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domingo, 14 de setembro de 2014

Lojas de livros não conseguirão sobreviver’


 
“As pessoas da Amazon não se importam realmente com o que você quer como consumidor.” A frase soa surpreendente ao sair da boca de Jason Merkoski, primeiro evangelista (responsável por disseminar novas tendências) da Amazon e um dos membros da equipe que desenvolveu o primeiro leitor de livros digitais Kindle, lançado em 2007.
A reportagem é de Ligia Aguilhar, publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 18-08-2014.
Fundador da startup Bookgenie451, criadora de um software que identifica interesses de leitura de estudantes para recomendar livros didáticos, Merkoski mistura otimismo com alguma cautela quando o assunto são livros digitais.
Na quinta-feira, 21, ele vem ao Brasil participar do 5º Congresso Internacional CBL do Livro Digital, em São Paulo, no qual vai falar sobre a sua obra Burning the page: The eBook Revolution and the Future of Reading (ainda sem título em português), na qual decreta o fim do livro impresso.
Eis a entrevista.
Você decreta o fim dos livros impressos em sua obra, mas as vendas de tablets e leitores digitais começam a se estabilizar sem que isso tenha acontecido. O que falta para o livro digital se popularizar?
O que mais influencia a popularidade é a seleção de títulos. O que vimos acontecer nos EUAe Japão é que, uma vez que as pessoas consigam encontrar 80% dos títulos que buscam no digital, a chance delas migrem para e-books é de 100%.
Quanto tempo demora para essa mudança acontecer?
Cerca de três anos depois que os livros digitais estão disponíveis em um país.
Serviços de streaming podem ajudar nessa popularização?
O problema de serviços de streaming como o da Amazon é que eles têm vários livros no catálogo que as pessoas não querem ler. Um dos desafios é definir um modelo de preços para e-books, que hoje não existe. Até isso ser feito será difícil tornar o streaming uma experiência satisfatória e o seu custo sustentável.
Você esperava esses impactos quando ajudou a criar o Kindle?
Como indústria, acho que revolucionamos o mercado editorial, o que é assustador e maravilhoso ao mesmo tempo. Como dono de uma empresa de livros digitais, digo que é muito difícil trabalhar com editoras hoje, porque o mundo delas está em colapso. É como se elas estivessem no Titanic após bater no iceberg, sem coletes salva vidas, com o barco pegando fogo e naves alienígenas atirando contra o barco. As editoras estão confusas e com medo.
Teremos problemas com a coleta e uso de dados sobre nossos hábitos de leitura?
Certamente. Não vai demorar para começarmos a ver propagandas dentro dos e-books. Mas não estou realmente preocupado com o que a Amazon e o Google vão saber sobre mim porque acho que já aceitei que, inevitavelmente, eles saberão das coisas de algum jeito.
Esses dados também geram recomendações de leitura. Essa facilidade pode ter um lado ruim, como afastar o leitor de clássicos em prol de best-sellers?
Algum conteúdo poderá ser negligenciado com toda certeza. O problema de livros clássicos é que eles não são sexy e não são promovidos na página de entrada da Amazon porque a empresa não vai ganhar dinheiro com eles. O que menos gosto da virada do livro para o digital é a cultura do momento. Recomendamos apenas coisas atuais. Ferramentas de recomendação precisam melhorar.
Você já declarou em entrevistas que é difícil amar a Amazon…
Acho que o papel das empresas maiores não é estar na minha cara enquanto eu estou lendo. Elas podem ser mais sutis e acredito que esse é um papel que a Amazon faz mal. Hoje os varejistas conseguem aprender quem você é. Seria interessante se essas informações fossem repassadas para as editoras criarem conteúdo. Mas os varejistas retêm todos os dados. É por isso que o sistema está quebrado.
O que acontecerá com a palavra escrita?
Eu realmente acho que o futuro da palavra escrita é ser falada, porque a escrita é devagar. Os livros do futuro serão falados porque tudo gira em torno da fala hoje em dia. Aparelhos como o iPhone, com a Siri, permitem que você fale ao telefone o que você quer fazer.
Acredita que bibliotecas e livrarias vão mesmo acabar?
Não acho que o futuro será bom. Meus estudos mostram que nos últimos três anos os alunos gastaram 70% menos tempo nas bibliotecas das universidades. Onde eles estão pegando informação? Na Wikipédia ou em sites. As lojas de livros não conseguirão sobreviver e vão desaparecer. Sobrarão apenas algumas, especializadas em livros impressos, como as que vendem discos de vinil.
Vão permanecer no mercado Google e Amazon, infelizmente. Conheço as pessoas daAmazon. E elas não se importam com o que você quer como consumidor. Elas se importam em como conseguir mais lucro. Uma maneira de fazer isso é empurrando livros populares, negligenciando outros. E infelizmente as pessoas vão aceitar. A curadoria de títulos está na mão dos varejistas

