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quinta-feira, 7 de agosto de 2014

A pacífica transição da era nuclear para a solar


 
"Todas as crises atuais são consequência da miopia de nossas antigas inovações tecnológicas e sociais que abordavam os problemas de curto prazo sem prever seus efeitos de longo prazo para todo o sistema", escreve Hazel Henderson presidente do Ethical Markets Media (Estados Unidos e Brasil) e criadora do Green Transition Scoreboar, em artigo publicado por Envolverde, 21-07-2014.
Eis o artigo.
A proposta de paz que o presidente japonês da organização budista Soka Gakkai Internacional (SGI)Daisaku Ikeda, realizará este ano – levou minha atenção das notícias do dia para preocupações de longo prazo por uma sociedade humana mais pacífica, equitativa e sustentável que assegure nosso futuro comum.
Agora, essas inquietações mais amplas são compartilhadas por milhões de seres humanos que transcenderam os objetivos puramente pessoais, locais e nacionalistas e se converteram em protótipos de cidadãos globais.
Os tropeços de nossas instituições atuais geram crises diárias e conduzem, como sempre, a novos avanços na medida em que os humanos buscam soluções novas. O estresse sempre foi uma ferramenta de evolução, como registraram os 3,8 bilhões de anos de formas de vida em nosso planeta.
Todas as crises atuais são consequência da miopia de nossas antigas inovações tecnológicas e sociais que abordavam os problemas de curto prazo sem prever seus efeitos de longo prazo para todo o sistema.
Dessa forma me interessei na queima humana dos combustíveis fósseis e nas escavações da terra para buscar nossa energia, o que me levou a aderir à Sociedade Mundial do Futuro nos anos 1960.
Na ocasião liderava a gestão para limpar o ar contaminado da cidade de Nova York, já que vivia perto de uma usina de energia que queimava carvão e lançava fumaça e fuligem no parque de brincar, onde eu e outras mães vigiávamos nossos filhos pequenos.
Peguemos o salto até 2014. Continuo sendo uma futurista de carteirinha e estou no Comitê de Planejamento do Projeto do Milênio, que faz o acompanhamento dos 15 desafios globais de nossa família humana.
Nosso último Informe sobre o Estado do Futuro 2014 indica nossos avanços e nossos tropeços na abordagem desses desafios, que inclui o desenvolvimento sustentável e a mudança climática, a água, a população e os recursos, a democratização, a formulação de políticas de longo prazo, e a globalização da tecnologia da informação.
A lista continua com brecha entre ricos e pobres, a saúde, a capacidade de tomar decisões, a resolução de conflitos, a melhoria da situação das mulheres, o crime organizado transnacional, a energia, a ciência e a tecnologia, e a ética mundial.
Neste Projeto do Milênio participaram pessoas da academia, do governo, da sociedade civil e do setor privado de 50 países.
Ao mesmo tempo, Daisaku Ikeda, líder de 12 milhões de membros da SGI e também meu estimado coautor de Cidadania Planetária, esboça sua proposta anual de paz para 2014, como vem fazendo desde 1983. Ikeda, nascido em 1928, é um dos cidadãos de maior distinção no mundo.
Sua proposta de paz para 2014, A Criação de Valor Para a Mudança Global: A Construção de Sociedades Resistentes e Sustentáveis, envolve questões daOrganização das Nações Unidas (ONU).
Assim, transcende os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) para incluir a agenda dos 191 países durante a Cúpula da Terra, conhecida como Rio+20, realizada em 2012 no Brasil e na qual foram traçados os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
Os ODS defendem a transição da energia fóssil e nuclear para economias a caminho de serem mais descentralizadas, limpas, verdes e ricas em conhecimentos.
Cheguei a conclusões semelhantes no livro Mapping the Global Transition to the Global Age (Mapa da Transição Global Para a Era Global), de 2014. As tecnologias atuais fazem com que seja factível acabar com os usos humanos dos combustíveis fósseis, do urânio e das usinas e armas de nucleares, com assinalam muitos informes do Green Transition Scoreboard 2014.
A vontade política em muitos países continua refém de interesses especiais, grupos de pressão e do dinheiro desses setores e seus perversos subsídios. Movimentos civis de todo o mundo pressionam os fundos de pensões e as fundações universitárias para que“desinvistam” nos setores fossilizados e mudem para investimentos mais limpos, ecológicos e sustentáveis.
Experientes especialistas financeiros, com Jeremy Grantham e Robert A. G. Monks, engrossaram o coro desses críticos, junto aos gestores de ativos que oferecem carteiras“sem fósseis”, que frequentemente superam o rendimento dos ativos mais sujos.
Enquanto os Estados Unidos e a Europa fecham suas usinas de energia nuclear devido às alternativas de energia solar e eólica mais econômicas, ainda se prevê a construção de muitas na Ásia, inclusive na China, que é a líder mundial em energia solar.
São necessários avanços conceituais enormes para mudar os velhos modelos e a cegueira induzida pela teoria. Um deles é a proposta da Via Solar Para o Irã, que a Fundação Planck desenvolve com rapidez para que Teerã acabe com a discussão política sobre seu direito de desenvolver energia nuclear com fins civis.
Essa proposta deixaria de lado as sanções, as preocupações de Israel por outro Estado com armas nucleares no Oriente Médio e “eletrificaria” a próxima conferência da ONU sobre oTratado de Não Proliferação Nuclear.
O plano da Fundação Planck implica uma mudança de paradigma. O Irã poderia acelerar sua transição dos combustíveis nucleares e fósseis de forma imediata, com a compra de pacotes de ações de empresas de energia solar da China, para depois adquirir tanta quantidade de seus painéis solares quanto lhe fosse possível.
Esta é uma alternativa muito mais barata do que a construção de reatores nucleares ou usinas de energia à base de combustíveis fósseis.
As abundantes reservas de petróleo iraniano ficaram debaixo da terra como um valioso insumo industrial em lugar de queimá-las, um plano que eu propus no programa de televisãoToday Show, da rede norte americana NBC. Em 1965!
plano Via Solar Para o Irã exigiria a ampliação dos serviços ferroviários na rota da seda para a China, a fertilização de terras desérticas com flora de água salgada, como ocorre com seu plano DesertCorp, de expandir a agricultura com base na água do mar em regiões desérticas.
Os tropeços de hoje estão gerando novos planos sistêmicos e avanços propostos há anos por cidadãos futuristas e planetários. Esses planos para nosso futuro em comum e as economias verdes estão cobertos pela Ethical Markets Media nos Estados Unidos e noBrasil, mas não aparecem com frequência nos principais meios de comunicação.





