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terça-feira, 27 de abril de 2010

EUA travam ''guerra de videogame





A mais de 10 mil quilômetros do Paquistão e do Afeganistão, confortavelmente sentados em suas poltronas, em centros de controle nos Estados Unidos, soldados americanos estão travando uma guerra de controle remoto.

A reportagem é de Patrícia Campos Mello e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 25-04-2010.

De uma base militar em Nevada, a uma hora de Las Vegas, e do quartel-general da CIA, em Langley, esses americanos pilotam Predators e Reapers - as principais aeronaves de pilotagem remota (RPAs) - que sobrevoam zonas tribais do Paquistão e confins do Afeganistão. Segundo o Pentágono, boa parte da liderança do Taleban e da Al-Qaeda foi morta com mísseis e bombas disparados por essas aeronaves. O problema é que esses ataques não são cirúrgicos.

Embora sejam seguros para os americanos e eficientes contra a Al-Qaeda, os danos colaterais são enormes: segundo entidades de direitos humanos, entre 30% e 70% das mais de 1.000 vítimas dos ataques desde 2006 são civis inocentes.

Há mais de 7 mil RPAs americanas sendo usadas no Afeganistão, Paquistão e Iraque. É difícil precisar, mas calcula-se que a vida de milhares de soldados americanos foi salva com o uso desses jatos, disse ao Estado Peter Warren Singer, diretor do Centro de Defesa do Século 21 no Brookings Institution.

Mas os desafios morais e éticos representados por essa guerra de videogame são enormes. O sentimento antiamericano na região está crescendo por causa dos ataques dos RPAs. Uma música de rock popular no Paquistão diz que os americanos travam uma guerra sem honra, na qual nem arriscam suas vidas nem lutam cara a cara.

Esse sentimento antiamericano e as centenas de mortes de civis levam as populações locais a apoiarem os insurgentes - o que acaba minando os esforços dos EUA para ganhar a guerra.

Investimento

Mesmo assim, a disseminação dos RPAs é inexorável, diz Singer. Um terço do futuros aviões da Força Aérea dos EUA será não tripulado. O avanço da guerra de videogame não se restringe aos EUA - 43 outros países também estão construindo, comprando e usando RPAs, entre eles, o Irã. Um MQ1, nome técnico do Predator, tem 8 metros de comprimento, tipicamente carrega dois mísseis Hellfire, um embaixo de cada asa, cada um pesando 45 quilos. O sistema todo custa US$ 20 milhões. Um MQ9, ou Reaper, tem 17 metros, pode levar entre 2 e 4 bombas de 230 quilos cada uma, ou mísseis Hellfire. Custa US$ 53 milhões. O orçamento de 2010 do Departamento de Defesa aloca US$ 3,5 bilhões só para RPAs. Houve um aumento de 800% no número de RPAs desde 2004.

No caso da Força Aérea, a grande maioria das missões de RPAs é para reconhecimento e vigilância. Em poucos casos, os Predators e Reapers atacam com mísseis e bombas inimigos identificados por forças americanas no fronte.

Já os ataques contra insurgentes no Paquistão são conduzidos pela CIA. Trata-se de uma guerra clandestina, cuja existência não é abertamente admitida pela Casa Branca, que não precisou pedir autorização ao Congresso e nem presta contas disso.

Em texto para a revista Foreign Affairs, Daniel Byman, diretor do Centro de estudos de Segurança da Universidade Georgetown, diz que os ataques de RPAs vêm reduzindo a ameaça da Al-Qaeda pelo menos temporariamente, e por isso são a "alternativa menos ruim" no momento. "Mas apesar de todas as precauções, ataques contínuos de Predator vão matar civis inocentes, além do inimigo", disse Byman.

Philip Alston, investigador especial do conselho de Direitos Humanos da ONU, elaborou um relatório sobre as mortes de civis causadas por ataques de RPAs americanos em 2009. "O governo americano deveria monitorar o número de civis mortos em seus ataques com aeronaves não tripuladas e limitar danos colaterais", afirmou Alston. Segundo ele, o uso "cada vez mais frequente" de RPAs pelos EUA é "preocupante".


''Isso aqui não é videogame. Essas aeronaves podem matar''


David Sullivan, comandante do 17º Esquadrão de Aeronaves de Pilotagem Remota, foi entrevistado por Patrícia Campos Mello para o jornal O Estado de S. Paulo, 25-04-2010.

D. Sullivan foi piloto de caças como o F15-C Eagle e F-117 Nighthawk, em lugares como Kosovo, Sérvia, e Okinawa, no Japão. No fim de 2005, Sullivan mudou-se para Nevada, onde assumiu como o comando do 17º Esquadrão de Aeronaves de Pilotagem Remota (RPAs, na sigla em inglês). Ele pilota caças de controle Reapers (MQ9) e Predators (MQ1), que voam no Afeganistão e no Iraque.

Eis a entrevista.

Você já pilotou caças convencionais e aeronaves de pilotagem remota. Qual é a diferença?

Nos de controle remoto, não temos a sensação de movimento e nem visão tridimensional. Ficamos na estação de controle olhando para duas telas de computador a nossa frente, uma acima da outra, e duas ao nosso lado. Mas eu cheguei à conclusão que o cérebro humano consegue se projetar em um cenário. Apesar de estarmos a quase 13 mil quilômetros do local, quando o rádio começa a funcionar e passamos a ouvir as tropas no fronte, fazendo patrulhas e dirigindo comboios, passo a ter as mesmas reações fisiológicas e emoções que eu tenho quando estou pilotando um caça.

São exatamente a mesma adrenalina e ansiedade?

Temos sensações muito parecidas, as palmas das mãos ficam suadas, a audição fica mais sensível, particularmente quando soldados no fronte estão sendo atacados ou estão chegando perto do local onde o inimigo está. Quando determinam que eu devo disparar um míssil ou jogar uma bomba, as sensações são iguais a quando eu tive de disparar mísseis na Bósnia ou em Kosovo.

A diferença é que você está sentado na base em Nevada, tomando um cappuccino, em vez de estar dentro do caça desviando de inimigos.

Mesmo nos centros de controle das bases, não dá tempo de fazer nada que se pareça com relaxar. Os pilotos não estão tomando cappuccinos, não estão batendo papo com os colegas, estão muito ocupados e sérios. Aliás, a gente fica até mais ocupado do que pilotando um caça tradicional, porque você não pode olhar pela janela nem para checar o tempo, você tem várias telas de computadores e várias pessoas falando com você ao mesmo tempo, pelo fone de ouvido, mandando mensagens instantâneas, tipo chat.

Você usa um joystick?

Sim, joystick e manete de aceleração, como em um caça normal.

Apesar da tecnologia, muitas vezes há enganos e mortes de civis.

Ás vezes as armas não são previsíveis, elas são mecânicas, quebram, estilhaços causam mortes. E outras vezes, o ataque é em lugares tão apertados e fechados, que para salvar vidas de americanos, temos de usar armas que podem atingir civis. E, por fim, erros acontecem. Às vezes, pessoas no fronte identificam um alvo como inimigo, mas se enganam.

Você acha que essas máquinas vão substituir totalmente os caças com pilotos?

Acho que a Força Aérea será composta predominantemente de estruturas que terão um caça principal, com piloto, e todos os outros caças da formação serão pilotados remotamente. Mas para as missões mais complexas, sempre será necessário ter um humano.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Robôs para suprir a falta de seres humanos



Na maioria dos filmes norte-americanos de ficção-científica, os robôs costumam representar certo perigo para a humanidade, em alguns inclusive chegam a governar o planeta Terra acima dos seres humanos. Por outro lado, em filmes e na manga japonesa os robôs costumam ser criaturas amáveis, empáticas e com sentimentos. São seres benévolos e inclusive heróicos. Por exemplo, em algumas séries de desenho animado, os robôs ajudam a humanidade a salvar o nosso planeta das ameaças de extraterrestres. A maioria dos japoneses gosta da ideia de uma sociedade na qual os robôs tomem cada vez mais protagonismo auxiliando-os na vida diária.

A reportagem é de Héctor García e está publicada no jornal espanhol El País, 24-12-2009. A tradução é do Cepat.

Há uma previsão de que a população do Japão passe dos atuais 127 milhões de habitantes para 103 milhões, em 2050. Esta previsão é otimista quanto às taxas de natalidade e de imigração. Trata-se de uma diminuição de população sem precedentes na história da humanidade e que já está afetando a economia do país.

Atualmente, o Japão é o país com maior população de robôs do mundo. Em todo o planeta há 1.000.056 robôs industriais em funcionamento, de acordo com o censo realizado pela Federação Internacional da Robótica. Quase a terça parte destes robôs, 298.000 unidades, está no Japão, 166.000 nos Estados Unidos, Canadá e México, e 336.000 na Europa. O mercado da robótica industrial representou em 2008 mais de 9 bilhões de euros, e 79% deste mercado é controlado por corporações japonesas, sendo a maior delas a Kawasaki, mais conhecida no Ocidente por suas motos que por seus robôs.

Anos atrás se debatia o problema que poderia supor que os robôs tirassem trabalho dos seres humanos, o que aumentaria as taxas de desemprego. No Japão, o irônico é que a falta de seres humanos está fazendo necessário que os robôs os substituam sem afetar minimamente a taxa de desemprego. Os robôs se converteram em parte da mão-de-obra do país. A Toyota é a empresa do mundo que mais robôs industriais tem em funcionamento e é também a empresa que os utiliza com maior eficiência. As linhas de produção da Toyota são as mais rápidas do mundo; seus robôs podem construir um carro em horas sem nenhuma intervenção humana.

Outro tipo de robô que está começando a suprir a falta de pessoas são os robôs de serviço. O Japão enfrenta uma grande falta de enfermeiros e enfermeiras. Uma consequência do envelhecimento da população é que cada vez há mais pessoas que ingressam em hospitais e centros geriátricos. A falta de jovens que possam trabalhar assistindo a anciãos se resolve com robôs capazes de ajudar uma pessoa a se levantar da cama e acompanhá-la até o banheiro ou fritar-lhe um ovo.