sábado, 6 de setembro de 2014

A NSA tem um programa secreto que funciona sem intervenção humana


 
De acordo com as últimas revelações de Edward Snowden, a Agência de Segurança Nacional estadunidense dispõe de um programa secreto chamado MonsterMind, ele é capaz de responder aos ataques cibernéticos sem intervenção humana.
A reportagem é publicada por Rt.com, 13-08-2014. A tradução é do Cepat.
Em sua última revelação, o ex-funcionário da CIA Edward Snowden disse a revista Wiredque a NSA conta com um programa secreto de funcionamento autônomo chamadoMonsterMind que, além de responder automaticamente a ciberataques, poderia causar um pesadelo diplomático internacional visto que os ataques lançados pelo próprio programa recorrentemente interferem nos computadores de terceiros, alojados em países estrangeiros.
E o mais grave: “Estes ataques podem ser falsificados”, assegurou Snowden. “Poderíamos ter alguém sentado na China, por exemplo, fazendo com que pareça que quem realizou o ataque originalmente esteja na Rússia. E então terminamos “disparando” contra um hospital russo. O que ocorreria depois?”.
Snowden também mencionou que os EUA poderiam ter estado por detrás do apagão massivo da Internet na Síria em 2012, quando o país estava em plena guerra civil. Os EUA teria tentado ter acesso ao trafego do país árabe, e uma falha durante o processo poderia ter causado a avaria.
José Luis Camacho, pesquisador de conspirações e blogueiro, questiona a legitimidade do funcionamento do programa MonsterMind já que – segundo ele -, poderia violar a constituição dos Estados Unidos. “Nos EUA a própria Quarta Emenda proíbe-os de fazer um monitoramento das comunicações particulares e este sistema está infringindo a Quarta emenda”, explica para a RT.
Na última quinta-feira o Serviço Federal de Migração da Rússia aprovou a petição deEdward Snowden de prolongar seu asilo temporal no país, como informa o advogado do ex-funcionário, Anatoli Kucherena. “É impossível à extradição de Snowden aos EUA”, assegurou o advogado.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

O fenômeno da multiplicação dos empregos


Ronaldo Lemos
 

Laurel Ptak criou uma obra polêmica. A artista escreveu um manifesto chamado "Salários pelo Facebook" exibida no museu da Universidade da Califórnia em San Diego. De acordo com ela, todo usuário do site deveria receber um "salário" por conta do trabalho gratuito feito para ele (veja o texto em wagesforfacebook.com )
Apesar do exagero da obra, não dá para negar que o trabalho neste século está mudando completamente. Muita gente hoje trabalha das 8h às 18h para seus empregadores e quando chega em casa trabalha das 18h até tarde para várias empresas da internet.
Mesmo depois da jornada "oficial", continuamos a produzir valor para alguém quando usamos serviços on-line. Essa produção acontece até nos tempos mortos da vida. Está esperando o elevador? Dá tempo de fazer um ou dois posts e gerar centavos em algum lugar.
Na França, o tema ganhou contornos institucionais. Um relatório do governo francês chega a debater se o imposto sobre folha de pagamento deveria ser estendido a esse "trabalho" feito nas redes sociais. A premissa é de que seríamos todos funcionários (ou "microfuncionários") de várias empresas de tecnologia. Por conta disso, o valor gerado nessas atividades seria passível de tributação, tal como acontece na folha de pagamento "tradicional".
É claro que essa discussão é complexa. E que o tema precisa ser visto com lentes mais sofisticadas do que aquelas usadas no passado. Mas é fato que as fronteiras entre trabalho, lazer e consumo estão deixando de existir.
Um relatório do Instituto de Museus e Bibliotecas dos EUA chama atenção justamente para o fenômeno da multiplicação dos empregos. Se no século passado esperava-se que as pessoas tivessem no máximo 2 empregos ao longo da vida, hoje a expectativa é que sejam entre 10 e 15.
Nesse contexto, deveria ser aceitável atualizar o currículo profissional para incluir outras habilidades "profissionais". Por exemplo, além de colunista da Folha, poderia adicionar: curador de conteúdo para o Facebook, organizador de informações para o Google, jornalista cidadão para o Twitter e o WhatsApp, corretor de imóveis para o Airbnb, colunista social para o Instagram, agente de talentos para o Kickstarter, DJ para o Spotify e gestor de banco de currículos para o Linkedin.
Há quem proponha que o caminho é construir um novo pacto social sobre a criação e uso da informação, reafirmando a separação entre trabalho e vida. Tarefa que hoje parece utópica. Alguém conceberia um acordo social pelo qual ninguém mais precisaria ler ou responder mensagens nos fins de semana? Ou fora do horário de trabalho? Ao menos, são provocações que sinalizam um desejo de que nossa relação com a informação torne-se também sustentável.
*
JÁ ERA
Achar que games são mero entretenimento
JÁ É
Games sendo reconhecidos como plataforma para temas "sérios"
JÁ VEM
"Thralled", game-ensaio sobre o período da escravidão no Brasil

domingo, 13 de julho de 2014

Entrevista com Pedro Ekman sobre o Marco Civil da Internet


 
"A Internet é um negócio, contudo não trata-se apenas de um negócio. É um serviço fundamental como a água, visto que tudo irá passar por ela. Deve-se garantir o acesso. Há que se investir dinheiro público, porque o mercado não irá investir na Amazônia, por exemplo, por que não há mercado, mas há pessoas”. Assim falou Pedro Ekman (foto), coordenador da Intervozes do Brasil, uma das organizações que impulsionou a sanção da Lei do Marco Civil da Internet, na jornada “Espionagem, Transparência e Soberania na Internet”, organizada pelo Programa Sul Global da Universidade Nacional de San Martín, para analisar o impacto da Internet em relação aos direitos civis e os alcances geopolíticos de sua manipulação por parte dos países centrais. Nesta entrevista, Ekman fala de maneira clara e direta para trazer a luz um tema que atravessa toda a sociedade e que poucos entendem. A entrevista é de Sonia Santoro, publicada por Página/12, 16-06-2014. A tradução é do Cepat.


