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quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Efeito estufa, controvérsias e caminhos

 
 
Dar preço ao carbono é um debate mundial crescente entre os pesquisadores envolvidos com a mudança climática. O ponto é como fazer isso de forma a reduzir a emissão de gases-estufa e financiar a adaptação aos impactos da mudança climática. O exemplo de como alguns países vêm se adiantando a isso é um dos pontos altos do livro "O Imbróglio do Clima" organizado pelo economista José Eli da Veiga, que será lançado no dia 26/11, em São Paulo, na livraria Fnac de Pinheiros, a partir das 16 horas.
 
O comentário é de Daniela Chiaretti, publicado pelo jornal Valor, 25-11-2014.
 
É conhecida a visão cética de Veiga ao processo internacional da ONU na costura de um  acordo climático global. Em seu capítulo no livro, o colunista do Valor diz com todas as tintas que a convenção sobre mudança do clima da ONU foi feita às pressas e que "parece ínfima a possibilidade de que se encontre efetiva solução para qualquer problema global em arenas de 193 Estados". Bombardeia o Princípio das Responsabilidades Comuns Mas Diferenciadas (CBDR, na sigla em inglês), um dos pilares da convenção. Esse princípio reconhece que, se todos têm responsabilidade em relação à crise climática, a quota dos Estados Unidos é diferente da de Burundi. É verdade que há muitos matizes nessa comparação (um país em desenvolvimento como o Brasil não pode ter a mesma responsabilidade que outro como o Haiti, por exemplo) e ajustes dessa gradação estão sendo pensados - inclusive pelo Brasil.
 
O livro reúne quatro autores e dá um panorama atual da ciência do clima e suas controvérsias, além da discussão econômica que envolve o debate climático. É um dos momentos em que Veiga discorre sobre as estratégias dos países pioneiros em dar preço ao carbono. Ele lembra que, entre 1993 e 1997, quando as negociações culminaram noProtocolo de Kyoto, a estratégia que venceu foi a do comércio dos direitos de emissão, conhecida por cap-and-trade (estabelecer um teto de emissões e comercializar as licenças para emitir). O exemplo mais expressivo desse mercado de créditos de carbono é o europeu, que envolve 11.500 empresas, responsáveis por 40% das emissões do bloco, mas que está em crise nos últimos anos, com o preço do carbono muito baixo. Esse caminho, segundo o economista, impediu que deslanchasse o "historicamente comprovado recurso à tributação" e acabou fazendo com que "meros 7% das emissões globais decarbono" estejam hoje dentro desses dois mecanismos de formação de preço.
 
Há taxas-carbono na Dinamarca, Finlândia, Irlanda, Suécia, Reino Unido, Noruega e Suíça. O Chile acaba de criar a sua. O exemplo da Columbia Britânica, no Canadá, merece destaque. É, diz o economista, o melhor dos impostos climáticos em vigor. A taxa na província canadense incide sobre a queima de todos os combustíveis fósseis, sem aumentar a carga tributária. Por uma tonelada de carbonoa empresa pode desembolsar US$ 20, mas, para evitar que os negócios sejam prejudicados, a alíquota do imposto de renda das pessoas jurídicas foi reduzida de 12% para 10%. O problema é que o exemplo tem que ser seguido por outras províncias canadenses e por estados dos EUA, para evitar perda de competitividade.
 
"A única maneira eficaz de se administrar a mudança climática é a adoção de uma taxa mundial, mas incidente sobre o consumo, de modo que o preço de qualquer mercadoria também reflita seu correspondente teor de carbono", resume Veiga.
 
O economista e pesquisador em economia do meio ambiente Petterson Molina Vale volta a esse tema em seu capítulo, uma análise atual da intersecção entre as questões climáticas e a economia. Retoma estudos de economistas como Robert Pindyck, do MIT, que "propõe a pergunta fundamental", diz Vale, sobre "qual dever ser o preço do carbono, e responde categoricamente que "ninguém sabe." Ele ilustra as dificuldades de se criar taxas-carbono com o exemplo da França, que desde 2009 discute o assunto, sempre com muita oposição à ideia. "O custo político da imposição de um preço sobre carbono é elevado, pois se trata de um tributo que incide sobre a base da cadeia produtiva (produção de energia) e com isso se propaga pelo sistema de preços".
 
Vale, que foi aluno de Veiga, também desconstrói qualquer esperança que se possa ter sobre "ações do tipo universalista, em que todos os países com emissões relevantes assumem compromissos de forma sincrônica e coordenada". Para ele, são "inviáveis tanto teoricamente quanto na prática". Ele acredita que, depois da fracassada conferência de Copenhague, em 2009, "o eixo da tomada de decisão passa a ser de países, regiões, cidades e empresas". É uma meia-verdade. É fato que países, regiões, cidades e empresas estão se mexendo bastante na questão climática na imensa lacuna da negociação internacional. Mas a maioria esmagadora das empresas fala muito e faz pouco e muitas políticas públicas locais acabam dando em nada - basta jogar uma lupa em várias políticas climáticas estaduais e municipais brasileiras.
 
O acordo climático é complexo porque tem que fechar, ao mesmo tempo, cortes de emissão, fundos de adaptação, fundos climáticos, proteção das florestas e ver como, afinal, governos decidirão sobre transferência de tecnologia se esta é uma esfera de domínio privado - todos, fronts de ação nascidos nos fóruns climáticos internacionais. Mas parece bastante razoável a afirmação de Vale de que "a ação climática se baseará cada vez mais no princípio do aprendizado pelo percurso, passando-se a priorizar a ação local à negociação internacional."
 
Vale surpreende ao indicar ao leitor um expediente pouco comum nos textos dos estudiosos do clima. Diz que quem não estiver interessado em "complexidades técnicas" pode pular alguns itens. É um artifício simpático, que, no entanto, não funciona no primeiro texto do livro, o que trata da ciência do clima e é escrito pela professora Sonia Maria Barros de Oliveira, do Instituto de Geociências da USP. A ela coube a tarefa de atualizar os achados que estão no último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC, na sigla em inglês), o braço científico da ONU. Em linguagem bastante acessível, transcorre sobre as mudanças nas temperaturas da superfície e nos oceanos, nas geleiras e nos gelos marinhos, na concentração de CO2 e metano na atmosfera e até no que se conhece dos últimos 800 mil anos. É um mergulho no que existe de mais atual na ciência do clima.
 
O que dizer do capítulo escrito pelo físico Luiz Carlos Baldicero Molion? Desperta muito interesse o "Alarme falso: o mundo não está em ebulição!", escrito pelo mais famoso pesquisador brasileiro da corrente que nega que o clima esteja mudando em função das atividades humanas. Mas o debate democrático sobre o tema, proposto por Veiga, pode ser frustrado se o leitor desconhecer o que venha a ser o albedo planetário ou não faz ideia do que quer dizer "a desativação colisional". O recado de Molion é claro, no entanto: "Ninguém, no mundo, mesmo nos países avançados, consegue prever o clima com três meses de antecedência, que se dirá com antecipação de cem anos!". Se ele estiver certo e a esmagadora maioria dos cientistas no Brasil e no mundo, errada, então é melhor seguir a recomendação dos crentes e entregar a Deus toda esta história de mudança do clima.
 
