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sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Manifesto Telekommunista


Na era das telecomunicações internacionais, da migração global e do surgimento da economia da informação, como o conflito de classes e a propriedade podem ser entendidos? Partindo da economia política e de conceitos relacionados à propriedade intelectual, o"Manifesto Telekommunista", deDmytri Kleiner, é uma contribuição fundamental para formas baseadas emcommons, colaborativas e compartilhadas de produção cultural e distribuição econômica.

O texto foi publicado no blog do Institute of Network Cultures, 21-10-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Propondo o "comunismo de risco" como um novo modelo para a auto-organização dos trabalhadores, Kleiner converte o seminal"Manifesto do Partido Comunista" deMarx e Engels à era da Internet. Como um modelo peer-to-peer, o comunismo de risco aloca capital que é extremamente necessário para realizar o que o capitalismo não pode: a proliferação em curso da cultura livre e das redes livres.

Ao desenvolver o conceito de comunismo de risco, Kleiner faz uma crítica dos regimes de direitos autorais e das atuais visões liberais do software livre e da cultura livre que buscam capturar a cultura para dentro do capitalismo. Kleiner propõe o copyfarleft e fornece um modelo útil de uma Peer Production License [Licença de produção colaborativa].

Encorajando os hackers e os artistas a abraçar o potencial revolucionário da Internet para uma sociedade verdadeiramente livre, o "Manifesto Telekommunista" é um chamado político-conceitual à luta contra o capitalismo.

Dmytri Kleiner é um desenvolvedor de software que trabalha em projetos que pesquisam a economia política da Internet e o ideal de auto-organização dos trabalhadores da produção como uma forma de luta de classes. Nascido na União Soviética, Dmytri cresceu em Toronto, no Canadá, e hoje vive em Berlim, naAlemanha. É um dos fundadores do Telekommunisten Collective, que presta serviços de Internet e de telefonia, assim como desenvolve projetos artísticos que exploram a forma pela qual as tecnologias da comunicação sustentam relações sociais, como o deadSwap (2009) e o Thimbl (2010).

A íntegra do texto pode ser encontrada, em inglês, aqui.

Eis alguns trechos do "Manifesto Telekommunista".

Prefácio

Eu cunhei o termo "comunismo de risco" em 2001 para promover o ideal da auto-organização dos trabalhadores da produção como forma de tratar os conflitos de classe. O Telekommunisten é um coletivo sediado em Berlim, na Alemanha, onde eu vivo desde 2003. Encontrei pela primeira vez o termo "Telekommunisten" (que se tornou o nome do coletivo) em 2005, ao visitar o apartamento de um amigo. Ele e seu companheiro de quarto haviam dado o nome "Telekommunisten" à rede local utilizada em seu apartamento para compartilhar o acesso à Internet.

Telekommunisten tem sido usado como um termo depreciativo pela antiga empresa estatal de telefonia da Alemanha, a Deutsche Telekom, que agora é uma corporação transnacional privada, cuja marca T-Mobile é conhecida mundialmente. O uso do termo "comunista" aqui visa lançar a companhia telefônica como uma gigante monolítica, autoritária e burocrática. Essa é uma compreensão completamente diferente do uso positivo do termo como um compromisso no conflito de classe com o objetivo de uma sociedade livre, sem classes econômicas, em que as pessoas produzem e compartilham como iguais, uma sociedade sem propriedade e nenhum Estado, que produz não para o lucro, mas pelo valor social.

Dessa forma, não somos simplesmente um coletivo de trabalhadores-agitadores que lutam na esfera das telecomunicações. O Telekommunisten promove a noção de um comunismo distribuído: um comunismo à distância, um Telecomunismo.

Uma comuna de risco não está ligada a um local físico onde ela pode ser isolada e confinada. Semelhante em topologia a uma rede peer-to-peer, o Telekommunistenpretende ser descentralizado, com apenas uma coordenação mínima exigida no interior da sua comunidade internacional de produtores-proprietários.

Minha experiência é nas comunidades de hackers e de arte, nas quais eu tenho sido ativo desde o início dos anos 1990. As minhas opiniões têm sido desenvolvidas e expressas em correspondências online e offline ao longo do meu envolvimento no desenvolvimento de software, no ativismo e na produção cultural. Embora eu tenha escrito alguns ensaios ao longo dos anos, aqueles que conhecem o meu trabalho geralmente me conhecem pessoalmente, por meio de encontros em espaços sociais eletrônicos e físicos.

O presente trabalho é um "Manifesto", não no sentido de que ele descreve um sistema teórico completo, um conjunto de crenças dogmático ou a plataforma de um movimento político, mas no espírito do significado do manifesto como um começo ou introdução.

Matteo Pasquinelli, que me estimulou a realizar este "Manifesto", sentia que o meu papel como uma voz de fundo na nossa comunidade era muito subterrânea e declarou que era "hora de me lançar" com um texto publicado. Ele me colocou em contato comGeert Lovink, que sugeriu a estrutura e a abordagem do texto e se ofereceu como editor e, por meio do Institute of Network Cultures, como seu publicador.

O "Manifesto Telekommunista" é basicamente uma edição, uma reelaboração dos textos que eu produzi e coproduzi ao longo dos últimos anos. Ele incorpora passagens significativas de "Copyright, Copyleft and the Creative Anti-Commons", produzido em cooperação com Joanne Richardson e publicado originalmente em"Anna Nimmus", no site Subsol. Grande parte do texto referente à comercialização da Internet foi retirada de "Infoenclosure 2.0", coescrito por Brian Wyrick e originalmente publicado na Mute Magazine. Também devo créditos aos editores da Mute Magazine Josephine Berry Slater e Anthony Iles, pelo seu trabalho em"InfoEnclosure 2.0" e em "Copyjustright, Copyfarfleft", grande parte dos quais é reutilizada aqui.

Muitas pessoas ajudaram a integrar e a ampliar os textos originais em um conjunto coeso, particularmente Rachel Somers Miles, do INC, e Elise Hendrick, Mathew Fuller, Christian Fuchs, Alidad Mafinezam, Daniel Kulla, Pit Shultz e Jeff Mann, que ofereceram comentários detalhados. A Licença de Produção Colaborativa incluída neste texto como um modelo para uma licença copyfarleft foi escrita a partir de uma licença Creative Commons, com a ajuda de John Magyar.

Introdução

No prefácio a "Contribuição à Crítica da Economia Política", Marx afirma que, "em uma certa etapa do seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em conflito com as relações de produção existentes" [1]. O que é possível na era da informação está em conflito direto com o que é permitido. Editores, produtores de filmes e a indústria das telecomunicações conspiram junto aos legisladores para reprimir e sabotar as redes livres, para proibir a circulação da informação fora do seu controle. As empresas da indústria fonográfica tentam manter forçosamente a sua posição como mediadores entre artistas e fãs, já que os fãs e os artistas se aproximam e exploram novas formas de interação.