O Marco Civil da Internet, aprovada em abril deste ano, é uma lei pioneira no mundo. Garante a privacidade na web e estabelece a neutralidade, isto quer dizer que os provedores não poderão mais manipular os conteúdos. É produto de um longo debate promovido pela sociedade civil, que contou com a resistência das corporações midiáticas. Aqui, o coordenador da Intervozes, a organização que mobilizou a discussão, explica como foi o processo, as pressões, as conquistas e o que ainda é necessário conquistar.
Eis a entrevista.
De onde você é Pedro?
Sou de São Paulo, Brasil. Sou arquiteto, mas trabalho na área da comunicação. Comecei a trabalhar na televisão e passei a dirigir e escrever algumas coisas na área audiovisual. Estive discutindo os temas de comunicação com o grupo Intervozes, que é um grupo amplo de ativistas pelo direito a comunicação, no qual há jornalistas, advogados, atores, atrizes.
O que o levou a aproximar-se deste grupo?
O que aconteceu é que não havia um espaço no Brasil para discutir a comunicação como um direito, para formular políticas. Não era uma prioridade. Assim criamos um espaço de participação política, há pessoas de diferentes partidos e pessoas sem partidos. O que nos une é o tema, a luta pelo direito a comunicação, e atuamos contra o governo, com o governo, não importa, o que importa é que a questão se mova para a área dos direitos.
Quais são os principais problemas do acesso à comunicação ou em relação à liberdade de expressão no Brasil?
Historicamente, o Brasil, como quase todos os países latino-americanos, tratou o tema da comunicação como um simples negócio comercial. É o que vemos em todos os setores, a radiodifusão ou a Internet sempre foram tratados na América do Sul, por Estados ou governos, como simples negócios comerciais. No Brasil, são poucas famílias que controlam a radiodifusão, que é o principal veículo de comunicação hoje no Brasil. O mesmo ocorre na Internet. O tema principal é a concentração dos meios de comunicação: a comunicação comunitária e a comunicação pública como uma comunicação menor e a comunicação comercial como a natural e a única que pode ser feita. Então temos que mudar as regras para que a comunicação seja tratada como um direito. As empresas comerciais são legítimas, têm que ter seu espaço, mas não apenas elas.
Qual é o alcance que a Internet tem no Brasil?
Uma investigação do CGI, um instituído de comunicação para a Internet, diz que mais de 40% dos lares do Brasil estão conectados a uma Internet fixa, que é a Internet que tem mais interatividade. A móvel ainda tem uma velocidade muito ruim e esse dispositivo acaba não permitindo realize muitas coisas. No norte, esses números chegam a 30% e a velocidade é muito baixa. Nas classes D e E, as mais baixas, não passam dos 30% os que estão conectados.
Então, mesmo que seja um meio mais democrático, mais diverso, não fala para todos e nem todos o podem usar. A televisão e o rádio ainda são os meios que chegam a todo o país e estão manipulando a pauta política e cultural do país.
Na legislação, há algum tipo de limite para a concentração?
O que ocorre no Brasil é que estamos fazendo o contrário do que está acontecendo na Argentina. Por uma conjuntura muito específica.  
Não houve reforma na lei da imprensa, a lei vigente é de que ano?
É anterior a ditadura brasileira. Há 50 anos temos a mesma lei. É uma lei que não regulamentou os principais artigos constitucionais que temos sobre a comunicação social. Então não há nenhum dispositivo que regule a concentração de meios de comunicação. Dessa maneira há um ambiente regulatório para a radiodifusão muito frágil.
Por que começaram pela Internet?
Por uma conjuntura política internacional. Brigamos por uma lei dos meios há muito tempo, mas como o poder dos radiodifusores é muito grande nunca conseguimos que um governo trabalhasse o tema com prioridade. Juntamente com a lei dos meios, trabalhamos o “marco civil”. O “marco civil” começa numa reação a um deputado da direita brasileira que fez um projeto de lei para criminalizar tudo o que os internautas faziam na rede e que naturalizava tudo o que as corporações queriam fazer com a rede. Houve então um movimento muito forte contrário a este projeto de lei e conseguimos retirá-lo da agenda. O chamamos de o AI5 digital, o AI5 é o Ato Institucional Nº5 da ditadura brasileira, que retirou todos os direitos. Ele foi chamado assim porque o que estava sendo feito com a Internet nesse projeto era quase o mesmo que a ditadura fez com os direitos humanos. Logo que conseguimos tirá-lo da agenda política pensamos: necessitamos urgentemente de uma lei que garanta os direitos na rede, porque se não, irá haver outros projetos para criminalizar a população. Assim começamos. O Ministério da Justiça construiu uma plataforma digital colocando os projetos. Esta plataforma era colaborativa e milhares de colaborações de organizações da sociedade civil fizeram um projeto em conjunto com o governo, mas principalmente da sociedade civil.
Desde quando trabalham nesse projeto?