sábado, 7 de junho de 2014

Avanço tecnológico desafia capitalismo

 
 
"Entramos em um mundo parcialmente fora dos mercados, onde estamos aprendendo a viver numa comunidade cada vez mais interdependente, cooperativa e global", escreve Jeremy Rifkin, em artigo publicado no jornal The New York Times, e reproduzido pelo jornal O Estado de S. Paulo, 24-03-2014.
Eis o artigo.
Estamos começando a testemunhar um paradoxo no coração do capitalismo. O dinamismo inerente de mercados competidores está baixando de tal forma os custos que muitos bens e serviços estão se tornando quase gratuitos, abundantes, e não mais sujeitos às forças do mercado. A revolução tecnológica está trazendo esses custos a quase zero.
Os primeiros indícios do paradoxo surgiram em 1999 quando o Napster desenvolveu uma rede permitindo que milhões de pessoas compartilhassem música de graça, causando estragos na indústria musical. Fenômenos parecidos abalaram seriamente as indústrias de publicação de jornais e livros.
A enorme redução dos custos marginais abalou esses setores e agora está começando a remodelar o setor de energia, a indústria de transformação e a educação. Apesar de os custos fixos da tecnologia de energia solar e eólica serem um tanto salgados, o custo de capturar cada unidade de energia depois de instalada é baixo. Este fenômeno penetrou até no setor manufatureiro. Milhares de amadores estão fazendo seus próprios produtos com impressoras de 3-D, software aberto e plástico reciclado como matéria-prima a um custo quase zero.
Por sua vez, mais de 6 milhões de estudantes estão matriculados em cursos online cujo conteúdo é distribuído a um custo marginal quase zero.
Observadores do setor reconhecem a realidade assustadora de uma economia com custo marginal quase zero, mas argumentam que produtos e serviços gratuitos atrairão um número suficiente de consumidores para comprar bens e serviços mais sofisticados, assegurando margens de lucros suficientes. Mas o número de pessoas dispostas a pagar pelos bens e serviços especiais é limitado.
Internet das coisas
Agora, o fenômeno está prestes a afetar a economia como um todo. Uma formidável nova infraestrutura de tecnologia - a internet das coisas - está surgindo com o potencial de empurrar boa parte da vida econômica para um custo marginal quase zero nas próximas duas décadas. Esta nova plataforma tecnológica está começando a conectar tudo e todos. Hoje, mais de 11 bilhões de sensores estão afixado em recursos naturais, linhas de produção, a rede elétrica, redes logísticas e fluxos de reciclagem, e implantados em casas, escritórios, lojas e veículos, alimentando uma enormidade de dados na internet de coisas. Em 2020, segundo projeções, seriam pelos menos 50 bilhões os sensores a ela conectados.
A questão não resolvida é como esta economia do futuro funcionará quando milhões de pessoas puderem fazer e compartilhar bens e serviços quase de graça? A resposta está na sociedade civil, que consiste de organizações sem fins lucrativos que atendem às coisas na vida que fazemos e compartilhamos como comunidade. Em termos monetários, são uma força poderosa. As receitas dessas organizações cresceram sólidos 41% de 2000 a 2010, mais que o dobro do crescimento do Produto Interno Bruto, que cresceu 16,4% no mesmo período. Em 2012, o setor sem fins lucrativos nos Estados Unidos respondeu por 5,5% do PIB.
Inclusão
O que torna a comunidade social mais relevante hoje é que estamos construindo uma infraestrutura de internet das coisas que aprimora colaboração e acesso universal, cruciais para a criação de capital social e marcar o início de uma economia solidária.
Esta abordagem colaborativa em vez de capitalista diz respeito mais ao acesso compartilhado que à propriedade privada. Por exemplo, 1,7 milhão de pessoas em todo o mundo integram serviços de compartilhamento de carros. Uma pesquisa recente revelou que o número de veículos possuídos por participantes desse sistema caiu pela metade após sua adesão o serviço, pois os membros preferiram acesso em vez de propriedade. Milhões de pessoas estão usando sites de mídias sociais, redes de redistribuição, aluguéis e cooperativas para compartilhar não somente carros, mas também casas, roupas, ferramentas, brinquedos e outros itens, a um custo marginal baixo ou quase nulo. A economia solidária teve receitas projetadas de US$ 3,5 bilhões em 2013.
O fenômeno do custo marginal nulo é particularmente impactante no mercado de trabalho, onde fábricas e escritórios sem trabalhadores, varejo virtual e redes automatizadas de logística e transporte estão prevalecendo. Não surpreende que as novas oportunidades de emprego estejam na comunidade cooperativa em campos que tendem a ser não lucrativos e fortalecem a infraestrutura social - educação, saúde, ajuda aos pobres, recuperação ambiental, atendimento infantil e atendimento a idosos, promoção das artes e recreação.
Nos Estados Unidos, o número de organizações sem fins lucrativos cresceu aproximadamente 25% entre 2001 e 2011, de 1,3 milhão para 1,6 milhão, enquanto as empresas com fins lucrativos cresceram apenas 0,5%. Nos EUA , Canadá e Grã-Bretanha, o emprego no setor sem fins lucrativos excede 10% da força de trabalho.
O sistema capitalista deve permanecer entre nós por muito tempo, ainda que com um papel mais delimitado, principalmente como agregador de serviços e soluções de rede e prosperando como um poderoso operador de nicho. Entramos em um mundo parcialmente fora dos mercados, onde estamos aprendendo a viver numa comunidade cada vez mais interdependente, cooperativa e global.



quarta-feira, 31 de julho de 2013

Manifesto Convivialista

“O convivialismo, uma ideia nova para evitar a catástrofe”. Entrevista com Alain Caillé

“Jamais a humanidade dispôs de tantos recursos materiais e competências técnicas e científicas (...) Mas, por outro lado, ninguém pode mais acreditar que essa acumulação de poder possa prosseguir indefinidamente, tal qual em uma lógica de progresso técnico inalterada, sem se voltar contra ela mesma e sem ameaçar a sobrevivência física e moral da humanidade”. Essas são as primeiras frases do Manifesto do Convivialismo, uma publicação de 40 páginas, mas de grande ambição intelectual diante desse sentimento de urgência.



