50% antes de 2050, enfrentaremos globalmente uma séria escassez”, conclui. Mas muitas dessas aquisições são amplamente condenadas por ONGs e ativistas locais como um “novo colonialismo”, que tira as pessoas da terra e leva os escassos recursos para longe delas.

Nos encontramos com Tegenu Morku, um agente fundiário, em um café de beira de estrada a caminho da região de Oromia, na Etiópia, para onde ele se dirigia com o intuito de procurar 1.250 acres para um grupo de investidores egípcios. Eles planejam investir em gado de engorda, plantar grãos e temperos e exportar o máximo possível para o Egito. Segundo Morku, era preciso ter disponibilidade de água, e ele esperava que o preço estivesse em torno de 1 dólar por cada 2,5 acres ao ano – menos de um quarto do custo da terra no Egito e um décimo do preço da terra na Ásia.

“A terra e a mão de obra são baratas, e o clima é bom. Todos – sauditas, turcos, chineses, egípcios – estão procurando. Os agricultores locais não gostam porque acabam sendo deslocados, mas eles podem encontrar terra em outro lugar e, além disso, recebem uma compensação equivalente a 10 anos de rendimento da terra”, diz.

Fome fabricada

Oromia é um dos centros da corrida pela terra na África. Haile Hirpa, presidente da Associação de Estudos de Oromia, escreveu recentemente uma carta de protesto ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, em que alerta que a Índia adquiriu, na região, 2,5 milhões de acres; Djibuti, 2.500 acres; Arábia Saudita, 250 mil acres; e que investidores egípcios, sul-coreanos, chineses e nigerianos estavam bem ativos. “Esta é a colonização do século 21. Os sauditas estão desfrutando da colheita de arroz enquanto os oromos estão morrendo de fome, causada diretamente pela a ação do homem”, afirmou.

O governo etíope nega que os acordos estão causando fome e afirma que as negociações de terra estão gerando centenas de milhões de dólares de investimentos estrangeiros e dezenas de milhares de empregos. Um porta-voz governamental afirmou: “A Etiópia tem 187 milhões de acres de terra fértil, dos quais apenas 15% estão sendo usados atualmente – principalmente pela agricultura de subsistência. Das demais terras, somente uma pequena porcentagem – 3% a 4% – é oferecida a investidores estrangeiros, que nunca recebem terras pertencentes aos agricultores etíopes”.

A realidade, na prática, é diferente, segundo Michael Taylor, um especialista em políticas do International Land Coalition. “Se a terra na África não tem sido plantada, provavelmente há uma razão. Talvez seja usada para pastagem de gado ou deliberadamente deixada em repouso para evitar o esgotamento dos nutrientes e a erosão. Quem quer que tenha visto essas áreas identificadas como sem uso entende que não há terra na Etiópia que não tenha proprietários e usuários”.

Monocultura

A ecologista indiana Vandana Shiva disse em Londres recentemente que a agricultura industrial em grande escala não somente expulsou as pessoas para fora da terra como também requer produtos químicos, pesticidas, herbicidas, fertilizantes, o uso intensivo de água, transporte em grande escala, armazenamento e distribuição que, no seu conjunto, transformaram paisagens inteiras em enormes plantações de monocultura.

Já Lorenzo Cotula, pesquisador sênior do Instituto Internacional para o Meio Ambiente e Desenvolvimento, afirma que acordos bem estruturados poderiam garantir empregos, melhor infraestrutura e melhores safras. Mas, se mal conduzidos, podem causar grandes danos, especialmente se a população local for excluída das decisões sobre a alocação de terras e se os seus direitos à terra não forem protegidos.

A questão da água também é controversa. Autoridades locais etíopes disseram ao Observer que as empresas estrangeiras que instalaram fazendas de flores e outras grandes fazendas de produção intensiva não estavam pagando pela água. “Nós gostaríamos, mas o negócio é feito pelo governo central”, disse um deles. Em Awassa, o consumo de água da fazenda al-Amouni é equivalente ao de 100 mil etíopes.


A África dá as suas terras em troca de nada



As aquisições de terras em países pobres, última tendência entre corporações, fundos de investimento e países importadores de alimentos, supõem para os mais pobres enfrentar o possível desalojamento de suas terras e ao acesso às mesmas e aos seus recursos, como a água. É isso que se depreende de um estudo encarregado pela FAO (Organização para a Agricultura e a Alimentação) e o PNUD (Programa para o Desenvolvimento), ambos ligados à ONU, apresentado nesta segunda-feira. A reportagem é de Lali Cambra e está publicada no jornal espanhol El País, 26-05-2009. A tradução é do Cepat.

O documento pontualiza que as aquisições (de modo geral feitas na África mediante contratos de aluguel de meio século ou um século inteiro pelo que nada se paga) podem constituir um benefício ao supor investimentos estrangeiros. Também pode acarrear atração tecnológica, incremento da produtividade agrária e criação de emprego e de infra-estrutura. Mas, assim como estão sendo levados a cabo, com precárias consultas à população local, falta de transparência e sem garantir nos contratos os compromissos de investimento, emprego ou desenvolvimento de infra-estruturas, supõe colocar em risco o modo de vida de milhares de pequenos agricultores ou pastores, cuja existência depende da terra.

O estudo, realizado pelo Instituto Internacional de Meio Ambiente e Desenvolvimento (IIED), enfatiza a necessidade primeira dos governos africanos de garantir os títulos de propriedade da população local, para protegê-la, evitar que seja desapropriada arbitrariamente e, assim mesmo, possibilitar que obtenha benefícios maiores dos hipotéticos investidores.

Os autores do relatório analisaram os contratos de diversos países africanos com corporações, fundos de investimento e países importadores de alimentos como os do Golfo Pérsico, do Sudeste Asiático e da China. À vista destes documentos alertam para o fato de que existe entre os investidores a crença de que a África (e a América Latina) tem terra em abundância disponível, erma ou abandonada, “mas é preciso ir com cuidado com estes termos”. Opinam que são usados para equipará-las a terras não produtivas, quando talvez sejam usadas intermitentemente (são deixadas de barbecho) por pequenos agricultores ou por pastores ou por caçadores-coletores. Esta situação já teria se dado na Tanzânia, Etiópia ou Moçambique, onde terras que estavam sendo usadas teriam sido alugadas como “abandonadas”.

Se o abastecimento de terras para empresas investidoras estrangeiras poderia ter benefícios, algo que os autores enfatizam, esses não estão tão claros quando se revisa os acordos assinados com os governos africanos (foram estudados investimentos na Etiópia, Gana, Quênia, Madagascar, Moçambique, Sudão, Tanzânia e Zâmbia), onde se constata a falta de transparência e a impossibilidade do público de ter acesso aos contratos.

A terra em si ou se dá de graça ou tem um cargo nominal (entre 5 e 10 euros o hectare em Mali). Os governos esperam benefícios como infra-estruturas ou criação de empregos. Mas os contratos – “de modo geral curtos e simples” – carecem de explicações sobre riscos ou benefícios, sobre o tipo de negócio a realizado na terra (se será uma plantação típica, se haverá um negócio conjunto com a população local) ou sobre a contratação.

Os autores do estudo reclamam a necessidade de consultas transparentes à população (apontam que em alguns casos estas consultas se limitam aos anciãos dos povoados, aos oficiais e à elite do governo municipal). Questões como a segurança alimentar no próprio país também são, em muitas ocasiões, passadas por alto.

terça-feira, 6 de abril de 2010

O Brasil é o campeão mundial dos agrotóxicos


Estudo traça perfil do mercado de agrotóxicos no Brasil


Em 2009, 65% dos agrotóxicos registrados no Brasil não chegaram a ser comercializados. Dos mais de 2 mil produtos disponíveis, apenas 783 chegaram às mãos dos agricultores. Os dados fazem parte do estudo “Monitoramento do Mercado de Agrotóxicos” , organizado pelo professor da Universidade Federal do Paraná Victor Pelaez.

A notícia é de Danilo Molina, da Anvisa, e publicada por EcoDebate, 29-03-2010.

Outro dado apresentado pelo estudo é de que as dez maiores empresas do setor de agrotóxicos concentram mais de 80% das vendas no país. “A criação de um portfólio de registros não utilizados adquire uma lógica mais financeira do que produtiva, ao se constituir como reserva de valor para as empresas”, explica Pelaez.

Para o diretor da Agência Nacional da Vigilância Sanitária (Anvisa), José Agenor Álvares, a não utilização dos novos registros apontam para uma contradição do setor. “À medida que somos cada vez mais cobrados para dar agilidade aos processos de avaliação dos registros de agrotóxicos, os produtos que são autorizados não são colocados no mercado”, afirma Álvares.

Os dados também apontam a consolidação do Brasil como maior mercado e com maior ritmo de expansão no consumo de agrotóxicos em todo mundo. Ao longo desta década, o mercado brasileiro cresceu 176%, quase quatro vezes mais do que a média mundial.

De acordo com Álvares, os números apresentados comprovam o alto grau de comprometimento que as indústrias de agrotóxicos devem ter com o Brasil. “O setor do agronegócio deve praticar uma concorrência honesta, de modo que proporcione preços acessíveis para os pequenos produtores e agrotóxicos da forma mais limpa possível para toda população”, explica o diretor da Anvisa.

Mercado

O mercado brasileiro de agrotóxicos é o maior do mundo, com 107 empresas aptas a registrar produtos, e representa 16% do mercado mundial. Só em 2009, foram vendidas mais de 780 mil toneladas de produtos em nosso país.

