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terça-feira, 4 de agosto de 2015

A Lava Jato vai limpar a nossa matriz energética?


Operação da PF expôs o elo entre energia insustentável e corrupção no Brasil; um efeito colateral poderá ser um impulso às renováveis. O comentário é de Ricardo Baitelo e Carlos Rittl em artigo publicado por Blog do Planeta, 30-07-2015.

Eis o artigo.

Quando o governo federal anunciou a decisão de construir duas mega-hidrelétricas no rio Madeira, mesmo após um parecer contrário do Ibama, ambientalistas e técnicos do setor chiaram. As usinas eram obviamente problemáticas do ponto de vista ambiental: previa-se que causariam alagamentos, problemas à pesca e pressão sobre a floresta e os serviços públicos em Porto Velho (tudo isso está acontecendo hoje). O governo foi adiante: atropelou o Ibama, grudou nos ambientalistas o rótulo de inimigos do Brasil e licenciou Santo Antônioe Jirau.

Começava ali um roteiro que seria seguido depois em Belo Monte e agora no complexo deusinas do Tapajós: atropelos a salvaguardas socioambientais e fartos subsídios a empreendimentos caros, de alto risco e baixa viabilidade econômica. São investimentos que aumentam a fragilidade do sistema elétrico brasileiro ao colocar a geração a milhares de quilômetros dos centros de consumo e, como mostraram estudos recentes da Secretaria de Assuntos Estratégicos da própria Presidência, ainda nos deixam em risco de desabastecimento por causa das mudanças do clima. A ministra de Minas e Energia responsável por implementar esse modelo, na administração Lula, atendia pelo nome deDilma Vana Rousseff.

A opção por hidrelétricas faraônicas fazia ainda menos sentido quando se olhava o que estava acontecendo no panorama energético lá fora. A energia solar entrava numa espiral descendente de preços, com o avanço de uma revolução chamada geração distribuída: cada família poderia produzir parte da eletricidade que consome ao instalar painéis solares em casa – energia segura e sustentável. Durante anos o governo federal torceu o nariz para a energia solar, alegando que essa fonte era cara demais. Só não explicava por que subsidiar solar não podia, mas tudo bem empatar R$ 30 bilhões para barrar o rio Xingu.

Uma das maiores razões para essa fixação em grandes obras começou a ser escancarada pela Polícia Federal e o Ministério Público: corrupção. A Operação Lava Jato, que já havia levantado indícios fortes de pagamento de propinas em Belo Monte, começou nesta semana a vasculhar mais a fundo o setor elétrico. Na última terça-feira, foi preso o diretor licenciado da Eletronuclear. A “holding” Eletrobras está agora na mira dos investigadores.

Há muito tempo se especula sobre o elo entre energia insustentável e corrupção: partidos políticos fatiam entre si os cargos-chave no setor. Os operadores de cada partido elegem as obras prioritárias e distribuem sua execução entre as empreiteiras do “clube”. Estas superfaturam os preços e, em troca, irrigam o caixa dos partidos e o bolso pessoal dos operadores partidários nos órgãos públicos. Como requinte de crueldade, ainda recebem crédito subsidiado do BNDES para isso, numa operação cujas dimensões o governo relutou em revelar. Quanto maior a obra, quanto mais pedra, cimento e terra escavada, mais gorda é a propina. A conta sobra para a população, que paga três vezes: pelo sobrepreço, pelo subsídio e pelo passivo ambiental.
O conluio entre agentes públicos e empreiteiras era algo de que apenas se suspeitava, até aLava Jato puxar o fio da meada de outra produtora de energia suja e intensiva em capital – a Petrobras – e botar na cadeia os presidentes das maiores construtoras do país. O mergulho ora iniciado no setor elétrico tem tudo para não deixar tijolo sobre tijolo.

Um efeito colateral das investigações poderá ser um impulso às energias renováveis que operem de forma mais descentralizada. Com a ligação entre construtoras e agentes públicos exposta, o governo pode se sentir inibido em seguir tocando a mesma música. É uma oportunidade para uma ação mais séria em geração solar distribuída (contam-se em poucas centenas as residências no Brasil que têm painéis solares e trocam energia com a rede).

O governo dá sinais de que pressentiu o golpe. O próprio discurso de Dilma sobre renováveis mudou: em 2012, ela chamava a energia solar de “fantasia”; no mês passado, adotou uma meta de expansão de eletricidade renovável para 20% da matriz em 2030. Mesmo que a meta não seja nada ambiciosa - poderíamos chegar a pelo menos 40% - o fato de a presidente falar hoje em investir em energia solar é, sim, novidade.

No mês que vem, o Ministério de Minas e Energia realiza um leilão de energia solar fotovoltaica. Um segundo está marcado para novembro, e só o ritmo atual de contratação já superaria a meta pífia de 3,5 gigawatts instalados projetada pelo governo para 2023. Alguns Estados já começam a rever sua política de tributação para energia solar.


Nunca se deve duvidar da capacidade do sistema político brasileiro de mudar para manter o status quo. Bem pode ser que após a Lava Jato a corrupção encontre outros caminhos para continuar poluindo, desmatando e excluindo. Mas nunca o caldo de cultura no país esteve tão favorável a outras fontes de energia, renováveis e limpas, em todos os sentidos – e em novas formas de vendê-las e distribuí-las.