Na origem está a vontade de Alain Caillé, sociólogo fundador do MAUSS (Movimento Antiutilitarista nas Ciências Sociais), que conseguiu reunir e fazer trabalhar juntos um grupo de 64 pesquisadores e universitários procedentes do mundo inteiro, de sensibilidade altermundista, ecologista, ou oriundos do cristianismo social (Edgar Morin, Susan George,Patrick Viveret, Serge Latouche, Elena Lassida, Jean Baptiste de Foucauld, Jean Pierre Dupuy, Jean Claude Guillebaud...). O resultado é a elaboração de uma nova base doutrinal filosófica, o convivialismo, para responder às quatro grandes crises – moral, política, econômica e ecológica – vividas pelas nossas sociedades nesse início do século XXI.



A entrevista é de Olivier Nouaillas e publicada no sítio da revista francesa La Vie, 17-06-2013. A tradução é do Cepat.



Eis a entrevista.



Qual é a gênese desse Manifesto Convivialista?



O ponto de partida é um colóquio organizado em julho de 2011 em Tóquio em torno da herança de Ivan Illich. Havia especialmente três convidados franceses: Serge Latouche, que é um promotor do decrescimento, Patrick Viveret, que trabalhou muito sobre os novos indicadores de riqueza, e eu. E para minha grande surpresa, embora eu tenha muitas reticências em relação aos dois primeiros conceitos – especialmente o decrescimento que é uma palavra inutil mente desmancha-prazeres –, nós fomos capazes de ultrapassar as nossas divergências intelectuais para nos colocar de acordo sobre uma constatação: não podemos mais fundamentar o projeto democrático sobre uma perspectiva de crescimento infinito. A humanidade não sobreviverá a ele.



A questão que se coloca então e para a qual temos que encontrar um novo conceito é como, apesar das suas imperfeições, a palavra convivialismo se impôs a nós. Depois, no meu retorno à França, decidi escrever um livro Rumo a um manifesto do convivialismoreunindo pessoas – cerca de 40 nomes que eu gostaria de associar a este projeto. E para minha grande surpresa, todos eles aceitaram participar do projeto, sem nenhum confronto narcísico. Como se houvesse um sentimento de urgência diante do estado do mundo. Depois, com reuniões de trabalho em Paris e intercâmbios pela internet com outros amigos que se encontram nos Estados Unidos, no Japão e no México, chegamos a esse manifesto, um texto curto de 40 páginas, publicado pela editora Le Bord de l’Eau e que lançamos em Paris no dia 19 de junho. Eu estou muito orgulhoso com esse resultado, pois creio que soubemos manter um equilíbrio entre duas extremidades possíveis: o catastrofismo (o decrescimento) e uma versão irênica (o amor universal).



Você pode dar uma definição simples do convivialismo?



A palavra pode ser problemática. Por outro lado, quando dois terços dos participantes, se reuniram, dissemos: “Estamos de acordo em trabalhar juntos, mas não em relação ao termo que se utilizaria”. Certamente, porque compreendia, por um lado, a palavra convivialidade e, por outro, havia um “ismo”. Mas, como não encontramos uma palavra melhor, voltamos ao ponto de partida. Eu defendia muito o “ismo” por uma razão fundamental: nós temos 36.000 soluções de políticas econômicas, financeiras, ecológicas para propor, mas o que nos falta hoje é uma base doutrinal de filosofia política comum. E para representar isso, nós precisamos de uma palavra em “ismo” que seja agregadora. Daí esta definição que propomos de convivialismo, segundo os trabalhos de Marcel Mauss: como conviver sem se massacrar? É uma questão prévia, central em todas as sociedades humanas e indispensável para colocar antes daquela de saber qual seria o bom regime político (monarquia, república, império, socialismo, etc.), em relação ao qual cada um pode ter suas preferências.



A constatação do mundo que vocês fazem é inquietante. Vocês evocam especialmente as “dinâmicas mortíferas”, e inclusive que “a questão da sobrevivência física e moral da humanidade está colocada”. Por que tamanho pessimismo?



Havia uma enorme inquietação em nosso grupo. Embora eu esteja cheio de otimismo, é preciso levar a sério a versão pessimista. Seria à maneira de Jean Pierre Dupuy, que afirma que “o único meio de evitar a catástrofe é estar seguro de que ela virá”. Quando se vê os riscos nucleares pós Tchernobyl e Fukushima, o esgotamento dos recursos naturais ou ainda as ameaças de aquecimento climático, só podemos estar inquietos.



Das quatro crises que o Manifesto evoca – moral, política, econômica e ecológica – qual lhe parece a mais grave?



A mais grave é, certamente, a crise moral, porque sua resolução condiciona todas as outras. Tomemos as discussões sobre o desenvolvimento sustentável; podemos imaginar todos os tipos de soluções técnicas, mas se você não tem homens e instituições confiáveis para colocá-las em prática, nada acontecerá. E, portanto, anterior a um verdadeiro desenvolvimento sustentável é uma democracia duradoura que, ela mesma, tem necessidade de um alicerce, de uma base ética duradoura. É uma condição para que os políticos não caiam na hubris, na desmedida. E a tradução concreta e visível desta desmedida é a corrupção, seja financeira, seja pelo poder. Ela explode em os cantos do mundo. Especialmente na França com a acumulação dos negócios (Cahuzac, Tapie, Guéant) que atingem tanto a direita como a esquerda. Como imaginar um instante em que podemos salvar a democracia, se, de um lado, não há mais crescimento econômico e se, do outro, todas as classes dominantes estão corrompidas? Esta corrupção está estreitamente ligada aos paraísos fiscais e a uma economia criminosa, às vezes constituída de verdadeiras máfias, como no Oriente Médio, na Ásia e na Rússia.