Defesa, resgate, segurança e logística, são outros setores nos quais os robôs de serviço vão cobrando protagonismo. Já há vários casos em que os robôs foram os heróis de um resgate, sobretudo em casos de terremotos.

Entre robôs industriais, robôs de serviço e robôs domésticos se calcula que há uma população ativa de mais de cinco milhões de robôs no Japão. Para o final da próxima década as estimativas dizem que serão mais de 30 milhões. Os robôs estão cada vez mais presentes em nossa vida diária, não só no Japão, mas em todo o mundo. Estão aqui para facilitar a nossa vida e, de forma indireta, estão mudando as regras do jogo na sociedade e na economia, assim como o fizeram os computadores na segunda metade do século XX.


sábado, 5 de dezembro de 2009

Para além da natureza e da cultura




Abaixo, três matérias recentes e que, lidas em conjunto, parecem oferecer algum sentido comum.

Deixo para a inteligência e imaginação do leitor do Blog estabelecer as possíveis conexões...


Internet das coisas: uma revolução na web


O nome já diz tudo. “Internet das coisas” é aquela que irá se conectar à objetos físicos: de um talão de cheques à uma bicicleta. A transição para a web 3.0 cobrirá toda a infra-estrutura necessária (hardware, software e serviços) para suportar esta rede de conexão de objetos. O professor e pesquisador do PPG em Design da Unisinos, Gustavo Fischer, conversou com o IHU sobre o assunto. Em outubro do ano passado a Comissão Européia lançou uma consulta pública que propunha ações para que a região lidere esta “passagem”. As previsões da Europa são de que as primeiras soluções estarão no mercado em cinco anos.

Esta conexão de objetos permite que eles próprios tenham um papel ativo no processo de informação, já que além de fazerem a troca de dados, terão a capacidade de comportarem sua identidade, com as propriedades físicas e informação sobre o ambiente. Será possível, por exemplo, o uso de sensores para o controle de energia e temperatura nas residências, ou a captação de informações sobre os produtos em exposição nas lojas.

Do ponto de vista sociológico, o uso de objetos com essas características possibilita a redução de uma visão inicial e preconceituosa que “divide” o mundo em ambiente real e virtual, segundo o professor. Para ele, ao tornarmos os objetos mais “clicáveis” estaremos tornando a idéia de rede de dados menos submissa às lógicas de um aparelho preso à mesa, ou mesmo a dispositivos móveis convencionais. “A idéia apressada de entender a internet como potencializadora do isolamento e do individualismo ficará ainda mais relativizada. Por outro lado, há sim que se ter uma preocupação com o quanto que esse processo tensiona o campo das privacidades individuais e/ou coletivas. A internet foi fundada na dicotomia entre liberdade e proteção e parece que a cada nova "onda" de soluções advindas dela, essa lógica ou dicotomia se renova”, afirma Gustavo.

A “internet das coisas” permite, ainda, uma integração entre objetos, fazendo com que eles “saibam” a localização uns dos outros e se comuniquem. Para o professor ainda é prematuro tecer afirmativas definitivas sobre como essa prática pode modificar nosso cotidiano, mas a primeira idéia a ser pensada é a de que passaremos a visualizar o espaço e os objetos ao nosso redor com um conjunto de lentes distintas que poderão ser usadas isoladamente ou em conjunto. “Por exemplo: ao dotar um parque com diversos dados (histórico das manifestações que ali já ocorreram) passamos a passear por um território informacional e, eventualmente, poderemos não apenas "ler" os dados previamente colocados ali ligados a serviços, mas quem sabe acrescentar nossas próprias narrativas das cidades (imagens, histórias)”, explica.


Carne para todos: surge na Holanda o bife hi-tech


É a descoberta que potencialmente poderia abrir a porta para a solução do problema da fome no mundo: carne artificial, produzida em laboratório. Pode-se produzir quanto for necessário, sem limites e até sem o carregamento de emissões de gás nocivos que acompanha os métodos tradicionais usados até hoje, durante milhares de anos, para colocar na mesa essa comida fundamental, isto é, a criação de bovinos ou de outras espécies.

A reportagem é de Enrico Franceschini, publicada no jornal La Repubblica, 01-12-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Já haviam sido feitos outros avanços, mas agora, pela primeira vez, os cientistas anunciaram que a experiência foi realizada perfeitamente: pesquisadores da Universidade de Eindhoven, na Holanda, anuncia o jornal londrino Daily Telegraph, "criaram" um bife de porco fazendo-o crescer a partir de um tecido, um músculo de suíno, imerso em uma espécie de caldo derivado do sangue de fetos animais.

"Perfeitamente" obtido, exceto por uma particularidade de uma certa importância: ninguém submeteu o primeiro bife artificial da história a um teste, ou seja, ninguém o provou. A opinião dominante é que não teria sido acolhida com críticas entusiásticas, mas os especialistas estão convencidos de que o produto é rapidamente melhorável e que poderá ser comestível, de modo a ser lançado no mercado, colocado em venda nos supermercados e lojas de produtos alimentícios dentro de cinco anos.




"O que temos neste momento é o equivalente de um tecido muscular de descarte", diz o professor Mark Post, professor de fisiologia da Universidade de Eindhoven e principal autor da descoberta. "Temos que encontrar a forma de melhorá-lo, mas acreditamos que podemos chegar a isso em tempos relativamente breves. Esse produto fará bem ao meio ambiente e reduzirá os sofrimentos dos animais. Se tiver o aspecto e o gosto da carne, as pessoas irão comprá-lo e comê-lo".

A equipe de pesquisadores liderada pelo professor Post extraiu células do músculo de um porco vivo para depois submetê-lo aos procedimentos de laboratório necessários para fazer com que crescesse um pedaço de carne artificial. As células se multiplicaram no "caldo" de sangue de fetos animais e criaram um novo tecido muscular. O projeto, que tinha o apoio do governo holandês e de uma empresa produtora de salsichas, segue a criação de filés de peixe obtidos de células musculares de pequenos peixes.

As primeiras reações, porém, são discordantes. Na Grã-Bretanha, um porta-voz do Peta, um grupo que luta pela defesa dos direitos dos animais, comenta: "No que se refere a nós, se a carne não é mais um pedaço de animal morto, nós não temos nenhuma objeção de caráter ético". Mas um comunicado da Vegetarian Society, a associação britânica dos vegetarianos, se questiona como "é possível garantir que aquilo que se está comendo é carne artificial em vez de ser carne de um animal mandado ao açougue".

O surgimento da carne crescida em laboratório, indica o Daily Telegraph, poderia reduzir os bilhões de toneladas de gases nocivos emitidos a cada ano pelos animais de criadouros e, ao mesmo tempo, poderia ajudar a satisfazer o constante crescimento da demanda mundial de carne que, segundo estimativas das Nações Unidas, irá dobrar até 2050.

Críticas ao experimento chegaram também do lobby antialimentos geneticamente modificados. Justamente na semana passada, o príncipe Charles, da Inglaterra, um tenaz opositor dos alimentos geneticamente modificados, declarou que iniciativas desse gênero criam um problema, porque "tratam os alimentos como uma mercadoria e não como um precioso dom da natureza ao homem". Sobre o tema, registram-se reações semelhantes também em outros países.

E enquanto isso uma pesquisa divulgada no Reino Unido indica que os homens são mais carnívoros que as mulheres: comem o dobro de carne e são menos conscientes dos riscos para a saúde de uma alimentação à base de gorduras animais.




Nano-agricultura: efeitos gigantescos sobre o crescimento das plantas


Os nanotubos de carbono vêm ocupando os dois lados de uma polêmica no mundo científico há vários anos: de um lado, eles são vistos como um dos materiais mais promissores já encontrados pela ciência, com utilizações possíveis que vão da eletrônica até materiais super-resistentes e ultra leves.

A reportagem é do sítio Inovação Tecnológica, 03-12-2009.

No outro lado da polêmica estão os eventuais efeitos que os nanotubos podem ter sobre a saúde humana. Sendo menores do que as células, alguns estudos apontam que eles possuem uma toxicidade potencial que supera largamente a do já quase totalmente banido amianto.

Nanotubo, hipercrescimento

Mas, de acordo com uma pesquisa feita na Universidade do Arkansas, quando se trata de células vegetais, mais especificamente de sementes de tomate, os nanotubos têm efeitos que podem revolucionar a agricultura, com um potencial gigantesco de elevação da produção.

Os cientistas descobriram que as sementes de tomate expostas aos nanotubos de carbono de parede única - tubos de carbono cuja parede tem um único átomo de espessura - germinaram mais rapidamente e geraram mudas muito maiores e mais fortes do que as sementes da mesma linhagem que não passaram pelo tratamento.

Segundo os pesquisadores, esse efeito de incremento no crescimento dos vegetais pode representar uma revolução na produção de biomassa, seja de alimentos, seja de vegetais para a produção de biocombustíveis.

Nano-agricultura

A descoberta inaugura o campo da nano-agricultura, a aplicação da nanotecnologia ao cultivo industrial de vegetais.

A análise das sementes indica que os nanotubos de carbono penetram na camada externa mais dura das sementes, eventualmente elevando a capacidade de absorção de água, o que poderia explicar o estímulo ao crescimento da planta.

"Os efeitos positivos dos nanotubos de carbono sobre a germinação das sementes poderão ter importância econômica significativa para a agricultura, a horticultura e para o setor de energia, na produção de biocombustíveis," afirmam os pesquisadores.

Os resultados ainda são primários e a interpretação das razões que levaram ao maior crescimento das plantas ainda deverá ser objeto de novos estudos. A seguir, os cientistas deverão avaliar o destino dos nanotubos de carbono depois que as plantas crescem.