Produtores de software concorrentes, assim como os fabricantes de armas, atuam nos dois lados desse conflito: fornecem as ferramentas para impor um controle, e as ferramentas necessárias para evitá-lo. As relações não hierárquicas tornadas possíveis graças a uma rede peer, como a Internet, são contraditórias com a necessidade do capitalismo de cercamento e controle. É uma batalha até a morte. Ou a Internet como a conhecemos deve ir embora, ou o capitalismo como nós o conhecemos deve ir embora. Será que o capital irá nos jogar de volta às idades escuras da CompuServe, dos telefones móveis e da TV a cabo, ao invés de permitir que as comunicações peerconstruam uma nova sociedade? Sim, se eles puderem. Marx conclui: "Nenhuma ordem social jamais perece antes de que todas as forças produtivas para as quais há espaço nela se desenvolvam. E as novas e mais elevadas relações de produção jamais aparecem antes que as condições materiais de sua existência tenham amadurecido no seio da própria velha sociedade" [2].

O "Manifesto Telekommunista" é uma exploração do conflito de classes e da propriedade, nasce de uma compreensão do primado da capacidade econômica nas lutas sociais. A ênfase é posta sobre a distribuição dos ativos produtivos e seu resultado. A interpretação aqui é sempre amarrada a um entendimento de que a riqueza e o poder estão intrinsecamente ligados, e apenas através do primeiro é que o último pode ser alcançado. Como um coletivo de trabalhadores intelectuais, o trabalho doTelekommunisten está muito enraizado no software livre e nas comunidades de cultura livre. No entanto, uma premissa central deste Manifesto é que o engajamento no desenvolvimento de software e a produção de obras culturais imateriais não é suficiente. A comunização da propriedade imaterial por si só não pode mudar a distribuição de bens produtivos materiais e, portanto, não pode eliminar a exploração. Apenas a auto-organização da produção pelos trabalhadores é capaz disso.

Esta publicação pretende ser um resumo das posições que motivam o projetoTelekommunisten, com base em uma exploração do conflito de classes na era das telecomunicações internacionais, da migração global, e do surgimento da economia da informação. O objetivo deste texto é apresentar as motivações políticas doTelekommunisten, incluindo um esboço do quadro teórico básico no qual ele se enraíza. Através de duas seções interligadas, "Peer-to-Peer Communism vs. The Client-Server Capitalist State" [Comunismo colaborativo versus o Estado capitalista cliente-servidor] e "A Contribution to the Critique of Free Culture" [Uma contribuição à crítica da cultura livre], o Manifesto abrange a economia política de topologias da rede e da produção cultural, respectivamente.

A seção "Peer-to-Peer Communism vs. The Client-Server Capitalist State"centra-se na comercialização da Internet e no surgimento da produção distribuída em rede. Ela propõe uma nova forma de organização como um veículo para a luta de classes: o comunismo de risco. A seção termina com o famoso programa estabelecido por Marx e Engels em seu "Manifesto Comunista", adaptado em um Manifesto para uma sociedade em rede.

Com base na seção anterior, em "A Contribution to the Critique of Free Culture", o Manifesto continua com a história e as dificuldades de percepção do copyright, do movimento do software livre, do dissenso anticopyright/copyleft e da economia política do software livre e da cultura livre. O desafio de ampliar as conquistas do software livre na cultura livre é abordado ao conectá-lo com o programa tradicional da esquerda socialista, resultando no copyfarleft e oferecendo a Licença de Produção Colaborativa como um modelo.

Este texto é particularmente dirigido a artistas, hackers e ativistas politicamente motivados, e não para evangelizar uma posição fixa, mas sim para contribuir com um permanente diálogo crítico.

O Manifesto da Rede Telekommunisten

Escrito a partir do texto extraído da seção 2 do "Manifesto do Partido Comunista". Marx/Engels 1848. [3] [Grifos e tachados conforme o original]

A primeira fase da revolução operária é o advento do proletariado como classe dominante desenvolver uma rede de iniciativas em que as pessoas produzam pelo valor social e partilhem como iguais, e construir e expandir o tamanho econômico dessas iniciativas para o advento do proletariado organizado à posição de ser a classe econômica dominante. Somente quando os trabalhadores controlarem a sua própria produção é que poderemos vencer a batalha da democracia.

O proletariado utilizará sua supremacia política seu poder econômico em expansãopara arrancar, pouco a pouco, todo capital da burguesia, para centralizardescentralizar todos os instrumentos de produção nas mãos do Estado, isto é, do proletariado organizado em classe dominante em um fundo comum diretamente nas mãos daqueles cuja produção depende dele e para por meio dissoaumentar, o mais rapidamente possível, o total das forças produtivas.

Isso naturalmente só poderá realizar-se, em princípio, por uma violação despótica doestruturação de nossas iniciativas a partir do direito de propriedade e das relações de produção burguesas, isto é, pela aplicação de medidas que, do ponto de vista econômico, parecerão insuficientes e insustentáveis, e contrárias a nossos fins, mas que no desenrolar do movimento ultrapassarão a si mesmas e serão indispensáveis para transformar radicalmente todo o modo de produção.

Essas medidas, é claro, serão diferentes nos vários países nas várias comunidades.

Todavia, nos países mais adiantados nas comunidades mais adiantadas, as seguintes medidas poderão geralmente ser postas:

1. Expropriação Mutualização da propriedade latifundiária de todos os instrumentos de produção e emprego da renda da terra em proveito do Estadomútuo.

2. Imposto fortemente progressivo. Estabelecimento de uma renda garantida, na forma de um dividendo pago a cada membro da comunidade de quantia igual à sua quota per capita de todas as rendas coletadas mutuamente.

3. Abolição do direito de herança. O direito à participação de todos que contribuem com seu trabalho e a concessão de participação somente pela contribuição do trabalho, não pela herança, compra ou transferência de qualquer tipo.

4. Confisco da propriedade de todos os emigrantes e rebeldes. Um contrato vinculante com todas as iniciativas membro para renunciar a toda propriedade privada de seus próprios bens produtivos e, ao invés disso, tomar posse do que eles precisam, alugando-o de fundos comuns mútuos.

5. Centralização do crédito nas mãos do Estado por meio de um banco nacional com capital do Estado e com o monopólio exclusivo. Estabelecimento de um mercado de títulos mútuo, onde os títulos são vendidos em leilão com o objetivo de construir o fundo comum de bens produtivos.

