sexta-feira, 25 de julho de 2008

EXCESSOS DO CULTURALISMO: PÓS-MODERNIDADE OU AMERICANIZAÇÃO DA ESQUERDA ?



Por: J.A. LINDGREN ALVES


Embaixador de carreira, atual cônsul geral do Brasil em São Francisco (EUA), ex-diretor geral do Departamento de Direitos Humanos e Temas Sociais do Ministério das Relações Exteriores (Brasília) e ex-membro da Subcomissão das Nações Unidas para a Prevenção da Discriminação e Proteção das Minorias (Genebra)




Resumo


Assim como o neoliberalismo, as teorias da pós-modernidade espalharam-se por todo o mundo, em um processo que teve início nos Estados Unidos. Os movimentos sociais, ao se tornarem culturalistas, incorporaram e desenvolveram o pós-modernismo, abandonando o universalismo que sempre caracterizara as posições de esquerda. Essa americanização dos movimentos sociais permitiu estabelecer firmemente as questões de gênero, sexualidade e etnicidade na agenda política, mas tal agenda se tornou tão exclusivista que deixou de contemplar conquistas sociais mais amplas. Tendo em conta a especificidade de cada situação, os movimentos sociais do Brasil precisam saber avaliar melhor os modelos que pretendem seguir.

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Jameson



One remembers, indeed, Freud’s delight at discovering an obscure tribal culture, which alone among the multitudinous traditions of dream-analysis on the earth had managed to hit on the notion that all dreams had hidden sexual meanings – except for sexual dreams, which meant something else! So also it would seem in the postmodernist debate, and the depoliticized bureaucratic society to which it corresponds, where all seemingly cultural positions turn out to be symbolic forms of political moralizing, except for the single overtly political note, which suggests a slippage form politics back into culture again.1
FREDRIC JAMESON, 1984



Zizek




It is crucial to perceive how postmodern racism emerges as the ultimate consequence of the postpolitical suspension of the political, of the reduction of the state to a mere police agent servicing the (consensually established) needs of market forces and multiculturalist, tolerant humanitarianism.2
SLAVOJ ZIZEK, 1998


INTRODUÇÃO

No cenário de desumanização em que acaba de transcorrer a passagem do século XX ao século XXI, os males de nosso mundo canhestramente globalizado são quase sempre atribuídos, com justíssimas razões, ao absolutismo do mercado como única verdade nos quatro cantos da Terra.
Raramente assumido pelos agentes que o propagam com a designação doutrinária que o torna reconhecido, o neoliberalismo penetra e se consolida inclusive nas cidadelas antes mais inexpugnáveis ao imperialismo do capital. Menos perceptível, porque muito mais sutil, e muito menos criticada, porque geralmente vista por seu lado positivo, a mesma disseminação se dá com as idéias da pós-modernidade e seu antiuniversalismo.
Originárias do Ocidente tanto quanto o iluminismo por elas denunciado, as teorias “pós-modernas” são hoje em dia estudadas em quase todo o planeta, na Europa como nas Américas, na Índia como na Eslovênia, na Sérvia como na Austrália, nos centros de estudos de Berkeley como nas universidades de Pequim (ou Beijing, como se diz agora). Entendê-las é sempre bom, em qualquer parte do mundo. Difícil é evitar que sua manipulação não acabe funcionando como alavanca e escusa aos males generalizados pelo absolutismo do mercado.
Enquanto na esfera da economia, o neoliberalismo é, como se alega, a doutrina necessária daquilo que a tradução do “idioma global” rotula de capitalismo tardio (em inglês, late capitalism), a pósmodernidade – ou pós-modernismo, no dizer de grandes críticos como Fredric Jameson e Terry Eagleton – é a lógica cultural que o fundamenta e dele emana na esfera das artes, da literatura, das ciências humanas e de práticas político-sociais correntes. Por menos que assim deseje o logos relativizante do pósmodernismo “epistêmico” (para falar com Foucault), simultaneamente individualista e anti-subjetivista num desconstrutivismo infinito (para falar com Derrida), sua praxis da diferença exacerbada concorre fatalmente para que o mercado se apresente como o universal que sobrou. Mais do que pelo fim da Guerra Fria e do chamado “socialismo real”, isso se tornou possível porque em algum momento do século XX, particularmente em torno de 1968, os antigos atores das lutas universalistas passaram a encarar separadamente cultura e economia. E, como quase tudo o que tem ocorrido na experiência histórica do mundo desde o século XVIII, para o bem e para o mal, essa separação metodológica, intelectualmente engendrada no pensamento europeu, traduziu-se em práticas consistentes primeiro nos Estados Unidos. De lá se espalhou por todos os continentes, num processo de americanização muito pouco analisado.
Quando se diz americanização, pensa-se logo, em geral, pelo lado positivo, no espírito empreendedor que constrói obras fabulosas, no pragmatismo imediatista do pensamento e da ação, na paixão pelo novo como sinônimo de progresso, na divulgação dos ideais e dos meios de higiene e conforto, no liberalismo político e nas instituições-modelo das democracias modernas. Pelo lado negativo, costumam vir à mente, ademais da imagem costumeira do capitalista gordo (que antes fumava charuto e hoje é antitabagista sobretudo para não pagar contribuições sociais e indenizações) a esmagar o trabalhador, a propaganda eficaz comercial ou não, os modismos de gosto duvidoso, as baboseiras hollywoodianas, os hambúrgueres sabor-papel engolidos com Coca ou Pepsi-Cola, o consumismo irrefreável como vício e auto-afirmação, a dominação da realidade pelos media – ou pela “mídia”, como se diz no Brasil, com redação aportuguesada e gênero e número invertidos de palavra latina pronunciada em inglês.
Há também, evidentemente, americanizações que são neutras, como a dos jeans e do rock, totalmente universalizados. Mas existe, igualmente, outro tipo de americanização cultural, mais sutil e ambivalente, a que pouca gente se refere, até porque talvez dela não se dê a devida conta: a americanização de movimentos sociais a partir de suas lideranças. Sua compreensão é necessária ao nosso Brasil
dual, onde o arcaico e o pós-moderno convivem num (des)equilíbrio absurdo, a fim de que a luta imprescindível pela modernização nacional não se venha a revelar ainda mais problemática do muito que já tem sido.
Para procurar entender essa americanização “da esquerda” é preciso retroceder no tempo a uma fase também tumultuada, mas num sentido distinto de nosso tumulto atual.

OS GOOD OLD SIXTIES E A CULTURALIZAÇÃO DA POLÍTICA

Os “bons anos 60” são para qualquer um a época dos Beatles e da bossa nova, do LSD e dos grandes festivais, de Kennedy e de Khrushev, do Sputnik e da viagem à Lua, de Che Guevara e de Mao, da pílula anticoncepcional e do sexo livre sem ids. São igualmente anos de Guerra Fria e Guerra do Vietnã, de desobediência civil e rebelião dos jovens, de revolução e contra-revolução, da Primavera de Praga e da Doutrina Brejnev. São também, em vastas partes do mundo relativamente periféricas (o Brasil, entre elas), anos de agitação e golpes militares, de passeatas e repressão, de idealismo utópico e ditaduras crescentemente sombrias. Para a Organização das Nações Unidas (ONU), a década de 60 foi, sobretudo, a década da descolonização. Foi nela que se deu a independência do maior número de Estados afro-asiáticos emersos do sistema colonial.
Foi nela que se estabeleceu o conceito positivo de um Terceiro Mundo capaz de produzir progresso com liberdade para toda a “aldeia global”, e ganhou foros de possibilidade tangível uma Nova Ordem Econômica Internacional – sepultada antes de nas cer. Foi, apesar de tudo, no cômputo geral do mundo, uma época de otimismo, embalado por esperanças emancipatórias, com crença num futuro solidário, diferente da época presente.
Entre os acontecimentos de maior influência local e internacional até agora, a década de 60 testemunhou os êxitos do movimento negro norte-americano pelos direitos civis, assim como o encerramento de sua mobilização nacional unitária e unificadora. Testemunhou da mesma forma o fortalecimento do movimento de mulheres como força social autônoma, assinalando o início da revolução que causou. Ambos os movimentos e suas transformações tiveram e têm ainda reflexos bastante profundos no cenário brasileiro.

