domingo, 5 de maio de 2013

O celular está acabando com a televisão

 

A entrevista é de Natalia Aruguete e Adriana Amado e está publicada no jornal argentino Página/12, 12-09-2011. A tradução é do Cepat.
 
Eis a entrevista.
 
Por que acredita que hoje se fala tanto de meios de comunicação?
Os meios de comunicação fazem parte da cultura geral da sociedade. Antes se falava da chuva porque era o que preocupava o camponês. Em um mundo hipermidiatizado como o nosso, falar dos meios de comunicação é a nossa referência cotidiana para poder falar do mundo. Alguém dizia que o importante de uma sociedade é encontrar as linguagens apropriadas para falar do mundo. O futebol, os meios de comunicação e, sobretudo, a televisão são linguagens para falar do mundo. Falamos do mundo através de um programa de televisão.
Colocado dessa maneira soa banal.
Não, não. O problema grave da sociedade contemporânea é que cada vez mais temos menos em comum. Então, que haja alguma coisa comum em torno da qual nos encontremos e sobre a qual possamos conversar sem desigualdades, sem ser cultos ou políticas de poderosos, é bom. Sem colocar termos morais, mas como condição adequada para conversar na vida pública e ter algo em comum, me parece que os meios de comunicação são maravilhosos. O grande mérito de governos como o da Argentina, Equador ou Venezuela é que souberam onde situar uma linguagem comum com a sociedade. Creio que essa é a saúde mental pública de uma sociedade, ter do que falar, poder criticar. Se que em relação à democracia ou aos políticos não temos nada a propor, em relação aos meios de comunicação, todo o mundo sabe como seria um programa de televisão melhor, como faria um jornal melhor, um programa de rádio melhor!
Os três países que menciona têm suas particularidades. Acredita que esses governos conseguiram instalar o tema dos meios de comunicação num cenário social mais politizado?
Creio que tem a ver com um projeto político. A convivência entre meios de comunicação e poder foi histórica, mas por alguma razão o que os governantes das sociedades latino-americanas descobriram – e também Berlusconi e Sarkozy – é que o tema midiático lhes dá a possibilidade de conexão com a sociedade e de disputar um relato coletivamente, sem perder legitimidade. É como debater sobre um tema que é popular, mas que não tem tantas implicações na hora de governar, bem ou mal. Creio que encontraram um tema que permite exibir-se, mas que é, ao final das contas, uma forma de não questionar o poder.
Porque não questionaria o poder?
Há três condições para que isso aconteça. Uma é que a liberdade de informação deixou de ser propriedade dos donos dos meios de comunicação e dos jornalistas, é um valor social, um direito humano que começou a ser disputado. Quando se descobre o direito da comunicação, em 2003, todo o mundo começa a dizer: "Ah, é que o direito à comunicação não pertence aos jornalistas, nem às empresas, mas à sociedade", ou "O Estado não tem que se declarar impedido, mas deve fazer com que as pessoas se comuniquem". Esse é um ganho impressionante que torna o assunto mais político. Por outro lado, as tecnologias mudaram o mundo e a comunicação não é a mesma de antes. As leis dos meios de comunicação precisam ser feitas porque o contexto tecnológico mudou e hoje as pessoas sentem que "já não há o direito de que eu não me expresse".
Contudo, a brecha tecnológica continua sendo muito grande, porque dizer "todo o mundo" significa, de fato, referir-se apenas aos que têm voz.
Concordo em que há uma brecha tecnológica, mas minha discussão vai em outro sentido. Querem nos obrigar a pensar, a partir da agenda pública ilustrada, que a grande virtude é a internet. Mas a internet é uma revanche do mundo ilustrado letrado. No letrado vai haver brecha, não apenas economicamente, mas por alfabeticidade. Onde a brecha está se rompendo é no celular. Em quase todas as sociedades há mais celulares que televisores. A internet está acabando com a imprensa escrita, mas o celular está acabando com a televisão...
Você propôs que a televisão é feita para imbecis, que não há necessidade de pensar. Qual é a diferença em relação ao celular?
Mudando de discurso, eu penso os meios de comunicação a partir das narrativas e do ritual que produzem, mais que a partir dos conteúdos e das estéticas. O mais importante para poder desenhar um meio é que ritual associamos a ele. Por que fracassamos em todas as tentativas de fazer uma televisão inteligente? Por que fracassamos em todas as tentativas de formar telespectadores críticos e ativos?
Por quê?
Porque o telespectador crítico não está inscrito no âmbito de ver televisão, não está inscrito no meio. A condição da televisão não merece estudar telespectadores críticos porque a promessa que a televisão faz é: "senhora e senhor, jovem e criança, quando você vê televisão prometo que vai se descontrair". Todos estes teóricos, como não veem televisão, não sabem que não se quer ser ativo na hora de ver televisão. É aí que fracassam as alternativas: porque não lutam contra o espaço da descontração do telespectador. O celular, assim como a televisão, é caseiro, é do mundo íntimo. A internet, ao contrário, é ativa. Por alguma razão estranha que eu não entendo bem a gente liga o computador e começa a apertar teclas. O ritual produzido pela televisão é o da descontração, e quem briga por este lugar? O celular. Você é uma pessoa estressada, mas nem bem recebe uma ligação e já está sorrindo. E pega o metrô sorrindo e falando ao celular e ou tira o celular e joga, devolve você a esse espaço onde não lhe estão exigindo ser produtivo nem eficiente. Me lembro de um comercial da MTV em que um jovem de 15 anos se encontra com um de 17 e este último diz: "e quem disse que tudo tem que ter sentido?". E dizia: "MTV, o significante sem sentido". Creio que é isso: não queremos significar. Pedem-nos para significar como amantes, como esposos, como políticos, como professores, cidadãos, o tempo todo somos exigidos e há um ponto em que queremos nos desconectar.
Como se articula essa função de "conversa fiada" com o modelo que defende que a televisão existe para ensinar?
O melhor que aconteceu às pessoas que fazem televisão é que aqueles que a criticam não a entendem. É grave porque enquanto não entendemos o que é que a televisão faz, não poderemos transformá-la. Não gostamos da televisão que assistimos, isso também é verdade. Não podemos comemorar que se veja um programa de Tinelli durante duas horas onde a homenagem ao sem sentido é total. Mas eu queria averiguar quem foi que inventou que a televisão tem que entreter, educar e informar. Por que não se diz a mesma coisa da escola? Por que não se diz que a escola foi feita para entreter, educar e informar? E por que a televisão, sim?
O que deveríamos exigir da televisão como sociedade?
O espaço em que se colocou a televisão, o ritual social... devemos exigir que nos entretenha na diversidade do entretenimento. O mais grave é a monopolização do entretenimento, que a forma de ser entretido seja o circo, a estupidez, o excesso de riso e de gritaria. Um intelectual é entretido quando seu discurso nos faz pensar, isso é entretenimento para a cabeça também. Uma boa novela é entretenimento, um bom conto é entretenimento. Na música, as coisas vão muito bem, porque nunca exigimos da música conteúdo. Então, quando se é capaz de ouvir "La cumbiera intelectual", de Kevin Johansen, e ficar bem, e não é que depois se diz: "Que conteúdo mais banal o desta música". Devemos começar a reivindicar que pensar também é entretenimento. Milan Kundera critica a televisão porque diz que é "passar primeiro pelo emocional para depois chegar à cabeça". Eu digo: o quê, agora resulta que todos tem os que ir pelo mundo com o radar racional para que seja bom? Temos que interceptar o conceito de entretenimento e não dizer que para fazer televisão temos que educar, porque para isso existe o sistema universitário e a escola.
O que está acontecendo com a noção de entretenimento na sociedade atual?
Chegamos a tal perversão de valores que exigimos à universidade que seja divertida, que seja como a televisão. Mas claro, a matriz do entretenimento está atravessando toda a sociedade em todos os espaços, em todas as coisas. Se realmente queremos fazer algo pela televisão, devemos interceptar o conceito de entretenimento. Então somos corajosos para falar em sala de aula, mas inofensivos para o mercado do entretenimento. O admirável da proposta comunicacional argentina é que está produzindo conteúdos para os diferentes entretenimentos. Por exemplo, canal Encontro, que é entretenimento para os ilustrados, e Futebol para todos, que é entretenimento para o popular. Você tem Incaa TV para o mundo que acredita que o cinema é o máximo, um mundo muito pequeno, mas com muita incidência política. Você tem outro para as crianças porque as crianças também estão aborrecidas de ver essas estupidezes da Walt Disney, não po rque sejam críticas, mas porque estão aborrecidas de ver três crianças que morrem em todo o filme por um louco, em troca de ver alguém que fala como lhes parece mais simpático. Têm Futebol para todos e humor em 6, 7, 8, que é devolver o humor popular e público. E está fomentando que as pessoas façam conteúdos por todo o país com seus gostos. Isso como agenda política pode ter problemas, mas é o que deveria ter sido feito. Agora toda a televisão pública da América Latina quer educar o povo, inclusive Chávez. Oito canais, todos para educar revolucionariamente. Não faz sentido.
Você acredita que no cenário atual mudou a relação entre meio de comunicação, governo e opinião pública?
O que é a opinião pública? Os colunistas que escrevem nos meios de comunicação são os representantes da opinião pública? Então, a opinião pública é ilustrada. Se é isso que entendemos por opinião pública, a opinião pública é contrária a todos os modelos de comunicação, inclusive o de Cristina, de Uribe... não importa que seja de esquerda ou de direita. Mas o que creio que está acontecendo é a multiplicação de pequenas esferas públicas que não se tocam. Aí o jornalismo tem que voltar a funcionar. Não temos uma opinião pública, mas mil esferinhas públicas que não dialogam, isso sim é grave para o jornalismo. Neste momento, os que brigam pela imprensa são um clube privado de ilustrados brigando entre si. Por isso não têm nada a ver com a opinião pública que ouve rádio e vê televisão, que é a opinião pública popular, que é a que vota, que decide a democracia. E isso está demonstrado no caso colombiano.