"O Imbróglio do Clima"
José Eli da Veiga (org.). Editora: Senac SP. 164 págs., R$ 54,9

sábado, 1 de novembro de 2014

O Brasil na contramão


"Em 2013, o desmatamento aumentou 29% na Amazônia e não há indícios de que voltará a cair em 2014. Ao contrário, dados preliminares do INPE indicam até a possibilidade de um novo crescimento, coerente com a alta observada também no desmatamento em outros biomas, como o Cerrado e a Mata Atlântica", escreve Marcio Santilli, sócio-fundador doInstituto Socioambiental - ISA , em artigo publicado pelo Instituto Socioambiental - ISA, 24-09-2014.
Eis o artigo.
No momento em que se intensificam as negociações internacionais sobre a mudança do clima, o Brasil retoma a velha diplomacia defensiva, se recusa a renovar compromissos com a redução do desmatamento e aumenta as suas emissões de gases do efeito estufa em 2013, após um período de sete anos em que havia conseguido reduzi-las.
O mundo espera que os governos cheguem a um acordo para iniciar um processo de redução global nas emissões desses gases, até o final de 2015, quando se realizará uma conferência da ONU, em Paris, com a presença de chefes de Estado. Até março, os países deverão apresentar perante a ONU os seus documentos oficiais reportando o que pretendem fazer para garantir que essa redução global ocorra. O(A) presidente(a) que será eleito(a) no próximo mês e empossado(a) em janeiro, terá pouco tempo para definir a posição brasileira a respeito.
Não se trata de qualquer assunto, pois a mudança do clima constitui a maior ameaça produzida pela humanidade contra ela mesma e contra a própria possibilidade de vida na Terra. A concentração crescente dos gases de efeito estufa na atmosfera está provocando o rápido aumento da temperatura na superfície do planeta, com o derretimento das geleiras nos polos e nas regiões de altitude, o aumento dos níveis dos oceanos, alterações nos regimes de chuva e tempestades catastróficas em várias regiões do mundo, anunciando muito sofrimento, prejuízos econômicos gigantes e pior qualidade de vida para as próximas gerações.
Não é mais possível adiar as providências de todos os países para diminuir a poluição provocada pelas indústrias, pela profusão de veículos automotores e pelo consumo excessivo de energias fósseis, como o carvão, o petróleo e o gás natural, que produzem cerca de 80% das emissões de gases estufa. Mas também contribui para agravar o problema o desmatamento e o uso inadequado das terras, que provocam a maior parte das emissões brasileiras e cuja redução constitui a maior e mais urgente contribuição que o país pode dar para se evitar mudanças mais drásticas do clima.
Porém, em 2013, o desmatamento aumentou 29% na Amazônia e não há indícios de que voltará a cair em 2014. Ao contrário, dados preliminares do INPE indicam até a possibilidade de um novo crescimento, coerente com a alta observada também no desmatamento em outros biomas, como o Cerrado e a Mata Atlântica. Ainda que a taxa amazônica em 2014 permaneça nos níveis de 2013, estará se caracterizando que as emissões florestais brasileiras subiram para um novo patamar. Não se trata de uma retomada dos escandalosos picos de desmatamento ocorridos entre 1995 e 2005, mas tampouco de um “aumentozinho”, como disse a presidente Dilma Rousseff em conferência da ONU ocorrida nessa semana, ou de um “ponto fora da curva”, como acreditava a ministra do meio ambiente.
Pior: apesar de dispor de uma matriz energética considerada relativamente limpa, se comparada com a dependência de carvão e de petróleo de várias das grandes economias mundiais, ela está se sujando rapidamente através do uso intensivo de termoelétricas devido aos efeitos da própria crise climática sobre os reservatórios das hidrelétricas, do aumento exponencial da frota automotora movida a petróleo, tendo como pano de fundo a falência da produção de etanol e a emergência do Pré-Sal como referência estratégica do setor energético, numa inflexão carbonífera das políticas de governo.
Significa dizer que após a contribuição notável em reduzir o desmatamento e as suas emissões de gases estufa entre 2006-12, o Brasil voltou a aumentá-las, sem que disponha de alternativas estratégicas de política energética para reverter essa situação nos próximos anos. E isto ocorre quando outros grandes emissores desses gases, como a China e osEstados Unidos, além de vários países da União Européia, vão avançando nas mudanças de suas matrizes energéticas e criando condições econômicas objetivas para reduzir as suas emissões.
Infelizmente, o Brasil vai perdendo a condição de protagonista que havia conquistado em tempos recentes no âmbito dessas negociações internacionais. Estamos entrando na sua fase decisiva pela contramão, reforçando as piores posições e funcionando como freio para as mudanças que a humanidade exige e que não podem mais esperar. Mas tomara que as eleições gerais possam gerar outro clima, de seriedade e de engajamento do governo brasileiro nos esforços que mais interessam aos nossos filhos.