Fontes:

http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=28029

e

http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=27992



segunda-feira, 22 de junho de 2009

Imaginando o cérebro do futuro


Cérebros, computadores, circuitos elétricos e químicos, e comunicação, sobretudo entre cérebros e computadores. Esses são os temas que nos deixam pasmos, crendo que vivemos um instante de ficção científica. Roberto Etchenique, doutor em química e pesquisador do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas (Conicet) da Argentina, aborda essas temáticas nesta entrevista a Leonardo Moledo, do jornal Pagina/12, 17-06-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

"No mundo, existem dois grandes tipos de sistemas de informação. Um são os computadores, que são mais ou menos todos descendentes do primeiro computador digital, na década de 40. O outro grande grupo são os cérebros, todos descendentes de um organismo com gânglios neurais e com sistema nervoso que já tem entre centenas e milhares de milhões de anos."

Há um conto de Asimov em que existe outra inteligência no mundo.

Bem, eu acredito que há muitos mais sistemas de informação no universo, mas não acredito que haja outro sobre a face da terra. Há, sim, computadores analógicos que resolvem pequenos problemas, mas vão desaparecendo. A relação que temos atualmente entre os cérebros e os computadores (digitais) é muito díspar. O maior computador que existe até este momento tem a complexidade do cérebro de uma abelha. O cérebro de um homem ou de um golfinho é milhões de vezes mais complexo que o melhor computador. Agora estão começando a ser feitos computadores cem vezes maiores do que o de uma abelha, com o que nos aproximaríamos do cérebro de um peixe. Mas nem de longe ao cérebro de um rato.

Uma coisa que podemos colocar em consideração é como nos comunicamos com o cérebro e o computador. Em todo o mundo, nós nos vinculamos com o computador através de duas coisas: do mouse e do teclado. Eles nem sequer entendem a voz humana. A interface que temos com o mundo dos computadores é uma interface tosca, primitiva. Os nossos cérebros, pelo contrário, operam com outros cérebros (de outros homens ou de um cachorro, por exemplo) mediante sinais mecânicos (auditivos ou por meio da luz visível através dos olhos).

Seria interessante poder nos comunicarmos com os computadores assim como nos relacionamos com os nossos próprios cérebros. Vejamos um exemplo: se eu penso na multiplicação de 8 vezes 7, vem à mente o número 56. Por outro lado, se penso no cosseno de 22º, não surge nada à mente. Pois bem: se eu pudesse comunicar um computador com um cérebro, poderíamos pensar no seno de 22º, e o número viria à mente. Se nos comunicássemos com um computador, poderíamos nos lembrar de imagens que de outra forma não nos lembramos.

O que o senhor diz, então, é que seria ideal ter um computador como prótese, trabalhando praticamente sem interface. Como os óculos...

Ou os livros. O livro é essencialmente informação conceitual. Poderíamos colocar essa informação conceitual no cérebro guardada em algum lugar e lê-lo rapidamente. Todas essas coisas têm uma linha condutora: como relacionar o computador e o cérebro. O computador lida com sinais elétricos, enquanto que o cérebro lida fundamentalmente com sinais químicos. Há sinais elétricos, mas esses sinais funcionam como interface entre dois sinais químicos: a comunicação elétrica é muito básica e de baixa qualidade de informação. O cérebro lida bem com o circuito químico e pode modificá-lo: quando aprendemos, modificamos a forma que o nosso cérebro tem para enviar sinais químicos a outro lugar. O que eu faço no laboratório é tentar desenhar sistemas que permitam a comunicação entre os sinais químicos e os elétricos. Pegamos o cérebro (geralmente de um animal), colocamos eletrodos nele, recuperamos alguns neurônios e monitoramos o que acontece.

E fazem isso com cérebros de animais?

Fazemos com rodelas de cérebro de rato ou com cérebros de sanguessuga. A vantagem que a sanguessuga tem é que ela tem cerca de 20 cérebros e que, além disso, por ser um animal tão imundo, não dá pena.

Fazem esses experimentos com anestesia prévia?

Com a sanguessuga, não; com o rato, sim. De fato, depois da experiência, o rato vive normalmente. Podemos ver o que acontece no cérebro do rato por meio de elementos que mudam sua fluorescência quando os neurônios estão agitados. Podemos, dessa forma, mandar informação ao cérebro e receber informação. Com as técnicas que são usadas, só falta deixar uma janela transparente para que a luz passe (nisso consiste a operação que é feita na sala de cirurgia antes do experimento: em deixar uma janela transparente).

E então?

Entre isto que eu estou lhe contando e a compreensão cabal dos códigos que os cérebros usam, há uma distância enorme. Hoje sabemos que todos os computadores, mais ou menos, têm os mesmos códigos. Não estamos tão certos de que isso mesmo ocorra com o cérebro. A diferença de circuitos entre dois humanos diferentes é muito maior do que a diferença de circuitos entre dois PCs. Nossos drivers, provavelmente, vão se gerando pouco a pouco ao longo da vida. Há casos médicos para exemplificar: pessoas que nasceram cegas, que lhes foi diagnosticada (mal) uma cegueira cerebral na década de 40 (quando, na verdade, o que elas tinham era uma simples catarata), são operadas na década de 70 e voltam a ter olhos que funcionam. Mas, no entanto, continuam sem ver: o próprio cérebro rejeita os olhos. Tendo estado privado dessa função durante 30 anos, o cérebro usa o espaço para outra coisa. Se eu me dediquei 20 anos a provar vinhos, tenho uma parte do cérebro desenvolvida que outros não têm. Não está claro se, ao tomarmos essa parte desenvolvida de um cérebro e a extrapolarmos a outro, essa informação vai ser processada.

Eu pensava em coisas mais básicas...

Há uma experiência interessante que se faz com um macaco. Conectam-se eletrodos na cabeça, e imobiliza-se o macaco em uma cadeira. O macaco está conectado a um computador, que está conectado a um braço mecânico. O macaco aprende que, se pensar em determinadas coisas, o braço mecânico se mexe e leva a banana à sua boca. De alguma forma, o computador detecta como o cérebro codifica a informação que envia aos braços, ou às diferentes extremidades, para agarrar alguma coisa. Isso tem implicações médicas muito fortes, como é de se imaginar. O maior problema não é entender o que é a consciência, ou a inteligência, ou os códigos, mas sim coisas mais banais como entender de que maneira pode-se evitar que o sistema imunológico rejeite os eletrodos implantados. Pouco a pouco, isso vai sendo solucionado.

E o que estão fazendo especificamente no laboratório?

Estamos tentando fazer compostos para espiar esses cérebros que funcionam com luz visível. O que existe até agora são compostos que funcionam com luz ultravioleta (que destrói o tecido celular). Neste momento, temos os compostos para serem usados com luz visível mais eficientes do mundo.

Todas essas pesquisas são inquietantes. Por exemplo, penso que seria maravilhoso aprender um idioma mediante um chip. Mas há outras coisas, como por exemplo os livros. O livro parece uma invenção que não pode se modificar muito, como o copo para tomar água. Modifica-se o material, um pouco a forma, mas a essência é a mesma.

Bem, agora está mudando um pouco. Os primeiros livros, logo que a imprensa foi criada, tentavam imitar o pergaminho. Com o tempo, deram-se conta de que isso não servia para nada, que o importante são as letras que eles têm dentro. Atualmente, o suporte do livro está mudando: não resta muito tempo ao papel. O problema de Botnia não é gerado porque a humanidade é boa e a Finlândia é má. Ele é gerado porque as pessoas querem papel, e as fábricas de papel mais contaminadoras são as de papel bom, o que significa encher o ambiente com compostos cheios de enxofre e mal-cheirosos.

Como o livro está mudando?

Hoje, estamos indo rumo a um livro vergonhoso e de má qualidade e que funciona muito mal (talvez tão mal como o livro de Gutenberg) que é o e-book, o livro que é como uma telinha, onde se pode virar as páginas. Mas ele tem pouca luz, má resolução, o livro é grande, caro e pode ser roubdo no metrô. Não é uma excelente alternativa. Pois bem: isso provavelmente irá mudar, vai ficar mais barato, melhorar. De todos os modos, vai continuar sendo mais ou menos o mesmo. Palavras.

Palavras, palavras, palavras.

O que muda é o suporte material. A essência do livro não é o papel, isso mudou: foi pedra, foi argila, foi papiro, foi pergaminho. A próxima será silício (não acredito que dure muito) e depois, por que não, nada. Como no filme Fahrenheit 451, em que cada um aprendia um livro de memória.

E depois, pode-se compartilhá-lo. Por que não lembrar os livros? Não todo o tempo, mas sim quando queremos. Tê-los incorporados dentro de nós e acessá-los. Alguém pode pensar que isso nos torna um pouco andróides, pouco humanos. Sim: como os óculos.

Dá a sensação de que são um pouco mais do que os óculos.

Mas, provavelmente, em seu momento, os óculos eram mais do que óculos. Eram mais avançados, por exemplo, do que um bastão.

O que eu me pergunto é se esse tipo de coisas não é uma extrapolação um pouco exagerada para este momento. Por exemplo: os óculos estão muito bem, mas colocar um microscópio e um telescópio no olho...

Se fosse possível, oticamente, quantas pessoas veriam com microscópio e telescópio? Todo mundo! Ou por acaso não temos um celular na mãe desde que foi possível? Não é algo normal. Não é normal que um ser humano fale com outro ser humano que esteja na outra face da Terra. Os seres humanos não evoluíram para isso.

Não biologicamente, mas sim culturalmente.

Nos últimos 200 ou 300 anos. A cultura do último milhão de anos do ser humano foi viver em bandos de 50 pessoas e matar o inimigo.

Eu não digo que tenho uma objeção. Acho que, talvez, é uma coisa desnecessária. O livro, salvo pelo problema das florestas, parece que alcançou uma estabilidade que não sei se é preciso modificar. A pergunta é se não estamos indo um pouco longe. Mesmo que faltem séculos para acessar essa tecnologia quase de ficção científica.

Sim...

Sim. Eu imagino um supercomputador parecido com o que Asimov descreve em "A Fundação e a Terra": uma mesa com algumas mãos desenhadas; alguém coloca as mãos, logo sente que essas mãos se afundam e ali está em contato com o computador, que projeta um mundo virtual sobre sua mente. É completamente externo: o indivíduo não tem nada, conecta-se por meio de suas mãos. É uma espécie de realidade virtual.

Há outro problema, que é de que não sabemos quase nada sobre o cérebro.