sábado, 1 de novembro de 2014

O Brasil na contramão


"Em 2013, o desmatamento aumentou 29% na Amazônia e não há indícios de que voltará a cair em 2014. Ao contrário, dados preliminares do INPE indicam até a possibilidade de um novo crescimento, coerente com a alta observada também no desmatamento em outros biomas, como o Cerrado e a Mata Atlântica", escreve Marcio Santilli, sócio-fundador doInstituto Socioambiental - ISA , em artigo publicado pelo Instituto Socioambiental - ISA, 24-09-2014.
Eis o artigo.
No momento em que se intensificam as negociações internacionais sobre a mudança do clima, o Brasil retoma a velha diplomacia defensiva, se recusa a renovar compromissos com a redução do desmatamento e aumenta as suas emissões de gases do efeito estufa em 2013, após um período de sete anos em que havia conseguido reduzi-las.
O mundo espera que os governos cheguem a um acordo para iniciar um processo de redução global nas emissões desses gases, até o final de 2015, quando se realizará uma conferência da ONU, em Paris, com a presença de chefes de Estado. Até março, os países deverão apresentar perante a ONU os seus documentos oficiais reportando o que pretendem fazer para garantir que essa redução global ocorra. O(A) presidente(a) que será eleito(a) no próximo mês e empossado(a) em janeiro, terá pouco tempo para definir a posição brasileira a respeito.
Não se trata de qualquer assunto, pois a mudança do clima constitui a maior ameaça produzida pela humanidade contra ela mesma e contra a própria possibilidade de vida na Terra. A concentração crescente dos gases de efeito estufa na atmosfera está provocando o rápido aumento da temperatura na superfície do planeta, com o derretimento das geleiras nos polos e nas regiões de altitude, o aumento dos níveis dos oceanos, alterações nos regimes de chuva e tempestades catastróficas em várias regiões do mundo, anunciando muito sofrimento, prejuízos econômicos gigantes e pior qualidade de vida para as próximas gerações.
Não é mais possível adiar as providências de todos os países para diminuir a poluição provocada pelas indústrias, pela profusão de veículos automotores e pelo consumo excessivo de energias fósseis, como o carvão, o petróleo e o gás natural, que produzem cerca de 80% das emissões de gases estufa. Mas também contribui para agravar o problema o desmatamento e o uso inadequado das terras, que provocam a maior parte das emissões brasileiras e cuja redução constitui a maior e mais urgente contribuição que o país pode dar para se evitar mudanças mais drásticas do clima.
Porém, em 2013, o desmatamento aumentou 29% na Amazônia e não há indícios de que voltará a cair em 2014. Ao contrário, dados preliminares do INPE indicam até a possibilidade de um novo crescimento, coerente com a alta observada também no desmatamento em outros biomas, como o Cerrado e a Mata Atlântica. Ainda que a taxa amazônica em 2014 permaneça nos níveis de 2013, estará se caracterizando que as emissões florestais brasileiras subiram para um novo patamar. Não se trata de uma retomada dos escandalosos picos de desmatamento ocorridos entre 1995 e 2005, mas tampouco de um “aumentozinho”, como disse a presidente Dilma Rousseff em conferência da ONU ocorrida nessa semana, ou de um “ponto fora da curva”, como acreditava a ministra do meio ambiente.
Pior: apesar de dispor de uma matriz energética considerada relativamente limpa, se comparada com a dependência de carvão e de petróleo de várias das grandes economias mundiais, ela está se sujando rapidamente através do uso intensivo de termoelétricas devido aos efeitos da própria crise climática sobre os reservatórios das hidrelétricas, do aumento exponencial da frota automotora movida a petróleo, tendo como pano de fundo a falência da produção de etanol e a emergência do Pré-Sal como referência estratégica do setor energético, numa inflexão carbonífera das políticas de governo.
Significa dizer que após a contribuição notável em reduzir o desmatamento e as suas emissões de gases estufa entre 2006-12, o Brasil voltou a aumentá-las, sem que disponha de alternativas estratégicas de política energética para reverter essa situação nos próximos anos. E isto ocorre quando outros grandes emissores desses gases, como a China e osEstados Unidos, além de vários países da União Européia, vão avançando nas mudanças de suas matrizes energéticas e criando condições econômicas objetivas para reduzir as suas emissões.
Infelizmente, o Brasil vai perdendo a condição de protagonista que havia conquistado em tempos recentes no âmbito dessas negociações internacionais. Estamos entrando na sua fase decisiva pela contramão, reforçando as piores posições e funcionando como freio para as mudanças que a humanidade exige e que não podem mais esperar. Mas tomara que as eleições gerais possam gerar outro clima, de seriedade e de engajamento do governo brasileiro nos esforços que mais interessam aos nossos filhos.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Colóquio “Os mil nomes de Gaia: do Antropoceno à idade da Terra”

Evento,que acontece a partir de segunda e até sexta-feira na Fundação Casa de Rui Barbosa, reúne diversos pensadores brasileiros e estrangeiros para debater novas maneiras de imaginar e ocupar o espaço do mundo, mesclando ciências exatas e humanas.




