Mostrando postagens com marcador sociedade do espetáculo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador sociedade do espetáculo. Mostrar todas as postagens

domingo, 3 de outubro de 2010

WikiLeaks




A organização de denúncias WikiLeaks, que divulgou relatos da guerra do Afeganistão esta semana, transformou a publicação de segredos do governo em sua missão. Muitos veem seu fundador Julian Assange como um herói, mas outros, incluindo o Pentágono, consideram-no uma ameaça à segurança nacional.
Ele entra rapidamente, quase num salto. Antes de cumprimentar qualquer pessoa na sala, procura uma tomada para seu pequeno computador preto.
É um notebook simples e barato, mas as agências de inteligência do mundo pagariam muito dinheiro para terem a chance de ver o que há lá dentro.
O nome dele é Julian Assange. Ele acabou de voltar de Estocolmo, depois de uma breve estadia em Bruxelas. Antes disso, ficou fora do radar por algumas semanas.
Assange é praticamente um homem procurado hoje em dia. É quase como se ele estivesse em fuga.
Cinco agentes do Departamento de Segurança Interna dos EUA tentaram visitá-lo há duas semanas, pouco antes de uma conferência em Nova York da qual ele deveria participar. Mas seus esforços foram em vão. Assange decidiu ficar na Inglaterra depois que seu advogado disse que várias outras agências do governo também estavam muito interessadas em falar com ele. O secretário de Defesa Robert Gates recentemente caracterizou Assange e seu trabalho como “irresponsáveis”.

Fórum para denúncias anônimas


Assange é o criador da plataforma wikileaks.org na internet. Junto com um punhado de funcionários em tempo integral e muitos voluntários, ele opera o site desde 2007. O WikilLeaks reúne e publica material que empresas e agências do governo classificaram como secreto. O site funciona como um fórum para informantes e publica apenas documentos originais – em outras palavras, nada de rumores nem material escrito pela equipe do WikiLeaks.

No passado, o WikiLekas já publicou e-mails escritos pela ex-candidata à vice-presidência dos EUA Sarah Palin, relatórios sobre as atividades corruptas do ex-líder queniano Daniel Arap Moi e documentos secretos do campo de detenção norte-americano na Baía de Guantánamo. Nessa época, o site era visitado principalmente por pessoas da área, mas ganhou atenção internacional em abril, quando Assange convidou um grupo de jornalistas ao Clube Nacional de Imprensa em Washington para assistir a um vídeo.

O filme mostrou o ataque fatal, em 2007, de um helicóptero Apache norte-americano contra um grupo de cerca de doze civis em Bagdá, dois deles funcionários da agência de notícias Reuters. As vozes da tripulação do helicóptero também eram audíveis, seus comentários cínicos acrescentavam horror às imagens do vídeo. Desde o incidente, a Reuters havia tentado, em vão, obter uma cópia do vídeo. Assange, entretanto, conseguiu uma. Foi seu maior furo jornalístico até hoje.





Uma ameaça à segurança nacional


Para alguns, Assange e seus colaboradoras são heróis lutando pela liberdade total de informação e contra qualquer forma de censura. Mas, para outros, eles são traidores.

Do ponto de vista das autoridades norte-americanas, o australiano é uma séria ameaça à segurança nacional – algo que o Pentágono até mesmo colocou em palavras. Já em 2008, os militares norte-americanos classificaram o WikiLeaks como um sério problema de segurança e discutiram qual era a melhor forma de combater o site. Esse documento também vazou para Assange – e foi publicado no wikileaks.org.

Desde então, alguns expressaram preocupações com sua segurança, e até mesmo com sua vida. Mas não está muito claro se o homem que agora estava ligando o seu computador em Londres é perigoso ou está em perigo. Ele certamente chama a atenção: um homem alto e magro com cabelo branco e uma pele que parece pálida demais para o verão – em parte porque passou as últimas semanas preparando seu novo projeto e quase não saiu ao ar livre durante o dia.

Numa sala do quinto andar do prédio que abriga os escritórios do “Guardian”, ele está dando ao jornal britânico, ao “New York Times” e à “Spiegel” uma prévia de um conjunto de mais de 90 mil relatórios individuais sobre a guerra no Afeganistão, a maior parte deles marcados como “secretos”.

“Brutalidade cotidiana”


A publicação desse arquivo, diz Assange, não só mudará a forma como o público vê a guerra, ela também “mudará a opinião de pessoas que ocupam posições influentes na política e na diplomacia”. De acordo com Assange, os documentos “revelam a brutalidade cotidiana e a sordidez da guerra” e “mudará nossa perspectiva não só sobre a guerra no Afeganistão, mas sobre todas as guerras modernas.”

O arquivo contém informações de inteligência, avaliações e muitos nomes, tanto de oficiais militares quanto de fontes. A publicação de documentos militares secretos de uma guerra, que nunca foram pensados para o público, levanta novas questões. Será que isso é jornalismo e está dentro do direito do público à informação? É um olhar legítimo por trás da máquina de propaganda de guerra? Ou é um ato de espionagem, e Assange e seus colaboradores são culpados por revelar segredos do governo? E eles estão no fim das contas prejudicando as tropas internacionais e os informantes afegãos que as ajudam?

Uma base de dados num pen drive


O WikiLeaks e sites como ele já mudaram a forma como governos e corporações lidam com informações delicadas.

Sempre existiram informantes, empregados de companhias ou agências do governo que deixam vazar informações confidenciais para a imprensa para chamar atenção para acontecimentos indesejáveis e corrupção, ou para expor abusos de poder. Mas uma base de dados tão extensa sobre a guerra, que cabe num único pen drive USB e portanto pode ser facilmente publicada na Internet, é um novo fenômeno.

Será que o WikiLeaks é o novo farol do esclarecimento? Ou o site representa uma ameaça às nações democráticas, porque permite que um ex-hacker e alguns colaboradores próximos decidam que peça de informação explosiva revelarão na sequência – sem dar à outra parte a chance de contar seu lado da história ou tomar medidas legais para impedir o vazamento? “Essas pessoas podem publicar o que bem entenderem e nunca são responsabilizadas por isso”, disse o secretário de Defesa Robert Gates, em resposta à divulgação do vídeo sobre o caso do helicóptero em 2007. Raras vezes um membro do governo dos EUA pareceu tão impotente.

O problema começa com o fato de que o WikiLeaks, até hoje, continua sendo muito mais uma ideia brilhante do que uma organização no sentido convencional. Ele não tem uma sede e nem mesmo um endereço, apenas uma caixa posta anônima na Universidade de Melbourne. Até agora Assange e um colega alemão, que se apresenta como Daniel Schmitt, são as duas únicas pessoas envolvidas com o WikiLeks que mostraram seus rostos em público. Do contrário, a operação consiste em pouco mais do que o próprio site, alguns endereços de e-mail e uma conta do Twitter que os organizadores usam para relações públicas. Os servidores, que estão distribuídos pelo mundo todo em lugares com leis que fornecem proteção extensiva a informantes, são o cerne da operação. Doações cobrem os custos anuais de cerca de US$ 258 mil, e Assange e Schmitt nem mesmo recebem um salário.

Altamente inteligente


Na reunião em Londres, logo ficou claro a forma como o WikiLeaks depende dos ativistas – e, em grande parte, do pequeno laptop preto de Assange. Também ficou claro que os adversários de Assange têm nesse homem confiante e altamente inteligente de 39 anos de idade um oponente a ser levado a sério.

Assange trabalha obsessivamente na base de dados com a qual o WikiLeaks pretende tornar a guerra no Afeganistão mais tangível. Ele usa uma combinação estranha de jaqueta amassada, camiseta, calças cargueiras e tênis gastos. Ele não fez a barba e tem a aparência de quem não dorme há duas noites. Pessoas bem intencionadas e próximas dizem que ele precisa urgentemente de algumas semanas de férias.

Assange discorda. Seus dedos voam pelo teclado, e vez ou outra ele para e diz alguma coisa. “Precisamos de uma função que relacione os incidentes de acordo com sua importância relativa”, diz ele em sua voz profunda e sonora. Não demora muito e ele instala um filtro que permite aos usuários do site buscarem os milhares de incidentes individuais de acordo com sua “importância”. Assagne escolheu o número de mortes de civis como principal critério. Também é possível buscar por data e região na base de dados, e todos os incidentes estão ligados a um mapa que mostra exatamente em que lugar do Afeganistão aconteceram. É a guerra na forma de uma apresentação multimídia.

“Rá”, diz ele de repente. “Inacreditável”. Ele descobriu outro exemplo grotesco do jargão que os militares usam para descrever a realidade no campo de batalha. O termo é: “ausência de sinais vitais” - em outras palavras, morto. A linguagem da guerra o fascina, o que explica porque o WikiLeaks chamou o vídeo de Bagdá de “Collateral Murder” [“Assassinato Colateral”]. Sua intenção ao escolher o título, diz Assange, era expor o termo cínico “collateral damage” [“dano colateral”] e tornar impossível seu uso.

“Nosso critério é claro como água”


Quando Assange fala sobre esse projeto – ao longo do jantar, por exemplo, durante o qual o australiano pediu apenas duas bolas de sorvete de cardamomo – ele tem a intenção de passar a ideia de que o WikiLeaks é um projeto radical, cuidadosamente concebido. Assange toma bastante tempo para refletir antes de responder às perguntas, e insiste em dar a resposta completa. Ele não gosta de ser interrompido.

Assange diz que teve a ideia básica nos anos 90, e em 1999 reservou o domínio leaks.org. Para Assange, a regra fundamental nas sociedades abertas deve ser a de que todos sejam capazes de se comunicar abertamente sobre tudo. A experiência, diz ele, mostra que onde quer que existam segredos, costuma haver irregularidades, porque pessoas em posição de poder tendem a usar segredos em sua vantagem.

Se esta visão estiver correta, algumas pessoas poderosas no mundo provavelmente deveriam ficar muito preocupadas, porque o WikiLeaks tem supostamente muito material ainda não publicado. Quem decide o que é publicado, e quando?

A fonte, diz Assange. Sempre que recebe uma denúncia anônima, o WikiLeaks pergunta ao informante se ele ou ela acreditam que o material tem relevância política ou moral. “Nosso critério é claro como água, e se ele é atendido, nós publicamos”, diz Assange.

Quem é “nós”? “No final, alguém precisa estar no comando, e essa pessoa sou eu”, diz Assange. “E quando fico em dúvida, sempre publico.”

Vivendo como um nômade


É uma posição notável para uma organização que não divulga nem mesmo os nomes dos cinco funcionários que supostamente emprega – e para um homem que tenta evitar questões sobre sua própria vida. Alguns fatos básicos, de qualquer forma, parecem claros.

Assange nasceu em 1971 numa família de artistas em Queensland, Austrália. Seus pais eventualmente se separaram. Sua mãe se casou novamente, mas o relacionamento também fracassou. Foi tão desastroso, que a mãe o pegou e fugiu do segundo marido, chegando até a viver com um nome falso por algum tempo.

Já nesta época ele já tinha uma vida de nômade, e teria frequentado quase 40 escolas diferentes.