Desde 2009. É um projeto de consenso entre a sociedade civil, os empresários de conteúdos da Internet e, em alguns pontos, com os empresários de conexão. Então, este projeto não era o programa máximo que nós queríamos para a Internet, trata-se de um programa consensuado, mas era muito bom. Contudo, como ocorreu com a lei da imprensa, não havia conjuntura política para aprová-lo. As empresas de telefonia estavam muito fortes para que nada ocorresse em relação a esse tema. Também os interessava um ambiente sem regulação para a Internet, porque assim eles mesmos a regulariam como queriam, de acordo com suas regras de mercado e seus interesses particulares.
Até que a Dilma deu o OK.
O que ocorreu é que (Edward) Snowden disse que os Estados Unidos estavam vigiando todo o mundo, inclusive a presidenta Dilma. Isto obrigou que o governo desse uma resposta. Ela foi às Nações Unidas, disse que tínhamos que mudar a forma de governar a Internet, tinha o marco civil nas mãos e respondeu ao Brasil e ao mundo como teríamos que mudar.
Não há nada parecido em outros países?
Não há uma lei com tantos pontos. Na Europa há uma lei de neutralidade da rede, no Chile também. Mas privacidade, liberdade de expressão e com tantas outras questões, apenas esta. Este é para mim um projeto que seria impossível de ser aprovado no Brasil sem uma conjuntura como esta. Nunca havíamos conseguido que o Congresso brasileiro o aprovasse.
Como foi o dia da aprovação?
Não foi um dia, foram meses. Foi uma briga muito forte. Entrava-se e saia-se, entrava-se e saia-se porque a pressão era muito forte. O que fez o governo: colocou-a como urgência constitucional. Um dispositivo que faz com que, quando entra um projeto em caráter de urgência, exija-se um prazo máximo para que seja aprovado ou não, assim é necessário que se vote, pois, se não o fizerem até esta data, trava-se a pauta do Congresso e não se poderá votar nada mais até que isso seja votado. E, inclusive, através desse dispositivo ele esteve travado por sete meses. Não se votava nada no Brasil porque não caminhava o projeto do Marco Civil. E não caminhava porque não havia consenso, uns queriam uma coisa, outros outra; todos jogos políticos. As companhias telefônicas pressionavam muito. Houve uma quebra na bancada do governo. A metade disse que não iria aprovar e então houve a reorganização da força do governo. Fez-se uma pressão social na Internet, nas ruas, para que o povo entendesse que esse não era um projeto do governo brasileiro contrário as corporações ou de um partido para controlar a Internet, mas que era um projeto da sociedade para que nos defendamos do governo e das corporações. Porque existem dispositivos que inclusive protegem nossos direitos de um autoritarismo do governo. Assim conseguimos um consenso, foi aprovado quase por unanimidade, apenas um partido teve um voto contrário.
Então nesse dia não houve uma longa sessão.
Não, mas houve meses de sessões porque não caminhava. E aprovou-se no Senado no dia que iniciou a Cúpula Mundial no Brasil (NetMundial). Foi um acontecimento tremendo.
Quais são as principais conquistas trazidas por este marco de lei?
A neutralidade da rede é o que chamamos de alma, para que a Internet seja como é hoje, para que não haja uma “separação social”, e para que a concentração dos meios que há hoje na radiodifusão não ocorra com a Internet. É disso que trata a neutralidade, que faz com que quem faça o controle sobre a infraestrutura da rede tenha de ser neutro em relação aos conteúdos que são disponibilizados.
Por exemplo, as telefonias.
Sim. As telefonias que proveem a Internet não podem manipular os conteúdos. Têm que ofertar velocidade de volume. Não podem dizer “sobre este conteúdo vou cobrar, sobre este não. Ou este conteúdo será transmitido mais rápido e este não”. Não podem monitorar, nem filtrar os conteúdos da rede, porque a tecnologia permite que se faça isso. Porque, por exemplo, temos aqui uma telefonia que faz um acordo com o Facebook, do qual eu não irei participar, e que irá me ofertar o Facebook gratuito em minha conexão.
Então, por um acordo comercial, o Facebook termina sendo a Internet para milhões de pessoas. E se, outra rede como a Diáspora ou qualquer outra que não tem a capacidade comercial de negociar, como tem o Facebook, nunca irá conseguir fazer uma rede para muitas pessoas. O artigo 09 do Marco Civil impede isto claramente. Ainda se deve regulamentar este artigo. Ainda está em discussão. Então a neutralidade da rede serve para que meus conteúdos sejam iguais a qualquer outro, para enviar e para receber. As operadoras têm que ser neutras em relação aos conteúdos. Vendem a velocidade, mas não tocam nos conteúdos.
E a privacidade?