Gaia em debate


Terra, mundo, Pachamama... Há muitas maneiras de nomear nosso planeta, mas poucas causam mais controvérsia no momento do que o termo Gaia — uma divindade primordial que, no imaginário dos gregos antigos, regia os elementos da natureza. Resgatado nos anos 1970 para ilustrar a hipótese do ambientalista James Lovelock e da bióloga Lynn Margulisde que o planeta é como um ser vivo que se autorregula, o nome está no centro de uma reação intelectual à crise climática, à perda da biodiversidade e à probabilidade de um colapso global.
A reportagem é de Bolívar Torres, publicada pelo jornal O Globo, 13-09-2014.
Gaia ressurge agora como teoria científica e conceito filosófico, um ponto de partida privilegiado para se problematizar as relações entre homem, natureza e tecnologia. Algumas destas propostas estarão em pauta no colóquio “Os mil nomes de Gaia: do Antropoceno à idade da Terra”, que acontece a partir de segunda e até sexta-feira na Fundação Casa de Rui Barbosa. Idealizado pela filósofa Déborah Danowski, pelo antropólogo Eduardo Viveiros de Castro e pelo antropólogo e filósofo francês Bruno Latour, o evento reúne diversos pensadores brasileiros e estrangeiros para debater novas maneiras de imaginar e ocupar o espaço do mundo, mesclando ciências exatas e humanas.
Entre os 29 participantes, há visões divergentes. Para a filósofa belga Isabelle Stengers, que fará a conferência de encerramento do colóquio, Gaia é uma intrusa, que desafia nossas categorias de pensamento, e com a qual nem mesmo as grandes potências mundiais podem negociar. Já para a filósofa francesa Emilie Hache, que participará de uma mesa-redonda na sexta, Gaia coloca de ponta- cabeça o nosso antropocentrismo, alertando que a espécie humana nunca será mais forte do que o planeta, e que a coabitação é mais viável do que a dominação. Embora seja reconhecida pela comunidade científica, a teoria tem detratores — Bruno Latour, que abre o evento com a conferência “O que significa obedecer às ‘ Leis de Gaia’ ao tentar manter o antigo imperativo ‘só se vence a Natureza obedecendo-lhe?’”, já admitiu que foi diversas vezes “aconselhado a não utilizar o termo”, nem a confessar seu interesse pelas ideias de Lovelock.
— Gaia é um dos nomes que vêm sendo convocados em todos os cantos do mundo para se pensar ontológica e politicamente os modos possíveis de enfrentamento e de resistência à radical degradação atual das condições de existência não só dos humanos, mas de uma enorme quantidade de outros viventes sobre (e sob) a Terra — explica Déborah Danowski.
— A urgência de abordar a questão se dá porque simplesmente não podemos viver em um mundo 3 ou 4 graus mais quentes que o atual, não há registro de nada semelhante a isso na história da “civilização”. Entretanto, os governos mundiais, com os seus timidíssimos e até covardes acordos internacionais, têm se mostrado incapazes de fazer qualquer coisa a respeito.
Conexões falhas na universidade
Professor da Divisão de Ecologia Humana da Universidade de Lund (Suécia), o antropólogoAlf Hornborg, que falará terça-feira no evento, confessa ter um certo ceticismo em relação ao nome Gaia, embora acredite que ele possa ser usado em um sentido mais amplo e “menos antropomórfico” para nos lembrar que “o sistema Terra e sua biosfera têm lógicas próprias, indiferentes à espécie humana”. 
— Cabe a nós humanos escolher se respeitamos e nos conformamos a esse sistema ( por exemplo, minimizando o uso de combustíveis fósseis) ou se continuamos a gerar mudanças na biosfera que tornarão difícil a sobrevivência das nossas espécies — sugere o antropólogo, em entrevista por e-mail.
Decisiva para o nosso futuro, a escolha passa, segundo ele, pelo desenlaçamento das redes que fundem as dimensões materiais do ambiente e os processos culturais da sociedade. Para Hornborg, autor do livro “The power of the machine: global inequalities of economy, technology, and environment” (O poder da máquina: desigualdade global da economia, tecnologia e meio ambiente), já é “evidente” que o que acontece com a biosfera está estreitamente conectado com aspectos econômicos e culturais, como nosso padrão de consumo. Apesar de imagens de satélites mostrarem como a distribuição de infraestrutura tecnológica coincide com a distribuição de dinheiro no mundo, e apesar de o desenvolvimento ter comprovadas consequências ambientais, a ecologia, a economia e a engenharia continuam, na avaliação do antropólogo, separadas nas universidades.
— O ponto de vista do mundo dominante falha em ver essas conexões. Uma das razões é que temos tendência em distinguir objetos materiais, como as máquinas, com as relações sociais que os geraram, como a troca desigual de recursos no mercado mundial. Quando o capital se torna tecnologia, ele se torna moralmente neutro e inocente. Outro ponto é que não entendemos as relações entre economia e física. Assim como (o economista romeno)Nicholas Georgescu- Roegen demonstrou há mais de 40 anos, a produção de commodities é, na verdade, a destruição dos recursos. A criação do valor de consumo é, também, a criação de entropia. Ao contrário do que muitos pensam, isso não é inevitável. Isso é a consequência do uso generalizado do dinheiro, uma instituição que precisa ser fundamentalmente repensada.
Segundo Émilie Hache, mestre de conferência e professora do departamento de Filosofia na Universidade de Nanterre (Paris), a questão não é se perguntar “por que” as relações entre ciência, tecnologia e meio ambiente são ignoradas, mas sim “por quem”. Em seu livro “Ce à quoi nous tenons, propositions pour un écologie pragmatique” (Aquilo a que damos valor, propostas para uma ecologia pragmática), Emilie parte da crise ecológica nos anos 1980 para entender seu sentido científico e político. O que implica repensar a dimensão moral da ecologia, já que as ações humanas geraram novas responsabilidades sobre o que será deixado às gerações futuras.
— Não creio que o “mundo” tenha dificuldades de entender as questões ao mesmo tempo econômicas e sociais da nossa relação com o meio ambiente — diz ela. — Mas se aceitarmos esta formulação, diluindo as responsabilidades, então podemos esperar que a civilização desmorone e que daqui a um século, ou dois, historiadores se interroguem sobre a incapacidade do nosso mundo em tomar as medidas necessárias, mesmo tendo todos os dados científicos para isso.
Egoísmo da espécia humana
Uma visão comum entre a maior parte dos convidados do evento é a de que Gaia exige o fim da visão utilitarista que opõe homem e natureza. Bruno Latour defende que esta última não pode ser pensada de forma independente das relações entre os humanos e os não humanos. A natureza não seria um valor em si. Para Émilie, porém, o problema está menos na concepção moderna de natureza, a qual já se tem uma fácil relação crítica, e mais na “dificuldade de substituí-la, de mudar o imaginário”.
— A natureza está em todos os lugares, no direito, nas normas, na biologia, no social... — enumera Émilie. — Não é tanto um conceito, mas um operador, que serve a hierarquizar, desvalorizar e dominar tudo que ele ataca: as mulheres, as pessoas de cor, os outros seres vivos... A natureza não tem nada a ver com a ecologia. Precisamos de articulações que abracem as questões ecológicas em outros problemas: ecologia e feminismo; ecologia e desigualdades sociais; ecologia e racismo; ecologia e etologias...
Os pesquisadores ainda tentam entender por que a espécie humana não cria pontes de colaboração, mesmo diante de uma situação de emergência climática. Parte dessa dificuldade talvez possa ser atribuída à prevalência, no século XX, da ideia de que somente o egoísmo e a competição exerciam um papel na regulação do planeta. Cientista, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE)Antonio Nobre acredita que a noção implícita de que o processo essencial da seleção natural embutia em si o “enobrecimento do egoísmo” foi um erro grave, que teria bloqueado a visão de outros processos essenciais para o funcionamento do conjunto. Hoje, porém, novas descobertas indicam que, em Gaia, quanto mais rico e complexo um sistema, menor o papel da competição e maior o da colaboração.
— A explicação da seleção natural para a variedade de organismos era sem dúvida melhor do que as explicações anteriores, mas ela não era idêntica em tudo o mais com explicações que viriam depois — explica Nobre, que falará na terça-feira sobre “Os fundamentos belíssimos da vida na regulação planetária”.
— Um vasto campo de complexidade, invisível antes do surgimento da biologia molecular, permaneceu ignorado no auge do desenvolvimento do darwinismo. E suspeita-se que parte maior da complexidade bioquímica na base do funcionamento dos sistemas vivos ainda permaneça oculta. Por exemplo, a explicação mais simples, como aquela na base da teoria da evolução baseada apenas nos mecanismos demonstrados da seleção natural, não dá conta de clarificar o papel da vida na regulação do ambiente planetário. Ademais, existem explicações simplíssimas ilustrando o papel central da colaboração na evolução de complexidade, que são rejeitadas apenas porque não batem com o que tornou-se um dogma excludente, o da competição e da sobrevivência do mais apto.