6. Centralizarão, nas mãos do Estado, de todos os meios de transporte.Desenvolvimento de recursos que coloquem os meios de comunicação e de transporte nas mãos de todos os membros.

7. Multiplicação das fábricas e dos instrumentos de produção pertencentes ao Estado, arroteamento das terras incultas e melhoramento das terras cultivadas, segundo um plano geral. Providenciar a todas as iniciativas a oportunidade de adquirir e estender os instrumentos disponíveis de produção ao maior grau possível.

8. Trabalho obrigatório para todos, organização de exércitos industriais, particularmente para a agricultura. Igualdade de oportunidade a todos para participar e produzir.

9. Combinação do trabalho agrícola e industrial, medidas tendentes a fazer desaparecer gradualmente a distinção entre a cidade e o campo por meio de uma distribuição mais uniforme da população ao longo do país. Abolição de todas as distinções entre produtores e consumidores e a transformação das relações de transações baseadas no mercado à distribuição generalizada, em que a produção de bens sociais tenha precedência sobre a produção de bens para a venda.

10. Educação pública e gratuita de todas as crianças, abolição do trabalho infantil nas fábricas, tal como é praticado hoje. Combinação da educação com a produção material etc. Estabelecer redes de partilha de conhecimento e de competências e sistemas de suporte para todos os membros, e oferecer oportunidades para desenvolver habilidades por meio da contribuição com a produção.

Uma vez desaparecidos os antagonismos de classes no curso do desenvolvimento e sendo concentrada distribuída toda a produção, propriamente dita, nas mãos dos indivíduos associados de abrangendo todo o país mundo, o poder público perderá seu caráter político. O poder político é o poder organizado de uma classe para a opressão de outra. Se o proletariado, em sua luta contra a burguesia, se constitui forçosamente em classe; se converte-se, por uma revolução pela auto-organização, em classe dominante e, como classe dominante, destrói violentamente as antigas relações de produção, destrói, juntamente com essas relações de produção, as condições dos antagonismos entre as classes e as classes em geral e, com isso, sua própria dominação como classe.

Em lugar da antiga sociedade burguesa, com suas classes e antagonismos de classes, surge uma associação em que o livre desenvolvimento de cada um é a condição do livre desenvolvimento de todos.

Notas:

1. Karl Marx, ‘Preface’, A Contribution to the Critique of Political Economy, Marxists Internet Archive,

2. Ibid.

3. Karl Marx and Frederick Engels, Manifesto of the Communist Party, 1848,http://www.marxists.org/archive/marx/works/1848/communistmanifesto/.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

A tradição vence o deserto



Burkina Fasso combate a desertificação e a mudança climática com técnicas tradicionais

Por: Gaëlle Dupont
Enviada especial a Gourcy, Burkina Fasso


Fonte: Le Monde Diplomatique

Um cavalo está amarrado na entrada do quintal de Ali Ouedraogo, no povoado de Gourcy, a 150 km ao norte de Ouagadougou, a capital de Burkina Fasso, em pleno Sael [faixa de campos áridos ao sul do deserto do Saara]. Não é uma coisa banal: um animal é um sinal de sucesso, a prova de que aos 78 anos Ali Ouedraogo vive melhor que seus vizinhos, agricultores como ele. No meio de seu quintal, três paióis circulares estão cheios de sorgo até o topo. Eles contêm o suficiente para alimentar toda a família até a próxima colheita, em setembro, talvez até mais. Quarenta pessoas, entre elas uma fieira de crianças, vivem disso, enquanto outras famílias já enfrentam escassez. Elas terão de sobreviver com babenda, um mingau com gosto de espinafre velho, feito de um punhado de cereais e muitas folhas.

Os campos de Ouedraogo não se parecem com os de seus vizinhos. Aqui o hábito é desmatar, plantar e colher até esgotar o solo, depois recomeçar um pouco mais longe. Os agricultores deixam para trás uma terra estéril, nua como um piso de cerâmica. Com o aumento da população cresce a necessidade de terras e mais se esgota o solo. É a engrenagem da desertificação, agravada pelos fatores climáticos.

Para Ali Ouedraogo tudo mudou em 1983. "Naquele momento a situação era muito dura", ele conta. "Não havia chuva, as colheitas eram ruins, eu pensava em deixar a região." Muitos emigraram. Ele decidiu ficar e cuidar das terras degradadas, que ninguém queria na época. Com a ajuda de uma organização não-governamental dedicada ao combate à desertificação, ele pouco a pouco bateu recordes de produtividade. Hoje colhe em média 1.500 quilos de sorgo por hectare, contra 800 quilos nas melhores terras das redondezas.

Para isso não houve necessidade de máquinas agrícolas, adubos químicos ou sementes milagrosas. Os agricultores não poderiam pagá-los. Nem de represas, pois o relevo não se presta. São necessárias pedras, picaretas, pás, um nível para calcular o sentido do escoamento da água e muita mão-de-obra. O objetivo é impedir a erosão e reter o máximo de água no solo.

"Trata-se de técnicas rurais tradicionais, aperfeiçoadas por agrônomos", explica Matthieu Ouedraogo, que forma os agricultores. Nos campos, fileiras de pedras, batizadas de cordões pedregosos, são feitas ao longo das curvas de nível, desenhando pequenos terraços. Árvores são plantadas aí. Barreiras em forma de meia-lua retêm a água em microbacias. Os "zai", buracos com 20 cm de profundidade onde as sementes são plantadas em esterco, permitem uma infiltração mais profunda da água.

"Todas essas técnicas contêm o escoamento da água", continua Matthieu Ouedraogo. "Pouco a pouco a terra se regenera." E as árvores que crescem nos terrenos fornecerão lenha que não será mais retirada da mata...

"Com essas técnicas podemos deixar o Sael verde de novo", afirma Souleymane Ouedraogo, pesquisador do Instituto do Meio Ambiente e Pesquisas Agrícolas (Inera). "Contivemos a desertificação, aumentou a fertilidade das terras, e, portanto a produção de cereais e de ração para os animais, a biodiversidade se recupera." Bastam quatro ou cinco anos para obter bons resultados nas terras degradadas.



Por que então todo o Sael não é transformado? Em Burkina Fasso, cerca de 300 mil hectares estariam preparados, ou seja, menos de 9% da superfície cultivável do país. "Essas técnicas não são muito caras, mas é preciso um investimento inicial", explica Bertrand Reysset, engenheiro agrônomo do Comitê Inter-Estados de Combate à Seca no Sael (Cilss), que reúne nove países da região.