De que maneira se expressa na Colômbia?
Se fosse pela imprensa escrita, Uribe seria o presidente mais impopular da Colômbia, mas como passa pela foto, tele e rádio, é o presidente mais popular da Colômbia. Se a isso acrescentarmos que o cenário da internet, Twitter, Facebook e blogs está criando pequenas esferinhas públicas nas quais se participa apenas no Twitter, no Facebook e nos blogs das pessoas que pensam como eu, então não estamos reunindo os que pensam diferente. Ali, o papel do jornalista se torna fundamental, porque é o que pode torná-lo diferente. Segundo Juanita León, uma colombiana especialista em internet, é preciso ser um curador de opinião como um curador de arte. Arma-se um conceito do mundo como um curador de arte e diz o conceito é um bem público. O novo jornalista é como um DJ que mistura sons de todo o mundo, um pouco de blog, um pouco de televisão, um pouco de rádio, um pouco de imprensa e propõe compreender o mu ndo.
Em termos políticos, como é o novo jornalista?
Hoje vivemos onde todos geram uma experiência de passagem, então, o jornalista toma a informação do mundo e o leva a outra experiência. Antigamente, era o que informava e aí terminava. Hoje, uma pessoa não entra num sítio, nem acessa um jornal apenas para se informar; entra porque isso o conecta com um grupo humano, o leva a uma experiência. O político é a que experiência quero chegar? Sempre digo: "As pessoas não vão a uma conferência apenas para ouvir conceitos, também vão porque o conferencista lhe parece agradável, porque vão se encontrar com amigos, porque dão um refrigerio maravilhoso, vão por um valor agregado".
O jornalista pode deixar de tomar posição no cenário político-comunicacional que se está conformando na América do Sul?
Não pode deixar de tomar posição, é impossível. O triste é que para quase todos os estudantes de jornalismo, os jornalistas são de esquerda e os meios de comunicação de direita. É ridículo. Se fizer uma pesquisa, a maioria dos jornalistas se acha "progressista", ao passo que trabalham em meios de comunicação "retro". Eu não insistiria tanto em que tenham ou não tenham posição política, mas em que façam bem o ofício, com qualidade jornalística, que é a invenção mais clássica que há de todos e é elementar. Eu tenho maior qualidade jornalística se tiver mais de uma fonte. Simples. Se a minha nota tiver contexto, tenho qualidade sobre uma nota sem contexto. Si, além disso, narro bem, uso bem o gênero e a linguagem, tenho maior qualidade. E se ofereço critérios para compreender a realidade, sou ainda melhor jornalista. O ofício do jornalismo é muito simples.
Esses aspectos que menciona para fazer um jornalismo de qualidade supõem também uma posição ideológica e política. Não me refiro apenas à questão das fontes, contextualizar ou não fazê-lo supõe uma decisão política.
Oxalá fosse por posição política, uma conspiração. Eu creio que os jornalistas não fazem bem seu ofício por ignorância ou preguiça. Porque a posição política estaria em qual contexto coloco a notícia, aí sim há posição política. Em relação às fontes, posso entrevistar três fontes de esquerda, três de direita e uma de centro. Pode ser que eu escolha as três mais asquerosas da esquerda e eu as julgue politicamente, mas as coloquei. Há um juízo de interpretação, isso dou para o mundo. Se narro com uma linguagem elitista ou não, também é uma posição política. Conseguimos um jornalismo tão mau que a melhor forma de ler uma notícia é de baixo para cima. Lemos de trás para frente porque no último parágrafo o jornalista se atreveu a dizer algo. Uma coisa que me parece malíssima do jornalismo é que chegaram muitos "opinadores profissionais" que colocam sua opinião sem nenhum dado, sem nenhuma referência... e opin am. Por que sua opinião deve me interessar?
Por que acredita que é dessa forma que acontece?
99% das opiniões não têm nenhum fundamento. Ao contrário, se ofereceram dados, deram contexto, se poderia dizer que lhe interessa... as melhores opiniões, geralmente, são as dos jornalistas porque fazem o ofício. O jornalismo não foi feito para os especialistas, o último humanismo que nos restava é para compreender o mundo, não para os especialistas. Mas nos deixamos tomar por eles. Aqui, na Argentina, tudo está baseado no popular e o que eu menos vejo é o popular.
A que se refere com "o popular"?
Vemos o popular usado como critério de variedades ilustradas, mas não há estéticas populares, não há reconhecimento do popular de verdade, com suas estéticas, suas morais, suas formas de pensar. Então, será preciso fazer novamente uma descrição do popular, da opinião pública, da esfera pública, porque estamos dando goles muito fortes em nome da opinião pública, em nome da sociedade civil.
Como se observa esta tendência que você descreve nos meios de comunicação com maior capacidade de fixar agenda?
Estes novos debates desmascaram o interesse genuinamente empresarial dos meios de comunicação. Isso que antes era evidente, mas não se debatia publicamente. Agora, quando todos saem para defender que liberdade de empresa é igual a liberdade de informação, assumem posturas contundentes frente a isso. Creio que nisso os meios de comunicação estão se dando conta de duas coisas: que é um negócio e que, nesse negócio, nunca foram tão bem sucedidos quanto agora. Nunca tiveram tanta pauta porque há uma solidariedade do grêmio empresarial. Então, em nome da crise política demitem os melhores jornalistas, contratam jornalistas pobres, os tornam multimídia e tudo fica mais barato. Pensa-se: "Por que não mudam de programação e experimentam?". Porque o negócio vai bem, o que vai mal é o jornalismo.
E a legitimidade?
A legitimidade não importa, eles não estão interessados na legitimidade, mas no negócio. O problema foi que perderam o aspecto clássico de um jornalismo que apostasse na democracia, isso já não importa. Os meios de comunicação devem voltar a ser planejados por jornalistas, porque caso contrário, seguirão sendo manipulados por empresários que só querem aumentar a produtividade sem se importar com a qualidade jornalística ou por políticos que só querem defender os interesses partidários. Se olhamos historicamente, quando houve diretores ou presidentes de companhias de meios de comunicação que foram jornalistas, a qualidade aumentou politicamente. É mais fácil que um jornalista aprenda gerência do que um gerente aprender jornalismo.
Você acredita que a lei dos meios de comunicação argentina pode contribuir para reverter este cenário midiático que você descreve?
Muitas pessoas veem com muita alegria os meios cidadãos, comunitários. A sociedade não vê com grande agrado que se faça tanto para os meios públicos, porque não demonstraram ser eficientes em nenhuma parte do mundo, pareceriam ser governamentais. Na perspectiva de responder às tecnologias, ao direito à comunicação e aos direitos cidadãos é muito boa. Creio que a lei dos meios de comunicação da Argentina tem dois problemas: um, que não se pode resolver, que é o da implementação. O outro, o da autoridade regulatória. Você pode blindá-la: três da sociedade civil, três da academia, zero do governo. Mas para que funcione dependem dos seres humanos com saberes; quem tem dinheiro sempre vai manipular. Na Argentina cometeram o mesmo erro que na Colômbia.
Qual?
Pensar que pelo fato de virem como representação de setores sociais são automaticamente bons. Uma figura mais interessante para a América Latina seria, por exemplo, um fiscal nomeado para ser a autoridade dos meios de comunicação para a Argentina, mas que não tivesse responsabilidade política. Então, caso se equivocarem, em quem vamos jogar a culpa? A responsabilidade se dilui. Ao contrário, se se elege o fiscal ou a autoridade dos meios de comunicação do povo por uma terna de acadêmicos, meios de comunicação, etc. e se erige em público diante do Senado. Que tenha responsabilidade política, e caso exercer mal a sua função pode ser preso.
Até a implementação desta lei tínhamos uma única autoridade e alguns especialistas diziam que não é a mesma coisa negociar e cooptar uma pessoa do que duas.
Mas você está pensando em um sistema democrático que nós não temos. Como dizemos na Colômbia, nós criamos leis para a Dinamarca quando estamos em "Cundinamarca". É que fazemos leis sem ver como nos comportamos politicamente. Temos que criar leis que estejam de acordo com a nossa cultura política, é péssimo importar leis porque não vão funcionar. Na Colômbia, a Comissão de Televisão tinha cinco membros: dois eleitos pelo presidente da República. Já existe 15 anos e nunca os governos escolheram uma pessoa que saiba de televisão ou de comunicação. Temos um representante dos canais regionais de televisão, nunca se elegeu ninguém que soubesse de televisão nem de canais regionais. Temos um escolhido pelas faculdades de ciências sociais e comunicação, que também não escolheram um especialista em comunicação. E um dos telespectadores, dos críticos de TV, que também não elegeram uma pessoa que fizesse isso. Me parece que ne ssa ilusão que há sobre a autoridade está grande parte da frustração da lei atual. E o outro elemento para pensar no futuro está relacionado aos meios comunitários.
Por quê?
Com o que vão financiar tudo isso? Em um sistema econômico, eu ponho alguém para produzir que sabe ganhar dinheiro e com seus impostos faço produzir o resto. Conclusão: a lei argentina coloca o que é preciso colocar: soluções que na maioria dos casos me parecem corretas, creio que é a lei modelo a partir da qual pensar outras leis. Mas cada sociedade pode converter essa lei em uma possibilidade de futuro ou esse ilusionismo midiático que não leva a lugar nenhum.
Como vê o fato de produzir uma multiplicidade de canais que não necessariamente terão audiência?
Na televisão vai ocorrer o que acontece com o jornalismo: que o valor da comunicação está em se expressar, não em vê-la. O grande gargalo que houve historicamente é que alguns poucos liam, alguns poucos falavam e muitos viam. Agora acontece que muitos emitem e ninguém vê. É o direito a se expressar. Cada vez lemos menos e cada vez escrevemos mais. Está bem que as pessoas estejam escrevendo, o ato de comunicação humana é expressar-se, não que seja lido por alguém. As boas notícias são a multiplicação das vozes, a diversidade de expressão, mas a má notícia que tenho é que não temos mais tempo para ver televisão, não temos como ler tanto. Vamos chegar ao momento da comunicação expressiva massiva, não há audiência massiva, mas expressão massiva. Outro momento da história.