domingo, 16 de março de 2014

Andar de bicicleta é uma decisão política

 Entrevista com Chris Carlsson

Em 1992, Chris Carlsson se juntou a alguns amigos para andar de bicicleta na Market Street, a principal rua de São Francisco, nos Estados Unidos. Eles ocuparam a via e se tornaram o próprio trânsito no lugar dos carros que a ocupavam. Com aquele ato, eles começaram o movimento conhecido como massa crítica, que se espalhou para o mundo inteiro. No Brasil, ele é conhecido principalmente como bicicletada, quando diversas pessoas tomam uma via importante da cidade sem lideranças e trajetos impostos, assim comoCarlsson fez há vinte anos.
A entrevista é de Piero Locatelli, publicada na revista Carta Capital, 19-02-2014.
Carlsson conversou com a CartaCapital em visita a São Paulo nesta semana. Ele está no Brasil para participar do III Fórum Mundial da Bicicleta, em Curitiba, e lançar o seu livroNowtopia – Iniciativas que estão construindo o futuro hoje (Tomo Editorial). No livro, ele defende que o ciclismo, hortas comunitárias e a cultura do “faça você mesmo” contribuem para formar uma sociedade que supere o capitalismo. Com uma abordagem marxista,Carlsson acredita que estas atitudes podem ajudar a classe trabalhadora a se emancipar do trabalho assalariado e ter uma vida melhor e mais saudável.
Eis a entrevista.
O senhor fez parte do começo da massa crítica há vinte anos em São Francisco. Hoje, há grupos como este em todo o mundo, o número de ciclistas urbanos tem aumentado e grandes cidades têm políticas públicas voltadas para a bicicleta. O senhor imaginava o desdobramento que a massa crítica teria?
Não imaginava. Nós começamos com uma comunidade de amigos, porque não havia tantas bicicletas assim em São Francisco. A primeira massa crítica que fizemos tinha cinquenta pessoas. Nós subimos a rua principal da cidade, viramos à esquerda e entramos em um bar. Só isso, foi uma coisa bem simples. Mas deste ato surgiu uma bola de neve, e a massa crítica se tornou um fenômeno global que mudou cidades em todo o mundo, incluindo São Paulo.
Por que o senhor acha que o movimento se espalhou desta forma?
O entendimento mais óbvio é a partir do slogan “isso já estava na cabeça de todos”. Assim que você diz a um ciclista: “em outra cidade eles encheram a rua de bicicletas e voltaram para casa”, o primeiro pensamento dele será: “nossa, vamos fazer isso aqui!” Na lógica de ser tratado como um cidadão de segunda categoria nas ruas, a resposta do ciclista só poder ser feita por meio de uma ação coletiva, com ocupação e reabilitação das ruas.
Não há algo como uma organização central de massas críticas e bicicletadas. Cada movimento se organiza e manifesta de formas diferentes, e ambos os termos são guarda-chuvas para diversos movimentos. Como você acha que a ideia de massa crítica é utilizada pelas pessoas que a organizam?
O uso diferente acontece. As pessoas chamam alguns protestos de massa crítica quando vão a um protesto de bicicleta, mas isso não é a massa crítica: é um protesto de bicicletas. Mas eu não me importo, o conceito não é meu e as pessoas fazem o que quiserem dele.Para mim, a massa crítica é um evento sem outras razões. Ela não é instrumentalizada, você não a usa para atingir outra coisa. Mas naquele espaço você pode começar a fazer outras coisas.
É como uma incubadora de ovos aonde eles vão chocando. Tudo que você pode pensar já começou numa massa crítica: novas campanhas, grupos políticos, amizades, negócios, famílias, e por aí vai. A melhor coisa é que a massa crítica deu a todo um setor da população a chance de achar outra maneira de fazer política.
Você vê a bicicleta como uma ferramenta anticapitalista. Porém, ela ganhou espaço em propagandas e é um objeto de consumo. Em cidades como Londres, São Paulo e São Francisco, os bancos administram as bicicletas chamadas de “públicas”. Diante dessa absorção dela por empresas, a bicicleta ainda pode ser uma ferramenta de transformação contra o capitalismo?
Só a bicicleta não é suficiente. A bicicleta, por si só, não é interessante. Ela é um meio de transporte e um produto industrial. A história dela também é a história da escravidão na Amazônia e no Congo, em busca de borracha para fazer bicicletas para o hemisfério norte. Já a história contemporânea da bicicleta no século XX é a da resposta a automobilização das cidades, e isso pode ser uma resposta para fazer algo diferente na cidade.
A bicicleta é um meio de transporte em seu senso literal. Ela ajuda as pessoas a chegarem do ponto A ao ponto B, e isso é uma simples realidade apolítica. Mas a pessoa pode decidir se vai de trem, carro, ônibus, andando, pulando ou voando ao ponto B. E existe política nessa decisão.
