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quinta-feira, 27 de novembro de 2014

A obsessão pelo crescimento econômico como patologia social

do blog do Marcio Valley
Tim Jackson, em seu livro "Prosperidade sem crescimento: Vida boa em um planeta finito", surpreende os leitores ao apontar estudos que desvinculam o sentido de prosperidade individual à posse de riqueza. Questionadas, as pessoas tendem a identificar o desejo de prosperidade, precipuamente, ao bom relacionamento com familiares e amigos, à segurança de si e das pessoas a quem quer bem, à possibilidade de realizar coisas pelas quais se sinta gratificado, à manutenção de um emprego decente com renda meramente suficiente para a manutenção de uma vida digna e ao sentimento de pertencimento a uma comunidade da qual possa participar de forma ativa. Jackson denomina de florescimento a possibilidade do indivíduo alcançar esse conjunto de fatores. A prosperidade, assim, está plenamente vinculada à capacidade do indivíduo de florescer. Alcançar riqueza não é, em geral, incluída pelas pessoas como um dos requisitos do florescimento. Uma renda digna, não riqueza, é um elemento considerado, todavia apenas como um meio para o sucesso na meta do florescimento.
Essa espécie de prosperidade que advém do florescimento independe do crescimento econômico. De fato, é possível imaginar uma economia estável, com crescimento variando em função do número de habitantes do planeta e, sendo assim, tanto podendo crescer, como decrescer, na qual as pessoas consigam viver num ambiente de fraternidade, trabalhando com renda digna, realizando o que gosta de fazer e com segurança, ou seja, florescendo em sua condição de ser humano.
Dessa forma, conclui-se que o crescimento econômico que gera uma imensa desigualdade na distribuição da riqueza, mantendo bilhões de pessoas na mais absoluta miséria, e que não possibilita o florescimento individual, é de pouca serventia se considerado sob o prisma da produção de prosperidade.
A obsessão pelo crescimento do PIB, cuja relação com a prosperidade e a felicidade do ser humana é, para dizer o mínimo, improvável, pode, portanto, ser interpretada como uma doença que conduz o ser humano a desprezar as necessidades do sistema ecológico e a materialização do florescimento individual.
Por outro lado, o economista francês Thomas Piketty, no livro "O capital no século XXI", livro que o prêmio Nobel Paul Krugman não hesitou em denominar de "verdadeiramente soberbo", informa que a inflação não foi um acaso ou um infortúnio econômico, mas resultado de uma ação planejada, em fins do século XIX e início do XX, que extinguiu o padrão ouro das moedas fortes, o que foi feito para possibilitar a emissão de moeda sem lastro. O objetivo? Reduzir, através da inflação, a dívida pública das nações e pagar as despesas das guerras. Em outras palavras, inventou-se a inflação para dar o calote na população. Piketti relata que, até então, a economia crescia, com pouca variação, na proporção do crescimento populacional, às vezes um pouco mais, outras um pouco menos. A partir daí, a inflação tornou-se um problema que, até o momento, não possui solução. Além disso, ele descreve academicamente os motivos pelos quais a inflação, mesmo pequena, de 1% ao ano ou inferior, afeta de maneira perniciosa a economia de qualquer país. Quanto maior a inflação, mais rápidos são sentidos os efeitos daninhos.
Não bastassem todos os problemas acarretados pela invenção da inflação, que Piketti descreve em seu livro, há ainda um que talvez seja um de seus mais perversos efeitos: ela é um dos responsáveis pelo surgimento do consumismo desenfreado a partir de meados do século XX, porque, ao corroer o valor da renda, tanto a proveniente do trabalho, como a do capital, obriga a uma recomposição através do aumento real da economia. Quando o enfatizo como um efeito perverso da inflação, faço-o porque tornou-se o consumismo um fetiche social que antropomorfiza o objeto de consumo e coisifica o ser humano. Hoje em dia, raramente alguém é admirado por sua cultura se não materializa esse valor interno em objetos icônicos externos. "Essa pessoa não pode ser considerada culta e erudita se não mora num bairro chique e não dirige um carro caríssimo", é o que pensam ao excluírem de suas relações a pessoa que optou por uma vida frugal.
Há algo mais ridículo do que uma pessoa, em reunião social, puxar conversa jactando-se de possuir uma determinada marca de relógio ou de automóvel e, ainda por cima, perguntar pelas marcas que o interlocutor costuma adquirir? Como qualificar a auto-exibição de frivolidade de alguém que posta na rede social a fotografia do prato que pediu em determinado restaurante? Essa é a perversidade do consumismo: transforma o ser humano, até onde se sabe o único ser vivo possuidor de inteligência racional do universo, em um pateta superficial que desonra a cultura e é obsedado pela inanidade do exibicionismo.
Esse mesmo consumismo fútil e sem sentido é que, em Bauman, é considerado um dos fatos geradores da liquidez da modernidade, onde tudo é fugaz e difícil de conter por muito tempo, qualificando-se o indivíduo pelo que possui e não pelo valor intrínseco de si mesmo. E preocupa Jackson pela vacuidade do ataque feroz aos recursos naturais e pela expansão da ocupação humana em todos os habitats.
Não há dúvida de que o interesse demasiado pelo crescimento econômico decorre inicialmente do aumento populacional. Para gerar emprego e renda, a economia necessita acompanhar o ritmo da variação no número de pessoas que buscam o mercado de trabalho. Como o século XX gerou um incremento populacional até então inimaginável, essa explosão demográfica exigiu um crescimento da economia à altura. O incentivo ao consumismo nasce, em princípio, dessa urgência econômica. Assim, o primeiro elemento culpado pela necessidade do consumismo é a explosão demográfica.
Entretanto, a inflação, por desvalorizar a economia ainda que mantidas as mesmas condições, obriga à recuperação desse prejuízo no mínimo em idêntico percentual. Passa-se, dessa forma, a existir um segundo elemento que deve ser pelo menos igual ao crescimento econômico para que tudo se mantenha como está, que é a inflação. Muito simplificadamente, num ambiente de crescimento populacional anual de 2% e inflação igual a 2%, um crescimento econômico inferior a 4% será, em tese, um desastre.
O consumismo surge como salvador da economia. Para incrementá-lo, nasce uma publicidade engenhosa e um artifício demoníaco: a obsolescência programada, mecanismo através do qual as coisas são produzidas para durar um curto tempo, obrigando à sua reposição reiterada e ampliando o consumismo.
Remédio, contudo, que está matando o doente ao impôr o pesado ônus de uma agressão sem paralelos ao ambiente em que vivemos. O extrativismo é feroz, a necessidade de ocupação da terra aumenta a cada segundo. Muitas espécies já foram extintas, outras estão em perigo. Diversos ecossistemas são hoje mera lembrança.
Nesse ponto retornamos a Tim Jackson o problema que ele nos apresenta da impossibilidade de crescimento infinito de qualquer subsistema que integre um sistema finito. A finitude do sistema obviamente determina idêntica finitude de todos os subsistemas nele contidos. O sistema denominado planeta Terra é finito, donde decorre que o subsistema ecológico terráqueo é igualmente finito, assim como finitos são todos os subsistemas desse subsistema, inclusive o sub-subsistema econômico. Portanto, a obsessão pelo crescimento econômico infinito e pela riqueza individual infinita são, tanto uma impossibilidade física, como uma patologia social capaz de conduzir ao aniquilamento da civilização.
Por conta disso, Jackson nos coloca a seguinte questão: o crescimento contínuo da riqueza dos indivíduos que já são muito ricos é uma meta saudável a ser perseguida pela economia política num mundo cujos limites ecológicos já foram alcançados e estão perigosamente sendo ultrapassados?
Como ninguém, nem os ricos, desejam a destruição da civilização, é muito possível que, em médio prazo, se inicie um processo de ausência de crescimento ou mesmo de redução da economia. Se isso ocorrer, entra outra questão: como ficará a renda do trabalho? Segundo Piketti, em situações de ausência de crescimento econômico, a tendência de concentração da riqueza em poucas mãos se acentua. Além disso, a tecnologia e o aumento da produtividade torna cada vez mais desnecessária a mão-de-obra humana. De que forma será possível a criação de emprego num ambiente de economia estagnada, de trabalho desenvolvido por artefatos tecnológicos, com alta produtividade e com concentração de riqueza cada vez maior? É possível que o setor de serviços preencha esses espaços?
Para que o setor de serviços crie a maior quantidade possível de empregos, é imprescindível que se pense em redução drástica do número de horas e de dias trabalhados. O ócio criativo surge desse tempo vago e possibilita o florescimento, com cada um procurando fazer aquilo que o realize individualmente. A busca pela cultura, pela saúde, pelo aperfeiçoamento físico e esportivo, pelo lazer, pelo conhecimento de lugares, pelo aprendizado e produção de arte, enfim de toda atividade que sirva ao propósito de construção da individualidade, naturalmente faz surgir o outro lado da moeda: os prestadores de serviços que serão os auxiliares dessa busca. Professores, médicos, artistas, agentes de turismo, profissionais liberais de toda espécie, produzirão grande parte das atividades e da renda necessária, destacando-se que são atividades de baixa produtividade que, por isso, possibilita o surgimento de empregos em quantidade proporcional à demanda. Basicamente, um cabeleireiro do século XIX estava limitado fisicamente a cortar a mesma quantidade diária de cabelos que hoje em dia um cabeleireiro pode cortar.
Entretanto, o setor de serviços não dará conta de gerar a renda necessária para todos os habitantes do planeta. O que fazer? Duas coisas parecem inevitáveis: a redução da população mundial a patamares administráveis e a diminuição forçada da concentração da riqueza.
A redução da população não é difícil e pode ocorrer de forma bastante acentuada em duas ou três gerações, desde que obstáculos morais e religiosos sejam postos de lado. Numa hipótese drástica, e praticamente impossível, se cada mulher tiver apenas um filho, o número de nascimentos será igual à metade da população em uma geração e à metade disso em duas. Nessa hipótese, em pouco tempo, alcançando-se, talvez, uma população de dois bilhões de pessoas, seria possível adotar a taxa de reposição, que é de 2,1 filho por mulher. Em uma suposição menos radical, se cada uma tiver 1,5 filho, a população se manteria estável durante algumas décadas e depois passaria a decrescer.
A redução da concentração da riqueza é necessária para a produção de renda para uma parcela considerável da população que, ao menos no início do processo de reforma da economia política, não encontraria emprego para auferimento de renda. Caberia ao Estado alocar recursos para essas pessoas. Os métodos para alcançar essa finalidade são variados e vão desde a vedação da formação de grandes conglomerados econômicos, com pulverização da produção, até a cassação de parte considerável do direito de herança, passando pela tributação pesada das grandes fortunas. O controle rigoroso sobre os títulos negociados no mercado, com proibição daqueles não vinculados diretamente ao setor produtivo, é uma imposição.
Paralelamente, o retorno de uma ancoragem real para a moeda aparenta ser salutar.
O fato aparentemente indiscutível é que o capitalismo precisará se reinventar.
Pode ser que Marx estivesse certo quando sugeriu que a superação do capitalismo surgiria de suas próprias crises e contradições intrínsecas. Se essa superação resultará em comunismo ou outra coisa, teremos que aguardar para ver.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