Pelo contrário, vocês evocam uma infinidade de iniciativas alternativas – do slow food à sobriedade voluntária, passando pelo cuidado ou pelo comércio justo. Mas elas têm peso diante de um sistema econômico mundializado?



Todas essas iniciativas aparecem de forma dispersa e não chegam a explicitar o que têm em comum. Ora, a hipótese central do Manifesto é que nós não chegaremos a inverter uma relação de forças com um neoliberalismo rentista e especulativo, caso não encontrarmos uma forma de unidade. As cúpulas altermundistas tinham esta vontade, mas elas não tiveram sucesso nisso. Porque elas permaneceram na justaposição de visões ético-ideológicas de uns e de outros, mas isso faz um patchwork insuficiente.



Com efeito, o principal problema que se coloca é um problema de filosofia política. Nós somos herdeiros das grandes filosofias políticas da modernidade: o liberalismo e o socialismo, com suas derivações que são o anarquismo e o comunismo. Estas quatro doutrinas não estão mais à altura dos atuais problemas. Porque todas elas repousam sobre uma visão errada de ser humano, visto como um “homo economicus”. As quatro doutrinas, com efeito, tinham em comum a ideia de que o principal problema da humanidade era a falta de meios para a satisfação das necessidades materiais. Que o homem é um ser de necessidades movido pela escassez e que, portanto, a solução primária é o crescimento. Ora, esta visão antropológica é falsa – os homens não são seres de necessidades, mas de desejos – e a solução proposta tornou-se impossível de achar, inclusive perigosa: o crescimento contínuo, permanente do PIB não pode mais ser uma solução. Primeiramente, porque já não é mais uma realidade nos países ricos – nós não teremos mais as taxas de crescimento dos “Trinta Gloriosos” – e, em segundo lugar, nos países emergentes vai diminuir e não será mais ecologicamente sustentável.



Quais podem ser os contornos de uma “alternativa ao modo de existência atual”? Vocês apontam algumas pistas, como a instauração de uma renda máxima ou a relocalização da produção nos territórios...



A solução está em pesquisar do lado desta velha ideia dos economistas ingleses do século XIX, como John Stuart Mill, a saber, que as sociedades tendem para um estado estacionário. Mas, hoje, tratar-se-á, com todas as invenções tecnológicas de que nos beneficiamos (na informática, na medicina, etc.) de um estado estacionário dinâmico, uma espécie de “prosperidade sem crescimento”, termo que empresto de Tim Jackson, outro economista inglês, desta vez contemporâneo.



Esta sociedade estacionária dinâmica deverá ser relocalizada, reterritorializada, permanecendo aberta ao mundo inteiro. Há uma reabilitação a fazer aqui e agora, porque nada deve ser comandado a 20.000 quilômetros de onde se vive. E se quisermos colocar no centro do projeto a luta contra a desmedida e a corrupção, isso implica igualmente duas outras medidas simples de compreender, mas mais difíceis de realizar: uma renda mínima e uma renda máxima. Para nós, tanto a extrema pobreza como a extrema riqueza são ilegítimas. Pois, o Manifesto do Convivialismo se assenta sobre uma forte vontade de justiça social.







domingo, 7 de julho de 2013

Anarquismo budista



Gary Snyder

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A pobreza feliz e voluntária do Budismo torna-se uma força positiva. A sua tradicional não-violência e a recusa da eliminação de qualquer forma de vida, tem implicações espantosas para as nações.

A prática da meditação, para a qual só é necessário a “terra debaixo dos pés”, limpa as montanhas da imundice que os meios de comunicação e as universidades supermercado bombardearam nas nossas mentes.

Acreditar que a realização tranquila e generosa do desejo natural de amar é possível, destrói as ideologias que cegam, mutilam e reprimem. Esta consciência abre caminho a um tipo de comunidade que assustaria os “moralistas” e transformaria exércitos de homens que são mercenários por não terem podido ser pessoas de amor.

A filosofia Budista do Avatamsaka (Kegon) vê o mundo como uma ampla rede interligada, na qual todos os objectos e seres são necessários e iluminados. De um certo ponto de vista, os governos, as guerras, e tudo o que consideramos “mau” está sem dúvida dentro desta globalidade. O falcão, o voo em picada e a lebre são unos.

Do ponto de vista “humano” não podemos viver nestas condições a menos que todos os seres vejam através do mesmo olhar desperto. O Bodhisattva vive segundo o padrão do que sofre e a sua ajuda deve ser efectiva aos que sofrem.

A grande conquista do Ocidente foi a revolução social; a do Oriente é a percepção do vazio do eu. Necessitamos das duas. Ambas estão contidas nos três aspectos tradicionais do caminho do Dharma: a sabedoria (prajña), a meditação (dhyâna) e a moralidade (sîla).

A sabedoria é o conhecimento intuitivo da mente de amor e claridade que jaz debaixo das ansiedades e as agressões dirigidas pelo ego.

A meditação é ir até ao âmago da mente para ver isto tudo por si mesmo – uma e outra vez, até que se torne a mente em que a pessoa reside.

A moralidade é levar isto de volta para o dia-a-dia na maneira como se vive, através do exemplo pessoal e da acção responsável, e em última instância até a verdadeira comunidade (sangha) de “todos os seres”.

Este último aspecto tem um sentido que, para mim, sustenta toda a revolução cultural ou económica, claramente dirigida à criação de um mundo livre, internacionalista e sem classes.
Significa utilizar meios como a desobediência civil, a crítica aberta, o protesto, o pacifismo, a pobreza voluntária, e inclusive a violência gentil quando houver que conter algum reacionário impetuoso.