O Brasil também ocupa a sexta posição no ranking mundial de importação de agrotóxicos. A entrada desses produtos em território nacional aumentou 236%, entre 2000 e 2007.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Decrescimento. Por que esta palavra suscita tanto interesse?






O hábito não faz o monge, certamente, mas uma bela aparência inspira o respeito. É por isso que é tudo, menos anedótico que a ideia do decrescimento, tão alegremente injuriada pelos adeptos do dogma do "crescimento", tenha sido acolhida em um lugar impregnado de ideias. Entre os dias 26 e 29 de março aconteceu, na bela Universidade de Barcelona, a segunda Conferência sobre o Decrescimento Econômico.

A reportagem é de Hervé Kempf e está publicada no Le Monde, 30-03-2010. A tradução é do Cepat.

Aberta pelo reitor e organizada pelo Instituto de Ciências e Tecnologias Ambientais (ICTA) da capital catalã, o evento reuniu mais de 500 pesquisadores e ativistas procedentes de numerosos países europeus e americanos. Sabe-se agora que o decrescimento se diz degrowth em inglês, decrecimiento em espanhol, decreixement em catalão, decrescita em italiano.

Por que esta palavra suscita tanto interesse? Porque coloca as questões radicais que estão no centro da ecologia e que as lógicas do desenvolvimento sustentável e do crescimento verde apagaram.

Na tentativa de se tornaram "realistas", muitos ambientalistas são tentados a pintarem com um tom verde um sistema econômico que não muda sua lógica de destruição do ser humano e da biosfera. Radicais, os objetores do crescimento afirmam que a crise do começo do terceiro milênio não pode ser resolvida pelos caminhos adotados desde o século XIX.

Sob a bandeira desta postura pode-se reorientar a liberdade de pensamento contra o dogma, cujo programa outra importante conferência em Paris, em 2002, havia definido: "Desfaça o desenvolvimento, refaça o mundo".

Seria difícil resumir aqui o leque de possibilidades de pesquisas apresentadas em Barcelona e a vivacidade das discussões que ali aconteceram. O programa, que pode ser consultado no sítio Degrowth.eu, dá uma noção. Duas ideias emergem. A preocupação com a justiça social está no centro do projeto de refundação ecológica, e Barcelona prosseguiu no caminho aberto em Copenhague pelos movimentos da sociedade civil com a reivindicação da justiça climática: “Mudar o sistema, não o clima”. E para os “objetores do crescimento”, o sistema é o capitalismo.

Outro elemento novo, a palavra dos movimentos do Sul, que dizem que também entre eles o desenvolvimento, da forma como é implantado pelos governos, é destruidor. Eles trazem conceitos novos, como o de “bem-estar” oposto ao de “viver melhor”.

A conclusão do economista Juan Martinez-Allier: “O decrescimento vai se tornar a corrente majoritária da economia”. Em Barcelona, as colunas do dogma foram quebradas.



sábado, 3 de abril de 2010

Gigante do petróleo banca céticos do clima





Uma empresa pouco conhecida, mas com bastante trabalho, passou a ExxonMobil no quesito financiamento dos céticos do clima de acordo com um levantamento realizado pelo Greenpeace. As Indústrias Koch, com sede nos Estados Unidos, têm o petróleo no centro de seus negócios, produziram o 19º homem mais rico do mundo e carregam um passivo ambiental imenso, que tentam esconder de todos os jeitos.

A notícia é do sítio do Greenpeace, 31-03-2010.

O relatório do Greenpeace, “Indústrias Koch: financiando secretamente os céticos do clima”, detalha como a empresa multinacional tem um papel dominante no discurso negacionista do aquecimento global nos Estados Unidos. Ela gasta milhões de dólares na promoção de céticos e seus institutos lobbistas e na oposição ao avanço de tecnologias limpas de geração de energia. “Está na hora de as Indústrias Koch limparem o jogo e deixarem de lado sua campanha suja e feita por baixo dos panos contra as ações de controle das mudanças climáticas”, afirma Kert Davies, diretor de pesquisa do Greenpeace dos Estados Unidos.

A Koch financiou (entre outros exemplos):

- Vinte organizações especializadas em negar o aquecimento global, que ecoaram a quatro cantos o Climagate, caso em que e-mails de cientistas da Universidade de East Anglia foram hackeados, no fim do ano passado. Essas organizações afirmam que as mensagens mostram que a ciência do clima é pouco confiável e ignoram a avaliação de grupos independentes que falam o contrário;

- Um artigo pseudocientífico de 2007, em conjunto com a ExxonMobil e o Instituto Americano do Petróleo, que tenta refutar a ciência que mostra como os ursos polares são ameaçados de extinção por causa do aquecimento global;

- Um grupo dinamarquês que produziu um estudo contrário à indústria de energia eólica da Dinamarca. Esse material foi usado nos Estados Unidos para rebater o apoio do presidente Barack Obama a energias renováveis. Neste ano, o ministro do Meio Ambiente da Dinamarca rejeitou os resultados do documento;

- Grupos que apóiam e promovem uma antiga e já refutada análise, que liga a indústria de energias renováveis ao desemprego na Espanha. Entre eles, destaca-se um chamado Americanos pela Prosperidade, fundado e dirigido por David Koch. Hoje, esse grupo está em campanha aberta contra o projeto de lei voltado a energias limpas de Obama, em discussão no Congresso americano.

“Ao gastar milhões de dólares no lobby e em financiamento a candidatos, Charles e David Koch poluem não apenas o ambiente mas também o processo político americano, trabalhando para impedir a aprovação da lei de energia limpa e clima por meio de um lobby corporativo intenso e financiamento de céticos”, diz Davies. “Esse processo tem como objetivo atrapalhar o avanço das negociações internacionais em torno de uma política de controle das mudanças climáticas, com o enfraquecimento da legislação americana no centro dessa estratégia.”

As Indústrias Koch são um conglomerado de US$ 100 bilhões, dominado por negócios em petroquímica, que operam em cerca de 60 países, com 70 mil funcionários. A maioria das operações é invisível ao público, com exceção de algumas poucas marcas, como Lycra® e Cordura®. No Brasil o grupo Koch está presente na forma de quatro empresas, “Georgia Pacific”, “Koch mineral services”, “Koch chemical technology group” e “Invista”.

“As empresas e funcionários do grupo Koch no Brasil tem a obrigação moral de exigir explicações e mudanças das atitudes de seus pares norte-americanos”, diz João Talocchi, coordenador da campanha de clima do Greenpeace Brasil. “No site das empresas existem diversas referências ao uso da boa ciência, responsabilidade socioambiental e criação de valores. Ao atacar a ciência e legislação sobre mudanças do clima, eles só aumentam o buraco entre o discurso e a realidade”, complementa Talocchi.

Parte da influência da Koch é centrada em três fundações, também controladas por David e Charles Koch. No financiamento de campanhas de céticos, a ExxonMobil gastou cerca de US$ 9 milhões entre 2005 e 2008. No mesmo período, as fundações controladas pelas Indústrias Koch gastaram cerca de US$ 25 milhões. Entre os grupos financiados, estão velhos centros de negação da ciência do clima, entre eles o Mercatus Center, a Fundação Heritage, o Instituto Cato, a Fundação Legal de Washington e a Fundação para Pesquisa de Economia e Ambiente (Free, na sigla em inglês).



Fonte:

http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=31139


quarta-feira, 31 de março de 2010

Oligarquia, radicalismos e crise climática


Abaixo, duas matérias sobre o aquecimento global que, analisadas em conjunto, permitem-nos compor o atual cenário sobre o aquecimento global...



Céticos do clima falam a ruralistas em SP


Na plateia, grandes agricultores do interior do país e estudantes universitários, vários de agronomia. No palco, dois dos principais céticos da mudança climática contando como o jogo virou -para o lado deles.
Esse cenário insólito foi armado ontem em São Paulo, no Fórum Internacional de Estudos Estratégicos para Desenvolvimento Agropecuário e Respeito ao Clima, promovido pela CNA (Confederação da Agricultura e da Pecuária do Brasil), maior organização em defesa dos interesses dos produtores rurais no país.

A reportagem é de Ricardo Mioto e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 30-03-2010.

O evento começou na noite de domingo, quando o vice-presidente da CNA, Assuero Veronez (representando sua presidente, a senadora Kátia Abreu, que está doente) alertou para que não se cometesse "o erro" de limitar a expansão da agropecuária no Brasil em nome do ambiente "sem as devidas convicções científicas".

Ontem a manhã foi do estatístico dinamarquês Bjorn Lomborg e do climatologista americano Pat Michaels. A dupla esteve em São Paulo há exatos dois anos, num contexto diferente: após o relatório de 2007 do IPCC e antes do fiasco de Copenhague, quando o público apoiava a ciência do clima.

Michaels lembrou o crescente número de americanos que dizem achar que as preocupações com o aquecimento global são exageradas. "Você não pode assustar as pessoas para sempre", comentou Lomborg.

Inquirido sobre se os resultados recentes das pesquisas eram uma vitória, ele disse que se tratavam de "uma demonstração de abertura ao diálogo".

Lomborg disse à Folha que está com a agenda cheia para dar palestras mundo afora. "A receptividade mudou muito."

Os dois céticos não negam que o planeta possa estar esquentando. Mas falam que não é possível afirmar com convicção que os humanos são responsáveis por isso, e que, mesmo que sejam, a ideia de cortar imediatamente emissões de CO2 não passa de histeria.

Michaels reafirmou sua posição de que os governos não deveriam gastar dinheiro contra o aquecimento global. "O mercado fará pressão para o desenvolvimento de novas tecnologias mais limpas."