O investimento chega em média a 130 euros por hectare. É preciso alugar um caminhão e pagar o combustível para buscar as pedras, comprar um mínimo de material, pagar a mão-de-obra durante os trabalhos. Uma formação e um acompanhamento são necessários. Tudo isso está fora do alcance dos agricultores que trabalham com foice, dobrados em dois nos campos. Os bancos não lhes dão crédito. Os projetos implementados tiveram o financiamento de ONGs.

Essas técnicas, experimentadas desde os anos 1980 no âmbito do combate à desertificação, seriam muito úteis para adaptar-se à mudança climática. "Os modelos climáticos prevêem um aumento da freqüência de acontecimentos extremos, um prolongamento da estação seca, precipitações mais concentradas e torrenciais", explica Edwige Botoni, especialista em gestão de recursos naturais do Cilss. "Isso terá um impacto negativo na produtividade do solo."

A estação de chuvas de 2007 foi um exemplo perfeito disso. Ela começou atrasada e toda a água caiu ao mesmo tempo, em agosto, provocando inundações. "A luta contra a desertificação e a adaptação à mudança climática coincidem em 90%", afirma Reysset.

Todos esperam que a crise alimentar mundial faça mudar as coisas. Eles ouviram o discurso do presidente francês, Nicolas Sarkozy, que apelou para "aplicar esforços na agricultura de sobrevivência subsaariana" em 3 de junho em Roma, durante a cúpula sobre a alimentação. A agricultura é um parente pobre há 30 anos. Ela representa apenas 5% da ajuda pública ao desenvolvimento, e são raros os países que lhe dão prioridade. Ela vem depois dos ambulatórios, escolas, estradas...

Na aldeia de Guiè, ainda no norte de Burkina, a ONG Terra Verde obteve resultados especialmente espetaculares, criando um "bosque saeliano", segundo a expressão de seu fundador, Henri Girard, um engenheiro agrônomo francês. Cercas vivas protegem o solo da erosão. Com uma mecanização mínima, uma pequena dose de fertilizantes químicos, variedades selecionadas e rotações culturais bem escolhidas, a região reverdeceu e a produção é quatro vezes superior à média.

"É a prova de que não há fatalidade, que mesmo com nossos solos e nossos climas tudo é possível", comenta Hamado Sawadogo, agrônomo do Inera. O investimento inicial foi de 400 euros por hectare. Mas a evolução das práticas também exige uma mudança de mentalidade. "As pessoas aqui são fatalistas: se eu sou pobre, se perdi minha colheita, foi Deus quem quis", explica Girard. "Mas alguns se levantam. A cada 50 km há alguém disposto a se mexer."

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Fonte: Le Monde Diplomatique

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

O último grito de André Gorz


Antes de morrer, o filósofo André Gorz transmitiu, via fax, um texto, com a data de 17-09-2008, para a revista ÉcoRev’ um longo artigo intitulado O trabalho na saída do capitalismo.

Segundo Jean-Claude Guillebaud, autor de inúmeros livros, vários deles traduzidos para o português como A Tirania do Prazer e A Reinvenção do Mundo :


“O texto que André Gorz enviou via fax, no dia 17 de setembro, para a revista ÉcoRev’ é magnífico pela sua gravidade e da grande capacidade de visão ampla e profunda. Longe de se imiscuir com bravatas políticas e frivolidades do momento, Gorz manifesta seu espanto de ver o capitalismo (ele ousa empregar esta palavra) se tornar cada vez mais imperioso e conquistador à medida que ele é minado, desde o seu interior, pro uma lógica irracional”.
No ano passado, a editora Bertrand Brasil traduziu e publicou o seu livro A Força da Convicção.

Por isso, introduzo o último texto de Gortz com o artigo de Jean-Claude Guillebaud, que foi publicado pela revista francesa La Vie, no, 3253, 03-01-2008 (Fonte: http://www.unisinos.br/_ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=12012)

Guillebaud cita o texto de Gorz:
“Pelo seu próprio desenvolvimento, o capitalismo chegou a um limite tanto interno quanto externo que ele é incapaz de superar. Trata-se, portanto, de um sistema que sobrevive de subterfúgios para escapar da crise das suas categorias fundamentais: o trabalho, o valor, o capital”.

Guillebaud continua:

“Falando do “limite”, Gorz designa a corrida à produtividade do capital investido, à pressão ilimitada sobre os salários, as condições de trabalho e o meio ambiente. Esta corrida, absurda desde o seu início, traz consigo fenômenos explosivos como o crescente endividamento, a financeirização da economia mundial, o aparecimento das ‘bolhas’ financeiras cuja imaterialidade ameaça o sistema planetário de derrocamento. Uma tal “loucura” em movimento favorece uma instabilidade mundial geradora de violências terroristas, guerras larvares, desesperança social.
“O decrescimento, escreve Gorz, é portanto um imperativo para sobreviver. Mas ele supõe uma outra economia, um outro estilo de vida, uma outra civilização, outras relações sociais”.

“É preciso ter presente que este texto, fortemente argumentado – escreve Guillebaud – foi redigido antes que aparecessem, especialmente nos EUA, os sinais anunciadores de uma depressão financeira que faz com que muitos analistas evoquem, sombriamente, a possível reedição da crise de 1929”.

Para Jean-Claude Guillebaud, o artigo de Gorz, “é uma mensagem essencial. Ela lembra a mensagem de do filósofo Edmund Husserl (1859 – 1938) que, em 1935, num texto prodigioso – mas pouco lido na época! – falava do medo de ver a Europa cair no ceticismo, no nihilismo e na barbárie. Alguns textos precisam ser lidos por nós com muita atenção. E com respeito”.






O trabalho na saída do capitalismo


Por: André Gorz



(OBS: A página eletrônica Rue89, publicou um extrato do texto que segue abaixo.)



A questão da saída do capitalismo nunca foi tão atual. Ela se põe em termos e com uma urgência de uma radical novidade. Por causa do próprio desenvolvimento, o capitalismo atingiu um limite tanto interno quanto externo que ele é incapaz de ultrapassar e que faz com que seja um sistema que sobrevive por meio de subterfúgios à crise das suas categorias fundamentais: o trabalho, o valor, o capital.


A crise do sistema se manifesta no nível macro-econômico como também no nível micro-econômico. Isso se explica principalmente pela mudança tecnocientífica que introduz uma ruptura no desenvolvimento do capitalismo e arruína, por seus repercussões a base do seu poder e sua capacidade de se reproduzir. Tentarei de analisar esta crise, em primeiro lugar, sob o aspecto macro-econômico e, depois, nos seus efeitos sobre o funcionamento e a gestão das empresas.