Nos anos 80, a Idade da Pedra da internet, quando o computador pessoal era um Commodore 64 e os modems eram conhecidos como “conectores acústicos”, Assange desenvolveu uma paixão por computadores e redes. Mais tarde ele ganhou renome na comunidade de hackers de Melbourne, depois de entrar em redes corporativas e do governo, incluindo computadores militares dos EUA.

“Era Deus Todo Poderoso andando por aí fazendo o que gostava”, disse um promotor público alguns anos depois. O grupo de hackers ao qual Assange pertencia monitorava até a investigação da polícia federal sobre eles mesmos online. Assange foi eventualmente multado e condenado a um período de liberdade condicional. Uma reportagem de televisão sobre o caso mostra Assange de casaco e óculos escuros, com seus cabelos longos e castanhos presos num rabo de cavalo. O grupo de hackers se autointitulava “Subversivos Internacionais”.

Assange já tinha um filho pequeno quando foi condenado. Ele também era novo quando se tornou pai, e logo se envolveu numa complicada e amarga batalha pela custódia da criança, que durou vários anos – e levou a novos desentendimentos com agências do governo.

Uma tentativa de se vingar?


Será que o WikiLeaks é simplesmente a forma que um hacker magoado e gênio não reconhecido da computação encontrou para se vingar? Por causa de sua história pessoal, será que Assange quando Assange fala sobre o “inimigo” ele não está de fato falando sobre o governo?

É esse tipo de pergunta que os jornalistas costumam fazer a Assange. Ele os odeia com a mesma intensidade com a qual despreza o carimbo de “secreto” nos documentos oficiais. Para ele, o WikiLeaks também é um projeto para transformar a mídia tradicional. Ele quer que os usuários formem suas próprias opiniões com base nos documentos originais, sem nenhum viés jornalístico. Mas com o vídeo “Assassinato Colateral”, o WikiLeaks violou seus próprios princípios por acrescentar um título editorializado, pelo qual Assange recebeu algumas críticas.

O problema, diz o australiano, surge na cabeça do repórter. Ele prefere revistas científicas, com suas notas de rodapé e listas de referências. Embora descreva a si mesmo como um jornalista investigativo, seu trabalho é na verdade mais parecido com o de um arquivista e bibliotecário. Não é nenhuma acidente o fato de ele ter registrado o WikiLeaks como uma biblioteca na Austrália.

Assange e seus colegas podem estar muito satisfeitos com o andamento do WikiLeaks no momento. Há alguns dias, o australiano deu uma palestra para jornalistas investigativos em Londres, enquanto seu colaborador alemão Daniel Schmitt falava em Hamburgo – ambos foram aplaudidos com entusiasmo. Eles receberam o prêmio de mídia da Anistia Internacional no ano passado.

Sob tensão


Mas o projeto está sob tensão desde 29 de maio. Nesse dia, Bradley Manning, soldado norte-americano de 22 anos, foi preso na Base Operacional Hammer no Iraque e levado a uma prisão militar no Campo Arifjan no Kuwait.

Os militares norte-americanos tornaram públicas as acusações contra Manning, um ex-analista militar. Eles alegam que entre 19 de novembro de 2009 e a primavera deste ano, ele baixou o vídeo de Bagdá publicado pela WikiLeaks, assim como 150 mil mensagens diplomáticas secretas do Departamento de Estado norte-americano e uma apresentação secreta em PowerPoint.

Os militares acusam Manning de ter passado o vídeo e 50 relatórios para uma “pessoa que não estava autorizada a recebê-los”. De acordo com um porta-voz do Exército dos EUA, se for condenado, Manning poderá receber até 52 anos de prisão.

Parece que Manning acabou se entregando sem querer. Em 21 de maio, ele teria começado uma série de conversas pela internet com um hacker norte-americano chamado Adrian Lamo. A revista norte-americana “Wired” publicou trechos das conversas.

Dublando Lady Gaga em silêncio


Um dos lados da conversa, que as autoridades norte-americanas acreditam que seja Manning, abriu o coração para Lamo, um completo estranho para ele até então. Ele descreveu como era capaz de acessar as redes secretas SIPRNET e JWICS através de dois computadores, e que também encontrou material desprotegido num computador da Central de Comando norte-americana (CENTCOM). “Não acredito que estou confessando isso a você”, disse ele.

Nas conversas, ele até revelou como teria retirado o material de seu local de trabalho. Ele disse que colocou CDs virgens em seus computadores de trabalho no Iraque, CDs que ele havia intitulado antes de “Lady Gaga”, para criar a impressão de que ele estava levando CDs de música para casa. De acordo com as conversas, Manning disse que “ouvia e dublava em silêncio a música 'Telephone' de Lady Gaga enquanto filtrava o que talvez fosse o maior vazamento de dados da história norte-americana.”

Ele fez várias referências ao WikiLeaks e a Assange, com quem dizia estar em contato. E também sugeriu que estava motivado por uma profunda insatisfação com a situação local e os militares norte-americanos.

Lamo informou o FBI e entregou o registro de suas conversas. Em entrevistas para a mídia norte-americana, ele tentou justificar suas ações dizendo que temia que a segurança nacional estivesse ameaçada. Manning foi preso pouco tempo depois.

Entregando os informantes


O caso de Manning se transformou numa situação delicada para o WikiLeaks e Assange. Ela lembra misteriosamente um cenário montado para prejudicar o WikiLeaks que os militares norte-americanos criaram num documento secreto em 2008. De acordo com esse cenário, a identificação bem sucedida, o julgamento e a revelação de indivíduos que passam informações para o WikiLeaks prejudicariam e possivelmente até destruiriam o site, e impediriam que outros tivessem atitudes semelhantes.

Como o fundador do WikiLeaks se sente com a suposta autoincriminação do soldado norte-americano?

“Se acreditarmos na alegação, Manning foi traído por um jornalista e hacker norte-americano que não tem nada a ver com o WikiLeaks”, diz Assange. “Não podemos salvar as pessoas delas mesmas, infelizmente.”

Não temos a mínima ideia se Manning era nossa fonte”


Manning pode também ter sido a fonte do material sobre o Afeganistão, como alguns observadores estão especulando agora? “Não temos a mínima ideia de quem era nossa fonte”, diz Assange. “Estruturamos nosso sistema de forma que não sabemos a identidade de nossas fontes.”

E por que o WikiLeaks quer dar assistência legal a Manning, se o site de fato instalou dispositivos técnicos de segurança para tornar impossível saber quem enviou o material?

“Temos que ajudar todas as nossas supostas fontes”, diz Assange. “Devemos lembrar que independente de Manning ser ou não a fonte do vídeo “Assassinato Colateral” ou de ele estar diretamente ou acidentalmente envolvido com qualquer material que publicamos, ele é um jovem que está preso no Kuwait por ter sido acusado de ser nossa fonte.”

Ficando na casa de apoiadores no mundo inteiro


Depois da prisão de Manning, Assange também desapareceu por algumas semanas, e seus advogados o aconselharam a não viajar para os Estados Unidos. “Um de nossos contatos informou que estavam considerando me acusar de conspirar para a espionagem”, diz ele.

Este é o motivo pelo qual ele se registrou num hotel em Londres com um nome falso e depois desapareceu rapidamente para ficar na casa de um de seus apoiadores, como aconteceu frequentemente nos últimos anos. Ele ficou em vários lugares em todo o mundo, do Quênia à Islândia, onde ele e uma equipe de voluntários preparavam-se para publicar o vídeo de Bagdá.

As precauções valem para todos em seu grupo. Quando Jacob Appelbaum, um conhecido programador da comunidade da internet, defendeu Assange numa convenção de hackers em Nova York há dois fins de semana, ele até mesmo contratou um dublê para se passar por ele depois de dar sua palestra. O próprio Appelbaum foi direto para o aeroporto, levando apenas seu passaporte, algum dinheiro e uma cópia da Constituição norte-americana, e tomou um voo para fora do país.


Cada vez mais cauteloso

Daniel Schmitt, o representante alemão do WikiLeaks que é, ao lado de Assange, a segunda voz mais importante do site, também se tornou mais cauteloso.

Durante um encontro com a “Spiegel” num café de Berlim, Schmitt olha ao seu redor para ver se não há ninguém ouvindo a conversa. Ele também diz que não quer que tirem fotos na sua presença.

A Alemanha é um dos locais mais importantes para o WikiLeaks, e serve como um dos pilares da organização relativamente dispersa. O WikiLeaks recebe muitas denúncias em alemão, recebe assistência técnica de pessoas associadas ao Clube de Computação Chaos, uma influente organização alemã de hackers, e os apoiadores alemães são responsáveis por uma grande parte das doações.

Schmitt, 32, é magro, usa barba e óculos. Ele estudou ciências da computação e trabalhou com segurança de TI antes de se dedicar totalmente ao WikiLeaks. Ele parece comum se comparado ao excêntrico Assange, que era conhecido por andar por Londres de meias e saltar e virar estrela de repente.

Só o começo

Uma fundação chamada “Amigos do WikiLeaks” deve ser lançada na Alemanha este ano. Schmitt está trabalhando num panfleto designado a encorajar as pessoas a revelarem informações, que ele quer que os voluntários entreguem em frente ao Reichstag, onde fica o parlamento alemão, e o Ministério da Defesa. Ele também considerou colocar anúncios no metrô.

Os dois homens, Assange e Schmitt, dizem que o WikiLeaks tem uma montanha de documentos não publicados à sua disposição – e que isso é só o começo.

“Se quisermos usar uma metáfora de alpinistas, estamos apenas no acampamento base”, diz Assange.

Então ele fecha seu pequeno laptop preto, guarda-o dentro de sua mochila de nylon cinza-grafite, e sai da sala.


Tradução: Eloise De Vylder




Fonte:

http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/derspiegel/2010/10/03/o-wikileaks-e-bencao-ou-maldicao-para-a-democracia.jhtm

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

terça-feira, 27 de maio de 2008

Os Media e a Questão da Identidade


(sobre as leituras pós-modernas do fim do sujeito)

Por: João Pissarra Esteves
Universidade Nova de Lisboa

No debate em torno da questão da identidade, a oposição substancialismo/construtivismo continua hoje a marcar presença como controvérsia central: uma querela cuja origem remonta pelos menos há dois séculos e que chega aos nossos dias sem ter encontrado qualquer solução ou conclusão definitiva.
O paradigma da noção substancial de identidade no pensamento moderno remonta ao cogito cartesiano: o Eu como essência e unidade, fixo, essencialmente inato e inalterável - uma concepção de fundo repetida e renovada em momentos tão importantes como o do sujeito transcendental (de Kant e Husserl) ou o da razão iluminista, e que chegou à actualidade através de teorias da identidade bem conhecidas, sustentadas por certas ideias de "feminismo", "negritude" e "sexualidade". De forma bem distinta, autores tão diferentes como Hume, Kirkegaard, Marx, Nietzsche ou Sartre consideram, pelo contrário, a identidade essencialmente como resultado de uma construção do próprio Eu: o sujeito enquanto projecto de cada indivíduo, criado ao longo da sua vida e desenvolvido pela acção, o "Eu com uma dimensão infinita" que permite a cada um escolher a sua própria identidade (cf. Taylor, 1989: 450).
No âmbito desta querela, nos últimos tempos, temos assistido a um certo ascendente desta última posição - construtivismo – a qual faz valer em seu favor a tendência actual que acentua de forma ainda mais marcante o elemento individualista: a identidade como trabalho de criação de uma individualidade própria e particular, um eu singular e único, com possibilidades de realização aparentemente ilimitadas. Entre os factores sociais que mais têm contribuído para esta tendência destacam-se o actual sistema de consumo e, em particular, os modernos dispositivos tecnológicos de mediação simbólica: ambos, ao longo deste último meio século, têm enfatizado até à exaustão uma certa ideia de identidade indissociável de marcas ostensivas de estilo, imagem e forma de apresentação do indivíduo - style and look.


