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quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Mentira e denocracia



Roberto Romano, professor de Ética e Filosofia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), em artigo publicado no jornal O Estado de S.Paulo, 08-12-13.
Eis o artigo.

John Mearsheimer, especialista em questões bélicas e diplomáticas, publicou em 2011 o livro Por Que os Líderes Mentem - Toda a Verdade sobre as Mentiras na Política Internacional. Ele comenta as práticas do governo americano após os ataques ao World Trade Center. Para Mearsheimer, a Casa Branca mentiu ao alegar a existência das armas de destruição em massa no Iraque, ao dizer que Saddam Hussein colaborava com Osama bin Laden, ao proclamar que o ditador iraquiano estava implicado nos ataques às torres gêmeas, ao anunciar negociação pacifica quando a invasão do Iraque estava pronta. Mearsheimer não é jacobino ("liberal"), sua posição tem forma conservadora.
Após apresentar o que nomeia mentiras de George W. Bush, ele as justifica. Dada a anarquia imperante na vida internacional (conhecida desde Tucídides, Maquiavel, Hobbes e Hegel), todos os Estados estão sozinhos se precisam defender a hegemonia. Sem aliado seguro não há quem obrigue uma potência a seguir a ordem kantiana de jamais mentir.
Afirma o autor que a mentira "é ação positiva, articulada para enganar a plateia alvo". A definição copia a de Santo Agostinho: mentir é "dizer o contrário do que se pensa, com a intenção de enganar" (De Mendacio). A mentira, comenta uma analista, "é boa se ajuda a superar situações sociais ou políticas"(Diana Margarit). Da "nobre mentira" platônica (A República, 414b-c) aos nossos dias, o tema integra a razão de Estado. Frederico II, diz Hegel na Filosofia do Direito, perguntou em 1778 se "é permitido enganar um povo". Mas Hegel tem uma resposta maquiavélica: a plebe "engana a si mesma". O governante, se for eminente, conhece o verdadeiro e o falso, tem o direito de usá-los para garantir o Estado contra os ignaros.
Tempos atrás surgiu nos Estados Unidos o romance, escrito por um anônimo, intitulado Primary Colors (que resultou no filme Segredos do Poder). A trama é narrada pelo integrante de uma campanha presidencial. O candidato, tudo indica, seria Bill Clinton. O autor diz em prefácio que sua ob ra é pura fantasia. Mas os detalhes do enredo são confirmados pelas notícias. Após algum tempo surgiu o nome do autor, trata-se de Joe Klein, experiente jornalista político, profundo conhecedor dos bastidores partidários.
A campanha presidencial narrada segue receita antiga para ganhar eleições: mover os semeadores de boatos contra os adversários (os spin doctors), usar truques e fraudes virulentas.
O mais importante reside na ambígua ética do candidato (Jack Stanton), que se imagina um mocinho, mas usa os meios dos bandidos para vencer. Na batalha pelas urnas, os "perversos" inimigos fabricam um elo extraconjugal do político. Detalhe: o fato é verdadeiro, mas para convencer os eleitores seria preciso "aprimorar a prova". Daí, eles unem trechos de várias conversas gravadas, as quais, por si mesmas, nada diziam sobre as alcovas do político. Para refutar o truque os marqueteiros de Stanton colam falas de uma entrevista televisionada e a passam ao público. Mostram, assim, que houve fraude na montagem, mas eludem o trato entre candidato e amante. Relações homoafetivas do adversário são expostas sem clemência. Vale tudo no belicismo eleitoral.
Quando um membro da sua campanha quer deixá-lo, "Clinton/Stanton" arrazoa: "Dois terços do que fazemos é repreensível. Sorrimos, escutamos - podem crescer calos em nossas orelhas de tanto ouvir. Fazemos nossos patéticos pequenos favores. Falamos para eles o que desejam ouvir e quando lhes falamos algo que não querem ouvir, usualmente é porque calculamos exatamente o que desejam escutar. Temos uma eternidade de sorrisos falsos. É o preço pago por nós para liderar. Você não acha que Abraham Lincoln foi uma prostituta antes de ser presidente? Você entende, como eu, que há muita gente no jogo que nunca pensa nas pessoas mas só quer vencer?".
Comenta um filósofo: "Primary Colors analisa as rotas onde a democracia e seus ideais são erodidos e forçados por uma elite política e pela cultura midiática, em campanhas imersas na sujeira e na contra-sujeira, na corrupção e na tentação de dizer ao eleitorado o que ele deseja ouvir" (Jon Hesk, em Deception and Democracy in Classical Athens).
Voltemos ao maquiavélico Hegel (a massa engana a si mesma). É suspeito o prazer suscitado quando as carnes podres de um ou outro partido são expostas em boatos dos spin doctors e marqueteiros. O escândalo dura pouco tempo, sendo trocado pelo seguinte, e assim por diante. A vítima real das denúncias encontra-se na instituição política, corroída e impotente. Sem a fé pública, ela não mais oferece a segurança basilar da existência cidadã. Eleições, em casos assim, marcam a morte da vida democrática, não seu vigor.
Vivemos a guerra eleitoral de 2014. No mundo e no Brasil domina a propaganda mendaz (cf. Dennis W. Johnson, No Place for Amateurs: How Political Consultants Are Reshaping American Democracy). Se, como diz Mearsheimer, mentiras podem ser aceitas em plano internacional, na vida interna dos povos elas dissolvem a sociedade. Quando os poderes mentem para as plateias, difamam adversários e batem contritos no peito, o regime democrático fenece.
Spin doctors, na imprensa e na internet, espalham calúnias e medos. Eles vampirizam os sonhos da plebe. Tudo está programado para destruir os inimigos, no governo e nos recantos oposicionistas, e para rebaixar a cidadania. Lucram os oligarcas que pescam em águas turvas, mas quem lhes serve de instrumento vai para a cadeia.
Quando lembramos a tese de George Orwell, pervertida com sarcasmo em Primary Colors - "Se a liberdade tem algum sentido, ela significa o direito de dizer ao povo o que ele não quer ouvir" -, temos a consciência de que já ultrapassamos os limites da escravidão, apelido que damos a uma suposta e melancólica democracia.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Quem atribui sentido ao que acontece em nossa volta?

Quem atribui sentido ao que acontece em nossa volta?

José Luiz Quadros de Magalhães, professor titular da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.

O filosofo esloveno Slavoj Zîzek nos alerta para o enorme poder que tem aqueles que podem construir o significado das palavras e dos fatos, e, lógico, chegar até um numero expressivo (gigantesco) de pessoas. Este é o papel da grande mídia: todo o tempo, este poder, concentrado nas mãos de poucos grupos econômicos, procura mostrar às pessoas, o significado do que ocorre, o significado de palavras (como democracia, direitos humanos, desenvolvimento), atribuindo sentidos e condicionando a percepção de um grande numero de pessoas sobre o que acontece no mundo. Enfim, a grande mídia pretende construir o nosso senso comum, mas, felizmente o seu poder tem limites, e hoje, as redes sociais e a mídia alternativa cuida de evitar o poder total sobre nossas compreensões. Não sejamos, entretanto, inocentes.

Tudo é muito bem controlado, cada vez mais. Os espaços alternativos são estreitamente vigiados, e hoje, as grandes empresas, que financiam parte do poder (em em alguns casos todo ele), podem saber tudo sobre nós. Com o aumento do dinheiro de plástico (cartões de débito e de crédito) as empresas e o estado podem saber o que fazemos, os filmes que assistimos, os livros que lemos, o que comemos e bebemos, quando e onde. Não é ficção, é real e de conhecimento de todos, que prestam um pouco de atenção no mundo.