Significa manter o leque de todos os comportamentos individuais não-violentos o mais amplo possível – defendendo o direito dos indivíduos de fumar cannabis, comer peyote, de ser poligâmico, poliândrico ou homossexual. Comportamentos e práticas proibidas durante muito tempo no Ocidente judeu-capitalista-cristão-marxista.

Significa respeitar a inteligência e o conhecimento, mas não como avidez ou meio para conseguir poder pessoal. Trabalhar sob a própria responsabilidade, mas querendo trabalhar em grupo. “Formar a nova sociedade no casulo da antiga” – foi o slogan do sindicato Industrial Workers of the World há cinquenta anos atrás.

De todas formas, as culturas tradicionais estão condenadas a desaparecer e, mais do que nos agarrarmos desesperadamente aos seus bons aspectos, deveríamos lembrarmo-nos de que qualquer coisa que pertenceu ou pertence a outra cultura pode ser reconstruída a partir do inconsciente, através da meditação.

De facto, acredito que a revolução por vir voltará a fechar o círculo e, de várias formas, nos unirá novamente com os aspectos mais criativos do nosso passado ancestral. Com um pouco de sorte, no final poderemos chegar a uma cultura mundial totalmente integrada com transmissão matrilinear, casamento em formas livres, economia comunista de crédito natural, menos industrias, muito menos gente e muito mais parques naturais.

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A primeira versão deste texto foi publicada em 1961 com o título "Buddhist Anarchism" (Anarquismo Budista) no Journal for the Protection of All Beings (nº 1, City Lights, 1961). Uma segunda versão revista apareceu com o novo título de "Buddhism and the Coming Revolution" (O Budismo e a Revolução Por Vir) no livro de Snyder Earth House Hold (New Directions, 1969). Na introdução, o autor explica: "Sendo problemático o termo anarquismo, alguns anos depois revi e dei um novo título ao texto. Nos anos Cinqüenta, em São Francisco, entendiamos por anarquismo uma filosofia não-violenta de autogestão e comunitarismo. Mas acontecimentos, como os atentados de bombas de século Dezenove, são atribuídos aos anarquistas. Suponho que sempre existiram duas correntes anarquistas, a violenta e a pacifista". Uma terceira versão intitulada "Buddhism and the Possibilities of a Planetary Culture" (O Budismo e as Possibilidades de uma Cultura Planetária) foi publicada mais tarde em várias obras (The Path of Compassion: Writings on Socially Engaged Buddhism, ed. Fred Eppsteiner, Parallax Press, 1985; Deep Ecology, ed. Bill Devall & George Sessions, Peregrine Smith, 1985). A versão publicada aqui é a segunda, de 1969.





sexta-feira, 31 de maio de 2013

Agronegócio: uma burrice insustentável. Artigo de Egydio Schwade

"O agronegócio é insustentável porque começa depredando a biodiversidade e as fontes da ciência, depende da máquina que compacta o solo e não respeita os meandros da natureza, envenena e contamina os produtos da terra, que não visam o bem viver do povo, mas o dinheiro de uns poucos", escreve Egydio Schwade, um dos fundadores do Cimi e primeiro secretário executivo da entidade, em 1972. Hoje é colaborador dessa instituição, residindo em Presidente Figueiredo, AM.
Eis o artigo.
Há muito estou intrigado com os altos investimentos do Governo ao agronegócio através do Ministério da Agricultura. Pois em primeiro lugar nem agricultura é. Quem se dedica ao agronegócio não se dedica necessariamente a fazer ciência na terra, ou seja, agricultura. Apenas obedece a um programa pré-fabricado nos laboratórios urbanos.
O agronegócio ao se instalar destrói a biodiversidade, fonte da ciência, para produzir em seu lugar o que interessa apenas a quem quer fazer negócio para alimentar de dinheiro os seus mandantes, o mercado como fim em si mesmo e o Estado, ficções criadas pelo homem que não comem nem riem, não sofrem e nem choram. Pouco lhes importa trabalhar com o equilíbrio dinâmico da natureza para o futuro da humanidade.
Quando vim fixar residência com a família aqui nas margens da BR-174 comprei um pedacinho de terra que fizera parte de um agronegócio. Aproximadamente 16% de um hectare, mais precisamente, de um campo de gado desapropriado pela Prefeitura para a instalação da cidade de Presidente Figueiredo, ainda inexistente, quando saiu o decreto que criou o município.
16% de um hectare é algo invisível ou irrisório para um agronegociante. Para começar, num sistema de criação de gado na Amazônia, os 16% de hectare sustentavam talvez o rabo, ou uma perna de uma vaca, alguns canarinhos e formigas que não faltavam quando começamos a arrancar o capim. Para criar um só bovino nestas bandas necessita-se nada menos que um hectare e meio, ou seja, dez vezes mais.
Mas para um agricultor este pedacinho de chão é algo importante. Hoje cultivamos neste terreno, 32 espécies de frutas, 8 espécies de tubérculos e raízes comestíveis, 5 espécies de abelhas sem-ferrão, além de hortaliças.
Além disso, a família instalou ainda naquele pedacinho de terra a sua residência, a Casa da Cultura do Urubuí e uma lojinha para a venda dos frutos excedentes produzidos no quintal e em sítio mais afastado.
O agronegócio é insustentável porque começa depredando a biodiversidade e as fontes da ciência, depende da máquina que compacta o solo e não respeita os meandros da natureza, envenena e contamina os produtos da terra, que não visam o bem viver do povo, mas o dinheiro de uns poucos. Dentro do agronegócio tudo está programado contra a vida e não há mais nada para inventar ou criar a favor dela a não ser o seu fim.
Questione os governos e a mídia que continuam dando incentivo a essa burrice iniqua!
Algumas espécies cultivadas nesse quintal
Frutas: Abacate (Persea americana), Abiu (Pouteria oblanceolata), Açaí (Euterpe oleratia), Acerola (Malpighia emarginata), Amora (Morus alba L.), Araçá-boi (Eugenia stipitata Mc Vaugh.), Araçá-do-brejo (Posoqueria calantha), Bacuri (Platonia insignis Mart.), Banana (Musa spp.), Biribá (Rolinia), Cacau (Theobroma cacau), Café (Coffeaarabica), Cajá-manga (spondeas dulcis), Carambola (averrhoa carambola), Coco (Cocus nucifera), Cubiu (Solanum), Cupuaçu (Theobroma), Figueira (fícus pohliana), Fruta-pão (artocarpus incisa), Goiaba (Psidium guaiava), Graviola (Annonamuricata), Jambo (Eugenia), Limão (citrus limonum), Limão-Caiana, Mamão (Caricapapaya), Maracujá (Passiflora edulis), Marmeladinha, None, Pitangueira (eugenia uniflora), Pitombeira (tal isia esculenta), Pupunha (Bactrisgasipaes), Puruí, Tamarindo (tamarindos indica).
Tubérculos: macaxeira (manihot utilissima), cará branco e roxo (deste temos diversas variedades), cará-inhame (colocasia antiquorum) (7 variedades), gengibre ou mangarataia (zingiber zingiber) (2 variedades), ariá, araruta, (maranta arundinacea), araruta Manoki, batata doce, taioba, (xanthosoma violaceum), batata doce (Ipomea) e açafrão,(crocus sativus L).
Há ainda uma variedade grande de plantas medicinais, hortaliças, flores como o amor agarradinho: Z(antiginum leptopus), importante fonte de alimento das abelhas. E temos ainda uma pequena criação de galinha caipira e garnizé.
Abelhas: Melípona fulva, moça-branca, raiz, jati e mosquitinho.
Pássaros que frequentam o quintal: Assanhaçu, pipira, xexeu ou corruíra, aracuã, um passarinho pequeno amarelinho, beija flor (pelo menos 3 espécies), pica-pau-do-topete-vermelho, sabiá, papagaio, tucano, arara-amarela, maracanã, rolinha, coruja, entre outros