sábado, 26 de julho de 2014

O efeito dominó do derretimento do Ártico


 
As altas temperaturas fazem com que o Oceano Ártico, que costumava estar congelado na maior parte do ano, agora seja um canal de navegação aberto mais da metade do tempo.
A reportagem é de Robert Hunziker, publicada pela Counterpunch, 09-07-2014. A tradução é de Vinicius Gomes.
Os “problemas” globais a economia e as guerras, provavelmente serão como um piquenique numa tarde de verão frente ao derretimento do Ártico.
Os maiores assuntos globais hoje incluem a recuperação das economias da crise financeira de 2008 e das guerras regionais por controle territorial, como no Iraque. De qualquer maneira, primeiramente e mais importante, os líderes do mundo deveriam na verdade estar focados como laser nos riscos inerentes vindos do derretimento completo do Ártico, que hoje é o canário na mina de carvão para o planeta inteiro.
As lutas territoriais no Oriente Médio e na Ucrânia, quando comparadas com a situação doÁrtico, é o equivalente de crianças brincando com bonecos de borracha. De fato, mais um passo à frente e consequência final de um Ártico sem gelo faria Hiroshima parecer como um piquenique em uma tarde de verão.
Já é bastante óbvio que nenhuma grande nação está se antecipando para a crise no Ártico, pois caso contrário, elas estariam correndo o mais rapidamente e humanamente possível para trocar seus combustíveis fósseis para fontes de energias renováveis.
Cuidado: gelo fino à frente
Da maneira como as coisas estão, as condições do gelo marítimo no Ártico estão perigosamente próximas do abismo. Essa é a situação: a extensão do gelo no início do mês de julho por mais próxima que esteja de um recorde baixo para essa época do ano, a principal preocupação é a velocidade com que esse declínio está acontecendo. Continuando nessa corrente, o derretimento tenderá a ficar cada vez mais veloz.
Como publicado na última sexta-feira (4), em Arctic News: “A atual corrente no declínio da extensão do gelo marítimo está muito mais inclinado do que o comum para essa época do ano, além disso, o total colapso do gelo ártico pode ocorrer se tempestades continuarem a acontecer – forçando mais gelo ártico a cair no Oceano Atlântico.
Compreendendo a crise de um Ártico sem gelo
As ramificações terríveis e destrutivas de um colapso total do Ártico não são completamente compreendidas por 99,99% das pessoas no planeta.
Todavia, os detalhes sobre as prováveis consequências de um Ártico sem gelo já estão disponíveis. Como no brilhante vídeo tutorial, tudo o que uma pessoa precisa saber sobre o derretimento do Ártico em 40 minutos.
Para aqueles que têm déficit de atenção e não conseguem assistir, o resumo seria esse: o planeta pode virar um inferno, e isso em décadas e não séculos. Baseando-se em observações diretas e não de modelos científicos, o volume do gelo marítimo já está em colapso, por exemplo: o volume durante a década de 1990 era cerca de 15 mil km³, em 2006 era de 10 mil e em 2012, apenas 3 mil – além disso, a mudança no padrão da perda da massa de gelo está acelerando: a perda era estável ao longo da década de 1980, nos anos 1990 foi para 4,5 mil km³, durante os anos 2000 foi para 9 mil e em 2013 era de 13 mil.
Então sim, parece que se passou do ponto em que a “atividade humana jogando muito CO2na atmosfera”, já nem seja mais aplicável para a perda de massa de gelo, pois aparentemente a situação já está próxima de se autoreplicar.
Seguindo a fileira de dominós, uma vez que o Ártico esteja livre de gelo no verão de setembro, toda a energia solar que anteriormente derreteu esse gelo está agora disponível para aquecer os mares e o pergelissolo. Assim sendo, quando o inverno voltar a congelar as águas, o gelo estará mais fino e, no ano seguinte, o derretimento será mais rápido e assim, se autoperpetuando e derrubando os dominós, nós teremos:
- a liberação de metano (CH4) congelado por milênios nos blocos de gelo e que é o gás mais efetivo para a aceleração do aquecimento global
- acelerando um eventual colapso do gelo da Groenlândia, causando um aumento em potencial de 21 pés no nível da água do mar,
- distorcendo as correntes do Golfo
- distorcendo as correntes de ar acima de 30 mil pés de altitude, criando temperaturas anômalas por todo o hemisfério norte.
Essas consequencias são horrendas, impensáveis e aterrorizantes e, como tudo parece sugerir, o derretimento do gelo é, de fato, exponencial, o que torna os “modelos” usados peloPainel Intergovernamental da Mudança Climática (IPCC, sigla em inglês), que luta para evitar um Ártico sem gelo no futuro, irrelevantes e inúteis.
Usando biquinis no Pólo Norte
Um dos grandes problemas do planeta é muito calor em todos os lugares errados.
Na Groelândia, “Segundo o instituto nacional climático, a maior temperatura já registrada para o mês de junho, foi atingida no dia 15, de 23,2 °C.
Em 2 de julho, a temperatura na gélida região de Labrador, no Canadá, chegou a 30°C. O aquecimento do Ártico está alterando as correntes de ar e mudando drasticamente os padrões climáticos do Norte.
“Ao passo que o Ártico está esquentando mais rápido que o Equador, a diferença nas quedas de temperaturas entre os dois reduz a velocidade na qual o ar quente se move doEquador para o Pólo Norte. Isso, por consequência, diminui a velocidade na qual as correntes de ar circunavegam o globo no hemisfério norte, deformando assim as correntes de ar”, lia-se na matéria “O que está de errado com o clima”, do Arcitc News.
Política: a cúmplice da negação do aquecimento global
A evidência tangivel da mudança climática radical, especialmente no Ártico, torna muito difícil de aceitar, sem dar risada, da geralmente repetida afirmação de que os EUA são os “líderes do mundo livre”.
Afinal, nas últimas duas décadas, os EUA tem sido um destemido obstáculo para o mundo livre conseguir solucionar a controversa mudança climática/aquecimento global. Quando foi a última vez que o Congresso norte-americano fez qualquer coisa construtiva sobre a crise climática?
Ah…
O cenário politico norte-americano está recheado de declarações ingênuas e mentirosas sobre a mudança climática que vão além da falha, banal e simplistas referências ao aquecimento global como uma farsa; ou questionar a ética dos cientistas ou dizer que isso é uma conspiração de Hollywood com Al Gore.
Essas são respostas de criança para um assunto de adultos, e algumas das declarações mais infantis vêm, invariavelmente, de candidatos presidenciais.
E se o Ártico ficar sem gelo até 2020, ou mesmo antes?
De acordo com o maior especialista mundial sobre gelo polar, Peter Wadhams, professor de Físicas do Oceano Polar na Universidade de Cambridge – que conduziu pessoalmente 40 expedições polares, incluindo 10 missões em submarinos nucleares debaixo do gelo para medir precisamente a espessura do gelo: uma vez que o gelo vai ficando cada vez mais fino, ele irá desaparecer…para sempre.
As consequências resultantes são terríveis ao passo que o aquecimento se autoamplifica e o planeta passa do ponto de ebulição – sendo essa apenas uma das várias consequências já mencionadas.
Por mais dificil que seja acreditar que tudo isso possa de fato acontecer e, francamente, é muito difícil de visualizar a realidade disso além de uma possibilidade, é a ainda mais exasperante saber que a liderança dos EUA permanece ociosa, enquanto o gelo vai embora cada vez mais rápido.
Afinal de contas, há opções construtivas e técnicas, algumas experimentais – outras como conversões para fontes de energia renovável, que podem mitigar a situação, até mesmo prevenir o colapso, mas quem é que sabe?
De agora em diante, no final do dia, ninguém sabe ao certo quando, ou se já é, tarde demais.
Mas, baseando na atua taxa de perda de gelo, que esteve ali desde o tempo em que mundo era mundo, algo desastroso está destinado a acontecer.





sábado, 29 de março de 2014

Eventos climáticos extremos

Tempo bom

 
"O fato é que, gostando ou não, a frequência, intensidade e simultaneidade de eventos climáticos extremos vêm aumentando década após década mundialmente e no Brasil. E é justamente o despreparo para tal nova conjuntura do sistema climático global que nos aponta o relatório do pesquisador inglês sir Nicholas Stern como a maior e mais premente ameaça relacionada às mudanças ambientais globais", escreve Paulo Nobre, climatologista e Marcelo Seluchi, pesquisador titular do Centro Monitoramento de Alerta de Desastres Naturais, em artigo publicado pelo jornal Folha de S. Paulo, 25-03-2014.
Eis o artigo.
Dias de céu azul, sol forte e temperatura elevada são comumente percebidos como "tempo bom", pelo menos em locais onde a chuva é abundante. Será?
Experiência rara, o Sudeste do Brasil experimentou nesse verão de 2014 período de estiagem prolongado e calor extremo, gerando uma das mais severas anomalias climáticas registrada na região desde o início dos registros instrumentais, em meados do século passado.
Esta se deveu ao estabelecimento de uma intensa, persistente e anômala área de alta pressão atmosférica nos altos níveis da atmosfera sobre o oceano Atlântico, nas proximidades da região Sudeste.
O ar mais "pesado" inibiu o levantamento do ar desde a superfície, necessário para a formação das nuvens de chuva. Assim, o descenso do ar mais denso desde os altos níveis da atmosfera ocasionou a dissipação da nebulosidade e o aumento da insolação solar, que por sua vez provocou um aumento progressivo das temperaturas.

Ocorre que esse tipo de situação é uma feição climatológica de inverno, quando observamos os dias característicos de céu azul, mas nos quais o sol se encontra baixo no horizonte resultando em impacto moderado na temperatura. Já no caso presente, a circulação típica de inverno encontrou o sol a pino, resultando em excesso de radiação solar à superfície e pouca chuva.
Mas não estamos sós. Ingleses experimentam inundações generalizadas. Norte-americanos enfrentam ondas de frio polar. Australianos convivem com intensa onda de calor; ao mesmo tempo! Coincidência, diriam uns. Orquestração da natureza contra os abusos humanos em relação ao planeta, diriam outros.
O fato é que, gostando ou não, a frequência, intensidade e simultaneidade de eventos climáticos extremos vêm aumentando década após década mundialmente e no Brasil. E é justamente o despreparo para tal nova conjuntura do sistema climático global que nos aponta o relatório do pesquisador inglês sir Nicholas Stern como a maior e mais premente ameaça relacionada às mudanças ambientais globais.
No passado não muito distante, poderíamos encolher os ombros, escondendo-nos na desculpa de que "nós não sabíamos". Hoje, não mais. Sabemos que as alterações da composição atmosférica induzidas pelo consumo de combustíveis fósseis e desflorestamento tropical em grande escala são em parte responsáveis pelo aumento de eventos climáticos extremos.
Sabemos também que tais eventos, como os desse verão, constituem somente o tira-gosto de uma nova realidade do clima que se avizinha. Ao mesmo tempo, também aprendemos a partir de pesquisas minuciosas das relações entre as florestas tropicais do Brasil e a atmosfera que as árvores fazem parte do processo de geração de chuva, contribuindo para a estabilização do clima.
Assim, enquanto não podemos impedir os grandes movimentos da atmosfera global, como esse que ocasionou o longo período de estiagem sobre o Sudeste do Brasil, podemos e devemos manter os maciços florestais remanescentes não somente na Amazônia, mas também e principalmente os cinturões verdes ao redor das megacidades brasileiras. Com isso, não estaremos imunes aos extremos climáticos futuros, mas teremos contribuído para atenuar seus efeitos em nossas cidades.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Lições de um verão escaldante