1.- A informação e a robotização permitiram introduzir quantidades crescentes de mercadorias com quantidades decrescentes de trabalho. O custo do trabalho por unidade de produto não cessa de diminuir e o preço dos produtos tende a baixar. Quanto mais a quantidade de trabalho para uma determinada produção diminui, mais o valor produzido por trabalhador – sua produtividade – deve aumentar para que a massa de lucro realizado não diminua. Tem-se, assim, este aparente paradoxo que quanto mais aumenta a produtividade, tanto mais é necessário que ela aumente para evitar que o volume do lucro não diminua. A corrida em busca da produtividade tende assim a acelerar, os efetivos empregados tendem a ser reduzidos, a pressão sobre o pessoal endurece, o nível e a massa dos salários diminui. O sistema evolui para um limite interno onde a produção e o investimento na produção param de ser muito rentáveis.
Os índices atestam que este limite foi atingido. A acumulação produtiva do capital produtivo não para de regredir. Nos EUA, as 500 empresas do índice Standard & Poor’s dispõem de 631 bilhões de reservas líquidas; a metade dos lucros das empresas americanas provém dos mercados financeiros. Na França, o investimento produtivo das empresas do CAC 40 não aumenta mesmo quando os lucros explodem.


A produção não sendo mais capaz de valorizar o conjunto dos capitais acumulados, uma parte crescente destes conserva a forma de capital financeiro. Uma indústria financeira se constitui que não pára de afinar a arte de fazer dinheiro não comprando nem vendendo nada além das diversas formas de dinheiro. O dinheiro mesmo é a única mercadoria que a indústria financeira produz por meio de operações, nos mercados financeiros, cada vez mais arriscadas e cada vez menos controláveis.


A massa de capital que a indústria financeira drena e gera ultrapassa de longe a massa de capital que valoriza a economia real (o total dos ativos financeiros representa 160 trilhões de dólares, ou seja, quatro vezes mais do que o PIB mundial). O “valor” deste capital é puramente fictício: ele repousa, em grande parte, sobre o endividamento e o “good will”, isto é, sobre as antecipações: a Bolsa capitaliza o crescimento futuro, os lucros futuros das empresas, a alta futura dos preços imobiliários, os ganhos que poderão ser gerados pelas reestruturações, pelas fusões, concentrações, etc. As Bolsas se enchem de capitais e de seus rendimentos futuros e as famílias são incitadas pelos bancos a comprar (entre outros) as ações e os certificados de investimento imobiliário, a acelerar, desta maneira, a alta da Bolsa, a emprestar dos bancos somas crescentes à medida que aumenta o capital fictício da Bolsa.


A capitalização da antecipações do lucro e do crescimento anima o endividamento crescente, alimenta a economia com liquidez devido à reciclagem bancária da mais-valia fictícia, e permite aos EUA um ‘crescimento econômico’ que, fundado sobre o endividamento interno e externo, é, de longe, o principal motor do crescimento mundial (inclusive do crescimento chinês). A economia real torna-se, assim, um apêndice das bolhas especulativas mantidas pela indústria financeira. Até o momento, inevitável, em que as bolhas estouram, levando os bancos à bancarrota em cadeia, ameaçando com o colapso o sistema mundial de crédito, a economia real de uma depressão severa e prolongada (a depressão japonesa dura já quase quinze anos).
Tem-se acusado a especulação, os paraísos fiscais, a opacidade e a falta de controle da indústria financeira (particularmente os hedge funds), a ameaça de depressão, ou seja, o derrocamento que pesa sobre a economia mundial não é devido à falta de controle; ele se deve à incapacidade do capitalismo se reproduzir. Ele não se perpetua e somente funciona sobre bases fictícias cada vez mais precárias. Pretender redistribuir por meio da imposição as mais-valias fictícias das bolhas precipitaria o que a indústria financeira quer evitar: a desvalorização da massa gigantesca dos ativos financeiros e a derrocada do sistema bancário.


A “reestruturação ecológica” irá agravar ainda mais a crise do sistema. É impossível evitar uma catástrofe climática sem romper radicalmente com os métodos e a lógica econômica que reinam há 150 anos. Se se prolonga a tendência atual, o PIB mundial será multiplicado por 3 ou 4 vezes, de hoje até o ano 2050. Ora, segundo o relatório do Conselho sobre o clima da ONU, as emissões de CO2 deverão diminuir em 85% até 2050 se se quer limitar o aquecimento climático em 2º C, no máximo. Além dos 2º, as conseqüências serão irreversíveis e não controláveis.


Portanto, o decrescimento é um imperativo de sobrevivência. Mas ele supõe uma outra economia, um outro estilo de vida, uma outra civilização, outras relações sociais. Na sua ausência, o derrocamento só será evitado impondo restrições, racionamentos, alocações autoritárias de recursos característicos de uma economia de guerra. A saída do capitalismo, portanto, se dará de uma ou outra maneira, de modo civilizado ou bárbaro. A questão é somente de que forma se dará esta saída e qual a cadência com que vai se dar.


A forma bárbara nos já é familiar. Ela prevalece em várias regiões da África, dominadas por chefes de guerra, pela pilhagem das ruínas da modernidade, os massacres e tráficos de seres humanos, tendo como pano de fundo a fome. Os três Mad Max eram relatos antecipatórios.
Uma forma civilizada de saída do capitalismo, ao contrário, raramente é analisada. A evocação da catástrofe climática que ameaça conduz geralmente a propor uma necessária ‘mudança de mentalidade”, mas a natureza desta mudança, suas condições de possibilidade, os obstáculos a serem superados parecem sufocar a imaginação.


Propor uma outra economia, outras relações sociais, outros modos e meios de produção e modos de vida é visto como algo ‘irrealista’, como se a sociedade da mercadoria, do assalariamento e do dinheiro fosse impossível de ser superada. Na realidade, uma multidão de índices convergentes sugerem que esta superação já iniciou e que as chances de uma saída civilizada do capitalismo dependem antes de tudo da nossa capacidade em distinguir as tendências e as práticas que anunciam a possibilidade.