Não conseguimos tudo em relação à privacidade. Contudo, o artigo 07 garante a privacidade como nunca havia sido garantida para a Internet. Nele se diz que o fluxo privado é inviolável. Que a comunicação armazenada necessita de ordem judicial para ser monitorada. Não se pode, como com os telefones, escutar o que estamos falando sem que um juiz o peça. Isto não resolve a questão totalmente. Ainda temos que pôr isso em prática e ver como se dará. Mas agora estamos jogando o jogo, antes nem sequer podíamos jogá-lo. Por exemplo, a cooperação entre corporações de conteúdo, como Facebook ou Google, antes da lei nem sequer eram ilegais. Agora isso terá um fim? Não. Todavia agora é ilegal, então existem mecanismos para controlar. Pode-se manipular dados, contudo não passá-los a terceiros para qualquer outro fim. Estes são mecanismos de defesa da privacidade muito fortes.
Aqui uma ex-modelo iniciou um processo porque seu nome aparecia em um sítio de busca associada a páginas de pornografia e pediu que essa informação fosse eliminada. Como seria com esta lei?
Os principais ataques à liberdade de expressão na Internet é que se retiram os conteúdos sem chances de defesa. Por exemplo, no Brasil há a Marcha das Vadias, que defende os direitos das mulheres – o nome é um sarcasmo –, então no Facebook retiravam todas as suas fotos e cancelavam todos os perfis porque (suas regras dizem que) não se pode fazer nudismo. Contudo fotos artísticas de pessoas nuas não eram retiradas. Havia uma censura política.  
Também há denúncias em relações a mulheres amamentando...
Sim, é o mesmo. Isso não é permitido, mas uma foto artística de uma modelo nua sim. Então quem é o juiz? OFacebook? Ou quem? Outra coisa há um governador não gosta do que um blog está dizendo sobre ele e pede ao provedor de conteúdos que o retire, pois caso contrário irá processar o provedor e não a pessoa que está escrevendo nele. Esta é uma censura muito praticada em toda a rede. Então o que a lei faz é dizer que os provedores de conteúdos não são responsáveis por conteúdos de terceiros. Isso é um detalhe muito importante, porque então, se oFacebook retira as fotos dos protestos ou um sítio de busca retira um blog de sua estrutura, terão que explicar o porquê o fizeram, pois se não é responsável pelos conteúdos não há ameaça para eles sobre estes conteúdos. Somente poderão ser retirados com uma ordem judicial. A retirada de maneira automática será discutida na Justiça. O único conteúdo que permitimos retirar sem ordem judicial é o conteúdo de nudez e sexo sem autorização da própria pessoa. Deve ser a própria pessoa ou seu responsável legal, em caso de menores, quem irá comunicar ao provedor que retire todas as imagens ou vídeos do referido conteúdo. Então, por exemplo, uma entidade religiosa não pode fazê-lo dizendo que vai contra a sua moral. Apenas a pessoa.
Então no caso da modelo argentina...
No caso dela não ter autorizado tais fotos, a retirada deve ser solicitada apenas com a comunicação ao Google ou a quem fosse. O Marco Civil não pode controlar se a foto é uma foto pública, não se pode eliminar certas buscas públicas.
O que conseguiram fazer com a lei do Marco Civil?
Há algo que especialmente a televisão Globo não permitiu, que nos conteúdos protegidos pelos direitos autorais esta regra não fosse aplicada. Assim podem ser retirados sem ordem judicial, apenas com uma simples notificação. Então, ainda segue a censura transvestida de direitos autorais, que não necessariamente está protegendo direitos patrimoniais. O que acordamos foi que essa questão passe a ser tratada na lei de direitos autorais e a retiramos da lei do Marco Civil porque com a Globo e as telefônicas juntas contra a lei, não iríamos aprova-las nunca.
Isto quer dizer que agora deve-se trabalhar nessa outra lei...
Sim, porém ainda estamos estudando, contudo o que ocorre com os direitos autorais? A censura ainda continua. Por exemplo, a Globo retira os vídeos que a criticam, alegando que isto está protegido pelos direitos autorais. E isso não tem nada haver, porque a mesma lei de hoje dos direitos autorais permite que usemos pequenos trechos para fazer críticas, sátiras. O problema é que nossa lei atual não fala sobre a Internet. Assim continua retirando conteúdos com argumentos patrimoniais, mas na realidade está censurando o debate. Outro problema é o artigo 15. As polícias brasileiras fizeram uma forte pressão. No projeto original, no armazenamento de dados de aplicação, as empresas de Internet podiam decidir se queriam fazê-lo ou não. Na realidade, o que queríamos era que não fosse possível armazenar, contudo era impossível que o Google, o Facebook, ou qualquer outra empresa cujo negócio está no armazenamento de dados, continuassem na Internet e, se o proibíssemos, iríamos fazer com que no Brasil não houvesse Google ou Facebook e isso não agradaria ninguém.
O tiro sairia pela culatra.
Então decidimos que cada empresa iria decidir. Contudo a polícia obrigou a todas as empresas que fizessem o armazenamento por seis meses, com fins de investigação criminal. Tudo. Se alguém carregou uma foto, se comprou um remédio pela Internet ou um livro, ou enviou uma mensagem, se viu uma notícia, todos esses movimentos seriam guardados por essas empresas por seis meses. Para vê-los, devem ser requeridos pela Justiça. Então o que dissemos é que há dois princípios constitucionais que estão violados neste artigo. Um, é a presunção da inocência.  Estamos considerando todos como culpados, então armazena-se a informação de toda a sociedade caso alguém seja suspeito. E é uma medida que viola o princípio de proporcionalidade, é muito desproporcional. Para que alguém não cometa um crime vamos vigiar a todos. Isso é um problema. “Ah – dizem –, mas é apenas com ordem judicial”. Sim, mas como a empresa irá garantir que esses dados não irão por aí.