"Já se foi o tempo em que os reservatórios cheios de água garantiam o consumo de energia do país por até três anos seguidos sem chuvas", escreve André Trigueiro, jornalista com pós-graduação em Gestão Ambiental e professor na Coppe-UFRJ, em artigo publicado pelo site Mundo Sustentável e reproduzido pelo portal Envolverde, 10-02-2014
Eis o Artigo. 
Este verão ainda nem acabou, mas já marcou seu lugar na História. Não apenas por ser dos mais quentes, mas por revelar o quanto ainda precisamos fazer para lidar melhor com os chamados “eventos extremos”. Vejamos algumas situações:
1) O verão mais quente dos últimos 71 anos no Brasil e as ondas de frio recorde no hemisfério norte podem ser fenômenos climáticos mais frequentes e intensos daqui para frente. É o que apontam os relatórios recentes do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU). Convém conhecer melhor esses estudos e incorporá-los ao planejamento estratégico dos países.
2) Segundo o Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), das 10 temperaturas mais quentes registradas no mundo no dia 31/12/2013 em todas as 4.232 estações meteorológicas acessadas pelo INPE, 9 aconteceram aqui Brasil : Joinville (SC) apareceu no topo do ranking com sensação térmica de 57ºC. O Rio de Janeiro ficou em segundo com 51ºC. Estamos efetivamente inseridos na geografia dos eventos extremos e essa não é uma boa notícia. Importa fazer chegar essa informação aos tomadores de decisão.
3) Desde 2009, todos os picos de consumo de energia no Brasil vêm acontecendo na parte da tarde (entre 14h39 e 15h41) e não mais no início da noite. Essa mudança de padrão é atribuída ao uso intensivo de aparelhos de ar-condicionado e ventiladores para enfrentar o calor no momento mais quente do dia. Como boa parte desses equipamentos desperdiça energia, é preciso exigir dos fabricantes padrões mais elevados de eficiência desses e outros produtos, que precisam ser certificados de acordo com os mais rigorosos protocolos. Não fazer isso significa premiar o desperdício.
4) Verão de calor intenso combinado com falta de chuva ameaça o abastecimento de água nas cidades e a produção de energia a partir das hidrelétricas. Quando o nível dos reservatórios cai, as companhias de abastecimento oferecem descontos para quem economiza água e organizam racionamentos escalonados. É o que se espera delas. Já no setor elétrico, “economia” e “racionamento” de energia são palavrões. Desde o apagão de 2001, sucessivos governos se esmeram em garantir toda a energia de que a população necessita, sem qualquer orientação em favor do consumo consciente ou da eficiência energética. Fontes do governo me confirmaram que o entendimento prevalente é o de que ações nesse sentido poderiam ser confundidas como sinais de fraqueza de quem não consegue eliminar por completo o risco de apagões e que, por isso, “pede ajuda à população”. Um absurdo completo.
5) Diversificar a matriz energética é algo importante e urgente. Mas o Brasil ainda derrapa na execução de projetos. É o que o acontece, por exemplo, com a energia do vento. O país já soma 144 parques eólicos prontos, mas 48 deles não estão ainda interligados ao sistema por falta de linhas de transmissão. Seriam 1.265 megawatts a mais, o suficiente para abastecer Salvador durante um mês. Segundo a Associação Brasileira de Energia Eólica, 12 destes parques entram em operação este mês e outros 16 em março. Até lá, nos viramos com o que temos. Em relação ao futuro, a própria ANEEL admite que dos 42.750 MW de projetos outorgados de várias fontes (hidrelétricas, térmicas, eólicas) para entrar em operação entre 2014 e 2020, 6.455,1 MW (15% do total) simplesmente não têm previsão para entrar em operação por problemas diversos. Esses projetos que ninguém sabe dizer quando estarão concluídos produziriam energia para quase 26 milhões de pessoas.
6) Já se foi o tempo em que os reservatórios cheios de água garantiam o consumo de energia do país por até três anos seguidos sem chuvas. Hoje isso não passa de 5 meses. Desde a década de 1990 tem sido mais fácil licenciar e construir hidrelétricas sem barragens, com menos áreas alagadas e impactos ambientais. Entretanto, sem novos reservatórios de grande porte, o Brasil perdeu a capacidade de estocar água da chuva como fazia antes. Ficamos mais vulneráveis e abrimos caminho para as fontes sujas, que são mais caras e poluentes. Neste verão sem chuvas, o ONS autorizou a compra de 11.500 MW de energia das termelétricas, que é quase o que produz uma Itaipu (14.000 MW). Pergunta-se: sujar desse jeito a matriz energética seria a única alternativa que temos para compensar a perda dos reservatórios? Não teríamos outras opções menos impactantes para o bolso e o meio ambiente?
7) No país campeão mundial de água doce, a hidroeletricidade continua sendo uma vantagem estratégica. Mesmo não sendo mais possível construir usinas com grandes reservatórios por conta dos impactos ambientais, o potencial estimado de produção é de 250 mil megawatts. Hoje exploramos apenas um terço disso (80 mil MW). O horizonte de investimentos aponta para as bacias hidrográficas da Região Amazônica. Um relatório daCoppe/UFRJ financiado pelo Banco Mundial indica que as maiores usinas hidrelétricas em construção hoje no país (JirauSanto Antônio e Belo Monte) podem não produzir toda a energia prevista porque foram planejadas levando-se em conta a média das chuvas das últimas décadas. Só que o padrão de chuvas está mudando. Já não está na hora dos tomadores de decisão levarem mais a sério esses estudos que medem a mudança do ciclo das chuvas?
8) Há quase dois anos o Brasil decidiu acertadamente regulamentar a microgeração de energia, ou seja, deu sinal verde para que qualquer cidadão pudesse produzir energia em pequena escala, desde que de fonte limpa e renovável, interligado à rede de distribuição. No final do mês, a conta de luz traria em valores monetários a diferença entre o que o cidadão gerou para a rede e o que consumiu da rede. Dependendo do que for gerado, é possível obter excelentes descontos ou até não pagar mais a tarifa de luz. A intenção da medida era estimular as pessoas a participarem ativamente da geração de energia reduzindo os custos do governo com grandes usinas e linhas de transmissão. Só que os Estados decidiram cobrar ICMS sobre essa energia gerada a partir do esforço de cada cidadão. Apenas Minas Gerais e Tocantins abriram mão desse imposto abusivo e imoral. Dependendo da distribuidora de energia, cobram-se ainda PIS e COFINS. É assim que se mata uma boa ideia.
9) Precisamos incorporar ao planejamento urbano o conceito de “cidade resiliente”, ou seja, aquela que se protege de maneira inteligente das mudanças climáticas. É a agenda da “adaptação”. Se as mudanças climáticas já estão ocorrendo, é preciso prevenir tragédias e desastres com investimentos pontuais em setores estratégicos. O desconforto térmico causado por temperaturas elevadas pode ser atenuado com mais áreas verdes, menos “ilhas de calor”, mais áreas disponíveis para o banho seguro com a despoluição de praias/rios e lagoas, permissão para o uso de roupas mais leves em ambientes onde isso normalmente não é possível (repartições públicas, por exemplo) e estímulos a construções sustentáveis (greenbuilding) nais quais se explore ao máximo sistemas de ventilação cruzada, telhados verdes e outras técnicas que atenuam o desconforto térmico.
10) Eventos extremos como esse merecem respostas rápidas das autoridades. É preciso definir novos protocolos de emergência quando a temperatura subir muito, orientando a população a eventualmente não sair de casa em certos horários ou mesmo dispensando a necessidade de seguir para o trabalho. A sensação térmica de aproximadamente 50ºC levou a Secretaria de Educação de Santa Catarina a adiar o início das aulas nesta semana de fevereiro em vários municípios. Diversos órgãos públicos pelo Brasil já dispensaram o uso de paletó e gravata de seus funcionários. No Rio de Janeiro, servidores municipais foram autorizados a usar bermudas até o joelho. O benefício alcançou também os motoristas de táxi. No caso dos motoristas de ônibus, a liberação depende de cada empresa. No futebol, a parada técnica para hidratação dos jogadores é respeitada em alguns campeonatos estaduais. No Rio, entretanto, isso não é o suficiente para aplacar o desconforto dos jogadores que disputam partidas no estádio de Moça Bonita, em Bangu (um dos lugares mais quentes do Brasil) às 17h, horário de verão. Como se vê, precisamos avançar muito na direção de uma sociedade que responda com inteligência aos chamados eventos extremos