I


Este território acabou por se constituir, como é conhecido, num domínio de eleição do chamado pensamento pós-moderno, retirando este, aliás, um dos seus traços mais característicos da rejeição massiva da noção racional e essencialista da identidade, à qual contrapõe a sua exultação construtivista do sujeito.
É esta concepção da identidade pós-moderna que me proponho aqui discutir mais em pormenor, questionando o seu discurso liso, redutor das ambivalências e dos paradoxos que atravessam o nosso quotidiano. Temos nesta forma de conceber a identidade uma exaltação apoteótica da individualidade que esquece o facto de ser a mesma sociedade que incita até à exaustão o sujeito (e a subjectividade) - compelindo cada um a ser e a fazer-se único, distinto de todos os demais - que, ao mesmo tempo, explora do modo mais despudorado os recursos da identidade: dirigindo-os, administrando-os e centralizando-os a partir do exterior do indivíduo, através do sistema de consumo, das indústrias da cultura e dos media em geral, que assim realizam uma "desinteriorização da esfera íntima" (Habermas, 1962: 167). Este paradoxo no movimento das identidades nos nossos dias é esquecido pelo discurso pós-modernista, tal como as consequências devastadoras daí resultantes para os próprios indivíduos: a ansiedade de nos vermos compelidos a escolher, a construir-nos a nós mesmos e a produzir sempre mais e mais novidade, com possibilidades aparentemente ilimitadas, mas depois depararmos na vida real com limitações drásticas, cristalizações e constrangimentos de vária ordem que impedem a mudança (a verdadeira escolha/construção da nossa identidade), que dificultam o nosso próprio reconhecimento e nos deixam perplexos com aquilo em que nos tornamos (sem a nossa vontade ou mesmo contra a nossa própria vontade).
A partir de uma base de reflexão reduzida e extremamente frágil, a teoria da pós-modernidade constrói uma espécie de grande narrativa a que podemos dar por título "o fim do sujeito". O fio condutor do seu enredo é a crítica à noção moderna de identidade - o eu como realidade profunda, substancial, coerente e dotada de força emancipatória - que logo toma a forma de uma refutação das próprias noções de sujeito e identidade, apresentadas como mito, ilusão, puras construções da linguagem e (ou) do poder 1 .
Versões particulares mas com variações mínimas desta narrativa surgem na "genealogia da alma moderna" de Foucault, no sujeito como resíduo, sem identidade fixa, radicalmente descentrado, errático e esquizóide de Deleuze e Guattari, no sujeito fractal de Baudrillard, no desconstrutivismo de Derrida, ou ainda em Jameson e Lipovetsky - para citar apenas alguns dos casos mais conhecidos.
Embora a maioria destes autores não tenha dispensado grande atenção aos media, a influência destes em termos culturais é hoje tão marcante que a sua presença não poderia deixar de se fazer sentir no seu pensamento (mesmo que, em geral, de uma forma apenas latente). Baudrillard é a principal excepção a este aparente esquecimento, quando atribui uma importância específica e determinante aos media na "queda do sujeito moderno" e, em última análise, na generalidade das grandes mudanças sociais e culturais da actualidade.


II


O interesse do pensamento pós-moderno pelos media centra-se na televisão e, em particular, num conjunto de novas propostas "estéticas" surgidas mais recentemente neste medium que vieram, de alguma forma, pôr em causa um certo padrão convencional aí instituído. O traço mais marcante desta novidade é a massiva e original utilização da imagem, em que as características realistas e estritamente representacionais desta desaparecem, de acordo com uma nova finalidade estratégica que visa claramente o descentramento da importância que antes cabia à narrativa. O grande paradigma desta "nova" televisão é a MTV, com o seu look and feel único: um novo estilo que, a partir desta estação, se vem impondo de forma determinante nos mais variados formatos televisivos, difundindo-se assim progressivamente pelas televisões em geral. Além da alta sofisticação tecnológica presente, sobressai aqui a marca de um "significante que se liberta e de uma imagem que adquire precedência sobre a narrativa, gerando-se imagens estéticas compactas e altamente artificiais que já não obedecem a uma normal diegesis televisiva, tornando-se centro de fascínio, de prazer sedutor, de uma experiência estética intensa mas fragmentária e transitória" (Kellner, 1995: 235 e 236).
A leitura pós-moderna destes novos sinais proclama um triunfo da superficialidade, do vazio e do efémero. Discutível, contudo, é a transformação que é operada destes sinais em imagem global da televisão e dos próprios media, assumindo então as características referidas uma validade que se pretende extensível aos próprios indivíduos em geral: seres sem profundidade, que pela acção dos media se tornam uniformes, vazios, sem significado nem qualquer tipo de relação com o passado (cf. Jameson, 1984: 60).
Tendo por pano de fundo o fim anunciado das grandes narrativas 2, instala-se a suspeita generalizada relativamente a qualquer tipo de procedimento hermenêutico: a partir de agora, nada se encontra ou esconde para além da superfície das formas, não existe qualquer profundidade ou multiplicidade de significados para a pesquisa crítica descobrir ou interpretar 3. Perante esta (imaginária) realidade simbólica saturada de significantes, o pensamento pós-moderno não só anuncia a obsolência dos significados em geral, como também o fim de qualquer referência substancial à identidade – qualquer outro sentido da identidade que se situe para além do puro jogo das formas encenado pelos indivíduos no "mundo media" 4. É como se, de um momento para o outro, como que por artes mágicas, os interesses, o sentido, a racionalidade e a ideologia que sempre impregnaram o nosso universo simbólico se dissipassem; não restando, assim, à teoria (e à análise em geral) já qualquer função crítica ou de esclarecimento, mas apenas a mera referenciação, o simples exercício do registo das formas simbólicas (na sua pura "facialidade", e num devir infinito e permanente) 5.
O magno problema que esta teoria coloca não está na caracterização que propõe de uma certa estética televisiva pós-moderna, saturante do universo simbólico, que nos deixa inertes e apáticos, rendidos à reprodução ao infinito das formas, siderados pelo jogo de espelhos que estas encenam e em que cada uma se replica infinitamente - imagens de imagens, de imagens, sucessivamente e sem qualquer outro referente que não sejam as imagens. O problema está sim na perda dos limites do seu próprio discurso, quando transforma esta tendência estilística na estética televisiva por excelência - una e única, e a televisão como dispositivo perfeitamente homogéneo e unidimensional. Tal como, do mesmo modo arbitrário, transforma o padrão de recepção correspondente a tal estilo particular num modelo geral, prefigurando assim a audiência televisiva como totalidade e, no limite, as próprias noções de sujeito e identidade: nómadas de imagens, aos quais está reservado esse destino fatal de uma experiência errática que se faz por saltos permanentes, de imagem em imagem (zapping e grazing), num fluxo contínuo, aleatório e já sem qualquer sentido.
Em síntese, o que me parece contestável neste diagnóstico não é a preocupação manifesta com um certo esvaziamento da identidade que está associado a certas formas mediáticas, sim que tais formas esgotem a "experiência dos media" e, mais ainda, que esta seja apresentada como totalidade do trabalho de constituição da identidade. Relativamente a esta, o que se perde de vista nesta vertigem teórica pós-moderna, com a sua poderosa e enebriante metaforologia, é o próprio registo mais convencional dos media, aquilo que neles existe (e ainda hoje continua a ser essencial) não de pós-moderno, nem sequer de moderno, mas pré-moderno: o trabalho da identidade desenvolvido pelos media que cumpre funções sociais básicas tradicionalmente consignadas ao mito - a reprodução cultural, a socialização e a integração social dos indivíduos. Estas funções são hoje em larga medida asseguradas pelos media, através da ampla oferta que estes proporcionam de modelos de pensamento e de acção, de quadros simbólicos difundidos e impostos socialmente por processos de imitação e formas ritualizadas.
Ao esquecerem esta realidade sociológica essencial, as teorias pós-modernas acabam por prestar um contributo duvidoso ao conhecimento, tornando mais opacos os dispositivos de imposição de uma dada ordem social, todo esse laborioso trabalho da ideologia levado a cabo pelos media e que tem como uma das suas componentes básicas, precisamente, a produção de modelos de identidade - "identidades" socialmente úteis, perfeitamente codificas e estereotipadas, que nos chegam através da publicidade, da moda, das diversas narrativas mediáticas e das próprias personagens dos media.