Quero falar sobre as manifestações públicas que tomaram as ruas de diversas cidades do Brasil, da luta pela atribuição de sentidos pela mídia e pelo poder econômico, assim como por nós, todos, que participamos e que percebemos sua complexidade e diversidade, marcado, entretanto, por um sentimento comum: um enorme mal-estar com o que estamos vivendo pelo mundo afora. Há um mal-estar que não vai passar com o atendimento de nenhuma reivindicação pontual, e isto pode ser perigoso se não entendido. Precisamos pensar sobre o nosso mal-estar. Sobre o que há de comum no mal-estar de cada um, nas grandes cidades e nas pequenas; nos que praticam violência e aqueles que recusam a violência; na esquerda e na direita; entre jovens e não tão jovens; entre todos, o que há em comum neste mal-estar? Um processo de psicanálise coletiva, um encontro com nossa história (talvez, melhor, estória), a busca do recalcado, do encoberto, do que realmente está nos matando mas não somos capazes de entender, perceber, ou, muitas vezes, não temos coragem de dizer, as vezes mesmo de pensar, talvez porque fomos proibidos de pensar determinados pensamentos.

O movimento começa com uma reivindicação pontual: a luta pela redução dos valores daspassagens de ônibus. Em uma cidade (em muitas cidades) onde as pessoas que trabalham são obrigadas a permanecer em ônibus durante horas, em um transito infernal, em uma sociedade com quase nenhuma solidariedade, muita competição e egoísmo, a vida pode ser um inferno. É claro que a passagem não é o problema, e o atendimento a esta reivindicação não irá atenuar o mal estar. Outras e outras reivindicações virão, mas a razão do mal-estar não será contemplada.

Como o mal-estar não passará, sem desocultar os seus reais motivos, outras reivindicações surgem, entre genéricas e especificas, as manifestações começam a revindicar a rejeição de emenda constitucional que retira poderes do Ministério Público; a crítica a grande mídia; melhoria na educação e saúde; e mais várias outras bandeiras que representam um incomodo imediato, de fácil identificação. Seria a ideia de "investimento" da psicanálise: o "investimento" em um incomodo aparente irá sempre ocultar o que realmente causa o mal-estar, que permanecerá encoberto até o momento em que tivermos coragem de investigar, descobrir e enfrentar o que está oculto em um lugar seguro, desconhecido. Estamos proibidos de pensar no que está oculto e nos mata sem sabermos.

A discussão e a luta por estas demandas imediatas, e a constatação recorrente de que o problema efetivamente não está ali, ameaça os interesses e a estabilidade de um sistema socioeconômico que se sustenta no ocultamento de suas reais razões. Daí, a reação dos que se beneficiam deste sistema. A indefinição e a pluralidade de pautas e reivindicações e a incapacidade de percepção da real causa do mal-estar, facilita o trabalho da reação.

O movimento difuso permite as infiltrações, não só de pessoas, mas principalmente de ideias, bandeiras, demandas. Começa a ação determinada de resignificação das manifestações, especialmente na cabeça daqueles, que insatisfeitos, manifestam, mas não sabem muito bem porque. Estas pessoas viram massa de manobra. A insatisfação difusa se expressa em uma raiva sem direção. Esta direção pode ser dada por quem tiver maior capacidade de fazê-lo. Massa de manobra, e não apenas, pois os que se recusam a ser utilizados como tal, não terão suas imagens mostradas na TV.

Estratégias antigas, fascistas, são reutilizadas: a divisão da população entre amigos e inimigos; a negação da diversidade, dos partidos políticos e a defesa da unidade fundada no nacionalismo (nazismo); de outro lado a simplificação do complexo quadro, na nomeação do inimigo e sua caracterização como não pessoa: vândalos ou mesmo terroristas. As pessoas são reduzidas e julgadas por um nome coletivo que lhes exclui a humanidade.

A questão é que precisamos descobrir este mal-estar, que desencadeou o processo, para evitar o seu uso por quem tem o poder para fazê-lo, e, para isto, no lugar de simplesmente apoiar isto ou aquilo, precisamos fazer as perguntas e buscar com coragem as respostas:

- A questão não é apenas condenar policiais infiltrados que incentivam a violência mas porque isto ainda é feito e porque ainda encontramos pessoas capazes de fazer isto.

- A questão não é apenas condenar o ativista de extrema-direita que queima e quebra, agride e odeia, mas saber o porquê de tanto ódio e porque este ódio ganhou esta direção.

- A questão não é apenas denunciar as práticas autoritárias, ilegais e inconstitucionais das policias do Rio, Minas e São Paulo (e outras mais), mas entender porque estas práticas ainda existem mesmo após 25 anos do fim da ditadura empresarial-militar que atrasou este país.

- A questão não é apenas constatar mas entender porque, em Minas Gerais, a polícia que deveria proteger o cidadão no seu direito de se expressar (um direito constitucional), agride e proíbe o exercício de direitos constitucionais, sabendo que esta violência só irá gerar manifestações mais violentas.

- A questão não é perceber tudo isto, mas entender porque, ainda hoje, pessoas são capazes de agir contra elas mesmas, contra os interesses de pessoas que ela ama, contra os interesses de pessoas que vivem como elas e que vem dos mesmos lugares, defendendo interesses que não são os seus, e pior são contra os seus.

- A questão não apenas perceber, mas entender porque que as pessoas, embora tenham mais capacidade de consumo hoje do que no passado, continuam infelizes, mergulhadas em um mal-estar crescente.

Se não formos capazes de entender os porquês (estes e muitos outros), dificilmente sairemos das armadilhas que o poder constrói para evitar que consigamos construir uma sociedade que tenha espaço para todos e cada um. A democracia é apenas tolerada por aqueles que têm privilégios a proteger. Toda vez que tentamos e tentarmos romper com estes privilégios, a democracia será rompida, com o apoio de muitos dos oprimidos. Precisamos entender como se reproduzem os "cães de guarda" do sistema. Aqueles que defendem os interesses que são contra eles mesmos.

O processo que se iniciou não tem volta. Não sabemos os resultados mas podemos influenciar nele. Fazemos parte deste processo. Mesmo que as manifestações diminuam, a insatisfação revelada continuará latente e se manifestará diariamente de várias formas (aliás como já vinha ocorrendo sem que as pessoas dessem o devido valor a estas manifestações). Podem dizer que mal-estar sempre haverá, mas não estou dizendo de qualquer mal-estar, estou me referindo a um mal-estar que Freud já chamara atenção: há um mal-estar na civilização ocidental, o sistema moderno está acabando e o que as pessoas colocaram no lugar não está claro, mas há sinais e tentativas de alternativas pelo mundo a fora e entre nós.

O sistema jurídico que construímos não resolve os problemas, não resolve os conflitos. O sistema jurídico que construímos foi criado para conservar e reagir às mudanças não permitidas. A "democracia" majoritária fundada na ideia da vitória de um melhor argumento afasta os argumentos derrotados, oculta a diversidade e condena o derrotado ao ocultamento. O problema é que esta "democracia" não funciona sobre conflitos de argumentos uma vez que a busca da vitória de seu projeto, ideia, partido, interesse, argumento, não permite que se escute os argumentos dos outros. Não se escuta o outro para aprender com o outro e construir novos argumentos. O que ocorre é que quando escuto o outro, escuto com a finalidade de destruir o argumento do outro.

Entretanto, o problema é que, nem mesmo isto ocorre. O parlamento se transformou em um mercado, em um espaço de negociações para realização de desejos variados e não para discussão de argumentos racionais. A "democracia" majoritária funciona sob a lógica do "roma locuta, causa finita", ou seja, quando o império fala a controvérsia acaba. E acaba não pela construção de um consenso, mas pela força do império, o que significa que o conflito, a causa continua latente. A maioria disse, a minoria acata, questão superada.

Superada? Claro que não. Superada no processo legislativo, no processo eleitoral, mas não no processo social, nos conflitos reais de poder e interesse. A mesma lógica se aplica ao judiciário. Os conflitos são levados até o judiciário, as partes argumentam, petição inicial, contestação, recurso, razões, contrarrazões, toda a lógica de desenvolvimento do processo judicial impede o consenso, incentiva a competição. Ao final, o "império" (o estado, o juiz) "diz" e, logo, a "causa" acabou. Acabou? Claro que não, o conflito permanece latente, as pessoas insatisfeitas, vencedores e vencidos não se satisfazem, mas para o processo judicial o conflito acabou, entretanto, na realidade não, ele permanece latente para explodir de insatisfação um dia. Da mesma forma esta sociedade emocional e não reflexiva, superficial, lida com seus problemas e incômodos. Se aumenta a criminalidade, no lugar de buscar entender as razões são bu scadas simplesmente punições, como se a vida do nomeado "adolescente infrator" já não fosse uma punição constante. No lugar de enfrentar o problema para solucioná-lo, não, o que ocorre é aumentar o conflito com mais punição. Este mecanismo, esta postura se alastra: não pensamos em entender o conflito, em solucioná-lo, mas, atacá-lo, incentivando o conflito, aumentando o mal-estar.