2.- O capitalismo deve a sua expansão e a sua dominação ao poder que ele tomou, em um século, sobre a produção e, ao mesmo tempo, sobre o consumo. Ao expropriar, primeiramente, os operários dos seus meios de produção e dos seus produtos, ele foi assegurando, progressivamente, o monopólio dos meios de produção e a possibilidade de subsumir o trabalho. Ao especializar, dividir e mecanizar o trabalho nas grandes fábricas, ele fez dos trabalhadores os apêndices das megamáquinas do capital. A apropriação dos meios de produção pelo produtores se tornou impossível. Eliminando o poder daqueles sobre a natureza e a destinação dos produtos, ele garantiu ao capital o quase-monopólio da oferta, portanto o poder de privilegiar em todos os domínios as produção e o consumo mais rentáveis, como também o poder de fomentar o gosto e os desejos dos consumidores, a maneira pela qual ele satisfariam as suas necessidades. É este poder que a revolução informacional começa a romper.









segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

O colapso do agronegócio e a agricultura do futuro




21/1/2008


Por: Gerson Teixeira

“A pequena produção agroecológica se credencia para dominar a paisagem agrária do futuro”, afirma Gerson Teixeira, coordenador geral da Associação Brasileira de Reforma Agrária - ABRA, no DF, em artigo publicado no jornal Valor, 21-01-2008. Segundo ele, “a pequena produção agroecológica se habilita para hegemonizar, no futuro, a paisagem agrária, principalmente em países como o Brasil”. Assim, ele defende que “mais do que nunca, reforma agrária, agricultura familiar e meio ambiente devem passar a ser pontos de convergência das agendas das lutas populares no campo. E cumpre que se perceba a necessidade de luta pela revisão do Pronaf à medida que, na concepção atual o programa nivela as formas de gestão e produção dos camponeses às bases de organização da agricultura produtivista. Isto não ajuda a construir o futuro!”

Eis o artigo.

A interação de dois fenômenos estruturais são preditivos de uma atividade agrícola no futuro, organizada sob bases incompatíveis com a manutenção do agronegócio nos termos atuais. O primeiro fenômeno, de ordem econômica, subproduto da modernização conservadora da agricultura, diz respeito à trajetória erosiva, no longo prazo, dos níveis de rentabilidade econômica da base primária da atividade, decorrente do gap continuado entre preços agrícolas e custos de produção. Esse descompasso teve início com a auto-suficiência alimentar da Europa no final da década de 1970. À título de exemplo, de acordo com a FAO, entre 1980 e 2005, os níveis reais dos preços do milho, arroz, trigo e algodão declinaram, respectivamente, 55%, 50%, 46%, 60% e 54%.

Interagem com esse fenômeno os ganhos de produtividade agrícola em escalas incapazes de convergir as curvas dos preços e custos. A este respeito, vale consultar na Central de Informações Agropecuárias da Conab (www.conab.gov.br) os dados sobre a evolução dessas variáveis, para várias culturas, no período de 1998 a 2007.

Nos países ricos, o colapso da agricultura, por força desses fenômenos, tem sido evitado por políticas protecionistas vigorosas que incluem bilhões de dólares em ajuda aos agricultores.

No Brasil, a grande exploração agrícola tem resistido, com competitividade internacional, graças ao concurso de fatores como: a "cultura" da inadimplência no crédito rural, a precarização do trabalho, os baixos preços relativos da terra, o uso predatório dos recursos naturais e os incentivos da Lei Kandir.

Decorre das tendências acima, portanto, a rota desestruturante da base primária da agricultura empresarial, ao que tudo indica, inevitável, à medida que resultante de fatores dificilmente reversíveis, a exemplo do protecionismo agrícola, da imanência excedentária do modelo agrícola e dos processos de concentração e a centralização econômica dos capitais industrial, financeiro e comercial no entorno da atividade agrícola.

Poder-se-ia contra-argumentar que a economia dos agrocombustíveis imporá inflexão nessas tendências. Mas, o governo brasileiro, os agrosenhores e os seus agro-intelectuais garantem que não haverá competição com a produção de alimentos! Aliás, recomenda-se àqueles que ainda apostam na mega-economia dos agrocombustíveis, a interpretação política da lista de bens ambientais, sem o etanol, apresentada em Bali na COP 13, pelos EUA e Europa, em atropelo e desrespeito, como de praxe, às negociações entabuladas pelos mais de 150 membros do Comitê de Comércio e Meio Ambiente da OMC.

Esta ameaça à agricultura empresarial perde intensidade no caso da agricultura familiar e camponesa por conta dos valores e relações com a terra não restritos à lógica marginalista.

Com esta maior blindagem e levando em conta os efeitos do segundo fenômeno tratado na seqüência, a pequena produção agroecológica se habilita para hegemonizar, no futuro, a paisagem agrária, principalmente em países como o Brasil.

O segundo fenômeno deriva dos impactos na atividade agrícola das mudanças climáticas globais e, ao mesmo tempo, das contribuições da agricultura para o aquecimento global.

O mundo se depara com o grandioso (e ao que tudo indica, irrealizável) desafio de reduzir, entre 50% e 80% as emissões de gases de efeito-estufa, nos próximos 50 anos, para evitar que a temperatura global ultrapasse os 2 graus centígrados. E as medidas nesta direção devem ser implementadas, nas hipóteses mais otimistas, no prazo de até 15 anos.

A agricultura contribui de forma importante e será fortemente afetada por esse processo. Calcula-se que esta atividade seja responsável por 30% das emissões globais de gases geradores do efeito estufa. Afora as queimadas em países como o Brasil, o principal fator da contribuição da agricultura para o aquecimento global é o emprego intensivo de fertilizantes químicos. Daí decorre o seguinte dilema: sem a redução massiva da utilização dos agroquímicos não há possibilidade de redução do aquecimento global e, ao mesmo tempo, sem o uso crescente desses insumos a agricultura produtivista estará inviabilizada.

Neste quadro, no qual a grande exploração agrícola conspira contra a sua própria sobrevivência e a do planeta, os impactos do aquecimento global desestabilizadores da agricultura, previstos no último Relatório do IPCC, exigirão mudanças de profundidade na base técnica da agricultura sob pena de severas ameaças à segurança alimentar da população mundial.

É óbvio que os centros de pesquisa em todo o mundo já vêm se empenhando por soluções técnicas agronômicas para as situações de superstress que advirão do aquecimento global. Todavia, se, por exemplo, é possível a obtenção de variedades compatíveis com adversidades ambientais previstas, não parece razoável supor uma atividade agrícola no futuro ultra-intensiva em fertilizantes. A não ser que a opção seja pela destruição do planeta! Não sendo assim, é possível imaginar o atual modelo agrícola, sem os agroquímicos? Aí já seria um outro modelo agrícola!

Do mesmo modo, muitos cientistas asseguram que a agricultura com biodiversidade será essencial para a convivência com os desdobramentos dos mudanças climáticas. Como isto seria possível com um tipo de agricultura no qual a biodiversidade tem sido uma das suas principais vítimas? Além disso, sem monocultivos em escala não há possibilidade de viabilidade econômica para a base primária do agronegócio, nos termos atuais. De novo, agora por razões ambientais, a pequena produção agroecológica se credencia para dominar a paisagem agrária do futuro.

Em suma, se fatores desestabilizadores da natureza e da economia tendem a criar essa oportunidade de hegemonia para a agricultura familiar e camponesa, no futuro, resta que, na política, as suas organizações atuem para tal sob perspectiva estratégica.