"É, de certa forma, como se você estivesse no Titanic afundando, soubesse disso, e achasse que o melhor é não fazer muita coisa", disse à Folha o físico Luiz Pinguelli Rosa, diretor da Coppe-UFRJ, que também participou do evento.

Michaels, na sua apresentação, mostrou aos agricultores emails roubados de climatologistas da Universidade de East Anglia. Um deles, do americano Ben Santer, dizendo que, se encontrasse Michaels, ficaria "tentado a bater" nele.

Em comum entre céticos e não-céticos, só o pessimismo sobre a cúpula do clima de Cancún, no fim do ano. "Não acontecerá muita coisa", diz Michaels. Até lá, um filme com Lomborg, baseado em seu livro "Cool It", resposta a "Uma Verdade Inconveniente" de Al Gore , já terá sido lançado. "O produtor é Ralph Winter, que ajudou a produzir "X-Men'", diz.


'Os humanos são muito estúpidos para evitar as mudanças climáticas'', afirma Lovelock


Os humanos são muito estúpidos para evitar que as mudanças climáticas impactem radicalmente sobre as nossas vidas ao longo das próximas décadas. Essa é a dura conclusão de James Lovelock, o ambientalista mundialmente respeitado e cientista independente que desenvolveu a teoria de Gaia.

A reportagem é do jornal The Guardian, 29-03-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Ela surge depois de poucos meses tumultuados em que a opinião pública sobre os esforços para combater as mudanças climáticas foi minada por eventos como os e-mails dos cientistas do clima que vazaram da Universidade de East Anglia (UEA) e o fracasso da cúpula do clima de Copenhague.

"Eu não acho que já estejamos evoluídos ao ponto de sermos espertos o suficiente para lidar com uma situação tão complexa quanto as mudanças climáticas", disse Lovelock em sua primeira entrevista em profundidade desde o roubo dos e-mails da UEA em novembro passado. "A inércia dos humanos é tão grande que você realmente não pode fazer nada significativo".

Uma das principais obstruções a uma ação significativa é a "democracia moderna", acrescentou. "Mesmo as melhores democracias concordam que, quando uma grande guerra se aproxima, a democracia precisa ser colocada de lado. Eu tenho um sentimento de que as mudanças climáticas podem ser uma questão tão severa quanto uma guerra. Pode ser necessário colocar a democracia de molho por um tempo".

Lovelock, 90 anos, acredita que a melhor esperança do mundo é investir em medidas adaptativas, como a construção de defesas marinhas ao redor das cidades que são mais vulneráveis à elevação do nível dos oceanos. Ele acha que só um evento catastrófico pode persuadir a humanidade a levar a ameaça das mudanças climáticas a sério, como o colapso de uma geleira gigante na Antártida, como a geleira Pine Island, o que imediatamente iria elevar o nível dos mares.

"Esse seria o tipo de evento que mudaria a opinião pública", disse. "Ou o retorno das tempestades de areia [dust bowls] no meio oeste. Outro relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) não seria suficiente. Só iríamos discutir sobre ele como agora".

O relatório de 2007 do IPCC concluiu que existe 90% de chance de que a emissão de gases do efeito estufa estejam causando o aquecimento global, mas o painel foi criticado por uma afirmação errônea de que as geleiras do Himalaia poderiam derreter até 2030.

Lovelock afirma que os eventos dos últimos meses revelaram os esforços dos "bons" céticos do clima: "O que eu gosto nos céticos é que, na boa ciência, você precisa de críticos que lhe façam pensar: 'Droga, será que eu cometi um erro aqui?'. Se você não tiver isso continuamente, você realmente está em apuros. Os bons céticos fizeram um bom trabalho, mas eu acho que alguns dos ruins não fizeram nenhum favor a ninguém. Você precisa de céticos, especialmente quando a ciência se torna tão grande e monolítica".

Lovelock, que há 40 anos deu origem à ideia de que o planeta é um organismo gigante e autorregulável – a chamada teoria de Gaia –, acrescentou que tem pouca simpatia pelos cientistas do clima que foram pegos no escândalo dos e-mails da UEA. Ele disse que não leu os e-mails originais – "Eu me senti relutante em fuxicar" – mas que o conteúdo divulgado deixou-o "completamente indignado".

"Falsificar os dados é, de qualquer forma, quase literalmente um pecado contra o espírito santo da ciência", disse. "Eu não sou religioso, mas eu digo dessa forma porque eu considero isso muito forte. É o tipo de coisa que você nunca deve fazer. Você precisa manter o padrão".







quarta-feira, 24 de março de 2010

O fim do site Rizoma.net


É uma pena, mas somente hoje percebi que o site Rizoma.net saiu do ar.

Anárquico, vanguardista, provocador, inteligente. O Rizoma foi um marco na cibercultura, divulgando, produzindo ou traduzindo textos, entrevistas, matérias e reflexões libertárias e extremamente inovadoras.

Transgressor e sofisticado, inimigo da vulgaridade e do neo-fascismo jeca que assola o momentum pos-moderno, o Rizoma trafegava/traficava tranquilamente nas fronteiras da arte, filosofia, antropologia, psicanálise ou qualquer outra manifestação da vida, sempre em busca de novos paradigmas, rompendo limites.

No Rizoma pude ler e conhecer mais um pouco do Situacionismo ou das vanguardas punks ou ciber-punks, ou do pensamento anarquista-místico de Hakim Bey, só para ficar nos exemplos mais conhecidos.

Desde o falecimento de seu criador, Ricardo Rosas, o Rizoma vinha passando por mudanças.

No entanto, seu acervo não se perdeu. Parece que o pessoal que continuou a obra do Ricardo está disponibilizando acesso livre, para download, de todo o precioso material publicado.

Altamente recomendado para todos aqueles que se interessam por arte, vanguardas, filosofia, antropologia, anarquismo....

Confira nos links abaixo:




O grande irmão britânico




Big Brother nas lixeiras


A política de vigilância no Reino Unido pode ter alcançado novos níveis. Depois de o governo apresentar uma proposta de implantação de microchips em cães britânicos, há pouco mais de uma semana, é a vez agora de os residentes prestarem atenção ao lixo de suas casas. O grupo de defesa dos direitos humanos Big Brother Watch informou que autoridades de 68 cidades esconderam microchips nas latas de lixo das residências para monitorar os desperdícios de 2,6 milhões de casas.

A notícia é do jornal O Globo, 19-03-2010.

Entre os “vigiados”, estão residentes de Belfast, Bristol e Leeds. Segundo o Big Brother Watch, uma pesquisa realizada no ano passado revelou que, a cada dez pessoas, oito eram contra a medida. O relatório informa que a subprefeitura de Belfast já gastou 27,612 mil libras esterlinas em monitoramento de reciclagem e contaminação através de microchips, afetando 125 mil residências.

A intenção dos governos, de acordo com o grupo, é saber quais medidas de saneamento funcionam de forma adequada e também identificar os melhores recicladores para poder premiá-los.

— Este argumento é similar ao que usaram quando instalaram câmeras nas ruas. Diziam que era para nos proteger da delinquência, mas, na maioria das vezes, as câmeras são usadas para vigiar inocentes. Se não há intenções de nos monitorar e nem nos aplicar multas, por que instalaram esses microchips secretamente? — questionou o diretor da organização, Alex Deane.

Os chips, que têm o tamanho de uma pequena moeda, foram instalados na tampa dos latões. Neles, há informações que identificam cada residência e a quantidade de lixo despejado todos os dias.

Corinne Thomson, porta-voz da Associação de Governo Locais da Inglaterra e de Gales, disse que a operação foi realizada de forma discreta por medo de que as latas de lixo fossem vandalizadas.

— Este avanço tecnológico custou um certo dinheiro aos cofres públicos. Acreditamos que (a implantação de chips) nos ajudará a reduzir os custos de reciclagem e isso contribuirá para baixar os impostos — justificou a porta-voz da associação.

A subprefeitura de Belfast declarou que a instalação de microchips começou há sete anos e que a medida não nunca foi secreta.

“Nós temos informação sobre os microchips das lixeiras no nosso site e já produzimos diversas reportagens na revista gratuita ‘City Matters’ que explicam seu uso. Todos os dados são protegidos e somente funcionários autorizados podem consultá-los”, informou o órgão.

Desde a crise do “mal da vaca louca”, centenas de milhares de animais portam um microchip na orelha. Conhecida como o “passaporte bovino”, a placa eletrônica contém dados vitais da espécie e a identidade do proprietário. O ministro do Interior, Alan Johnson, afirmou que quer a mesma medida para os oito milhões de cães britânicos, como parte de uma iniciativa para controlar cachorros perigosos. A lei também poderá exigir um seguro pago pelos donos de cães a terceiros. Com 4,2 milhões de câmeras — uma para cada 14 habitantes —, o Reino Unido foi classificado pelo sociólogo David Murakami-Wood, da Universidade canadense de Queens, como “o país mais vigiado do mundo ocidental”. No entanto, a própria Scotland Yard já afirmou no passado que o sistema de monitoramento das cidades não coíbe a criminalidade.

segunda-feira, 22 de março de 2010

O ódio pelo Ocidente



Professor de sociologia da Universidade de Genebra e da Sourbonne de Paris, ex-parlamentar socialista do Parlamento Federal Suíço, relator especial da ONU para o direito à alimentação, e hoje vice-presidente do comitê consultivo do Conselho dos Direitos Humanos, Jean Ziegler, ao longo da sua vasta experiência internacional em nível diplomático, institucional e político, registra há muito tempo uma aversão generalizada por parte das populações do Sul do mundo e dos seus representantes internacionais com relação ao Ocidente. Um sentimento difuso, que envolve milhões de pessoas e que é arauto de situações trágicas e perigosas.