Para ler mais:


quarta-feira, 1 de maio de 2013

Documento que registra extermínio de índios é resgatado após décadas desaparecido

Relatório de mais de 7 mil páginas que relatam massacres e torturas de índios no interior do país, dado como queimado num incêndio, é encontrado intacto 45 anos depois.
A reportagem é de Felipe Canêdo e publicada no jornal O Estado de São Paulo, 21-04-2013.
A expedição percorreu mais de 16 mil quilômetros e visitou mais de 130 postos indígenas onde foram constatados inúmeros crimes e violações aos direitos humanos. O governo ignorou pedido do Relatório Figueiredo para demitir 33 agentes públicos e suspender 17.
Depois de 45 anos desaparecido, um dos documentos mais importantes produzidos pelo Estado brasileiro no último século, o chamado Relatório Figueiredo, que apurou matanças de tribos inteiras, torturas e toda sorte de crueldades praticadas contra indígenas no país – principalmente por latifundiários e funcionários do extinto Serviço de Proteção ao Índio (SPI) –, ressurge quase intacto. Supostamente eliminado em um incêndio no Ministério da Agricultura, ele foi encontrado recentemente no Museu do Índio, no Rio, com mais de 7 mil páginas preservadas e contendo 29 dos 30 tomos originais.
Em uma das inúmeras passagens brutais do texto, a que o Estado de Minas teve acesso e publica na data em que se comemora o Dia do Índio, um instrumento de tortura apontado como o mais comum nos postos do SPI à época, chamado “tronco”, é descrito da seguinte maneira: “Consistia na trituração dos tornozelos das vítimas, colocadas entre duas estacas enterradas juntas em um ângulo agudo. As extremidades, ligadas por roldanas, eram aproximadas lenta e continuamente”.
Entre denúncias de caçadas humanas promovidas com metralhadoras e dinamites atiradas de aviões, inoculações propositais de varíola em povoados isolados e doações de açúcar misturado a estricnina, o texto redigido pelo então procurador Jader de Figueiredo Correia ressuscita incontáveis fantasmas e pode se tornar agora um trunfo para aComissão da Verdade, que apura violações de direitos humanos cometidas entre 1946 e 1988.
A investigação, feita em 1967, em plena ditadura, a pedido do então ministro do Interior, Albuquerque Lima, tendo como base comissões parlamentares de inquérito de 1962 e 1963 e denúncias posteriores de deputados, foi o resultado de uma expedição que percorreu mais de 16 mil quilômetros, entrevistou dezenas de agentes do SPI e visitou mais de 130 postos indígenas. Jader de Figueiredo e sua equipe constataram diversos crimes, propuseram a investigação de muitos mais que lhes foram relatados pelos índios, se chocaram com a crueldade e bestialidade de agentes públicos. Ao final, no entanto, o Brasil foi privado da possibilidade de fazer justiça nos anos seguintes. Albuquerque Lima chegou a recomendar a demissão de 33 pessoas do SPI e a suspensão de 17, mas, posteriormente, muitas delas foram inocentadas pela Justiça.
Os únicos registros do relatório disponíveis até hoje eram os presentes em reportagens publicadas na época de sua conclusão, quando houve uma entrevista coletiva no Ministério do Interior, em março de 1968, para detalhar o que havia sido constatado por Jader e sua equipe. A entrevista teve repercussão internacional, merecendo publicação inclusive em jornais como o New York Times. No entanto, tempos depois da entrevista, o que ocorreu não foi a continuação das investigações, mas a exoneração de funcionários que haviam participado do trabalho. Quem não foi demitido foi trocado de função, numa tentativa de esconder o acontecido. Em 13 de dezembro do mesmo ano o governo militar ba ixou o Ato Institucional nº 5, restringindo liberdades civis e tornando o regime autoritário mais rígido.
O vice-presidente do grupo Tortura Nunca Mais de São Paulo e coordenador do Projeto Armazém Memória, Marcelo Zelic, foi quem descobriu o conteúdo do documento até então guardado entre 50 caixas de papelada no Rio de Janeiro. Ele afirma que o Relatório Figueiredo já havia se tornado motivo de preocupação para setores que possivelmente estão envolvidos nas denúncias da época antes de ser achado. “Já tem gente que está tentando desqualificar o relatório, acho que por um forte medo de ele aparecer, as pessoas estão criticando o documento sem ter lido”, acusa.
Suplícios
O contexto desenvolvimentista da época e o ímpeto por um Brasil moderno encontravam entraves nas aldeias. O documento relata que índios eram tratados como animais e sem a menor compaixão. “É espantoso que existe na estrutura administrativa do país repartição que haja descido a tão baixos padrões de decência. E que haja funcionários públicos cuja bestialidade tenha atingido tais requintes de perversidade. Venderam-se crianças indefesas para servir aos instintos de indivíduos desumanos. Torturas contra crianças e adultos em monstruosos e lentos suplícios”, lamentava Figueiredo. Em outro trecho contundente, o relatório cita chacinas no Maranhão, em que “fazendeiros liquidaram t oda uma nação”. Uma CPI chegou a ser instaurada em 1968, mas o país jamais julgou os algozes que ceifaram tribos inteiras e culturas milenares.

domingo, 28 de abril de 2013

Energia, entropia, ecologia, economia

 

Não foi o alarme da mudança climática, nem o encontro Eco-92, no Rio, que despertou nos economistas - alguns deles, pelo menos - a noção de que a economia humana se desenrola num planeta real, de recursos finitos. Já na década de 1960, o romeno Nicholas Georgescu-Roegen (1906-1994) advertiu para a urgência de enriquecer a economia com noções físicas como energia e entropia. Economista com formação de matemático e estatístico, admirado por Joseph Schumpeter e Paul Samuelson e cotado para o Prêmio Nobel por seus trabalhos sobre a teoria do consumidor e a economia agrária, Georgescu-Roegen se dedicou a repensar o modo como a economia pensa a produção. Mas a virada intelectual selou o destino do romeno entre seus pares: até então admirado, ele teve de enfrentar o ostracismo.

A reportagem é de Diego Viana, publicada no jornal Valor, 15-03-2013.

Hoje, quando a sustentabilidade se torna pouco a pouco incontornável nas discussões sobre a economia mundial, as ideias de Georgescu-Roegen começam a encontrar um pouco mais de ressonância. Na quarta-feira, será lançado em São Paulo o livro O Decrescimento: Entropia, Ecologia, Economia, com artigos que expõem as ideias pioneiras do matemático romeno. Organizado pelo economista e professor da Universidade de São Paulo (USP) José Eli da Veiga, o lançamento terá a presença de dois economistas que conviveram com Georgescu-Roegen: o ex-ministro da Fazenda e do Planejamento Delfim Netto e o ex-preside nte do Banco Central Ibrahim Eris.

Formado em matemática na Universidade de Bucareste e especializado em estatística na França, Georgescu-Roegen se interessou por economia quando foi professor em Harvard, entre 1934 e 1936. Sua convivência com Schumpeter, um dos maiores economistas do século XX, teria resultado em um livro a quatro mãos, se não tivesse decidido retornar àRomênia com a justificativa de que devia algo a seu país. Mais tarde, ao fim da Segunda Guerra, tornou-se professor na Universidade Vanderbilt.

Em 1966, publicou o livro Analytical Economics: Issues and Problems, centrado na teoria do consumidor e elogiado em profusão por Samuelson, outro dos maiores economistas de seu tempo, com epítetos inequívocos como "professor dos professores" e "economista dos economistas".

A causa do ostracismo de Georgescu-Roegen - encam inhado pelo próprio Samuelson, que fez desaparecer o nome do romeno de seu ubíquo manual, "Economics", a partir da décima edição - foi seu interesse intelectual por uma área de estudos até então considerada exotérica, para não dizer absurda: a ecologia. Ao se dar conta de que o processo produtivo e o consumo não são mera função do trabalho, do capital e de insumos, mas uma realidade física, química e social, o até então admirado romeno selou sua sorte no clã dos economistas. "Ele não foi só esquecido. Foi banido. Ele sofreu uma espécie de censura", diz Veiga.

Segundo o economista da USP, a gota d'água foi a reunião da associação dos economistas americanos (American Economic Association) de 1973. "É como o conclave do Vaticano", diz Veiga. Nos meses anteriores, fora publicado o manifesto "Rumo a uma Economia Humana", escrito por membros da organização Fellowship of Reconciliatio n reunidos em um grupo de trabalho intitulado "Dai Dong", sob orientação do pacifista americano Alfred Hassler. "Hoje, esse manifesto me parece até ingênuo, mas na época foi considerado radicalmente ecologista ao mencionar ameaças aos ecossistemas", diz Veiga.
Na reunião dos economistas americanos, de que Georgescu-Roegen participava todos os anos, o matemático romeno propôs que a associação assinasse e apoiasse o manifesto. "Criou-se uma confusão, porque os economistas eram contra e acabaram encontrando uma solução de compromisso: em vez de assinar e apoiar, a associação publicou o texto, mas como anexo e com um tamanho de letra praticamente ilegível."

Até então respeitado por seus colegas por sua capacidade superior de aplicar a matemática às funções de consumo e produção, Georgescu-Roegen percebeu que sua linha de pensamento era heterodoxa demais para aquele ambiente intelectual. "Georgescu foi bloqueado como são bloqueados todos aqueles que não se integram no mainstream", afirma Delfim Netto. "Marx é bloqueado, por exemplo. Diz-se que Georgescu não ganhou um Prêmio Nobel porque não criou uma 'georgescologia', não fez escola. Mas ele tinha nível para ganhar o Nobel, sobretudo em comparação com as bobagens que ganham hoje."
Com o avanço progressivo da matematização na teoria econômica, os economistas se puseram a perseguir a ambição de produzir teses tão exatas e claras quanto as da física. Mas os economistas têm de enfrentar uma dificuldade que não atinge os físicos. "Acontece que nossos 'átomos' pensam", argumenta Delfim Netto. "Por isso, em economia, o passado não contém o futuro e não é capaz de explicá-lo. Na física, o passado contém o futuro. É por isso que nenhum modelo econômico funciona de verdade."

Outro problema que afasta a economia de atingir seu objetivo de perfeição quantitativa, segundo Veiga, é a insistência numa concepção mecanicista e equilibrada do funcionamento do ciclo produtivo. "Com toda sua formação científica, Georgescu-Roegen ficou muito espantado ao começar a estudar a teoria do produtor e descobrir que os conceitos que os economistas tomavam empres tados da física ainda eram todos newtonianos", diz Veiga. A essa altura, a física já tinha abandonado suas concepções de equilíbrio mecanicista, que ainda orientava as pesquisas econômicas. Já em seu livro de 1966, Georgescu-Roegen se mostrava inconformado com aquilo que Veiga nomeia o "progressivo distanciamento da teoria econômica dos fundamentos básicos das ciências naturais". Dentre os fundamentos em questão, Veiga cita o campo físico da termodinâmica e o evolucionismo.