É verdade. Sabemos coisas muito toscas.




União com máquinas vai libertar o cérebro do corpo

O desenvolvimento da neurociência deverá libertar o cérebro do corpo e permitir, por exemplo, que seres humanos explorem o espaço usando máquinas capazes de transmitir movimentos e sensações. A previsão foi feita pelo do neurocientista paulistano Miguel Nicolelis. "Em muito menos de 30 anos, você vai conseguir ter a sua presença à distância". Diretor do Centro de Neuroengenharia da Universidade Duke (EUA) e do Instituto Internacional de Neurociência de Natal Edmond e Lily Safra, Nicolelis disse também que está "à beira de demonstrar que é balela" a ideia de que o córtex cerebral se divide em áreas.
O pesquisador é pioneiro no estudo de interações entre cérebro e máquina, e já realizou proezas tecnológicas como fazer um robô no Japão andar impulsionado por ondas cerebrais de uma macaca nos EUA. O objetivo do trabalho é desenvolver próteses neurais que permita a pessoas paralisadas andarem novamente. Nicolelis foi entrevistado pelos jornalistas Gilberto Dimenstein, membro do Conselho Editorial da Folha e Hélio Schwartzman, articulista do jornal, e pela neurocientista Suzana Herculano-Houzel, da UFRJ. A mediação foi de Claudio Angelo, editor de Ciência.

Trechos da entrevista publicados pelo jornal Folha de S.Paulo, 10-06-2009.

O cérebro unificado

Nós vamos publicar daqui a poucas semanas registros do córtex visual em que 12% das células respondem à informação tátil e vice-versa. Faz cem anos que essa ideia [de que o cérebro se divide em "casinhas", cada uma com uma função] se cristalizou. Nós estamos à beira de demonstrar que isso é balela. A função, no cérebro, não é determinada geograficamente. Ela é determinada de acordo com as demandas da tarefa que se impõe ao cérebro. Então, se uma pessoa perde a visão e ela tem que navegar pelo mundo sem o sistema visual, ela remapeia o atributo táctil por todo o córtex, inclusive o visual. Nós estamos abandonando essa ideia de que o cérebro é um grande mosaico e partindo para noção de que o cérebro é uma grande democracia.

Parkinson

[Sobre o tratamento contra Parkinson com estimulação elétrica desenvolvido por sua equipe na Duke.] Quando começamos a olhar para animais [camundongos] que desenvolviam um Parkinson muito violento e muito rápido, tudo levava a crer que a atividade do cérebro parecia uma crise epiléptica. Então falamos "isso é uma crise epiléptica, vamos tratá-la como se fosse uma". As vantagens de estimular atrás da medula espinhal são várias: é mais seguro, muito mais fácil, muito mais barato. Mas a grande vantagem, do ponto de vista teórico, é que muda a forma de olhar para o cérebro. Ao invés de tentar tratar um lugarzinho, que era o que a teoria anterior achava, você está tratando o circuito inteiro. Do ponto de vista filosófico, isso é uma mudança radical. Já temos os modelos para primatas prontos e nós vamos fazer boa parte desses estudos lá em Natal. Espero que, se os resultados em macacos forem tão bons quanto eles foram nos roedores, no ano que vem a gente começa a fazer esses estudos em humanos.

Corpo mecânico

O pensamento nada mais é do que uma onda elétrica pequenininha, se espalhando pelo cérebro, numa escala de tempo de milissegundos. O que fizemos [com primatas] foi descobrir que é possível ler esses sinais e extrair deles comandos motores capazes de reproduzir num braço mecânico ou numa perna robótica a intenção motora daquele cérebro.

Telecinesia

E nós fechamos o circuito: o macaco usou sinais do córtex motor para controlar a prótese e a prótese [usando sensores, quando o pé atinge o chão] mandou informação de volta sem usar o corpo para nada. O cérebro se libertou do corpo de vez. Isso quer dizer que, a longo prazo, nosso alcance como humanos vai mudar completamente. Você vai ter a chance de atuar voluntariamente em um ambiente a milhares de quilômetros da sua presença física. No futuro, em muito menos de 30 anos, você vai conseguir ter a sua presença à distância. A Agência Espacial Europeia analisou nossos trabalhos e concluiu que não tem sentido mandar humanos para Marte. Nós vamos de qualquer jeito, manda algo que nos represente pelos nossos pensamentos.

Universidades

Se estivesse na situação de um jovem hoje, pensaria muito antes de ir para a universidade. Ela precisa mudar demais, se reestruturar tremendamente. As divisões são do século 19, elas têm muito pouco a ver com a realidade. Precisamos criar mecanismos para acelerar e desburocratizar o processo de formação de cientistas. No mundo inteiro.

”Ciência do mal”

A ciência transformou-se em uma coisa misteriosa. Sempre que fazia uma palestra, a primeira pergunta era: "E se isso for usado para o mal?". Vejo na imprensa no mundo inteiro esse afã de "e se fizer um gene desses errado, vai surgir um Frankenstein que vai destruir a raça humana". Pode? Pode. Mas tudo pode. O Palmeiras pode ganhar o título neste ano. Mas as chances são remotas.

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sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Selecionado, bebê nasce na Inglaterra sem gene para câncer de mama




O primeiro bebê britânico selecionado para não ter um gene relacionado ao câncer de mama nasceu em Londres, informou nesta sexta-feira (9) o hospital do University College. O embrião que deu origem à menina passou por um diagnóstico pré-implante, para evitar que a criança tivesse uma variação do gene BRCA1, que aumenta o risco de câncer de mama ou de ovário.

Em junho do ano passado passado, a mãe, de 27 anos, decidiu recorrer à escolha genética após ver de perto o caso familiar. Três gerações de mulheres de sua família --entre elas sua avó, mãe, irmã e uma prima- tiveram o tumor diagnosticado. O marido também é portador do gene.

O diretor da Unidade de Reprodução Assistida do hospital, Paul Serhal, que não informou a data do nascimento, disse hoje que "a menina não terá que enfrentar o risco desta carga genética do câncer de mama ou câncer de ovário quando for adulta". A identidade dos pais criança não foi anunciada.

Sem a intervenção da ciência, a menina teria entre 50% e 80% de probabilidades de desenvolver o tumor. Por isto, a equipe médica examinou diversos embriões e selecionou os que estavam livres deste gene.

Cerca de mil bebês nasceram até agora se beneficiando deste método de seleção genética para eliminar a carga genética de outras doenças, como a fibrose cística ou a doença de Huntington.


Esse tipo de procedimento está proibido na Alemanha, Áustria, Itália e Suíça. Em compensação, é autorizado na Bélgica, Dinamarca, Espanha e Reino Unido. Na França é permitido apenas para detectar uma doença genética incurável, como a miopatia ou mucoviscidose.

Em 2006, o Reino Unido ampliou a possibilidade de recorrer ao diagnóstico, acrescentando a mutação genética BRCA 1.


Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u488217.shtml


terça-feira, 16 de dezembro de 2008

A massa



Por: Luiz Felipe Pondé

"Imaginem celulares e internet nas mãos nazistas! Seria esta uma contradição insuperável da modernidade? Sua eficácia técnica e burocrática repetiria a maldição atávica de Prometeu?", escreve Luiz Felipe Pondé, professor da PUC-SP, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, 15-12-2008. E continua perguntando: "Uma vez que fetos não são mais humanos, por que não usá-los em pesquisas de cosméticos ou remédios? Quem teria um argumento contra isso que não fosse miseravelmente metafísico, uma vez que a decisão legal tiver definido o que é humano e o que não é "na matéria da lei"? A tentativa de definir questões desse tipo como "problemas de saúde pública" é mera retórica que visa transparecer um halo de objetividade pré-moral. No fundo, é simples questão de dinheiro associada ao desejo de aniquilar o senso moral pra "baratear" o aborto".

Eis o artigo.

Leitores apressados identificam em mim um culto da escuridão. Pensam que me faltaria luz. Daí meu "pessimismo". Não, isso é um engano. Suspeito, sim, que levar as "luzes" a sério demais é sinal de pouca luz.

Confesso, não sou muito moderno. "Seria este colunista um retrógrado?", indaga-se o leitor apressado. Respondo: não se deve ter medo de ser anacrônico. Muitas vezes ser extemporâneo pode ser uma forma de consciência. Hoje, em meio à pressa do cotidiano, gostaria de partilhar com o leitor um desconforto. Há uma relação perigosa entre políticas de saúde e a estupidez das massas: chantagem emocional, humilhação moral, procedimento estatístico, opressão burocrática, constrangimento legal. O leitor apressado, movido por seus vícios, pensará que sou "contra" a saúde, mas não se pode fazer muito contra os vícios. Sei disso porque os tenho aos montes.

Enfrentaremos nos próximos anos novas formas de eugenia que a saúde de massa assumirá ao atingir o formato legal. A violência é invisível quando é legal. Recentemente li nesta Folha uma pequena nota que falava de um projeto da Organização Mundial da Saúde propondo políticas mais agressivas contra a Aids. Ironicamente diria que aí está um alerta para jantares inteligentes: jamais questione políticas como essa; melhor contar, entre dois goles de vinho, sua vida sexual com um pastor alemão.

Cientistas cogitam uma lei que obrigaria toda pessoa acima de 15 anos a fazer todo ano exame de HIV. Já vejo o documento do "HIV zero" com validade de um ano sem o qual você não tira passaporte, não saca dinheiro, não faz seguro de saúde, não casa, não herda. Por que não fazer o mesmo com doenças genéticas e diabetes? As empresas adorariam "administrar" a qualidade da saúde de seus funcionários.

Como nos diz Zygmunt Bauman em seu livro "Modernidade e Holocausto", o mal-estar é um traço da consciência moral moderna. Diante do constrangimento causado pela burocracia da saúde de massa, seriam os incompetentes uma esperança? Sabemos que, num campo de concentração, um soldado bêbado ou corrupto salvaria vidas. Imaginem celulares e internet nas mãos nazistas! Seria esta uma contradição insuperável da modernidade? Sua eficácia técnica e burocrática repetiria a maldição atávica de Prometeu?