terça-feira, 4 de março de 2014

No setor de energia, não foi a água que sumiu, foi o planejamento


Ainda não é a mudança climática a culpada pelos apagões. Ela virá, em algum momento no futuro, reduzir a capacidade de nossos reservatórios permanentemente e precisamos nos preparar para sermos menos dependentes das chuvas para termos eletricidade. O apagão, ao que tudo indica, foi causado por um problema físico em uma das linhas e, porque o sistema está sobrecarregado, ele se auto-desligou. É um mecanismo de autoproteção do próprio sistema.
A reportagem é de Sérgio Abranches, publicada no sítio Ecopolitica e reproduzido peloEnvolverde, 10-02-2014.
Agora, os reservatórios têm muitos problemas. Falta manutenção, muitos estão assoreados, vários são poluídos pelas águas dos rios de sua bacia, todos muito maltratados. Eles são usados em excesso todos os anos, o ano inteiro, por falta de alternativa. Devíamos manter estoques estratégicos de água nos reservatórios e usar mais eólica e solar. Mas, não, superutilizamos os reservatórios e fazemos menos eólica do que poderíamos fazer, nada fazemos em energia solar. Os reservatórios esvaziam não porque a chuva não os está enchendo, mas porque tiramos mais água deles do que entra.
governo federal engavetou o programa de eficiência e economia de energia. Não criou condições para tornar realidade a geração distribuída, que permitiria a instalação de placas solares nas residências e prédios, que entregariam para o sistema a eletricidade excedente, aquela que não tivessem usado nos momentos de pico de geração. Faltam incentivos, os preços são altos, as distribuidoras não se interessam em promover a interligação das instalações residenciais e prediais ao sistema. Esta semana, em NovaYork, conversei com um brasileiro que mora lá há mais de 20 anos. Ele tem um serviço de táxi especial. Recebeu uma proposta da companhia de eletricidade, para instalar placas solares de graça na casa dele, que fica em um subúrbio de Nova York. Ele pagará uma taxa anual básica, que fará com que sua conta de eletricidade seja reduzida em mais de 50%. NaCalifórnia, o governo subsidiou a instalação de placas solares em residências e prédios comerciais. Hoje, várias cidades já estão com 100% das edificações dotadas de sistemas solares. O estado enfrenta a maior seca dos últimos 500 anos e não tem problema de energia.
Falta planejamento no setor elétrico. Este é um setor que sempre teve, historicamente grande capacidade de planejamento, já exportou bons planejadores para outras partes do governo no passado. Mas, hoje, não temos planejamento. O sistema tem cometido erros primários. Está comandado por razões políticas, por um ministro que não tem a menor qualificação para estar à frente de uma área tão sensível. O setor perdeu, sobretudo, capacidade de pensar o futuro contemporaneamente, para investir em um sistema mais inteligente, que lide melhor com a diversificação de fontes de energia e com programas efetivos de economia de energia e geração distribuída. Os erros de política se repetem. Não há gestão eficiente de reservatórios. O exemplo mais sério de erros primários de planejamento foi a construção de usinas eólicas, que estão operacionais, mas não entregam eletricidade ao sistema porque as linhas de distribuição não foram construídas. O que temos é um sistema que opera da mão para a boca, de crise em crise.
O resultado é que estamos vulneráveis a apagões. Pagamos um absurdo de subsídios para manter baixos os preços da energia, estimulando o consumo excessivo e o desperdício. Pagamos por eólicas que não podem entregar energia por faltas de linha. E pagamos o dobro pela energia de termelétricas que, além de poluir e aumentar o custo da energia para o tesouro, sujam nossa matriz elétrica e emitem gases estufa. Tudo errado. E a única solução que o pensamento torto que domina o sistema tem para oferecer é ampliar a usina de BeloMonte. Belo Monte é a falsa solução. Não funcionará adequadamente, entregará sempre muito menos Mw/hora reais do que pagamos para sua construção, baseada em ilusório potencial instalado. Amplia-la é dobrar o erro e aprofundar as contradições presentes no sistema elétrico, que podem leva-lo à ruptura geral. Tudo isso custa uma fortuna ao contribuinte. O que o governo tira no preço da eletricidade (da gasolina e do diesel também) devolve em maior proporção no gasto do Tesouro, nos impostos e na dívida que financiam esse gasto.
O sobreuso da eletricidade estressa um sistema que já opera no limite. Dependente de hidrelétricas, sem alternativas boas, ele está usando as termelétricas muito além do limite para o qual elas foram pensadas, dobrando o custo da eletricidade e aumentando os danos ambientais associados à energia suja. O governo – e muita gente do setor, por interesse particular – vive se gabando de que temos a “matriz mais limpa do mundo”. Mas todos se esquecem de dizer que nessa “matriz mais limpa do mundo”, o carvão, a fonte mais suja, tem aumentado significativamente sua participação, por decisão do governo. Aumentou 30% no último período. E o governo quer aumentar mais o uso do carvão. Estamos pensando o sistema olhando para o retrovisor. Os governos da Terceira República jamais suspeitaram do que as próximas décadas significarão para o campo da energia. Esse menos ainda.
Mas o governo dirá que não há problemas. No Brasil, em período eleitoral, a primeira vítima é sempre a verdade.

sábado, 1 de março de 2014

Água, uma tragédia anunciada



Água, uma tragédia anunciada

 
"Como é possível que a civilização engendrada pelo pensamento científico possa ter desaguado numa ignorância tão assombrosa, enquanto a outra, que preferiu se resguardar no pensamento mítico, conseguiu produzir fartura de proteínas, carboidratos e exuberância metafísica?", pergunta Luiz Bolognesi, roteirista de "Bicho de Sete Cabeças" e diretor de "Uma História de Amor e Fúria", em artigo publicado na Folha de S. Paulo, 23-02-2014.
Eis o artigo.
"Meio copo de água é mais caro que a garrafa de uísque escocês. É por isso que a água do aquífero guarani, a maior reserva subterrânea do planeta, já não cai na torneira do brasileiros. É vendida pela Aquabrás a peso de ouro nas plantações de etanol e exportada para o mundo inteiro. Quanto mais diminui a calota polar, mais disparam as ações da Aquabrás. Enquanto isso, o pessoal lá embaixo está bebendo água do mar infectada com lixo industrial."
Esse é o depoimento do jornalista João Cândido na parte final do filme "Uma História de Amor e Fúria". Ele está no alto de um condomínio vertical no Rio de Janeiro em 2.096. O presidente da República, pastor Armando, acaba de declarar que só a fé do povo pode trazer chuva, enquanto um rali é realizado no deserto da Amazônia e um grupo de guerrilheiros explode o braço do Cristo Redentor, exigindo água para todos.
Ouvi algumas vezes que o roteiro do filme seria criativo. Discordo. Infelizmente, ele tem muito mais a ver com pesquisa e capacidade dedutiva do que com criatividade.
Na outra ponta do filme - lá no começo -, ouvimos um pajé conversando com um guerreiro tupinambá na aldeia deles, em frente ao Pão de Açúcar, numa noite de lua cheia. Eles acabam de presenciar a chegada de franceses que se instalaram onde é hoje a ilha do Governador. Os recém-chegados estão propondo ao cacique trocar anzóis por peixes e machados por toras de pau brasil. Ouvimos o pajé dizer: "Essas trocas não nos interessam. Você tem que deter o cacique. Ou esta terra será dominada por Anhangá, o deus das trevas. Florestas vão desaparecer. As águas vão ficar podres e infectadas com o veneno da serpente. Animais e homens vão morrer de sede". O guerreiro tupinambá ouve achando que há certa dose de exagero. Imagina, florestas desaparecerem, água ficar envenenada...
Entre as duas pontas do filme, estamos nós. Eu e você. Hoje. Guerreiros, sem saber. Presenciando nosso próprio definhamento sem nos darmos conta porque desaprendemos a ouvir as vozes do passado. E como diz o jornalista João Cândido, "viver sem conhecer o passado é andar no escuro". Se estivéssemos um pouco mais atentos, minimamente de olhos abertos, deveríamos estar comprometidos até o último fio de cabelo com as campanhas de desmatamento zero e os projetos de recuperação de mata ciliar, áreas de nascentes e recursos hídricos.
Não vi os fazendeiros da soja, cana ou gado refletindo sobre esse problema, que vai arruinar o negócio deles quando o oceano de nuvens que desce da Amazônia parar de dar as caras. Tampouco vi "black bloc" empunhando cartaz sobre o tema.
Mas li neste jornal que quase 150 municípios do Estado estão fazendo racionamento de água e os mananciais estão com níveis perigosamente baixos. Um taxista, essa espécie de pajé que nos cabe, me disse outro dia, de modo lacônico: "Nesse inverno, o pessoal vai se estapear por causa de água". Ai, ai, ai.
A palavra córrego numa aldeia kraó que visitei designava um pequeno braço de água cristalina que corre sobre um chão de areia branca e quente entre árvores frondosas, onde todos tomam banho na hora do pôr do sol, contando piadas sobre as coisas que aconteceram durante o dia. O que a palavra córrego designa em São Paulo, Rio, Recife ou qualquer outra cidade do país?
Como é possível que a civilização engendrada pelo pensamento científico possa ter desaguado numa ignorância tão assombrosa, enquanto a outra, que preferiu se resguardar no pensamento mítico, conseguiu produzir fartura de proteínas, carboidratos e exuberância metafísica?
Se optamos pela ciência, não deveríamos ao menos fazer uso dela? Cientistas afirmam aos quatro ventos que o regime de chuvas na América do Sul depende do oceano de nuvens que se forma sobre a Amazônia. Não seria prudente para a sobrevivência da nossa espécie adotarmos imediatamente uma política de desmatamento zero? Ou vamos permitir que essa tragédia anunciada seja o futuro dos nossos filhos?
 