A compreensão do mal-estar pode nos levar a inversão da proposta: "Causa locuta, Roma finita". Mas para isto precisamos entender o mal-estar e a partir de então construir uma causa comum. Isto é urgente.

AS 10 ESTRATÉGIAS DE MANIPULAÇÃO PELA MÍDIA - CHOMSKY



O lingüista estadunidense Noam Chomsky elaborou a lista das “10 estratégias de manipulação” através da mídia:

1- A ESTRATÉGIA DA DISTRAÇÃO.

O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundações de contínuas distrações e de informações insignificantes.
A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir ao público de interessar-se pelos conhecimentos essenciais, na área da ci� �ncia, da economia, da psicolo gia, da neurobiologia e da cibernética. “Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais (citação do texto 'Armas silenciosas para guerras tranqüilas')”.


2- CRIAR PROBLEMAS, DEPOIS OFERECER SOLUÇÕES.

Este método também é chamado “problema-reação-solução”. Cria-se um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que este seja o mandante das medidas que se deseja fazer aceitar. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante de lei s de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.


3- A ESTRATÉGIA DA GRADAÇÃO.

Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradativamente, a conta-gotas, por anos consecutivos. É dessa maneira que condições socioeconômicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990: Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que haveriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.


4- A ESTRATÉGIA DO DEFERIDO.

Outra maneira de se fazer aceitar uma decisão impopular é a de apresentá-la como sendo “dolorosa e necessária”, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente. Em seguida, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “tudo irá melhorar amanhã” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para acostumar-se com a idéia de mudança e de aceitá-la com resignação quando chegue o momento.

5- DIRIGIR-S E AO PÚBLICO COMO CRIANÇAS DE BAIXA I DADE.

A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse um menino de baixa idade ou um deficiente mental. Quanto mais se intente buscar enganar ao espectador, mais se tende a adotar um tom infantilizante. Por quê?

“Se você se dirige a uma pessoa como se ela tivesse a idade de 12 anos ou menos, então, em razão da sugestionabilidade, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de um sentido crítico como a de uma pessoa de 12 anos ou menos de idade (ver “Armas silenciosas para guerras tranqüilas”)”.


6- UTILIZAR O ASPECTO EMOCIO NAL MUITO MAIS DO QUE A REFLEXÃO.

Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional, e por fim ao sentido critico dos indivíduos. Além do mais, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou enxertar idéias, desejos, medos e temores, compulsões, ou induzir comportamentos…

7- MANTER O PÚBLICO NA IGNORÂNCIA E NA MEDIOCRIDADE.

Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. “A qualidade da educação dada as classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que paira entre as classes inferiores às classes sociais superiores seja e permaneça impossíveis para o alcance das classes inferiores (ver ‘Armas silenciosas para guerras tranqüilas’)”.


8- ESTIMULAR O PÚBLICO A SER COMPLACENTE NA MEDIOCRIDADE.

Promover ao público a achar que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto…


9- REFORÇAR A REVOLTA PELA AUTOCULPABILIDADE.

Fazer o indivíduo acreditar que é somente ele o culpado pela sua própria desgraça, por causa da insuficiência de sua inteligência, de suas capacidades, ou de seus esforços. Assim, ao invés de rebelar-se contra o sistema, o individuo se auto-desvalida e culpa-se, o que gera um estado depressivo do qual um dos seus efeitos é a inibição da sua ação. E, sem ação, não há revolução!


10- CONHECER MELHOR OS INDIVÍDUOS DO QUE ELES MESMOS SE CONHECEM.

No transcorrer dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência têm gerado crescente bre cha entre os conhecimentos do público e aquelas possuídas e utilizadas pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o “sistema” tem desfrutado de um conhecimento avançado do ser humano, tanto de forma física como psicologicamente. O sistema tem conseguido conhecer melhor o indivíduo comum do que ele mesmo conhece a si mesmo. Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos do que os indivíduos a si mesmos.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

O silencioso comando dos algoritmos


Os algoritmos são a nova gramática do poder. Eles estão enraizados nas plataformas digitais invisíveis, alertou o professor franco-canadense Serge Proulx em palestra proferida para a comunidade acadêmica da Comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), na segunda-feira, 8, quando questionou o "solucionismo tecnológico".
A reportagem é de Edelberto Behs e publicada pela Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação - ALC, 12-04-2013.
"Em qual mundo vivemos?" - indagou Proulx ao falar de participação na era digital, que definiu como "um poder de ação frágil e paradoxal". Ele formulou uma crítica à sociedade em rede, perguntando em que se tornou a promessa de liberdade anunciada nesses novos tempos.
Reportando-se ao sociólogo bielorusso Evgenij Morozov, o palestrante destacou que a internet é centralizada e hierarquizada, dominada pelas grandes empresas como Google,Microsoft, Yahoo e outras, que controlam as plataformas através dos algoritmos.

A crença na abolição da hierarquia é quase um mito religioso, disse. Uma mudança proposta na wikipedia passa por uma hierarquia, que a adota o u não. A rede é um modelo social e político que está na base da reestruturação das organizações. Morozov afirma que existe uma cultura da internet única e coerente no fundamento de um novo paradigma.

O internetcentrismo, uma categoria proposta por Morozov, procura aplicar o modelo da internet para todas as instâncias da vida, como se ela fosse a solução para os problemas do mundo, como se fosse um modelo de engajamento cidadão. A ideologia da comunicação, que Proulx desenvolveu em parceria com Philippe Breton, questiona a ideia de que todos os problemas se resolvem pela comunicação e negociação.

"A maioria dos problemas são engendrados por interesses divergentes e não podem ser resolvidos pela comunicação, pela crença no milagre técnico do digital, ou pensar que trará maior democracia e soluções prontas para a humanidade", afirmou. Naquele caso, toda e qualquer solução seria uma questão de algoritmo, sem levar em conta a dimensão filosófica, antropológica, psicológica da pessoa humana, admoestou.

As tecnologias inteligentes que se propõem a ajudar as pessoas na tomada de decisões controlando seus gestos e opiniões postula um modo de vida em que as incoerências são completamente eliminadas, e reduzem as problemáticas sociais a simples carências individuais, apontou.

Para Proulx, está subjacente a isso tudo o perigo do conservadorismo. "A inovação tecnológica nem sempre se traduz em uma inovação social. As máquinas nem sempre tomam as decisões certas. Elas reduzem o nosso tempo de decisão, o que coloca em cheque a nossa responsabilidade humana, política e social", alertou.

A midiatização do mundo, disse, é um mundo organizado e controlado pelo algoritmo. MasProulx reconhece que a midiatização incentiva a cooperação, a difusão de conhecimento sem alguma contrapartida monetária, como ocorre com o software livre, web 2.0, wikipedia, baseada na criação de conteúdos pelos próprios usuários. As pessoas sentem prazer nessa criação voluntária de um bem coletivo sem esperar retorno financeiro.

Proulx faz duas leituras da realidade produzida pela sociedade em rede. A primeira, procedente de pensadores do capitalismo cognitivo, que encara a transformação do sistema como uma possibilidade, mas sem abandonar a ideia de mercado.

A outra leitura, de uma utopia pós-mercantil, permite sonhar com uma superação do capitalismo pelas dissidências digitais, inventando um mundo que sobreviva fora do mercado. O ato criativo po de ser o embrião dessa revolução silenciosa. O horizonte de um mundo pós-mercantil é frágil, pode ser efêmero, "mas é a esperança que me habita", destacou Proulx.