Nunca foi possível abortar e depois ir ao cinema. O avanço da ciência nos impõe impasses éticos antes impensáveis. Avanços dramáticos são aqueles que demandam definições do tipo "o que é o humano?". Novas formas de barbárie invisível podem surgir da relação entre avanços científicos e definições jurídicas. Chama-me a atenção a fúria como as campanhas pró-aborto repetem o movimento de desumanização, agora, do feto: "Feto não é gente, pode jogá-lo fora". Campanhas assim (de definição do "humano") já foram realizadas em outros momentos da história e aplicadas com sucesso a outras vítimas.

Só tolos crêem que juízes possam evitar essa forma de violência invisível. Ao contrário, eles podem ser os agentes dela porque são submetidos ao próprio processo de acomodação que o imaginário cultural produz ao longo do tempo. Um juiz não tem autonomia em relação ao seu momento histórico.

Uma vez que fetos não são mais humanos, por que não usá-los em pesquisas de cosméticos ou remédios? Quem teria um argumento contra isso que não fosse miseravelmente metafísico, uma vez que a decisão legal tiver definido o que é humano e o que não é "na matéria da lei"? A tentativa de definir questões desse tipo como "problemas de saúde pública" é mera retórica que visa transparecer um halo de objetividade pré-moral. No fundo, é simples questão de dinheiro associada ao desejo de aniquilar o senso moral pra "baratear" o aborto.

Antes de tudo, é necessário desumanizar o feto para atingir o afeto vazio que caracteriza o aborto sem culpa. Sem a agonia moral não existe moral. O leitor apressado, agora também irritado, suporá que nego a possibilidade de uma pessoa ter vida moral sem sofrimento. Confesso, nisso ele está certíssimo. O coração da vida moral é o sentimento de culpa.

Temo que dentro de cem anos essa discussão se acabe. A própria identificação entre sexualidade e reprodução estará extinta. A reprodução será, como tudo mais, mediada pelo mercado, aquele das tecnologias da reprodução. A sexualidade será, por sua vez, algo assim como ir ao cinema.




segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Cibercultura conservadora



Prazerosa confusão de fronteiras: sobre o imaginário do excesso e da transgressão


Por: Erick Felinto

Fonte: Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 24 • julho 2004 • quadrimestral

RESUMO

Este artigo examina as noções de excesso e transgressão nos discursos da cibercultura. Defende-se a hipótese de que a retórica libertária e revolucionária dos ciberutopismos oculta, na realidade, uma cosmovisão essencialmente conservadora e marcada pelos mitos da modernização progressiva.

ABSTRACT

This paper discusses the notions of excess and trans-gression propagated by cyberculture’s discourses and find them to be very conservative and modernist.

There is pleasure sure, in being mad, which none but madmen know

John Dryden, The Spanish Friar


When reality just isn’t good enough, pleasure must be synthesized

Iara Lee, Synthetic Pleasures

A FRASE QUE anuncia o excelente documentário de Iara Lee, Synthetic Pleasures, é sintomática de uma situação cultural dominada pelo tema do excesso. É preciso ir além, ultrapassar todos os limites, viver todas as experiências e criar ainda outras novas. Como diz Omar Calabrese, nossa era neobarroca tem como um de seus traços identificadores básicos o desejo do rompimento dos limites, do atravessamento das fronteiras.


“Desmesura e excedência estão entre as principais constantes formais dos contentores neobarrocos, sobretudo no âmbito da civilização de massas” (1988: 77).


A noção de excesso aparece, de fato, em todos os campos da vida cultural, mas com força redobrada no horizonte dos meios de comunicação massivos.
O cinema hollywoodiano é, talvez, a maior demonstração desse prazer excêntrico.
Filmes como Matrix (1999) ou Star Wars: Attack of the Clones (2002), com suas explosões monumentais e incríveis efeitos especiais, representam com perfeição essa categoria estética que poderíamos denominar como um gosto pelo excessivo.
O prazer pela ruptura, que se desdobra em diversas formas, manifesta-se também nitidamente no campo daquilo que se convencionou chamar cibercultura. Os discursos sobre as novas tecnologias de informação e comunicação, como indica o bordão de Synthetic Pleasures, repetem incessantemente a idéia de que é preciso avançar todos os sinais, derrubar todas as barreiras, inclusive aquelas que tradicionalmente definiam categorias ontológicas, como a separação humano-inumano. Retomando a reflexão de Bataille sobre a noção de despesa, André Lemos detecta, com perspicácia, esse traço fundamental da cibercultura:


A cibercultura fornece vários exemplos de uma despesa excessiva, não acumulativa e irracional de bits. Dançar por horas em festas tecno, viajar por vínculos banais e efêmeros do ciberespaço, produzir vírus, penetrar sistemas de computador, trocar informação frívola em bate-papos e grupos temáticos, etc. (2002: 264)


Mas o que uma abordagem crítica pode nos revelar a respeito desse tropo? Onde poderíamos encontrar suas origens? Qual é a extensão integral das idéias envolvidas nesse tema e de que visão de mundo ela constitui uma expressão? Este artigo é uma tentativa de formular algumas respostas iniciais. Para tanto, convém tecer algumas considerações sobre as noções de equilíbrio e excesso, pois compreender o papel que desempenham no horizonte da tecnocultura contemporânea exige antes a obtenção de uma clareza mínima a respeito dos sentidos que podemos atribuir-lhes. Pretendo abordar essas noções a partir de perspectivas físicas (ou “físico-filosóficas”) e antropológicas, já que é nos âmbitos da ciência, da filosofia e da cultura que se desenham (e por vezes se cruzam) os temas do equilíbrio e do excesso.


Do ponto de vista da física clássica, a tendência natural do universo pode ser caracterizada como um processo de entropia. Dado um sistema fechado (que é provavelmente o caso do universo), a energia inicialmente ali manifestada tende a se dissipar com o tempo. Sabemos que o que permite a manutenção de qualquer sistema é um estado de heterogeneidade, no qual as várias forças envolvidas se diferenciam continuamente. Em qualquer sistema fechado, parte-se de um estado inicial de diferenciação onde a energia sofre diversas transformações e vai se degradando progressivamente. Com o passar do tempo, a energia se perde em formas não aproveitáveis, como, por exemplo, calor. Pode-se dizer, portanto, que a morte de todo sistema é representada pela passagem da heterogeneidade à homogeneidade.
Essa situação, contudo, se complexifica no âmbito da física contemporânea. A percepção de que determinados fenômenos microfísicos podem ser entendidos como energia ou matéria (caso dos fótons, por exemplo) oferece novas perspectivas para pensar as questões do equilíbrio, da heterogeneização e da homogeneização.
Stéphane Lupasco, por exemplo, argumenta que ambos os processos são necessários para o funcionamento dos sistemas microfísicos. Nessa relação entre diferença e indiferenciação, na qual operaria uma lógica paradoxal, homogeneização e heterogeneização estão presentes simultaneamente, em estados diferenciados de virtualidade ou atualidade. Em outras palavras, para que um sistema se homogeneíze, é necessário que as formas de homogeneização estejam presentes desde sempre, em estado de virtualidade ou potência, para então progressivamente se atualizarem dentro do sistema. Da mesma maneira, para que possa haver heterogeneização no sistema, as forças de heterogeneidade devem estar continuamente presentes, ainda que na forma de potencialidade.
Como diz Lupasco, “cada evento energético, cada processo dinâmico passa de um certo estado de potencialidade a um certo estado de atualização. Mas ele pode apenas fazê-lo potencializando o evento energético antagonista que o mantém como tal através de seu estado de atualização” (1970: 36).
Lupasco observa, assim, que é possível falar em dois tipos de matéria: a macrofísica – mundo das nossas experiências cotidianas –, na qual os processos de homogeneização são dominantes e a levam a um estado de não-contradição e estabilidade máximas, e a microfísica, na qual se manifesta uma orientação inversa, em direção ao antagonismo simétrico e contraditório. Mas é possível falar ainda em um terceiro tipo de matéria, segundo Lupasco, a matéria viva. O interessante na organização dos sistemas vivos é que eles se constituem numa forma de matéria que luta constantemente contra o segundo princípio da termodinâmica (a entropia, a morte). Trata-se de um sistema voltado especificamente para os dinamismos heterogeneizantes. Ainda que submetida às leis do mundo macrofísico, à tendência ao equilíbrio e estabilidade, a matéria viva resiste, se diversifica e se desdobra em sistemas de complexidade crescente.
Todo esse belo (e em grande parte incompreensível para a maioria de nós, simples mortais) edifício científico não seria de grande ajuda se não fossem os postulados filosóficos derivados da argumentação. É possível sintetizar esses postulados em duas idéias fundamentais, importantes para o desenvolvimento da minha argumentação:


1) o universo tende à entropia; não há excesso de energia que possa ser desperdiçado. O que permite resistir à entropia, segundo Lupasco, são os mecanismos de equilíbrio dinâmico da matéria microfísica,


2) o verdadeiro equilíbrio, no plano do mundo microfísico (e da vida psíquica), consiste num regime de convivência antagonista entre forças de homogeneização e heterogeneização. A contradição absoluta ou a ausência total de contradição trariam a destruição do sistema (o excesso).


Do ponto de vista cultural, o tema da “despesa excessiva” é objeto de uma larga tradição de estudos antropológicos. O fenômeno do potlach, cuja descrição mais exaustiva encontra-se no célebre Essai sur le Don, de Marcel Mauss, consiste em uma cerimônia na qual o chefe de uma tribo oferece a um rival um presente, com vistas a humilhá-lo ou desafiá-lo. O rival deve, então, responder ao desafio, oferecendo, mais tarde, um novo potlach mais suntuoso e dispendioso que o primeiro. Mas observou-se também que a dádiva não era a única forma de manifestação do potlach. Por ocasiões, consistia na simples e espetacular destruição de imensas riquezas. Há casos em que o potlach envolve o assassínio de escravos, a queima de alimentos vitais ou até mesmo a destruição da própria aldeia.