E é difícil provar também que tenham vendido esses dados ou que foram enviados para outros usos.
E se irão armazenar, terão que investir para salvar. Então, por exemplo, uma livraria que vende livros pela Internet, que não iria salvar nada, agora tem que salvar. E se vai armazenar, irá comercializar porque tem que investir. “Ah, mas não pode enviar os dados para outros”. Sim, mas pode analisa-los estatisticamente e usar essa análise como um dado. Os metadados. Pode-se fazer uma estatística de tudo o que ocorre e saber para onde direcionar a publicidade. Então se leva todas as empresas para um comércio de metadados.
Na regulamentação isto pode ser modificado?
Sim, vamos tentar que sejam apenas algumas empresas, não todas as que possam armazenar. Nossa proposta é que as que já salvam sejam submetidas a este artigo, mas as que não armazenam, não. Também podemos trabalhar em outra lei, que é a de proteção de dados pessoais. Nesta lei poderíamos revogar este artigo 15.
A lei do Marco Civil devolve ao Estado um rol importante em relação à regulação das comunicações...
Mais que ao Estado, à própria sociedade. É uma lei da sociedade e não uma lei que está sendo manipulada pelos interesses políticos de um partido ou de um governo.
Contudo quem é a autoridade para a aplicação desta lei?
Temos a Anatel, que é uma agência do Estado, que regula a infraestrutura de telecomunicações, e temos o CGI, Conselho Geral da Internet brasileiro, composto por governo, sociedade empresarial e consumidores, que realiza muitas coisas em relação ao domínio ponto br. Alguns artigos dizem que a Anatel e o CGI têm que ser escutados pelo governo para fazer a regulamentação. Entretanto ainda não há uma agência específica como a Afsca daqui, não criou-se nada para monitorar isto. Então a Anatel segue exercendo a aplicação do que ocorre na infraestrutura, mas não na camada lógica (a nível dos conteúdos) e o CGI trata da camada lógica. Agora o Marco Civil o nomeia pela primeira vez em uma lei. Essa é outra vitória.
Na Argentina há um movimento em relação aos questionamentos sobre conteúdos discriminatórios por razões de gênero, etnia, orientação sexual. A lei do Marco Civil diz alguma coisa em relação a este tipo de conteúdos?
Sim, fala também com os mesmos princípios. Contudo é um Marco Civil, não trata de questões penais. Por exemplo, o racismo é um crime no Brasil. Então pelo Marco Penal não se pode ser racista na Internet. Então o Marco Civil não necessita tratar desse tema.
Entretanto, um conteúdo sexista, por exemplo, que é simbólico?
Não há nenhum dispositivo na lei que diga que isto não pode, que será retirado. Porque aí fragilizamos a lei: quem vai decidir sobre isto.
O que teria que ser feito então?
Ser nomeado como um princípio que deve respeitar os direitos humanos, contudo não há um mecanismo específico que o retire ou o resolva. Então isto deve ser revolvido na justiça. São necessários juízes especiais para tratar o tema, um tribunal especial para que não fique junto com todas as outras questões, visto que deve-se ser mais rápido para tratá-lo. Isso é nomeado pela lei, mas não está instituído, mas diz que deve ser feito via tribunal porque é importante para normatizar e agilizar as coisas.
Também devem ser utilizados outros mecanismos, como campanhas...
Sim. E o Marco Civil é uma lei de princípios. É uma lei geral, que desenha um caminho. É um bom começo, não encerramos nada. E temos um longo caminho.
Vão aproveitar o Mundial de Futebol para mostrar esta legislação ao mundo?
Não. Isso ocorreu com o NetMundial, todo mundo viu que é possível aprovar uma lei assim. E ficou indicado que seja feito um Marco Civil Mundial. Porque as coisas não estão em um país ou em outro, mas estão em todo o mundo. O mundial é um problema, inclusive para a privacidade, porque todas as empresas de espionagem estão vindo ao Brasil para monitorar as redes pelos protestos, devido a tudo que irá ocorrer nesses dias, porque a FIFA impõe coisas tremendas que devem ser garantidas em nome de seus patrocinadores.
Como a arquitetura foi útil para que você pensasse a comunicação?
É útil para que eu pense as coisas visualmente. A comunicação não é apenas a rádio ou a TV, a cidade é um tremendo canal de comunicação. Também estou desenhando minha casa, que irei construir. Gosto muito. Contudo sem a comunicação democrática todos os outros temas permanecem paralisados. Não vamos ter uma educação pública, saúde, a reforma agrária, nenhuma dessas questões irá ocorrer sem que haja um debate que ocorra de forma democrática. Então define-se esse como o tema de todas as disputas. Temos que democratizar a comunicação para que a própria democracia se concretize.