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Manifesto Telekommunista


Na era das telecomunicações internacionais, da migração global e do surgimento da economia da informação, como o conflito de classes e a propriedade podem ser entendidos? Partindo da economia política e de conceitos relacionados à propriedade intelectual, o"Manifesto Telekommunista", deDmytri Kleiner, é uma contribuição fundamental para formas baseadas emcommons, colaborativas e compartilhadas de produção cultural e distribuição econômica.

O texto foi publicado no blog do Institute of Network Cultures, 21-10-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Propondo o "comunismo de risco" como um novo modelo para a auto-organização dos trabalhadores, Kleiner converte o seminal"Manifesto do Partido Comunista" deMarx e Engels à era da Internet. Como um modelo peer-to-peer, o comunismo de risco aloca capital que é extremamente necessário para realizar o que o capitalismo não pode: a proliferação em curso da cultura livre e das redes livres.

Ao desenvolver o conceito de comunismo de risco, Kleiner faz uma crítica dos regimes de direitos autorais e das atuais visões liberais do software livre e da cultura livre que buscam capturar a cultura para dentro do capitalismo. Kleiner propõe o copyfarleft e fornece um modelo útil de uma Peer Production License [Licença de produção colaborativa].

Encorajando os hackers e os artistas a abraçar o potencial revolucionário da Internet para uma sociedade verdadeiramente livre, o "Manifesto Telekommunista" é um chamado político-conceitual à luta contra o capitalismo.

Dmytri Kleiner é um desenvolvedor de software que trabalha em projetos que pesquisam a economia política da Internet e o ideal de auto-organização dos trabalhadores da produção como uma forma de luta de classes. Nascido na União Soviética, Dmytri cresceu em Toronto, no Canadá, e hoje vive em Berlim, naAlemanha. É um dos fundadores do Telekommunisten Collective, que presta serviços de Internet e de telefonia, assim como desenvolve projetos artísticos que exploram a forma pela qual as tecnologias da comunicação sustentam relações sociais, como o deadSwap (2009) e o Thimbl (2010).

A íntegra do texto pode ser encontrada, em inglês, aqui.

Eis alguns trechos do "Manifesto Telekommunista".

Prefácio

Eu cunhei o termo "comunismo de risco" em 2001 para promover o ideal da auto-organização dos trabalhadores da produção como forma de tratar os conflitos de classe. O Telekommunisten é um coletivo sediado em Berlim, na Alemanha, onde eu vivo desde 2003. Encontrei pela primeira vez o termo "Telekommunisten" (que se tornou o nome do coletivo) em 2005, ao visitar o apartamento de um amigo. Ele e seu companheiro de quarto haviam dado o nome "Telekommunisten" à rede local utilizada em seu apartamento para compartilhar o acesso à Internet.

Telekommunisten tem sido usado como um termo depreciativo pela antiga empresa estatal de telefonia da Alemanha, a Deutsche Telekom, que agora é uma corporação transnacional privada, cuja marca T-Mobile é conhecida mundialmente. O uso do termo "comunista" aqui visa lançar a companhia telefônica como uma gigante monolítica, autoritária e burocrática. Essa é uma compreensão completamente diferente do uso positivo do termo como um compromisso no conflito de classe com o objetivo de uma sociedade livre, sem classes econômicas, em que as pessoas produzem e compartilham como iguais, uma sociedade sem propriedade e nenhum Estado, que produz não para o lucro, mas pelo valor social.

Dessa forma, não somos simplesmente um coletivo de trabalhadores-agitadores que lutam na esfera das telecomunicações. O Telekommunisten promove a noção de um comunismo distribuído: um comunismo à distância, um Telecomunismo.

Uma comuna de risco não está ligada a um local físico onde ela pode ser isolada e confinada. Semelhante em topologia a uma rede peer-to-peer, o Telekommunistenpretende ser descentralizado, com apenas uma coordenação mínima exigida no interior da sua comunidade internacional de produtores-proprietários.