Então o real transporte que a bicicleta pode fazer politicamente é levar você para outra maneira de viver. E isso não acontece automaticamente. Isso necessita um contexto e um pensamento político. A bicicleta é um objeto em que você pode despejar sentido, como você coloca um líquido em um copo. E o sentido vem das nossas cabeças, das nossas decisões. Se não colocarmos o sentido político nela, ela é só um objeto chato, perfeitamente compatível com o capitalismo.
Além disso, você pode ter uma sociedade capitalista baseada em bicicletas. O problema é que a sociedade capitalista é baseada no crescimento, e não vai crescer tão rapidamente porque não estão desperdiçando tantas coisas quanto com carros. Então as bicicletas são um passo atrás na lógica capitalista, mas não um passo completo.
E você acha que a maioria dos ciclistas preenche a bicicleta com este sentido anticapitalista?
A maioria não. Mas uma coisa interessante que pode acontecer é que, pedalando na massa crítica, as pessoas conversem com outros ciclistas que fazem política, ou que estiveram pensando sobre isso. Porém, isso não acontece sempre. Há ciclistas organizados em torno de lojas de departamento, e até pela polícia. Quando a bicicleta está em um processo mais aberto, como a massa crítica, ela tem mais chances de ser parte de um processo de mudança social e pessoal.
Seu livro trata de exemplos norte-americanos de ciclistas, hortas comunitárias e outras formas de ativismo. No Brasil, apesar da maior parte dos ciclistas estarem em cidades menores e nas periferias das metrópoles, o ativismo é atrelado a pessoas de bairros mais ricos. O mesmo acontece com a permacultura em São Paulo, por exemplo. As experiências citadas no livro podem ajudar as pessoas menos favorecidas de uma sociedade desigual como a brasileira?
Algumas pessoas estão tão desesperadas para manter sua sobrevivência que passam cada minuto da sua vida trabalhando, e não têm tempo para fazer mais nada. Isso pode significar sair da periferia de São Paulo e deslocar-se 60 quilômetros por dia. Trabalhar 14 horas, ficar quatro no trânsito, dormir seis horas e começar tudo isso de novo. É uma vida muito difícil, próxima à escravidão. Nós, que não vivemos assim, temos muita dificuldade de entender.
Porém, essas pessoas podem decidir fazer uma parte dessa jornada de bicicleta, decidir trocar o que fazem. Elas ainda têm livre-arbítrio. Elas podem tentar plantar comida perto da sua casa, e com isso depender menos de fazer dinheiro. Um pouco, não muito, é claro. Elas também podem cooperar com seus vizinhos, pois eu acredito que as sociedades pobres têm mais solidariedade que nós, que é uma chave para a sua sobrevivência.
Sempre há uma margem para reduzir a necessidade de dinheiro e aumentar a relação com o bem comum. Todo mundo, em qualquer situação, pode fazê-lo se decidir isso.
O senhor fala que os sindicatos são formas de organização obsoletas para os trabalhadores. Qual é o papel das organizações de trabalhadores dentro da sua ideia de mudança?
O problema que eu tenho com os sindicatos é que eles desistiram de questionar o que fazemos há muito tempo. Eles não se importam, eles só querem trabalho. Fazer estradas horríveis, construir prédios em todos os cantos, colocar cimento na nossa terra, o que for. Por que estamos fazendo este trabalho estúpido? Trabalhando em bancos, companhias de seguro, fazendo coisas que vão quebrar em seis meses.
Nós fazemos muitas coisas estúpidas, e os sindicatos não se importam com isso. Não é parte da lógica em que eles foram fundados. A lógica é só ganhar mais dinheiro para os trabalhadores, e defendê-los em seu próprio trabalho. Eles deveriam começar a pensar em como vivemos, os problemas que enfrentamos e quais o trabalho que deveriam ser feitos para solucionar este problema.
O senhor defende em seu livro que toda atitude é política, e cita mudanças vinda das mãos ou da organização dos cidadãos, sem interferência do Estado. Qual o papel da política institucional nestas mudanças?
As instituições políticas, os governos e as agências que eles mantêm mostram pouca adaptabilidade na história que vimos até hoje. Aacho que estamos vivendo em um período em que você vai mudar isso.
A repressão que vimos no Brasil em junho do ano passado é um bom exemplo disso, de como o Estado não consegue responder às pessoas se unindo de forma horizontal e indo às ruas. Nós vimos isso também na Turquia, na Espanha, na Grécia e no Egito. E em todas houve uma grande repressão do Estado. Então ele está muito preso nas suas formas antigas, e não mostra uma capacidade de se adaptar.
Certo, mas então se uma revolução vier, o que isso significa? Eu acho que poderiam surgir instituições que ajudariam as pessoas a cuidar das coisas, de baixo. Uma democracia efetiva, não somente votar para pessoas no Estado. Uma democracia que permita as pessoas decidirem como gastamos os recursos, como vamos prover água e eletricidade, como trabalhamos e para o quê.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Um novo urbanismo