Os Avatares do Movimento Norte-americano pelos Direitos Civis

É ponto pacífico entre historiadores da matéria que o assassinato de Martin Luther King Jr., em 4 de abril de 1968, praticamente encerrou a fase do movimento norte-americano pelos direitos civis, que exigia do governo da União responsabilidade e
ação garantidora da não-discriminação racial. Encerrou-o não somente porque foi conseqüência imediata dessa morte a aprovação pelo Congresso do Civil Rights Act de 1968, que deveria culminar a reforma legislativa em defesa da igualdade formal, proibindo a discriminação habitacional e federalizando a obrigação de controlar ingerências contra direitos da pessoa. Encerrou-o sobretudo porque, depois dela, as facções predominantes no movimento negro – que já existiam antes, mas não eram tão expressivas – não mais compartilhariam o “sonho” de Martin Luther King de uma “cidadania de primeira classe”, numa sociedade irmanada, em que as pessoas não fossem julgadas “pela cor de sua pele, mas pelo conteúdo de seu caráter”.3 Visibilidade e impacto maior, nos Estados Unidos e no resto do mundo, passaria a ter a movimentação black power, cujo líder Stokely Carmichael logo advertiu a “América Branca” do erro que ela teria cometido: o de “matar o único homem de nossa raça, na geração mais velha do país, a quem os militantes, os revolucionários e as massas de pessoas negras ainda escutariam”.4
Na seqüela do assassinato de Luther King, os guetos urbanos negros entraram em convulsão. Os levantes civis de caráter racial, em mais de uma centena de cidades, e a repressão a eles tiveram um saldo negativo de 40 mortos, três mil feridos e bilhões de dólares perdidos em propriedades destruídas.5 Pior e mais conseqüente foi o fortalecimento, naquele período, da convicção entre os jovens negros de que a sociedade norte-americana seria, nas palavras de Alan Brinkley, “irredimivelmente racista”, e o “liberalismo tolerante e inter-racial, inadequado à tarefa da libertação”.6 Para isso também contribuiu o assassinato de Robert Kennedy, pré-candidato à presidência da República pelo Partido Democrata, em 6 de junho de 1968, como que a reconfirmar, trágica e eloqüentemente, a suposta incapacidade de assimilação das aspirações igualitaristas da população pobre, em geral, e das minorias étnicas, em particular, pelo liberalismo avançado, que ele simbolizara. Reação ajustada a um sistema segregacionista, que, conforme herança classificatória escravista do antigo Império Britânico, definia a população nãobranca pelo critério de “uma gota de sangue” (este permitira no passado a escravidão de quem tivesse algum ascendente negro e até hoje rejeita a mestiçagem como espúria), o radicalismo black power, que se tornou predominante no movimento negro norte-americano, ainda assim não era monolítico. Na classificação de Manfred Berg, havia entre seus militantes diferentes facções, “pluralistas” e “nacionalistas”. Os “pluralistas” postulavam o “controle comunitário” do comércio, das escolas e da polícia nas áreas de população negra, além de organizações políticas efetivamente independentes (em contraste com a National Association for the Advancement of Colored People–NAACP, maior agrupamento nacional, até agora existente, que sempre dialogou com o governo, exerce pressão no Congresso e repudia o racismo às avessas). Mas eram reputados moderados por aceitarem a idéia de uma “sociedade norteamericana”. Os “nacionalistas”, por sua vez, subdividiam-se em separatistas territoriais, revolucionários anticapitalistas e culturalistas afrocêntricos. Todos utilizavam conceitos e terminologia marxista, mas todos davam prioridade – ou exclusividade – ao recorte racial sobre o recorte de classe.7 A continuação dessa história é bastante conhecida. Enquanto os programas sociais da “guerra contra a pobreza” de Lyndon Johnson sucumbiam ante os gastos – e derrotas – da guerra do Vietnã, e a “nova esquerda” assumia um revolucionarismo extremamente difuso, a exacerbação “nacionalista” – hoje em dia se diz culturalista – do movimento negro alienou os brancos liberais que com ele se aliavam e votavam no Partido Democrata. O segregacionismo branco voltou ao proscênio com a candidatura independente de George Wallace à presidência da República;8 a classe média, normalmente alienada, que simpatizara com os negros sofredores do início da década, passou a encarar o movimento negro crescentemente assertivo como uma ameaça à Nação; Richard Nixon foi eleito presidente pelo Partido Republicano no final de 1968 (tendo sido ele quem, afinal, adotou o sistema de quotas nas contratações de serviços públicos, que complementariam
a “ação afirmativa” da esfera da educação).
O movimento negro norte-americano, como instrumento articulador de luta no cenário político nacional, praticamente deixou de existir. Manteve, por outro lado, perfil alto e militante no exterior. Já havendo influído na Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, de 1965 (cujo artigo 4.º preconiza o sistema de preferências da “ação afirmativa”), seu consistente ativismo na campanha internacional contra o apartheid sul-africano, até a abolição desse regime, teve provavelmente maior repercussão em governos estrangeiros do que nos governos de Washington. Serviu e serve ainda de modelo, em muitos aspectos, às lutas dos negros brasileiros e de outros países, por reconhecimento e melhores condições sociais. Dentro do país, porém, sua influência se manifesta quase exclusivamente no campo cultural.
Escritores negros, norte-americanos e de outras nacionalidades, passaram a fazer parte do cânon obrigatório escolar; os livros didáticos atuais procuram valorizar o elemento negro na história do país; as grandes universidades contam com departamentos de estudos étnicos. Até mesmo uma celebração alternativa ao Natal, a Kwanzaa, inventada em Los Angeles, em 1996, por Ronald McKinley (rebatizado Maulana Ron Karenga) com denominação swahili e inspiração africana, mas não existente na África, foi oficializada no calendário cívico-escolar entre 26 e 31 de dezembro, para livrar os afro-americanos da “humilhação” de comemorar um festejo europeu.9 Sintomaticamente, numa população negra ainda majoritariamente cristã e protestante, bastante dividida hoje em dia pelo viés classista (inclusive no que diz respeito às posições diante da ação afirmativa, ora em declínio no país), o grupo politicamente militante mais numeroso, herdeiro da tradição black power nos dias atuais, parece ser a Nação do Islã, liderada por Louis Farrakhan, espécie de resposta culturalista ao movimento branco da Identidade Cristã, protestante e profundamente racista.10 Em 1968, pouco após a morte de Martin Luther King, seu herdeiro e continuador político Ralph Abernethy tentou reeditar a histórica Marcha sobre Washington de 1963, decisiva no contexto da luta pelos direitos civis, na qual King uma vez mais expusera, com grande repercussão, o seu “sonho” igualitarista.11 A passeata de Abernethy, cinco anos depois, tinha o objetivo de manter viva a mobilização integracionista, já então voltada contra a pobreza e a discriminação econômica incidente sobretudo nos negros, acorde com a visão de King (por ele preconizada, mas nos dias de hoje quase totalmente esquecida) de que os direitos civis não se realizam separadamente dos direitos econômico-sociais. O evento de 1968 obteve participação e repercussão diminutas. Em 1995, o líder muçulmano Louis Farrakhan decidiu fazer o mesmo de 1963, convocando uma “Marcha de Um Milhão” sobre Washington. Tendo ou não realmente um milhão de participantes, a convergência de negros em 1995 sobre a capital da República causou impacto pela magnitude e trouxe à Nação do Islã grande notoriedade. Impressionou, da mesma forma, num sentido radicalmente oposto, porque, ao contrário do caráter abrangente e multirracial de sua antecessora exitosa dos tempos de Luther King, a marcha de Farrakhan excluiu não somente os brancos, mas também as mulheres de qualquer raça ou cor.12 Ao alienar as mulheres dessa grande iniciativa e, conseqüentemente, da atividade política em geral, em paralelo à exibição de um fundamentalismo retrógrado que poucas nações islâmicas africanas ou asiáticas ainda ousariam ostentar,13 a Nação do Islã norte-americana se auto-elimina a possibilidade de receber apoio de outros movimentos sociais conseqüentes, particularmente daquele que mais cresceu desde a década de 60, nos Estados Unidos e internacionalmente: o movimento das mulheres.

O Movimento Internacional das Mulheres: feminismo da igualdade e feminismo da diferença

É fato bastante documentado, pelo menos no Ocidente, que a luta histórica das mulheres por seus direitos humanos, gerais e a elas específicos, vem de longa data. Todos conhecem a figura das sufragettes norte-americanas e britânicas em suas manifestações pelos direitos políticos da população feminina, por tanto tempo denegados ainda no século XX.
Muitas mulheres e homens, não necessariamente militantes, são familiarizados com o extraordinário projeto de Declaração dos Direitos da Mulher, redigido por Olympe de Gouges no calor da Revolução Francesa. Alguns – mais corretamente, algumas – terão lido a obra de Mary Wollstonecraft A Vindication of the Rights of Women, também do século XVIII. Praticamente todas as sociedades, ocidentais e orientais, atualmente cultivam com admiração as personagens históricas respectivas que funcionaram como precursoras do movimento feminista. Foi, contudo, na década de 60, no contexto das lutas antiautoritárias da chamada “nova esquerda”, com sua visão abrangente das opressões disseminadas nas sociedades capitalistas, assim como nos países de socialismo burocrático, e com o célebre slogan de que “o pessoal é político”, que o movimento social das mulheres, como atualmente entendido, começou a firmar-se com autonomia e vigor. Emergiu nos Estados Unidos em paralelo aos movimentos contra a Guerra do Vietnã e pelos direitos civis, recebendo desse segundo influência notável. Um de seus marcos foi, por sinal, a fundação por Betty Friedan, em 6 de outubro de 1966, da National Organization of Women (NOW), que, a exemplo do NAACP dos negros, postulava a igualdade de direitos – nesse caso com os homens – em todos os aspectos da vida social, econômica e institucional.14 Cronista “engajado” da rebelião dos anos 60, Todd Gitlin descreve, com episódios ilustrativos, como as estudantes e jovens norte-americanas militantes da nova esquerda foram se distanciando gradativamente de seus companheiros de campanhas libertárias e igualitaristas, no curso de 68. Faziam-no ao observar, na pele própria e das outras, a distância gritante existente entre o antiautoritarismo por eles propugnado e o conservadorismo opressivo que mantinham nas relações privadas.15 A autonomia, originalmente forjada em grupos de estudo que liam Simone de Beauvoir e Betty Friedan, desenvolvia teorias próprias, emancipatórias, a respaldar sua asserção política, e se organizava em redes, nacionais e transnacionais, para a ação desejada. Germinaria primeiro na forma do movimento women’s lib, que iria incentivar suas homólogas transcontinentais na Europa Ocidental,16 na América Latina, no Japão e no Brasil, ainda durante a efervescência social de 1968.
Ao contrário do movimento negro norteamericano, arrefecido no final dos anos 60 em contraste com a radicalização das facções culturalistas, o movimento de mulheres ganhou força decisiva a partir dos anos 70. Isso se deu tanto em função de seu ativismo manifestado em diferentes países, como por sua penetração no âmbito da Organização das Nações Unidas (ONU) e sua incorporação pelo Conselho Econômico e Social. A ONU proclamou 1975 como “Ano Internacional da Mulher”, convocando na cidade do México a I Conferência Mundial sobre a Mulher: Igualdade, Desenvolvimento e Paz, a qual, por sua vez, ensejou a elaboração da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher, adotada pela Assembléia Geral em 1979 (internacionalmente em vigor desde 1981, embora com muitas reservas).
A Conferência do México de 1975 iniciou a série de encontros mundiais sobre a situação da mulher, o quarto dos quais até agora – mas certamente não o último da série – foi a Conferência de Beijing, de 1995, maior encontro internacional de todos os tempos.17
Não cabe aqui uma tentativa de análise das diferentes vertentes do movimento feminista, que variavam desde posições igualitaristas, liberais e socialistas (feminismo da igualdade), às posturas essencialistas, antipatriarcais e “separatistas”, associadas ou não ao lesbianismo prático e ideológico (feminismo da diferença), muitas vezes em articulação com o movimento dos gays.18 Cabe, sim, observar que, ademais da entrada maciça das mulheres no mercado de trabalho em escala planetária, de sua crescente presença na vida pública, política e econômica da maioria dos países, das conquistas representadas pelas creches e legislações de apoio à maternidade, pela afirmação de seus direitos reprodutivos e sexuais, o movimento de mulheres praticamente modificou em todo o mundo a maneira de pensar e, em muitas partes, o comportamento de todos. Com raras exceções deliberadas e ainda muitos deslizes de linguagem geralmente inadvertidos (até mesmo entre as mulheres), o homem já não se apresenta sozinho como sinônimo da espécie; os direitos humanos, em todas as suas categorias, passaram a abranger também, necessariamente, todos os direitos da mulher; 19 o discurso oficial dos governos e movimentos sociais – sem falar no da Academia – passou a atentar mais seriamente para as distorções que o discurso
tradicional embutia, facilitando a perpetuação de opressões; a mulher tornou-se afinal reconhecida universalmente como sujeito da História (exceto provavelmente para pós-modernos empedernidos que rejeitam as noções “iluministas” de história e de sujeito, de natureza humana e, sobretudo, de valores universais).
De todos os conceitos oriundos do pensamento feminista, o que se tem comprovado mais permanente e conseqüente é o do gênero. Na expressiva colocação de Gerda Lerner, ele seria “a de- finição cultural de uma conduta como apropriada aos sexos em uma sociedade dada em uma época dada. Gênero é uma série de papéis culturais. É um disfarce, uma máscara, uma camisa de força na qual os homens e mulheres dançam sua dança desigual”. 20
Interpretado a partir da linguagem dominante, mas em oposição a um determinismo biológico atribuído ao sexo, o conceito feminista de gênero desvendou as relações de poder que subjaziam à limitação “natural” da mulher ao espaço doméstico, revelando a posição de inferioridade que lhe era culturalmente imposta. Foi, no dizer de María-Milagros Rivero Garretas, “uma categoria de análise tremendamente libertadora quando cunhada no início dos anos 70”, embora com o passar do tempo ela se tenha revelado “menos revolucionária do que as de patriarcado ou de política sexual”.21 Talvez precisamente por isso, por ser menos revolucionária, a conceituação feminista de gênero tenha obtido aceitação universal. Incorporada também pelos homens, ela é hoje consagrada em diversos documentos normativos internacionais, em particular na Plataforma de Ação da Conferência de Beijing, de 1995. Esta assinala em seu terceiro parágrafo: A Plataforma de Ação salienta que as mulheres compartilham problemas comuns que só podem ser resolvidos por seu trabalho conjunto e em parceria com os homens para alcançar o objetivo da igualdade de gênero em todo o mundo. Ela respeita e valoriza a total diversidade de situações e condições das mulheres e reconhece que algumas mulheres enfrentam barreiras especiais a sua
capacitação.22 Ainda que o chamado “feminismo da diferença” continue a produzir teorias revolucionárias com algum alcance prático entre grupos reduzidos, não é ele que se tem demonstrado útil para os avanços das mulheres em geral. Seja na Conferência de Beijing, seja na prática social de quase todos os países, é o “feminismo da igualdade” que tem conseguido vitórias, acrescidas ao longo dos anos (malgrado graves regressões, relativamente isoladas em determinadas regiões e culturas). Tais conquistas gradativas, que representam, no conjunto, profunda ruptura com uma tradição histórica de mais de 4 mil anos, asseguram plenamente ao movimento de mulheres nascido na década de 60 inquestionável caráter revolucionário, não sendo exagerado afirmar ter ele constituído, no século XX, a única revolução que deu certo – apesar de obviamente inacabada.