A crise infindável como instrumento de poder



Uma conversa com Giorgio Agamben

 

 
Em meio a repercussões apaixonadas e críticas difamatórios ao artigo Um “Império latino” contra a híper potência alemã, o filósofo Giorgio Agamben discute a atual crise econômica (que tem atuado como instrumento de dominação) em entrevista traduzida em primeira mão pelo Blog da Boitempo. Segundo o autor de O reino e a glória e Opus dei, ao voltarmos nossas reflexões à União Europeia, não devemos esquecer a “verdade dolorosa, porém óbvia” de que a constituição europeia é ilegítima, pois nunca foi votada pelo povo que deveria representar.
A entrevista é de Dirk Shümer, publicada originalmente em alemão pelo Frankfurter Allgemeine Zeitung e reproduzido em português pelo Blog da Boitempo.
Eis a entrevista.
Professor Agamben, quando você propôs a ideia de um “Império latino” contra a dominação germânica na Europa, você imaginava a poderosa repercussão que esta contenção teria? De lá pra cá, seu artigo foi traduzido para inúmeras línguas e vem sendo discutido fervorosamente no mundo inteiro.
Não, não esperava. Mas acredito no poder das palavras, quando ditas no momento certo.
A fratura na União Européia se dá realmente entre as economias e modos de vida do norte ‘germânico’ e do sul ‘latino’?
Gostaria de deixar claro de antemão que minha tese tem sido desvirtuada por jornalistas e, portanto, mal interpretada. O título “Que o império latino contra-ataque!” foi fornecido pelos editores do Libération e absorvido pela imprensa alemã. Eu nunca disse isso. Como poderia contrapor a cultura latina à alemã quando qualquer europeu inteligente sabe que a cultura italiana da Renascença ou a cultura da Grécia clássica é hoje completamente parte da cultura alemã, que a reconcebeu e reapropriou?
Então nada de ‘Império latino’ dominante? Nada de alemães incultos?
Na Europa, a identidade de toda cultura está sempre nas fronteiras. Alemães comoWinckelmann ou Hölderlin poderiam ser mais gregos que os gregos. E um fiorentino como Dante poderia sentir-se tão alemão quanto o imperador Frederico II da Suábia. Isto é justamente o que faz a Europa: uma peculiaridade que repetidamente se sobrepõe a fronteiras nacionais e culturais. Minha crítica não se dirigia à Alemanha, mas sim à forma pela qual a União Europeia foi construída, isto é, sob uma base exclusivamente econômica. De forma que não foram ignoradas apenas nossas raízes espirituais e culturais, mas também nossas raízes políticas e legais. Se isto foi tomado como uma critica à Alemanha, é só porque a Alemanha, em virtude de sua posição dominante e a despeito de sua tradição filosófica excepcional, parece incapaz, no atual momento, de conceber uma Europa baseada em qualquer coisa que não apenas o Euro e a economia.
De que forma a União Europeia negou suas raízes políticas e legais?
Quando falamos da Europa hoje, nos deparamos com a repressão gigantesca de uma verdade dolorosa, porém óbvia: a dita constituição europeia é ilegítima. O texto a que damos esse nome nunca foi votado pelo povo. Ou quando chegou a ser posto em votação, como na França e na Holanda em 2005, foi frontalmente rejeitado. Em termos legais, portanto, o que temos aqui não é uma constituição, mas, pelo contrário, um tratado entre governos: lei internacional, não lei constitucional. Recentemente, o altamente respeitado jurista alemãoDieter Grimm chamou atenção para o fato de que a constituição europeia carece do fundamental – o elemento democrático – já que cidadãos europeus não foram autorizados a decidir sobre ela. E agora todo o projeto de ratificação pelo povo foi tacitamente posto em gelo fino.
Este é, de fato, o famoso ‘déficit democrático’ no sistema europeu…
Não devemos perder isso de vista. Jornalistas, particularmente na Alemanha, têm me acusado de não entender nada de democracia, mas eles deveriam considerar antes de mais nada que a UE é uma comunidade baseada em tratados entre Estados, e simplesmente disfarçada com uma constituição democrática. A ideia de um poder constituinte na Europa é um espectro que ninguém mais arrisca evocar. Mas é só com uma constituição válida que as instituições europeias podem restabelecer sua legitimidade.
Isso significa que você vê a União Europeia como um corpo ilegal?
Não ilegal, mas ilegítimo. “Legalidade” é uma questão das regras para exercício do poder; “legitimidade” é o princípio que subjaz a essas regras. Tratados legais certamente não são apenas formalidades, mas refletem uma realidade social. É compreensível, portanto, que uma instituição sem uma constituição seja incapaz de seguir uma política genuína, mas que cada Estado europeu continua agindo de acordo com seu interesse egoísta – e hoje isso evidentemente significa interesse sobretudo econômico. O menor denominador comum de unidade é alcançado quando a Europa aparece como vassala dos Estados Unidos e participa de guerras que de forma alguma são de interesse comum, sem falar na vontade do povo. Vários países dos Estados fundadores da UE – como a Itália, com suas várias bases militares americanas – estão mais para protetorados que para Estados soberanos. Na política e no militarismo existe uma Aliança Altântica, mas certamente não há uma Europa.
Você preferiria então um Império latino a cujo modo de vida os alemães teriam de se adaptar, à UE…
Não, foi talvez de forma um tanto provocativa que assumi o projeto de Alexander Kojève de um “Império latino”. Na Idade Média, as pessoas ao menos sabiam que a unidade de diferentes sociedades políticas tinha de significar mais do que uma sociedade puramente política. Na época, o vínculo unificador era buscado no cristianismo. Hoje acredito que essa legitimação deve ser buscada na história da Europa e de suas tradições culturais. Diferente dos asiáticos e dos americanos, para quem a história significa algo completamente diferente, europeus sempre encontram sua verdade em um diálogo com seu passado. O passado para nós significa não apenas herança cultural e tradição, mas uma condição antropológica básica. Se ignorássemos nossa própria história, poderíamos apenas acessar o passado arqueologicamente. O passado, para nós, tornar-se-ia uma forma de vida distinta. A Europa tem uma relação especial com suas cidades, seus tesouros artísticos, suas paisagens. É disso que a Europa é realmente feita. É nisso que reside sua sobrevivência.
Então a Europa é antes de mais nada uma forma de vida, uma sensação histórica de vida?
Sim, por isso insisti em meu artigo que temos de preservar incondicionalmente nossas distintas formas de vida. Quando bombardearam as cidades alemãs, os Aliados também sabiam que podiam destruir a identidade alemã. Da mesma forma, especuladores estão destruindo hoje a paisagem italiana com concreto, autoestradas e vias expressas. Isso não significa apenas o roubo de nossa propriedade, mas também de nossa identidade histórica.
Então a UE deve insistir mais nas diferenças do que na harmonização?
Talvez não haja lugar algum no mundo a não ser na Europa onde tal diversidade de culturas e formas de vidas – ao menos em momentos preciosos – forme uma unidade perceptível. No passado, a meu ver, a política foi expressa na ideia do Império Romano e, em seguida, doImpério greco-romano. O todo, no entanto, sempre deixou as peculiaridades dos povos intactas. Não é fácil dizer o que poderia emergir hoje no lugar disso. Mas certamente uma entidade política sob o nome de Europa só pode partir dessa consciência do passado. É precisamente por esta razão que a atual crise me parece tão perigosa. Temos que imaginar a unidade preservando em primeiro lugar uma consciência das diferenças, pense sobre isso. Mas, muito pelo contrário, o que vemos é que nos Estados europeus as escolas e universidades estão sendo demolidas e financeiramente esvaziadas – precisamente as instituições que deveriam perpetuar nossa cultura e estimular o contato vivo entre passado e presente. Esse esvaziamento vem acompanhado de uma crescente museificação do passado. Temos o começo disto na transformação de algumas cidades em zonas históricas, e em que os habitantes são forçados a se sentirem turistas em seu próprio mundo da vida (Lebenswelt).
Essa crescente museificação é contrapartida do crescente empobrecimento?
Está claro que não nos deparamos apenas com problemas econômicos, mas com a existência da Europa como um todo – começando pela nossa relação com o passado. O único lugar em que o passado pode viver é no presente. E quando o presente deixa de ver seu próprio passado como algo vivo as universidades e museus tornam-se problemáticos. É evidente que existem forças em operação hoje na Europa que visam manipular nossa identidade, quebrando o cordão umbilical que ainda nos liga ao passado. As diferenças estão sendo niveladas. Mas a Europa só pode ser nosso futuro se deixarmos claro para nós mesmos que isso significa antes de mais nada nosso passado. E este passado está sendo crescentemente liquidado.
Seria a crise onipresente a forma de expressão de todo um sistema de dominação, dirigido a nossa vida cotidiana?
O conceito de “crise” de fato tem se tornado o mote da política moderna e tem sido por muito tempo parte da normalidade em qualquer segmento da vida social. A palavra expressa duas raízes semânticas: a médica, que se refere ao curso de uma doença, e a teológica, que remete ao Juízo Final. Ambos significados, no entanto, sofreram uma transformação hoje, que os desprovê de sua relação com o tempo. “Crise” na medicina antiga remetia a um julgamento, ao momento decisivo em que o médico percebia se o doente sobreviveria ou não. A concepção atual de crise, por outro lado, se refere a um estado duradouro. Assim, essa incerteza é estendida ao futuro, ao infinito. É exatamente o mesmo com o sentido teológico: o Juízo Final era inseparável do fim dos tempos. Hoje, no entanto, o juízo é divorciado da ideia de resolução e repetidamente adiado. Então o prospecto de uma decisão é cada vez menor, e um processo interminável de decisão jamais se conclui.
Isso significa que a crise da dívida, das finanças públicas, monetária, da União Europeia… é interminável?
A crise atual tornou-se um instrumento de dominação. Ela serve para legitimar decisões políticas e econômicas que de fato desapropriam cidadãos e os desproveem de qualquer possibilidade de decisão. Na Itália isso é muito claro. Aqui um governo foi formado em nome da crise e Berlusconi voltou ao poder apesar de basicamente contrariar a vontade do eleitorado. Esse governo é tão ilegítimo quanto a dita constituição europeia. Os cidadãos da Europa devem ter claro que esta crise interminável – assim como um estado de emergência – é incompatível com a democracia.
Que perspectivas restam para a Europa?
Em primeiro lugar, devemos restaurar o significado original da palavra “crise”, como um momento de julgamento e de escolha. Para a Europa, não podemos adiá-la ao futuro indefinido. Muitos anos atrás, um alto oficial da então incipiente Europa, o filósofo Alexandre Kojève, assumiu que o homo sapiens havia chegado ao fim da história e que só restavam duas possibilidades: o american way of life (que Kojève via como uma vegetação pós-histórica), ou o esnobismo japonês, a simples celebração dos rituais vazios da tradição agora furtados de qualquer sentido histórico. Acredito que a Europa poderia, no entanto, realizar a alternativa de uma cultura que permanece ao mesmo tempo humana e vital, porque continua em diálogo com sua própria história e portanto adquire nova vida.
A Europa, compreendida como cultura e não apenas como espaço econômico, poderia portanto fornecer uma resposta à crise?
Por mais de duzentos anos, as energias humanas vêm sendo focadas na economia. Muito indica que o momento talvez tenha chegado para os homo sapiens organizarem a ação humana para além desta única dimensão. A velha Europa pode justamente fazer uma contribuição decisiva ao futuro aqui.





quinta-feira, 5 de junho de 2014

Quando ter trabalho não signica sair da pobreza

As cloacas do capitalismo: quando ter trabalho não significa sair da pobreza

 
A pobreza costuma estar associada ao desemprego, mais ainda em um país como a Espanha, com a quarta parte de sua força de trabalho desempregada. É o que reflete o VIII Relatório do Observatório da Realidade Social da Cáritas. No entanto, existe algo não tão óbvio assim: 13% dos trabalhadores estão na linha da pobreza (8,9% no conjunto daUnião Europeia). Um salário ao final do mês já não é garantia de uma vida digna.
A reportagem é de Luis Matías López, publica por Público.es, 02-05-2014. A tradução é do Cepat.