Para tanto, mais do que nunca, reforma agrária, agricultura familiar e meio ambiente devem passar a ser pontos de convergência das agendas das lutas populares no campo. E cumpre que se perceba a necessidade de luta pela revisão do Pronaf à medida que, na concepção atual o programa nivela as formas de gestão e produção dos camponeses às bases de organização da agricultura produtivista. Isto não ajuda a construir o futuro!



Fonte: http://www.unisinos.br/_ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=11776

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

A revolução silenciosa: como viver sem fazer compras

Os nossos hábitos de fazer compras de forma desmedida ameaçam seriamente o planeta. Todavia está em curso uma revolução silenciosa protagonizada por aqueles que, em vez de comprarem, preferem reciclar e partilhar. Aqueles que se empenham em viver sem o deus Dinheiro.
Trata-se provavelmente da mais recente revolução pacífica, aquela que está em curso em diversos países. Na verdade, mais do que discursos e teorias sobre as mudanças sociais, importa revolucionar atitudes e comportamentos e, com efeito, se o consumismo se traduz numa atitude que se funda num modelo económico ambientalmente insustentável, então comprar menos ou, pura e simplesmente, não comprar, são estratégias adequadas, mais directas e imediatas, para que as coisas mudem.
Foi com esta ideia que um grupo de residentes da baía da São Francisco ( na Califórnia) decidiu unir esforços, depois de um animado debate interno nos finais de 2005, e tomaram a firme resolução entre si de nada comprarem ao longo do ano seguinte ( 2006). Viveriam de forma simples, ajustando entre si as necessidades, efectuando trocas e intercâmbio de bens e serviços, e recorrendo em última instância, sempre que necessário, ao mercado de segunda mão para adquirir bens que não poderiam dispensar. O grupo era formado por professores, engenheiros, estudantes e alguns profissionais, e em breve, ganhou renome mundial graças à Internet, sob o nome de The Compact. A experiência constituiu um êxito, pelo que decidiram repetir a sua experiência de abstinência consumista no ano de 2007.
Actualmente contam com um blogue muito visitado e o seu newsgroup na Yahoo já tem 3.000 inscritos que trocam ideias e experiências como viver sem dinheiro e sem ir às compras.
A ideia do grupo The Compact já vêm do ideário histórico da contracultura e de alguns movimentos alternativos que despontaram nas últimas décadas nos países capitalistas desenvolvidos, mas a novidade está no facto de ter envolvidos pessoas que até ali estavam bem integradas, social e profissionalmente, nos seus meios sociais. Note-se que os aderentes à experiência do grupo The Compact tinham previamente estabelecido um limite temporal para a sua experiência, a partir do qual cada elementos era livre de regressar aos seus anteriores hábitos consumistas.




Alicia é uma ex-estudante de Belas Artes de 24 anos, actualmente ocupa numa casa em Barcelona, que se converteu entretanto numa especialista de reciclagem e de uma maneira de viver alternativa que é viver sem dinheiro. É também autora de um guia, único no género na Catalunha, de recursos gratuitos, onde é possível encontrar a lista dos locais onde se poder gratuitamente, navegar na net sem gastar um tostão, adquirir mobiliário e certos acessórios sem dinheiro, assim como locais para viver e trocar coisas e conhecimentos…

Segundo as suas próprias palavras trata-se de um guia para se viver de outra maneira, e romper com as cadeias que nos prendem ao consumismo.

« É um crime continuar a comprar comida quando há todos os dias há imensas sobras que são deitadas fora. Para que vou comprar pão numa padaria, se cada dia me dão 10 regueifas de bom pão das sobras, na hora do fecho do estabelecimento?» interroga-se Alicia.
Uma atitude como esta pode ser vista como penosa para quem tiver uma mentalidade convencional, mas é considerado o comportamento mais lógico e racional para os activistas dos movimentos alternativos. Aliás, um estudo realizado por Timothy Jones, professor da Universidade do Arizona, confirma essa ideia: a metade dos alimentos produzidos nos Estados Unidos da América vão parar aos contentores de lixo, o que supõe um desperdício de 100.000 milhões de dólares ao ano. Na Europa, as coisas não são diferentes.

O objectivo da Alicia é ajudar as pessoas mais pobres e fracas da grande cidade e lutar para desestruturar as bases do capitalismo e criar um mundo mais sustentável:
«não quero fazer nada que leve a mais produção, que reforce o mercado ou que seja cúmplice do sistema repressivo».
O sistema a que Alicia se refere é o capitalismo dominante de que os Estados Unidos da América é a potência hegemónica, e que um dos principais símbolos é o Mayflower Compact, um documento escrito e assinado em 1620 pelos passageiros do barco Mayflower aquando da sua chegada à costa leste e que está na origem dos Estados Unidos da América.
Quatro séculos é a esse mesmo contrato social fundacional que alude o nome do grupo The Compact,só que desta vez o seu sentido é diferente pois o que se pretende é de refundar uma sociedade onde não haja necessidade de fazer comprar nem venerar o deus Dinheiro.
«Somos pessoas para quem reciclar não basta», afirma John Perry, um dos membros do grupo The Compact, que acrescenta: «Tentamos sair da prisão em que o consumismo nos encerra, porque consideramos que a cultura e a sociedade do consumo está a destruir o mundo. A única maneira de sair da crise ecológica e socio-económica em que estamos mergulhados é deixar de comprar. Enquanto as massas invadem os centros comerciais os membros compacteros exercitam-se em vários ofícios. Visitam ainda as lojas de segunda mão ou os mercados de trocas e, quando não encontram o que procuram, recorrem aos outros membros do grupo. Matt e Sarah precisavam de uma cortina de banho, por exemplo. Perguntaram primeiro ao grupo se havia necessidade de a comprar. Como a resposta foi «não», fizeram então um apelo ao grupo, e apareceu alguém a quem sobrava uma cortina e a ofereceu a eles.
The Compact não é só um local de trocas e de intercâmbio. É sobretudo um grupo de apoio mútuo e uma semente para os movimentos sociais. Os seus membros partilham conhecimentos, aconselham-se reciprocamente e oferecem apoio moral o que permite compensar as gratificações psicológicas que normalmente o consumo está associado.
Para Kate Boyd, professor de teatro, a sua nova forma de vida, livre do consumismo, é, em todos os sentidos, mais tranquila:«tenho mais tempo e já não sinto aquela pressão para estar sempre a fazer compras de todo o tipo, e que em geral não tenho necessidade.»
O acto de comprar tem profundas implicações sociais, culturais e até espirituais. Nas nossas sociedades consumistas os objectos que encontramos à venda não são apenas coisas, mas também símbolos que transmite toda uma série de mensagens acerca do ideal de vida, as relações entre os sexos, o status social, etc. O consumidor vai construindo uma identidade mediante as coisas que vai comprando. Uma identidade banal e alienada. Se no século passado os filósofos interrogavam-se sobre se trabalhávamos para viver ou vivíamos para trabalhar, hoje em dia a questão é saber se consumimos para viver ou se vivemos para consumir.
Peter Sealey, professor na Escola de Negócios Haas da Universidade de Berkeley, crê que o fenómeno do grupo The Compact representa um movimento mais geral que consiste num estilo e num modo de viver mais amigo do planeta, e de que farão parte também os edifícios verdes e os alimentos naturais, o consumo responsável e ético, apesar de duvidar sobre a sua viabilidade numa sociedade de mercado, uma vez que um tal movimento ataca directamente as bases do sistema. De qualquer modo, sempre é uma chamada de atenção para as consequências sociais e ecológicas do consumismo.
Runa Bjorg, de origem islandesa, e membros do grupo The Compact está consciente das limitações do projecto, tanto mais que não está nos propósitos do grupo influir sobre a vontade dos fabricantes nem das massas de consumidores. Mesmo assim, considera que a iniciativa pode contribuir e ajudar à consciencialização sobre o impacto ambiental de produzir muitas coisas que, em pouco tempo, se tornarão em lixo.
Ele confessa: « As sensações mais agradáveis que senti, desde que formo parte do grupo, foi quando tivemos de tomar decisões acerca da necessidade de comprar ou não comprar, sem nos deixarmos arrastar pela publicidade e pelas campanhas sugestivas dos vendedores. Senti aí uma vitória pessoal.»