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Tendência de aquecimento do planeta é "inegável"

OMM afirma que tendência de aquecimento do planeta é "inegável"
 
 
A reportagem é de Fabiano Ávila e publicada pelo Instituto CarbonoBrasil, 05-02-2014.
 
 
No último dia 22, a NASA liberou um comunicado salientando a contínua elevação das temperaturas do planeta desde a Revolução Industrial, fato que a agência considerou como uma evidência incontestável do aquecimento global.
 
Agora foi a vez de a Organização Meteorológica Mundial (OMM) destacar que é “inegável” a tendência de aquecimento do nosso planeta.
 
A OMM classificou 2013 como o sexto ano mais quente desde 1850, com uma temperatura 0,5°C acima da média entre 1961 e 1990. Por sua vez, a NASA informou que o ano passado foi o sétimo mais quente, enquanto a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA) classificou-o como o quarto. No entanto, as três entidades concordam que 13 dos 14 anos com as maiores temperaturas médias aconteceram no século XXI.  
 
“A temperatura global para o ano de 2013 é consistente com a tendência de aquecimento em longo prazo. A taxa do aquecimento não é uniforme, mas a tendência de elevação é inegável. Considerando a quantidade de gases do efeito estufa em nossa atmosfera, as temperaturas continuarão a subir por gerações”, declarou Michel Jarraud, secretário-geral da OMM.
 
“Nossa ação – ou inação – para reduzir as emissões de dióxido de carbono e outros gases do efeito estufa moldará o estado do planeta para nossas crianças, netos e bisnetos”, completou. Em seu boletim, a NASA também havia afirmando de forma enfática o papel da concentração de gases do efeito estufa (GEEs) na alta das temperaturas.
 
“Os padrões meteorológicos sempre causarão flutuações nas temperaturas médias anuais, mas o aumento contínuo nos níveis de GEEs na atmosfera da Terra está resultando na elevação das temperaturas globais em longo prazo (...) Cientistas esperam que cada década seja mais quente do que a anterior”, destacou.
 
Segundo a agência espacial norte-americana, a concentração de GEEs na atmosfera está na faixa das 400 partes por milhão, a maior vista no planeta nos últimos 800 mil anos. A OMM destacou ainda que 2013 foi um ano sem influência do El Niño, portanto sem uma grande variabilidade natural que explicasse o porquê das altas temperaturas.
 
A entidade alerta também que mais de 90% do excesso de calor causado pelas atividades humanas está sendo absorvido pelos oceanos, mascarando de certa forma o quão rapidamente está se dando a elevação das temperaturas do planeta.
O relatório completo da OMM sobre 2013, o Status of the Climate 2013, será publicado em março, e trará mais informações sobre dados regionais, precipitação, enchentes, secas, ciclones tropicais, cobertura de gelo e nível do mar.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

O tormento climático


José Eli da Veiga, professor sênior doInstituto de Energia e Ambiente da USP, em artigo publicado pelo jornal Valor, 28-01-2014.

Têm sido inócuos os arranjos globais para manejo da mudança climática. Pior: não há sinal de que a rota venha a ser alterada. Mesmo na mais otimista das apostas - que um dia todas as nações responsáveis por significativa parte do dano venham a ter metas legalmente obrigatórias para contenção de suas emissões de gases de efeito estufa - ela será perdedora sem prévia formação de um preço mundial do carbono, algo incompatível com oProtocolo de Kyoto, cuja resiliência constitui o cerne do tormento.
Nas negociações desse protocolo, entre 1993 e 1997, venceu a tese de que a melhor maneira de se atingir tal preço seria o comércio de emissões ("cap-and-trade"), contra o historicamente comprovado recurso à tributação. Em consequência, meros 7% das emissões globais de carbono são hoje afetados pelos dois mecanismos de formação de preço: "esquemas para comércio de emissões" (ETS, em inglês) e alguns poucos tributos unilaterais em sociedades mais conscientes de que só com mercados jamais cumpririam suas metas.
Embora nos últimos nove anos tenham surgido uma dúzia de ETS, o único relevante é o EU-ETS, que envolve as 11.500 empresas responsáveis por 40% das emissões da União Europeia. Foi inevitável, portanto, que fortes compromissos políticos com a sustentabilidade tenham levado sete países dessa região à decisão de também tributarem de forma explícita outra parte de suas emissões. Há taxas-carbono na Dinamarca, na Finlândia, na Irlanda, naSuécia e agora no Reino Unido, assim como na Noruega e na Suíça, que preveem vínculos com o EU-ETS por acordos bilaterais.
No entanto, foi do outro lado do Atlântico, na província canadense da Colúmbia Britânica, que pintou o melhor dos impostos climáticos em vigor. Uma taxa-carbono que incide há cinco anos sobre a queima de todos os combustíveis fósseis, sem aumento de carga tributária. Para evitar que o desembolso de pouco mais de US$ 20 por tonelada de carbono emitido (trinta desde 2012) prejudique os negócios, a alíquota do imposto de renda das pessoas jurídicas foi reduzida de 12% para 10%. Esse é o máximo que pode ser feito sem perda de competitividade enquanto o exemplo não for seguido ao menos por outras das nove províncias e estados dos EUA.
Prova dos nove do alerta feito pelos melhores estudos científicos sobre o tema: a única maneira eficaz de se administrar a mudança climática é a adoção de uma taxa mundial, mas incidente sobre o consumo, de modo que o preço de qualquer mercadoria também reflita seu correspondente teor de carbono. Não há melhor maneira de se catalisar inovações e investimentos pró-mitigação.
O principal problema prático desse projeto é a inviabilidade de se usar a convencional análise de custo-benefício no cálculo de qual deveria ser o valor da taxa, dada a impossibilidade de se estimar o custo social do carbono em âmbito global. Além disso, é óbvio que ela seria politicamente desastrosa se viesse a causar séria carestia.
Por isso, a saída seria que o preço mundial do carbono começasse bem baixo, mas com patente perspectiva de alta. E que os aumentos ficassem na dependência da avaliação do impacto obtido com o baixo preço inicial, em procedimento conhecido como "a learning-by-taxing process". A organização encarregada de administrar essa dinâmica estabeleceria o preço do carbono assim como um banco central faz com a taxa de juros básica.
Infelizmente esse caminho mais racional para uma gestão da mudança climática foi interditado pela vitória de Pirro obtida pelo fundamentalismo de mercado nas negociações do Protocolo de Kyoto.
Mais: em vez de esgotamento de sua inércia institucional, há temerária teimosia, além de muita criatividade, na proliferação de malabarismos aprovados em conferências das partes da Convenção (CoPs da UNFCCC). Espécie de obsessão em se preservar o legado, apesar de sua evidente impotência.
Esse contexto sugere a possibilidade de duas mudanças objetivas extremas que forçosamente exigiriam e induziriam correção de rumo. A pior seria que a atual marcha da insensatez fosse bruscamente interrompida por alguma séria catástrofe ecológica que provocasse atribulada e radical revisão da própria convenção. A melhor seria que bem antes disso despontasse uma revolução tecnológica capaz de antecipar a aposentadoria das energias fósseis, tornando quase supérflua a parafernália já montada para se chegar a uma governança global da mudança climática.
O cenário mais provável, porém, é que gradualmente se combinem esses dois vetores polares. Por isso, para uma sociedade como a brasileira - que desfruta de imensas vantagens comparativas ecológicas e geográficas, mas que ainda nem sequer engatinha na direção das socioculturais vantagens competitivas - romper com o marasmo é assumir o duplo desafio de investir muito mais do que hoje na busca de inovações energéticas e simultaneamente abrir um sério e sistemático debate público sobre o sentido e a orientação de sua ação diplomática no âmbito do regime climático.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Cientistas do clima exigem mudança radical