OS IMPASSES DO CULTURALISMO EXACERBADO

Se até o momento este texto se concentrou nas experiências dos movimentos dos negros e das mulheres, iniciados nos Estados Unidos e extrapolados para o resto do mundo com as necessárias adaptações, é porque ambos trazem em si, no que têm de vitoriosos, a mensagem do universalismo, sem a qual se dissolve a idéia dos direitos humanos. No entanto, para muitos intelectuais que se pretendem comunitariamente orgânicos numa linha gramsciana desvinculada de classe, essas “facções” de maior êxito em ambos os movimentos alegadamente não representariam “a esquerda”. Esta residiria apenas no essencialismo radical do “culturalismo” aguerrido, praticado na Academia, dos Estados Unidos e alhures.
Não é preciso recorrer ao chavão despiciente do “politicamente correto” (PC), usado pela direita para criticar os excessos do culturalismo. A um observador distanciado como o autor destas linhas impressiona a freqüência com que se lê e ouve nos Estados Unidos a expressão culture wars (guerras de culturas), significando o radicalismo identitário da militância cultural, o patrulhamento por ela dos estudos e da linguagem acadêmica, em detrimento da participação efetiva em causas abrangentes de interesse geral. Impressiona mais ainda a massa crítica de estudos aprofundados por intelectuais que se autoconsideram de esquerda – sejam da “esquerda antiga”, progressista liberal ou socialista, sejam ex-integrantes
da “nova esquerda”, agora já envelhecida, sejam ainda pragmáticos pós-modernos, de esquerda moderada – preocupados com a fragmentação política propiciada pelo multiculturalismo rígido ora praticado na sociedade norte-americana.23 Exagerada ou acurada, soa significativa a imagem, já quase clássica, de Todd Gitlin, em seu Crepúsculo de Sonhos Comuns (título de livro que é de per si um grande achado), de que “enquanto a esquerda marchava sobre os departamentos de inglês nas universidades, a direita conquistava a Casa Branca”.24 Bastante citada pelos que compartilham tal preocupação, a frase de Todd Gitlin resume acuradamente as idéias e inquietações dele próprio e de todos os demais. Porque foi a partir da opção pelo direito à diferença na militância radical de esquerda que o conservadorismo se firmou, de maneira quase absoluta, na política norte-americana. Firmou-se, aliás, antes e mais profundamente do que o próprio neoliberalismo (este iniciado com Reagan) como verdadeiro pensamento único das elites dominantes. Com seus aspectos morais e religiosos muito estritos, suas vertentes nativistas e patrióticas, seus valores tradicionais de família e comunidade (ainda que com acenos episódicos em favor de parentes homossexuais “desgarrados”), mas nenhuma atenção à situação de classe e à exploração pelo poder, o conservadorismo norte-americano ficou tão “consensual”
que tornou negligenciáveis as diferenças entre os dois grandes partidos. Quem tiver dúvidas sobre sua continuidade até os dias de hoje pode consultar as eleições presidenciais de 2000, de resultados tão próximos quanto os programas dos dois candidatos principais, sem desatentar para a performance irrisória da alternativa oferecida por Ralph Nader e o Partido Verde à chamada corporate America. É, aliás, sob o rótulo oficial de “conservadorismo compassivo” que o novo presidente da República, George W. Bush, dá início, no século XXI, ao governo da única potência mundial verdadeira.
É verdade que as preocupações dos autores aqui aludidos voltam-se para a sociedade norteamericana em sua especificidade, ecoando, com análises e sugestões, dúvidas levantadas em muitas áreas – e muito exploradas pela direita – se ainda existiria de fato uma nação norte-americana. Mas a insistência dessas preocupações deve valer pelo menos como sinal de alerta também para outros povos em que o multiculturalismo imperfeito também está presente, com graus maiores ou menores de explosividade latente.
Com ou sem nexo causal imediato, desde que os grandes movimentos sociais, começando pelos Estados Unidos, passaram a atentar mais para objetivos identitários do que para a comunidade nacional e o universo de todos os seres humanos, o neoliberalismo implantou-se decisivamente em todo o globo terrestre. As “guerras culturais” adquiriram, no mundo, feições muito mais sangrentas do que na América (do Norte ou do Sul). Os conflitos novos da ex-Iugoslávia, da Chechênia, da Ásia Central exsoviética, de Ruanda, do Burundi, do Congo, assim como outros, antigos, recrudescidos por quase todo o continente asiático, são casos de gravidade variada em que minorias identitárias étnicas ou religiosas explodem ou são esmagadas com violência, na periferia do mundo globalizado pelo neoliberalismo multicultural. A mesma lógica se manifesta no centro europeu do sistema internacional, em incidentes de agressão discriminatória, muitas vezes respaldada por políticas “nacionalistas”, contra imigrantes, ciganos e judeus. Não se precisa, portanto, de especialização no tema das minorias para perceber, como o professor Will Kymlicka, que “desde o fim da Guerra Fria, os conflitos etnoculturais tornaram-se a fonte mais comum de violência política no mundo, e eles não mostram qualquer sinal de arrefecimento”. 25 Nem é de estranhar tampouco que o crítico mais versátil e profundo da obsessão multiculturalista – que ele chama de pós-moderna e pós-política, associada ao livre mercado e ao humanitarismo – surgido nos anos 90 seja originário de país que antes integrava a esfacelada Iugoslávia: o filósofo e psicanalista esloveno Slavoj Zizek, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Ljubljana.26 Não se quer aqui dizer que a insistência no cultural como elemento de autoconscientização não tenha representado papel emancipatório importante, ou que a abstração da cultura do determinismo econômico, impulsionada pelo pós-estruturalismo francês e adotada com grande convicção pela “nova esquerda” dos anos 60 e 70, não tenha sido útil, em especial no Ocidente. Porque esclarecedora de muitos aspectos até então encobertos das realidades sociais, a separação interpretativa desses dois condicionantes – cultura e economia – conscientizou vastos segmentos populacionais para mobilizações necessárias. A compreensão das opressões disfarçadas no discurso universalista tradicional, da onipresença do poder sobre os corpos dos indivíduos – explicitada por Foucault e muito desenvolvida no pensamento feminista – e da instrumentalização da razão iluminista para fins anti-humanistas – analisada por Horkheimer e Adorno, que não eram “pós-modernistas” – foi elemento imprescindível aos poucos avanços sociais efetivamente alcançados na segunda metade do século passado. Mas é válido indagar até que ponto a globalização incontrolada teria dado margem ao nível atual de fragmentação e indiferentismo planetários, se as alas “esclarecidas” dos movimentos emancipatórios não tivessem adotado, com o fervor que o fizeram, um perspectivismo radical; se, com a obsessão identitária, não tivessem acabado por reduzir suas metas a fins microcomunitários; se a noção do direito à diferença não tivesse sobrepujado a dos direitos humanos; se a esquerda da esquerda – sua suposta vanguarda – não se tivesse também americanizado. Com preocupações voltadas para seu país, o norte-americano Todd Gitlin observa: Muitos expoentes da política de identidades são fundamentalistas – na linguagem da Academia, “essencialistas” – e a crença em diferenças grupais essenciais facilmente transita para a crença em uma superioridade. (...) O cultivo da diferença não é nada de novo, mas a pura profusão de identidades que reivindicam separação política nos dias de hoje é sem precedentes. E aqui está talvez a novidade mais estranha da situação presente: que o conjunto de reconhecimentos
grupais tome tanta energia daquilo que se apresenta como esquerda.27 A observação de Gitlin, professor em Berkeley, motivada pelo cenário que o circunda, é complementada tomando por base a Europa, com maior abrangência, por Terry Eagleton, professor em Oxford, para quem:
O Ocidente está agora inchado de políticos radicais cuja ignorância das tradições socialistas, nem por isso menos suas, é, entre outras coisas, decorrência de amnésia pós-modernista. E nós nos estamos referindo aqui ao maior movimento de reforma a que a história já assistiu. (...) Encontramo-nos agora confrontados com a situação meio farsante de uma esquerda cultural que mantém um silêncio embaraçado ou indiferente sobre aquele poder que é a cor invisível da própria vida diária, que determina nossa existência – às vezes literalmente – em qualquer lugar, que decide em larga medida o destino das nações e os conflitos destrutivos
entre elas. É como se quase todas as outras formas de sistemas opressivos – Estado, media, patriarcado, racismo, neocolonialismo – pudessem ser debatidas sem problema, mas não aquele que tão freqüentemente define a agenda de longo prazo para todos esses assuntos, ou pelo menos está implicado com eles até a raiz.28 O poder a que se refere Terry Eagleton é, evidentemente, o poder do capital; o sistema, o do capitalismo em sua fase atual. Estes o pós-modernismo não discute. Nem se preocupa em sugerir contrapesos ou alternativas plausíveis, a não ser dentro dos grupos de identidade restritos ou em esquemas teóricos tão impraticáveis quanto confusos29 – por mais que os pós-estruturalistas, pelo menos nos anos 60, tanto se rebelassem contra todas as opressões. Daí a radical afirmação de Slavoj Zizek, conhecedor das feições mais sombrias do fundamentalismo identitário micronacionalista em sua própria região, de que a maneira apropriada de se lutar contra o ódio étnico não é com sua suposta contrapartida natural, a tolerância étnica, e sim com mais ódio político dirigido contra o inimigo comum.30 Embora outros ódios destrutivos abundem no multiculturalismo atualmente hegemônico no Ocidente, esse ódio político criativo, de feições e objetivos universalistas, propugnado pelo filósofo de Ljubljana, não existe nos Estados Unidos. Nem tem condições de existir de forma coordenada, por razões muito específicas que veremos em seguida, embora algum lampejo de articulação nessa linha comece a aparecer na confusa movimentação de vários grupos da sociedade civil organizados em rede contra os emblemas da globalização corrente.