Esse assunto aparece no livro de Barbara Ehrenreich, publicado pela primeira vez em 2001, nos Estados Unidos, e que, traduzido por Carmen Aguilar, é publicado por Capitán Swing: “Por cuatro duros. Como (no) apañárselas en Estados Unidos”. Esta ensaísta e jornalista, dirigente do Partido Social-Democrata norte-americano, protagonizou, durante três meses, uma experiência sociológica destinada a mudar as mentes daqueles que, a partir de posições de privilégio, acreditam que no país das oportunidades só é pobre quem não luta para deixar de sê-lo.
Na atual situação da Espanha, pode parecer supérfluo – se não exótico – tratar da exploração de uma boa parte da força de trabalho nos Estados Unidos, mas há ocasiões em que um espelho exterior reflete a própria imagem. Além disso, fica evidente a basbaquice a respeito do idealizado modelo proveniente do “império”.
Ehrenreich, pertencente a esta casta minoritária de elevados ingressos e trabalho espiritualmente enriquecedor que pode ter caprichos, viajar ao estrangeiro, ter uma moradia confortável, comer em bons restaurantes, poupar para a aposentadoria e cuidar de seu físico em uma academia, adentrou-se no mundo dos trabalhadores não qualificados. Deparou-se com salários miseráveis de 6 a 7 dólares a hora (ou de apenas 2,5 a mais de gorjetas, em muitos restaurantes), condições de trabalho leoninas, chefes insensíveis, precariedade, exigências humilhantes (como testes prévios com perguntas sobre crenças e vida particular ou análises antidrogas) e falta de assistência médica adequada, de maneira que cair enfermo ou sofrer um acidente resulta econômica e mentalmente inadmissível. Foi uma viagem às cloacas do capitalismo no país em que este, mais do que uma ideologia, é uma religião.
A repercussão do livro “Por cuatro duros” foi notável, embora não suficiente para mudar uma situação vergonhosa que, desde então, não fez mais do que piorar. Constituiu um êxito instantâneo, um feito que levou sua autora a ditar conferências por todo o país, recebendo críticas muito favoráveis, que a converteu em alvo de acusações de propagandista do comunismo, por setores mais direitistas e conservadores. O texto se tornou, inclusive, leitura obrigatória em várias universidades, não sem campanhas de protesto e boicotes em algumas delas.
Ehrenreich não descobriu nada que não estivesse à vista de qualquer pessoa que se preocupe em olhar ao redor. Não se tratava de um fenômeno marginal, mas, sim, de algo que atinge um setor significativo da população. Não dizia respeito a um método novo de refletir a injustiça e a desigualdade, em um país em que estas são marcas da casa. Nada que não estivesse refletido na autobiografia de Woody Guthrie ou em “Las uvas de la ira”, de Steinbeck.
No entanto, a paisagem não era, como nesses dois casos, o de uma grande depressão, mas o de “uma época de prosperidade aparentemente ilimitada”. Porque a imersão de Ehrenreich nesse submundo ocorreu em fins do século XX, quando se forjavam fortunas fabulosas sobre bolhas especulativas, arrogava-se o pleno emprego e eram os empresários os que precisavam com urgência de trabalhadores. E, no entanto, precisamente lá onde se rege a suprema lei da oferta e da demanda, isso não se traduziu em uma melhora substancial de salários e de condições trabalhistas e sociais entre os trabalhadores não qualificados.
Se fosse para pensar em uma época semelhante na Espanha, seria a dos anos prévios à atual recessão, 2006 ou 2007, quando o desemprego era relativamente baixo (em torno de 8%), o que facilitava a acolhida massiva de milhões de imigrantes que dominavam o serviço doméstico e os trabalhos mais duros na construção. Aqui, alimentados pelas máfias e a cobiça empresarial, também germinaram os abusos e a exploração. E o pior estava por vir.
A principal conclusão de “Por cuatro duros” é que, nessas condições, a sobrevivência digna era quase impossível. Simplesmente, as contas não fechavam. Como camareira em Flórida, faxineira e cuidadora em uma residência para enfermos de Alzheimer em Maine, ou empregada do Walmart em Minesota, Ehrenreich, já perto dos 60 anos, empenhava-se para dar validade ao seu experimento em viver de seu trabalho e compartilhar com seus companheiros as dificuldades para sobreviver, em estado permanente de angústia.
Nem sequer um segundo trabalho, em tempo parcial, permitia-lhe algo parecido a uma vida sem angústias, que fosse para além de chegar ao final do mês com a língua de fora. O aluguel costumava atingir 50% de sua renda, e isso vivendo em alojamentos, apartamentos e lugares fedorentos, inóspitos e afastados, em busca da moradia mais barata possível, com a dificuldade acrescida pela ausência de transporte público decente, o que a obrigava a utilizar um automóvel e a assumir os gastos que isso acarretava.
A precariedade, a pobreza, a frustração, as más condições de trabalho, o pluriemprego e a alimentação inadequada acabavam sendo a realidade, anulando inclusive a capacidade de se rebelar. Em certas ocasiões, Ehrenreich tentava fazer seus companheiros (mulheres em sua maioria) reagirem, mas não podia ir muito longe. A sua experiência era para escrever um livro, um intervalo antes de voltar para a sua vida confortável de antes. Ela podia se permitir assumir riscos impunemente, enquanto que para eles era a única vida que tinham, e ainda temiam que fosse pior.
Estavam indefesos diante de empresas que, cheias de hipocrisia, fomentavam a falta de solidariedade, já a partir da fase de seleção, com perguntas como: ‘Você entregaria um companheiro que perceba que está fazendo algo inadequado?’ Ou seja: ‘Denunciar-lhe-ia, caso gaste o tempo conversando, coma coisas da cozinha do restaurante ou furte algumas meias? E se a resposta era não, já podiam ir buscar emprego em outro lugar.
A militância nos sindicatos era desestimulada de forma grosseira. Na fase de treinamento e doutrinamento, explicava-se aos novos trabalhadores que os sindicatos já não tinham nada para lhes oferecer. “O Walmart está em alta, os sindicatos em decadência. Avaliem vocês próprios (...) Pensem no que perderiam em um sindicato. Em primeiro lugar, o seu dinheiro, em razão das contribuições. Em segundo, sua voz. Por último, salários e benefícios, que estariam em jogo na mesa de negociação”. Desta maneira, era melhor que deixassem de bagunça, que desfrutassem do fato de terem conseguido “um grandioso posto de trabalho” na maior vendedora varejista do globo, e que praticassem o “patriotismo de empresa”, inclusive com catárticos vivas ao chefe! Isso, sim, com um trabalho penoso, esgotador, alienante, estressante e por 7 miseráveis dólares por hora. Um passaporte para a pobreza e a marginalidade, em concorrência com o trabalho quase escravo em países do Terceiro Mundo, em que se fabrica a maior parte dos objetos que depois se vendem a preços acessíveis, mas regados com muito suor e exploração.
“As nações civilizadas”, destaca Ehrenreich, “compensavam a falta de salários justos proporcionando serviços públicos relativamente generosos como o seguro de saúde, creches gratuitas, ou subvencionadas, alojamentos subvencionados e transporte público eficiente. Porém, os Estados Unidos, com toda a sua riqueza, deixam os cidadãos a mercê de si mesmo”, o que no caso dos trabalhadores não qualificados significa, com frequência, lançá-los na pobreza e na marginalidade.
Contudo, caso se ascenda dos 20% mais baixo para os 20% mais alto, “entra-se em um mundo mágico, onde as necessidades estão satisfeitas e os problemas resolvidos quase sem esforço”. Nessa faixa estavam (e aí continuam), diz a autora, advogados, executivos, juízes, escritores, editores e, claro, os políticos responsáveis pelas decisões que atingem a vida dos mais pobres – desde a cobertura de saúde até o salário mínimo -, e nem sequer são capazes de ver as excrescências incompatíveis com o mito do “american way of life”.
Esses trabalhadores pobres “são de fato os grandes filantropos da sociedade norte-americana. Deixam de cuidar de seus filhos para que os filhos de outros estejam bem cuidados, vivem em alojamentos abaixo da habitabilidade para que outras casas estejam reluzentes e perfeitas. Passam privações para que a inflação se mantenha baixa e o preço das ações em alta (...). Ser membro da classe trabalhadora pobre é ser um doador anônimo, um benfeitor de nome desconhecido para todos os demais”.
A realidade que “Por cuatro duros” demonstra é a dos Estados Unidos no final do século XX. Desde então, as coisas não melhoraram por lá. Pelo contrário: o Estado cada vez mais abandonou os que menos têm. Contudo, agora, olhem para os arredores, neste outro lado do Atlântico. Aqui o panorama é tão diferente? Com seis milhões de desempregados, uma profunda desvalorização salarial e os contratos degradantes convertidos em norma, a precariedade que é a antessala da pobreza se estende sem parar. Não apenas entre os trabalhadores não qualificados, mas também entre os que têm um curso universitário, porque isso já não é garantia suficiente de que não cairá no buraco. E, enquanto isso, a desigualdade dispara: um recente relatório da OCDE destaca que a distância entre ricos e pobres se ampliou de forma espetacular na Espanha em razão do impacto da crise. Entre 2007 e 2010, a renda dos 10% mais ricos diminuiu em menos de 1% ao ano, ao passo que entre os 10% mais pobres, a queda foi de 14% ao ano.
Neste país, a vergonha e injustiça estão tão à vista que não é necessário que alguém como Ehrenreich se infiltre no reino do abuso, da exploração e da precariedade para descobrirmos o aspecto mais sinistro de um capitalismo que atua descaradamente.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Os potenciais dos programas antipobreza