III


Os diferentes registos dos media, independentemente do seu estilo, continuam a ser dirigidos por uma lógica comercial inteiramente convencional e obedecem a uma estratégia precisa: a diferenciação dos públicos e a segmentação do mercado como processos mais eficazes de homogeneização global, com estritos fins de lucro.
Assim se compreende que hoje muitas marcas, empresas e até ditos autores/artistas dos media criem e ponham em circulação mensagens com padrões estéticos tão diferenciados ou até, à primeira vista, antagónicos. Nada há aí, habitualmente, de ruptura cultural (mesmo naquelas formas que se apresentam como mais ousadas, insólitas ou originais): apenas o aperfeiçoamento de uma determinante técnica de marketing que visa maximizar uma eficácia, a da rentabilidade dos produtos – sejam estes uma griffe (automóveis, electrodomésticos, vestuário, etc.), um sitcom, qualquer outro produto televisivo ou uma nova estrela do showbiz 6.
Deste modo, o esvaziamento da identidade que a cultura dos media hoje gera não pode revestir o sentido que os teóricos da pós-modernidade lhe dão: não é um colapso ideológico, uma total obliteração dos significados e o puro jogo dos significantes, estará sim relacionado esse esvaziamento com um esforço renovado de neutralização do indivíduo, com novas estratégias de aprisionamento, mais poderosas e sofisticadas, agora com codificações de identidade minuciosas, estabelecidas planificadamente e com objectivos estritos de obediência e subjugação. O nosso tempo não é o de aniquilamento da identidade, mas o da sua saturação: pseudo-identidades luxuriantes produzidas à margem do próprio indivíduo, com o fim de o domesticar, servindo a generalidade dos modelos em circulação (e as suas variações infinitas) como dispositivo de etiquetagem e de disciplinamento do corpo social.
Os media, enquanto dispositivos nucleares de socialização, de integração social e de reprodução cultural, desenvolvem um trabalho activo em torno das identidades, o qual no entanto é tudo menos linear. O pensamento pós-moderno sobreleva uma tendência regressiva dos media a este nível: as identidades como puros simulacros, criados e impostos pelas indústrias da cultura, já sem qualquer relação efectiva com os sujeitos propriamente ditos e o Mundo da Vida em geral 7; mas esquece uma outra orientação que persiste nos media, muito diferente da anterior, e em torno da qual o trabalho da identidade continua a fazer-se: um espaço simbólico de liberdade e de racionalidade que irrompe de forma fugaz, ao qual os indivíduos episodicamente têm acesso e lhes permite tomarem a sua própria autonomia em mãos - algo que acontece quando os media se abrem ao mundo, quando a vida no seu interior readquire espessura, sempre que, enfim, a visibilidade autêntica permite a cada um de nós reencontrar-se com a responsabilidade perante si mesmo e descobrir o outro.
O magnífico trabalho da moda ou da publicidade, as suas encenações flamejantes de modelos perfeitos de consumo, não pode confundir-se ou fazer esquecer outros registos de linguagem que circulam nos media e onde esta outra tendência continua a marcar presença (seja ao nível do discurso jornalístico, seja nas narrativas de ficção). Vários exemplos actuais deste trabalho dos media ao nível das políticas de identidade podem ser referidos: identidades étnicas, religiosas, regionais, culturais, sexuais, etc., que se dão a ver plenas de tensões e de conflitos, e cuja visibilidade é indissociável das múltiplas possibilidades de discursivização que os media oferecem - a questão HIV/Sida, o caso Salman Rushdie e o islamismo, a invasão de Timor e a causa maubére, Barrancos e os touros de morte, a imigração na Europa e as questões raciais, e tantos outros. Exemplos que, à luz de qualquer análise mais cuidada dos media, evidenciam o excesso e a precipitação do pensamento pós-moderno quando proclama peremptoriamente o fim do sujeito, a dissolução da identidade e a hiperrealidade dos media.
Mesmo ao nível das experiências dos media hoje em dia mais marcantes e afins à tese pós-modernista, desenvolvidas no universo dos computadores e das redes informáticas, com a utilização dos MUDs e do IRC, onde cada um pode assumir personalidades alternativas múltiplas; mesmo aqui, como refere Sherry Turkle, estas novas formas de experiência da identidade (um "eu saturado" e um "eu fragmentado") não induzem necessariamente a dissolução do Eu ou qualquer situação patológica generalizada: a partir delas podemos ainda imaginar a possibilidade de construção de um eu fragmentado mas flexível, múltiplo mas integrado, "um eu multiforme saudável que é capaz de sofrer transformações fluidas, mas assente na coerência e numa perspectiva moral" (Turkle, 1995: 386).
A importância crescente que a cultura dos media, nas suas diferentes expressões, vem assumindo faz da identidade, nos nossos dias, uma questão controversa e de futuro incerto, mas não uma história terminada. Está nela presente, na verdade, uma tendência desubstancializadora que, no limite, pode conduzir à total dissolução da identidade - caso esta se reduza a mera estilização e aparência 8. Mas outras hipóteses continuam a manter-se em aberto. A própria "desubstancialização" pode proporcionar novas possibilidades de realização da identidade: um impulso radical de liberdade que permite e cada um refazer, em cada momento, a sua própria existência, de forma mais favorável para si mesmo, contra as coacções e os constrangimentos sociais da mais diversa ordem que o limitam na sua realização.
O perigo real que esta tendência desubstancializadora encerra não autoriza que a transformemos assim numa espécie de destino fatal, como o discurso pós-moderno mais eufórico pretende. E para contrariar esta tentação bastará uma análise mais cuidadosa da totalidade do processo da identidade nos nossos dias, onde os media têm um papel determinante mas que não esgota as fontes de sentido do mundo da vida social, nem a relação com os media resulta inevitável e invariavelmente em absoluta "ficcionalização da realidade que torna os indivíduos atomizados meros imitadores de estilos de vida prefabricados pelos media" (Honneth, 1991: 223).


IV


O problema do fim do sujeito que a teoria da pós-modernidade hoje coloca retoma uma crítica mais antiga à noção de sujeito que tomou forma no interior do próprio pensamento moderno: o sujeito como autonomia individual, concebido em termos kantianos.
À psicanálise freudiana deve-se a demonstração convincente da ilusão que consiste a ideia de uma absoluta transparência das necessidades do indivíduo 9; ao mesmo tempo que a partir da filosofia da linguagem do segundo Wittgenstein, o outro pressuposto fundamental da noção tradicional de autonomia - a intencionalidade do sentido da acção (comportamental e linguística) - foi também posto em causa 10. Assim, convergentemente mas a partir de ângulos distintos, estas duas críticas puseram em evidência o poder de certas forças estranhas ao sujeito que condicionam de modo determinante o seu desempenho; forças que o sujeito não controla inteiramente e das quais, em geral, nem sequer chega a tomar consciência, mas que nem por isso são de menor importância para a sua constituição.
Perante o poder destas críticas, como resiste a ideia de sujeito? De que forma se poderá continuar a sustentar a noção de identidade?
A questão que daqui decorre é, pois, inequivocamente, a da necessidade de reconstituir a própria forma de conceber a identidade; e adjacente a esta, a do papel específico que pode caber aos media neste trabalho reconstitutivo.
Entre a persistência numa visão puramente idealizada do sujeito e o puro e simples abandono da ideia de autonomia, creio que é possível descortinar outro caminho para a identidade nos nossos dias: a identidade que persiste numa ideia normativa de autonomia, mas que não esquece determinados limites estruturais próprios desta, a identidade ainda constituída na base da liberdade e auto-determinação do indivíduo, sendo estas porém compreendidas "não em oposição às forças contingentes que iludem o controlo individual, mas como uma forma particular de organização destas mesmas forças"(Honneth, 1993: 263). Vejo a possibilidade de trilhar este caminho a partir de um modelo intersubjectivo de identidade: uma concepção segundo a qual o sujeito individual só adquire consciência de si quando ele próprio se coloca numa perspectiva exterior a si mesmo, no lugar do outro simbolicamente representado, isto é, quando se vê como participante de uma interacção social e de uma situação comunicacional, e assume sobre si próprio o ponto de vista dos outros interlocutores. Um "Me", na designação de G. H. Mead, que se forma ao longo de um complexo processo de relações tensionais com o "I" – a fonte dos elementos impulsivos e mais criativos da nossa conduta, mas que para a sua validação requerem um reconhecimento por parte de uma comunidade de comunicação alargada, que é tornada operacional precisamente pelo "Me" (cf. Mead, 1934: 202-205).
O reconhecimento é o mecanismo por excelência da intersubjectividade. E se convencionalmente o seu âmbito se restringe à interacção social, ou seja, à comunidade concreta dos encontros sociais, hoje em dia, uma outra fonte essencial da experiência veio juntar-se-lhe: a de um universo de comunicação virtualmente ilimitado que se tornou acessível graças aos modernos dispositivos tecnológicos de mediação, ou seja, uma cultura dos media que se transformou no palco privilegiado das lutas simbólicas pelo reconhecimento.
Este modelo da identidade permite integrar as forças que escapam ao controlo consciente do indivíduo: as energias pulsionais e as estruturas linguísticas em lugar de se erguerem como obstáculos intransponíveis da identidade, adquirem antes o estatuto de condições constituintes da própria identidade. Só que esta perspectiva não é compatível com a noção clássica de autonomia: a autonomia só poderá continuar a afirmar-se como base normativa do processo de individuação se ela própria for objecto de um profundo descentramento
Descentramento ao nível das necessidades do indivíduo, de forma que a autonomia seja conferida não por uma ilusória transparência dessas necessidades, mas pela capacidade de o indivíduo proceder à sua discursivização, isto é, através da sua competência em processar linguisticamente o inconsciente. Descentramento ao nível da relação que o indivíduo estabelece com a sua própria vida enquanto totalidade, para a qual a figura da narrativa coerente responde de modo mais adequado que o paradigma tradicional da biografia perfeitamente consistente, organizada, orientada por um único fim e obedecendo a uma relação de sentido uniforme e permanente 11. E descentramento da autonomia, por fim, ao nível da sua dimensão moral, onde se exige que à aplicação dos princípios se associe uma profunda sensibilidade prática às circunstâncias concretas de cada situação, às condições sociais e aos interlocutores específicos de cada caso particular.
A autonomia descentrada em todas estas dimensões define a imagem de um sujeito capaz de "dispor criativamente das suas necessidades, de apresentar a sua própria vida de uma forma eticamente reflectida e de proceder à aplicação das normas universais de modo adequado ao contexto" (Honneth, 1993: 271). A sua constituição depende do desenvolvimento de um conjunto de capacidades específicas por parte do sujeito, adquiridas num contexto comunicacional de existência, ou seja, a autonomia própria da identidade é indissociável da experiência social de reconhecimento do indivíduo (por parte dos outros significantes para si).
É neste trabalho da identidade – a experiência de reconhecimento realizada em contexto comunicacional – que os media marcam a sua presença. O âmbito da sua intervenção, como já referi, é muito variável, segundo as circunstâncias sociais da sua apropriação; umas vezes como energias vitais e genuínas da identidade, isto é, uma fonte de recursos simbólicos que proporciona aos indivíduos contextos de comunicação favoráveis à construção da sua própria identidade, livre e autónoma; outras vezes, de forma bem diferente, obedecendo a padrões dirigistas e impositivos. Duas posições limite a partir das quais a experiência concreta dos media pode ser pensada como a realização de um número ilimitado de situações intermédias.
Sobre os media recaem, em qualquer circunstância, as mais elevadas (e exigentes) expectativas em termos de processos de reconhecimento, através da apropriação quotidiana de que são objecto as suas mensagens e os seus diversos produtos. Os media são hoje um palco 12 principal onde tem lugar este tipo de conflitos simbólicos: a luta pelo reconhecimento, que assim se projecta em larga escala e serve às identidades como meio excepcional para a sua afirmação em termos muito amplos - para além de todos os limites imagináveis que o círculo dos contactos sociais convencionais poderiam proporcionar.

Bibliografia


ADORNO, Theodor e HORKHEIMER, Max (1947) Dialéctica de la Ilustración, Madrid, Ed. Trotta, 1994 (Dialektik der Auflärung – philosophische fragmente)


FOUCAULT, Michel (1969) O que é um autor?, Lisboa, Vega, 1992 ("Qu’est-ce qu’un auteur?")