ESPECIFICIDADES NORTE-AMERICANAS INTRANSPONÍVEIS

Em decorrência do afrocentrismo originalmente black power, o negro norte-americano é hoje oficialmente designado African American (não Afro- American, como seria gramaticalmente correto, aparentemente porque, no entender dos radicais, a expressão hifenizada implicaria a valorização do termo “americano” sobre o prefixo “afro”).31 Por emulação, os índios, antigos “peles vermelhas” – que também começaram a atuar coordenadamente em 1968 32 – passaram a chamar-se Native Americans. Para uma sociedade que sempre foi muito mais um mosaico de peças justapostas do que o cadinho misturador (melting pot) pelo qual a propaganda oficial a definia, o gentílico composto tornou-se um grande achado. Os brancos minoritários, inicialmente perseguidos ou ainda objeto de preconceitos, também se autodenominaram “americanos irlandeses” (Irish Americans), “americanos poloneses” (Polish Americans) e assim por diante, para valorizar as respectivas “culturas”. Sempre desconsiderando a mestiçagem como categorização válida, por mais que ela seja evidente e, no caso em questão, autenticamente norte-americana, o serviço de imigração e os censos oficiais passaram a exigir que os indivíduos “não-brancos” se autoclassificassem como African American, Native American, Asian ou Pacific Islander, ademais do quase injurioso Hispanic (que se aplica a todos os brasileiros não-negros, assim como aos mapuches, aimaras e quêchuas, ou descendentes de incas, astecas e maias, mas não aos cidadãos espanhóis), 33 ao passo que os brancos de origem européia são simplesmente brancos, ainda que se considerem predominantemente russos, irlandeses ou italianos. Nos Estados Unidos, com suas peculiaridades históricas, econômicas e organizacionais, essas identificações diferenciais persistentes e obsessivas dos descendentes de escravos, de coolies e de imigrantes de toda e qualquer origem – contrastantes com o que ocorre com inegável naturalidade no Brasil (sem aqui pretender exumar o defunto mito de nossa democracia racial)34 – têm suas razões de ser, não apenas “culturais”. Uma delas, não-contemplada a priori, mas não-negligenciável a posteriori, é a própria expansão capitalista do mercado doméstico de bens de consumo, com a oferta de produtos e a propaganda ajustadas ao recorte identitário das minorias-alvo. Estas, com um total nacional de 77 milhões de pessoas e já representando mais da metade da população da Califórnia, levam as agências publicitárias a movimentar anualmente 2 bilhões de dólares em campanhas adaptadas ao perfil psicossomático e idiossincrático de cada minoria.35 Do ponto de vista histórico, é praticamente incontroverso entre os estudiosos da matéria que a nação norte-americana idealizada pelos founding fathers (Pais Fundadores) era para ser exclusivamente branca, protestante e anglo-saxã – ou, mais corretamente, anglo-germânica em geral. Ainda que a composição da população se tenha alterado substancialmente com o passar do tempo, essa idealização germanófila antiintegracionista e antimiscigenante subjazia à idéia da “sociedade norte-americana” até recentemente. Seria natural, portanto, que as “minorias” étnicas encontrassem meios organizacionais para se afirmarem como “cidadãs” efetivas, ainda que para isso sua “nacionalidade” precisasse aparecer composta, remetendo-se às origens ascendentes, em contraste com a cidadania oficial, simplesmente “americana”. Além disso, a auto-identificação dos indivíduos nessas categorias restritivas era e ainda é necessária para que a respectiva microcomunidade receba os recursos orçamentários pertinentes, distribuídos às diferentes constituencies de acordo com o número de seus integrantes, inclusive para o ensino público das respectivas línguas e/ou “tradições”. Michael Lind divide a história dos Estados Unidos desde a Guerra de Independência em três fases distintas. A Primeira República, que ele chama de Anglo-América, estendeu-se até a Guerra de Secessão. Nela havia dúvidas até se os irlandeses, por serem católicos, seriam realmente “americanos”, quanto mais os judeus e os negros. A Segunda República, ou Euro-América, conquanto iniciada após a abolição da escravatura, definiria como condição de “americanidade” apenas a ascendência européia e uma religião cristã, não necessariamente o protestantismo.
Esse abrandamento de critérios visava a abarcar na “nação americana” as massas de imigrantes brancos entrados no país desde o final do século XIX até a década de 1950. Os negros, evidentemente, continuavam excluídos. A Terceira República, ou a América Multicultural, corresponde à época atual, tendo se iniciado com o movimento pelos direitos civis. Ao contrário, porém, do que o movimento postulava, Michael Lind detecta atualmente uma verdadeira inversão de resultados: “Uma revolução que começou como uma tentativa de expurgar o direito e a política de classificações raciais e de alargar a classe média com a inclusão dos desprivilegiados terminou, ironicamente, dando origem ao renascimento do governo com consciência de raça e ao triunfo do conservadorismo econômico”.36
Nos meios acadêmicos dos Estados Unidos multiplicam-se os estudos dedicados aos direitos das minorias e às formas possíveis de implementálos com legitimidade, inclusive no que diz respeito à representação política.37 Quase todos se voltam para a situação norte-americana em sua especificidade, abordando muito superficialmente casos graves como o dos Bálcãs. E a sociedade norte-americana, passada ou atual, é tão distinta das sociedades “homogêneas” européias (em que as camadas heterogêneas se têm comprovado geralmente tão belicosas ou se acham tão cerceadas que não dá para falar em direitos coletivos) quanto de uma sociedade miscigenada como a brasileira, ou a cubana, ou a venezuelana (em que nada do que é discutido nos textos tem possibilidade de aplicação). Exemplo desse tipo de estudo certamente intransferível para outras realidades – se é que tem alguma possibilidade de aplicação concreta nos próprios Estados Unidos – pode ser visto nas propostas de Iris Marion Young para
dar legitimidade à representação de grupos minoritários na esfera política (mediante a alocação de fundos para que os grupos possam reunir-se e elaborar linhas de ação a serem consideradas pelos decisionmakers etc.). Independentemente do mérito das propostas, a lista de “grupos” contemplados por Íris Marion Young relaciona as seguintes categorias de indivíduos: “mulheres, negros, americanos nativos, chicanos, portorriquenhos e outros americanos de língua espanhola, americanos asiáticos, homens gays, lésbicas, pessoas da classe trabalhadora (working class people), pessoas pobres (poor people), idosos e pessoas portadoras de deficiências físicas ou mentais”.38 A par da intransferibilidade das sugestões da autora – pelas características inteiramente distintas das minorias existentes em outros países, pela imprecisão das fronteiras grupais em populações miscigenadas e pela evidente indisponibilidade de recursos públicos para a implementação de tais consultas regulares em países do Terceiro Mundo –, poder-seia inquirir se esse tipo de formulação, e até de preocupação, não é mera decorrência de hábito que o culturalismo identitário dos anos 60 e 70 e o multiculturalismo oficial vigente desde então criaram no pensamento de esquerda. Afinal, se os “grupos” contemplados na proposta envolvem as “pessoas pobres” em geral e as “pessoas da classe trabalhadora”, seria necessária essa divisão toda? Não seria mais lógico lutar simplesmente pelos direitos de representação adequada dos pobres e trabalhadores? Faz sentido falar nos pobres como uma minoria cultural assemelhada, por exemplo, à dos chicanos? Será que a mulher rica não-trabalhadora faz questão de representação especial? Será que o burocrata negro bem-sucedido ou o chicano proprietário de firma lucrativa, investidores ambos em mercados financeiros, que votam regularmente no Partido Republicano e são contra a “ação afirmativa”, porque perpetuaria discriminações disfarçadas,39 estarão tão preocupados com a representação de sua “cultura africana” ou “hispânica”?40 Com o crescimento exponencial das minorias raciais hispânica e asiática (na Califórnia, o mais populoso dos 50 estados, os brancos já são apenas 46,7%), com o desmantelamento em curso da “ação afirmativa” e com a tendência à abolição do ensino público bilíngüe, o multiculturalismo obsessivo norte-americano torna-se uma forma de asserção identitária crescentemente expletiva, que pouco traz de concreto – a não ser, talvez, em matéria de autoestima. Mas aí pode colocar-se um novo problema para os mestiços. Afinal, se é evidente que as culturas se mesclam, porque não o podem fazer os indivíduos? Jamais reconhecidos como tais, os mestiços norte-americanos podem agora, desde o censo de 2000, autodefinir-se como plurirraciais, pertencentes a mais de uma “etnia de origem” (African American e Hispanic, por exemplo), mas não como os mulatos, caboclos, cafusos ou genericamente “pardos” (nos recenseamentos brasileiros) que efetivamente são. Não o fazem, em primeiro lugar, porque os formulários do recenseamento não contemplam essa opção. Em segundo lugar, não o fazem por temer reduções de recursos para a respectiva constituency racial com que mais se identificam.41 Não o fazem, também, porque, tendo sido por tanto tempo considerados negros pelo critério escravista britânico da gota de sangue “contaminadora”, legalmente mantido após a independência, a abolição e a Guerra
Civil do século XIX, inclusive na proibição de casamentos mistos, tal critério se acha hoje interiorizado de tal maneira que ao próprio mestiço pareceria “de direita” declarar-se miscigenado.42 Numa sociedade em que a mistura etno-racial é forçada a gerar identidades duplas ou múltiplas, não sínteses criativas, uma sociedade mestiça será sempre objeto de desconfiança, e o sincretismo cultural, sempre visto com maus olhos. Assim como para o indivíduo oriundo de acasalamento inter-racial soaria vergonhoso assumir-se mestiço nos Estados Unidos, o próprio jazz, evidentemente híbrido, reconhecido por todos no passado como predominantemente negro, começa a ter sua negritude contestada. 43 Para o movimento negro norte-americano (ou o pouco que resta dele com expressividade política), assim como para os negros brasileiros por ele influenciados, a sociedade brasileira, além de injusta, que efetivamente é, representa uma dor de cabeça não somente para a busca de soluções. É um problema difícil de ser entendido.