terça-feira, 1 de julho de 2014

O plano para silenciar a liberdade dos internautas, em sete passos

 





A reportagem é publicada por RT, 21-05-2014.

O portal Infowards detalhou as formas como a liberdade na ‘world wide web’ (www) “está sendo massacrada em todo o mundo”.
1. Os serviços de inteligência manipulam a Internet com desinformação deliberada
Uma série de documentos recentemente publicados por Edward Snowden confirma que as agências de inteligência ocidentais estão enchendo, deliberadamente, a web com desinformação. Segundo o jornalista Glenn Greenwald, ex-funcionário do jornal britânico ‘The Guardian’, estas técnicas tem por objetivo “controlar, infiltrar, manipular e deformar as discussões on-line” e, com efeito, “colocar em risco a integridade da Internet”.
2. Os Governos pagam para influenciar a opinião pública
Em 2010, a rede canadense CTV News informou que as autoridades federais do país estavam buscando formas de vigiar as conversas on-line sobre temas políticos e corrigir o que eles consideravam desinformação. “A próxima vez que você publicar uma opinião em um foro on-line ou em um grupo do Facebook não se surpreenda, caso receba uma refutação de um empregado federal”, dizia parte da publicação.
Os Governos turco, israelense e chinês implementaram programas similares, e a Força Aérea dos Estados Unidos contratou a empresa de segurança de dados HBGary para criar um grande número de perfis falsos em redes sociais. O portal The Raw Story afirma que a função desse programa é “manipular a opinião pública” em pontos centrais como os “informes de notícias”.
3. A imprensa dominante restringe os comentários dos usuários
Os meios de comunicação dominantes estão restringindo severamente os comentários dos usuários com a finalidade de afogar as vozes dissidentes que questionam a elite imperante, segundo Infowars.
Vários estudos confirmam que os comentários aos artigos de imprensa, para o bem ou para o mal, influenciam fortemente a opinião pública. A revista ‘Popular Science’, por exemplo, anunciou recentemente a decisão de restringir em sua página web os comentários dos leitores com a finalidade de silenciar os céticos sobre o aquecimento global. No ano passado, o jornal The New York Times apontou que estava apagando alguns comentários de seus artigos. Infowars considera que estas medidas fazem parte do esforço desesperado dos meios de comunicação para ditar sua própria realidade.
4. A ‘infiltração cognitiva’ na Internet de Obama
O professor de Direito de Harvard, Cass Sunstein, designado por Barack Obama, em 2010, para se encarregar do Escritório de Informação e Assuntos Regulatórios dos Estados Unidos, foi quem propôs a chamada ‘infiltração cognitiva’ na web e que pregou o seu êxito desde então. O objetivo deste programa da Casa Branca é fragilizar, nas salas de chat e redes sociais, muitos usuários que dão sua opinião sobre o que na realidade, em seu parecer, ocorreu em fatos como os que se relacionam ao 11 de setembro.
Sunstein sugeriu que os agentes do Governo entrassem nas salas de chat ou redes sociais para “tratar de minar as teorias conspiratórias, levantando dúvidas sobre suas premissas”.
5. Falsos ciberataques como pretexto para ampliar a regulação da web
“Enquanto de Washington se repete constantemente a necessidade de se avançar nas regulações sobre a segurança na Internet, para reduzir os ataques informáticos, os Estados Unidos estão por trás dos maiores ataques recentes”, diz parte da publicação do portal.
Quando Alex Jones, diretor do Infowars, em 2010, acusou Washington e Telavive de estar por trás do desenvolvimento de Stuxnet, um vírus que atinge equipes com Windows, meios da CNN e ‘The Economist’ o ridicularizaram taxando aquela reclamação de teoria conspiratória, sem fundamento. No entanto, meses mais tarde, ‘The New York Times’ informava que “os serviços de inteligência dos Estados Unidos e Israel tinham colaborado para desenvolver um vírus informático destrutivo para sabotar os esforços do Irã” no desenvolvimento de sua energia nuclear.
“Como informou posteriormente The Washington Post, os Estados Unidos e Israel também foram os responsáveis por desenvolver, conjuntamente, o vírus Flame”, recorda Infowars.
6. Acabar com a neutralidade da rede
A Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos deu sinal verdade aos grandes provedores de serviços de Internet para que ofereçam a seus clientes corporativos um sistema que lhes permitam ter maior acesso de alta velocidade, com banda larga, caso paguem mais. “Deste modo, colocar-se-ia fim à neutralidade da rede e, potencialmente, deixaria os sítios web menores como pó”, explica Infowars, acrescentando que isto permitirá às grandes empresas formar monopólios e restringir as escolhas do consumidor.
O jornal The Washington Post prognostica que as pequenas empresas que não podem ter o luxo de pagar este serviço mais rápido, provavelmente enfrentem obstáculos adicionais contra a concorrência, ao mesmo tempo em que os consumidores poderiam ter que encarar preços mais altos.
7. Novos impostos para sufocar a comunicação
Uma série de novos impostos e regulações poderia anunciar a “data de caducidade da liberdade na Internet”, de acordo com um recente artigo de The Wall Street Journal, que aponta para os esforços dos legisladores estadunidenses para fragilizar a lei sobre aInternet livre de impostos.
O que vários funcionários norte-americanos aspiram é obter novos poderes para cobrar impostos às vendas no comércio eletrônico e aos serviços de acesso à Internet, incluindo a aplicação de um imposto para o envio de correios eletrônicos, o que poderia estimular milhões de estadunidenses a deixar a comunicação on-line.
Fim do jogo?
O objetivo para aniquilar a liberdade na Internet, sem dúvida, gira em torno de um plano para criar um sistema de identificação universal na Internet, apresentado recentemente pela Casa Branca. “Isto facultaria ao Estado privar qualquer pessoa que se comporte mal de usar aInternet”, segundo Infowars.
“Apenas por meio da agressiva oposição a estas ameaças onerosas à liberdade da Interneté que podemos ter a esperança de conservar a Rede mundial e continuarmos vendo pessoas informadas”, conclui a publicação.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