Bataille irá retomar as reflexões da antropologia e desenvolver, sobre a noção do potlach, toda uma filosofia da despesa. Para Bataille, o fenômeno da dádiva remete ao desenvolvimento de uma economia geral, preocupada com o todo – ou seja, não apenas com a vida social, mas também com os fenômenos naturais. É na própria natureza – portanto, curiosamente, no horizonte de uma perspectiva física – que se funda o ato da dádiva. A natureza demonstra um excesso de energia, de vida (cujo maior exemplo é o sol). Esse excesso significa que a tendência da vida é expandir-se continuamente, e essa expansão é limitada apenas pelas dimensões da biosfera (Bataille, 1975: 67). As limitações imediatas do crescimento são dadas imediatamente, para cada indivíduo, através dos outros indivíduos. Daí a origem de fenômenos como o potlach: a energia em excesso precisa ser desperdiçada, sob pena de chegar a nos destruir. Nas sociedades capitalistas modernas, corre-se esse risco, já que seu princípio básico de funcionamento é a acumulação.
Nesta equação estão presentes dois componentes diversos que, porém, tendemos a confundir e tomar como um só: excesso e despesa (ou dispêndio). Na verdade, na tradição antropológica o tema do excesso não chega a se tornar o tópico central da discussão. Mauss e a tradição antropológica em geral encaravam a questão do potlach como uma expressão de poder por parte dos chefes tribais (o poder de dar e destruir), ou como um processo primitivo de troca sob forma ritual. É Bataille quem introduz decisivamente o tema do excesso, mas apenas para justificar sua teoria da dádiva.
O excesso seria um fenômeno da natureza que se reflete no campo da vida cultural.
O dispêndio inútil poderia, assim, ser encarado como um princípio de oposição ao conceito de utilidade do mundo capitalista.
Na verdade, quando falamos no tema sob uma perspectiva culturalista, pode-se entender que, na forma de acúmulo, o excesso chegue a ser considerado como essencialmente nefasto (Bataille). Por outro lado, se adotarmos a posição de Calabrese – que entende excesso como a ultrapassagem dos limites e formas tradicionalmente impostos por uma cultura – não existe propriamente um julgamento de valor. Na definição de Calabrese, “o excesso manifesta a ultrapassagem de um limite visto como caminho de saída de um sistema fechado” (1988: 63). Toda cultura se caracteriza por determinados limiares, confins, a partir dos quais qualquer fenômeno é considerado como rompimento de normas, como ação revolucionária.
Mas Calabrese estabelece uma distinção importante entre limite e excesso. O limite significa operar nas fronteiras do sistema cultural sem de fato chegar a rompê-las, ao passo que o excesso implicaria a crise do sistema, exigindo uma total reformulação do mesmo. No caso da cultura contemporânea, Calabrese identifica um movimento complexo, entre limite e excesso, o que não permitiria classificar o neobarroco como época propriamente dinâmica ou “revolucionária”.
“O gosto neobarroco”, afirma, “configura-se como perenemente em suspensão, excitado mas nem sempre disposto à subversão de categorias e valores” (1988: 80).
No domínio da cibercultura parece que lidamos precisamente com esse tipo de situação. Por um lado, encontramos discursos de entonação revolucionária que pregam a transgressão de normas e a ultrapassagem de todas as limitações políticas e sociais (ou mesmo biológicas); por outro, temos também os discursos que adotam uma posição conservadora, preocupada com os perigos do excesso, especialmente do excesso de informação. É relativamente fácil, porém, encontrar exemplos que oscilam entre esses dois pólos. No mission statement do Instituto Extropiano, dedicado ao desenvolvimento integral do homem em sua relação com a tecnologia, lemos que ‘’Avanços na tecnologia (incluindo as ‘tecnologias sociais’ da administração do conhecimento, aprendizagem e tomada de decisões) começam a nos capacitar para alterar a própria natureza humana nos seus aspectos físicos, emocionais e intelectuais. As possibilidades radicais que agora emergem podem causar enormes problemas, assim como aperfeiçoar enormemente a condição humana/transhumana. Com melhores conhecimentos e processos de tomada de decisões, os humanos podem viver muito mais longamente numa saúde “mais que perfeita”; aprimorar seu autoconhecimento e consciência da dinâmica interpessoal; superar preconceitos culturais, psicológicos e meméticos na forma de pensar; aperfeiçoar a inteligência em todas as suas formas e aprender a desenvolver-se na mudança e evolução2’’.
Essa passagem nos oferece alguns elementos interessantes de análise. Em primeiro lugar, registre-se a presença da ambigüidade em relação à superação de limites possibilitada pela tecnologia. Esta pode “causar enormes problemas” ou promover extraordinários avanços. Trata-se de “possibilidades radicais”, capazes, portanto, de conduzir a extremos opostos: a felicidade absoluta ou a desgraça total. Em segundo lugar, vemos o tema da saúde perfeita, ao qual Lucien Sfez dedica todo um livro. Sfez vê na idéia de saúde perfeita ou “grande saúde” a última grande ideologia possível da pós-modernidade. Mais que isso, afirma ele, trata-se de uma bio-eco-religião visando ao desenvolvimento de um super-homem que “liberto do dilaceramento vida/morte, dilaceramento constitutivo de nossa infeliz existência humana, atingiria a imortalidade e, desse modo, não precisaria mais de Deus, da moral e da metafísica” (1996: 21). Em terceiro lugar, intimamente vinculada ao tema da saúde total, evoca-se a mitologia do transhumanismo.
O transhumano é um ser que transcende as fronteiras da espécie, do gênero e até mesmo de seu reino, já que, de certo modo, pode resultar da combinação entre o animal e o mineral – por exemplo, das pastilhas de silício que, implantadas em seu corpo, ampliaram suas capacidades físicas e mentais.
O tema do transhumano, assim como do pós-humano ou do ciborgue, repousa na idéia da superação dos limites impostos pelo estado natural. Como enuncia a já célebre frase cunhada por Donna Haraway em seu Manifesto Ciborgue, aqui lidamos com “o prazer da confusão de fronteiras” (2000: 42). Para Haraway, o ciborgue é criatura tanto do nosso imaginário como da nossa realidade cotidiana, que simboliza o rompimento, já em curso, das fronteiras tradicionalmente estabelecidas na cultura ocidental, como as de gênero (homem/mulher) ou natureza (orgânico/inorgânico).
Tiziana Terranova encara a filosofia do pós-humanismo como uma reelaboração contemporânea de um tema que já aparecia, ao menos embrionariamente, nos futuristas italianos ou em Nietzsche (com o que parece concordar Sfez). Todo o discurso transhumanista pode ser articulado em duas alternativas básicas: a extensão das capacidades do corpo ou a simples e pura ultrapassagem das limitações corporais (nas fantasias de digitalização da consciência). Terranova observa inteligentemente que as utopias transhumanistas são essencialmente individualistas e anti-sociais. No triunfo dessa vontade tecnológica, “a sociedade é apagada e o universo social emerge como um agregado fragmentário de indivíduos num vazio sem restrições históricas e materiais” (2002: 275). A idéia merece maior desenvolvimento. Os filosofemas trans-humanistas, mesmo quando pregam utopias coletivas, são essencialmente avessos à idéia de uma organização social, já que esta implica, de certo modo, uma limitação das possibilidades máximas de cada indivíduo.
Para ser inteiramente coerente com suas premissas, o transhumanismo deve constituir-se numa afirmação do indivíduo como artista de si mesmo; como ser que, insurgindo-se contra os tradicionais padrões culturais, sociais e cognitivos (“memes”), rompe todas as fronteiras e produz uma transvaloração de todos os valores. Mas os discursos da ciberutopia raramente buscam a coerência. São sistemas de valor que hesitam entre o excesso e a contenção, entre o revolucionário e o convencional. Desse modo, no site da Associação Mundial Transhumanista, prega-se a necessidade de se criar fóruns “onde as pessoas possam debater racionalmente sobre o que precisa ser feito, e uma ordem social na qual decisões responsáveis possam ser implementadas”3. Curiosamente, também se afirma que o movimento transhumanista “abarca muitos princípios do humanismo moderno”4.
Calabrese fala no excesso contemporâneo como um princípio endógeno. Em outras palavras, trata-se de um excesso que trabalha do interior do próprio sistema, estendendo seus limites em lugar de rompê-los. Na verdade, uma característica tradicional dos sistemas sociais é a capacidade de integrar o excesso, “tornando substancialmente normal uma aparência excessiva” (Calabrese, 1988: 79). No âmbito da cultura contemporânea, os discursos da ciberutopia podem parecer transgressores e libertários, mas trata-se de uma subversão domesticada, controlada. Como explica Terranova, o entusiasmo utópico da filosofia pós-humanista é contrabalançado por temores distópicos5 e, poderíamos acrescentar, valores conservadores. Como demonstra Terranova em sua análise dos discursos ciberutopistas, a associação entre idéias como televisão-feminilidade-estupidez é “parte de uma significante estratégia de oposições e analogias definindo a identidade tanto das novas tecnologias ‘interativas’ (como opostas à televisão) quanto de seus usuários ‘ativos’ (como opostos à passividade feminina)” (2002: 272).
Além dos procedimentos propriamente retóricos, é interessante também falar no modo de apresentação dos discursos da cibercultura.