Ladislau Dowbor, professor da PUC-SP nas áreas de economia e administração e consultor de várias agências das Nações Unidas, em artigo publicado por Carta Maior, 17-02-2014.
Demos os primeiros passos e já falam em esgotamento do modelo, muitos com a esperança que se esgote, e com as vistas postas nas eleições. A comprovação estaria no “pibinho”. Tirou-se 36 milhões de pessoas da miséria, ampliou-se um pouco a profundidade do mercado consumidor, e agora teríamos de buscar outros caminhos. Na realidade não há esgotamento, e os potenciais do desenvolvimento decente e sustentável continuam centrados na redução da miséria, na inclusão produtiva, na elevação da massa salarial e dos direitos sociais.
Entre 1991 e 2010 o aumento da renda familiar per capita medido pelo IDH nos 5.565 municípios do país, esforço conjunto das Nações UnidasIPEAFJP e IBGE, foi de 346 reais. Isto representa muito para os mais pobres, mil reais por mês para uma família de três pessoas, mas é suficiente? O estudo também mostra que neste período tivemos no Brasil um ganho médio de 9 anos de expectativa de vida, passando de 65 para 74 anos, o que representa um resultado espetacular em tão curto período. Mas outros países estão acima de 80 anos.

A educação foi a que mais avançou, com o IDHM (Indicador de Desenvolvimento Humano Municipal) passando do trágico 0,28 em 1991 para 0,64 em 2010. Foi o maior avanço em termos de ritmo, mas ainda é o que é o nosso pior indicador, pelo trágico que era o ponto de partida. Neste indicador de educação, um componente é que a população de 18 a 20 anos com ensino médio completo passou de 13% para 41%, um gigantesco avanço, mas também um imenso atraso a recuperar.
Os dados aí estão, o Brasil acordou mesmo, e está avançando a passos largos, mas ainda está a anos luz das necessidades para um país minimamente equilibrado, para uma vida digna no andar de baixo, e um luxo menos espalhafatoso no andar de cima. Não há dúvida de que a injeção de recursos na base da sociedade foi essencial para este despertar, pois a partir de um certo nível de falta de recursos a pobreza se transforma também em falta de oportunidade, na chamada armadilha da pobreza. Esta armadilha está sendo rompida.
O entusiasmo inicial de quem olha apenas para o PIB, que chegou a dar um salto muito expressivo, é míope, por olhar essencialmente para o consumo imediato e de fortes repercussões no mercado, com a compra, por exemplo, da linha branca e de carros. Uma família ter geladeira significa que a comida que pode ser guardada, que o remédio não estraga. O carro não é o problema que se proclama – parece até divertido os mais aquinhoados acharem um acinte pobre ter carro - pois o problema está na ausência de transporte público para os deslocamentos de milhões se dirigindo para basicamente os mesmos destinos nos mesmos horários em transporte individual. O uso do carro para deslocamentos familiares diversificados não é a questão central, e sim a insuficiente presença do sistema público de transporte de massa.
É este segmento de expansão do acesso ao básico que está diminuindo. Na análise daPNAD de 2012 sobre a posse de bens duráveis, “Em 98,7% dos domicílios particulares permanentes investigados em 2012 havia fogão. Nas regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste, os percentuais dos que tinham esse bem superou 99%. Nas Regiões Norte e Nordeste essas proporções foram, respectivamente, de 97,3% e 97,5%. A pesquisa confirmou o avanço na posse de alguns bens duráveis de 2011 para 2012, tais como: geladeira (de 95,8% para 96,7%); máquina de lavar roupa (de 51,0% para 55,0%) e televisão (de 96,9% para 97,2%).(...) Em 2012, os percentuais de domicílios em que ao menos um morador possuía carro ou motocicleta para uso pessoal foram de 42,4% (26,7 milhões de unidades) e 20,0% (12,6 milhões de unidades), respectivamente.” (PNAD 2012, IBGE, p. 72)
Esta inclusão pelos bens duráveis deve sem dúvida continuar, pois não se concebe um domicílio sem geladeira, e muito menos sem luz, que era uma dimensão trágica de milhões de pessoas antes do Luz para Todos. Mas o impacto desta linha de atividades deve tornar-se menor, pelo nível alcançado. O importante aqui, é que conforme avança o nível de renda e a sociedade passa a ter acesso ao essencial, gera-se uma diversificação de demanda. Não é o volume de atividades que diminui, tanto assim que temos o menor desemprego da história, mas a sua composição que se desloca.
As pessoas passam a ter necessidade de melhorar o entorno da casa, em particular com saneamento, urbanização decente, infraestruturas de bairro, o conjunto das coisas que não se resolvem por consumo individual, e sim por consumo coletivo. Uma família não resolve sozinha a questão do esgoto ou dos alagamentos. E consumo coletivo exige políticas públicas. Um sistema de esgoto instalado gera muito bem-estar nas famílias, coisa que não é medida pelo PIB, e inclusive pode diminuí-lo ao reduzir as doenças e hospitalizações. Calcula-se que um real investido em saneamento reduz em 4 reais os gastos com saúde.

Economizar dinheiro racionaliza a composição dos nossos gastos, mas não aumenta o PIB. Aliás o que aumenta o PIB é jogar pneus e fogões velhos nos rios e córregos, pois isto obriga a contratar empresas para o desassoreamento, o que “ativa” a economia. Além do tamanho do PIB, aliás perfeitamente razoável na conjuntura (2,3%), temos de olhar para a qualidade do PIB.
As áreas como saúde e educação tornaram-se eixos muito mais importantes do gasto das famílias. Grande parte deste esforço passa sob forma de consumo coletivo através de serviços públicos – é o imposto convertido em renda familiar de forma indireta – e não tem impactos imediatos de aumento do PIB. O investimento que fazemos na educação dos jovens hoje é essencial, mas irá se reverter em melhor produtividade sistêmica dentro de dez ou quinze anos, quando este jovem se tornar mais produtivo.
As grandes infraestruturas que são objeto hoje de importantes investimentos têm características semelhantes. Uma ferrovia que reduz o custo tonelada-quilómetro do transporte de produtos representa hoje um sacrifício, mas amanhã significará maior produtividade e aumento do PIB. Investimentos também mobilizam recursos e aumentam o PIB, mas ainda sem os impactos de dinamização do conjunto de atividades produtivas de uma região que rompe o seu isolamento. É preparar o amanhã.
Para muitos, é estranho ver pleno emprego e forte avanço da qualidade de vida das famílias, frente a um PIB relativamente menor. Mas não há paradoxo, apenas uma mudança da composição inter-setorial das nossas atividades. A atividade econômica é muito mais do que shopping, linha branca e automóvel. Quanto mais avança a sociedade, maior é a proporção de consumo de bens imateriais como educação, saúde e cultura, e maior é a presença das atividades públicas. Sai simplesmente mais barato ter sistemas universais e gratuitos, e a universalização é essencial para a redução das desigualdades.
O Brasil está mudando, e rapidamente. Olhar com lentes antigas não ajuda. Está aumentando a dimensão das políticas sociais no conjunto das atividades econômicas do país, a economia criativa e o conhecimento em geral estão passando a ocupar o centro das atividades, infraestruturas integradoras estão redesenhando as relações entre os territórios. Não basta olhar para a linha branca e o Bolsa Família. O perfil de consumo está mudando. A convergência do aumento dos salários, da expansão da previdência, de inúmeros programas como PronafPronatec, ProuniTerritórios da Cidadania – são cerca de 150 programas de inclusão ao todo – está gerando uma nova realidade. Frente às necessidades, é muito pouco. Frente ao passado, é um despertar, e o caminho da inclusão, como vetor de dinamização do desenvolvimento, continua central

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

O mundo é para poucos


 
 
Luiz Antonio Cintra , 05-02-2014.
 