GOMES, Wilson (1995) "Duas premissas para a compreensão da política espectáculo", Revista de Comunicação e Linguagens, nº.s 21-22, Lisboa, Cosmos


HABERMAS, Jürgen (1962) L’espace publique – archéologie de la publicité comme dimension constitutive de la société bourgeoise, Paris, Payot (Strukturwandel der öffentlichkeit)


HONNETH, Axel (1991) "Pluralization and recognition: on the self-misunderstanding of postmodern social theory", in The fragmented world of the social – essays in social and political philosophy, N. York, State University of N. York Press, 1995 (Charles W. Wright ed.) ("Pluralisierung uns anerkennung. Zum selbstmibverständnis postmoderner sozialtheorien")


HONNETH, Axel (1993) "Decentered autonomy: the subject after the fall", in The fragmented…, op. cit. ("Dezentrierte autonomie. Moralphilosophischen konsequenzen aus der subjektkritik")


JAMESOM, Frederic (1984) "Postmodernism, or the cultural logic of late capitalism", New Left Review, nº 146


KELLNER, Douglas (1995) Media culture – cultural studies, identity and politics between the modern and the postmodern, London, Routledge


KING, Anthony (1998) "A critique of Baudrillard’s hyperreality: towards a sociology of postmodernism", Philosophy & Social Criticism, vol.24 - nº.6, London


LYOTARD, Jean-François (1979) La condition postmodern, Paris, Minuit


MEAD, Georg Herbert (1934) Mind, self and society, Chicago, The University of Chcago Press, 1962


RICOEUR, Paul (1965) De l’interprétation – essai sur Freud, Paris, Ed. du Seuil


RICOEUR, Paul (1969) Le conflit des interprétations – essais d’herméneutique, Paris, Seuil


RODRIGUES, Adriano Duarte (1994) Comunicação e cultura – a experiência cultural na era da informação, Lisboa, Presença


TAYLOR, Charles (1989) Sources of the self – the making of the modern identity, Cambridge, Cambridge University Press


TAYLOR, Charles (1981) "The concept of a person", in Philosophical papers I: human agency and language, Cambridge, Cambridge University Press, 1985


THOMPSON, John B. (1990) Ideology and modern culture – critical social theory in the era of mass communication, Cambridge, Polity Press


TURKLE, Sherry (1995) A vida no ecrã, Lisboa, Relógio d’Água, 1997 (Life on the Screen)


Notas

1 A crítica da identidade moderna tinha sido já desenvolvida numa versão bastante radical pela Dialéctica Negativa da Escola de Frankfurt: o declínio do sujeito autónomo, livre e esclarecido (da cultura do individualismo) às mãos de uma pseudo-individualidade produzida como mero efeito das "inúmeras agências da produção em massa e da sua cultura, através das quais se inculcam no indivíduo as formas normativas de conduta, como as únicas naturais, decentes e razoáveis" (Adorno e Horkheimer, 1947: 82). Mas como esta referência teórica não é propriamente familiar nem a mais simpática aos olhos dos pós-modernistas, estes para afirmarem uma individualidade própria sentiram-se na necessidade de radicalizar a sua crítica aos próprios conceitos.


2 "Na sociedade e cultura contemporânea, sociedade pós-industrial, cultura pós-moderna (…) a grande narrativa perdeu a sua credibilidade, qualquer que seja o modo de unificação que lhe está consignado: narrativa especulativa [ciência], narrativa de emancipação [política]" (Lyotard, 1979: 63). Embora o autor refira que as "pesquisas de causalidade são sempre decepcionantes", o próprio não deixa de mencionar como factores cruciais que estão na origem desta crise, o "progresso das técnicas e das tecnologias" e a valorização que registou a "fruição individual de bens e serviços". Isto é, uma constelação de fenómenos sociais profundamente associados aos media, como sabemos.


3 Esta suspeição da hermenêutica é a completa inversão da "hermenêutica da suspeição", que se atém à polissemia das formas culturais e simbólicas em geral, que acrescenta à dúvida cartesiana sobre o objecto a dúvida sobre a própria consciência e, assim, assume funções de revelação ou esclarecimento: a "redução das ilusões e das mentiras da consciência", através de uma crítica "destruidora" que tem por alvo "a verdade como mentira" e de uma nova "arte de interpretar" que procura o horizonte da "palavra autêntica e de um novo reino da Verdade" (Ricoeur, 1965: 40-44).


4 Esse "novo mundo" da experiência que nos nossos dias se expande como fonte primeira de sociabilidade; ao mesmo tempo que as formas convencionais de mundo (o "mundo tangível" e o "mundo de longa duração") se contraem e acabam por ver confinadas a domínios restritos (periféricos e/ou muito especializados) da experiência simbólica dos indivíduos (cf. Gomes, 1995: 309-311).


5 Ao atingir-se este ponto, em que uma certa forma de pensamento já não é capaz de guardar qualquer distância em relação ao seu objecto (acabando mesmo por se deixar absorver por ele), deparamos com uma situação típica de ruptura das fronteiras entre "teoria da pós-modernidade" e "teoria pós-moderna" (cf. King, 1998: 47).


6 "Em vez da pós-modernidade constituir um corte com o capital e a economia política, como Baudrillard e outros sugerem, onde quer que se observe o fenómeno da cultura pós-moderna por detrás está presente a lógica do capital" (Kellner,1995: 257).


7 Esta percepção trai uma remota influência do pensamento crítico, mas de onde a intenção mais consequente foi já excluída: "O conceito de 'pós-moderno' resumido deste modo não representa mais que uma reverberação trivial do diagnóstico pessimista desenvolvido por Adorno e Horkheimer no capítulo 'Indústria da Cultura' da sua Dialética do Iluminismo [… o único contraste é que] as teorias sociais pós-modernas dão à combinação diagnosticada da erosão cultural e da perda da autenticidade individual uma interpretação positiva e mesmo afirmativa" (Honneth, 1991: 223-224).


8 "O carnaval pós-moderno" das identidades descartáveis e facilmente substituíveis (Kellner, 1995: 260) serve de um modo objectivo e ele próprio é montado por uma poderosa lógica de interesses que é hoje determinante nos media: os interesses da sociedade de consumo.


9 Embora Freud se apresente como o principal responsável por este importante contributo, antes dele e como primeiros grandes percursores deste conhecimento psicológico fundamental não podem ser esquecidos Nietzsche e os Românticos alemães (cf. Ricoeur, 1969: 234 e sg.s)


10 Saussure, com a Linguística Estrutural, veio a fornecer a sistematização mais consequente desta crítica, desenvolvendo assim, convergentemente com a psicanálise, uma outra linha de ataque à noção tradicional de sujeito (cf. Ricoeur, 1969: 242 e sg.s). Mais recentemente, outros autores apresentaram novas explorações originais dentro desta mesma linha crítica - Levi-Strauss e Foucault, por exemplo, este com a sua contundente refutação da noção de autor (cf. Foucault, 1969: 29-89).


11 Um sentido da vida enquanto totalidade que se torna objecto de uma construção por parte do próprio sujeito, através de um trabalho exploratório de "abertura a certas matérias significantes e já não como poder de planeamento" (Taylor, 1981: 105).


12 "Apropriação quotidiana dos produtos mass mediáticos" que torna perceptível uma outra dimensão do sentido destes mesmos produtos - uma dimensão essencial mas pouco conhecida e estudada, que transcende as operações convencionais (técnicas e mais ou menos intencionais) de construção e transmissão das mensagens (cf. Thompson, 1990: 313 e sgs.).

domingo, 13 de abril de 2008

Tudo que é sólido se desmancha em mil imagens espetaculares


Tudo que é sólido se desmancha em imagens espetaculares
Experiência intelectual do pensador francês Guy Debord revitalizou a discussão do marxismo ocidental
Vladimir Safatle (Estadão, domingo, 13 de abril de 2008)



Há 40 anos, enquanto revoltas explodiam pelos campi do mundo, um livro rapidamente se transformava em referência para a ala mais aguerrida do movimento estudantil francês. Tratava-se de A Sociedade do Espetáculo, de Guy Debord. Seu destino, assim como o destino geral das idéias de seu autor, aparece hoje como um dos legados mais sólidos de maio de 68, já que sua experiência intelectual contribuiu de forma decisiva para a maneira como compreendemos os desafios postos pelas sociedades capitalistas contemporâneas às nossas expectativas de emancipação.

Tal força vem do pensamento de Debord ter se colocado na confluência de duas experiências maiores do século 20: os desdobramentos das vanguardas modernistas e a tradição crítica forjada no interior do marxismo ocidental. Confluência evidenciada pela sua produção híbrida de teórico e cineasta.

Por um lado, fiel ao programa modernista de elevar a forma estética a setor avançado da crítica à inautenticidade da vida social, Debord desde cedo foi sensível à transformação da cultura em campo fundamental de batalha na sociedade capitalista. Foi tal espírito que o levou a fundar, juntamente com artistas vindos dos movimentos Cobra, letrismo e Bauhaus imagista, a Internacional Situacionista.

Por outro, Debord construiu, durante os anos 50 e 60, uma peculiar filiação ao marxismo ocidental do Georg Lukács de História e Consciência de Classe, com seus conceitos de crítica da reificação e de universalização da forma-mercadoria enquanto chave para a compreensão dos processos de racionalização social. Tal filiação foi responsável pela sua posição ímpar no interior do pensamento francês contemporâneo. Seu hegelianismo e sua insistência na noção de processo histórico o levara a criticar duramente o estruturalismo, corrente hegemônica na França de então. Já sua insistência em continuar operando com categorias aparentemente obsoletas como: consciência de classe, ideologia, reificação, negatividade e força revolucionária do proletariado o afastou da vaga pós-estruturalista que ganhou força após maio de 68, principalmente através de Deleuze e Foucault.


DA ECONOMIA À CULTURA

A influência do pensamento de Guy Debord não pode ser compreendida sem introduzir este que é seu conceito central: ''espetáculo''. Resultado do advento de uma era em que a produção econômica se submete à lógica que coloniza a cultura após o esgotamento da força diruptiva das vanguardas, a noção de espetáculo visa dar conta do núcleo das transformações contemporâneas nas técnicas de governo. Transformações que colocaram a produção do espetáculo no cerne dos dispositivos de colonização de nossas formas de vida.

Quando Debord fala em ''espetáculo'', ele tem em mente dois processos distintos porém convergentes. Primeiro, o espetáculo é ''uma relação social entre pessoas, mediada por imagens''. Neste ponto, o teórico francês compartilha esta tendência maior da modernidade em compreender o pensar por imagens como uma forma degradada de conhecimento.

A este respeito, lembremos como, principalmente a partir do século 19, a imagem será vista como a peça fundamental para a constituição de situações de alienação nas quais o potencial reflexivo ficaria bloqueado. Assim, por exemplo, no interior das relações de interação social, as massas alienadas teriam por característica maior deixar-se guiar por imagens. Psicólogos sociais do final do século 19, como Gabriel Tarde e Gustave Le Bon, não diziam outra coisa.

No interior deste pathos conservador há ao menos um pressuposto importante: entre algo e sua imagem, a relação pode ser de exclusão. A coisa não é necessariamente aquilo que se conforma à sua imagem. Por um lado, estar na imagem é necessariamente estar aprisionado ao olhar do Outro. Por outro, uma imagem congela, fixa, transforma o mundo em um conjunto de objetos submetidos à visibilidade integral do que só é por ter sua essência submetida ao modo do sujeito organizar o existente através da visão. Era nisto que pensava Bergson, com sua distinção entre imagem (domínio da estaticidade e da estereotipia) e duração (domínio da fluidez do que tem sua essência no tempo). Influência bergsoniana que aparece quando Debord fala do espetáculo como modo de passar do estado fluido ao estado coagulado, como ''organização social da paralisia do tempo''.

Mas a engenhosidade de Debord consistiu em vincular tal crítica da razão a uma crítica da economia política. Pois a segunda acepção de ''espetáculo'' consiste em afirmar que ele ''é o momento em que a mercadoria ocupou totalmente a vida social''. Derivação da idéia de Lukács segundo a qual a forma-mercadoria transformou-se na forma geral da objetividade. Afirmação que pode ser compreendida se nos perguntarmos o que acontece quando um objeto é visto imediatamente como mercadoria. Digamos que suas qualidades singulares serão abstraídas para que ele se transforme em algo cujo valor será expresso no que Marx chamava de equivalente-geral (o dinheiro). Assim, todas as diferenças podem ser submetidas à forma geral da identidade. Mas isto implica também que todo objeto será sempre separado de si mesmo. Enquanto mercadoria ele será apenas momento de um processo de auto-valorização do capital.