Muitos se apresentam na forma de manifestos. É o caso do célebre texto de Haraway, por exemplo. O manifesto constituía a forma discursiva por excelência das vanguardas. Futurismo, dadaísmo, cubismo, surrealismo: todos tiveram seus manifestos expressando o desejo do rompimento absoluto com o passado; o estabelecimento de uma nova hybris em busca de realizações espetaculares e inéditas. Em tempos pós-modernistas, porém, essa retomada da forma-manifesto se esvazia de sentido. Como diz Eduardo Subirats, em relação ao esgotamento das vanguardas, “suas atitudes converteram-se há muito em espetáculo ritualizado, em gesto representativo e narcisista, em afirmação vazia de poder” (1986: 11). Os manifestos da cibercultura são sintoma dessa derrocada das utopias modernistas, que agora reeditam antigos sonhos tecnológicos sob roupagens aparentemente novas. A retórica do manifesto do movimento FutureCulture é semelhante à de seus correligionários:

‘’Assim como uma tecnocracia é um governo dirigido por cientistas ou aqueles que criam a tecnologia, a tecnocultura é uma cultura alimentada pela tecnologia. A América é tecnocultura. Nós estaríamos perdidos sem nossas televisões ou carros, nossos computadores ou telefones. FutureCulture é, portanto, uma forma de decifrar como o amanhã irá parecer em uma tecnocultura6’’.
A tecnocultura se apresenta como uma forma híbrida, um cenário cultural no qual a tecnologia está tão inextricavelmente ligada à vida cotidiana que é dela inseparável. É preciso assinalar, porém, que toda cultura já é desde sempre tecnológica. Como diz Erik Davis, “a cultura é tecnocultura” (1998: 10). Podemos, contudo, admitir o uso do conceito para expressar a individualidade do momento histórico que agora se apresenta.
Se a cultura sempre foi tecnológica, é apenas no contexto da “tecnocultura” que ela passa a se pensar explicitamente como tal e tomar como objeto de reflexão toda a extensão dos problemas implicados na conjunção homem-máquina. Para Geoff Waite, que, como Sfez e Terranova, crê na antecipação nietzschiana do tema do pós-humano, a tecnocultura se caracteriza pela constituição de um self ciborgue, habitante de uma paisagem cultural híbrida, resultado da mescla de elementos da cultura popular (“junk culture”), de fragmentos filosóficos (especialmente dos filosofemas nietzschianos) e do culto ao tecnológico. E nessa paisagem filosófica passeiam ainda os tradicionais mitos de modernização das primeiras utopias tecnológicas. Em última instância, como afirma Jonathan Crary, nos encontramos em “mais um daqueles momentos recorrentes no século XX em que uma das máscaras do fracasso e da paralisia do político é a entusiasmada afirmação da força transformadora e da centralidade cultural da inovação tecnológica” (apud Waite, 1996: 16). Uma forma não de pensamento revolucionário, portanto, mas de conformismo infantil que oculta a derrocada do projeto moderno.
Aliás, é interessante observar a série de metáforas infantis com que se inicia o manifesto FutureCulture. Em uma paisagem bucólica, uma criança sopra bolhas de sabão e, de repente, pára para observar a beleza de uma bolha em particular. Nessa observação descobre todo um mundo novo e fascinante. As bolhas se combinam, estouram, adquirem formas exóticas, se aproximam e se afastam. Tudo para metaforizar o processo do diálogo e intercâmbio entre as várias facções e elementos de uma cultura. As bolhas são “subculturas” (como, por exemplo, a cultura cyberpunk), que nascem, se desenvolvem, morrem, se afastam e se reaproximam no horizonte mais amplo desse grande environment que é a Cultura. A metáfora nos transporta para um paraíso originário, para um estado de inocência e pureza fora do tempo e do espaço. Um mundo adâmico das conciliações, anterior à ruptura da Queda, e ao qual a tecnologia agora poderia nos devolver. Vale a pena reproduzir um trecho da passagem:
‘’Desse modo, como se pode ver, as subculturas se combinam em culturas ou subculturas mais amplas (é tudo relativo), as subculturas podem se autodestruir, podem evoluir ou meta-morfosear-se, podem divergir para diferentes direções. Mas em qualquer dos casos, sempre há bolhas, pois nós, como aldeia global, somos como o menino de cinco anos – entrincheirado no mundo das bolhas, olhando-as com um olhar de admiração7’’.
O imaginário de excesso e transgressão da cibercultura revela-se, assim, como conservadorismo político e mitologia religiosa. Esse imaginário envolve, como tenho procurado demonstrar8, uma deificação da tecnologia como forma de obtenção da transcendência humana. Misticismo e ciência são termos intercambiáveis nessa equação, segundo um dos princípios do Manifesto Pós-Humanista: “O pós-humano está inteiramente aberto a idéias de ‘paranormalidade’, ‘imaterialidade’, ‘sobrenatural’ e ‘oculto’. O pós-humano não aceita que a fé em métodos científicos seja superior à fé em outros sistemas de crença”9. Temos, assim, efetivamente, mais um exemplo da transgressão de limites tão própria do gosto contemporâneo. Contudo, mais que atitude inovadora ou revolucionária, essa aproximação entre tecnologia e religiosidade representa um retorno a paradigmas anteriores, a uma visão de mundo pré-moderna, na qual os dois domínios apresentavam-se intimamente conectados10.
Há um outro aspecto do tema do excesso na cibercultura que, por sua centralidade, merece nossa atenção. Falo do tema da informação, da idéia de information overload ou data smog, como o qualifica David Shenk (1997); o excesso de informação. Diz-se que não é possível ter-se algo bom em demasia. Informação, aparentemente, é algo desejável e tradicionalmente implica as idéias de transformação, desenvolvimento e crescimento. Mais que em qualquer outra época da história, na cultura contemporânea a informação passou a ser encarada como o bem fundamental. Contudo, o tema do excesso de informação, que de fato não cessa de multiplicar-se no âmbito das redes digitais, constitui uma das principais fontes de distopia no imaginário cibercultural. Shenk afirma que o fenômeno da “névoa de dados” (data smog) nos atinge constantemente em nosso cotidiano na tecnocultura:

‘’Ele agita os momentos silenciosos e obstrui os tão necessários instantes de contemplação. Ele arruína a conversação, a literatura e mesmo o entretenimento. Ele inviabiliza o ceticismo, tornando-nos menos sofisticados como consumidores e cidadãos. Ele nos estressa (1997: 31)’’.
O grande pesadelo do excesso de informação é a impossibilidade de escapar dela, de encontrar um “local” da cultura que não esteja sobrecarregado de estímulos informacionais. Em Minority Report (2002), encontramos uma representação desse pesadelo na idéia de uma sociedade inteiramente controlada pela informação. Sensores eletrônicos escaneiam a retina das pessoas, submetendo-as a um constante bombardeio de propaganda dirigida em qualquer lugar por onde passem.
Katherine Hayles aponta, inteligentemente, as conexões que existem entre os temas da informação e do pós-humano. Um dos filosofemas do pós-humanismo repousa na noção da consciência como fluxo de processos informacionais. Se somos, essencialmente, padrões de informação (inclusive geneticamente falando) e se a informação se apresenta como bem imaterial, nada mais natural que desejar a eliminação dessa materialidade incômoda do corpo. Sem descartar o tema do pós-humanismo, Hayles contudo imagina a possibilidade de uma perspectiva alternativa, menos contaminada pelo mito e pelo desejo do excesso:
Meu sonho é uma versão do pós-humano que abrace as possibilidades das tecnologias da informação sem ser seduzida por fantasias de poder ilimitado e imortalidade descorporificada; que reconheça e celebre a finitude como uma condição do ser humano, e que entenda a vida humana como embebida em um mundo material de grande complexidade, mundo do qual dependemos para continuar sobrevivendo (1999: 5).
Mas não parece ser fácil separar a imaginação pós-humanista de seus mitos de transgressão, excesso e superação da finitude humana. A visão informacional da cultura desmaterializa a realidade e assim facilita a propagação dos mitos da digitalização corporal. Paulo Vaz observa que enquanto um dos problemas centrais da modernidade era a falta (falta de informação, de acesso à verdade), na cultura contemporânea revertemos ao problema do excesso e da rapidez (1999: 117). São esses dois elementos que situam os sujeitos contemporâneos em um ambiente destemporalizado e desmemoriado. Oferecida de forma descontextualizada, fragmentária, rápida e excessiva, a informação acaba constituindo-se em não-informação.


Chegando a este ponto, já é possível fazer uma síntese do percurso até aqui traçado e propor algumas hipóteses:


1) O excesso não é um traço constitutivo da natureza física; na realidade, o universo se caracteriza pela tendência à entropia típica de todo sistema fechado. O que o mantém em funcionamento são os processos de diferenciação e antagonismo da matéria microfísica;


2) Nada indica que qualquer forma de excesso seja positiva. Pelo contrário, a noção de excesso implica a presença de uma quantidade exagerada, em um sistema, de um determinado elemento e, portanto, uma situação de desequilíbrio. O excesso implica homogeneização e assim impede a manifestação de uma diferença criadora;


3) A antropologia clássica prega que a despesa excessiva pode ser entendida como um ritual de poder. Dessa forma, desperdiçar bens materiais, energia ou informação pode ser entendido não como uma forma de resistência aos processos de acumulação do capitalismo selvagem, mas como a expressão de um desejo de poder totalitário;


4) A cultura contemporânea apresenta um gosto pelo excesso e pelo limite, mas esse gosto raramente se manifesta como forma revolucionária e transformadora do sistema. Pelo contrário, em muitas ocasiões, tal gosto se constitui em mais um mecanismo de controle e manutenção do sistema;


5) Os discursos do excesso e da transgressão na cibercultura estão carregados de mitos utópicos e fantasias distópicas, revelando as contradições internas dessa Weltanschauung. Na maioria das vezes, podem ser criticamente percebidos como expressão de uma ingenuidade infantil, que busca recuperar o vigor transgressor da modernidade, mas acaba por recair em um imaginário pré-moderno e numa visão religiosa e reconciliadora dos conflitos sociais.


É possível que o quadro aqui pintado seja considerado excessivamente sombrio. Talvez o seja, de fato, mas não tanto devido a alguma forma de pessimismo de matriz frankfurtiana. Ocorre que a prevalência dos discursos afirmativos no horizonte da cibercultura é tão grande que qualquer forma de perspectiva alternativa deve ser formulada com a máxima acidez da visão crítica. O entusiasmo pelas novas tecnologias, do qual muitos de nós – inclusive aquele que escreve estas linhas – compartilhamos, talvez represente, num obscuro recôndito de nosso inconsciente cultural, a expressão de um desejo de salvação tecnológica. Em um mundo onde o sentido se evaporou, onde a sensação se anestesiou, onde o percurso histórico estacionou, nada mais natural que almejar o prazer ciborgue da dissolução de fronteiras. Mas é a fronteira última da nossa finitude que pode também nos resguardar contra as formas mais agudas da insanidade.