O Marco Civil da Internet, NetMundial e o menosprezo aos cidadãos

"Considerando que a atual governança da Internet resultou num processo criminoso de espionagem, sem que nada tenha sido comentado no documento final da NetMundial, apesar do discurso inicial da Presidente Dilma Rousseff, o tempo é que vai nos dizer o que vai acontecer com o Marco Civil da Internet no Brasil e no exterior", escreve José Rodrigues Filho, professor da Universidade Federal da Paraíba e foi pesquisador nas Universidades de Harvard e Johns Hopkins (EUA), em artigo publicado por EcoDebate, 02-05-2014.
Eis o artigo.
O projeto de lei que instituiu o Marco Civil da Internet foi sancionado pela Presidente Dilma Rousseff, durante a abertura do encontro da NetMundial, realizado em São Paulo, nos dias 23-24 de abril do corrente ano, com a presença de representantes de cerca de 80 países. De um lado, o Brasil poderia dizer: vejam o nosso marco civil da internet e que os governos de seus países deveriam fazer o mesmo. Do outro lado, os Estados Unidos satisfeitos por ter conseguido abraçar o Brasil em seus esforços políticos de divulgar o discurso corporativista de Multistakeholder. Para alguns, era possível dizer: Tudo está muito bem, vamos. tomar caipirinhas. Para o ICANN, institutição americana responsável pela governança atual da internet, todos estavam felizes, considerando que estavam convergindo para os valores de um modelo de governança, denominado de Multistakeholder, ou seja, o modelo de governança corporativa americano. Mas, no final do evento, como era de se esperar, chegou-se ao momento desagradável. Nem os Estados Unidos, nem a União Europeia, defensores de uma governança corporativa da internet, que menospreza os cidadãos-usuários, aceitaram abraçar a idéia de neutralidade da internet, ponto forte de nosso Marco Civil. Conforme foi noticiado, se quisermos mais internet e mais democracia, devemos esquecer NetMundial e ICANN.
Apesar do discurso corajoso de nossa Presidente, em favor da liberdade, da neutralidade da internet e contra a espionagem em massa, não houve impacto no resultado final daNetMundial. Comenta-se que a versão final do documento sobre os princípios dagovernança da internet é pior do que versões anteriores, razão pela qual deve servir de alerta para os cidadãos do mundo inteiro. Sem conhecer os fatos, torna-se difícil comentar sobre as razões pelas quais a Presidente Dilma aceitou que o Brasil fosse um dos co-organizadores do evento, juntamente com ICANN. Pela sua história e como vítima de um processo de espionagem criminoso, será que a Presidente Dilma Rousseff se rendeu ao discurso Multistakeholder, ao lado dos Estados Unidos?
Comenta-se que, com base neste discurso, nada de concreto aconteceu nos últimos 15 anos durante as reuniões Multistakeholders, a não ser a observação de que, ao longo dos anos, a tecnologia tem se voltado contra os cidadãos-usuários, enquanto ferramenta de espionagem, controle e opressão. O modelo multistakeholder é esmagado pelas botas daNSA, Google, Facebook, Apple e muitos outros que, de forma unilateral, não desejam moldar a tecnologia para beneficiar os cidadãos. Infelizmente, o discurso multistakeholder é o preferido por boa parte dos técnicos de tecnologia de informação, que enxergam apenas as questões técnicas da tecnologia, relegando as questões de contexto e outras questões sociais. Este é o modelo que inclui as principais corporações da Internet, o governo dos Estados Unidos e seus aliados nas comunidades técnicas e parte da sociedade civil. A questão que se levanta é a seguinte: Neste modelo, quem são os representantes dos interesses públicos, quando as corporações, que dominam os eventos, estão defendendo seus próprios interesses?
Portanto, o modelo multistakeholder é visto como a transformação do modelo econômico neo-liberal, responsável pela devastação da tragédia humana no mundo inteiro, mas celebrado por alguns por conta da dominação da Internet pelos Estados Unidos, suas corporações e um limitado número de países aliados, responsáveis pela implementação de um modelo de governança, que abre espaços para a participação de stakeholders do setor privado, mas nenhuma participação para stakeholders interessados no interesse público. Similar ao modelo econômico neo-liberal, o modelo multistakeholder não permite uma regulamentação externa para proteger o público e seus interesses. Portanto, estamos diante de um modelo que prioriza a privatização da governança, com a participação de alguns membros da sociedade civil que, muitas vezes, depende de viagens pagas pelas grandes corporações, o que dificulta se ter a internet como um bem social, diante da dominação das grandes corporações, reforçada pelos processos do modelo multistakehlders.
Os cidadãos-usuários brasileiros receberam o primeiro golpe durante as discussões doMarco Civil no Congresso Nacional. Boa parte da classe política, tanto aliada do governo como de oposição, rejeitou a idéia do projeto incial apresentado pelo governo, que defendia que os dados de cidadãos brasileiros fossem armazenados no Brasil. De nada valeram as denúncias de espionagem de Edward Snowden, de nada valeram a espionagem feita contra a nossa Presidente, as elites políticas se mantiveram favoráveis ao status quo, enquanto defensoras das grandes corporações, inclusive internacionais. Parecem pouco interessadas na segurança dos usuários e, consequentemente, na segurança do país como um todo. Se não for criada uma estrutura de segurança dentro do nosso país, dificilmente isto vai acontecer se for feita noutros países. Pode até ser um processo mais caro, mas, em se tratando de melhor segurança, temos que pagar um preço por isto. Porém, para viabilizar a aprovação do projeto, o governo abriu mão de um dos pontos mais importantes do projeto inicial, referente ao armazenamento de dados no Brasil de usuários brasileiros.
Em se tratando de armazenamento de dados, vale a pena mencionar recente pesquisa realizada na Europa, após as denúncias de espionagem e que tenta mostrar o comportamento e atitudes dos executivos das grandes corporações. Mais de 90% dos executivos de países como Alemanha, França, e Inglaterra demonstraram ser favoráveis a que os dados de suas organizações fossem mantidos dentro do próprio país e não mais em organizações dos Estados Unidos. Isto demonstra a grande preocupação com a segurançacibernética, que não parece ser o caso no Brasil, como ficou demonstrado quando da votação do Marco Civil da Internet, que para ser aprovado levou o governo a retirar do projeto inicial o tópico inerente ao armazenamento de dados de cidadãos brasileiros. Por que manter dados dos cidadãos brasileiros em banco de dados das grandes corporações americanas, dentro dos Estados Unidos, diante do que estamos percebendo? O que nos alegre foi o recente depoimento, segundo a imprensa, do Ministro das Telecomunicações,Paulo Bernardo, de que vai lutar para obrigar empresas de internet a manter dados de cidadãos brasileiros, no Brasil.
Considerando que a atual governança da Internet resultou num processo criminoso de espionagem, sem que nada tenha sido comentado no documento final da NetMundial, apesar do discurso inicial da Presidente Dilma Rousseff, o tempo é que vai nos dizer o que vai acontecer com o Marco Civil da Internet no Brasil e no exterior. O significado da participação do Brasil como co-organizador da NetMundial, ao lado dos Estados Unidos, não está clara. Porém, pelo que se observa, o país foi realmente convencido pelos Estados Unidos a se engajar no modelo Multistakeholder, que, como vimos, menospreza os cidadãos, deixando de discutir o que lhes interessa e o que é de interesse público.