Debord precisou apenas lembrar como esta abstração mercantil que transforma as diferenças em forma modular do mesmo não é apenas um processo econômico. Ele tende a colonizar todas as formas das relações sociais, inclusive as relações a si mesmo. Um processo de abstração que, por sua vez, é idêntico à força que faz de todo objeto uma imagem de si, uma aparência de si mesmo desprovida de substância. Processo cujo nome próprio é ''espetáculo''. O nome da força que parece tragar inexoravelmente nossa forma de vida e colonizar nossas pulsões. O nome desta forma astuta de controle que, segundo Debord, é o cerne do que deve ser destruído para a força revolucionária da mudança enfim se impor.


Vladimir Safatle é prof. do Departamento de Filosofia da USP e autor de A Paixão do Negativo: Lacan e a Dialética (Unesp, 2006 )

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

A contemporaneidade como idade mídia



Antonio Albino Canelas Rubim


(Professor do Departamento de Comunicação da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia e pesquisador do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq).



(Fonte: Interface - Comunic, Saúde, Educ 7 - agosto, 2000 25)



Um dos desafios para pensar a comunicação na atualidade diz respeito à rigorosa compreensão do lugar ocupado pela comunicação, especialmente em sua versão midiática, no mundo contemporâneo.


O imprescindível tema da incidência da comunicação na sociabilidade e das modalidades de sua conexão com a contemporaneidade tem mobilizado um plural e dissonante núcleo de pensadores da atualidade, pertencentes ou não à área de estudos das teorias da comunicação.


Não parece ser mera coincidência a recorrência a expressões como: “Aldeia Global” (McLuhan, 1974), “Era da Informação” ou “Sociedade Rede” (Castells, 1992), “Sociedade Informática” (Schaff, 1991), “Sociedade da Informação” (Lyon, 1988; Kumar, 1997, dentre outros), “Sociedade Conquistada pela Comunicação” (Miège, 1989), “Sociedade da Comunicação” ou “Sociedade dos Mass Media” (Vattimo, 1991), “Sociedade da Informação ou da Comunicação” (Soares, 1996), “Capitalismo de Informação” (Jameson, 1991) e “Planetas mídias” (Moraes, 1998).


Todas estas denominações, entre muitas outras possíveis, têm sido insistentemente evocadas para dizer o contemporâneo. Para além das nomeações, o persistente trabalho de fazer e desfazer as articulações entre a atualidade, a situação presente do capitalismo, o mal-estar da modernidade e o ambiente comunicacional sistematicamente têm animado uma plêiade de autores, bastante díspares, sejam eles modernos, pós-modernos ou neomodernos; integrados ou críticos.


Apesar desta diversidade de concepções teóricas e ideológicas, um dado comum aparece como fundamental para a investigação e para este novo enquadramento dos estudos: a compreensão da contemporaneidade como uma sociedade estruturada e ambientada pela comunicação, como uma verdadeira “Idade Mídia”, em suas profundas ressonâncias sobre a sociabilidade contemporânea em seus diversos campos.


Uma sociabilidade estruturada e ambientada pelas mídias Uma primeira incursão acerca do caráter estruturante da comunicação pode ser tecida em uma interlocução crítica com o marxismo, pois este pensamento tem, em geral, insistido no lugar “supraestrutural” da comunicação, quase sempre assimilada nessa tradição de pensamento com noções como ideologia, aparelhos ideológicos, aparelhos ideológicos de Estado etc.


Esta inscrição “superestrutural” ainda que condicione o social, supõe sempre uma determinação, “em última instância”, da infraestrutura, conformada pela conjunção entre forças produtivas e relações de produção, em termos marxistas.
Cabe assinalar, sem pretensão de trilhar uma ordem lógica, algumas das interfaces que buscam articular na atualidade comunicação e infraestrutura econômica a partir de olhares teóricos diversificados, nem sempre compatíveis. Tais perspectivas, não necessariamente assumidas neste trabalho, demonstram em sua pluralidade um encaixe cada vez mais vigoroso entre mídias e economia.
A convergência entre comunicação, telecomunicações e informática aparece entre os setores econômicos mais dinâmicos do capitalismo na atualidade. A comunicação midiática e sua correlata cultura midiatizada tem sido lembrada por muitos autores como uma das indústrias capitalistas mais significativas e em maior expansão no mundo contemporâneo (Featherstone, 1997, e Dizard Jr., 1998, por exemplo). Passando da produção ao consumo, inúmeros estudiosos têm destacado a associação essencial das mídias com o desenvolvimento capitalista e sua difusão, forjando uma sociedade de consumo.

Jean Baudrillard



Jean Baudrillard (1991b), em seus primeiros e interessantes trabalhos, ao analisar a economia política do signo e a sociedade de consumo, desenvolve suas noções de valor signo e valor símbolo como novas figuras a serem incorporadas ao entendimento da reprodução do capitalismo avançado. A repercussão da comunicação e cultura midiatizadas pode ser apontada, em um sentido mais largo, como incidindo sobre o novo modo (capitalista) de vida ou ensejando os atualíssimos processos de globalização econômica, através de redes suportes dos fluxos das informações financeiras e dos capitais, fiadoras da velocidade e dos mercados planetarizados (Castells, 1992). Por fim, pode-se reter as mídias, pela publicidade, como viabilizadora da concorrência capitalista em sua modalidade atual. A lembrança desses momentos de interação entre capitalismo e comunicação, por óbvio, faz recordar apenas alguns tópicos possíveis, mas, sem dúvida, sugere a superação de uma concepção apenas “supraestrutural” da comunicação.
Deter e aprofundar a reflexão no último dos aspectos elencados pode ser elucidativo da virada imprescindível a ser efetuada pelos estudos que visam compreender hoje as relações não só entre comunicação e economia, como também, por extensão, entre comunicação e sociedade. Indispensável considerar a passagem de uma concorrência capitalista baseada em preços, que realizava a transformação do produto em mercadoria pela via apenas do mercado, para um novo padrão de concorrência predominante na fase monopolista do capitalismo, detectada por Baran e Swezzy (1974), na qual as marcas governam a concorrência, subsumindo aquela baseada nos preços. Tal transmutação, fundamental para a configuração de uma “obsolescência planejada”, de uma “sociedade de consumo” e do capitalismo tardio, introduz a comunicação, especialmente em sua modalidade publicitária, no cerne da dinâmica de reprodução do próprio capitalismo. Agora, em tempos neo-liberais de endeusamento do mercado, paradoxalmente torna-se impossível a metamorfose do produto em mercadoria somente recorrendo ao mercado, em sua acepção clássica de um capitalismo concorrencial. A publicidade e a marca – com seu poder como assinala Pinho (1996) – adquirem o status essencial de
viabilizadores desta metamorfose, componentes imanentes ao mercado no capitalismo tardio. Pode-se afirmar, sem medo de errar, que sem publicidade e marca portanto, sem comunicação, em situações normais de vida capitalista, um produto não pode ser transformado em mercadoria. Por conseqüência, a
realização do valor e a própria reprodução capitalista encontram-se comprometidas em um patamar comunicacional.
Aceitar essas análises, mesmo parcialmente, implica uma revisão radical do lugar atribuído à comunicação em sua inserção na sociedade. Ao invés da antiga localização “supraestrutural” – recorrente inclusive em autores não marxistas –, a comunicação e sua derivada cultura midiática passam a ocupar também um estatuto, para continuar em metáforas marxistas, de componente “infraestrutural”, porque imprescindível à realização e reprodução (inclusive econômica) do capitalismo.
Antes disto, Theodor Adorno e Max Horkheimer já tinham detectado a subsunção da produção da cultura a uma dinâmica de produção eminentemente capitalista, quando da formulação do conceito de indústria cultural. Este conceito, muitas vezes tão mal compreendido, em seu cerne, denuncia a preponderância da lógica da mercadoria (“indústria”) e a conseqüente subordinação a ela da lógica especificamente cultural, configurando assim uma produção (capitalista) de bens simbólicos. Isto é, aponta a expansão do capitalismo como modo de produção, agora não mais limitado a produzir bens materiais, como acontecia desde o século XVII, mas também incorporando setores cada vez mais significativos de bens simbólicos, desde o século XIX e, em especial, no século XX. Ainda que em meio a diversas peculiaridades, o capitalismo torna-se também o modo de produção de bens simbólicos.



Desse modo, mesmo nas fronteiras de uma análise marxista parece impossível não refocalizar atualmente a comunicação e assumi-la como estruturante de uma sociedade contemporânea organizada em moldes de capitalismo tardio. Aliás, Castells (1992), Jameson (1991) e outros autores consideram que se vive hoje uma terceira fase do capitalismo. Nela, a informação se transforma na mercadoria mais valiosa.
A noção de infraestrutura, abandonando seu significado marxista e sua metáfora dual, pode também assumir o sentido de base material da sociedade e, nesta acepção, ser igualmente reivindicada como pertinente às mídias. Para isto, basta conectar as mídias ao universo das redes. Já foi assimilado que elas dão o suporte imprescindível para o trânsito globalizado do capital, inclusive em sua forma mais veloz, volátil e voraz de capital financeiro. Indo adiante desta dimensão meramente financeira, pode-se propor uma presença mais abrangente das mídias, conformada como rede, como infraestrutura de comunicação que torna possível a nova circunstância societária, pois a articula e a molda como uma totalidade. Efetivamente, as redes aparecem como uma das mais significativas marcas da contemporaneidade. Só com a consumação do sonho espacial, com a possibilidade de satélites artificiais estacionários de telecomunicações nos anos sessenta, as redes, em seu desenho, substância e características atuais, se fazem viáveis. Televisão, na década de sessenta, e telemática, nos anos setenta, eis a idade das redes. Em A Natureza do Espaço, Santos (1996) nomeia três momentos diferenciados das redes: o pré-mecânico, o mecânico intermediário e o técnico-científico-informacional. Entretanto, para apreender a novidade das redes atuais, cabe distingui-las de suas analogias pretéritas. No passado, a malha ou circuito, por diferenciação à rede, pressupunha sempre território, materialidades (coisas, objetos etc.) e, por conseguinte, empecilhos. A rede, em sua singularidade contemporânea, deseja abolir os obstáculos, desterritorializando e desmaterializando. Sua fluidez, volatilidade e dinâmica não se ancoram em territórios. Sua quase imaterialidade e invisibilidade buscam
garantir velocidade e instantaneidade. A supressão do espaço e do tempo afirma-se como constitutiva das redes, sua novidade essencial.
Apesar de a palavra rede ter, conforme Parrochia (1993), origem latina (retiolus, diminutivo de retis), sendo retomada na França no século XII (reseau de résel), parece ser a contemporaneidade sua morada por excelência.