Reencontrar as raízes desse ódio, buscar desativá-lo, responsabilizando o Ocidente de modo a construir uma sociedade planetária mais justa, respeitosa das identidades e dos direitos de todos é o objetivo que Ziegler se colocou com o seu livro "L'odio per l'Occidente" [O ódio pelo Ocidente] (Ed. Marco Tropea, 263 páginas).

A análise é de Mauro Trotta, publicada no jornal Il Manifesto, 13-03-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A primeira parte do livro é, por isso, ligada às causas pelas quais, aparentemente de modo imprevisto, explodiu na sociedade planetária esse sentimento de aversão para com o Ocidente. A primeira razão localizada é o brusco reaparecimento da memória ferida dos povos do Sul, ou seja, as recordações relacionadas aos sofrimentos e às humilhações sofridas durante três séculos após a ocupação colonial e o escravismo.

Refazendo-se a tese sobre a memória coletiva de Maurice Halbawachs, que morreu em Buchenwald pouco antes da libertação do campo, Ziegler mostra como as sociedades humanas, do mesmo modo que os indivíduos, tendo uma vez sofrido um choque devido a uma agressão de violência inaudita, têm a necessidade de remover esse evento que a consciência não consegue controlar. E, quanto mais traumático é o evento, mais profundamente ele é enterrado na memória.

Essa memória obscura, porém, não é apagada e depois de um longo período de maturação volta à consciência. É o que ocorreu, por exemplo, com o Holocausto, que começou a ter um reconhecimento coletivo definitivo só duas gerações depois da queda do nazismo, pelo menos, apesar de acontecimentos, amplamente publicizados, como o processo de Nüremberg.

Do mesmo modo, a memória histórica do Sul do mundo, depois de momentos fundamentais para a sua própria reemersão – como a Conferência de Bandung de 1955 que viu o nascimento do Movimento dos Não-Alinhados – parece hoje ter chegado poderosamente à consciência de todos. E às justas reivindicações que os oprimidos dirigem a seus próprios opressores, a resposta, ainda hoje, é marcada pela arrogância, indiferença e desprezo, como mostram os tantos episódios citados no livro do fracasso, provocado pelos ocidentais, das duas conferências contra o racismo de Durban (a última ocorreu em abril de 2009) ao discurso do presidente francês Sarkozy em Dakar em julho de 2007, um tapa na cara dos povos africanos, e não apenas deles.

Se a isso se acrescenta que, há mais de 500 anos, os ocidentais dominam o planeta, as raízes do ódio parecem estar bem mais do que explicadas.

Um domínio que se explica por meio daquilo que, segundo Fernard Braudel escreveu no passado, é a essência mais verdadeira do Ocidente, ou seja, o seu modo de produção, isto é, o capitalismo, que "se fundamenta sobre monopólios de direito e de fato", gerando exclusão e opressão.

E não só: referindo-se a Immanuel Wallerstein, Jean Ziegler nota como o Ocidente é um potentado cujo passatempo preferido consiste em dar lições de moral ao mundo inteiro, usando, porém, uma linguagem ambivalente "quando se trata de desarmamento, de direitos humanos, de não proliferação nuclear, de justiça social planetária".

Assim, relacionando fatos históricos muitas vezes pouco conhecidos e acontecimentos da atualidade contemporânea, mostrando as contínuas humilhações ainda hoje reservadas ao povos do Sul, Ziegler constrói um livro fascinante, atravessado por mais vozes, daquelas dos diplomatas, dos governantes, mas também dos governados, dos oprimidos, movendo-se entre hotéis luxuosos, conferências internacionais, mas também entre periferias, favelas, vilarejos perdidos.

Tudo isso é sustentado por uma escrita ágil e clara e por raciocínios, reflexões e motivações límpidas e praticamente inatacáveis. E ele enriquece o seu texto com dois casos significativos, descrevendo, de um lado, a situação nigeriana, onde o grande poder das multinacionais petrolíferas, dentre as quais a Agip, encontra um apoio perfeito nos governantes do país e, de outro, a revolução boliviana encarnada na eleição do primeiro presidente indígena, Evo Morales.

O autor não se cala nem mesmo sobre os perigos inerentes ao ódio para com o Ocidente, ou seja, a difusão possível de racismos, por assim dizer, ao contrário, que, ligados à cega arrogância ocidental, propõem o etnonacionalismo e o fanatismo tribal.

Contra os predadores do mundo

Jean Ziegler é um estudioso que não compactua com nenhuma moda cultural. Ele poderia ser definido como um socialista ao velho estilo, pela capacidade de analisar as "coisas do mundo" a partir da diferença entre ricos e pobres, entre quem tem poder e quem não tem.

E, por isso, nos seus livros, não se apresenta muito o problema do respeito a um rigor teórico. O método que ele escolhe é o de oferecer amplas respostas sobre rigorosas documentações em torno ao tema que se propõe analisar. Assim, neste "L'odio per l'Occidente" (Ed. Marco Tropea), Ziegler acumula dados e restitui a história das políticas predatórias do Norte do mundo com relação às do Sul.

O livro que o tornou conhecido também na Itália, "A Suíça lava mais branco" (Ed. Brasiliense), uma denúncia do trabalho do sistema bancário suíço com relação ao rio de dinheiro proveniente de atividades ilícitas do mundo. Tese retomada também no ensaio contido em "Il libro nero del capitalismo" (Ed. Il Saggiatore). Nos últimos anos foram publicados: "Os senhores do crime" (Ed. Record), "A fome no mundo explicada a meu filho" (Ed. Vozes), "La privatizzazione del mondo" (Ed. Marco Tropea), e "L'impero della vergogna" (Ed. Marco Tropea).


sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

A bolha assassina (2)


Cientistas iniciam travessia para estudar a ''sopa de plástico'' no mar


A poluição marinha por plásticos é um problema global crescente, mas é especialmente grave na região do Pacífico Norte.

Cientistas marinhos iniciaram no último dia 08 de janeiro o lançamento transatlântico do primeiro estudo de poluição marinha por plásticos que é largamente conhecido como prevalecente somente no Oceano Pacífico Norte, a “Grande Marca de Lixo no Pacífico”.

A notícia é da Agência Envolverde, 12-01-2010.

“Este é um problema global, temos visto evidências de poluição por plásticos por todos os lugares do mundo e isto está piorando,” diz o capitão Charles Moore, fundador da Fundação de Pesquisa Marinha Algalita (AMRF), que em janeiro foi enfocado no programa de TV “The Colbert Report” (O Relatório Colbert) para discutir o problema que ele mesmo colocou no mapa pela primeira vez.

A viagem inaugural do estudo, de St. Thomas, Ilhas Virgens, EUA, até o Mar de Sargaço, é parte do Projeto 5 Gyres (giros), que realizará uma segunda travessia no Atlântico Sul em agosto próximo. Participam diretamente do projeto os pesquisadores Dr. Marcus Eriksen e Anna Cummins, que têm trabalhado com Moore, documentando a acumulação crescente de poluição por plástico no Giro do Pacífico Norte.

Eriksen e Cummins, casados em junho de 2009, trabalharão com a AMRF para aprofundar o foco da sua pesquisa anterior, a qual tem sido quantificar os plásticos flutuantes, incluindo fragmentos de micro-plásticos consumidos pelos peixes. Agora eles buscam entender como esses detritos afetam os peixes, para entender melhor o efeito humano do que o Los Angeles Times chama de “um dos segmentos da esteira de lixo tóxico da civilização que mais cresce”.

“As partículas de plástico no mar agem como magnéticos para químicos tais como DDT, PCB, retardadores de chama e outros poluentes,” diz Cummins. “O Projeto 5 Gyres está trabalhando agora para avançar nossas pesquisas anteriores com os testes buscando determinar se esses químicos se acumulam nos peixes, navegam ao longo da cadeia alimentar e terminam em nossos pratos de jantar.”

“Há cinco giros no mundo,” informa Cummins, “mas a poluição por plásticos não está confinada em um somente. Planejamos agrupar dados de todos os cinco.”

O Projeto 5 Gyres é uma colaboração entre a AMRF, onde Eriksen é diretor do programa de desenvolvimento, a Livable Legacy e a Pangaea Explorations. Um dos patrocinadores do projeto é a Blue Turtle. A Pangaea Explorations está fornecendo o veleiro de 72 pés Sea Dragon, no qual o casal velejará para coletar amostras da superfície do oceano, do fundo do mar e do conteúdo do estômago e dos tecidos de peixes para análise. Outros velejadores são voluntários para contribuir com suas pesquisas com equipamentos emprestados pelo Projeto 5 Gyres.

Acompanhe o progresso do Sea Dragon através da tecnologia GPS fornecida pela Blue Turtle.

Na última primavera, Eriksen e Cummins completaram um tour de 2.000 milhas de bicicleta para gerar conscientização do problema no Giro do Pacífico Norte, onde o próprio Eriksen velejou a bordo do JUNKraft da AMRF construído com 15.000 garrafas de plástico. O problema do plástico no oceano tem sido referido como a Marca de Lixo, mas que é muito mais difusa do que uma simples “marca”, a qual Eriksen e Cummins chamam de sopa de plástico.

Durante a sua viagem transatlântica de seis semanas — a primeira desse tipo — o casal fará uma parada nas Bermudas para palestras e para encontrar-se com o Cônsul Geral dos Estados Unidos Grace Shelton. Em 28 de janeiro eles velejarão aos Açores através do Mar de Sargaço, uma região alongada no meio do Atlântico Norte circundada por correntes oceânicas que formam outro giro oceânico. Eles esperam retornar para Santa Mônica em meados de fevereiro.