A PÓS-MODERNIDADE NA ATUAÇÃO SOCIAL

Naquilo que constitui de longe sua conquista mais durável, segundo a análise intimorata de Terry Eagleton, o pós-modernismo ajudou a estabelecer as questões de gênero, sexualidade e etnicidade na agenda política de maneira tão firme que se torna hoje impossível imaginar seu abandono sem uma luta decisiva.44 Ajudou, como o professor de Oxford faz questão de sublinhar, porque, conforme por ele recordado e aqui explicitado desde o início, o movimento pelos direitos civis e o movimento de mulheres precederam à pós-modernidade e ao conjunto de teorias que se impuseram como pós-modernismo. 45 Mas esse estabelecimento das novas questões identitárias foi feito, ainda segundo Terry Eagleton, “em mera substituição às formas mais clássicas das políticas de esquerda, que lidavam com classe, Estado, ideologia, revolução, modos de produção material”.46 Ao respaldar com seu arsenal teórico o essencialismo identitário nos movimentos sociais, o pensamento pós-moderno estimulou o perspectivismo epistemológico na teoria do conhecimento e reintroduziu o relativismo dos valores no fulcro das ciências humanas. Produziu, assim, uma inversão inusitada nas posições da esquerda, do universalismo igualitarista à defesa intransigente do direito à diferença, colocando-a numa situação bastante aproximada daquela que sempre foi da direita, defensora de tradições e crenças singulares como elementos imprescindíveis ao progresso do grupo. Como diz Eric Hobsbawm:
Hoje tanto a direita como a esquerda acham-se dominadas por políticas de identidade. Infelizmente, o perigo de desintegração numa simples aliança de minorias é inusualmente grande para a esquerda, pois o declínio dos grandes slogans universalistas do iluminismo, que eram essencialmente slogans de esquerda, deixa-a sem qualquer caminho óbvio para formular o interesse comum através de fronteiras seccionais. O único dos chamados “novos movimentos sociais” que atravessa todas essas fronteiras é o dos ecologistas. Mas, infelizmente, seu atrativo político é limitado e tende a permanecer assim.47
Perfeitas na substância, essas críticas e inquietações, enunciadas na Europa por pensadores ligados à chamada “esquerda antiga”, socialista ou social-democrata, voltam-se sobretudo, ainda que não apenas, para a esquerda norte-americana, cuja capacidade de influência externa é, no mundo pós-Guerra Fria, esmagadoramente maior do que a de qualquer outra. Nas palavras sempre francas de Terry Eagleton,
Muito do pós-modernismo originou-se dos Estados Unidos, ou pelo menos criou raízes rapidamente por lá, e reflete alguns dos problemas políticos mais intratáveis daquele país. É assim, talvez, um pouco etnocêntrico desse antietnocentrismo, embora não um gesto desconhecido daquela nação, projetar seu quintal político sobre o mundo ao largo. Há hoje um instituto de estudos pós-modernos na Universidade de Beijing, enquanto a China importa Derrida junto com Diet Coke.48
A influência da esquerda norte-americana é, sem dúvida, sensível no meio universitário de outros países, assim como entre lideranças de movimentos sociais contemporâneos. É ela que faz presente no Brasil como no resto do mundo uma admiração acrítica pelas teorias pós-modernas, transformadas em modismos a que se apegam os mais variados intelectuais, “desconstrutivistas” ou não. É ela que faz muitos militantes brasileiros assumirem posições que nos Estados Unidos podem, talvez, justificar-se pela opulência capitalista, mas no Brasil soam absurdas e impraticáveis ante nossas características antropológicas e condições econômicas (como a reivindicação de indenizações financeiras pela escravidão passada, a ser paga não se sabe bem a quem, com verbas tiradas não se sabe de onde, ou da remuneração pelo governo do trabalho doméstico das mulheres). É ela que produz atualmente nossa inacreditável capacidade de autoflagelação, considerando- nos piores do que todos os demais nos campos mais diversos: no racismo (depois de termos sido apontados como modelo pelos intelectuais franceses, que não desconheciam nossos problemas, mas viam a miscigenação como o melhor caminho para sua superação), no machismo (quando o Brasil ostenta número maior de governadoras de estado ou prefeitas de cidades importantes do que os Estados Unidos, onde o puritanismo da sociedade é capaz de punir as prostitutas de rua pelo crime de prostituição e isentar a pornografia mais gritante que pague impostos comerciais), na perseguição à homossexualidade (é fato que se matam homossexuais em ambos os países, mas daí a dizer-se que as perseguições brasileiras configuram uma política governamental a justificar concessão de asilo é algo que evidentemente extrapola a realidade).49 Isso para não falar de nossos crimes ecológicos, supostamente decorrentes de políticas governamentais maquiavélicas ou da índole má de nosso povo, em contraste com o natural respeito norte-americano pelas culturas tradicionais (os poucos Native Americans sobreviventes que o digam!) e seu arraigado preservacionismo ambiental (os Estados Unidos destruíram toda a mata primitiva, atualmente replantada, da Costa Leste, em muito menos tempo do que o Brasil vem destruindo a mata atlântica, e o mesmo vem ocorrendo com a redwood forest californiana, sem que a população esteja nem de longe em situação de miséria desesperada). Malgrado todos esses caveats, pertinentes para a situação do Brasil e do mundo, o autor destas linhas acredita que nem todas “as esquerdas” se tenham efetivamente “americanizado”. A grande americanização político-social que houve em todo o mundo com o final da Guerra Fria parece ter sido temporalmente limitada até meados da década passada. Nessa época, o triunfalismo neoliberal, com o respaldo de antigos pensadores “progressistas”, chegara a afirmar que a divisão de posições políticas entre esquerda e direita se encontrava superada. Por sorte, o grande Norberto Bobbio, com sua sapiência habitual, foi dos primeiros a chamar atenção para tal falácia. E a recolocar as posições da esquerda verdadeira em seu eixo natural, evidentemente universalista, ainda que diante de problemas particularizados, ao afirmar, em 1994: Nenhuma pessoa de esquerda pode deixar de admitir que a esquerda de hoje não é mais a de ontem. Mas, enquanto existirem homens cujo empenho político seja movido por um profundo sentimento de insatisfação e de sofrimento perante as iniqüidades das sociedades contemporâneas – hoje talvez menos ofensivas do que em épocas passadas, mas bem mais visíveis –, eles carregarão consigo os ideais que há mais de um século têm distinguido todas as esquerdas da história.50 A esquerda relativista, epistemologicamente perspectivista e obsessivamente identitária foi e é, por razões muito específicas já aqui explicitadas, a esquerda “cultural” norte-americana. Mas, afinal, sejamos francos: a expressão “esquerda norte-americana” é de per si, quase sempre, um oximoro, tão incongruente que chega a transformar em “de esquerda” liberais que alhures seriam no máximo conservadores esclarecidos. A militância de esquerda existiu, sim, nos Estados Unidos, inclusive em sentido revolucionário, com números expressivos, apenas episodicamente, como nos anos da década de 1960, em virtude de uma guerra imperialista que dizimava suas vidas e esperanças, em território distante. Hoje em dia há, é verdade, entre os norte-americanos, muita gente inspirada por ideais de solidariedade altruísta, capaz de praticar filantropia nos mais distantes rincões, muitas vezes ao risco da própria vida. Algumas o fazem com uma paixão mais ou menos arrogante, capaz de enfrentar com altivez e heroísmo os mais cruéis ditadores; outras com uma ingenuidade que irrita os próprios beneficiários. Mas figuras humanísticas com a profundidade e a abrangência temática de um Noam Chomski são raríssimas numa população de mais de 280 milhões. Além de desconhecidas do cidadão comum, chegam a soar chocantes nos próprios meios intelectuais pelo contraste com tudo o mais que se vê na circunvizinhança. Os demais militantes da “esquerda norte-americana” só podem ser “culturalistas”, porque a isso são impelidos pelas circunstâncias do país, em particular sua riqueza astronômica (embora muito concentrada, ela é tão avassaladora que não pode deixar de ter importante efeito cascata). Nas palavras demolidoras de Pierre Bourdieu e Loïc Wacquant: “O ‘multiculturalismo’ americano não é nem um conceito, nem uma teoria, nem um movimento social ou político – ainda que pretenda ser tudo isso ao mesmo tempo. É um discurso-tela (...) que engana tanto aqueles que estão nele como os que não estão. Além do que é um discurso norteamericano, embora pense e se apresente como universal”. 51
De um modo geral, com as exceções que confirmam a regra, a esquerda européia contemporânea não aparece refletida nas preocupações de Terry Eagleton e de Eric Hobsbawm reproduzidas neste texto e certamente não se enquadra no foco de atenções exclusivamente norte-americano de Todd Gitlin ou de Michael Lind (assim como de Richard Rorty e muitos outros pensadores norte-americanos não-mencionados nominalmente neste artigo). A França tem demonstrado que a aliança estudantes- trabalhadores de 1968 ainda é capaz de reverberar em novas greves, como as de 1995, de alcance respeitável. A maioria dos intelectuais europeus, a exemplo desses aqui citados, e outros ex-integrantes da hoje velha “nova esquerda” não cessam de denunciar o neocapitalismo vigente, apontando idéias plausíveis que pelo menos controlem sua voracidade. Preocupam-se, sim, conforme demonstram Bourdieu e Wacquant na citação acima, com a possibilidade de contaminação da esquerda de outros continentes por características da “esquerda cultural” norte-americana. Mas até mesmo o feminismo, movimento social originalmente norte-americano que mais contribuiu com idéias e ações para o pósmodernismo teórico, evoluiu de tal maneira, sem abandonar o conceito de gênero, para objetivos tão abrangentes que já há quem fale hoje – errônea e enganadoramente – de uma fase “pós-feminista”.52 Se, como interpreta Terry Eagleton, a maior contribuição do pós-modernismo às lutas sociais contemporâneas foi a asserção do gênero, da sexualidade e da etnicidade na agenda política, isso foi e permanece positivo. O que não se pode permitir é que, a exemplo do que ainda ocorre em setores da esquerda norte-americana ou setores americanizados alhures, o identitário se erija em absoluto, o essencialismo
cultural se torne a única preocupação política e o perspectivismo domine a idéia do conhecimento, renegando a possibilidade do real universal.
As diferenças precisam, sim, ser respeitadas – muito mais do que “toleradas”, que é vocábulo da direita –, mas elas não se podem sobrepor ao ideal mais amplo da igualdade, eterna e incontestemente de esquerda, e que, exatamente por isso, deu origem e justificação às próprias lutas identitárias das minorias oprimidas.
Em Seattle, em 1999, contra a OMC, assim como em Washington e Praga, em 2000, contra o FMI e o Banco Mundial, os movimentos mais heterogêneos, inclusive norte-americanos, articulados em cadeia, amalgamados por algum tipo de identidade, demonstraram, na forma de protestos e passeatas, estar conscientes de que precisam unir-se para lograr objetivos mais amplos, de sentido universal e igualitarista. Uma primeira tentativa de organização mais coerente ocorreu em Porto Alegre, no Fórum Social Internacional, no início de 2001.
Os objetivos focais desses movimentos não foram ainda alcançados, até mesmo porque eles são hoje de difícil definição. Mas uma conquista, pelo menos, eles certamente já ajudaram a obter: no discurso contemporâneo agora ninguém mais fala em “consenso neoliberal”.