Suas preocupações epistemológicas heterodoxas puseram Georgescu-Roegen entre os primeiros economistas a buscar um fundamento para a economia que levasse em conta o fato de que o próprio ato de produzir é transformador, tanto para a matéria-prima quanto para o maquinário e para as sociedades em que tem lugar. Com isso, seu pensamento econômico se tornou progressivamente evolucionário. Até hoje, análises evolucionárias da economia, como as de Geoffrey Hodgson, encontram pouca ressonância na profissão, embora Veiga se refira às ideias do economista britânico, editor da revista Journal of Institutional Economics, como "o futuro da economia".

Para Delfim, a redescoberta das teses de Georgescu-Roegen é um caminho imposto pelas circunstâncias de um mundo que começa a encontrar seus limites físicos. "A concepção de Georgescu está se impondo naturalmente. Foi homem que antecipou em pelo menos 50, 60 anos essa visão de mundo", diz. "Mas não foi só intuitivo. Construiu um dispositivo analítico que levava a reconhecer os fatos: o desenvolvimento não é um fenômeno econômico, mas termodinâmico. Portanto, obedece às leis da termodinâmica."

Ao lado das mudanças no processo produtivo, o economista romeno passou a argumentar que a produção não pode ser entend ida como um sistema fechado, capaz de funcionar indefinidamente a partir de seus princípios, sem levar em consideração o canal de entrada de recursos. Se fosse assim, a economia funcionaria como um "moto-perpétuo", a máquina capaz de trabalhar eternamente, sem o acréscimo de energia exterior. Mas isso seria absurdo, porque exigiria o esquecimento da segunda lei da termodinâmica, segundo a qual todo sistema caminha na direção do equilíbrio, isto é, da máxima entropia, e deixa de produzir qualquer modificação.

Georgescu-Roegen se esforça por introduzir o tempo nas equações de produção, propõe a necessidade de entender diferenças qualitativas nas funções de capital e trabalho, em vez de ater-se às proporções quantitativas entre um e outro, e termina por afirmar que, em vez de falar em produção, a teoria econômica deveria referir-se a uma transformação. Afinal, o processo de produção econômica consiste em tomar elemen tos da natureza e transformá-los em mercadorias para o consumo humano, com um gasto concomitante de energia que se degrada necessariamente e é irrecuperável.

Segundo Veiga, o título escolhido pelos organizadores franceses Jacques Grinevald e Ivo Rens para a coletânea de artigos de Georgescu-Roegen não é o ideal. O termo "decrescimento" é infiel às ideias do economista romeno. O termo assumiu um sentido mais político do que propriamente "bioeconômico", para usar as palavras do romeno. Georgescu-Roegen, no texto "A Energia e os Mitos Econômicos", escreve - com bastante sarcasmo, na avaliação de Veiga - um programa de nove pontos para chegar a um equilíbrio ambiental e econômico, conforme proposto por economistas ecológicos com quem ele não concordava inteiramente. Esses pontos incluíam generalidades como o fim da guerra e a redução da população, além de pro postas como o fim da moeda e a cura da "sede mórbida por engenhocas extravagantes".

Veiga aponta os limites do pensamento de Georgescu-Roegen, a começar pela ideia de decrescimento, radicalizada por rivais e alunos seus como, respectivamente, Kenneth Boulding e Herman Daly. "Falar em abrir mão do crescimento pode fazer muito sentido na Escandinávia, na Áustria e na Suíça, mas a maior parte do mundo precisa do crescimento econômico, e muito", afirma.

Paralelamente, o economista romeno cai em armadilha parecida com a de Thomas Malthus, que previu, no século XIX, uma crise alimentar como resultado do crescimento populacional explosivo. "Quando penso no tempo que levaria para que a entropia nos obrigasse a abdicar do crescimento, concluo que seriam séculos", diz Veiga. "Afinal, a eficiência energética da produção está aumentando muito rapidam ente. A intensidade carbono da economia mundial, por exemplo, é muito inferior ao que era há poucas décadas."

Veiga evoca os conceitos de "descolamento relativo" e "descolamento absoluto" para explicar seu ceticismo com os alarmes de Georgescu-Roegen. Na maior parte do mundo, incluindo a até recentemente "muito suja" China, a produção dos bens exige cada vez menos custo energético, mas o consumo do insumo continua a crescer em termos absolutos porque a economia cresce. No Reino Unido, porém, há indícios de que o consumo energético esteja caindo absolutamente. "É um indício de que a economia está se tornando imaterial, e essa tendência tende a se generalizar", diz.

O evento em homenagem a Georgescu-Roegen será realizado na FEA-USP, faculdade cujo primeiro programa de pós-graduação em economia ele ajudou a criar, na década de 1960. O economista esteve no Brasil graças ao acordo entre o Ministério da Educação e o Usaid, programa de ajuda econômica do governo dos EUA. Do período passado no Brasil, Georgescu-Roegen levou diversos alunos para doutoramento nos EUA. Lá, o então futuro presidente do Branco Central Ibrahim Eris foi um dos poucos alunos a completar uma tese com o exigente professor.

Para ler mais:


terça-feira, 9 de abril de 2013

Eduardo Viveiros de Castro dispara: iludido por noção ultrapasada de progresso, Brasil pode desperdiçar oportunidade única de propor novo modelo civilizatório
Entrevista a Júlia Magalhães


É preciso insistir no fato de que é possível ser feliz sem o frenesi de consumo que a mídia nos impõe”, reafirma o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, à jornalista Júlia Magalhães. Para ele, assim como para Fernando Meirelles e Ricardo Abramovay – primeiros entrevistados da sério Outra Política – a felicidade pode ter outros caminhos. O novo diálogo é parte da série que o Instituto Ideafix produziu por encomenda do IDS (Instuto Democracia e Sustentabilidade), e que o site publica na seção especial “Outra Política“.

Pesquisador e professor de antropologia do Museu Nacional (UFRJ) e sócio fundador do Instituto Socioambiental (ISA), Viveiros insiste em que só pela educação avançaremos rumo a uma sociedade mais democrática. “A falta de educação é o nó cego responsável por esse conservadorismo reacionário de boa parte da população”, diz ele. Vai além: arrisca dizer que haveria uma conspiração para impedir os brasileiros de ter acesso a educação ou conexão de à internet de qualidade – conquistas que permitiriam ampliar o acesso a produtos e bens culturais.

Ainda como Meirelles e Abramovay, Viveiros insiste em políticas que reduzam a desigualdade e favoreçam novos padrões de consumo. “É um absurdo afirmar que produzir mais carros é sinal de pujança, utilizar esse dado como indicador de melhoria econômica.”

Para o antropólogo, a mobilização pelas causas ambientais é importante, mas ainda está longe de corresponder à gravidade do problema. É preciso ampliar o universo dos que se preocupam, lembrar “que saneamento básico, dengue e lixo são problemas ambientais”. Viveiros está alarmado: “as pessoas fingem não saber o que está acontecendo, mas o fato é que temos que nos preparar para o pior”. O raciocínio é semelhante ao de Fernando Meirelles, diretor de Ensaio sobre a Cegueira: “Apenas cegos, cínicos ou oportunistas recusam-se a enxergar”.

Diferentemente de Abramovay – que vê germinar um trabalho sério nas empresas e acredita que a sociedade terá força e atitude para impor limites à iniciativa privada –, Viveiros de Castro considera que as corporações não são capazes de ir além do “capitalismo verde”, fingindo responsabilidade social e ambiental. Os dois se alinham, contudo, na esperança depositada nas redes sociais como canais de expressão, opinião, colaboração e mobilização.

Não existe um rumo Brasil”, alerta Viveiros de Castro, ao falar sobre a fratura que marca a sociedade brasileira contrapondo as forças vivas do autoritarismo e do racismo aos setores que buscam a inovação. “O Brasil é um país escravocrata, racista, que não fez reforma agrária, e precisa fazê-la”, diz.

Não por coincidência, dissse o mesmo, há pouco, Mano Brown, em vídeo gravado na Ocupação Mauá, centro de São Paulo. “O Brasil está em transição, não sabe se é um país moderno ou se está ainda em 1964. Tem uma geração de direita ainda viva – Kassab é de direita, Alckmin é de direita – que tem um modus operandi dos caras da antiga, de usar a força, o poder.” A seguir, a entrevista (Inês Castilho).



Qual é sua percepção sobre a participação política do brasileiro?

Preferiria começar por uma desgeneralização: vejo a sociedade brasileira como profundamente dividida no que concerne à sua visão do país e do futuro. A ideia de que existe um Brasil, no sentido não-trivial das ideias de unidade e de brasilidade, parece-me uma ilusão politicamente conveniente (sobretudo para os dominantes) mas antropologicamente equivocada. Existem no mínimo dois, e, a meu ver, bem mais Brasis. O conceito geopolítico de Estado-nação unificado não é descritivo, mas prescritivo. Há fraturas profunda na sociedade brasileira. Há setores da população com uma vocação conservadora imensa; eles não integram necessariamente uma classe específica, embora as chamadas “classes médias”, ascendentes ou descendentes, estejam bem representadas ali. Grande parte da chamada sociedade brasileira — a maioria, infelizmente, temo — se sentiria muito satisfeita sob um regime autoritário , sobretudo se conduzido mediaticamente pela autoridade paternal de uma personalidade forte. Mas isso é uma daquelas coisas que a minoria libertária que existe no país, ou mesmo uma certa medioria “progressista”, prefere manter envolta em um silêncio embaraçado. Repete-se a todo e a qualquer propósito que o povo brasileiro é democrático, “cordial”, amante da liberdade, da igualdade e da fraternidade – o que me parece uma ilusão muito perigosa. É assim que vejo a “participação política do povo brasileiro”: fraturada, dividida, polarizada, uma polarização que não está necessariamente em harmonia com as divisões politicas oficiais (partidos etc.). O Brasil permanece uma sociedade visceralmente escravocrata, renitentemente racista, e moralmente covarde. Enquanto não acertarmos contas com esse inconsciente, não iremos “para a frente”. Em outros momentos, é claro, soluços insurreicionais esporádicos, e uma certa indiferença pragmática em relação aos poderes constituídos, que se testemunha sobretudo entre os mais pobres, ou os mais alheios ao teatro montado pelo andar de cima, inspiram modestas utopias e moderados otimismos por parte daqueles que a historia colocou na confortável posição de “pensar o Brasil”. Nós, em suma.

O que é preciso para mudar isso?