Cidades para pessoas em vez de carros

Dominada pelas imposições dos carros, a urbanização moderna levou à construção de cidades segregadas, insustentáveis. Esse modelo agora dá lugar ao chamado Novo Urbanismo.
A reportagem é de James Tulloch, publicada originalmente no sítio Allianz e reproduzida pelo portal Envolverde, 13-02-2014.
O futuro é urbano. Até aí nós sabemos. Mais da metade da humanidade hoje vive em cidades, e essa proporção está aumentando à medida que o campo se esvazia. Isso é uma boa notícia para o planeta?
As cidades são responsáveis por dois terços das emissões globais de gases de efeito estufa. Elas consomem enormes quantidades de energia e água, esgotam o solo, derrubam florestas e atuam como ímã, atraindo indústrias e automóveis que poluem.
Por outro lado, a concentração de grande número de pessoas em um espaço compacto significa que se pode fornecer eletricidade, água, alimento e transporte de maneira mais eficiente e com menos desperdício. Trabalho, moradia, escola e serviços estão mais próximos.
Nos Estados Unidos, a pegada de carbono dos nova-iorquinos é a metade da pegada dos moradores de Denver, e isso se deve, em parte, à maior densidade populacional de Nova Iorque. Os habitantes de Denver moram em grandes casas de subúrbio e precisam de carro para ir a toda parte, enquanto os moradores de Manhattan vivem em apartamentos e podem andar de metrô ou a pé.
Portanto, o impacto ambiental de uma cidade depende de seu tipo de urbanização.
A dimensão humana
Uma cidade é projetada para os carros ou para as pessoas? Ela cresce para cima, como Nova Iorque, ou se espalha horizontalmente, como Denver?
Novo Urbanismo, um movimento informal de arquitetos, projetistas e planejadores que tem florescido desde os anos 1990, responde a essas perguntas fundamentais sobre a vida urbana por meio da promoção dos seguintes princípios:
- cidades compactas e de alta densidade;
- “caminhabilidade”;
- trânsito de massa;
- uso misto do solo.
À luz desses princípios, as cidades seriam redesenhadas em função das dimensões, dos movimentos e das necessidades do corpo humano, em vez de serem projetadas em função do automóvel, o qual requer muito mais espaço e combustível. Os carros também encorajam a expansão urbana, exigindo muitos quilômetros de tubulações, fiações e demais infraestruturas, além de moradias superdimensionadas.
Os centros das cidades se tornariam mais densamente ocupados, combinando áreas residenciais, comerciais e de escritórios, de modo que as pessoas pudessem se locomover facilmente entre elas a pé ou usando transporte público. Novas regras de zoneamento podem ser utilizadas para possibilitar que as pessoas vivam, trabalhem e se divirtam com maior proximidade entre si. Assim, o centro da cidade deixaria de ser um local-fantasma após o anoitecer.
Os edifícios seriam mais altos e as casas seriam substituídas por prédios de apartamentos que poderiam abrigar na cobertura jardins e restaurantes, escritórios e até mesmo estufas para agricultura verticalizada. Edifícios multiúso desse tipo já são a marca registrada de cidades asiáticas avançadas, como Tóquio ou Seul.
A malha viária e de estacionamentos poderia ser reduzida, dando espaço para parques e chácaras urbanas. O transporte público seria a melhor maneira para se deslocar, como ocorre em Manhattan ou Tóquio.
Muitas cidades europeias construídas na época medieval já têm esse princípio incorporado ao seu tecido urbano e procuraram preservar esse legado.
Outras, no entanto, adotaram a cultura automobilística, o que resultou nos engarrafamentos diários que os londrinos, por exemplo, têm de aguentar. Ao imitar os Estados Unidos, os britânicos se esqueceram de que vivem em uma ilha pequena e populosa, e não em uma vasta área continental.
Cidades mudam de marcha
Apesar de tudo, os erros do passado podem ser corrigidos. A tributação pode conter o uso dos carros e promover o transporte público, conforme o pedágio urbano em Londres comprovou.
A comunidade alemã de Vauban foi muito mais além e baniu os carros – as pessoas andam de bicicleta ou viajam de bonde até a cidade vizinha de Freiburg. Avenidas asfaltadas e os estacionamentos foram substituídos por gramados e canteiros de flores, e as crianças brincam nas ruas.
Jaime Lerner, ex-prefeito de Curitiba e ganhador do Prêmio Ambiental das Nações Unidas, afirma que leva apenas três anos para transformar uma cidade para melhor, se houver vontade política.
Lerner é famoso por reestruturar o sistema de transporte de Curitiba, introduzindo um sistema de ônibus de circulação rápida que começou em 1974 com 25 mil passageiros por dia e hoje transporta 2,2 milhões de passageiros diariamente. A população da cidade duplicou desde 1974, mas o tráfego de carros diminuiu 30%.
“A cidade não é um problema, e sim uma solução de mudança climática”‘, diz Lerner em uma apresentação durante uma conferência anual do TED (Tecnologia, Entretenimento e Design). “Porém, não basta construir prédios ecológicos, usar novos materiais e novas fontes de energia. É preciso também inovar o conceito de projeto da cidade.”
O arquiteto dinamarquês Jan Gehl, consultor de projeto urbanístico para as cidades de Londres e Sydney, amplia essa visão em uma entrevista concedida à BBC, em que ele começa apontando onde é que os planejadores erraram:
“Os planejadores olhavam de cima os modelos em escala das cidades. O que faltou foi uma visão do ambiente na altura dos olhos.” Na prática, isso resultou num projeto muito mais adequado a uma máquina urbana do que a um habitat humano.
“Eu gostaria que as pessoas fossem tão visíveis para os planejadores quanto foram os carros nos últimos 50 anos,” diz Gehl. “Todas as cidades têm um departamento de trânsito para contar carros, mas nenhuma cidade que eu conheça tem um departamento de pedestres.”
Gehl explicou como Copenhague deu o primeiro passo. Calçadões de pedestres ampliados cruzam as esquinas, diluindo os limites entre áreas de trânsito e áreas para pedestres. Estudos mostram que esse tipo de ‘espaço compartilhado’ faz os motoristas diminuírem a velocidade, e isso aumenta a segurança no trânsito. O resultado é descrito pelo próprio Gehl: “Minha neta de sete anos pode ir andando sozinha para a escola sem ter de cruzar nenhuma rua”.
Uma cidade mais “caminhável” também será uma cidade mais ecologicamente correta.
Existem mil coisas que as cidades podem fazer para reduzir o impacto climático: construções ecoamigáveis, reciclagem de água e lixo, sistemas de aquecimento distritais, iniciativas pró-energia renovável, redes inteligentes que permitem a geração e a distribuição local de energia – e todas essas coisas são muito importantes.
As chamadas ecocidades oferecem visões utópicas ao incorporarem muitas dessas inovações, porém as tão faladas cidades de Masdar, em Abu Dhabi, e Dongtan, na China, por enquanto só existem no papel.
Novo Urbanismo nos desafia a repensar as cidades existentes e a redefinir para que serve, na verdade, uma cidade ou um carro. Jaime Lerner resumiu a questão de forma bem-humorada: “Carro é como sogra: você precisa manter um bom relacionamento com ela, mas ela não pode controlar a sua vida. Quando a única mulher na sua vida é a sogra, você está com problema”.