O MOVIMENTO SOCIAL PELOS DIREITOS HUMANOS

No texto citado um pouco acima, Eric Hobsbawm declara que apenas o ecologismo, entre os novos movimentos sociais, ultrapassa todas as fronteiras seccionais da esquerda. Já Boaventura de Sousa Santos reconhece, alhures, com alguma perplexidade, que é na linguagem dos direitos humanos que atualmente se manifestam os agentes sociais cuja mobilização emancipatória no passado girava em torno das idéias de socialismo e revolução.53 Na verdade, o movimento internacional dos direitos humanos também ultrapassa fronteiras seccionais – menos, naturalmente, as seções que compõem a extrema esquerda, assim como a extrema direita, refratárias por definição à idéia de direitos. O problema é que esse segundo “novo movimento social”, ainda mais do que os outros, antigos e modernos, sofre forte influência de posições norte-americanas. Por isso, com exceção do período de 1993, quando ajudou a mobilizar o mundo para a Conferência de Viena sobre direitos humanos, seu “atrativo político” se afigura ainda mais limitado do que o do ambientalismo. Sem preocupações econômicas corretas, com os direitos econômicos e sociais crescentemente transferidos à filantropia da sociedade civil e os direitos civis impostos internacionalmente pela ótica do humanitarismo (militar ou não), a nova normatividade emergente para os direitos humanos configura, no lúcido e chocante entendimento de Slavoj Zizek, “a forma em que se apresenta seu exato oposto”.54 Levando em conta a influência enorme dos Estados Unidos nessa esfera, para se ter esperança é preciso estabelecer uma clara distinção entre os grupos norte-americanos que efetivamente defendem os direitos humanos da Declaração Universal, inclusive nos Estados Unidos, e aqueles de visão mais curta, reprodutores acríticos do que lhes ensinam os ideólogos do patriotismo ianque, que condenam sem senso crítico tudo o que não espelhe os direitos civis norte-americanos. Os primeiros, se influentes no mundo, podem ajudar concretamente a luta pelos direitos de todos, gravemente violados também em seu próprio país. Os segundos podem até ter razão em muitas oportunidades, ao não encontrarem alhures o respeito dos Estados Unidos pelos direitos civis, mas tendem a perdê-la logo, pois ignoram – sem querer ou deliberadamente – a trama de influências complexas, nacionais e internacionais, políticas, jurídicas, religiosas e sobretudo econômicas, que interagem nesses direitos. A fim de se evitar uma multiplicação de Kossovos no cenário unipolar desse princípio de século, antes de partir pelo mundo numa das típicas cruzadas de que se imbuem com freqüência os cidadãos peregrinos da terra da Liberdade, do Marlborough e do McDonald’s, seria bom se cada um deles tratasse de fazer seu exame de consciência. E forçasse seus altos representantes nos três níveis de governo a fazer também o dever de casa, que, para ser universal, é de todos. A nós, os influídos de sempre, cabe, porém, a maior das responsabilidades, na medida em que dela depende nossa sobrevivência autônoma: a de escolher adequadamente quem, afinal, tem legitimidade para nos ajudar na matéria, num mundo em que os universais vêm perdendo a parada para os identitários diversos. Ou optar por seguir às apalpadelas nosso próprio caminho, cientes de que o Brasil que queremos não pode, não deseja, nem tem condições para desejar ser, a sério, culturalmente essencialista.
O Brasil precisa ser, sim, antidiscriminatório com os que, de alguma maneira, aparecem “diferentes” e auxiliá-los a vencer, material e psicologicamente, a inferioridade em que tantas vezes vivem. Até porque, queiramos ou não os cidadãos brasileiros, a “diferença” é parte ontológica de nossa identidade essencial. São, portanto, absolutamente inaceitáveis a disparidade de níveis econômico-sociais que ainda separam os segmentos negros e brancos de nossa população, assim como a violência “civil”, criminal e policial, que brutaliza prioritariamente negros e mestiços, situados na parte mais baixa da escala social.
Mas o Brasil precisa ser sobretudo mais equânime na distribuição universalista da riqueza nacional, ou simplesmente não será. Essa melhor distribuição da abundância ou da escassez, juntamente com a da justiça, já tão postergada no decurso da História pátria, não ocorrerá se abandonarmos, em favor de uma eficácia ilusória engendrada pela globalização sem amarras, a possibilidade de políticas públicas voltadas para as vastas camadas de pobres e miseráveis, sem identidade ou cidadania dignas desses termos. Ou se simplesmente importarmos, sem a devida massa crítica, modelos que podem até ser válidos, mas ainda nem sequer deram certo, nas sociedades específicas, modernas ou pósmodernas, dentro das quais se criaram.