M. Castells

Castells (1996), em sua admirável trilogia - The Information Age: Economy, Society and Culture - fala de uma era de capitalismo de redes, da transformação qualitativa da experiência humana ocasionada pela sociedade rede e afirma que as redes constituem mesmo a “morfologia social de nossas sociedades”, afetando a economia, o poder, a cultura e a experiência na atualidade.
Relocalizada a comunicação midiática como um dos fatores estruturantes mais marcantes da sociabilidade contemporânea, um segundo movimento se anuncia como necessário: afirmar o caráter essencialmente expressivo desta infraestrutura, que produz de modo incessante sentidos, manifestos e publicizados. A onipresença tentacular desta infraestrutura de comunicação e sua imanente exposição por meio de permanente fabricação e mediação de sentidos pelas mídias constitui a singular ambiência da contemporaneidade. Cabe então, construir parâmetros que busquem elucidar a comunicação como ambiente, como tessitura onipresente que acolhe e envolve o ser e o estar no mundo na atualidade, como uma quase e segunda “natureza” que trança a sociabilidade contemporânea.
Porém, antes de propor parâmetros consistentes para pensar as mídias como ambiente da atualidade, cabe distinguir esta concepção daquela acepção aproximada utilizada por Lippmann (em seu lendário livro Public Opinion, editado em 1922).

Walter Lippmann


Lippmann define as representações emanadas da comunicação como sendo pseudo-ambientes que se interpunham entre o homem e seu ambiente (verdadeiro). Mais que essa constatação, interessava a Lippmann as repercussões da existência social do pseudo-ambiente, pois, conforme este autor, elas “operavam, não no pseudo-ambiente onde o comportamento é estimulado, mas no verdadeiro ambiente”. A idéia de ambiência aqui reivindicada não se restringe à esfera dos conteúdos ou mesmo das representações, nem pode ser compreendida como mero falseamento (de conteúdos e representações). Pelo contrário, afirma-se que a comunicação, enquanto ambiente efetivo, se apresenta como uma espécie de nova “camada geo-tecno-social”, necessária e sobreexposta, que se agrega às camadas – natural e sócio-cultural – do ambiente existente na sociabilidade precedente. Para definir a sociedade como estruturada e ambientada pela comunicação, podem ser enumerados, sem um ordenamento hierárquico, alguns requisitos, que, em situações dadas, devem servir como indicadores acerca da pertinência e da sintonia dessa nomeação a uma determinada sociedade. Tais variáveis devem ser consideradas, constatadas e mesmo mensuradas para tornar possível a caracterização de uma sociabilidade como Idade Mídia. As variáveis propostas podem ser sinteticamente enumeradas nos seguintes tópicos:

1. Expansão quantitativa da comunicação, principalmente em sua modalidade midiatizada, na sociedade estudada, facilmente constatada pelos dados sobre números dos meios disponíveis, tais como: quantidade das tiragens e audiências, dimensão de redes em operação etc.

2. Diversidade das novas modalidades de mídias presentes no espectro societário, observado na complexidade da “ecologia da comunicação”, nas modalidades diferenciadas de mídias existentes e na história recente de sua proliferação e diversificação.

3. Papel desempenhado pela comunicação midiatizada como modo (crescente e até majoritário) de experenciar e conhecer a vida, a realidade e o mundo, retido por meio de dispositivos e procedimentos, qualitativos e quantitativos, a exemplo do número de horas que os meios ocupam no cotidiano das pessoas.

4. Presença e abrangência das culturas midiáticas como circuito cultural, que organiza e difunde socialmente comportamentos, percepções, sentimentos, ideários, valores etc. Dominância e sobrepujamento da cultura midiatizada sobre os outros circuitos culturais existentes, a exemplo do escolar-universitário, do popular etc.

5. Ressonâncias sociais da comunicação midiatizada sobre a produção da significação (intelectiva) e da sensibilidade (afetiva), sociais e individuais.

6. Prevalência das mídias como esfera de publicização (hegemônica) na sociabilidade estudada, dentre os diferenciados “espaços públicos” socialmente existentes,articulados e concorrentes. Tal prevalência pode ser constatada pelos estudos acerca das modalidades de publicização e suas eficácias.

7. Mutações espaciais e temporais provocadas pelas redes midiáticas, na perspectiva de forjar uma vida planetária e em tempo real.

8. Crescimento vertiginoso dos setores voltados para a produção, circulação, difusão e consumo de bens simbólicos, além da ampliação (percentual) dos trabalhadores da informação e da produção simbólica no conjunto da população economicamente ativa.

Enfim, todas essas variáveis – e certamente outras possíveis de elaborar – operando em uma dinâmica certamente desigual e combinada, devem tornar precisa a delimitação rigorosa das fronteiras de uma nova circunstância societária, a sociedade estruturada e ambientada pelas mídias.
Mais que isto, o elenco de todas essas facetas, transtornadas pelas mídias, deve confirmar e permitir a mensuração e a gradação deste ambiente transbordante de comunicação, que tece e envolve o estar no mundo no espaço/tempo presente, além de apontar as possibilidades de aprofundamento em radicalidade dessa teia midiática no futuro próximo.

Idade mídia como sociabilidade complexa

As nomeações citadas, a sugestão do caráter e dos requisitos indicados buscam dar consistência e concretitude ao entendimento da contemporaneidade como uma sociedade estruturada e ambientada pelas mídias. Tal compreensão não dispensa, mas, pelo contrário, exige uma atenção para com suas marcas e constrangimentos capitalistas e, inclusive, iluministas, apesar da crise de muitos de seus valores e predições. A combinatória de todo esse conjunto complexo de marcas essenciais aparece como indispensável para desvelar a contemporaneidade.
A incidência da comunicação não apenas estrutura e ambienta nossa singular contemporaneidade. Ela afeta em profundidade a configuração da sociabilidade atual, pois ela se vê composta e perpassada por “marcas” fabricadas pelas mídias, tais como o espaço eletrônico, a televivência e globalização.
O espaço eletrônico, engendrado pela revolução das comunicações em rede, emerge como registro quase desmaterializado, como espaço sem território, mas que permite virtualizações e atualizações contínuas, conforme Pierre Lévy (1996).
A televivência, viabilizada pelas mídias, pode ser definida como uma vivência à distância, descolada do lugar e desprendida da presença; como capacidade de vivenciar um ausente, tornado (simbolicamente) presente, em tempo real, por meio de signos. A globalização, ensejada pela comunicação midiática, caracteriza-se pela cotidiana disponibilização de um fluxo de signos e sentidos provenientes de uma extração global e não apenas de um local contíguo, como anteriormente.
Mas tais traços midiáticos se realizam em uma determinada circunstância societária conformada já por outros estoques e fluxos, oriundos de outros momentos de sua história.
A conjunção destas “marcas” introduzidas pelas mídias e destes estoques e fluxos anteriormente disponíveis produz um entrelaçamento, que varia entre a complementação e o conflito, e singulariza a contemporaneidade.

M. Canevacci



Ela resulta assim em um sincretismo, para utilizar um termo reassumido por Canevacci (1996), potencial e sempre tenso, consubstanciado por, pelo menos, três constelações.
A primeira delas se refere ao entrelaçamento que se constata no dia a dia entre os espaços geográficos - que foram alargados pelas navegações marítimas e da revolução dos transportes e, simultaneamente, concentrados pela revitalização dos territórios urbanos acontecida na modernidade - e espaços eletrônicos, expandidos e atualizados pelas “navegações virtuais”.
Uma segunda constelação deriva da permeação cotidiana, da bricolage entre convivência, que pressupõe sempre presença e lugar, e televivência, uma vivência instantânea a distância, propiciada pelas mídias em rede.
Uma última e terceira constelação, dentre as muitas possíveis de observar: a hibridação, termo tomado de empréstimo a Canclini (1997), entre fluxos culturais – materiais ou simbólicos – oriundos do local, entendido com um lugar investido de uma plêiade de sentidos, e outros fluxos provenientes de registros globalizados.

Esta última convergência tem sido apreendida pela sugestiva e sempre tensa noção de glocalidade. O neologismo “glocalize” figura desde 1991 no Oxford Dictionnary of New Words.
O uso inicial da noção foi atribuído aos teóricos de administração japoneses que concebem estratégias para o mercado mundializado como simultaneamente local e global.
Canevacci (1996), em um horizonte mais cultural, imagina que “...a palavra nova, fruto de recíprocas contaminações entre o global e o local, foi forjada justamente na tentativa de captar a complexidade dos processos atuais”. Sua reflexão acerca do glocal,expressiva contração de global e local, retém linhas de força do contemporâneo.

Assumimos a hipótese de que, antes de incolor homologação, a fase atual desenvolve uma forte tensão, descentrada e conflitual entre globalização e localização: ou seja, entre processos de unificação cultural – um conjunto serial de fluxos universalizantes – e pressões antropofágicas ‘periféricas’ que descontextualizam, remastigam, regeneram. (Canevacci, 1996, p.23)

Tais convergências, sempre tensas cabe insistir, forjam esta peculiar circunstância social, denominada sociabilidade contemporânea. Ela implica, outrossim, redefinições espaciais e temporais relevantes, pois a atualidade se plasma como espaço planetário em tempo real. Esta nova realidade-mundo tem como pressupostos, além de sua macro-inscrição capitalista e iluminista, o desenvolvimento das redes midiáticas e também de dispositivos sóciotecnológicos, tais como a desmaterialização e a miniaturarização, dentre outros.
Todavia, para compreender a sociedade estruturada e ambientada pelas mídias em toda sua plenitude, inscrita em um novo patamar analítico, deve-se realizar não só um movimento horizontal que retenha as tensas combinatórias entre os pares espaço geográfico e eletrônico, convivência e televivência, local e global, mas igualmente um segundo movimento, agora vertical, que, ao agregar espaço geográfico, local, convivência, realidade contígua, em uma constelação, e espaço eletrônico, global, televivência e telerrealidade, em outra, desnude, de modo cristalino, as dimensões que compõem a atualidade e o caráter imanentemente complexo da sociabilidade contemporânea.

Paul Virillio



Paul Virilio (1993), para além de sua preocupação com as velocidades, percebeu de modo tênue este caráter compósito da atualidade, não sem introduzir uma gradação de real e realidade, por certo, complicada.