Falar, resistir, insistir, olhar por cima do imediato – e, evidentemente, educar. Mas não “educar o povo”, como se a elite fosse muito educada e devêssemos (e pudéssemos) trazer o povo para um nível superior; mas sim criar as condições para que o povo se eduque e acabe educando a elite, quem sabe até livrando-se dela. A paisagem educacional do Brasil de hoje é a de uma terra devastada, um deserto. E não vejo nenhuma iniciativa consistente para tentar cultivar esse deserto. Pelo contrário: chego a ter pesadelos conspiratórios de que não interessa ao projeto de poder em curso modificar realmente a paisagem educacional do Brasil: domesticar a força de trabalho, se é que é isso mesmo que se está sinceramente tentando (ou planejando), não é de forma alguma a mesma coisa que educar.

Isto é só um pesadelo, decerto: não é assim, não pode ser assim, espero que não seja assim. Mas fato é que não se vê uma iniciativa de modificar a situação. Vê-se é a inauguração bombástica de dezenas de universidades sem a mínima infra-estrutura física (para não falar de boas bibliotecas, luxo quase impensável no Brasil), enquanto o ensino fundamental e médio permanecem grotescamente inadequados, com seus professores recebendo uma miséria, com as greves de docentes universitários reprimidas como se eles fossem bandidos. A “falta” de instrução — que é uma forma muito particular e perversa de instrução imposta de cima para baixo — é talvez o principal fator responsável pelo conservadorismo reacionário de boa parte da sociedade brasileira. Em suma, é urgente uma reforma radical na educação brasileira.

“A floresta e a escola”, sonhava Oswald de Andrade. Infelizmente, parece que deixaremos de ter uma e ainda não teremos a outra. Pois sem escola, aí é que não sobrará floresta mesmo.

Por onde começaria a reforma na educação?

Começaria por baixo, é lógico, no ensino fundamental – que continua entregue às moscas. O ensino público teria de ter uma política unificada, voltada para uma – com perdão da expressão – “revolução cultural”. Não adianta redistribuir renda (ou melhor, aumentar a quantidade de migalhas que caem da mesa cada vez mais farta dos ricos) apenas para comprar televisão e ficar vendo o BBB e porcarias do mesmo quilate, se não redistribuímos cultura, educação, ciência e sabedoria; se não damos ao povo condições de criar cultura em lugar de apenas consumir aquela produzida “para” ele. Está havendo uma melhora do nível de vida dos mais pobres, e talvez também da velha classe média – melhora que vai durar o tempo que a China continuar comprando do Brasil e não tiver acabado de comprar a África. Apesar dessa melhora no chamado nível de vida, não vejo melhora na qualidade efetiva de vida, da vida cul tural ou espiritual, se me permitem a palavra arcaica. Ao contrário. Mas será que é preciso mesmo destruir as forças vivas, naturais e culturais, do povo, ou melhor, dos povos brasileiros para construir uma sociedade economicamente mais justa? Duvido.

Nesse cenário, quais os temas capazes de mobilizar a sociedade brasileira, hoje?

Vejo a “sociedade brasileira” imantada, pelo menos no plano de sua auto-representação normativa por via da midia, por um ufanismo oco, um orgulho besta, como se o mundo (desta vez, enfim) se curvasse ao Brasil. Copa, Olimpíadas… Não vejo mobilização sobre temas urgentíssimos, como esses da educação e da redefinição de nossa relação com a terra, isto é, com aquilo que está por baixo do território. Natureza e Cultura, em suma, que hoje não apenas se acham mediadas, mediatizadas pelo Mercado, mas mediocrizadas por ele. O Estado se aliou ao Mercado, contra a Natureza e contra a Cultura.

Esses temas ainda não mobilizam?

Existe alguma preocupação da opinião pública com a questão ambiental, um pouco maior do que com a educacional – o que não deixa de ser para se lamentar, pois as duas vão juntas. Mas tudo me parece “too little, too late”: muito pouco, e muito tarde. Está demorando tempo demais para se espalhar a consciência ambiental, o sentido de urgência absoluta que a situação do planeta impõe a todos nós. Essa inércia se traduz em pouca pressão sobre os governos, as corporações, as empresas – estas investindo cada vez mais na historia da carochinha do “capitalismo verde”. E pouca pressão sobre a grande imprensa, suspeitamente lacônica, distraída e incompetente quando se trata da questão das mudanças climáticas.

Não se vê a sociedade realmente mobilizada, por exemplo, por Belo Monte, uma monstruosidade provada e comprovada, mas que tem o apoio desinformado (é o que se infere) de porções significativas da população do Sul e Sudeste, para onde irá boa parte da energia que não for vendida a preço de banana paras as multinacionais do alumínio fazerem latinha de sakê, no baixo Amazonas, para o mercado asiático. Faz falta um discurso politico mais agressivo em relação à questão ambiental. É preciso sobretudo falar aos povos, chamar a atenção de que saneamento básico é um problema ambiental, dengue é problema ambiental, lixão é problema ambiental. Não é possível separar desmatamento de dengue e de saneamento básico. É preciso convencer a população mais pobre de que melhorar as condições ambientais é garantir as condições de existência das pessoas. Mas a esquerda tradicional, como se está comprova ndo, mostra-se completamente despreparada para articular um discurso sobre a questão ambiental. Quando suas cabeças mais pensantes falam, tem-se a sensação de que estão apenas “correndo atrás”, tentando desajeitadamente capturar e reduzir ao já-conhecido um tema novo, um problema muito real que não estava em seu DNA ideológico e filosófico. Isso quando ela, a esquerda, não se alinha com o insustentável projeto ecocida do capitalismo, revelando assim sua comum origem com este último, lá nas brumas e trevas da metafísica antropocêntrica do Cristianismo.

Enquanto acharmos que melhorar a vida das pessoas é dar-lhes mais dinheiro para comprarem uma televisão, em vez de melhorar o saneamento, o abastecimento de água, a saúde e a educação fundamental, não vai dar. Você ouve o governo falando que a solução é consumir mais, mas não vê qualquer ênfase nesses aspectos literalmente fundamentais da vida humana nas condições dominantes no presente século.

Não se diga, por suposto, que os mais favorecidos pensem melhor e vejam mais longe que os mais pobres. Nada mais idiota do que esses Land Rovers que a gente vê a torto e a direito em São Paulo ou no Rio, rodando com plásticos do Greenpeace e slogans “ecológicos” colados nos pára-brisas. Gente refestelada nessas banheiras 4×4 que atravancam as ruas e bebem o venenoso óleo diesel, gente que acha que “contato com a natureza” é fazer rally no Pantanal…

É uma situação difícil: falta instrução básica, falta compromisso da midia, falta agressividade política no tratar da questão do ambiente — isso quando se acha que há uma questão ambiental, o que está longe de ser o caso de nossos atuais Responsáveis. Estes mostram, ao contrário e por exemplo, preocupação em formar jovens que dirijam com segurança, e assim ao mesmo tempo mantêm sua aposta firme no futuro do transporte por carro individual numa cidade como São Paulo, em que não cabe nem mais uma agulha. Um governo que não se cansa de arrotar grandeza sobre a quantidade de veiculos produzidos por ano. É um absurdo utilizar os números da produção de veiculos como indicador de prosperidade econômica. Isso é uma proposta podre, uma visão tacanha, um projeto burro de país.

Você está dizendo que muitos apelos ao consumo vêm do próprio governo. Mas também há um apelo muito grande que vem do mercado. Como você avalia isso?

O Brasil é um país capitalista periférico. O capitalismo industrial-financeiro é considerado por quase todo mundo hoje como uma evidência necessária, o modo incontornável de um sistema social sobreviver no mundo de hoje. Entendo, ao contrário de alguns companheiros de viagem, que o capitalismo sustentável é uma contradição em termos, e que se nossa presente forma de vida econômica é realmente necessária, então logo nossa forma de vida biológica, isto é, a espécie humana, vai-se mostrar desnecessária. A Terra vai favorecer outras alternativas.

A ideia de crescimento negativo, ou de objeção ao crescimento, a ética da suficiência são contraditórias com a lógica do capital. O capitalismo depende do crescimento contínuo. A ideia manutenção de um determinado patamar de equilíbrio na relação de troca energética com a natureza não cabe na matriz econômica do capitalismo.

Esse impasse, queiramos ou não, vai ser “solucionado” pelas condições termodinâmicas do planeta em um período muito mais curto do que imaginávamos. As pessoas fingem não saber o que está acontecendo, preferem não pensar no assunto, mas o fato é que temos que nos preparar para o pior. E o Brasil, ao contrário, está sempre se preparando para o melhor. O otimismo nacional diante de uma situação planetária para lá de inquietante é extremamente perigoso, e a aposta de que vamos nos dar bem dentro do capitalismo é algo ingênua, se é que não é, quem sabe, desesperada.. O Brasil continua sendo um país periférico, uma plantation relativamente high tech que abastece de produtos primários o capitalismo central. Vivemos de exportar nossa terra e nossa água em forma de soja, açúcar, carne, para os países industrializados – e são eles que dão as cartas, controlam o mercado. Estamos bem ne sse momento, mas de forma alguma em posição de controlar a economia mundial. Se mudar um pouco para um lado ou para o outro, o Brasil pode simplesmente perder esse lugar à janela onde está sentado hoje. Sem falar, é claro, no fato de que estamos vivendo uma crise econômica mundial que se tornou explosiva em 2008 e está longe de acabar; ninguém sabe onde ela vai parar. O Brasil, nesse momento da crise, está em uma espécie de contrafluxo do tsunami, mas quando a onda quebrar vai molhar muita gente. Essas coisas têm de ser ditas.

E como você avalia a relação dessa realidade macropolítica, macroeconômica, com as realidades do Brasil rural, dos ribeirinhos, dos indígenas?