sábado, 8 de março de 2014

Direito dos animais, deveres dos homens

Um ano de prisão por ter arremessado um filhote de gato contra a parede de um prédio: pena justa ou excessiva? Por que esse ato de crueldade, gravado em vídeo e divulgado na internet no final de janeiro, suscitou tamanha comoção? No Facebook, 200 mil pessoas exigiam a prisão de um marselhês de 24 anos, sendo que sua vítima só saiu com uma pata quebrada. De qualquer forma, era o gatinho Oscar que estava na mente de todos no Senado, onde foi realizado na sexta-feira (7) um colóquio sobre o tema "Nós e os animais", organizado pelothink tank Ecolo-Ethik em parceria com o "Le Monde".
A reportagem é de Catherine Vincent, publicado pelo jornal Le Monde, e reproduzida pelo portal Uol, 12-02-2014.
Se esse episódio até banal foi mencionado tantas vezes no evento, foi devido à internet e às redes sociais, que com seu poder em poucas horas lançaram o acontecimento diante dos holofotes. Mas isso também se deve ao fato de que notícias sobre gatos maltratados não são mais o que eram antes. A questão de nossa relação com os animais se tornou um campo de reflexão à parte. Prova disso é o tema desse colóquio e a diversidade dos participantes -desde o filósofo Peter Singer até o fotógrafo Yann Arthus-Bertrand, passando pelo neuropsiquiatra Boris Cyrulnik, o monge budista Matthieu Ricard, a primatóloga Jane Goodall e Laurence Parisot, ex-presidente do Medef [maior patronato da França]. Prova disso também foi a comoção suscitada pela execução de um filhote de girafa em perfeito estado de saúde no zoológico de Copenhagen, no domingo (9), porque seu patrimônio genético não seria considerado suficientemente "original" para que ela pudesse participar dos programas de reprodução dos zoológicos europeus.
Os animais, seres sensíveis que sentem tristeza, prazer e dor, também são dotados de inteligência e são capazes de astúcia e empatia, no caso dos mais evoluídos. À medida em que se confunde a fronteira entre eles e nós, uma conscientização vai sendo formada. Embora a crueldade contra eles fosse prática comum até somente um século atrás, causar sofrimento aos animais se tornou um mal social em muitos países.
Porta de entrada para a violência contra mulheres e crianças
Até o argumento - frequentemente usado por aqueles que se irritam com essa briga -segundo o qual seria melhor cuidar de humanos necessitados do que de animais não faz mais sentido: agora sabemos que crueldade contra animais muitas vezes é a porta de entrada para a violência contra mulheres e crianças. Daí a severidade da pena determinada pelo tribunal correcional de Marselha, na segunda-feira (3), ao jovem que arremessou o gatinho. Foi uma vitória inegável para os defensores da causa animal, que também expõe as incoerências de nossa sociedade nesse domínio.
Primeiro, a incoerência entre a indignação suscitada pelo destino de Oscar e a indiferença que cerca abusos cruéis e frequentes. "A maioria das pessoas não percebe que os porcos são tão inteligentes quanto os grandes símios e os cães, e são igualmente capazes de sofrer", lembra Jane Goodall. A pecuária industrial mantém e mata em condições indignas os animais que comemos. Eles ainda têm defensores, o que não é o caso dos animais selvagens, de forma geral. "O reconhecimento da sensibilidade é atribuído somente ao animal doméstico", ressalta Allain Bougrain-Dubourg, presidente da Liga para a Proteção dos Pássaros (LPO), mencionando "essas dezenas de milhares de sombrias que têm os olhos furados para incentivar a engorda."
Oscar, o gatinho de quatro meses que o francês Farid Ghilas atirou contra a parede em vídeo filmado e postado no Facebook. O animal quebrou uma pata e foi socorrido por grupos de proteção aos animais. Ghilas foi julgado por crueldade e condenado a um ano de prisão
"Desprezo"
Segundo, a incoerência entre a evolução das leis que visam proteger os animais e a falta de conscientização através do sistema nacional de ensino sobre o respeito que lhes é devido. "Fora o lobo mau e o coelhinho, o animal continua tragicamente ausente das aulas do primário", observa a psicóloga clínica Dominique Droz. "Nada é feito para assegurar a transição entre o imaginário infantil, no qual ele está muito presente, e o respeito ao animal real, com sua alteridade e sua identidade." E a filósofa Florence Burgat complementa: "Entre as disciplinas nas quais os animais são dissecados, as que os ignoram e as aulas de filosofia onde tudo lhes é negado -a alma, a razão, a consciência -, a escola aparece como o lugar onde se ensina o desprezo pelos animais."
Por fim, a incoerência entre a sentença recente do tribunal de Marselha e a que advém de tantos outros atos criminosos. "Dos mil casos anuais de maus tratos que chegam até a nós, metade deles requer o recurso a ações na Justiça", explica Reha Hutin, presidente da Fundação 30 Milhões de Amigos. "Infelizmente, constatamos que o Ministério Público só entra com um processo em um de cada cinco casos. A maioria das queixas, portanto, é arquivada. E quando os casos têm chance de serem julgados, as penas previstas raramente são aplicadas, ou continuam leves demais para serem dissuasivas."
É sob essa perspectiva que se deve reler o manifesto assinado por 24 intelectuais franceses, em outubro de 2013, exigindo que o código civil deixe de considerar os animais como cadeiras ou cortadores de grama -em outras palavras, como "bens móveis". É uma mudança de status que Jean-Pierre Marguénaud, professor de direito na Universidade de Limoges, considera "determinante para aumentar a eficácia da aplicação da regra penal" e para que possamos dispensar episódios de grande impacto na mídia como o de Oscar.