Notas


1 Este trabalho foi originalmente apresentado no XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, realizado em Belo Horizonte, em setembro de 2003.


2 Disponível em http://www.extropy.orgaboutindex.html/. Memético (memetic) é um termo cunhado pelo biólogo Richard Dawkins e que fez fortuna no universo da cibercultura. Um meme indica aquela espécie de comportamento ou hábito cognitivo que segue padrões fortemente estabelecidos e que se repetem, de modo similar ao que sucede nos processos de replicação genética.


3 Disponível em http://www.transhumanism.org/ decla-ration.htm



4 Idem.


5 Como no caso do manifesto extropiano, os princípios da Associação Mundial Transhumanista também apresentam os possíveis perigos do desenvolvimento tecnológico: “Por outro lado, também seria trágico se a vida inteligente fosse extinta por causa de algum desastre ou guerra envolvendo tecnologias avançadas” – também em http://www.transhumanism.org/declaration.htm. O imaginário da literatura cyberpunk e da ficção científica é pródigo em fantasias apocalípticas e distópicas.


6 Disponível em http:project.cyberpunk.ruidbfuture_cultu-re_manifesto.html.


7 Disponível em http://project.cyberpunk.ru/idb/future_culture_ manifesto.html.


8 Ver, por exemplo, meu artigo “Tecnognose: Tecnologias do Virtual, Identidade e Imaginação Espiritual”, in Revista Famecos nº 18. Porto Alegre: Famecos/PUCRS (agosto 2002).



10 A esse respeito, ver Noble, David. The Religion of Technology: the Divinity of Man and the Spirit of Invention. London: Penguin, 1999.


Referências


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CALABRESE, Omar. A Idade Neobarroca. Lisboa: Edições 70, 1988.


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HARAWAY, Donna. “Manifesto Ciborgue”, in DA SILVA, Tomaz Tadeo (org.). Antropologia do Ciborgue. Belo Horizonte: Autêntica, 2000.


HAYLES, Katherine. How we Became Post-Human: Virtual Bodies in Cybernetics, Literature and Informatics. Chicago: The University of Chicago Press, 1999.


LEMOS, André. Cibercultura: Tecnologia e Vida Social na Cultura Contemporânea. Porto Alegre: Sulina, 2002.


LUPASCO, Stéphane. La Tragédie de l’Énergie. Paris: Casterman, 1970.


______.Logique et Contradiction. Paris: PUF, 1947.


SFEZ, Lucien. A Saúde Perfeita: Crítica de uma Nova Utopia. São Paulo: Loyola, 1996.


SHENK, David. Data Smog: Surviving the Information Glut. New York: Harper Edge, 1997.


SUBIRATS, Eduardo. Da Vanguarda ao Pós-Moderno. São Paulo: Nobel, 1986.


TERRANOVA, Tiziana. “Post-Humam Unbounded: Artificial Evolution and High-Tech Subcultures”, in BELL, David & KENNEDY, Barbara (orgs.). The Cybercultures Reader. London: Routledge, 2002.


VAZ, Paulo. “Agentes na Rede”, in Lugar Comum, nº 7. Rio de Janeiro: Nepcom/UFRJ (janeiro-abril 1999).


WAITE, Geoff. Nietzsche’s Corps/e: Aesthetics, Politics, Prophecy, or, the Spectacular Technoculture of Everyday Life. Durham: Duke University Press, 1996.


(Fonte: http://www.pucrs.br/famecos/pos/revfamecos/24/Erick_Felinto.pdf)

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Pós-humano - uma aventura trágica?

Por Gilberto Dupas



Fonte: http://www.unisinos.br/ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=6662



"Como será uma civilização que pretenda superar o humano? Que avaliação faremos no futuro sobre as decisões que estamos tomando agora na biogenética, na nanotecnologia e na robotização, reguladas apenas pelo lucro e pelas leis de mercado? Terá sido um progresso ou uma aventura trágica? ", pergunta Gilberto Dupas, presidente do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais (IEEI), coordenador-geral do Grupo de Conjuntura Internacional da USP e autor de vários livros, entre os quais O Mito do Progresso (Editora Unesp), em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo, 21-04-2007. Segundo Dupas, "os riscos e os impactos de natureza ética e psicossocial são inúmeros, mas a indústria médica já está fabricando produtos de modificação genética em grande escala e o mercado os está impondo. Que transformações podem atualizar nossos hardwares e softwares, mantendo-nos, porém, na condição essencialmente humana? E quais seriam os riscos adicionais de se ir além? Trata-se de enfrentar tensões e integrações entre corpo e cultura, ou seja, máquina (hardware) e técnica (software)".
Pós-humano é o tema de capa da revista IHU On-Line, no. 200, de outubro de 2006, disponível nesta página.


Eis o artigo de Gilberto Dupas.


"Vários cientistas consideram o corpo humano um hardware falho e ultrapassado e propõem um aperfeiçoamento radical dele, em direção ao que chamam de pós-humano. Algumas razões são alegadas para essa atualização, que ocorreria pouco a pouco, modificando o organismo mediante a incorporação de próteses para lidar com as novas exigências. Uma delas é que o modelo econômico atual tende inexoravelmente a destruir nosso ecossistema original, o que é totalmente verdade.


O problema é que, hiper-realistas ou conformados, eles acham que - incapaz de mudar o sistema de produção consumista, sucateador e poluidor - nossa civilização desistirá de corrigir o modelo econômico e admitirá que precisaremos, no futuro, viver fora de nosso hábitat, que estamos liquidando. Outros cientistas chegam a alegar que, como eventual única espécie inteligente no universo, temos a responsabilidade cósmica de sobreviver. Daí acham ser nossa obrigação garantir a possibilidade de expansão para outros planetas. Isso exigiria a criação de melhores hardwares humanos para enfrentar longas viagens espaciais e árduas condições de vida alhures.


A segunda razão alegada combina narcisismo com prepotência e inaugura aquilo que alguns estão chamando de um novo tipo de eugenia. Na eugenia negativa havia a purificação da raça por meio da eliminação daqueles caracterizados como “humanos deficientes”. Na eugenia positiva, existe a possibilidade de se “melhorar” o patrimônio genético por meio de transformação nas células, obtendo uma segunda linha de evolução do humano.


Como será uma civilização que pretenda superar o humano? Que avaliação faremos no futuro sobre as decisões que estamos tomando agora na biogenética, na nanotecnologia e na robotização, reguladas apenas pelo lucro e pelas leis de mercado? Terá sido um progresso ou uma aventura trágica? Os riscos e os impactos de natureza ética e psicossocial são inúmeros, mas a indústria médica já está fabricando produtos de modificação genética em grande escala e o mercado os está impondo. Que transformações podem atualizar nossos hardwares e softwares, mantendo-nos, porém, na condição essencialmente humana? E quais seriam os riscos adicionais de se ir além? Trata-se de enfrentar tensões e integrações entre corpo e cultura, ou seja, máquina (hardware) e técnica (software).


A questão soa estranha se colocada em termos de oposição, transformando máquina ora em servo, ora em senhor. Somos o que somos porque estamos conectados, de um lado, ao desejo (economia libidinal), de outro, ao socius (economia política). Os nanotecnólogos projetam a fusão do homem à máquina. Microrrobôs capazes de se autoduplicarem circularão pelo corpo, se unindo aos tecidos orgânicos para deter processos de envelhecimento ou estimular funções do cérebro. Essas inteligências superiores ultrapassariam as limitações do hardware humano. Já ao nosso software cerebral se prenuncia uma espécie de imortalidade com um aperfeiçoamento sem limites.


Do ponto de vista neoliberal, essas novas técnicas são vendidas como uma possibilidade de aumento da autonomia pessoal. No entanto, Jünger Habermas pensa que a manipulação genética poderá alterar nossa autocompreensão enquanto seres da espécie, atingindo fundamentos normativos e incontornáveis da nossa integração social. As técnicas genéticas que visam à seleção e à alteração das características humanas podem abalar o modo como lidamos com a herança sob nossa responsabilidade e a estrutura geral da nossa experiência moral, pois afetam a forma como nos enxergamos enquanto autores responsáveis por nossa própria história de vida, nascidos sob as “mesmas condições”. Que efeitos implantes de chips e a progressiva robotização do homem terão sobre sua autocompreensão? Ao decidir um programa de intervenção genética sobre um futuro filho, os pais modelarão o novo ser à sua vontade, sem conceder a ele nenhuma possibilidade de escolha ou reconsideração. Esse indivíduo saber-se-á design de outra pessoa: por exemplo, um jovem descobrirá que foi programado para ser homem, quando hoje desejaria ser mulher ou vice-versa. Os psicanalistas que se pronunciem sobre as conseqüências.


O significado das invenções e novidades científicas só aparece quando de sua construção como objeto histórico. Leonardo da Vinci esperava que o avião - conquista milagrosa da evolução tecnológica - fosse capaz de buscar a neve nas altas montanhas e trazê-la para refrescar as cidades sufocadas pelo verão. Os bombardeiros de hoje são a antítese dessa utopia. Os cientistas do Projeto Manhattan tinham a convicção de que a bomba atômica nunca seria utilizada sem ampla consulta popular. Truman decidiu sozinho as tragédias de Hiroshima e Nagasaki. É inútil tentar atribuir inocência à técnica. Ela pode ser muito útil ou profundamente destruidora, dependendo de como a utilizamos e a serviço de que interesses ela esteja.


Por isso é preciso manter uma crítica aguda sobre o desenvolvimento atual da tecnociência, atrelada que ela está a um discurso hegemônico que beneficia o lucro das grandes corporações e não necessariamente os objetivos sociais da promoção humana. Só assim poderemos evitar que esperanças se transformem em tragédia. Salvar nosso planeta para as gerações futuras, usando o conhecimento para garantir um ecossistema renovado e um mundo mais justo, é a prioridade óbvia, ainda que ao custo de alterar profundamente um sistema econômico pujante, mas que tem conduzido a tensões insuportáveis. O pós-humano ainda deve ficar nos laboratórios e na ficção científica."