 

 

 

Os novos revolucionários: Cientistas do clima exigem mudança radical

 

"Para evitar uma mudança climática catastrófica, os maiores especialistas da Grã-Bretanha pedem cortes de emissões que exigem 'mudança revolucionária na hegemonia política e econômica'", escreve Renfrey Clarke, jornalista e editor, em artigo publicado na revista online Climate and Capitalism e reproduzido peloEcoDebate, 29-01-2014. A tradução é de Alexandre Costa.

Eis o artigo.

“Hoje, após duas décadas de blefes e mentiras, o restante do balanço [de carbono] para 2°C restante exige mudança revolucionária na hegemonia política e econômica.” Isso foi publicado em uma postagem de blog no ano passado porKevin Anderson, professor de Energia e Mudanças Climáticas da Universidade de Manchester. Um dos cientistas do clima mais eminentes da Grã-Bretanha, Anderson também é vice-diretor do Centro Tyndall para Pesquisas sobre Mudanças Climáticas. Ou, podemos passar esta mensagem direta, a partir de uma entrevista em novembro:
Precisamos de ação de baixo para cima e de cima para baixo. Precisamos de mudança em todos os níveis.” Proferiu essas palavras a pesquisador sênior do Centro Tyndall e professora da Universidade de Manchester Alice Bows-Larkin. Anderson e Bows-Larkin são especialistas líderes mundiais sobre os desafios da mitigação das mudanças climáticas.
Em dezembro, os dois foram atores centrais da “Conferência de Redução Radical de Emissões”, promovida pelo Centro Tyndall e realizada nas instalações de Londres da instituição científica de maior prestígio da Grã-Bretanha, a Royal Society. O “radicalismo” do título da conferência se refere a uma chamada pelos organizadores para cortes de emissões anuais na Grã-Bretanha de pelo menos 8 por cento – o dobro da taxa comumente citada como possível dentro das estruturas econômicas e políticas de hoje.
A conferência chamou atenção e recebeu ampla cobertura. Em Sydney, o Daily Telegraph, de propriedade dos Murdoch, descreveu os participantes como “desequilibrados” e ” eco-idiotas”, passando a citar um “conselheiro de mudanças climáticas sênior” para a Shell, dizendo: “Essa era uma sala cheia de catastrofistas (referindo-se a ‘aquecimento global catastrófico’), com a visão predominante… de que o problema só poderia ser resolvido pela completa transformação dos sistemas de energia e político globais… uma conferência de ideologia política.”
De fato. A postura de “reticência”, tradicional dos cientistas, que, no passado, visavam principalmente ater-se às suas especialidades e evitar comentários sobre as implicações sociais e políticas de seu trabalho, não é mais como era.
Irritados
Os cientistas do clima têm ficado particularmente irritados com a recusa dos governos de agir, mesmo com as repetidas advertências sobre os perigos da mudança climática. Para aumentar a amargura dos pesquisadores, em mais do que em casos isolados, foram colocadas demandas sobre eles para aliviar suas conclusões, de modo a evitar mostrá-las a governantes e decisores políticos. As pressões para que se evite levantar “questões fundamentais e desconfortáveis” podem ser fortes, explicou Anderson em uma entrevista em junho passado.
“Os cientistas estão sendo persuadidos a desenvolver conjuntos cada vez mais bizarros de cenários … que ssejam capazes de entregar mensagens politicamente palatáveis. Tais cenários subestimam a taxa de crescimento das emissões atual, assumem picos ridiculamente precoces nas emissões e trocam os compromissos para ficar abaixo [de um aquecimento] de 2°C por uma porcentagem de chance de 60 a 70 de exceder esses 2°C”.
Anderson e Bows-Larkin têm sido capazes de desafiar tais pressões ao ponto de terem sido coautores de dois artigos notáveis e relacionados entre si, publicados pela Royal Society em 2008 e 2011.
No segundo delas, os autores fazem uma distinção entre países ricos e pobres (tecnicamente, nas categorias do anexo 1 e não-Anexo 1 da ONU), ao calcularem as taxas de redução de emissões em cada conjunto, que seriam necessárias para manter a temperatura média global a não mais que 2 graus dos níveis pré-industriais.
A notícia embaraçosa para os governos é que os países ricos do Anexo 1 precisam começar imediatamente a cortar suas emissões com taxas de cerca de 11 por cento ao ano. Isso permitiria que os países fora do Anexo 1 atrasem seu “pico de emissões” até 2020, permitindo o desenvolvimento de suas economias e a elevação dos padrões de vida de seus habitantes.
Mas os países pobres também teriam, então, de começar a cortar suas próprias emissões a níveis sem precedentes – e as chances de aquecimento superior a 2 graus de aquecimento ainda seriam em torno de 36 por cento. Mesmo para uma chance de 50 por cento de aquecimento superior a 2 graus, os países ricos teriam de cortar suas emissões a cada ano a uma taxa de 8-10 por cento.
Como Anderson aponta, é praticamente impossível encontrar um economista mainstream que veja reduções anuais de emissões de mais de 3-4 por cento como compatíveis com qualquer coisa, exceto recessão severa, com uma economia constituída nos atuais termos.
Quatro graus?
E se o mundo mantiver suas economias baseadas no mercado e, depois de um pico em 2020, começar a reduzir suas emissões com base nestes 3-4 por cento ”permitidos”? Em seu artigo de 2008, Anderson e Bows-Larkinapresentam números que sugerem um possível nível de dióxido de carbono na atmosfera equivalente de 600-650 partes por milhão como resultado. O climatologista Malte Meinshausen estima que 650 ppm daria uma probabilidade de 40 por cento de exceder não apenas dois graus, mas quatro!
Anderson, no passado, já se pronunciou sobre o que podemos esperar de um “mundo de quatro graus”. Em uma palestra pública em outubro de 2011 ele descreveu como “incompatível com uma comunidade global organizada”, “provável que esteja além da adaptação” e”devastador para a maioria dos ecossistemas”. Além disso, um clima quatro graus mais quente teria “uma alta probabilidade de não ser estável”. Isto é, quatro graus seria uma temperatura intermediária, rumo a um nível de equilíbrio muito mais quente.
Conforme relatado no jornal The Scotsman, em 2009, ele se concentrou no elemento humano: “Eu acho que é extremamente improvável que nós não tenhamos morte em massa a 4°C [de aquecimento global]. Se tivermos uma população de nove bilhões até 2050 e chegarmos a 4°C, 5°C ou 6°C, pode-se ter meio bilhão de pessoas sobrevivendo”.
Não admira que essas pessoas bem informadas estejam se revoltando.
Métodos de mercado?
Anderson também emergiu como um poderoso crítico da ortodoxia de que a redução das emissões deve ser baseada em métodos de mercado, se se deseja que ela funcione. Seus pontos de vista sobre este ponto foram trazidos para o foco em outubro passado, em uma resposta afiada para o chefe das Nações Unidas sobre mudanças climáticas – e entusiasta do mercado – Rajendra Pachauri:
“Eu discordo do otimismo do Dr. Pachauri que mercados e preços possam garantir compromissos da comunidade internacional em limitar o aquecimento a 2°C”, como publicado no jornal britânico Independent, citando Anderson. “Eu sustento que tal abordagem baseada no mercado está condenada ao fracasso e é uma distração perigosa de um quadro regulatório padronizado e abrangente”.