Serge Proulx é professor titular da École des Médias, da Université de Québec e Montréal, no Canadá, e professor associado do Télécom ParisTech, França. Autor de dezenas de livros, ele ministrará, de 15 a 19 de abril, o Seminário Mutação da Comunicação: Emergência de uma Cultura da Contribuição na Era Digital, do Programa de Pós-Graduação da Ciência da Comunicação da Unisinos.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Na Europa, o poder é do Goldman Sachs



Na Europa, o poder é do Goldman Sachs


Eles pertencem à rede que o Goldman Sachs teceu no Velho Continente e, em diferentes graus, participaram da mais truculenta operação ilícita orquestrada pela instituição americana. Além disso, não estão sozinhos.

A reportagem é de Eduardo Febbro e publicado pelo Página/12, 23-11-2011. A tradução é do Cepat.

Os adeptos das teorias conspiratórias estão vendo suas expectativas se cumprirem. Onde está o poder mundial? A resposta cabe num nome e num lugar: na sede do banco de negócios Goldman Sachs.

O banco americano consegui uma façanha rara na história política mundial: colocar os seus homens à frente de dois governos europeus e do banco que rege os destinos das políticas econômicas da União Europeia. Mario Draghi, o atual presidente do Banco Central Europeu; Mario Monti, presidente do Conselho italiano, que substituiu Silvio Berlusconi e Lucas Papademos, o novo primeiro-ministro grego; todos pertencem à galáxia do Goldman Sachs.

Estes governantes, dois dos quais Monti e Papademos, são a ponta de lança da anexação da política pela tecnocracia econômica, pertencem à rede Sachs e participaram das mais truculenta operação ilícita orquestrada pela instituição americana. Além disso, eles não estão sozinhos. Pode-se também mencionar Petros Christodoulos, hoje à frente do organismo que administra a dívida pública grega e ex-presidente do Banco Nacional da Grécia, a quem Sachs vendeu o produto financeiro conhecido como swap e com o qual as autoridades gragas e Goldman Sachs orquestraram a maquiagem das contas gregas.

O dragão que protege os interesses de Wall Street conta com homens chaves nos postos mais decisivos, mas não apenas na Europa. Henry Paulson, ex-presidente do Goldman Sachs, foi nomeado secretário do Tesouro americna, enquanto que William C. Dudley, outro das altas esferas do Goldman Sachs, é o atual presidente do Federal Reserve de Nova York.

Mas o caso dos líderes europeus é mais paradigmático. O lugar de honra cabe a Mario Draghi.

O hoje, presidente do Banco Central Europeu, BCE, foi vice-presidente da Goldman Sachs para a Europa entre 2002 e 2005. O título de seu cargo era “empresas e dívidas públicas”. Precisamente nessa cargo, Draghi teve como missão vender o incendiário produto swap. Este instrumento financeiro é chave na ocultação da dívida pública, ou seja, na maquiagem das contas gregas. Foi essa ardilosa armação que permitiu a Grécia se qualificar para fazer parte dos países que entrariam no euro, a moeda única europeia. Tecnicamente, e com o Goldman Sachs como operador, transformou-se a dívida externa da Grécia de dólares para euros.

Com isso, a dívida grega desapareceu dos balanços negativos e Goldman Sachs (GS) levou uma suculenta comissão. Logo depois, em 2006, Goldman Sachs vendeu parte desse pacote de Swaps ao principal banco comercial do país, o National Bank of Greece, liderada por um outro homem da GS, Petros Christodoulos, um ex-corretor da Goldman Sachs e atual diretor do órgão de gestão da dívida da Grécia que ele mesmo e, os citados anteriormente, até então ajudaram esconder.

Mario Draghi tem uma história pesada. O ex-presidente da República Italiana, Francesco Cossiga acusou Draghi de ter favorecido Goldman Sachs na adjudicação de grandes contratos, quando era diretor do Tesouro da Itália e estavam em pleno processo de privatização. A verdade é que agora o diretor do Banco Central Europeu, aparece como o grande vendedor de Swaps em toda a Europa.

Neste emaranhado de falsificações aparece o chefe do Executivo grego, Lucas Papademos. O primeiro-ministro foi o governador do banco central grego entre 1994 e 2002. Esse é precisamente o período em que Sachs foi cúmplice na ocultação da realidade econômica grega. Papademos, responsável pela entidade bancária nacional, não podia ignorar a armação que estava sendo montada. As datas em que ocupou o cargo fazem dele um operador da montagem.

Na lista de notáveis segue Mario Monti. O atual presidente do Conselho italiano foi conselheiro internacional do Goldman Sachs desde 2005. Em síntese, muitos dos homens que fabricaram o desastre foram chamados agora para tomar as rédeas de postos chaves, com a missão de reparação às custas dos benefícios sociais do povo, conseqüências que eles mesmos criaram. Não há dúvida de estamos vendo o que os analistas chamam de "um governo Sachs europeu”.

O Português Antonio Borges dirigia até pouco tempo – acaba de renunciar - o Departamento Europeu do Fundo Monetário Internacional. Até 2008, Antonio Borges foi vice-presidente do Goldman Sachs. O sumido Karel Van Miert – Bélgica –, foi comissário europeu da Competividade e também um quadro do Goldman Sachs. O alemão Ottmar Issing foi sucessivamente presidente do Bundesbank, conselheiro internacional do banco de negócios americano e membro do Conselho de Administração do Banco Central Europeu.

Peter O'Neill é outro homem do emaranhado: presidente do Goldman Sachs Asset Management, O'Neill, apelidado de O Guru do Goldman Sachs, é o inventor do conceito Brics, o grupo de países emergentes composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Acompanha O'Neill outro peso pesado, Peter Sutherland, ex-presidente da Goldman Sachs International, membro da seção Europeia da Comissão Trilateral, assim como Lucas Papademos, ex-membro da Comissão de Competividade da União Europeia, fiscal-geral da Irlanda e influente mediador do plano que desembocou no resgate da Irlanda.

Alessio Rastani é que tem toda a razão. Este personagem que se apresentou diante da BBC como um trader disse faz poucas semanas: "Os políticos não governam o mundo. Goldman Sachs governa o mundo". Sua história é exemplar do duplo jogo, como as personalidades e as carreiras dos braços mundiais do Goldman Sachs. Alessio Rastani disse que ele era um trader londrinense, mas logo depois descobriu-se que nada tinha de trader e que fazia parte do Yes Men, um grupo de ativistas que, através da comédia e da infiltração nos meios de comunicação, denunciam o liberalismo.

Ficará para as páginas da história mundial a impunidade desses personagens. Empregados por uma empresa americana, orquestraram uma dos maiores golpes já conhecidos, cujas conseqüências estão sendo pagas hoje. Foram premiados, agora, com o leme da crise, planejada por eles mesmos.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A radiação dos celulares mata ?


Passivo de radiação


"As crianças são loucas pelo celular, e seu cérebro, ainda em formação, absorve até mais radiação que o dos adultos", comenta Ruy Castro, escritor, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, 10-11-2010.

Eis o artigo.

O avião pousa em Congonhas, 99% dos passageiros sacam o celular e anunciam para alguém: "Cheguei". Eu, o 1%. As pessoas que me esperam para uma reunião sabem a hora do meu voo e podem passar sem essa informação. Desço a rampa rumo aos táxis, a tempo para o compromisso e saboreando o encontro com alguém querido ou o jantar que virá depois. Enquanto isso, sujeitos passam por mim afobados, rebocando a mala e bufando ao celular, discutindo medidas que não podem esperar nem um minuto ou para quando tiverem acabado de chegar.

Para mim, o estresse provocado por essa comunicação fácil e onipresente já seria asfixiante, motivo pelo qual mantenho distância de celulares -não quero ficar "on" o dia todo. Pois, agora, as graves denúncias da cientista americana Devra Davis, 64 anos, autoridade mundial em saúde pública e ambiental, completam minha apreensão. Seu livro "Disconnect", lançado em NY em setembro e ainda sem editor no Brasil, tem o subtítulo "A Verdade sobre a Radiação dos Telefones Celulares".

Segundo ela, a radiação que se desprende de um celular à orelha reduz as defesas do cérebro, induz à perda de memória, aumenta o risco de Alzheimer, interfere no DNA e é um agente cancerígeno. E a indústria sabe disso, mas ninguém interfere num negócio de trilhões de dólares se não for obrigado.