Em agosto, eles cruzarão o Giro do Atlântico Sul, indo do Rio de Janeiro à Cidade do Cabo, na África do Sul. Esta será a primeira travessia desse tipo nos últimos 30 anos no hemisfério sul.

Os pesquisadores enfatizam que, desde que a poluição do mar por plásticos não pode ser limpa por qualquer meio, a sociedade deve parar o problema na sua fonte. Eles defendem legislações que demandem das empresas tomarem para si a responsabilidade de recuperar e reutilizar os seus produtos, incluindo incentivos econômicos para promover a recuperação e a extinção dos produtos descartáveis. Legislações responsáveis irão criar, também, uma tremenda oportunidade para produtos inteligentes e inovadores.

“Não podemos sair desta sujeira pela reciclagem, nem podemos limpar o que já está lá fora,” diz Eriksen. “Não estamos olhando para uma grande acumulação de pedaços visíveis de plásticos, mas para uma sopa difusa de micro-partículas.”

Enquanto os efeitos potenciais à saúde humana permanecem desconhecidos, cientistas já estimam que perto da metade de todas as espécies de pássaros marinhos, todas as espécies de tartarugas marinhas e 22 espécies de mamíferos marinhos ferem-se ou morrem por causa do lixo plástico, seja pela ingestão, enredamento ou estrangulamento, antes que os detritos sejam quebrados (pela fotodegradação) em minúsculos fragmentos.

Eriksen e Cummins mantêm um blog sobre suas travessias.

Eles continuarão sua segunda viagem no Atlântico com um projeto de conscientização de duração de um ano chamado “O Último Canudo.” Este projeto inclui um tour de 2.000 milhas para ciclo de palestras na Costa Leste e a construção, em Paris, de um barco com 250.000 canudos de plástico. Neste barco, chamado de “STRA,” em homenagem à expedição RA feita por Thor Heyerdahl no final dos anos 1960, eles velejarão o Rio Sena e cruzarão o Canal Inglês.

O patrocinador do Projeto 5 Gyre Blue Turtle, baseado em San Francisco, é uma organização social que visa soluções completas e longevas para a poluição dos oceanos mundiais através da educação, de fontes de eliminação e limpeza. A Pangaea Explorations, outro patrocinador importante, é dedicada à descoberta de bases verdadeiras sobre o meio ambiente, envolvendo pessoas e as questões ambientais, e ensinando a próxima geração a respeitar e proteger o seu meio ambiente. Patrocínios chave adicionais são fornecidos por Ecousable, Quiksilver Foundation, Surfrider Foundation, Keen Footwear, Patagonia e Aquapac.



Veja ainda, neste Blog: A Bolha Assassina

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Entre o público e o privado


Facebook cria polêmica com nova ferramenta de privacidade

da France Presse, em San Francisco

O popular site de relacionamento Facebook lançou um novo dispositivo apresentado como um meio que permitirá a seus usuários administrar melhor o nível de confidencialidade do conteúdo que compartilham na rede, uma medida que, segundo alguns críticos, poderá ter um efeito inverso.

Desde quarta-feira (2), o site começou a pedir a seus mais de 350 milhões de membros que redefinam as características de seu perfil com uma nova ferramenta que lhes permite especificar quem pode ter conhecimento de cada foto, vídeo, atualização ou qualquer outro conteúdo colocado no site.


Facebook comemora 350 mi de usuários com novo modelo de privacidade


Segundo o Facebook, essa mudança permitirá aos usuários evitar que imagens inconvenientes ou atualizações muito atrevidas sejam vistas por chefes, conhecidos e outros que não fazem parte do círculo íntimo de amigos on-line.

"Será muito mais intuitivo para os usuários", opinou o diretor do Future of Privacy Forum, Jules Polonetsky. As redes regionais --associações comunitárias geográficas que o Facebook eliminou recentemente-- levavam os usuários a compartilhar, sem ter consciência disso, do conteúdo de seu perfil com milhões de usuários.

Os novos controles de privacidade também limitam a visibilidade do conteúdo criado por menores de 18 anos.

Mesmo que um menor selecione a opção "Todos" (podem ver suas fotos), a informação que compartilhar se limitará a seus "Amigos", "Amigos de amigos" e redes escolares.

As mudanças foram bem recebidas por inúmeros sites especializados em novas tecnologia.

Mas outros criticaram o fato de que o parâmetro, por defeito dos novos instrumentos de segurança, instauram um grau frágil de confidencialidade e que, nesse caso, as informações publicadas são visíveis para todos.

"O problema e que a maioria das pessoas não perde tempo configurando esse tipo de parâmetro", avaliou o jornal "The Washington Post".

Segundo o blog TechCrunch, o Facebook agiu para que as informações publicadas por seus usuários possam ser consultadas em tempo real e detectadas pelos motores de busca, de maneira a competir com o popular Twitter.

Era da privacidade na internet acabou, diz fundador do Facebook

da Folha Online

O fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, afirmou na sexta-feira (8) que, caso ele criasse o Facebook nos dias atuais, informações de usuários seriam públicas e não privadas --o que representa uma posição radicalmente oposta àquela defendida até então.

Em uma entrevista de seis minutos com o fundador do site de tecnologia TechCrunch, Zuckerberg passou 60 segundos falando sobre as políticas de privacidade do Facebook.

Modificadas no mês de dezembro, as configurações sobre privacidade no site de relacionamentos foram a base da questão. Agora, muitas das informações pessoais dos internautas podem ser vistas por toda a internet, caso o usuário permita.

"As pessoas realmente se sentem confortáveis não apenas em compartilhar mais informação e diferentes aspectos, mas mais abertura e com mais pessoas. É uma norma social que tem evoluído ao longo do tempo", disse ele. "Nosso papel é atualizar o nosso sistema para refletir de acordo com as normas sociais vigentes."

"350 milhões de usuários se inscreveram no Facebook sob a crença de que suas informações seriam compartilhadas apenas com amigos confiáveis. Agora a companha diz que isso é velho, e que as pessoas estão mudando", aponta o site ReadWriteWeb. "O Facebook está dizendo isso só porque ele quer que seja verdade."

"A alteração do contrato com os usuários, com base na suposta preocupação com seus desejos, é ofensiva e faz com que qualquer movimento feito pelo Facebook seja mais suspeito", indica o site.


Site que mistura jogo e localizador é o próximo Twitter, diz colunista da CNN

da Folha Online

O fundador e executivo-chefe do Marshable, popular blog norte-americano cuja temática gravita em torno de redes sociais, aposta agora em um site que parte da simples ideia de agregar um grupo de amigos para verificar os lugares nos quais eles estão.

Em sua coluna semanal na CNN, Pete Cashmore afirma que o Foursquare está além disso. O site, ele explica, é também um jogo virtual no qual os participantes ganham um distintivo para checar suas contas a partir de diversas localidades, comentando sobre o que há nelas --cafés, restaurantes, bares ou museus, por exemplo-- e ganhando pontuações. Ele diz que o mecanismo é tão viciante quanto Twitter, Facebook ou a checagem de e-mail no BlackBerry.

Cashmore afima que, "originalmente lançado como um aplicativo para iPhone e semeado pelos 'early-adopters' em cidades como Nova York e San Francisco, os fundadores do site foram capazes de pular de um trampolim de efeito imediato: o Twitter".

Os paralelos com o Twitter são numerosos, de acordo com ele, citando o blogueiro Robert Scoble: "Volte três anos atrás. O Twitter era usado pelas mesmas pessoas que hoje jogam o Foursquare".

As similaridades não param por aí. Ambos tiveram início em festivais de música norte-americanos. Membros de ambos construíram previamente startups de sociais de sucesso --e ambos foram incorporados pelo Google.

No entanto, a principal vantagem apontada pelo colunista é a de que o Foursquare estreou, nesta semana, o chamado API (interface de programação de aplicativos, que permite a inserção de pequenos softwares na plataforma do site, feita por terceiros).

"Isso tem se demonstrado, por diversas vezes, como uma força para esse tipo de ecossistema. De Flickr para Google Maps, para Twitter e mais além, fica claro que a massa crítica que antecede --em número suficiente de usuários e aplicativos para fazer um serviço inestimátivel-- prepara o terreno para uma vitória esmagadora", observa Cashmore, apostando que essa será a rede social que vai predominar em 2010.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Fim do consumismo seria a única saída para o planeta




A edição de 2010 do renomado relatório “State Of The World” afirma que sem uma alteração nos hábitos comportamentais e de consumo de nada adiantarão políticas públicas e avanços tecnológicos no combate ao aquecimento global e a outros desafios contemporâneos.

A reportagem é de Fabiano Ávila e publicado pelo sítio CarbonoBrasil, 12-01-2010.

As 500 milhões de pessoas mais ricas do mundo, cerca de 7% da população, são responsáveis por 50% das emissões de gases do efeito estufa, enquanto os três bilhões de pessoas mais pobres emitem apenas 6%. Com dados como esse, o relatório “State of the World 2010, Transforming Cultures: From Consumerism to Sustainability”, do Worldwatch Institute, publicado nesta terça-feira (12/1), traz como principal mensagem que sem uma mudança cultural que coloque valores sustentáveis acima do consumismo, não há milagre tecnológico ou política pública que resgatem a humanidade de graves problemas climáticos, sociais e ambientais.

O relatório chama de consumismo a orientação cultural que leva as pessoas a acharem contentamento, aceitação e significado para as suas vidas através do que possuem e utilizam. “Nós vimos alguns esforços encorajadores nos últimos anos no combate a crise climática. Porém fazer políticas ou mudanças tecnológicas enquanto a cultura segue centrada no consumismo e no crescimento não podem ir muito longe. Para que se consiga um avanço duradouro, é preciso que a sociedade mude sua cultura para que a sustentabilidade vire a norma e o consumo em excesso um tabu”, afirmou Erik Assadourian, diretor do projeto State of the World.