O projeto de Brasil que tem a presente coalizão governamental sob o comando do PT é um no qual ribeirinhos, índios, camponeses, quilombolas são vistos como gente atrasada, retardados socioculturais que devem ser conduzidos para um outro estágio. Isso é uma concepção tragicamente equivocada. O PT é visceralmente paulista, seu projeto é uma “paulistanização” do Brasil. Transformar o interior do país numa fantasia country: muita festa do peão boiadeiro, muito carro de tração nas quatro, muita música sertaneja, bota, chapéu, rodeio, boi, eucalipto, gaúcho. E do outro lado cidades gigantescas e impossíveis como São Paulo. O PT vê a Amazônia brasileira como um lugar a se civilizar, a se domesticar, a se rentabilizar, a se capitalizar. Esse é o velho bandeirantismo que tomou conta de vez do projeto nacional, em uma continuidade lamentável entre as geopolítica da ditadura e a do governo atual. Muda ram as condições políticas formais, mas a imagem do que é uma civilização brasileira, do que é uma vida que valha a pena ser vivida, do que é uma sociedade que esteja em sintonia consigo mesma, é muito, muito parecida. Estamos vendo hoje, numa ironia bem dialética, o governo comandado por uma pessoa perseguida e torturada pela ditadura realizando um projeto de sociedade encampado e implementado por essa mesma ditadura: destruição da Amazônia, mecanização, transgenização e agrotoxificação da “lavoura”, migração induzida para as cidades. Por trás de tudo, uma certa ideia de Brasil que o vê, no início do século XXI, como se ele devesse ser o que os Estados Unidos foram no século XX. A imagem que o Brasil tem de si mesmo é, sob vários aspectos, aquela projetada pelos Estados Unidos nos filmes de Hollywood dos anos 50 – muito carro, muita autoestrada, muita geladeira, muita televisão, todo mundo feliz. Quem pagava por tudo isso éramos, entre ou tros, nós. (Quem nos pagará, agora? A África, mais uma vez? O Haiti? A Bolivia?). Isso sem falarmos na massa de infelicidade bruta gerada por esse modo de vida para seus beneficiários mesmo.

É isso que vejo, uma tristeza: cinco séculos de abominação continuam aí. Sarney é um capitão hereditário, como os que vieram de Portugal para saquear e devastar a terra dos índios. O nosso governo dito de esquerda governa com a permissão da oligarquia e dos jagunços destas para governar, ou seja, pode fazer várias coisas desde que a parte do leão continue com ela. Toda vez que o governo ensaia alguma medida que ameace isso,o congresso, eleito sabe-se como, breca, a imprensa derruba, o PMDB sabota.

Há uma série de impasses para os quais não vejo saída, não vejo como sair por dentro do jogo político tradicional, com as presentes regras – vejo mais como sendo possível pelo lado do movimento social. Este está desmobilizado; se não está, o que mais se ouve é que ele está. Mas se não for por via do movimento social, vamos continuar vivendo nesse paraíso subjuntivo, aquele em que um dia tudo vai ficar ótimo. O Brasil é um país dominado politicamente por grandes proprietários e grandes empreiteiros, que não só nunca fez sua reforma agrária, como onde se diz que já não é mais preciso fazê-la.

Você acha que as coisas vão começar a mudar quando chegarem a um limite?

A crise econômica mundial vai provavelmente pegar o Brasil no contrapé em algum momento próximo. Mas o que vai acontecer com certeza é que o mundo todo vai passar por uma transição ecológica, climática e demográfica muito intensa nos próximos 50 anos, com epidemias, fomes, secas, desastres, guerras, invasões. Estamos vendo as condições climáticas mudarem muito mais aceleradamente do que imaginávamos, e é grande a possibilidade de catástrofes, de quebras de safras, de crises de alimentos. Por ora, hoje, isso está até beneficiando o Brasil. Mas um dia a conta vai chegar. Os climatologistas, os geofísicos, os biólogos e os ecólogos estão profundamente pessimistas quanto ao ritmo, as causas e as consequências da transformação das condições ambientais em que se desenvolve hoje a vida da espécie. Porque haveria eu de estar otimista?

Penso que é preciso insistir que é possível ser feliz sem se deixar hipnotizar por esse frenesi de consumo que a mídia nos impõe. Não sou contra o crescimento econômico no Brasil, não sou idiota a ponto de achar que tudo se resolveria distribuindo a grana do Eike Batista entre os camponeses do semi-árido nordestino ou cortando os subsídios aos clãs político-mafiosos que governam o país. Não que isso não fosse uma boa ideia. Mas sou contra, isso sim, o crescimento da “economia” mundial, e sou a favor de uma redistribuição das taxas de crescimento. Sou também obviamente a favor de que todos possam comprar uma geladeira, e, por que não, uma televisão — mas sou a favor de que isso envolva a máxima implementação das tecnologias solar e eólica. E teria imenso prazer em parar de andar de carro se pudéssemos trocar esse meio absurdo de transporte por soluções mais inteligentes.

E como você vê o jovem nesse contexto?

É muito difícil falar de uma geração à qual não se pertence. Na década de 60 tínhamos ideias confusas mas ideais claros, achávamos que podíamos mudar o mundo, e sabíamos que tipo de mundo queríamos. Acho que, no geral, os horizontes utópicos se retraíram enormemente.

Algum movimento recente no Brasil ou no mundo chamou sua atenção?

No Brasil, a aceleração da difusão do que podemos chamar de cultura agro-sulista, tanto à direita como à esquerda, pelo interior do país. Vejo isso como a consumação do projeto de branqueamento da nacionalidade, esse modo muito peculiar da elite dominante acertar suas contas com o próprio passado (passado?) escravista.

Outra mudança importante foi a consolidação de uma cultura popular ligada ao movimento evangélico. O evangelismo das igrejas universais do reino de Deus e congêneres está evidentemente associado à religião do consumo, aliás.

E como você vê o surgimento das redes sociais, nesse contexto?

Isso é uma das poucas coisas com que estou bastante otimista: o relativo e progressivo enfraquecimento do controle total das mídias por cinco ou seis grandes grupos. Esse enfraquecimento está acontecendo com a proliferação das redes sociais, que são a grande novidade na sociedade brasileira e que estão contribuindo para fazer circular um tipo de informação que não tinha trânsito na imprensa oficial, e permitindo formas de mobilização antes impossíveis. Há movimentos inteiramente produzidos dentro das redes sociais, como a marcha contra a homofobia, o churrasco da “gente diferenciada” em Higienópolis, os vários movimentos contra Belo Monte, a mobilização pelas florestas. As redes são nossa saída de emergência para a aliança mortal entre governo e mídia. São um fator de desestabilização, no melhor sentido da palavra, do arranjo de poder dominante. Se alguma grande mudança no cenário político brasi leiro vier a acontecer, creio que vai passar por essa mobilização das redes.

Por isso se intensificam as tentativas de controlar essas redes por parte dos poderes constituídos – isso no mundo inteiro. Pelo controle ao acesso ou por instrumentos vergonhosos, como o “projeto” brasileiro de banda larga, que começa pelo reconhecimento de que o serviço será de baixa qualidade. Uma decisão tecnolotica e política antidemocrática e antipopular, equivalente ao que se faz com a educação: impedir que a população tenha acesso pleno à circulação cultural. Parece mesmo, às vezes, que há uma conspiração para impedir que os brasileiros tenham uma educação boa e acesso de qualidade à internet. Essas coisas vão juntas e têm o mesmo efeito, que é o aumento da inteligência social, algo que, pelo jeito, é preciso controlar com muito cuidado.

Você imagina um novo modelo político?

Um amigo que trabalhava no ministério do Meio Ambiente na época de Marina Silva me criticava dizendo que essa minha conversa de ficar longe do Estado era romântica e absurda, que tínhamos que tomar o poder, sim. Eu respondia que, se tínhamos de tomar o poder, era preciso saber manter o poder depois, e era aí que a coisa pegava. Não tenho um desenho político para o Brasil, não tenho a pretensão de saber o que é melhor para o povo brasileiro em geral e como um todo. Só posso externar minhas preocupações e indignações, e palpitar, de verdade, apenas ali onde me sinto seguro.

Penso, de qualquer forma, que se deve insistir na ideia de que o Brasil tem – ou, a essa altura, teria – as condições ecológicas, geográficas, culturais de desenvolver um novo estilo de civilização, um que não seja uma cópia empobrecida do modelo americano e norte-europeu. Poderíamos começar a experimentar, timidamente que fosse, algum tipo de alternativa aos paradigmas tecno-econômicos desenvolvidos na Europa moderna. Mas imagino que, se algum país vai acabar fazendo isso no mundo, será a China. Verdade que os chineses têm 5000 anos de historia cultural praticamente continua, e o que nós temos a oferecer são apenas 500 anos de dominação europeia e uma triste historia de etnocídio, deliberado ou não. Mesmo assim, é indesculpável a falta de inventividade da sociedade brasileira, pelo menos das suas elite políticas e intelectuais, que perderam várias ocasiões de se inspirarem nas soluções sociocultur ais que os povos brasileiros historicamente ofereceram, e de assim articular as condições de uma civilização brasileira minimamente diferente dos comerciais de TV. Temos de mudar completamente, para começar, a relação secularmente predatória da sociedade nacional com a natureza, com a base físico-biológica da própria nacionalidade. E está na hora de iniciarmos uma relação nova com o consumo, menos ansiosa e mais realista diante da situação de crise atual. A felicidade tem muitos caminhos.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Capital financeiro e mudança climática

Capital financeiro e mudança climática

“Estamos diante de um conflito de dimensões históricas: de um lado, a comunidade científica advertindo para que não se queime as reservas de combustíveis fósseis, do outro, as empresas e investidores que possuem interesses em realizar seus ativos (extrair e usas essas reservas). Quem prevalecerá?”, interroga-se Alejandro Nadal, em artigo publicado no jornal mexicano La Jornada, 06-02-2012. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.
As forças do capital financeiro tornarão muito difícil frear a mudança climática. Alguns dizem que a estr utura do setor financeiro não facilitará a transição para uma economia de baixo carbono. O problema é mais grave: o sistema financeiro é um potente obstáculo para prevenir uma catástrofe derivada do aquecimento global.

Para estimar os alcances do perigo é importante relembrar alguns dados. Na atualidade, a concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera chega a 394 partes por milhão (ppm). O CO2 é o gás de efeito estufa mais comum (não é o único, nem o mais potente). Os modelos mais desenvolvidos sobre mudança climática apontam que somente abaixo de 450 ppm de CO2 existe uma alta possibilidade de manter o aumento de temperatura dentro da casa dos doi s graus centígrados. Os cientistas consideram que esse limite não deve ser ultrapassado caso se queira evitar uma mudança climática catastrófica.

Estudos científicos consideram que para aumentar significativamente a probabilidade de permanecer abaixo desse limite mundial, é necessário limitar suas emissões, no período 2000-2050, para 886 gigatoneladas de dióxido de carbono (GTCO2). Na primeira década do século, foram emitidas 321 GTCO2, dessa forma, fica-nos disponível apenas um volume de 565 gigatoneladas para o período de 2010-2050.