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Notas

1 Tradução.
2 Tradução.
3 Apud BERG, 1998, p. 417. O célebre discurso de King que insistia no “I have a dream” foi feito no encerramento da Marcha sobre Washington, em agosto de 1963.
4 Ibid., p. 398.
5 Segundo as contas de BRINKLEY, 1998, p. 224.
6 Ibid.
7 BERG, 1998, p. 408.
8 O ex-governador do Alabama, candidato pelo Partido Independente, não ganhou, mas obteve votação impressionante.
9 Nas escolas públicas elementares de São Francisco, crianças de todas as etnias, que não têm nenhuma idéia do que seja o swahili, muito menos da parte do mundo em que essa língua é falada, são forçadas a decorar palavras exóticas, malpronunciadas em inglês, cujo significado comporia os “conceitos-chave”, muito idealizados, da kwanzaa, recentemente inventada nos Estados Unidos. Menos mal quando se recorda que foi também na Califórnia (região de São Francisco), e na mesma época, que a esquerda cultural afro-americana tentou, sem êxito, adotar o inglês malfalado dos negros incultos como língua oficial de ensino comunitário, denominada ebonics (de ebony, ébano).
10 Como já descrevi alhures as características de ambas, permito-me remeter a meu “No peito e na raça – a americanização do Brasil e a brasilianização da América” (LINDGREN ALVES, 2000).
11 Cf. supra nota 3. [confirmar] Na verdade, a metáfora do sonho fora usada antes por Martin Luther King em diferentes sermões, mas foi na marcha de 1968 que o discurso se tornou nacional e internacionalmente conhecido.
12 BERG, 1998, p. 419. No entender de Manfred Berg, essa marcha deve ser vista como uma manifestação importante de solidariedade e orgulho racial de um vasto segmento da população que ainda se considera vítima de discriminações. Mas a mensagem de auto-afirmação, capitalismo negro, disciplina e combate às drogas da Nação do Islã, com seus “vigilantes muçulmanos” e seu racismo radical, antibranco e anti-semita, seria “conservadora”.
13 A revolução iraniana contou com participação decisiva das mulheres. Ainda que depois lhes tenham imposto o tchador, os aiatolás nunca chegaram a excluí-las totalmente da política. Apenas a Arábia Saudita e alguns poucos emirados árabes do Golfo, para não falar do desvario obsessivo dos talibãs afegães, seguem políticas de exclusão total das mulheres em qualquer atividade pública.
14 CASTELLS, 1997, p. 177.
15 GITLIN, 1987, sobretudo cap. 16: “Women: revolution in the revolution”,pp. 362-376.
16 Sobre a influência do movimento de mulheres norte-americanas na Alemanha, cf. MALECK-LEWY & MALECK, 1998, pp. 373-395.
17 Sobre a Conferência de Beijing, cf. LINDGREN ALVES, 1996.
18 Para uma análise dessas vertentes, cf. CASTELLS, 1997, particularmente o capítulo intitulado “The end of patriarchalism”. As expressões feminismo da igualdade e feminismo da diferença, bastante difundidas, eu retirei de RIVERO GARRETAS, 1994.
19 Para uma idéia dos direitos específicos da mulher e sua inclusão no rol dos direitos humanos universais, cf. LINDGREN ALVES, 1996 e 1997, pp. 86-97.
20 Apud RIVERO GARRETAS, 1994, p. 79 (minha tradução).
21 Ibid., p. 78.
22 Report of the Fourth World Conference on Women (Beijing, 4-15 September1995), documento das Nações Unidas A/CONF.177/20, p. 10 (minha tradução). Antes da Conferência, Abramovay já observava que o conceito gênero era central e permeava todo o projeto da Plataforma de Ação, “o que implica trabalhar uma visão renovada das relações sociais” (ABRAMOVAY, 1995, p. 214).
23 Entre a massa de autores e títulos que tratam do problema, posso citar como exemplos o liberal Michael Lind, em The next American nation, o ex-ativista da nova esquerda Todd Gitlin, no muito conhecido The twilight of common dreams, o gozador Robert Hughes em seu quase best seller The culture of complaint, e o filósofo pragmático, antimetafísico e pósmoderno heterodoxo Richard Rorty, em Achieving our nation.
24 GITLIN, 1995, cap. 5: “Marching on the English Department Whilethe Right Took the White House”, pp. 126-165.
25 KYMLICKA, 1995, “Introduction”, p. 1 (minha tradução).
26 Cf. segunda epígrafe no início deste ensaio, retirada de ZIZEK (1998, p. 997). Com já onze livros muito densos e uma infinidade de artigos publicados no Reino Unido, Estados Unidos e outros países do Ocidente (inclusive agora no Brasil), Slavoj Zizek é considerado, inter alia, por Terry Eagleton “o mais formidavelmente brilhante expoente da psicanálise, na verdade da teoria da cultura em geral, que emergiu na Europa nas últimas décadas” (citado na contracapa de Did somebody say totalitarianism?).
27 GITLIN, 1995, pp. 164-165 (minha tradução).
28 EAGLETON, 1996, pp. 22-23.
29 Como as sugestões para uma justiça efetiva, atenta às diferenças de valores das minorias oprimidas, feitas por Lyotard, em Le Différend (1988), ou por Derrida, em “Force de loi: le ‘fondement mystique de l’autorité’” (1990).
30 ZIZEK, 2000, p. 11.
31 Todd Gitlin, que repudia o uso crítico da expressão “politicamente correto”, conta, não obstante, como um estudante negro, em atitude absurda, manifestou-se ofendido com o fato de determinado livro didático usar inadvertidamente a expressão (correta) Afro-American, apontado isso como uma “clara evidência de racismo” do autor. Cf. GITLIN, 1995, p.18.
32 Ocuparam a ilha da Baía de São Francisco, onde se localiza o presídio de Alcatraz, durante várias semanas, com o objetivo de chamar atenção para seus infortúnios.
33 Já tive a oportunidade de assinalar a público de São Francisco, que me achou “divertido”, serem os brasileiros tão hispânicos, no máximo, quanto os norte-americanos anglo-saxões são góticos. Quanto a nossos irmãos de América Latina nos Estados Unidos, eles aceitam, como nós, brasileiros, sem nenhuma hesitação, a qualificação de latinos (dita em inglês com um o no final, para diferenciar de Latin, que quer dizer latino, derivado do Lácio ou da língua latina de Roma Antiga). Nunca ouvi, porém, um mexicano, chileno, boliviano ou peruano qualificar-se voluntariamente como hispânico. Afinal, isso deve corresponder a um brasileiro autoclassificar-se como lusitano.
34 Para não haver mal-entendidos sobre minha posição a respeito desse mito, remeto novamente a LINDGREN ALVES, 2000.
35 Cf., sobre o assunto, o interessante artigo de HALTER (2000). A autora, professora de história na Universidade de Boston, chama atenção inter alia para o fato de que a própria Kwanzaa, celebrada a partir de 26 de dezembro para marcar o caráter anticonsumista da “tradição” negra, em contraste com o Natal, branco e comercializado, encontra-se hoje desvirtuada pela massa de produtos e brinquedos especialmente fabricados com adaptações para venda nesse período, a cujo consumo se entregam com afinco e deleite os afro-americanos. Da mesma forma que as lojas se enchem da menorahs estilizados e caros para os judeus celebrarem, pouco antes do Natal cristão, a Hanukkah israelita, cada dia mais “glamourosa” nos Estados Unidos e oficializada por políticos de todos os credos, que não perdem a oportunidade de ostentar em cerimônias públicas sua tolerância
multiculturalista. O mesmo sentido capitalista evidente poderia ser lembrado a propósito, por exemplo, dos cruzeiros marítimos e vôos charter organizados para gays, uma vez que a orientação sexual é nos dias de hoje também uma categoria cultural.
36 LIND, 1996, pp. 11-12.
37 Uma dessas coletâneas de estudos pode ser encontrada na antologia editada por KYMLICKA (1995).
38 YOUNG, 1989, p. 261, apud PHILLIPS, 1995, p. 291.
39 Muitas lideranças econômicas negras têm-se colocado ostensivamente contra a ação afirmativa com esse tipo de argumento (cf. LINDGREN ALVES, 2000, pp. 95-96).
40 Não quero, evidentemente, dizer com isso que todos os chicanos e negros bem-sucedidos sejam republicanos (ao contrário, a maioria parece ainda ser democrata), ou que sejam contrários à ação afirmativa (a maioria dos bem-sucedidos ainda a favorece e a defende com vigor). Menos ainda pretendo afirmar que eles não sejam objeto de discriminações. O que quero dizer é que sua visão pode ser diferente daqueles que se mantêm em piores condições sociais, preferindo uma assimilação mais completa no mainstream da sociedade norte-americana. E que, em função de seu êxito individual na “sociedade nacional”, a asserção “cultural” de suas origens, reais ou idealizadas, pode constituir mais um fator de incômodo do que uma forma desejada de auto-afirmação.
41 A imprensa interpreta que o número surpreendentemente pequeno de pessoas que se autoqualificaram como pertencentes a mais de uma etnia – média nacional de apenas 2,4% – no recenseamento de 2000 tenha-se devido a esse temor (KIM & NESS, 2001).
42 Orgulhoso da extraordinária diversidade racial apurada na Califórnia pelo censo de 2000, o liberalíssimo S. Francisco Chronicle, em editorial intitulado “California’s changing face”, declarava que “the greatest impact of this amazing diversity is that the five percent of Californians who identify themselve as multiracial have muted such arbitrary racial designations as ‘white’, ‘brown’, or ‘black’”. E evidenciando a falácia do melting pot norteamericano tão alardeado na propaganda oficial, celebrava: “Welcome to the new face of California – not yet a melting pot, but something far more glorious than the sum of its parts” (S. Francisco Chronicle, 30/mar./2001).
43 Acabam de ocorrer na Califórnia debates, cujo resultado desconheço, envolvendo de um lado críticos de jazz, de outro ex-militantes black power, para tentar chegar a uma conclusão se o jazz é ou não música negra.
44 EAGLETON, 1996, p. 22.
45 Ibid., p. 136. Além disso, como assinala Terry Eagleton, nem todos os ativistas desses movimentos definiriam sua política em termos pósmodernos.
46 Ibid., p. 22.
47 HOBSBAWM, 1996, in: ISHAY, 1997, p. 279.
48 EAGLETON, 1996, p. 122.
49 O argumento tem sido utilizado por brasileiros gays em situação ilegal nos Estados Unidos, particularmente na região de São Francisco, para assim evitar a repatriação. Que eles o utilizem não é extraordinário. Curioso é esse argumento vir sendo aceito pela justiça de um país e de uma comunidade cujos gays freqüentemente organizam excursões turísticas para usufruir exatamente daquilo que é anunciado como o liberalismo dos costumes sexuais brasileiros.
50 BOBBIO, 1995, pp. 23-24.
51 BOURDIEU & WACQUANT, 2000.
52 Cf. sobre esse assunto as diversas matérias publicadas no caderno Mais!, da Folha de S.Paulo de 15/out./2000, que têm como chamada “A Nova Onda do Feminismo”, em particular a entrevista com Juliet Mitchell, de Maria Lucia Pallares-Burke.
53 SOUSA SANTOS, 1997, p. 105.
54 ZIZEK, 2001, pp. 244-245.


The Excesses of Culturalism: postmodernity or the americanization of the Left?