 
Ganhou manchetes mundo afora ao apontar para a hiperconcentração de riqueza em andamento na quase totalidade dos países ocidentais. Sete em cada dez indivíduos vivem em países onde a desigualdade avançou nas últimas três décadas, informa a Oxfam.
Segundo o estudo, a crise financeira detonada em setembro de 2008 veio a calhar para os mais ricos. O 1% do topo da pirâmide, anota a pesquisa, detém hoje metade da riqueza gerada no planeta. O financista norte-americano Warren Buffett é um exemplo da turma ganhadora: acumulava patrimônio de 40 bilhões de dólares antes da quebra do Lehman Brothers, e nada atualmente em uma piscina recheada de 59 bilhões de moedas. O quarto mais rico do planeta, segundo a lista da Forbes, Buffett é um dos 85 afortunados que, aponta a Oxfam, possuem patrimônio equivalente ao da metade mais pobre da população mundial, ou 3,5 bilhões de cidadãos. “Alguma desigualdade econômica é essencial para conduzir o crescimento e o progresso”, escrevem os responsáveis pela pesquisa. “Os níveis extremos de concentração da riqueza atuais, entretanto, ameaçam excluir centenas de milhões de obter os ganhos de seus talentos e trabalho duro.”
 
Não é outra coisa o que tem acontecido desde o crash, com maior intensidade nos dois polos mais afetados pela crise, os EUA e a Zona do Euro (exceto a Alemanha). O quadro retratado espelha as opções feitas para enfrentar a crise, desenhadas de acordo com os interesses dos bilionários, constata a ONG. A saída escolhida foi salvar bancos e companhias consideradas “grandes demais para quebrar”, ao mesmo tempo que os gastos públicos eram cortados indiscriminadamente.
O resultado foi uma onda avassaladora de desemprego e a falência de empresas cuja quebra, para as autoridades, teria o efeito positivo de ampliar a eficiência da economia como um todo. Nesse sentido, as políticas adotadas deram certo. O levantamento mais recente da Organização Internacional do Trabalho (OIT) contabiliza 202 milhões de desempregados no mundo, 5 milhões a mais do que no fim de 2012. Mantida a tendência, algo bastante provável, serão 215 milhões sem empregos no fim de 2017, estima Guy Rider, diretor da OIT.
 
O estudo da Oxfam enumera algumas das causas da concentração crescente. Há décadas a falta de limites minou a representação popular nos Parlamentos. E o lobby das maiores corporações aos poucos tirou do caminho regras e leis forjadas para garantir (ou ampliar, conforme o caso) a concorrência nas economias. Estima-se que os bancos norte-americanos gastaram 1 bilhão de dólares em lobby nos últimos anos para enfraquecer e adiar a legislação em discussão para tornar o sistema financeiro menos arriscado.
A corrupção, a perversidade de sistemas tributários como o brasileiro, que taxa proporcionalmente mais quem tem menos, os subsídios, a redução dos gastos em saúde e educação públicas, a perda de espaço dos sindicatos de trabalhadores e uma rede internacional de paraísos fiscais (em que, estima a ONG, cerca de 18 trilhões de dólares são escondidos para não pagar impostos) também explicam o processo em andamento.
 
O marco zero dessa tendência, contudo, não tem nada de novo. Especialistas o situam no período que vai do fim da década de 1970 ao início dos anos 80, sob os auspícios da onda neoliberal e da desregulação dos mercados, particularmente o financeiro, sob a batuta ideológica da dupla Ronald Reagan e Margaret Thatcher.
 
A resultante constatada agora não é um efeito colateral inesperado. Ao contrário. A cartilha Reagan-Thatcher recomendava deliberadamente o corte dos impostos dos mais ricos, em paralelo à redução dos direitos sociais e salários dos mais pobres, com o argumento de que o primeiro movimento garantiria fôlego para o consumo, enquanto o segundo ampliaria a competividade da economia ao reduzir o custo do trabalho. Uma parcela considerável das palavras de ordem pró-desregulação foi tecida, por sinal, justamente no Fórum Econômico de Davos, que nesta edição, diante da escala da tragédia social nos países ricos, procura convencer a opinião pública de que, no fundo, estão preocupados com a distância crescente entre ricos e pobres. Ao custo de 40 mil dólares por participante, vale notar.
 
Na ponta do lápis, o quadro evoluiu nos EUA conforme o esperado pelos formuladores de tais políticas: a renda dos 10% mais pobres avançou, desde meados dos anos 1980, apenas 0,1% ao ano. Já aquela dos mais ricos cresceu, pela mesma métrica, 1,5%. No Reino Unido, o mesmo movimento: a renda avançou, em média, 0,9% na base da pirâmide e 2,5% entre os 10% do topo. Estudo da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico, realizado em 2011, apontou os EUA, o Reino Unido e Israel como “pioneiros” da regressão social entre os mais ricos. A partir dos anos 2000, anota a pesquisa, a tendência incluiu as nações tradicionalmente menos desiguais, caso da Alemanha, Dinamarca, Suécia e outros países nórdicos.
 
A partir do crash de 2008, a concentração da riqueza ganhou força, resultado da opção de salvar os grandes bancos e corporações. No estudo da Oxfam, o caso norte-americano é mais uma vez destaque: 95% do ganho de renda registrado a partir de 2009 no país foi para o 1% mais rico. E, quanto mais no topo, maiores os ganhos proporcionalmente. Em 2012, por exemplo, enquanto o 1% mais rico ficou com 22% da renda do país, o 0,1% mais afortunado abocanhou 11% do bolo. Um norte-americano do sexo masculino e graduado recebe atualmente, em média, 40% do que recebia quatro décadas atrás.
 
No artigo “A desigualdade é uma opção”, publicado em outubro de 2013, o Nobel de Economia Joseph Stiglitz, professor da Universidade Columbia, comenta a hiperconcentração em curso. De 1988 a 2008, anota o economista, a renda do 1% mais rico do planeta cresceu cerca de 60%. No mesmo período, a dos 5% mais pobres manteve-se estagnada. “Os ganhos de renda têm sido maiores entre aqueles da elite mundial – executivos financeiros e corporativos dos países ricos – e as amplas ‘classes médias emergentes’ de China, Índia, Indonésia e Brasil. Quem perdeu? Africanos, alguns latino-americanos e cidadãos do Leste Europeu pós-comunista e da antiga União Soviética.”
 
Apesar de bem-vinda, a discussão em torno da desigualdade em Davos está longe de ser sinal de uma nova postura – e seria loucura supor que haverá ali uma guinada ideológica. Em 2005, o tema ocupou o topo das preocupações dos milionários reunidos na Suíça, àquela altura em companhia dos debates sobre o terrorismo. Em 1994, o tema também foi abordado, quando Klaus Schwab, presidente do fórum, definiu o encontro como uma oportunidade para “um gigantesco brainstorm para líderes empresariais, políticos, científicos e culturais, para analisar todos os pressupostos básicos da humanidade”.
 
Então, os ouvintes saíram de Davos, embarcaram em seus jatos particulares e foram cultivar suas fortunas.
 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Nação da pobreza: como os EUA criaram um pântano de baixos salários



Nação da pobreza: como os EUA criaram um pântano de baixos salários

Durante décadas, ambos os partidos norte-americanos suplantaram um impulso para salários mais elevados com auxílios públicos bem-intencionados. O resultado: calamidade.