Em 2006, a humanidade consumiu US$ 30,5 trilhões em mercadorias e serviços, 28% a mais do que apenas 10 anos antes. O aumento do consumo resultou em um crescimento dramático da extração de recursos naturais. Os norte-americanos, por exemplo, consomem aproximadamente 88 quilos de recursos por dia. Se todos vivessem dessa maneira, a Terra sustentaria 1,4 bilhões de pessoas, apenas um quinto da atual população mundial.

“O padrão cultural é a raiz para a convergência sem precedentes de diversos problemas ecológicos e sociais; como as mudanças climáticas, epidemias de obesidade, declínio da biodiversidade, perda das terras cultiváveis e desperdícios de produção”, disse Assadourian.

Os 60 autores do relatório apresentam em 26 artigos algumas estratégias que já estão em funcionamento para a reorientação cultural. Algumas abrangem uma visão social do mercado, através da formação de cooperativas de agricultores, por exemplo. Outras avaliam modelos de planejamento familiar e esforços de marketing social. Há ainda a sugestão de que as escolas primárias sejam utilizadas na formação de uma nova cultura, com iniciativas simples como a alteração dos itens da merenda para uma alimentação mais saudável e baseada em produtos locais.

“Com o mundo lutando para se recuperar da mais séria crise econômica desde a grande depressão, nós temos uma oportunidade história para nos afastarmos do consumismo. No fim, o instinto de sobrevivência deve triunfar sobre a compulsão do consumo a qualquer custo”, concluiu Christopher Flavin, presidente do Worlwatch Institute.


terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

A era pós-mídia



A era pós-mídia de massa: a desconfiguração e descentralização da Comunicação.

Entrevista especial com Ivana Bentes


Desconfigurar, descentralizar, até mesmo "explodir". Para a doutora em Comunicação e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Ivana Bentes, o que caracteriza a "era pós-mídia de massa são justamente as práticas descentralizadas de comunicação". "A Internet é esse lugar de desconfiguração", afirma a professora em entrevista concedida, por email, à IHU On-Line.

Ivana acredita ainda que o fim da obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo "abre uma série de novas questões e debates sobre o campo da comunicação pós-mídias digitais bem mais interessantes do que o velho muro das lamentações corporativas". Segundo ela, os cursos de Comunicação precisam "dar uma virada e explodir" o ambiente da sala de aula tradicional e pensar uma formação por projetos, uma "wiki-universidade".

Analisando os resultados do Fórum de Mídia Livre e da Confecom, afirma que foram "um momento histórico, vivo, vibrante das possibilidades e limites da atual democracia brasileira". "É a sociedade inteira que se apropria das tecnologias e da linguagem jornalística contra o jornalismo, explodindo o jornalismo corporativo", defende.

Ivana Bentes é doutora em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Professora associada do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRJ e Diretora da Escola de Comunicação da UFRJ (ECO/UFRJ), também atua na área de Comunicação, com ênfase em estética, audiovisual, cinema, imaginário social, pensamento contemporâneo e cultura digital. Atualmente se dedica a dois campos de pesquisa: Estéticas da Comunicação, Novos Modelos Teóricos no Capitalismo Cognitivo e Periferias Globais: produção de imagens no capitalismo periférico. É coordenadora do Pontão de Cultura Digital da ECO/UFRJ. É curadora na área de arte e mídia, cinema, audiovisual.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Uma das principais discussões do II Fórum de Mídia Livre é pensar a produção de um novo mercado da comunicação: o mercado do diálogo. Como se apresenta esse mercado?

Ivana Bentes – O mercado não vem "primeiro". Ele é um resultado da articulação das redes de mídia livre, é o resultado da emergência de um movimento mídia-livrista. O que o Fórum de Mídia Livre tem buscado é dar visibilidade a essa rede de produtores de conteúdo em todas as mídias e aos novos movimentos do campo da comunicação, como o pessoal do Música Para Baixar, do Software Livre, dos blogs, além dos protagonistas históricos que lutam e lutaram pela democratização dos meios de Comunicação no Brasil (do rádio, das TVs comunitárias, públicas, do vídeo, da videoarte etc.).

"O que caracteriza a era pós-mídia de massa são práticas descentralizadas de comunicação, que podem criar novos ambientes colaborativos e participativos"

Então, é nesse sentido que temos que criar "mercados", num momento em que é a sociedade como um todo que produz mídia. Ou seja, se a mídia somos nós, com nossa capacidade cognitiva, afetiva, de produzir linguagem, valor, o mercado potencial de atuação é enorme, heterogêneo e diversificado. Mas, para existir, depende de uma série de fatores, entre eles a massificação das ferramentas e infra-estrutura para acesso amplo, livre, gratuito, a custo baixo, às redes e acesso às tecnologias e ferramentas de comunicação.

Ou seja, a questão do Fórum de Mídia livre é antes de mais nada potencializar esse momento de transição em que os intermediários e corporações que tinham uma "reserva de mercado" para a produção de conteúdos se veem em crise diante de uma tecnologia como a Internet, que tem potencial "livre", participativo e colaborativo, que demanda uma outra lógica, não hierarquizada, não centralizada, polifônica na produção das informações.

A palavra "mercado" não pode ser demonizada. Temos que criar e reivindicar a criação de novos mercados. Por exemplo, toda essa economia pós-Google dos centavos, dos downloads pelos aparelhos de celulares, os sites de textos, imagens em domínio público, os conteúdos licenciados em "creative commons": são mercados novos em que as próprias empresas pós-mídias de massa estão apostando, investindo e criando. Nós temos que inventar, criar valor e tornar desejável os nossos mercados a serem inventados.

No Fórum de Mídia, foi muito discutida, por exemplo, a possibilidade de criação de moedas sociais, moedas baseada na troca de serviços de comunicação ou outros, na linha do que o Cubo Card (www.cubocard.blogger.com.br) e Pablo Capilé inventaram para a cena musical e que deu muito certo. Inventaram uma moeda que faz circular serviços, bens e pessoas. Um mercado que vem viabilizando e dando visibilidade às bandas de rock do circuito fora das grandes capitais brasileiras, o projeto Fora do Eixo.

IHU On-Line – A situação dos realizadores independentes ainda é muito complicada nessa "Era pós-mídia"? Quais são os maiores desafios de se fazer comunicação alternativa hoje, em nosso país?

Ivana Bentes – Melhor falar em "produtores de conteúdo" de forma ampla, e sem o adjetivo "independente", pois o ambiente, seja para a mídia de massa, seja para novas mídias, está convergindo. Claro que existem assimetrias gigantescas entre os diferentes produtores de mídia, conteúdo etc. Mas nada está configurado ou determinado. Estamos no meio de dinâmicas muito velozes, que exigem uma disposição e experimentação de quem quer fazer mídia.

"A Internet, que tem potencial 'livre', participativo e colaborativo, demanda uma outra lógica, não hierarquizada, não centralizada, polifônica"


O que caracteriza essa era pós-mídia de massa são justamente as práticas descentralizadas de comunicação ponto a ponto, P2P (peer-to-peer), pós-Internet, que têm esse potencial de criar novos ambientes de trabalho, de educação, de lazer, colaborativos e participativos, rompendo com velhas formas de hierarquização e de aprendizagem unidirecionados e/ou centralizados, estimulando processos coletivos de ampla conectividade em rede. Essas proposições não têm nada de utópicas, são bem realistas, pragmáticas e imanentistas. Aliás, basta olhar para algumas práticas emergentes de mídia (a blogosfera, por exemplo) e os ambientes de ensino/aprendizado/convivência reais/virtuais.

Vejo de forma bem ampla a questão do mídia-livrismo, com a entrada de novos sujeitos sociais na produção de mídia, o que podemos chamar de inclusão subjetiva. As coberturas das guerras, catástrofes – como agora no Haiti, Afeganistão – e mesmo uma nova sensibilidade e crônica do cotidiano estão sendo feitas nos blogs, twitters, mídias sociais, redes de "pessoas comuns" que impactam o mundo.

Inclusão subjetiva significa que essas vidas, essas pessoas têm um potencial de produzir outras "linguagens". As redações de jornais e TVs têm um ambiente marcado socialmente, homogêneo demais. Então, a explosão dessa produção desterritorializada, heterogênea pode produzir dissenso, fricção, tensão. Falando das mídias tradicionais, é urgente colocar dentro das redações de jornais, TV, mídia, pessoas vindas de outros grupos sociais. Isso muda tudo. Um editor de polícia, urbanismo, que tem outra vivência da cidade, por exemplo. A Internet é esse lugar de desconfiguração. Claro que pode simplesmente reproduzir o modelo da mídia de massa, mas essa potencialidade está aí.

Existem projetos de produção de conteúdos e de mídia que podem vir diretamente das favelas, das prisões, dos hospitais, dos asilos, de ambientes quaisquer, que podem trazer consigo uma outra expressão e comunicação. Um exemplo brasileiro é a forma como os motoboys se articularam usando a Internet e produzindo mídia (http://www.zexe.net/SAOPAULO/intro.php?qt=).

São 12 motoboys de São Paulo que percorrem espaços públicos e privados da cidade com celulares e acesso a um site. Fotografam, filmam e publicam em tempo real na Internet as suas experiências. Fazem uma crônica/cobertura singular da cidade, gerando um conhecimento coletivo e partilhado. É um projeto original de mídia, em que a "vida" desses motoboys é que produz "linguagem" e valor.