Minha experiência é nas comunidades de hackers e de arte, nas quais eu tenho sido ativo desde o início dos anos 1990. As minhas opiniões têm sido desenvolvidas e expressas em correspondências online e offline ao longo do meu envolvimento no desenvolvimento de software, no ativismo e na produção cultural. Embora eu tenha escrito alguns ensaios ao longo dos anos, aqueles que conhecem o meu trabalho geralmente me conhecem pessoalmente, por meio de encontros em espaços sociais eletrônicos e físicos.

O presente trabalho é um "Manifesto", não no sentido de que ele descreve um sistema teórico completo, um conjunto de crenças dogmático ou a plataforma de um movimento político, mas no espírito do significado do manifesto como um começo ou introdução.

Matteo Pasquinelli, que me estimulou a realizar este "Manifesto", sentia que o meu papel como uma voz de fundo na nossa comunidade era muito subterrânea e declarou que era "hora de me lançar" com um texto publicado. Ele me colocou em contato comGeert Lovink, que sugeriu a estrutura e a abordagem do texto e se ofereceu como editor e, por meio do Institute of Network Cultures, como seu publicador.

O "Manifesto Telekommunista" é basicamente uma edição, uma reelaboração dos textos que eu produzi e coproduzi ao longo dos últimos anos. Ele incorpora passagens significativas de "Copyright, Copyleft and the Creative Anti-Commons", produzido em cooperação com Joanne Richardson e publicado originalmente em"Anna Nimmus", no site Subsol. Grande parte do texto referente à comercialização da Internet foi retirada de "Infoenclosure 2.0", coescrito por Brian Wyrick e originalmente publicado na Mute Magazine. Também devo créditos aos editores da Mute Magazine Josephine Berry Slater e Anthony Iles, pelo seu trabalho em"InfoEnclosure 2.0" e em "Copyjustright, Copyfarfleft", grande parte dos quais é reutilizada aqui.

Muitas pessoas ajudaram a integrar e a ampliar os textos originais em um conjunto coeso, particularmente Rachel Somers Miles, do INC, e Elise Hendrick, Mathew Fuller, Christian Fuchs, Alidad Mafinezam, Daniel Kulla, Pit Shultz e Jeff Mann, que ofereceram comentários detalhados. A Licença de Produção Colaborativa incluída neste texto como um modelo para uma licença copyfarleft foi escrita a partir de uma licença Creative Commons, com a ajuda de John Magyar.

Introdução

No prefácio a "Contribuição à Crítica da Economia Política", Marx afirma que, "em uma certa etapa do seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em conflito com as relações de produção existentes" [1]. O que é possível na era da informação está em conflito direto com o que é permitido. Editores, produtores de filmes e a indústria das telecomunicações conspiram junto aos legisladores para reprimir e sabotar as redes livres, para proibir a circulação da informação fora do seu controle. As empresas da indústria fonográfica tentam manter forçosamente a sua posição como mediadores entre artistas e fãs, já que os fãs e os artistas se aproximam e exploram novas formas de interação.

Produtores de software concorrentes, assim como os fabricantes de armas, atuam nos dois lados desse conflito: fornecem as ferramentas para impor um controle, e as ferramentas necessárias para evitá-lo. As relações não hierárquicas tornadas possíveis graças a uma rede peer, como a Internet, são contraditórias com a necessidade do capitalismo de cercamento e controle. É uma batalha até a morte. Ou a Internet como a conhecemos deve ir embora, ou o capitalismo como nós o conhecemos deve ir embora. Será que o capital irá nos jogar de volta às idades escuras da CompuServe, dos telefones móveis e da TV a cabo, ao invés de permitir que as comunicações peerconstruam uma nova sociedade? Sim, se eles puderem. Marx conclui: "Nenhuma ordem social jamais perece antes de que todas as forças produtivas para as quais há espaço nela se desenvolvam. E as novas e mais elevadas relações de produção jamais aparecem antes que as condições materiais de sua existência tenham amadurecido no seio da própria velha sociedade" [2].

O "Manifesto Telekommunista" é uma exploração do conflito de classes e da propriedade, nasce de uma compreensão do primado da capacidade econômica nas lutas sociais. A ênfase é posta sobre a distribuição dos ativos produtivos e seu resultado. A interpretação aqui é sempre amarrada a um entendimento de que a riqueza e o poder estão intrinsecamente ligados, e apenas através do primeiro é que o último pode ser alcançado. Como um coletivo de trabalhadores intelectuais, o trabalho doTelekommunisten está muito enraizado no software livre e nas comunidades de cultura livre. No entanto, uma premissa central deste Manifesto é que o engajamento no desenvolvimento de software e a produção de obras culturais imateriais não é suficiente. A comunização da propriedade imaterial por si só não pode mudar a distribuição de bens produtivos materiais e, portanto, não pode eliminar a exploração. Apenas a auto-organização da produção pelos trabalhadores é capaz disso.

Esta publicação pretende ser um resumo das posições que motivam o projetoTelekommunisten, com base em uma exploração do conflito de classes na era das telecomunicações internacionais, da migração global, e do surgimento da economia da informação. O objetivo deste texto é apresentar as motivações políticas doTelekommunisten, incluindo um esboço do quadro teórico básico no qual ele se enraíza. Através de duas seções interligadas, "Peer-to-Peer Communism vs. The Client-Server Capitalist State" [Comunismo colaborativo versus o Estado capitalista cliente-servidor] e "A Contribution to the Critique of Free Culture" [Uma contribuição à crítica da cultura livre], o Manifesto abrange a economia política de topologias da rede e da produção cultural, respectivamente.

A seção "Peer-to-Peer Communism vs. The Client-Server Capitalist State"centra-se na comercialização da Internet e no surgimento da produção distribuída em rede. Ela propõe uma nova forma de organização como um veículo para a luta de classes: o comunismo de risco. A seção termina com o famoso programa estabelecido por Marx e Engels em seu "Manifesto Comunista", adaptado em um Manifesto para uma sociedade em rede.