É cruel. As crianças são loucas pelo celular, e seu cérebro, ainda em formação, absorve até mais radiação que o dos adultos. A radiação de um celular usado num elevador rebate nas paredes e afeta quem está por perto, como acontece com o fumo. E é possível que só agora, anos depois, os verdadeiros efeitos nocivos dos celulares estejam se fazendo sentir.

A primeira pessoa que conheci com celular, em 1993, morreu este ano, de câncer no cérebro. Era um famoso jornalista esportivo.



domingo, 3 de outubro de 2010

WikiLeaks




A organização de denúncias WikiLeaks, que divulgou relatos da guerra do Afeganistão esta semana, transformou a publicação de segredos do governo em sua missão. Muitos veem seu fundador Julian Assange como um herói, mas outros, incluindo o Pentágono, consideram-no uma ameaça à segurança nacional.
Ele entra rapidamente, quase num salto. Antes de cumprimentar qualquer pessoa na sala, procura uma tomada para seu pequeno computador preto.
É um notebook simples e barato, mas as agências de inteligência do mundo pagariam muito dinheiro para terem a chance de ver o que há lá dentro.
O nome dele é Julian Assange. Ele acabou de voltar de Estocolmo, depois de uma breve estadia em Bruxelas. Antes disso, ficou fora do radar por algumas semanas.
Assange é praticamente um homem procurado hoje em dia. É quase como se ele estivesse em fuga.
Cinco agentes do Departamento de Segurança Interna dos EUA tentaram visitá-lo há duas semanas, pouco antes de uma conferência em Nova York da qual ele deveria participar. Mas seus esforços foram em vão. Assange decidiu ficar na Inglaterra depois que seu advogado disse que várias outras agências do governo também estavam muito interessadas em falar com ele. O secretário de Defesa Robert Gates recentemente caracterizou Assange e seu trabalho como “irresponsáveis”.

Fórum para denúncias anônimas


Assange é o criador da plataforma wikileaks.org na internet. Junto com um punhado de funcionários em tempo integral e muitos voluntários, ele opera o site desde 2007. O WikilLeaks reúne e publica material que empresas e agências do governo classificaram como secreto. O site funciona como um fórum para informantes e publica apenas documentos originais – em outras palavras, nada de rumores nem material escrito pela equipe do WikiLeaks.

No passado, o WikiLekas já publicou e-mails escritos pela ex-candidata à vice-presidência dos EUA Sarah Palin, relatórios sobre as atividades corruptas do ex-líder queniano Daniel Arap Moi e documentos secretos do campo de detenção norte-americano na Baía de Guantánamo. Nessa época, o site era visitado principalmente por pessoas da área, mas ganhou atenção internacional em abril, quando Assange convidou um grupo de jornalistas ao Clube Nacional de Imprensa em Washington para assistir a um vídeo.

O filme mostrou o ataque fatal, em 2007, de um helicóptero Apache norte-americano contra um grupo de cerca de doze civis em Bagdá, dois deles funcionários da agência de notícias Reuters. As vozes da tripulação do helicóptero também eram audíveis, seus comentários cínicos acrescentavam horror às imagens do vídeo. Desde o incidente, a Reuters havia tentado, em vão, obter uma cópia do vídeo. Assange, entretanto, conseguiu uma. Foi seu maior furo jornalístico até hoje.





Uma ameaça à segurança nacional


Para alguns, Assange e seus colaboradoras são heróis lutando pela liberdade total de informação e contra qualquer forma de censura. Mas, para outros, eles são traidores.

Do ponto de vista das autoridades norte-americanas, o australiano é uma séria ameaça à segurança nacional – algo que o Pentágono até mesmo colocou em palavras. Já em 2008, os militares norte-americanos classificaram o WikiLeaks como um sério problema de segurança e discutiram qual era a melhor forma de combater o site. Esse documento também vazou para Assange – e foi publicado no wikileaks.org.

Desde então, alguns expressaram preocupações com sua segurança, e até mesmo com sua vida. Mas não está muito claro se o homem que agora estava ligando o seu computador em Londres é perigoso ou está em perigo. Ele certamente chama a atenção: um homem alto e magro com cabelo branco e uma pele que parece pálida demais para o verão – em parte porque passou as últimas semanas preparando seu novo projeto e quase não saiu ao ar livre durante o dia.

Numa sala do quinto andar do prédio que abriga os escritórios do “Guardian”, ele está dando ao jornal britânico, ao “New York Times” e à “Spiegel” uma prévia de um conjunto de mais de 90 mil relatórios individuais sobre a guerra no Afeganistão, a maior parte deles marcados como “secretos”.

“Brutalidade cotidiana”


A publicação desse arquivo, diz Assange, não só mudará a forma como o público vê a guerra, ela também “mudará a opinião de pessoas que ocupam posições influentes na política e na diplomacia”. De acordo com Assange, os documentos “revelam a brutalidade cotidiana e a sordidez da guerra” e “mudará nossa perspectiva não só sobre a guerra no Afeganistão, mas sobre todas as guerras modernas.”

O arquivo contém informações de inteligência, avaliações e muitos nomes, tanto de oficiais militares quanto de fontes. A publicação de documentos militares secretos de uma guerra, que nunca foram pensados para o público, levanta novas questões. Será que isso é jornalismo e está dentro do direito do público à informação? É um olhar legítimo por trás da máquina de propaganda de guerra? Ou é um ato de espionagem, e Assange e seus colaboradores são culpados por revelar segredos do governo? E eles estão no fim das contas prejudicando as tropas internacionais e os informantes afegãos que as ajudam?

Uma base de dados num pen drive


O WikiLeaks e sites como ele já mudaram a forma como governos e corporações lidam com informações delicadas.

Sempre existiram informantes, empregados de companhias ou agências do governo que deixam vazar informações confidenciais para a imprensa para chamar atenção para acontecimentos indesejáveis e corrupção, ou para expor abusos de poder. Mas uma base de dados tão extensa sobre a guerra, que cabe num único pen drive USB e portanto pode ser facilmente publicada na Internet, é um novo fenômeno.

Será que o WikiLeaks é o novo farol do esclarecimento? Ou o site representa uma ameaça às nações democráticas, porque permite que um ex-hacker e alguns colaboradores próximos decidam que peça de informação explosiva revelarão na sequência – sem dar à outra parte a chance de contar seu lado da história ou tomar medidas legais para impedir o vazamento? “Essas pessoas podem publicar o que bem entenderem e nunca são responsabilizadas por isso”, disse o secretário de Defesa Robert Gates, em resposta à divulgação do vídeo sobre o caso do helicóptero em 2007. Raras vezes um membro do governo dos EUA pareceu tão impotente.

O problema começa com o fato de que o WikiLeaks, até hoje, continua sendo muito mais uma ideia brilhante do que uma organização no sentido convencional. Ele não tem uma sede e nem mesmo um endereço, apenas uma caixa posta anônima na Universidade de Melbourne. Até agora Assange e um colega alemão, que se apresenta como Daniel Schmitt, são as duas únicas pessoas envolvidas com o WikiLeks que mostraram seus rostos em público. Do contrário, a operação consiste em pouco mais do que o próprio site, alguns endereços de e-mail e uma conta do Twitter que os organizadores usam para relações públicas. Os servidores, que estão distribuídos pelo mundo todo em lugares com leis que fornecem proteção extensiva a informantes, são o cerne da operação. Doações cobrem os custos anuais de cerca de US$ 258 mil, e Assange e Schmitt nem mesmo recebem um salário.

Altamente inteligente


Na reunião em Londres, logo ficou claro a forma como o WikiLeaks depende dos ativistas – e, em grande parte, do pequeno laptop preto de Assange. Também ficou claro que os adversários de Assange têm nesse homem confiante e altamente inteligente de 39 anos de idade um oponente a ser levado a sério.

Assange trabalha obsessivamente na base de dados com a qual o WikiLeaks pretende tornar a guerra no Afeganistão mais tangível. Ele usa uma combinação estranha de jaqueta amassada, camiseta, calças cargueiras e tênis gastos. Ele não fez a barba e tem a aparência de quem não dorme há duas noites. Pessoas bem intencionadas e próximas dizem que ele precisa urgentemente de algumas semanas de férias.