Dados da organização “Carbontracker Initiative” revelam que se fossem extraídas e queimadas as conhecidas reservas mundiais de combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás), teríamos emissões superiores a 2.795 GTCO2. Isto quer dizer que estas reservas possuem cinco vezes mais carbono do que o limite acima mencionado, que é de 565 GTCO2. Extrair e usar reservas poderia levar a concentração de CO2 na atmosfera para 700 ppm, o que mudaria o planeta da forma como o conhecemos.

As reservas de combustíveis fósseis das 200 empresas mais importantes de carvão, petróleo e gás no mundo (empresas que negociam nas bolsas de valores) possuem reservas com um potencial de carbono de 745 GTCO2. Ou seja, caso estas empresas extraiam e queimem suas reservas, estaríamos ultrapassando em 180 GTCO2 o volume que está disponível para o período de 2010-2050 (as 565 GTCO2 mencionadas acima).

O problema é ainda mais sério porque estes números não incluem as empresas estatais e muito menos consideram as gigantescas reservas de gás natural dos xistos nos Estados Unidos e em numerosos outros países.

A questão é que as reservas nas mãos dessas companhias se encontram assentadas em seus livros e balanços, com um enorme valor monetário. Uma avaliação destas empresas admite que tais reservas serão efetivamente utilizada s, o que significa que haverá extração. Do ponto de vista contábil, não importa para ninguém se a utilização dessas reservas é suficiente para ultrapassar os perigosos limites dos dois graus centígrados. A mudança climática não é um conceito contábil. Dizendo de outra forma, caso existisse uma autoridade capaz de aplicar a restrição das 565 GTCO2, nos próximos quarenta anos, estas companhias poderiam queimar apenas 150 GTCO2. O restante, o carbono não injetado na atmosfera, seria ativo sem valor e se traduziria em perdas colossais para os investidores que comprometeram investimentos nessas empresas.

Essas 200 empresas do mundo da energia fóssil possuem um valor equivalente a 7,42 bilhões de dólares na bolsa. Os países com maior potencial de gases estufa, nas reservas de companhias que negociam na bolsa, são Rússia, Estados Unidos e o Reino Unido. E nas bolsas de valores de Londres, São Paulo, Moscou, Toronto e do mercado australiano até 30% da capitalização do mercado está vinculada a combustíveis fósseis.

Estamos diante de um conflito de dimensões históricas: de um lado a comunidade científica, advertindo para que não se queime as reservas de combustíveis fósseis, do outro, as empresas e investidores que possuem interesses em realizar seus ativos (extrair e usas essas reservas). Quem prevalecerá? Nos últimos 30 anos, o setor financeiro do mundo foi capaz de dominar a política macroeconômica. As prioridades da política monetária e fiscal do mundo inteiro respondem, atualmente (inclusive em meio à crise), às necessidades do capital financeiro. Por que seria diferente no âmbito da política sobre a mudança climática?

No momento atual, carecemos de um regime regulatório internacional, que permita pensar que a economia mundial pode reduzir sua pegada de carbono na atmosfera, dentro da velocidade que se requer. O Protocolo de Kyoto é uma quimera, e a única coisa que estabelece é um “compromisso” para chegar a um acordo em 2015, que deverá entrar em vigor em 2020. No setor financeiro, abrigam forças que objetarão fortemente a um acordo que evite o perigo da mudança climática catastrófica.

domingo, 31 de março de 2013

O capitalismo e a economia política da mudança climática

O capitalismo e a economia política da mudança climática

Aqueles que procuram nos governos ocidentais uma resposta eficaz encaram dois desafios. Primeiro, em face do aquecimento global, a premissa do capitalismo, que os indivíduos agindo em seus interesses individuais produzam bons resultados coletivos, é comprovadamente falsa. Este sistema tem aparentemente produzido o pior de todos os resultados: falha ambiental catastrófica que ameaça a maior parte da vida no planeta. O comentário é de Rob Urie, artista e economista político, em artigo publicado por Carta Maior, 15-01-2013.

Eis o artigo.

Em relatórios, 2012 foi o ano mais quente da história registrada nos EUA. A última década foi a mais quente já registrada globalmente. Mesmo para aquelas que sustentam outras hipóteses tamb ém se encaixam o aquecimento global, a consistência do aquecimento, a probabilidade conjunta em termos estatísticos, deve dar uma pausa, porque as consequências estão (1) muito longe e (2) são potencialmente catastróficas em relação a experiência humana anterior. Hipóteses alternativas não só precisam ser plausíveis em um sentido geral, eles exigem explicações específicas de como consistentemente o clima se aqueceu. Na verdade, não há outras explicações plausíveis para ambas a direção e a consistência das mudanças climáticas.

A hipótese do aquecimento 'causado pelo homem' se encaixa razoavelmente bem no cronograma do crescimento do capitalismo industrial. A indústria não capitalista, mais recente na história, porém existente, no entanto, acompanhou o imperialismo capitalista - a propagação do capitalismo global como um sistema de controle, dominação e expropriação. Em certa medida o crescimento do setor não capitalista tem si do uma reação à ameaça do imperialismo capitalista. Ele representa uma ameaça tanto interna como externa para as economias não capitalistas, na medida em que elas ainda existem. Na verdade, o capitalismo foi concebido para trazer uma ordem política alternativa e parece ter feito bastante sucesso.

O capitalismo é apresentado como um modo de organização social que gera muita riqueza. Que o imperialismo capitalista conseguiu desapropriar vasta riqueza é muito evidente. Se as consequências catastróficas do aquecimento global acontecerem, essa riqueza terá provado ser uma ilusão. Em um sentido filosófico, parece uma metáfora que entramos neste mundo com nada e deixá-lo-emos com nada, por que então a dedicação de vidas inteiras para aquisição de material constitui uma explicação plausível para a existência como capitalistas a tem? E por que um sistema baseado em racionalidades locais, esforço econômico pessoal, como Adam Smith, proprietário de uma pequena loja organizada dentre corporações globais, seria esperado a levar às racionalidades globais - resultados coletivos positivos, fora da lógica interna da ideologia capitalista?

Um pouquinho de aritmética ajuda a explicar muita coisa. Receitas - Despesas = Lucro. Lucros aumentam se os custos suportados pelos produtores caírem. O motivo de lucro, em produções capitalistas garante que custos de produção sejam forçados para outros, a menos que o capitalista seja obrigado a suportá-los. E a não ser que alguém queira argumentar que as criaturas do mundo não precisam de lugar para morar, comida para comer e água potável para beber, a destruição destes em produção capitalista é um custo, a cargo do produtor ou de ser suportado por outros. Até mesmo o mais radical economistas capitalistas de 'livre mercado' concordam que este conjunto de relações é um pré-requisito para o capitalismo, de qualquer forma: "trabalho." E a produção que ameaça acabar com o mundo, como o aquecimento global faz, significa que "lucros" da dita produção não existiriam se os capitalistas foram forçados a suportar os seus custos reais.

Aqueles que mesmo casualmente passaram por regiões de extração capitalista e / ou de produção industrial viram que os capitalistas quase nunca foram forçados a suportar os custos da produção capitalista. Das regiões de carvão da Pensilvânia para os locais industriais abandonados do ‘Rust Belt’, para os locais de extração de recursos envenenados no Ocidente a remoção do topo da montanha em West Virgínia, para as "areias de asfalto” de regiões do Canadá para minas de carvão na Mongólia, os custos em termos de não habitabilidade da terra e destruição de generosidade do planeta permanecerem enquanto os lucros acumulam-se.

Depois de esgotar os recursos e causando destruição os capitalistas historicamente simplesmente mudaram- se para territórios não empobrecidos e não destruídos ainda. A "tragédia dos comuns" usada na teoria da propriedade capitalista seria um inconveniente menor ao lado da "tragédia da propriedade privada" perpetrada pelo capitalismo, mesmo se já não fosse uma mentira cínica (ver o último quinto de O Capital de Marx, Vol. I para o contexto).

Mas este não é um conto de moralidade. Nem é o aquecimento global um acidente da história que ninguém assume a responsabilidade. É a épica luta social do nosso tempo. O capitalismo é uma forma de imperialismo econômico de que determinadas pessoas foram beneficiadas e continuam a se beneficiar da destruição do planeta. Os "indivíduos racionais" da teoria capitalista têm agregada a insanidade coletiva. E como a história está no processo de demonstração, a "mão invisível" de Adam Smith é uma ilusão - um mundo de pessoas que atuam em seus próprios estreitos interesses e conômicos resultou em um mundo onde as pessoas agem em seus próprios estreitos interesses econômicos até o suicídio coletivo.

Muito antes de o aquecimento global ser identificado, o problema das "externalidades", ou a tendência dos capitalistas para forçar seus custos de produção para as pessoas que veem nenhum benefício a partir dele, foi identificada e remédios foram procurados. Antes de se tornar uma ferramenta de Papa Koch, pai do infame 'Koch Brothers' e fundador da John Birch Society, o economista austríaco Friedrich Hayek argumentou que o papel legítimo do governo era para corrigir tais 'falhas de mercado' como a destruição ambiental. Mais tarde em sua vida, quando ele era totalmente uma ferramenta do capitalismo de Papa Koch, ele convenientemente (por causa de Papa Koch) argumentou que o capitalismo foi uma bênção para a humanidade e que soluções para as externalidades “baseadas no me rcado” eram preferidas.

Mas soluções baseadas no mercado para externalidades são uma farsa cínica em várias dimensões. Inicialmente, elas pressupõem produção ambientalmente destrutiva é fato eterno e o objetivo de "soluções" é limitar o crescimento a um nível de tendência que permanece coletivamente suicida. No segundo, em face de toda a experiência histórica em contrário, soluções baseadas no mercado assumem os mesmos capitalistas que passaram três séculos lucrando a partir da imposição de seus custos para os outros vão cumprir as regras, que eles mesmos claramente escreveram com pleno conhecimento que não existe, e não há planos para criar, um sistema confiável.

No terceiro, mesmo que tal sistema de aplicação fosse concebido e desenvolvido, a captura "privada" das instituições do Estado iria neutralizar a capacidade de execução. Finalmente, produção por dívida financiada cria tanto alavancagem financeira como i nstitucional. Credores beneficiam-se quando os custos de produção são transferidos para os outros, porque melhora a sua probabilidade de reembolso - e os credores controlam o dinheiro em uma economia baseada em dívida. A alegação de que mais capitalismo é a solução para as catástrofes do capitalismo só tem sentido em um sistema de lógica fechada; não existe um nível de catástrofe que tornaria "mais capitalismo" ilógico dentro das regras internas desta lógica.