Tem ainda projetos como o Observatório da Maré, os repórteres-comunitários do Viva Favela, sites do Rio que apontam para essas possibilidades, de gangues-guerrilheiras das notícias. Isto é a Ciberperiferia: a apropriação das novas mídias por outros grupos sociais.

IHU On-Line – O que você pensa sobre essa nova Lei de Publicidade? E quanto à retirada da obrigatoriedade do diploma de jornalista para o exercício da profissão?

Ivana Bentes – O fim da exigência do diploma para se exercer o jornalismo no Brasil (como em tantos países do mundo inteiro) abre uma série de novas questões e debates sobre o campo da comunicação pós-mídias digitais, bem mais interessantes do que o velho muro das lamentações corporativas. Agora, será necessário constituir novos "direitos" para jornalistas e não-jornalistas, free-lancers, blogueiros e mídia-livristas. Todos terão que inventar novas formas de lutas comuns.

O fim do diploma tira da "invisibilidade" a nova força do capitalismo cognitivo, as centenas e milhares de jovens free-lancers, autônomos, mídia-livristas, inclusive os formados em outras habilitações de Comunicação que eram impedidos por lei de fazer jornalismo e exercer a profissão e que, ao lado de qualquer jovem formado em comunicação, constituem hoje os novos produtores simbólicos, a nova força de trabalho "vivo".

"O fim da exigência do diploma para se exercer o jornalismo abre novas questões sobre o campo da comunicação pós-mídias digitais"


Parece que vamos, finalmente, sair do piloto automático dos argumentos prontos "de defesa do diploma", que sempre escamotearam alguns pontos decisivos.

O fim da exigência de diploma para trabalhar em jornalismo não significa o fim do ensino superior em jornalismo, nem o fim dos cursos de Comunicação que nunca foram tão valorizados. Outros cursos, extremamente bem sucedidos e disputados no campo da Comunicação (como publicidade) não têm exigência de diploma para exercer a profissão e são um sucesso, com enorme demanda.

A qualidade dos cursos e da formação sempre teve a ver diretamente com projetos pedagógicos desengessados, com consistência acadêmica, professores de formação múltipla e aberta, diversidade subjetiva, e não com "especificidade" ou exigência corporativa de diploma. Isso traz um questionamento sobre a atual formação, pois as universidades não precisam (ou não deveriam) formar "peões" diplomados, mas sim jovens capazes de exercer sua autonomia, liberdade e singularidade, dentro e fora das corporações, não profissionais "para o mercado", mas sim capazes de "criar" novos mercados e ocupações, jornalismo público, pós-corporações, midiarte, jovens que inventam ferramentas, práticas e mercados pós-mídias massivas.

Nada justificava, pois, a "excepcionalidade" do diploma para os jornalistas, o que criou uma "reserva de mercado" para um pequeno grupo, reserva que diminuía a empregabilidade de jovens formados em cinema, rádio e TV, audiovisual, publicidade, produção editorial etc., proibidos pela exigência de diploma de exercer... jornalismo.

O raciocínio corporativo constituiu, até hoje, uma espécie de vanguarda da retaguarda, com um discurso fabril, estanque, de defesa da "carteira assinada" e dos "postos de trabalho", enquanto, no capitalismo cognitivo, no capitalismo dos fluxos e da informação, o que interessa é qualificar não para "postos" ou especialidades (o operário substituível, o salário mais baixo da redação!), mas sim para campos do conhecimento, para a produção de conhecimento de forma autônoma e livre, não o assujeitamento do assalariado, paradigma do capitalismo fordista.

A ideia de que, para se ter "direitos", é preciso se "assujeitar" em uma relação de patrão/empregado, de "assalariamento", é uma ideia francamente conservadora. O precariado cognitivo, os jovens precários das economias criativas estão reinventando as relações de trabalho; os desafios são enormes, a economia pós-Google não é o jornalismo fordista, não vamos combater as novas assimetrias e desigualdades com discursos e instrumentos da revolução industrial.

"As universidades não deveriam formar 'peões' diplomados, mas sim jovens capazes de exercer sua autonomia, liberdade e singularidade"


Devemos lutar não por cartórios do século XIX, mas pelos novos movimentos sociais de organização e defesa do precariado, lutar pela autonomia fora das corporações, para novas formas de organização e seguridade do trabalhador livre do patrão e da corporação.

As forças livres (frágeis, sem direitos, sem seguridade, nômades globais, precários, imigrantes, periféricos, doutores ou favelados) do precariado são a nova classe, grupo, força no capitalismo contemporâneo. São novos direitos, novas lutas... Não tem volta. Mesmo sabendo que o capitalismo cognitivo produz obviamente novas formas de coerção, capturas e despotencialização, a primeira questão é compreender as mudanças para intervir e construir o devir.

IHU On-Line – Em termos gerais, quais são os principais dilemas da comunicação no Brasil?

Ivana Bentes – Atualmente, é fazer a passagem de um sistema de Comunicação concentrado, hierarquizado e monopolista, que tem apenas privilégios e cujo horizonte são audiências massificadas, para um sistema de Comunicação horizontal, descentralizado, organizado em redes abertas, públicas e que pense não em termos de "audiência" ou público, mas sim em produtores de conteúdo e expressão. E que possa ter algum tipo de regulação social. Ou seja o consumidor de mídia como produtor e "observador" de mídia. Ninguém mais quer "aparecer" na TV ou no jornal simplesmente. As pessoas, grupos, coletivos, entidades, associações querem um canal de expressão, um canal de TV, acesso imediato aos meios de produção e distribuição, logo, de expressão.

Outra questão muito importante nesse momento é a universalização do acesso dos brasileiros à banda larga, com a criação e manutenção de uma rede de infra-estrutura pública de Internet, garantindo que essa passagem e mutação tecnológica não produzam mais assimetria de poder e aumentem a produtividade social como um todo. E também a criação de um marco legal civil para a Internet e as novas mídias que não criminalize as novas práticas sociais, como compartilhar arquivos, disponibilizar conteúdos em domínio público, assegurar a navegação anônima, uma série de "direitos" importantíssimos.

Outra questão: a alteração da legislação de Direito Autoral para garantir a ampliação das possibilidades de uso das obras protegidas para flexibilizar ou liberar totalmente os usos para fins de educação, pesquisa, de difusão cultural, preservação, uso privado de cópia integral sem finalidade comercial e também para uma gestão coletiva e estímulo ao licenciamento alternativo e garantia à proteção dos conteúdos em domínio público, de modo que esses conteúdos financiados publicamente (e outros) possam continuar livres.

"O raciocínio corporativo constituiu uma espécie de vanguarda da retaguarda, com um discurso fabril, estanque"

No campo da formação para as novas mídias, é importante a criação de escolas livres de formação multimídias em todo país, experimentando novas metodologias, novas ferramentas, jornalismo-cidadão, web jornalismo, blogagem, explodindo a formação disciplinar e hiperespecializada atual. Os cursos de Comunicação precisam dar uma virada e explodir (ou mudar) o ambiente da sala de aula tradicional e pensar uma formação por projetos, laboratórios, uma wiki-universidade, dinâmicas novas.

Isso sem falar em todas as mudanças necessárias na atual Lei Geral das Comunicações da década de 70 e totalmente defasada em termos tecnológicos, conceituais e que não está à altura da democracia já conquistada e desejada neste país.

IHU On-Line – A imagem é o novo capital? Poderia comentar essa ideia que inspira um de seus artigos?

Ivana Bentes – Estamos em um capitalismo cognitivo que tem como base o design, a publicidade, as imagens, a informação. Ou seja, a intuição do teórico francês Guy Debord nos anos 60/70 sobre a "sociedade do espetáculo" é interessante e importante, mas não pensada de uma forma simplificada e moralista pelo pessoal que sofre de iconofobia (medo das imagens) e que banalizou e generalizou de tal forma a critica da "sociedade do espetáculo" que a própria crítica virou um clichê teórico que se aplica de forma generalizada.

A frase decisiva de Guy Debord é: "O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas mediada por imagens" (Ver o texto "Depois do espetáculo: reflexões sobre a tese 4 de Guy Debord", de Juremir Machado da Silva, que vai em outra direção, mas é excelente).

Mas o que interessa aí, ao meu ver, é entender essa "relação social mediada por imagens", é reverter a impotência das imagens e dos clichês. Não é a "iconofobia", mas sim a iconofilia, o amor às imagens, que pode reverter os clichês em potência e arrancar dos clichês novas virtualidades. "Rachar" e explodir os clichês e arrancar daí a nova potência das imagens (Deleuze, Foucault dizem isso). Senão, seremos os anunciadores do apocalipse da sociedade do espetáculo, um tipo de discurso da impotência e do ressentimento diante do mundo, que faz o maior sucesso no nosso meio acadêmico.

"Devemos lutar não por cartórios do século XIX, mas por novos movimentos sociais de organização e defesa do precariado"
Vivemos com as imagens e entre imagens. É preciso entender o estatuto e nossa relação vital com as imagens. A imagem nunca foi investida de tanto valor, real e simbólico. A imagem-publicitária, a imagem-capital, as imagens produzidas no campo da arte, que podem atingir valores irracionais. Mas também o valor afetivo incomensurável de certas imagens com as quais nos relacionamos, que têm uma duração, que sobrevivem ao fluxo aniquilante, ao "esgoto público das imagens" que nos atravessa (YouTube, TV, web, jornais, publicidade na cidade, fluxo de imagens e discursos nos dispositivos tecnológicos).