Assange discorda. Seus dedos voam pelo teclado, e vez ou outra ele para e diz alguma coisa. “Precisamos de uma função que relacione os incidentes de acordo com sua importância relativa”, diz ele em sua voz profunda e sonora. Não demora muito e ele instala um filtro que permite aos usuários do site buscarem os milhares de incidentes individuais de acordo com sua “importância”. Assagne escolheu o número de mortes de civis como principal critério. Também é possível buscar por data e região na base de dados, e todos os incidentes estão ligados a um mapa que mostra exatamente em que lugar do Afeganistão aconteceram. É a guerra na forma de uma apresentação multimídia.

“Rá”, diz ele de repente. “Inacreditável”. Ele descobriu outro exemplo grotesco do jargão que os militares usam para descrever a realidade no campo de batalha. O termo é: “ausência de sinais vitais” - em outras palavras, morto. A linguagem da guerra o fascina, o que explica porque o WikiLeaks chamou o vídeo de Bagdá de “Collateral Murder” [“Assassinato Colateral”]. Sua intenção ao escolher o título, diz Assange, era expor o termo cínico “collateral damage” [“dano colateral”] e tornar impossível seu uso.

“Nosso critério é claro como água”


Quando Assange fala sobre esse projeto – ao longo do jantar, por exemplo, durante o qual o australiano pediu apenas duas bolas de sorvete de cardamomo – ele tem a intenção de passar a ideia de que o WikiLeaks é um projeto radical, cuidadosamente concebido. Assange toma bastante tempo para refletir antes de responder às perguntas, e insiste em dar a resposta completa. Ele não gosta de ser interrompido.

Assange diz que teve a ideia básica nos anos 90, e em 1999 reservou o domínio leaks.org. Para Assange, a regra fundamental nas sociedades abertas deve ser a de que todos sejam capazes de se comunicar abertamente sobre tudo. A experiência, diz ele, mostra que onde quer que existam segredos, costuma haver irregularidades, porque pessoas em posição de poder tendem a usar segredos em sua vantagem.

Se esta visão estiver correta, algumas pessoas poderosas no mundo provavelmente deveriam ficar muito preocupadas, porque o WikiLeaks tem supostamente muito material ainda não publicado. Quem decide o que é publicado, e quando?

A fonte, diz Assange. Sempre que recebe uma denúncia anônima, o WikiLeaks pergunta ao informante se ele ou ela acreditam que o material tem relevância política ou moral. “Nosso critério é claro como água, e se ele é atendido, nós publicamos”, diz Assange.

Quem é “nós”? “No final, alguém precisa estar no comando, e essa pessoa sou eu”, diz Assange. “E quando fico em dúvida, sempre publico.”

Vivendo como um nômade


É uma posição notável para uma organização que não divulga nem mesmo os nomes dos cinco funcionários que supostamente emprega – e para um homem que tenta evitar questões sobre sua própria vida. Alguns fatos básicos, de qualquer forma, parecem claros.

Assange nasceu em 1971 numa família de artistas em Queensland, Austrália. Seus pais eventualmente se separaram. Sua mãe se casou novamente, mas o relacionamento também fracassou. Foi tão desastroso, que a mãe o pegou e fugiu do segundo marido, chegando até a viver com um nome falso por algum tempo.

Já nesta época ele já tinha uma vida de nômade, e teria frequentado quase 40 escolas diferentes.

Nos anos 80, a Idade da Pedra da internet, quando o computador pessoal era um Commodore 64 e os modems eram conhecidos como “conectores acústicos”, Assange desenvolveu uma paixão por computadores e redes. Mais tarde ele ganhou renome na comunidade de hackers de Melbourne, depois de entrar em redes corporativas e do governo, incluindo computadores militares dos EUA.

“Era Deus Todo Poderoso andando por aí fazendo o que gostava”, disse um promotor público alguns anos depois. O grupo de hackers ao qual Assange pertencia monitorava até a investigação da polícia federal sobre eles mesmos online. Assange foi eventualmente multado e condenado a um período de liberdade condicional. Uma reportagem de televisão sobre o caso mostra Assange de casaco e óculos escuros, com seus cabelos longos e castanhos presos num rabo de cavalo. O grupo de hackers se autointitulava “Subversivos Internacionais”.

Assange já tinha um filho pequeno quando foi condenado. Ele também era novo quando se tornou pai, e logo se envolveu numa complicada e amarga batalha pela custódia da criança, que durou vários anos – e levou a novos desentendimentos com agências do governo.

Uma tentativa de se vingar?


Será que o WikiLeaks é simplesmente a forma que um hacker magoado e gênio não reconhecido da computação encontrou para se vingar? Por causa de sua história pessoal, será que Assange quando Assange fala sobre o “inimigo” ele não está de fato falando sobre o governo?

É esse tipo de pergunta que os jornalistas costumam fazer a Assange. Ele os odeia com a mesma intensidade com a qual despreza o carimbo de “secreto” nos documentos oficiais. Para ele, o WikiLeaks também é um projeto para transformar a mídia tradicional. Ele quer que os usuários formem suas próprias opiniões com base nos documentos originais, sem nenhum viés jornalístico. Mas com o vídeo “Assassinato Colateral”, o WikiLeaks violou seus próprios princípios por acrescentar um título editorializado, pelo qual Assange recebeu algumas críticas.

O problema, diz o australiano, surge na cabeça do repórter. Ele prefere revistas científicas, com suas notas de rodapé e listas de referências. Embora descreva a si mesmo como um jornalista investigativo, seu trabalho é na verdade mais parecido com o de um arquivista e bibliotecário. Não é nenhuma acidente o fato de ele ter registrado o WikiLeaks como uma biblioteca na Austrália.

Assange e seus colegas podem estar muito satisfeitos com o andamento do WikiLeaks no momento. Há alguns dias, o australiano deu uma palestra para jornalistas investigativos em Londres, enquanto seu colaborador alemão Daniel Schmitt falava em Hamburgo – ambos foram aplaudidos com entusiasmo. Eles receberam o prêmio de mídia da Anistia Internacional no ano passado.

Sob tensão


Mas o projeto está sob tensão desde 29 de maio. Nesse dia, Bradley Manning, soldado norte-americano de 22 anos, foi preso na Base Operacional Hammer no Iraque e levado a uma prisão militar no Campo Arifjan no Kuwait.

Os militares norte-americanos tornaram públicas as acusações contra Manning, um ex-analista militar. Eles alegam que entre 19 de novembro de 2009 e a primavera deste ano, ele baixou o vídeo de Bagdá publicado pela WikiLeaks, assim como 150 mil mensagens diplomáticas secretas do Departamento de Estado norte-americano e uma apresentação secreta em PowerPoint.

Os militares acusam Manning de ter passado o vídeo e 50 relatórios para uma “pessoa que não estava autorizada a recebê-los”. De acordo com um porta-voz do Exército dos EUA, se for condenado, Manning poderá receber até 52 anos de prisão.

Parece que Manning acabou se entregando sem querer. Em 21 de maio, ele teria começado uma série de conversas pela internet com um hacker norte-americano chamado Adrian Lamo. A revista norte-americana “Wired” publicou trechos das conversas.

Dublando Lady Gaga em silêncio


Um dos lados da conversa, que as autoridades norte-americanas acreditam que seja Manning, abriu o coração para Lamo, um completo estranho para ele até então. Ele descreveu como era capaz de acessar as redes secretas SIPRNET e JWICS através de dois computadores, e que também encontrou material desprotegido num computador da Central de Comando norte-americana (CENTCOM). “Não acredito que estou confessando isso a você”, disse ele.

Nas conversas, ele até revelou como teria retirado o material de seu local de trabalho. Ele disse que colocou CDs virgens em seus computadores de trabalho no Iraque, CDs que ele havia intitulado antes de “Lady Gaga”, para criar a impressão de que ele estava levando CDs de música para casa. De acordo com as conversas, Manning disse que “ouvia e dublava em silêncio a música 'Telephone' de Lady Gaga enquanto filtrava o que talvez fosse o maior vazamento de dados da história norte-americana.”