Da mesma forma, a alegação que "consumidores" individuais podem resolver o aquecimento global através da escolha de produtos ecologicamente 'corretos' começa com a premissa de que os consumidores causam externalidades através da sua "escolha" de produtos. Primeiro esta afirmação assume que todos os consumidores conhecem os processos que envolvem a produção de bens e serviços, são capazes de quantificar a proporção de custos embutidos no preço dos produtos, versus aqueles que nã o são, e realmente tem escolhas. Segundo, ele assume que os consumidores não têm necessidades materiais. Agropecuária ocidental, de onde a maioria da comida dos ocidentais vem, é um dos principais contribuintes para o efeito estufa. A mudança para práticas agrícolas sustentáveis implausivelmente assume que os consumidores, tanto compreendem o impacto das práticas existentes como podem forçar uma mudança vinda de baixo. Terceiro, mais uma vez assume que o capitalismo é a solução para as catástrofes que o capitalismo cria - pessoas agindo em seu próprio interesse econômico irão agregar-se para servir o interesse do coletivo, mesmo não tendo sido bem sucedidos no passado.

Na verdade, a premissa de consumidores renunciando seus próprios interesses econômicos para servir ao bem coletivo, coloca uma mentira para a fundamental premissa do capitalismo. Em outras palavras, uma vez que é certo que "consumidores" poderiam e deveriam agir no interesse coletivo, a lógica interna do capitalismo rapidamente desaparece. Imperialismo capitalista está destruindo o planeta, principalmente para os seres que veem poucos benefícios (e muitas vezes grande mal) do sistema.

A única maneira de isso não constituir um assassinato em massa em uma escala nunca antes imaginada na história humana, é se o aquecimento global não for realmente uma ameaça; se a produção capitalista não esteja por trás disso, ou nenhuma das duas combinações. Apparatchiks capitalistas estão perseguindo dois caminhos em resposta - substituir o discurso social em torno da questão com uma resposta comercial - que utiliza todos os meios disponíveis para persuadir as pessoas que o problema não é real e / ou que as pessoas responsáveis por ele não são as responsáveis. A segunda faixa é propor soluções que (1) não questionem a natureza do problema - a economia política do capitalismo responsável pelo aquecimento global e (2), for necer a aparência de uma solução sem uma ação eficaz tendo lugar.

Aqueles que procuram nos governos ocidentais uma resposta eficaz encaram dois desafios. Primeiro, em face do aquecimento global, a premissa do capitalismo, que os indivíduos agindo em seus interesses individuais produzam bons resultados coletivos, é comprovadamente falsa. Este sistema tem aparentemente produzido o pior de todos os resultados: falha ambiental catastrófica que ameaça a maior parte da vida no planeta.

Se a teoria dos interesses individuais que se acumulam para o bem coletivo é falsa, então o é também a concepção liberal clássica do Estado. Se o papel do Estado, como imaginado na teoria capitalista, é a proteção dos interesses "privados" e os interesses privados estão levando o mundo para o suicídio coletivo (ou melhor, homicídio capitalista), o estado deve ser recuperado para servir os interesses coletivos.

Como os interesses privados atual mente no controle do Estado estão apertando sua permanência no poder através da construção de um estado policial corporativo, deixo aos leitores a propor contramedidas não confrontais susceptíveis de serem eficazes. Caso contrário, o aquecimento global é o confronto forçado em cima de nós.

Finalmente - Thomas Malthus foi provado um prisioneiro de sua ideologia de entropia, uma previsão de fome em massa com uma crescente população enfrentando um abastecimento de alimento estático. Sr. Malthus estava escrevendo nos estágios iniciais da expansão global do capitalismo.

As tecnologias agrícolas ligadas à produção capitalista expandiu a oferta de alimentos para alimentar a população crescente. Na verdade, o capitalismo reengenhou "o mundo" para ser dependente de produção capitalista.

Soluções tecnológicas para o aquecimento global, sem dúvida, serão colocadas à frente e testadas. Ma s a tecnologia está inexoravelmente ligada à lógica da produção capitalista, enquanto o capitalismo está a emergir como ‘o problema’. Só uma mudança fundamental para fugir dos estabelecimentos do capitalismo irá fornecer soluções viáveis. E o aquecimento global é um problema gradual de um sistema político que responde à crise. Uma política de crise em torno do aquecimento global deve surgir para a ação política eficaz coalescer.

quinta-feira, 28 de março de 2013

O mito do veneno que salva.

O mito do veneno que salva. Artigo de Ricardo Abramovay



“É difícil encontrar problema contemporâneo mais importante que o resultante dos 14 maiores projetos de exploração de carvão, petróleo e gás pelo mundo afora. Por um lado, cada um deles representa uma bênção a seus países de origem, oferecendo horizonte palpável de solução para a dependência energética (caso dos EUA), para a pobreza (caso da China) ou para a educação (caso do Brasil). Mas, quando se somam essas iniciativas, a bênção se converte em maldição”.

A análise é de
Ricardo Abramovay, professor titular da FEA e do IRI/USP, pesquisador do CNPq e da Fapesp, e autor de Muito Além da Economia Verde, ed. Planeta Sustentável, em artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo, 05-02-2013.
Eis o artigo.
É difícil encontrar problema contemporâneo mais importante que o resultante dos 14 maiores projetos de exploração de carvão, petróleo e gás pelo mundo afora. Por um lado, cada um deles representa uma bênção a seus países de origem, oferecendo horizonte palpável de solução para a dependência energética (caso dos EUA), para a pobreza (caso da China) ou para a educação (caso do Brasil).

Mas, quando se somam essas iniciativas, a bênção se converte em maldição: estudo recente divulgado pelo Greenpeace mostra que a queima adicional de combustíveis fósseis decorrente apenas dessas 14 iniciativas vai lançar na atmosfera, em 2020, o correspondente a tudo o que os EUA emitem hoje em gases de efeito estufa.

Como a exploração de combustíveis fósseis exige pesada estrutura de instalação e de distribuição (minas, poços, oleodutos, gasodutos, postos de gasolina), isso significa que esses 14 projetos colocam a humanidade num "ponto de não retorno" (título do trabalho do Greenpeace) com relação às mudanças climáticas.

A dimensão física do sistema de energia baseado em fósseis já é gigantesca. Ela se amplia a cada investimento adicional em carvão, petróleo e gás. Entre 2000 e 2008, por exemplo, a China investiu nada menos de US$ 300 bilhões em novas minas de carvão. A amortização desses investimentos só vai acontecer entre 2030 e 2040. Essas instalações continuarão funcionando até 2060, segundo um importante relatório das Nações Unidas. Investimentos em fósseis têm um impacto sobre a vida social que se prolonga por décadas.

O re sultado é aterrador: seis graus de elevação da temperatura global média até o final do século. É bom lembrar a convergência crescente entre os governos, as organizações multilaterais, a sociedade civil, o número crescente de empresas e a esmagadora maioria da comunidade científica de que o aquecimento derivado da emissão de gases de efeito estufa não deveria ir além de dois graus. O rumo atual é três vezes superior ao limite mencionado quase exaustivamente em conferências e documentos internacionais.

É verdade que novas tecnologias permitem obter
combustíveis fósseis cuja exploração até recentemente era inviável: é o caso do gás de xisto e do pré-sal. Não é menos certo que essa exploração pode trazer benefícios econômicos, sociais e at é geopolíticos fundamentais. É possível até que as ameaças ambientais desses projetos não sejam tão grandes quanto o habitualmente alardeado. Na maior parte dos casos, eles são acompanhados de promessas relativas à captação e à armazenagem de carbono ou à garantia de que os conhecimentos atuais impedirão que se repitam tragédias como a que atingiu o Golfo do México em 2010.

Nada disso, entretanto, elimina o mais importante e que, sobretudo no caso do
pré-sal brasileiro, não tem ocupado lugar devido no debate público: aumentar nessa proporção o uso de combustíveis fósseis coloca o conjunto da sociedade numa rota cujos perigos são apenas prenunciados pelo furacão Sandy, pelos incêndios florestais na Rússia, em 2010, ou pelo ciclone que chegou a Santa Catarina poucos anos atrás.

No mundo todo, crescem os investimentos em energias renováveis e em tecnologias explicitamente voltadas a reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Alguns dias após a divulgação do relatório do Greenpeace, a Bloomberg e o Business Council for Sustainable Energy publicaram um estudo que mostra o declínio das fontes tradicionais de energia nos Estados Unidos e uma elevação muito expressiva da participação do gás (que é fóssil, mas não tão sujo quanto o carvão e o petróleo) e de renováveis na matriz energética do país.

O trabalho enfatiza também os ganhos de eficiência no uso da energia por parte da indústria e dos domicílios. Um avanço certamente fundamental que justifica a afirmação: "Uma revolução está transformando a maneira como os americanos produzem, consomem e pensam sobre energia". Esse avanço, entretanto, corre o risco de ser ofuscado pelo estrago advindo da oferta adicional de combustíveis fósseis em diferentes países, mencionados e quantificados no trabalho do Greenpeace.

Em vez simplesmente de surfar na onda do atraso representada por esses investimentos, o Brasil teria muito mais a ganhar caso consolidasse sua matriz energética menos dependente de fósseis que o resto do mundo, mas, ao mesmo tempo, se liderasse uma discussão global cujo ponto de partida só pode ser a pergunta: qual a quantidade de gases de efeito estufa que a economia mundial ainda pode emitir para que haja chance de não ultrapassar o limite de dois graus?

Em 2012, a Agência Internacional de Energia respondeu a essa pergunta com toda a clareza em seu World Energy Outlook: se a civilização tiver prioridade diante da renda dos combustíveis fósseis, não mais que 30% das reservas hoje conhecidas poderão ser exploradas.

O problema é que a viabilidade econômica dessas explorações é incompatível com esse limite. Além disso, como a decisão referente a esses investimentos não é tomada levando em conta seus efeitos globais, cada país, cada empresa dá as costas aos evidentes impactos destrutivos desses projetos e age como se a oferta de combustíveis fósseis e o aquecimento global fossem dois temas independentes um do outro.

Não é sensato que o caminho para a redenção social, para a independência energética ou para qualquer outro objetivo relevante tenha como contrapartida a tão grande ampliação dos riscos a que a miopia dos governos e a ambição das empresas petrolíferas estão expondo a espécie humana.