Crítico dos esquemas de redução baseados no mercado, Anderson centra sua conclusão em que o limite de dois graus “não é mais possível por meio de mitigação gradual, mas apenas através de cortes profundos nas emissões, ou seja, reduções não-marginais no nível de mudança qualitativa.
“Uma premissa fundamental da economia neo-clássica contemporânea é que os mercados (incluindo os mercados de carbono) só são eficientes na alocação de recursos escassos, quando as mudanças que estão sendo considerados são muito pequenas – ou seja, marginais.
“Para termos uma boa chance de ficar abaixo de dois graus Celsius”, Anderson observa, “as emissões futuras do sistema energético da União Européia … necessitam de redução a taxas de cerca de 10 por cento ao ano – uma mitigação para colocá-las muito abaixo do que a redução marginal que os mercados são capazes de nos oferecer.”
Se forem feitas tentativas de assegurar essas reduções por meio de métodos de cap-and-trade, argumenta, “o preço do carbono será quase certamente muito além de tudo do que possa ser descrito como marginal (provavelmente muitas centenas de euros por tonelada) – daí os argumentos de ‘eficiência’ e os ‘benefícios de menor custo’alegados pelos que defendem o mercado já não se aplicam.”
Ao mesmo tempo, as implicações do ponto de vista da equidade e justiça social seriam devastadoras. Andersonressalta:
“O preço do carbono poderá ser sempre pago pelos ricos. Podemos comprar um 4WD/SUV ligeiramente mais eficiente , reduzir um pouco nossos voos frequentes, considerar ter uma casa de veraneio menor, mas no geral nós continuar com nossas vidas como de costume. Enquanto isso, as camadas mais pobres da nossa sociedade … teriam que fazer ainda mais cortes no aquecimento e na energia em suas moradias alugadas, inadequadamente isoladas termicamente e mal projetadas”.
A agenda da energia
No curto prazo, Anderson argumenta, uma “agenda de energia para dois graus” requer “reduções rápidas e profundas na demanda de energia, com início imediato e continuação por pelo menos duas décadas”. Isto permite ganhar tempo enquanto um sistema de abastecimento de energia de baixo carbono é construído. Um “plano radical” para redução de emissões, ele indica, está entre os projetos em curso no âmbito do Centro Tyndall.
O custo dos cortes de emissões, insiste, precisa recair “naquelas pessoas principais responsáveis pelas emissões”. Como citado pela escritora Naomi Klein, Anderson estima que 1-5 por cento da população é responsável por 40-60 por cento das emissões de carbono.
Embora não rejeitando mecanismos de preços num papel de apoio, Anderson argumenta que o volume necessário de cortes de emissões só pode ser alcançado através de regulamentos rigorosos e cada vez mais exigentes. Sua “lista provisória e parcial” inclui o seguinte:
• Padrões de energia/emissões estritos para os eletrodomésticos, automóveis, etc., com uma sinalização clara para o mercado de que tais normas irão apertar anualmente, por exemplo começando com restrição de 100gCO2/km para todos os carros novos a partir de 2015, reduzindo em 10 por cento a cada ano até 2030.
• Normas de fornecimento de energia estritas, por exemplo, para 350gCO2/kWh na geração de eletricidade como o nível de emissões médio da carteira de um fornecedor de centrais elétricas; com redução em torno de 10 por cento ao ano.
• Um programa de implantação de normas de energia/emissão rigorosas para equipamentos da indústria.
• Padrões de eficiência mínima rigorosos para todas as propriedades para venda ou aluguel.
• Um padrão mundiais de baixa energia para todas as casas novas construções, escritórios, etc.
Fazer valer esses padrões radicais, argumenta ele, “pode ser alcançado, pelo menos inicialmente, com as tecnologias existentes e com pouco ou nenhum custo adicional”.
Crescimento econômico
Para se ter uma chance razoável de manter o aquecimento abaixo de 2 graus, Anderson defende, os países ricos teriam de abrir mão de crescimento econômico por pelo menos dez a vinte anos. Aqui, ele se baseia na sabedoria convencional de “modeladores de avaliação integrada” – e pode estar bastante errado. O americano Joseph Romm, blogueiro líder em clima, no ano passado, chegou a conclusões bastante diferentes:
“A última revisão do IPCC da literatura econômica dominante mostra que mesmo para a estabilização em níveis de CO2 tão baixos quanto 350 ppm, os custos médios macroeconômicos globais em 2050 correspondem a uma desaceleração do crescimento médio anual do PIB mundial em menos de 0,12 ponto percentual. Deveria ser óbvio que o custo líquido é baixo. O consumo de energia é responsável pela esmagadora maioria das emissões e os custos de energia são tipicamente cerca de 10 por cento do PIB”.
Numa conjuntura em que não faltam trabalhadores desempregados e grande parte da capacidade industrial mantém-se não utilizada, mobilizar recursos e mão de obra para substituir equipamentos poluentes poderia aumentar drasticamente o Produto Interno Bruto. Além disso, essas contas precisam considerar os absurdos do próprio PIBcomo uma ferramenta de medição, já que conta a construção de presídios e o desenvolvimento de sistemas de armas como atividades produtivas. Anderson destaca algumas dessas contradições, quando afirma:
“As taxas de mitigação bem acima dos 3 a 4 por cento ao ano dos economistas ainda podem revelar-se compatíveis com alguma forma de prosperidade econômica.”
Na verdade, reconstruir nosso sistema industrial ineficiente e poluente poderia permitir que a grande maioria de nós pudesse levar uma vida mais rica e mais gratificante.
Represálias
Onde Anderson não está errado é em antecipar, em vários momentos, no seu blog e em entrevistas, que qualquer movimento sério para reduzir as emissões com as taxas exigidas irá encontrar resistência feroz. Ativos industriais principalmente gigantescas usinas movidas a combustível fóssil, ficariam “encalhados”. Reservas já comprovadas de carvão, petróleo e gás terão de ser deixadas no chão.
Como os cientistas acusados em 2009 no caso espúrio do “Climategate”, as pessoas que falaram na Conferência de Redução de Emissões Radical agora esperam sentir as queimaduras do maçarico das represálias conservadoras.
Junto com Anderson e Bows-Larkin, é provável que um alvo em particular seja o diretor do Centro Tyndall, ProfessorCorinne Le Quéré, que apresentou o caso científico para a redução de emissões rápidas. Quatro acadêmicos australianos que contribuíram via rede, inclusive o cientista do clima Mark Diesendorf, já estão sob ataque pessoal venenoso por parte do Daily Telegraph.
O “crime” cometido pelos pesquisadores do Centro Tyndall é muito maior do que os e-mails vagamente formuladas que foram apreendidos em como pretexto para “Climategate”. Com outros membros da comunidade científica do clima, essas pessoas corajosas têm desafiado a ideia de que corporações poluidoras e os governos que as apoiam dão a mínima para a preservação da natureza, da civilização e da vida humana.