Ele fez várias referências ao WikiLeaks e a Assange, com quem dizia estar em contato. E também sugeriu que estava motivado por uma profunda insatisfação com a situação local e os militares norte-americanos.

Lamo informou o FBI e entregou o registro de suas conversas. Em entrevistas para a mídia norte-americana, ele tentou justificar suas ações dizendo que temia que a segurança nacional estivesse ameaçada. Manning foi preso pouco tempo depois.

Entregando os informantes


O caso de Manning se transformou numa situação delicada para o WikiLeaks e Assange. Ela lembra misteriosamente um cenário montado para prejudicar o WikiLeaks que os militares norte-americanos criaram num documento secreto em 2008. De acordo com esse cenário, a identificação bem sucedida, o julgamento e a revelação de indivíduos que passam informações para o WikiLeaks prejudicariam e possivelmente até destruiriam o site, e impediriam que outros tivessem atitudes semelhantes.

Como o fundador do WikiLeaks se sente com a suposta autoincriminação do soldado norte-americano?

“Se acreditarmos na alegação, Manning foi traído por um jornalista e hacker norte-americano que não tem nada a ver com o WikiLeaks”, diz Assange. “Não podemos salvar as pessoas delas mesmas, infelizmente.”

Não temos a mínima ideia se Manning era nossa fonte”


Manning pode também ter sido a fonte do material sobre o Afeganistão, como alguns observadores estão especulando agora? “Não temos a mínima ideia de quem era nossa fonte”, diz Assange. “Estruturamos nosso sistema de forma que não sabemos a identidade de nossas fontes.”

E por que o WikiLeaks quer dar assistência legal a Manning, se o site de fato instalou dispositivos técnicos de segurança para tornar impossível saber quem enviou o material?

“Temos que ajudar todas as nossas supostas fontes”, diz Assange. “Devemos lembrar que independente de Manning ser ou não a fonte do vídeo “Assassinato Colateral” ou de ele estar diretamente ou acidentalmente envolvido com qualquer material que publicamos, ele é um jovem que está preso no Kuwait por ter sido acusado de ser nossa fonte.”

Ficando na casa de apoiadores no mundo inteiro


Depois da prisão de Manning, Assange também desapareceu por algumas semanas, e seus advogados o aconselharam a não viajar para os Estados Unidos. “Um de nossos contatos informou que estavam considerando me acusar de conspirar para a espionagem”, diz ele.

Este é o motivo pelo qual ele se registrou num hotel em Londres com um nome falso e depois desapareceu rapidamente para ficar na casa de um de seus apoiadores, como aconteceu frequentemente nos últimos anos. Ele ficou em vários lugares em todo o mundo, do Quênia à Islândia, onde ele e uma equipe de voluntários preparavam-se para publicar o vídeo de Bagdá.

As precauções valem para todos em seu grupo. Quando Jacob Appelbaum, um conhecido programador da comunidade da internet, defendeu Assange numa convenção de hackers em Nova York há dois fins de semana, ele até mesmo contratou um dublê para se passar por ele depois de dar sua palestra. O próprio Appelbaum foi direto para o aeroporto, levando apenas seu passaporte, algum dinheiro e uma cópia da Constituição norte-americana, e tomou um voo para fora do país.


Cada vez mais cauteloso

Daniel Schmitt, o representante alemão do WikiLeaks que é, ao lado de Assange, a segunda voz mais importante do site, também se tornou mais cauteloso.

Durante um encontro com a “Spiegel” num café de Berlim, Schmitt olha ao seu redor para ver se não há ninguém ouvindo a conversa. Ele também diz que não quer que tirem fotos na sua presença.

A Alemanha é um dos locais mais importantes para o WikiLeaks, e serve como um dos pilares da organização relativamente dispersa. O WikiLeaks recebe muitas denúncias em alemão, recebe assistência técnica de pessoas associadas ao Clube de Computação Chaos, uma influente organização alemã de hackers, e os apoiadores alemães são responsáveis por uma grande parte das doações.

Schmitt, 32, é magro, usa barba e óculos. Ele estudou ciências da computação e trabalhou com segurança de TI antes de se dedicar totalmente ao WikiLeaks. Ele parece comum se comparado ao excêntrico Assange, que era conhecido por andar por Londres de meias e saltar e virar estrela de repente.

Só o começo

Uma fundação chamada “Amigos do WikiLeaks” deve ser lançada na Alemanha este ano. Schmitt está trabalhando num panfleto designado a encorajar as pessoas a revelarem informações, que ele quer que os voluntários entreguem em frente ao Reichstag, onde fica o parlamento alemão, e o Ministério da Defesa. Ele também considerou colocar anúncios no metrô.

Os dois homens, Assange e Schmitt, dizem que o WikiLeaks tem uma montanha de documentos não publicados à sua disposição – e que isso é só o começo.

“Se quisermos usar uma metáfora de alpinistas, estamos apenas no acampamento base”, diz Assange.

Então ele fecha seu pequeno laptop preto, guarda-o dentro de sua mochila de nylon cinza-grafite, e sai da sala.


Tradução: Eloise De Vylder




Fonte:

http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/derspiegel/2010/10/03/o-wikileaks-e-bencao-ou-maldicao-para-a-democracia.jhtm

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Quem manda na internet?




Quem manda na rede? As empresas de telefonia e cabo oferecem conexões pagas à internet. Os produtores de conteúdo, como Google ou Yahoo, contribuem com a informação, financiando-se com a venda de publicidade. Os usuários pagam pelo acesso à rede e com suas visitas geram tráfego, aumentando as receitas publicitárias. Nessa cadeia de serviços, quem administra o tráfego online? Quem tem o direito de dar mais ou menos velocidade às conexões? De quem é a internet?

A reportagem é de David Alandete, publicada pelo jornal El País e reproduzida pelo portal UOL, 25-04-2010.

Por enquanto, os que podem administrar fisicamente a rede são os provedores de internet. Na Espanha, são empresas como a Telefónica, que oferecem conexões e cobram por elas. Com a generalização da rede, esses provedores denunciam que lhes é negada uma oportunidade de negócio: os usuários usam a internet como desejam, os provedores de conteúdo enriquecem às suas custas, e apesar disso suas receitas se mantêm fixas.

Esse incômodo foi manifestado pelo presidente da Telefónica, César Alierta, em fevereiro passado. "É evidente que as máquinas de busca na internet utilizam nossa rede sem pagar nada, o que é uma sorte para eles e uma infelicidade para nós. Mas também é evidente que isto não pode continuar. As redes são implantadas por nós; os sistemas são feitos por nós; o serviço pós-venda é feito por nós. Isto vai mudar, estou convencido", ele disse.

O governo da França lançou uma pesquisa popular para saber a opinião dos cidadãos a respeito, e Bruxelas espera debater um modelo para a Europa antes do verão.

Alierta representa os interesses dos provedores de conexão, que não só pedem que se cobre das empresas de conteúdo, como também reclamam a capacidade de administrar suas redes, mesmo que isso represente certa discriminação contra alguns usuários. Já existe um pronunciamento judicial sobre o assunto nos EUA. Em 6 de abril um tribunal decidiu que o governo não tem o direito de obrigar as empresas de telefonia e cabo a serem neutras no tratamento dado a seus clientes. Isto é, um provedor (como a Telefónica ou, nos EUA, a Comcast) tem o direito de discriminar um usuário que utilize programas que ocupem muita largura de banda.

A Comcast, maior operadora de cabo dos EUA, começou em 2007 a desacelerar o tráfego de usuários que executam frequentemente programas de troca de arquivos P2P. Um deles, Raam Dev, de 28 anos, fez um teste com sua conexão. Era cliente da Comcast havia quatro anos. Começou a utilizar o programa de troca de arquivos BitTorrent e notou uma grande lentidão. Decidiu usar um programa para medir a velocidade dos downloads. Passaram 18.878 para 4.500 Kbps (kilobits por segundo), depois de baixar um arquivo legal através de um torrent (um programa de acesso a páginas de download).