sábado, 1 de março de 2014

Água, uma tragédia anunciada



Água, uma tragédia anunciada

 
"Como é possível que a civilização engendrada pelo pensamento científico possa ter desaguado numa ignorância tão assombrosa, enquanto a outra, que preferiu se resguardar no pensamento mítico, conseguiu produzir fartura de proteínas, carboidratos e exuberância metafísica?", pergunta Luiz Bolognesi, roteirista de "Bicho de Sete Cabeças" e diretor de "Uma História de Amor e Fúria", em artigo publicado na Folha de S. Paulo, 23-02-2014.
Eis o artigo.
"Meio copo de água é mais caro que a garrafa de uísque escocês. É por isso que a água do aquífero guarani, a maior reserva subterrânea do planeta, já não cai na torneira do brasileiros. É vendida pela Aquabrás a peso de ouro nas plantações de etanol e exportada para o mundo inteiro. Quanto mais diminui a calota polar, mais disparam as ações da Aquabrás. Enquanto isso, o pessoal lá embaixo está bebendo água do mar infectada com lixo industrial."
Esse é o depoimento do jornalista João Cândido na parte final do filme "Uma História de Amor e Fúria". Ele está no alto de um condomínio vertical no Rio de Janeiro em 2.096. O presidente da República, pastor Armando, acaba de declarar que só a fé do povo pode trazer chuva, enquanto um rali é realizado no deserto da Amazônia e um grupo de guerrilheiros explode o braço do Cristo Redentor, exigindo água para todos.
Ouvi algumas vezes que o roteiro do filme seria criativo. Discordo. Infelizmente, ele tem muito mais a ver com pesquisa e capacidade dedutiva do que com criatividade.
Na outra ponta do filme - lá no começo -, ouvimos um pajé conversando com um guerreiro tupinambá na aldeia deles, em frente ao Pão de Açúcar, numa noite de lua cheia. Eles acabam de presenciar a chegada de franceses que se instalaram onde é hoje a ilha do Governador. Os recém-chegados estão propondo ao cacique trocar anzóis por peixes e machados por toras de pau brasil. Ouvimos o pajé dizer: "Essas trocas não nos interessam. Você tem que deter o cacique. Ou esta terra será dominada por Anhangá, o deus das trevas. Florestas vão desaparecer. As águas vão ficar podres e infectadas com o veneno da serpente. Animais e homens vão morrer de sede". O guerreiro tupinambá ouve achando que há certa dose de exagero. Imagina, florestas desaparecerem, água ficar envenenada...
Entre as duas pontas do filme, estamos nós. Eu e você. Hoje. Guerreiros, sem saber. Presenciando nosso próprio definhamento sem nos darmos conta porque desaprendemos a ouvir as vozes do passado. E como diz o jornalista João Cândido, "viver sem conhecer o passado é andar no escuro". Se estivéssemos um pouco mais atentos, minimamente de olhos abertos, deveríamos estar comprometidos até o último fio de cabelo com as campanhas de desmatamento zero e os projetos de recuperação de mata ciliar, áreas de nascentes e recursos hídricos.
Não vi os fazendeiros da soja, cana ou gado refletindo sobre esse problema, que vai arruinar o negócio deles quando o oceano de nuvens que desce da Amazônia parar de dar as caras. Tampouco vi "black bloc" empunhando cartaz sobre o tema.
Mas li neste jornal que quase 150 municípios do Estado estão fazendo racionamento de água e os mananciais estão com níveis perigosamente baixos. Um taxista, essa espécie de pajé que nos cabe, me disse outro dia, de modo lacônico: "Nesse inverno, o pessoal vai se estapear por causa de água". Ai, ai, ai.
A palavra córrego numa aldeia kraó que visitei designava um pequeno braço de água cristalina que corre sobre um chão de areia branca e quente entre árvores frondosas, onde todos tomam banho na hora do pôr do sol, contando piadas sobre as coisas que aconteceram durante o dia. O que a palavra córrego designa em São Paulo, Rio, Recife ou qualquer outra cidade do país?
Como é possível que a civilização engendrada pelo pensamento científico possa ter desaguado numa ignorância tão assombrosa, enquanto a outra, que preferiu se resguardar no pensamento mítico, conseguiu produzir fartura de proteínas, carboidratos e exuberância metafísica?
Se optamos pela ciência, não deveríamos ao menos fazer uso dela? Cientistas afirmam aos quatro ventos que o regime de chuvas na América do Sul depende do oceano de nuvens que se forma sobre a Amazônia. Não seria prudente para a sobrevivência da nossa espécie adotarmos imediatamente uma política de desmatamento zero? Ou vamos permitir que essa tragédia anunciada seja o futuro dos nossos filhos?