Os elementos do grupo The Compact apostam na capacidade de cada qual controlar a saber orientar a sua própria vida, um bocado à imagem do ideal dos anarquistas que pretendem abolir o dinheiro.
Múltiplas iniciativas se multiplicam um pouco por todo o lado nos países desenvolvidos para escapar ao modelo reinante do todo-poderoso dinheiro e do não menos perigoso consumismo. Os grupos de troca, por exemplo, vão proliferando aqui e ali, permitindo não só fazer face a dificuldades financeiras, como reforçar os laços sociais e criar novas relações sociais baseadas na cooperação, face a uma lógica hostil como é a competitividade capitalista. Os sistemas trocais ajudam a economia familiar, a aproximação entre os consumidores, e abrem uma quantidade de portas como o estabelecimento de pontes entre produtores e consumidores.

O website http://www.freecycle.org/ é um conhecido meio comunitário de doações mútuas e conta hoje com 3,5 milhões usuários em todo o mundo, registando cerca de 4.000 grupos locais. Uma única norma foi fixada: que tudo o que é oferecido o seja legal e gratuitamente.
Os sistemas trocais são tão antigos como a humanidade, se bem que a sua versão mais moderna tenha nascido em Counterbary ( Canadá) por volta de 1983 como resposta à crise que atingiu aquela região, e daí se expandiu para os Estados Unidos e para a Europa. Já não são apenas nos mercados que se efectuam trocas recíprocas, também a Internet passou a ser um meio fundamental para facilitar esses sistemas de troca directa entre os interessados em viver de forma não-dependente do deus dinheiro.
O grupo The Compact reúne pessoas das mais variadas origens que se constituíram como rede anti-consumo e que levam a sério uma declaração de princípios que os seus aderentes se comprometem a respeitar e que consistem fundamentalmente em evitar as compras desnecessárias. O objectivo é lutar contra o consumismo reinante, resistir ao poder invasor das grandes empresas multinacionais, e apoiar o comércio e a agricultura local, para o que não basta cultivar e desenvolver a cultura da reciclagem. Outros objectivos são reduzir a quantidade descomunal de resíduos de todo o género e simplificar a vida, escapando à competitividade individualista que impera nas sociedades e economias capitalistas.
Não comprar nada de novo – eis a primeira e a principal regra do grupo The Compact. Em vez disso, admite-se a aquisição de bens em segunda mão, a troca e os empréstimos. Todavia, esta regra admite excepções: pode-se comprar novos bens alimentares, bebidas, medicinas, material de higiene e roupa interior.
Quanto aos serviços a regra é para se recorrer aos profissionais mais próximos. Presentes pessoais são aceites desde que não sejam usados como gratificação.
Consultar:

1) to go beyond recycling in trying to counteract the negative global environmental and socioeconomic impacts of U.S. consumer culture, to resist global corporatism, and to support local businesses, farms, etc;

2) to reduce clutter and waste in our homes (as in trash Compact-er);

3) to simplify our lives (as in Calm-pact)

So, here goes for the rules:• First principle - don't buy new products of any kind (from stores, web sites, etc.)• Second principle - borrow or buy used.• A few exceptions - using the "fair and reasonable person" standard -- i.e., you'll know in your heart when you're rationalizing a violation:• food, drink, and necessary medicine (no elective treatments like Viagra or Botox)• necessary cleaning products, but not equipment (don't go out and buy the Dyson Animal, for example).• socks and underwear (utilitarian--non-couture or ornamental)• pajamas for the children• Utilitarian services (plumbers, electricians, auto mechanics, veterinarians, dog/house-sitters, fire/paramedics, dry cleaners, house cleaners, etc.) -- Support local and encourage used parts (rebuilt transmission, salvaged headlight unit, etc.)• Recreational services (massage, etc.) & local artisanal items - Good sources for gifts, but should not be over-indulged in for personal gratification• Charitable contributions (Seva, Heifer, and the like) - an even better source for gifts• Plants and cut flowers - Whenever possible, cultivate from free cuttings or seeds. Ok in extreme moderation (yo, incoming oxy) when purchased from local businesses (i.e., not the Target Garden Shop)--and again, within reason• Art supplies - First line of attack: SCRAP. When absolutely necessary (for the professionals and talented amateurs in the group), from local businesses• Magazines, newspapers, Netflix - renewals only, no new subscriptions. Even better to consume online• Video rentals and downloadable music files (non-material) -- freely shared and legal, please

For fresh produce:

Terra Firma (like The Box, but community supported agriculture, entirely sourced from Yolo County farms.)
For secondhand purchases and for recycling/donating:http://www.craigslist.org/ (classifieds, free section, forums for local business leads, etc.)freecycle (join the SF chapter)Green Apple, Red Hill, etc.SF Public Library (rediscover)Building REsources
For spiritual support and guidanceRev. Billy and the Church of Stop Shopping (we're still looking for a private audience with the Reverend. A puptent meeting, if you will.)

Fonte: http://pimentanegra.blogspot.com/2007/11/como-viver-sem-fazer-compras-e-sem.html