"Repeti a experiência meia dúzia de vezes", ele explica. "Em cada ocasião minha conexão desacelerou de forma considerável, depois de passar 4 ou 5 minutos descarregando um torrent, e depois voltava à normalidade depois de 20 ou 25 minutos". Há anos ele deixou de ser cliente da Comcast, mas continua indignado por essa política. "É como se a companhia telefônica distorcesse as ligações quando seus clientes falam de assuntos de que a firma não gosta. É absurdo."

É a mesma opinião da agência do governo americano que regulamenta as comunicações, a Federal Communications Commission (FCC), que em 2008 advertiu verbalmente a Comcast por desacelerar conforme o tipo de tráfego. O então presidente da comissão, Kevin Martin, disse: "Alguém gostaria que o serviço de correio abrisse sua correspondência e decidisse que não quer ter o incômodo de entregá-la, devolvendo-a ao remetente com a desculpa de que não encontrou o destinatário?"

A Comcast se justificou dizendo que essas medidas correspondiam a uma mera "gestão da rede". "A grande maioria dos 9 bilhões de protocolos de controle de transmissão de redes P2P que ocorrem na rede da Comcast não são afetados por essa medida", explicou Sena Fitzmaurice, porta-voz da firma. "Só entre 6% e 7% de nossos clientes utilizam P2P semanalmente."

Ao longo dos anos, criaram-se dois campos na batalha pela neutralidade na internet. De um lado, as empresas provedoras de conteúdo online como Google, Amazon ou Skype, apoiadas pelo governo Obama. Por outro, a Comcast e outros grandes provedores, como Verizon ou AT&T, que consideram que a infraestrutura é sua e podem fazer o que quiserem.

Até os pais fundadores da internet se manifestaram, enviando em outubro uma carta aberta à FCC. "Acreditamos que as propostas de neutralidade na rede de não discriminação e transparência são componentes imprescindíveis de uma agenda de políticas públicas centrada na inovação de que este país precisa", disseram, entre outros, o vice-presidente da Google, Vint Cerf.

Durante meses a batalha parecia favorecer um lado. A neutralidade na rede se impunha. A tal ponto que em 22 de outubro passado a FCC apresentou seus princípios para conseguir a neutralidade total na internet. Entre suas propostas mais inovadoras, destacam-se três: que os provedores de internet não possam impedir que os usuários compartilhem informação legal na rede; que respeitem a livre concorrência entre provedores de conteúdo, sem favorecer uns ou outros, e que informem ao governo e a seus clientes como administram suas redes.

Obama disse, dias depois, que não poderia estar mais de acordo. "Esse é o papel do governo: investir para incentivar a inovação e impor normas de senso comum que assegurem que existe um campo de jogo nivelado."

A ascensão da neutralidade parecia inevitável, até que no último dia 6 um juiz de Washington sentenciou que o governo não tem o direito de ditar aos provedores de banda larga como devem administrar suas redes, e que a FCC havia se excedido em sua competência. Há um motivo principal para isso: segundo a lei de telecomunicações de 1996, a internet é um serviço de informação, e não de telecomunicações. A FCC só pode regulamentar serviços de telecomunicações (telefonia, emissão de rádio, satélite, cabo coaxial).

As firmas telefônicas e de cabo se felicitaram por essa vitória jurídica. Nem o governo nem a FCC reagiram ainda. Os líderes democratas no Congresso, sim. E anunciaram que tentarão reclassificar a internet e colocá-la na categoria da telefonia. Entre eles, o senador John F. Kerry, de Massachusetts: "A FCC deve ter autoridade legal sobre isso, e uma mudança semelhante seria coerente com a história das telecomunicações nos EUA".

"Pelo contrário", opina o pesquisador associado da faculdade de direito da Universidade de Stanford Larry Downes. "Se o governo ganhar a capacidade de regulamentar a internet, poderá impor tarifas e preços, lastreando o mercado. Esse tipo de regulamentação se aplicava no século passado, quando havia um monopólio legal na telefonia, algo que sucedeu até 1984. Além disso, implica que os governos estatais e locais também podem cobrar impostos e tarifas, fazendo que os serviços encareçam."

"Se uma coisa está funcionando, por que modificá-la?", explica Downes. "Apesar desses casos isolados, a internet funciona de forma imparcial. De nossas conexões, podemos ter acesso a qualquer site do mundo, desde que não haja censura. É anacrônico que o governo federal queira erigir-se como um policial da rede, tentando solucionar um problema antes que ele exista."

Por motivos comerciais, os provedores têm a mesma opinião. Em fevereiro, duas das grandes operadoras, AT&T e Verizon, redigiram uma carta aberta na qual diziam que reclassificar os serviços de internet seria uma medida "extremista". "Essa drástica mudança na normativa seria insustentável legalmente e no mínimo afundaria a indústria em anos de litígios e caos regulatório". Foi um aviso.

O caso da Comcast, no entanto, é isolado. Esse tipo de desaceleração ou bloqueio das conexões só ocorreu com outra empresa, a Madison River Communications, em 2005. "O risco de que uma companhia desacelere o tráfego de seus usuários está sendo exagerado", opina Robert Litan, economista e advogado do Instituto Brookings, em Washington. "O mercado de internet nos EUA é muito competitivo. As empresas oferecem serviços cada vez melhores por preços cada vez mais módicos. Só pela má publicidade que isso representa, é pouco provável que a Comcast volte a adotar uma medida semelhante."

Então, esse é um debate meramente teórico? É algo que só vai definir como os cidadãos navegam pela rede? Os provedores de conexão e muitos analistas opinam que não, e apontam para um setor específico que abriu o debate e se beneficiará de uma normativa como a proposta por Obama: as firmas que oferecem conteúdo, como Google, Microsoft, Yahoo ou Amazon. Pode ser que esse apoio angélico à neutralidade, à liberdade, à transparência na internet esconda interesses comerciais, dizem.

"As empresas que criam aplicativos, como Google, Amazon ou Ebay, são as grandes beneficiárias da neutralidade", explica Downes, de Stanford. "Com essas iniciativas, se garantem de forma preventiva que ganharão dos provedores de conexão. Na realidade, funcionam como um hobby: forçam um tipo de legislação para se beneficiar dela. Mas a verdade é que o controle governamental da rede só prejudicaria a competitividade no mercado. Que interesse terão as empresas de cabo e telefonia em melhorar as infraestruturas se não puderem obter um benefício adicional por isso?" Isto é, se Google e outras pagarem para usar a rede, a Comcast e a Telefónica terão mais incentivos para melhorar suas infraestruturas, beneficiando finalmente o usuário.

As organizações de cidadãos que defendem a imposição da neutralidade o fazem citando outras possíveis consequências. "Entendemos que as empresas querem fazer dinheiro", explica Liz Rose, porta-voz da Free Press, que processou a Comcast em 2007 pelo caso que agora foi decidido em Washington. "O que queremos é que os consumidores tenham direitos. Nenhuma empresa telefônica ou de cabo deveria censurar o que os internautas comunicam a seus amigos. Segundo estão as coisas hoje, podem fazê-lo. A Comcast não deveria poder censurar crenças políticas na rede, e o é. Não deveria poder espionar as comunicações de seus usuários e vender a informação para empresas publicitárias."

A menção à publicidade não é casual. E pode ser que eventualmente o debate da neutralidade na rede se concentre nas receitas de publicidade. A Comcast está em uma posição comprometida. Em dezembro, a General Electric anunciou sua intenção de lhe vender parte do conglomerado multimídia NBC. Isso significa que a maior operadora de cabo dos EUA também terá uma grande plataforma de conteúdos, que inclui redes de televisão como NBC, Bravo ou SyFy.

Com isto, se a Comcast decidir priorizar um tráfego em suas redes sobre outro, e se tiver o direito de fazê-lo, quem a impedirá de fazer que o conteúdo de seus canais e seus sites seja carregado mais rapidamente que os da concorrência, assim obtendo mais receitas de publicidade?

Nesse delicado equilíbrio que é a arquitetura comercial da rede, o conceito de neutralidade é tão complexo quanto mutável. Diz servir ao cidadão, mas não é um assunto exclusivamente de liberdades civis. Baseia-se em interesses econômicos subjacentes. Em meio à polêmica, os EUA poderão se tornar um exemplo de intervenção governamental, coisa que não ocorre com muita frequência.