Por isso é tão importante aprender (e ensinar) a "ler" as imagens e a produzir discursos pela imagem. Também as tecnologias de visualização me parecem decisivas, da câmera digital até o Google Maps, Google Stret View, Google Ocean, Marte etc. ferramentas capazes de escanear, mapear, localizar, de sobrepor camadas de informação vivas, criar imagens que não são mais representações de nada, mas que são a experiência mesma do mundo, mediado pelas imagens.

Ou seja é preciso pensar a imagem como algo "vivo" e nós como imagens entre imagens. Nada disso enfraquece o sentido da crítica, do pensamento. É preciso pensar com as imagens, através das imagens e, quando necessário, contra as imagens. Nesse sentido o último livro do Jacques Rancière, "O Espectador Emancipado", é excelente: esse espectador "alienado" não existe. Todo espectador é ativo.

IHU On-Line – De que forma essa imaterialidade influencia as práticas do trabalhador jornalista?

Ivana Bentes – O jornalista, os produtores de mídia e conteúdos sempre trabalharam com o "imaterial", produção de sentido, criação de valor, produção de "consensos" e opiniões (para o pior e para o melhor). A questão hoje é que há uma mudança, uma mutação em curso, que torna qualquer um habilitado a ocupar esse lugar dos "especialistas". A sociedade como um todo pode produzir mídia, com a universalização das técnicas, tecnologias, dispositivos outrora reservados e dominados por uma corporação. É a sociedade inteira que se apropria das tecnologias e da linguagem jornalística contra o jornalismo. Explodindo o jornalismo corporativo (ou reforçando, claro). Para mim, esta é a mudança que interessa: a apropriação tecnológica pela multidão, visando as novas lutas dentro do capitalismo cognitivo, imaterial, de produção e disputa de linguagens e processos. É a guerrilha semiótica, a disputa e a partilha do sensível pelas imagen s e discursos.

Estamos numa cultura/contexto em que a metalinguagem vai se tornando um aprendizado de massas: Alice atravessou o espelho, e é para esse mundo que o trabalhador-jornalista tem que produzir, ou seja, trabalhar ironicamente pela sua "desaparição", como mediador clássico. Não se trata de nenhuma contradição. Estou diretora e sou professora de uma Escola de Comunicação, mas luto para que qualquer brasileiro possa se tornar um produtor de informação, de linguagem, de estética singular e diferenciado. Essa é a revolução digital, tecnológica, mental que interessa.

IHU On-Line – Você sempre diz que a comunicação é importante demais para ficar sendo discutida apenas por profissionais da Comunicação. A partir disso, qual foi a consistência dos debates na Confecom?

Ivana Bentes – Um dos pontos positivos da Confecom foi ter mobilizado os novos movimentos sociais que pensam a mídia e a comunicação de "fora" das corporações, e que trazem um oxigênio novo. Todo mundo quer fazer mídia, entender de mídia. A mídia somos nós, toda a sociedade, a multidão, os movimentos ligados à música, ao software livre, aos direitos autorais, às favelas e periferias. Não para reforçar discursos identitários ou de guetos, simplesmente, mas quando conseguem se colocar como produtores de subjetividade, de linguagem e exigem sua inclusão subjetiva nas mídias.

"Os cursos de Comunicação precisam dar uma virada e explodir (ou mudar) o ambiente da sala de aula tradicional"
Vi claramente muitas vezes um "confronto" entre os que só pensam a mídia e a comunicação de forma "tradicional", clássica, mídia de massa, corporativa, "profissional", e essa emergência de um zona livre, dos mídia-livristas, dos que lutam por essa inclusão subjetiva.

Os debates foram bons, às vezes tensos e muito negociados para a votação dos pontos finais. Fiquei bastante decepcionada com a atuação de algumas entidades partidárias, entidades classistas, sindicatos, federações. Vêm com um discurso muito "conservador", com práticas antigas de fazer política, que não colam mais no horizonte de uma democracia participativa e não simplesmente representativa e aparelhada.

IHU On-Line – Como a Confecom e o Fórum de Mídia livre ajudam a democratizar a comunicação em nosso país?

Ivana Bentes – Esses Fóruns e conferências são o palco das lutas do presente e são também os laboratórios de criação de futuros. Futuros imaginados, fabulados, disputados, abortados. É uma experiência extraordinária e revitalizante, apesar de todos os obstáculos eventuais com propostas extraordinárias que vão ficando pelo caminho. Para mim, são espaços para existirmos criando e fabulando, e não apenas reagindo contra o estado das coisas. Nesse sentido, o fato de serem "diretrizes", propostas, carta de intenções não diminui em nada sua efetividade. São territórios de produção de virtualidades, a maior riqueza de todas.

IHU On-Line – Você defendeu também que um novo marco regulatório deve ser criado. O que deveria constar obrigatoriamente neste documento e porque ele é tão importante?

Ivana Bentes – São todas as mudanças necessárias na atual Lei Geral das Comunicações, da década de 70, que está totalmente defasada em termos tecnológicos, conceituais, em termos de democracia. São muitas as mudanças, e uma parte delas entrou nas propostas aprovadas pela Confecom e também no Programa Nacional dos Direitos Humanos (PNDH-3), bombardeado nesse momento pelas forças mais conservadoras da sociedade brasileira.

"A iconofilia pode reverter os clichês em potência e arrancar dos clichês novas virtualidades. Vivemos com as imagens e entre imagens"

As mais importantes ao meu ver: o fim da propriedade cruzada e a proibição de monopólios e oligopólios em todos os setores das comunicações; a revisão dos critérios de concessão de canais de Rádio e TV, para que não sejam outorgas vitalícias; criação de mecanismo de avaliação destas outorgas; criação de mecanismos de monitoramento dos meios de Comunicação pela sociedade (observatórios, conselhos), como qualquer outro serviço público; a elaboração de um novo marco regulatório para os trabalhadores autônomos; a democratização das verbas publicitárias e propostas de apoio e financiamento público para criação de veículos de comunicação, redes de comunicação, de interesse público/comum. Ou seja, assegurar a Comunicação como um direito para toda a sociedade, em todos os níveis (Internet, telefonia, radiodifusão etc.)

O novo marco legal para as Comunicações implica em muitas alterações de ordem jurídica, ética, técnica. É um documento complexo que terá que ser construído coletivamente, mas as principais propostas já estão aí. Recomendo a leitura do documento final da Confecom e o Programa Nacional dos Direitos Humanos.

IHU On-Line – Qual é a sua avaliação geral sobre a Confecom? Quais são os principais avanços contidos no Relatório Final?

Ivana Bentes – A Confecom é uma criação de "futuro", o que a sociedade brasileira, os movimentos sociais, os movimentos pela democratização da comunicação lutaram nesses anos todos. E que teve que se confrontar ou se aliar com outros atores sociais: setor público, empresariado etc. Esse lugar de diálogo e disputa é decisivo e tem que ter continuidade e regularidade. Vejo muitos avanços, mas são propostas que terão ainda que ser defendidas no Congresso, diante da própria sociedade como um todo para serem implantadas e cumpridas.

Algumas questões históricas foram aprovadas dentre essas diretrizes como: a universalização da banda larga no país; o fim da propriedade cruzada e a proibição de monopólios e oligopólios em todos os setores das comunicações; a elaboração de um novo marco regulatório para os trabalhadores autônomos, propostas de apoio e financiamento público para criação de veículos de comunicação que priorizem a produção das periferias, movimentos sociais, minorias; a proposta de um novo marco civil para a Internet (que já está em curso) etc. E muitas outras proposições em termos de financiamento público, jornalismo público e cidadão, democratização das verbas publicitárias públicas.

Em resumo, vejo como principal avanço a ideia de uma Comunicação pública, produzida, regulada, voltada para a radicalização da democracia neste país, para além das corporações e da mídia tradicional, e a entrada em cena de novos atores ligados à cultura digital, blogs, periferias.

"É a sociedade inteira que se apropria das tecnologias e da linguagem jornalística contra o jornalismo. Explodindo o jornalismo corporativo"
Ao mesmo tempo muitas propostas importantes não passaram, foram barradas, negociadas, o que não significa que não possam vir ser implementadas, desde que a sociedade se mobilize para isso.

IHU On-Line – Concorda que houve um boicote das grandes empresas de telecomunicações à Confecom? Por quê?

Ivana Bentes – Houve boicote de algumas emissoras de TV e entidades de classe, ligadas aos empresários da Comunicação, que se sentem ameaçados por todas as mudanças, tecnológicas, políticas, de comportamento que forçam uma mudança do negócio e democratizam a comunicação. E que não tem volta. Diferentemente dos jogos de futebol, em que o adversário não aparece, e o outro ganha por "W.O". Em inglês Walk Over, o verbo significa "to win without difficulty against", ganhar sem dificuldade. Mas as conquistas da Confecom não foram sem dificuldades, e houve ameaças e jogo pesado até o último momento, mesmo com esse W.O. das emissoras de TV, pois todas as propostas ainda terão que ser implementadas, ou seja, serão disputadas uma a uma. Tem muito jogo para se jogar.

A parte boa é que a não participação de algumas emissoras de TV, que seria uma estratégia para "esvaziar" e neutralizar a Confecom, não deu certo. O documento está aí, uma bandeira fincada e reconhecida pela sociedade e pelo governo. Outras entidades e representantes e donos de canais de TV aceitaram discutir e disputar propostas. Houve embate de posições, negociações, e o texto consensuado da Confecom é o "estado da arte" do que a sociedade brasileira, neste momento, consegui consensuar, com todas as limitações e estratégias de esvaziamento. Foi um momento histórico, vivo, vibrante das possibilidades e limites da atual democracia brasileira.

(Reportagem de Greyce Vargas e Moisés Sbardelotto)