O desequilíbrio crescente entre a informação direta e a informação indireta, fruto do desenvolvimento de diversos meios de comunicação, tende a privilegiar indiscriminadamente toda informação midiatizada em detrimento da informação dos sentidos, fazendo com que o efeito de real pareça suplantar a realidade imediata. (Virilio, 1993, p.18)

As mídias, ao consumar um espaço eletrônico em rede, povoado de televivências em abrangência globalizante, em verdade, constróem uma outra e nova dimensão constitutiva da sociabilidade contemporânea, a qual se sugere denominar de telerrealidade, expressão empregada por Muniz Sodré (1990) no livro A máquina de Narciso. Tele para recordar sua inerente noção de distância e apontar a possibilidade do distante ser apreendido, transportado e transformado (simbolicamente) em acontecimento próximo, em algo que ganhe um sentido instantâneo e passe a compor o cotidiano como momento inerente à vivência contemporânea. Realidade para lembrar que esta dimensão de sociabilidade, configurada simbolicamente por imagens, palavras, sons, deve ter sempre afirmado seu estatuto de realidade. A exigência de incluir como real a representação da realidade deve permitir reconhecer, em conseqüência, que justamente na representação dessa realidade simbólica se define o real, nela se constróem as categorias que, realizando a divisão do real, permitem que se fale, veja, ouça, perceba etc. O conceito de telerrealidade deve servir, por conseguinte, para nomear uma nova e contemporânea dimensão de sociabilidade que se distingue e diferencia da realidade, tradicionalmente concebida como territorialidade (geográfica), localidade, proximidade, materialidade, presença e convivência. Telerrealidade aparece como nova formatação da realidade, possibilitada agora por espaços e tempos integrados em rede eletrônica e associada às noções de desterritorialização, globalidade, distância, espaço planetário, desmaterialização, não presencialidade, (tele)vivência e tempo real.
A telerrealidade funciona como uma nova camada “geológica” que se sobrepõe e contamina o espaço geográfico, pleno de natureza e cultura. Com a televisão aberta em rede surge a telerrealidade, mas sua existência ainda se caracteriza pela ocasionalidade. A televisão por assinatura e principalmente as novas tecnologias midiático-informacionais, dentre elas a Internet, consubstanciam a telerrealidade, dotando-a de permanência. A telerrealidade transforma-se em dimensão, pública e privada, inseparável da atualidade.
A singular sociabilidade contemporânea torna-se compósita porque se compõe ao estilo bricolage, entrelaçando, em conjunção tensa, essa camada suplementar, dimensão de origem midiática, que perpassa toda a tessitura societária e as camadas já assentadas da história da sociedade humana, um aglomerado díspare de práticas e instituições sociais forjadas pela modernidade, pelas tradições originárias de outras eras pré-modernas e, enfim, por toda a natureza humanizada.
A singularidade dessa nova circunstância societária vai incidir nas cruciais questões da realidade e da existência. Esta dupla composição “fragmenta” a realidade contemporânea em uma realidade contígua, (con)vivida no entorno por cada indivíduo, e uma realidade remota, porque não inscrita no mapa de proximidades, agora (tele)vivida planetariamente e em tempo real como telerrealidade. Em verdade, estas duas dimensões da realidade, analiticamente separadas, hoje entrelaçam-se de tal modo na vida cotidiana que são vivenciadas como realidade una e contemporânea.
O caráter composto da realidade na contemporaneidade possui ainda outra significativa conseqüência, muitas vezes não percebida: ele impõe o descolamento entre a existência e o existir publicamente. Hoje, a mera existência física já não assegura um existir social, expediente automático em uma sociabilidade de tipo comunitário, na qual a existência física e pública praticamente coincidem, pois a contigüidade do território, a exigência da presença e as dimensões possíveis ao mundo garantem o compartilhamento, o movimento de tornar comum coisas e pessoas, enfim a publicização. Nesta circunstância societária existir fisicamente significa, sem mais, ter existência pública.
A situação transforma-se radicalmente na atualidade. As novas características adquiridas pela realidade-mundo, em especial o caráter compósito da sociabilidade, rompem o imbricamento apresentado anteriormente e impõem novos requisitos para uma existência pública. O existir físico na realidade tangível torna-se condição necessária, mas não suficiente para garantir uma existência publicizada. Esta requer que ao existir físico seja agregada uma outra existência, agora vivida na telerrealidade.



Sem essa publicização possibilitada pela telerrealidade, a existência social não está garantida. A existência publicamente compartilhada passa a ser, ela mesma composta e problemática, verdadeiro campo de luta de poder. A postura assumida não tem, até aqui, nenhuma perspectiva normativa. Pelo contrário, tenta se ater a uma descrição das novas condições de sociabilidade.
Não se valoriza a telerrealidade, essa dimensão pública midiatizada, nem positivamente, por alguma capacidade imanente, seja ela libertadora, emancipadora, democratizante, instauradora de potencialidades humanas; nem negativamente, pelo depreciamento de suas possibilidades, pela atribuição de características de controle, repressão, regressão.
Ao buscar compreender a nova circunstância social, a posição aqui assumida afasta-se deliberadamente de posicionamentos predeterminados que destituem o novo de seu enigma, de sua abertura e indefinição inicial, de sua feição por tudo isso problemática. E que, ato contínuo, o prefiguram valorativamente, de modo positivo ou negativo, tanto faz. Não cabe aqui nem a esperança hoje tão celebrada em autores, admiradores e adeptos das potencialidades das novas tecnologias informacionais, a exemplo de Lyon (1988) e Pierre Lévy (1996) nem a rejeição prematura do novo horizonte, como acontece em pensadores, por vezes estimulantes, que desqualificam toda telerrealidade. Teoricamente próximos, a noção absorvedora de espetáculo e o conceito de simulacro, em Baudrillard (1991a), contrapõem com vigor e intransigência uma dimensão “real”- isto é, a realidade contígua pensada em termos modernos - a outra, telerrealidade, artefato artificializado, porque virtualização e atualização tecnomídias, que, por algum desígnio inexorável, corrompe a vida, expulsa do mundo do espetáculo ou da simulação. Referindo-se a esta última expressão, Landi (1992) percebeu com perspicácia: “A noção de simulacro é útil para entender nossa época, mas com a condição de que se livre do pressuposto da existência da não simulação, que sempre vem da mão do exercício do poder por parte daquele que crer possuir a verdade.” (Landi, 1992, p.121) Propõe-se como essencial - antes de valorações, negativas ou positivas, quase sempre apressadas e superficiais - buscar compreender teoricamente a complexidade da contemporaneidade, a singularidade do caráter compósito de sua sociabilidade e a significativa inscrição da comunicação, em especial em sua versão midiatizada, nesta peculiar circunstância societária estruturada e ambientada pelas mídias.

Comunicação e idade mídia

Nesta inscrição societária, a comunicação se ressignifica. A comunicação, que perpassa todos os poros sociais, abandona definições e fronteiras nas quais se via confinada, tais como: sua identificação como discurso, mensagem ou mais singelamente conteúdo; seu aprisionamento unilateral ao campo do significado, em detrimento da possibilidade mais complexa de produtora de sentidos, intelectivos e sensíveis; sua localização redutora na supraestrutura, com a decorrente assimilação à ideologia; sua contração a uma dimensão tecnológica ou técnica, e sua caracterização de mero instrumento, pelo entendimento de que seu ato de mediação, tomado por interesses próprios e regimes gramaticais específicos de funcionamento, garante uma possibilidade, formal ou real a depender de situações concretas de campos de força, de funcionar como “ator”, que ocupa um lugar de fala para dizer e fazer. Tal redefinição e demarcação das fronteiras de localização da comunicação, em sua versão midiatizada — desde algum tempo trabalhadas em suas teorias — é condição sine qua non para estudar rigorosamente sua configuração e ressonâncias na Idade Mídia. A sintonia com uma resignificação radical da comunicação e de sua conexão com a contemporaneidade não pode, de modo algum, deixar de tornar problemática esta relação e, pior, fazer retornar uma atribuição desmedida de poderes à comunicação midiática. Não se pactua com esta apressada e equivocada solução. Antes disto, pretende-se mapear as novas circunstâncias nas quais a composição entre comunicação e sociedade se realiza na atualidade. Ou seja, descritas as novas condições, caberá, com o campo de forças então conformado, analisar como se comportam as duas esferas sociais e como se efetua seu enlace. Da afirmação desta nova circunstância sócio-comunicacional, decerto não podem derivar, sem mais, posturas preconcebidas e fixadas acerca da predominância do poder da comunicação sobre outros campos sociais. A dinâmica dos deslocamentos de poder entre os campos da comunicação e as outras esferas sociais, antes de ser resolvida previamente, constitui-se em objeto privilegiado de investigação. Mais que isso, como premissa deste estudo descarta-se uma dominância unilateral e persistente de cada uma destas esferas. Afirma-se, pelo contrário, a disputa e alternância de predomínios em situações dadas, em campos de força determinados.


Referências bibliográficas:

BARAN, P., SWEEZY, P. Capitalismo monopolista. Rio de Janeiro: Zahar, 1974.

BAUDRILLARD, J. Simulacros e simulação. Lisboa: Relógio d’Água, 1991a.

BAUDRILLARD, J. A sociedade de consumo. Lisboa: Edições 70, 1991b.

CANCLINI, N. G. Cultura y comunicación: entre lo global e lo local. La Plata: Universidad Nacional de La Plata, 1997.

CANEVACCI, M. Sincretismos: uma exploração das hibridações culturais. São Paulo: Studio Nobel, 1996.

CASTELLS, M. A economia informacional, a nova divisão internacional do trabalho e o projeto socialista. Cad. CRH,
Salvador, v.17, p.5-34, 1992.

CASTELLS, M. The information age: economy, society and culture. Cambridge: Blackwell,1996-1998. 3v.

DIZARD JR., W. As novas mídias: a comunicação de massa na era da informação. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

FEATHERSTONE, M. O desmanche da cultura: globalização, pós-modernismo e identidade. São Paulo: Studio Nobel,
1997.

IANNI, O. A sociedade global. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1993.

JAMESON, F. Postmodernism, or, the cultural logic of late capitalism. Durham: Duke University Press, 1991.

KUMAR, K. Da sociedade pós-industrial à pós-moderna: novas teorias sobre o mundo contemporâneo. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar, 1997.

LANDI, O. Devórame outra vez. Buenos Aires: Planeta, 1992.

LÉVY, P. O que é o virtual? São Paulo: Editora 34, 1996.
LIPOVETSKY, G. O império do efêmero. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

LYON, D. The information society: issues and illusions. Cambridge: Polity Press, 1988.

McLUHAN, M. Os meios de comunicação como extensões do homem. São Paulo: Cultrix, 1974.

MIÈGE, B. La societe conquise par la communication. Grenoble: PUG, 1989.

MORAES, D. Planetas mídias. Campo Grande: Letra Livre, 1998.

PARROCHIA, D. Philosofie des réseaux. Paris: Presses Universitaires de France, 1993.

PINHO, J. B. O poder das marcas. São Paulo: Summus, 1996.

SANTANA, R. N. M, SANTOS, R.C. L. F. A nova realidade-mundo. Teresina: Edição dos Autores, 1998.

SANTOS, M. A natureza do espaço: técnica e tempo; razão e emoção. São Paulo: Hucitec, 1996.

SCHAFF, A. A sociedade informática. São Paulo: Editora UNESP/ Brasiliense, 1991.

SOARES, I. O. Sociedade da informação ou da comunicação? São Paulo: Cidade Nova, 1996.

SODRÉ, M. O monopólio da fala. Petrópolis: Vozes, 1977.

SODRÉ, M. A máquina de Narciso: televisão, indivíduo e poder no Brasil. São Paulo: Cortez, 1990.

VATTIMO, G. A sociedade transparente. Lisboa: Edições 70, 1991.

VIEIRA, L. Cidadania e Globalização. Rio de Janeiro: Record, 1998.

VIRILIO, P. A cidade superexposta. In: _______. O espaço crítico. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993. p.7-21.

VIRILIO, P. A imagem pública. In: ________. A máquina da visão. Rio de Janeiro: José Olympio, 1994. p.55-70.