A reportagem é de Joan Walsh, publicada na revista Salon, 15-12-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

2013 é o ano em que muitos norte-americanos descobriram a crise dos trabalhadores pobres. E essa também é a crise dos pobres que vivem de benefícios. Isso é difícil para nós: os norte-americanos notoriamente detestam assistencialismo, a menos que seja chamado de outra coisa e/ou nos beneficie pessoalmente. Nós achamos que isso é para os preguiçosos, vagabundos e para pessoas que não fazem a sua parte.
Portanto, não temos certeza de como lidar com o fato de que um quarto das pessoas que têm emprego hoje ganham tão pouco dinheiro que elas também recebem alguma forma de assistência pública, ou benefícios – uma proporção que é muito maior em alguns dos setores de maior crescimento da força de trabalho. Ou que 60% dos adultos beneficiários de auxilio alimentação estão empregados.
Um total de 52% das famílias dos trabalhadores de fast-food recebe assistência pública – a maior parte dela vem do Medicaid [1], vale-refeição e do crédito de imposto sobre rendimento (EITC) [2] – até a quantia de 7 bilhões de dólares anuais, de acordo com uma nova pesquisa do Centro de Pesquisa do Trabalho da Universidade da Califórnia-Berkeley e da Universidade de Illinois.
Segundo o estudo, somente os trabalhadores do McDonald's recebem 1,2 bilhão de dólares em ajuda pública. Essa é uma indústria, a propósito, que no ano passado faturou 7,44 bilhões de dólares em lucros, paga 52,7 milhões de dólares aos seus altos executivos e distribuiu 7,7 bilhões em dividendos e reaquisição de ações. Mesmo assim, “o recebimento de recursos públicos é a regra, e não a exceção, para essa força de trabalho", concluiu o estudo.
Depois, há o Wal-Mart, que, como Josh Eidelson, da Salon, informou recentemente, vangloriou-se numa conferência do Goldman Sachs que "mais de 475 mil" de s eus 1,3 milhão de trabalhadores ganham mais de 25.000 dólares por ano – o que nos permite inferir que quase 60% ganham menos.
Os democratas do Comitê de Educação e Força de Trabalho estimaram que as gigantescas cadeias de varejo de baixo custo beneficiam-se de muitos bilhões de dólares em financiamentos de assistência pública; um "hipermercado" do Wisconsin custa aos contribuintes pelo menos 1 milhão de dólares por ano em assistência pública para as famílias dos trabalhadores. Lembre-se, também, que seis membros da família Walton possuem a riqueza equivalente a de 48 milhões de norte-americanos juntos.
Mas não é só fast-food e Wal-Mart: um em cada três caixas de banco recebe assistência pública, revelou o Committee for Better Banks, na semana passada, a um custo de quase 1 bilhão de dólares por ano em ajuda federal, estadual e local. É isso mesmo: uma das indústrias mais rentáveis, privilegiadas e de alto prestígio do país, a do ramo bancário, paga a um setor de seus trabalhadores salários chocantemente baixos e depende dos contribuintes para tirá-los da pobreza. Só em Nova York, 40% dos caixas de banco e seus familiares recebem assistência pública, custando 112 milhões de dólares em benefícios estaduais e federais.
Os CEOs dos bancos ganham vários milhões de dólares em bônus quando os lucros aumentam, enquanto milhões de caixas são tão pobres que recebem assistência social. Há algo de errado nisso.
A repulsa pelas empresas rentáveis que pagam salários em nível de pobreza está ajudando a alimentar uma onda de organização há muito esperada e a protestar em nome dos trabalhadores com baixos salários, desde greves de trabalhadores de fast-food que varreram o país até protestos contra o Wal-Mart nessa temporada de férias. Os contribuintes recuam diante da ideia, mas também muitos trabalhadores. "Eu pensei que eu poderia me virar por conta própria. Isso não aconteceu”, disse a funcionária do Wal-Mart Aubretia Edick, aoHuffington Post, que ganha 11,70 dólares por hora e ainda recebe assistência pública. É por isso que ela se juntou a uma greve de um dia. "O Wal-Mart não paga o meu salário", disse. " Você paga o meu salário."