Com base na seção anterior, em "A Contribution to the Critique of Free Culture", o Manifesto continua com a história e as dificuldades de percepção do copyright, do movimento do software livre, do dissenso anticopyright/copyleft e da economia política do software livre e da cultura livre. O desafio de ampliar as conquistas do software livre na cultura livre é abordado ao conectá-lo com o programa tradicional da esquerda socialista, resultando no copyfarleft e oferecendo a Licença de Produção Colaborativa como um modelo.

Este texto é particularmente dirigido a artistas, hackers e ativistas politicamente motivados, e não para evangelizar uma posição fixa, mas sim para contribuir com um permanente diálogo crítico.

O Manifesto da Rede Telekommunisten

Escrito a partir do texto extraído da seção 2 do "Manifesto do Partido Comunista". Marx/Engels 1848. [3] [Grifos e tachados conforme o original]

A primeira fase da revolução operária é o advento do proletariado como classe dominante desenvolver uma rede de iniciativas em que as pessoas produzam pelo valor social e partilhem como iguais, e construir e expandir o tamanho econômico dessas iniciativas para o advento do proletariado organizado à posição de ser a classe econômica dominante. Somente quando os trabalhadores controlarem a sua própria produção é que poderemos vencer a batalha da democracia.

O proletariado utilizará sua supremacia política seu poder econômico em expansãopara arrancar, pouco a pouco, todo capital da burguesia, para centralizardescentralizar todos os instrumentos de produção nas mãos do Estado, isto é, do proletariado organizado em classe dominante em um fundo comum diretamente nas mãos daqueles cuja produção depende dele e para por meio dissoaumentar, o mais rapidamente possível, o total das forças produtivas.

Isso naturalmente só poderá realizar-se, em princípio, por uma violação despótica doestruturação de nossas iniciativas a partir do direito de propriedade e das relações de produção burguesas, isto é, pela aplicação de medidas que, do ponto de vista econômico, parecerão insuficientes e insustentáveis, e contrárias a nossos fins, mas que no desenrolar do movimento ultrapassarão a si mesmas e serão indispensáveis para transformar radicalmente todo o modo de produção.

Essas medidas, é claro, serão diferentes nos vários países nas várias comunidades.

Todavia, nos países mais adiantados nas comunidades mais adiantadas, as seguintes medidas poderão geralmente ser postas:

1. Expropriação Mutualização da propriedade latifundiária de todos os instrumentos de produção e emprego da renda da terra em proveito do Estadomútuo.

2. Imposto fortemente progressivo. Estabelecimento de uma renda garantida, na forma de um dividendo pago a cada membro da comunidade de quantia igual à sua quota per capita de todas as rendas coletadas mutuamente.

3. Abolição do direito de herança. O direito à participação de todos que contribuem com seu trabalho e a concessão de participação somente pela contribuição do trabalho, não pela herança, compra ou transferência de qualquer tipo.

4. Confisco da propriedade de todos os emigrantes e rebeldes. Um contrato vinculante com todas as iniciativas membro para renunciar a toda propriedade privada de seus próprios bens produtivos e, ao invés disso, tomar posse do que eles precisam, alugando-o de fundos comuns mútuos.

5. Centralização do crédito nas mãos do Estado por meio de um banco nacional com capital do Estado e com o monopólio exclusivo. Estabelecimento de um mercado de títulos mútuo, onde os títulos são vendidos em leilão com o objetivo de construir o fundo comum de bens produtivos.

6. Centralizarão, nas mãos do Estado, de todos os meios de transporte.Desenvolvimento de recursos que coloquem os meios de comunicação e de transporte nas mãos de todos os membros.

7. Multiplicação das fábricas e dos instrumentos de produção pertencentes ao Estado, arroteamento das terras incultas e melhoramento das terras cultivadas, segundo um plano geral. Providenciar a todas as iniciativas a oportunidade de adquirir e estender os instrumentos disponíveis de produção ao maior grau possível.

8. Trabalho obrigatório para todos, organização de exércitos industriais, particularmente para a agricultura. Igualdade de oportunidade a todos para participar e produzir.

9. Combinação do trabalho agrícola e industrial, medidas tendentes a fazer desaparecer gradualmente a distinção entre a cidade e o campo por meio de uma distribuição mais uniforme da população ao longo do país. Abolição de todas as distinções entre produtores e consumidores e a transformação das relações de transações baseadas no mercado à distribuição generalizada, em que a produção de bens sociais tenha precedência sobre a produção de bens para a venda.

10. Educação pública e gratuita de todas as crianças, abolição do trabalho infantil nas fábricas, tal como é praticado hoje. Combinação da educação com a produção material etc. Estabelecer redes de partilha de conhecimento e de competências e sistemas de suporte para todos os membros, e oferecer oportunidades para desenvolver habilidades por meio da contribuição com a produção.

Uma vez desaparecidos os antagonismos de classes no curso do desenvolvimento e sendo concentrada distribuída toda a produção, propriamente dita, nas mãos dos indivíduos associados de abrangendo todo o país mundo, o poder público perderá seu caráter político. O poder político é o poder organizado de uma classe para a opressão de outra. Se o proletariado, em sua luta contra a burguesia, se constitui forçosamente em classe; se converte-se, por uma revolução pela auto-organização, em classe dominante e, como classe dominante, destrói violentamente as antigas relações de produção, destrói, juntamente com essas relações de produção, as condições dos antagonismos entre as classes e as classes em geral e, com isso, sua própria dominação como classe.

Em lugar da antiga sociedade burguesa, com suas classes e antagonismos de classes, surge uma associação em que o livre desenvolvimento de cada um é a condição do livre desenvolvimento de todos.

Notas:

1. Karl Marx, ‘Preface’, A Contribution to the Critique of Political Economy, Marxists Internet Archive,

2. Ibid.

3. Karl Marx and Frederick Engels, Manifesto of the Communist Party, 1848,http://www.marxists.org/archive/marx/works/1848/communistmanifesto/.