Os EUA agora tem a maior proporção de trabalhadores com baixos salários do mundo desenvolvido, de acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Um em cada quatro norte-americanos ganha menos de dois terços do salário médio, que é a mesma proporção que depende da ajuda pública. Está se tornando mais amplamente aceito que a disseminação e persistência de empregos de baixos salários esteja por trás do aumento da desigualdade de renda e redução da mobilidade social. O que é menos conhecido é o papel que os democratas têm desempenhado na criação dessa armadilha.
* * *
Em seu discurso amplamente admirado sobre a desigualdade de renda, do dia 4 de dezembro, o presidente Obama parecia compartilhar todas essas preocupações.
"Nós sabemos que há os trabalhadores do aeroporto, os trabalhadores de fast-food, os auxiliares de enfermagem e os vendedores do varejo que trabalham duro e ainda vivem na pobreza ou um pouco acima dela", disse ele.
Baseado em grande parte naquele discurso e em alguns sussurros vindos da Ala Oeste daCasa Branca, a revista Politico anunciou na sexta-feira "O presidente Obama volta-se para a esquerda". Mas, à parte de dizer mais uma vez que é hora de aumentar o salári o mínimo, o presidente ainda não colocou muita força em uma agenda de “esquerda” para os trabalhadores com baixos salários.
Também seria bom que Obama reconhecesse: o fato de que tantos norte-americanos "trabalham duro e ainda estão vivendo na pobreza ou um pouco acima dela" e que recebem assistência pública não é apenas um acidente infeliz. É o resultado de uma política pública apoiada por muitos democratas – e ele não tem feito muito para mudá-la ou desafiá-la. Na verdade, o presidente do Conselho de Assessores Econômicos de Obama fez a sua defesa mais vigorosa.
A verdade é que um consenso bipartidário que surgiu na década de 1990 dizia que um emprego, praticamente qualquer emprego, era melhor do que a assistência pública a longo prazo para os chamados adultos "capacitados fisicamente", incluindo as mães com crianças pequenas. Isso levou à controversa reforma da legislação da previdência, que teve ramificações muito além do domínio dos benefícios sociais.
Os republicanos exigiam trabalho de beneficiários da previdência social, a maioria dos democratas concordou, mas exigiu um novo suporte para trabalhadores de baixa renda: uma expansão do EITC, Medicaid e elegibilidade do vale-refeição mais amplos, novos (embora não suficientes) subsídios para cuidados infantis. (Como senador do estado de Illinois,Obama era crítico da ideia, mas, mais tarde, aprovou o acordo.) Os no vos programas de apoio também ajudaram milhões de trabalhadores de baixa renda, que nunca tinham necessitado de benefícios; enquanto os salários continuaram estagnando e até mesmo diminuindo, mais pessoas passaram a ser elegíveis.
Mas quando os defensores trabalhistas começaram a perceber e protestar que os empregadores estavam contando com os contribuintes para apoiar a sua força de trabalho há uma década atrás, alguns liberais lhes disseram para não se preocuparem com isso. Respondendo a uma onda anterior de organização contra as práticas trabalhistas do Wal-Mart, o presidente do Conselho de Assessores Econômicos (CEA, na sigla em inglês) do presidente Obama, Jason Furman, escreveu um artigo muito influente em 2005 intitulado "Wal-Mart: uma historia de sucesso progressista" (Oito anos depois, isso soa como se ele estivesse debochando de nós.) O ex-conselheiro econômico de Clinton argumentou que os preços baixos das grandes redes ajudaram os pobres, e que a dependência de seus funcionários à assistência pública não foi um erro, mas uma característica da política social progressista.
Furman reconheceu o presidente Clinton como aquele que presidiu "a transformação da nossa rede de segurança social de um suporte para os indigentes para um sistema que faz o trabalho pagar (…) expansões em apoio aos trabalhadores de baixa renda, incluindo um crédito de imposto sobre rendimento (EITC) mais generoso e esforços para garantir que as crianç as não perdessem o seu Medicaid se seus pais conseguissem um emprego de baixa remuneração". Essencialmente, a dependência dos empregados do Wal-Mart em tais programas representou uma boa política social-democrata, Furman argumentou. E em uma troca memorável com Barbara Ehrenreich no site Slate, ele repreendeu os críticos progressistas do Wal-Mart p or "brincar com os instintos primitivos antibenefício, antigoverno, anti-imposto de alguns conservadores". (Deixe para um democrata da era Clinton culpar os progressistas pelos bem estabelecidos "instintos primitivos antibenefícios" da direita.)
Embora o artigo de Furman sobre o Wal-Mart seja de oito anos atrás, ele foi amplamente citado como uma razão para os progressistas para questionar a sua nomeação como presidente do CEA no início deste ano (embora economistas progressistas desde Jared Bernstein a Paul Krugman endossaram a sua seleção). Apenas alguns meses atrás, quando a câmara municipal de Washington aprovou uma lei exigindo que grandes varejistas não-sindicalizados pagassem um salário mínimo de 12,50 dólares por hora, o Wal-Mart enviou aos repórteres o artigo de Furman na defesa.
Curiosamente, eu nunca vi Furman defender ou qualificar ou atualizar o artigo, mesmo em face de uma nova onda de movimentos anti-Wal-Mart. Eu não estava completamente confortável em usar um documento de oito anos de idade para defender seus pontos de vista, então pedi aos funcionários de comunicação da Casa Branca se ele falaria comigo sobre isso. Eu não obtive resposta.
Como social-democrata, eu não acho que Furman esteja errado em defender o papel dos programas sociais em melhorar a vida dos trabalhadores de baixa renda. Muitos progressistas acreditam que devemos separar o plano de saúde do emprego por completo, por exemplo, e torná-lo um benefício universal pago por impostos corporativos e impostos de valores máximos, mais as contribuições individuais de escala móvel. Em todo o mundo desenvolvido, os trabalhadores de quase todos os níveis podem contar com planos de saúde, puericultura, formação profissional e de treinamento, e até mesmo (em níveis salariais mais baixos) suplementos salariais financiados pelo governo.< /span>
Mas não é calvinismo punitivo ou vergonha dos benefícios em questionar até que ponto que agora é certo que trabalhadores de baixa renda tenham que contar com o vale-refeição e outras intervenções públicas, muitas vezes por um longo tempo, talvez permanentemente. Por não exigirem também aumentos regulares do salário mínimo ou colocar mais força na organização sindical, os democratas ajudaram a criar um vasto conjunto de empregos de baixos salários que paira um pouco acima da linha de pobreza, e às vezes ainda abaixo dela, graças à assistência pública, e não tem a força econômica e política para melhorar os salários e as condições de trabalho. Isso não pode ser bom para ninguém.
Na verdade, a noção de que tantos milhões de pessoas trabalham tão duro e ainda são pobres o suficiente para receber ajuda pública está aumentando: ela ajuda a mostrar que os salários baixos, não a falta de esforço ou "dependência", são, em parte, aquilo que está fazendo encolher a classe média. Não apenas os contribuintes, mas também os trabalhadores de baixa renda acham que sair da pobreza, com a ajuda de vale-refeição,Medicaid e o EITC, deve ser apenas uma vitória temporária a caminho de um lugar sólido no mercado de trabalho onde o trabalho é devidamente remunera do.
Eu certamente não estou demonizando a assistência pública. Nós ainda gastamos uma ninharia para ajudar os trabalhadores de baixos salários em comparação com o apoio social desfrutado por seus pares em outras nações prósperas. Os progressistas certamente estão orgulhosos de um estudo recente que mostrou que os programas de combate à pobreza, de fato, tiram as pessoas da pobreza – cerca de um quarto dos americanos viveriam abaixo da linha da pobreza se não fosse pelo apoio social, em oposição a um triste 16 por cento hoje. Isso deve obliterar a história infundada de Reagan de que "nós lutamos uma guerra contra a pobreza, e a pobreza venceu".
Mas a cada dólar que o contribuinte paga para subsidiar as empresas que pagam salários de miséria é um dólar não gasto em programas de primeira infância, na construção de universidades ou no financiamento da educação universitária. Sim, precisamos de redes de segurança, mas também precisamos de escadas de oportunidade. O gasto do governo que construiu a classe média depois da Segunda Guerra Mundial foi em educação e pesquisa, e foi apoiado pela mais eficaz iniciativa antipobreza do New Deal: a  Lei Wagner, que facilitou a organização sindical.
Hoje, temos uma rede de segurança puída, mas essas escadas de oportunidade são ainda mais frágeis e pouco confiáveis. Nós simplesmente não estamos construindo-as – e é por isso que nós estamos enfrentando uma crise de desigualdade de renda e uma estagnação da mobilidade social, que costumava ser o coração do sonho americano.
* * *
O presidente Obama pareceu reconhecer ao menos alguma conexão entre a proliferação de empregos de baixos salários e a crise de desigualdade de renda em seu discurso marcante de 4 de dezembro. Condenando o aumento do número de postos de trabalho que pagam salários a nível de pobreza, ele declarou que "já está mais do que na hora de aumentar o salário mínimo que, em termos reais, agora está abaixo de onde estava quando Harry Truman estava no governo", e acrescentou que "está em tempo de gara ntir que as nossas leis coletivas de negociação funcionem como deveriam, e assim os sindicatos terão condições de concorrência equitativas para organizar um acordo melhor para os trabalhadores e melhores salários para a classe média". Ele também se comprometeu a reconstruir as "escadas de oportunidade" que fizeram a sua família e milhões de outras, incluindo a minha, subir da classe trabalhadora para a classe média. Dado o balanço de extrema-direita do Partido Republicano, no entanto, não é provável que ele seja capaz de fazer muito disso acontecer.
O que me leva ao outro problema dos trabalhadores de baixa renda que estão sendo obrigados a depender da assistência pública: eles são, infelizmente, vulneráveis a serem bode expiatório político e política baixa. O deputado Paul Ryan chama a rede de segurança de "rede de praia", o que é horrível quando sabemos que muitas pessoas tem pelo menos um, e talvez dois, empregos e ainda permanecem pobres. Mitt Romney investiu contra os 47% dos norte-americanos que não pagam imposto de renda federal , o que inclui milhões de trabalhadores de baixa renda que recebem o crédito fiscal dos rendimentos auferidos (EITC), mesmo que esse tenha sido uma ideia republicana, assinada em lei pelo presidente Gerald Ford e expandida por ambos os presidentes Bush.
Mas os republicanos não estão fazendo pressão para aumentar o salário mínimo ou tornar mais fácil para os trabalhadores de baixa renda organizar sindicatos. A resposta deles é retirar a rede de segurança dos trabalhadores sem a construção de escadas que os fariam subir. E com cortes do vale-refeição, eles estão conseguindo o que eles querem.
Neste momento, a melhor resposta é um movimento operário revigorado em nome dos trabalhadores com baixos salários, e é revitalizando vê-lo se desenvolver. Em um nível, é surpreendente que tenha levado tanto tempo. Muitos empregos de baixos salários têm a vantagem de serem de base territorial, eles não podem se mudar para países em desenvolvimento. Os drones não vão entregar o seu hambúrguer do McDonald's num futuro próximo, e o Wal-Mart não pode vender tudo online, senão ele iria. Os caixas de banco já foram dizimados por caixa s eletrônicos e pelos serviços bancários online; aqueles que ainda têm emprego os têm porque são necessários.
Mas também seria importante para mais pessoas – mais democratas – reconhecer o papel que a política tem desempenhado na criação desse pântano de empregos de baixos salários que tem sido um pouco menos miserável devido aos subsídios públicos. Como a desigualdade de renda aumentou, a mobilidade social, marca registrada dos EUA, diminuiu. A crise dos empregos de baixos salários é cada vez mais reconhecida como parte daquilo que está ampliando a desigualdade e retardando a mobilidade social. No quinto ano de sua presidência, Obama está ficando melhor em descrever o problema, mas ele precisa fazer mais para apoiar os trabalhadores que estão tentando pressionar por soluções.

Notas:

1. Medicaid: programa de assistência médica dos EUA para famílias e indivíduos de baixa renda.
2.Earned Income Tax Credit: crédito recebido através do imposto de renda federal dado para trabalhadores ou casais – principalmente aqueles com filhos menores de idade.