Abstract
Just like neoliberalism, postmodernity theories have spread out in theworld in a process that has started in the United States. On becoming culturalist, social movements have incorporated and developed postmodernism, setting aside the universalism that has always characterized the Left. Such americanization of social movements has firmly established questions of gender, sexuality and ethnicity on the political agenda, but the agenda itself has become so exclusivist that it stopped addressing further social advancements. Bearing in mind the specificity of each situation, Brazilian social movements should better evaluate the models they intend to follow.

Keywords SOCIAL MOVEMENTS – IDENTITIES – CULTURALISM – RACE – GENDER – POSTMODERNITY – UNITED STATES – BRAZIL.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Feliz 1984


O fascismo avança sobre o nosso cotidiano.

Já tive oportunidade de comentar, em diversas postagens deste Blog, o fenômeno da "criminalização do cotidiano".
Essa criminalização é essencial à dinâmica de poder do atual sistema ideológico: o medo, disseminado entre os cidadãos comuns pela mídia e pelo Estado, constitui hoje um dos maiores motores da história.
Não me recordo qual dos filósofos da Escola de Frankfurt - se Adorno ou Horkheimer - que observou : não obstante serem o amor romântico e a família instituições burguesas, em tempos de avanço do totalitarismo, entretanto, constituem eles as mais poderosas fontes de resistência contra o fascismo.
Ora, sintomaticamente e talvez por essa mesma razão, o que temos observado é um desmedido ataque aos últimos bastiões que resguardam nossa intimidade e autonomia, desferido por meio da desproporcional divulgação de eventos em que justamente a família e as relações afetivas são colocadas em cheque, dando lugar à insegurança e ao medo com relação àqueles que se encontram mais próximos de nós (estou me referindo aqui ao destaque promovido pela mídia acerca dos crimes praticados por filhos contra os pais e vice-versa).
Qual a "leitura" do cidadão comum, geralmente "desavisado, em relação a isso ? Ora, de que o perigo se esconde em cada esquina e, mais do que isso, "estou morando e dormindo" com meu inimigo !
Não é de hoje, tão pouco, a demonização com que são retratados os adolescentes - justamente os jovens que, em qualquer sociedade menos "psiquica e culturalmente cindida", deveriam ser considerados a fonte de renovação e esperança para o grupo social !
Em qualquer conversa fica patente que o sentimento dos pais em relação aos filhos é de um temor subterrâneo (de que o filho se perca nas drogas, no crime, na delinquência, na devassidão ou promiscuidade etc etc). Os pais - e sobretudo a escola - se dedicam a uma permanente vigilância e disciplinamento de seus filhos. Ao invés de vê-los como seres que aspiram a uma legítima e plena libertação, a qual eles próprios, pais, não souberam conquistar, os adolescentes são percebidos como ameaças em potencial, espécie de "bombas relógios" comportamentais, podendo explodir a qualquer momento, até que atinjam uma "idade segura".
Por que não conceder voz à legítima revolta e rebeldia de seus filhos - canalizando-a criativamente? Por que se dedicar ao seu disciplinamento e ao massacre realizado nos verdadeiros campos de concentração em que se transformaram as escolas ?


(veja a esse propósito e apenas como exemplo: uma introdução às propostas de Maurício Tragtenberg - http://diacrianos.blogspot.com/2008/06/educao-e-anarquismo-em-maurcio.html - ou o "anti-modelo" de universidade de Onfray - em http://metamorficus.blogspot.com/2008/02/michel-onfray-o-filsofo-francs-que.html; ou ainda o diagnóstico de Dany-Robert Dufour em - http://metamorficus.blogspot.com/2008/01/rumo-ao-capitalismo-total.html)


O fascismo, entretanto, precisa avançar, sob pena de, não o fazendo, desmoronar.
Não é por outra razão que temos observado o avanço em nosso cotidiano de inúmeras medidas destinadas ao controle e manipulação de informações, à disseminação do medo e a redução ou eliminação de qualquer autonomia.
Abaixo, coletei apenas algumas dessas medidas que estão sendo implementadas bem perto de nós.
Trata-se da implantação de chips em veículos, cães e até em seres humanos - sistemas de controle "vendidos" pela mídia e pelosaparelhos de estado como avanços para a "proteção do cidadão" contra o terrorismo, a criminalidade, ou o próximo que está ao seu lado...


1)
Em julho de 2004, conforme anunciou o jornal El Universal, o Procurador-Geral da Republica e mais 160 funcionarios do Ministerio Publico do Mexico receberam implante de um biochip sob a pele:



2) Instalação de chip em veículos será gratuita para motorista de São Paulo
Por: Tabata Pitol Peres
11/04/08 - 18h50
InfoMoney
SÃO PAULO - O chip eletrônico que será implantado nos veículos em 2009 - com o objetivo de aumentar a segurança da população, otimizar a gestão do tráfego e melhorar a fiscalização do carro - não custará nada aos proprietários dos automóveis.O prefeito Gilberto Kassab assinou nesta sexta-feira (11) um decreto que criou o Fundo Municipal de Desenvolvimento do Trânsito para financiar programas e projetos que melhorem o trânsito da cidade, entre eles, a instalação do equipamento.
O Fundo obriga as administrações municipais a se adequarem ao Código Brasileiro de Trânsito, que estabelece o investimento de 95% da arrecadação de multas dos municípios em melhorias de trânsito. Os 5% restantes devem ser aplicados em educação do trânsito. Com a regulamentação, a aplicação dos recursos arrecadados com multas exclusivamente em programas voltados para melhorar as condições do trânsito fica determinado por lei.
Identificação Automática de Veículos
Com este decreto, será possível viabilizar a implementação do Sistema Nacional de Identificação Automática de Veículos. A Prefeitura e o Governo do Estado assinaram um convênio, em outubro de 2007, que fará de São Paulo o primeiro município do Brasil a adotar o novo sistema.O chip será fixado no pára-brisa dos veículos. Nele, ficará gravada a identificação do automóvel com informações como o número do Renavam (Registro Nacional de Veículos Automotores), placa e número do chassi.Na fase inicial de implantação do sistema, os custos de instalação ficarão por conta da empresa que irá operar a novidade. Os veículos novos já sairão das fábricas com o equipamento.
Sem que a maioria se dê conta, inúmeras medidas estão sendo adotadas bem perto de nós e que, pouco a pouco, vão afetando nosso cotidiano.

(Fonte: http://web.infomoney.com.br/templates/news/view.asp?codigo=1057360&path=/suasfinancas/carros/cotidiano/)



3) Nova regra em S.Paulo obriga colocar chip em cães e gatos


Publicado 14 Abril, 2008

A Prefeitura de São Paulo mudou, na sexta-feira, as regras para venda e adoção de animais domésticos na cidade. Entre elas estão a instalação de microchips em cães e gatos e a assinatura de um contrato no ato da adoção ou compra de um animal.
As medidas, publicadas no Diário Oficial na última sexta–feira, valem para novos animais e visam incentivar a posse responsável, evitando o abandono e as compras por impulso.
Os microchips, que devem ser implantados nos animais, vão conter todos os dados relativos aos animais, como espécie, sexo, cor do pêlo, idade e raça, e por meio destas informações, o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) vai ter mais controle sobre os animais.
Segundo Adriana Maria Lopes Vieira, gerente do CCZ, o microchip “é importante para a associação entre o animal e o responsável”. De acordo com ela, a ação não é uma ferramenta estritamente punitiva, “mas com ele se pode saber se o animal foi perdido ou submetido a maus-tratos”.
O abandono dos animais também deve ser prevenido por meio de um contrato que será firmado na hora da adoção. O documento vai definir as responsabilidades entre os novos donos e quem vende os bichos.

(Fonte: http://adestramento.wordpress.com/2008/04/14/nova-regra-em-sao-paulo-obriga-colocar-chip-em-caes-e-gatos-opine/)

4) A Prefeitura de Campo Grande, por meio do CCZ ? Centro de Controle de Zoonoses, está realizando a implantação de chip de identificação em cães. O trabalho iniciado nesta semana atende à lei 2.990/05, que sistematiza a posse responsável de cães e gatos no Estado, promulgada em novembro do ano passado.Segundo explicou a médica veterinária do CCZ, Iara Helena Domingos, os primeiros animais já foram identificados. A microchipagem tem o objetivo de registrar o animal e identificar o dono. O sistema já é comum em países da Europa e em algumas grandes cidades do país.

(Fonte: http://www.portalms.com.br/noticias/CCZ-comeca-a-implantar-chip-em-caes/Campo-Grande/Saude/11056.html)

5) A Prefeitura de Caraguatatuba, por meio do CCZ - Centro de Controle de Zoonoses, está realizando a implantação de chip de identificação em cães e gatos.O trabalho, que foi iniciado no começo de 2007, atende à lei 1.286/06 referente ao Programa de Registro e Identificação de Animais, pelo qual já foram identificados aproximadamente 300 animais na primeira fase.Segundo explicou o médico veterinário e chefe do CCZ, Guilherme Garrido, no processo de implantação do Programa, a primeira etapa, na qual os primeiros animais foram identificados, houve prioridade no critério de colocação dos chips. Assim, entre os eqüinos e bovinos, receberam chip os animais recolhidos e resgatados pelo proprietário, os leiloados e os doados. Os cães e gatos recolhidos e retirados pelo dono, e os adotados também receberam o sistema de identificação.A partir de janeiro de 2008 o Centro de Controle de Zoonoses está iniciando a segunda etapa do Programa de Identificação. Os proprietários de cães e gatos que queiram implantar o chip em seus animais devem comparecer ao CCZ e retirar a guia para recolhimento. O valor do chip é de 10 VRM para cães e gatos, e 20 VRM para bovinos e eqüinos, o que corresponde a R$ 18,41 e R$ 36,83, respectivamente.Conforme informou Garrido, o principal objetivo é identificar o maior número de animais, para inserir de forma concreta o conceito da "posse responsável".

(Fonte: http://www.jornalbaixadasantista.com.br/conteudo/zoonoses_chip_caes2007.asp)

Identificação em sere humanos - inclusive implante de microchips:

6)Na Holanda, o governo pretende abrir e manter um arquivo eletrônico para cada bebê nascido naquele país.

7) No México, para garantir segurança ao acesso ao escritório da advocacia da união do país, mais de 160 funcionários tiveram implantados em seus braços um chip para ter acesso às áreas seguras do escritório central.

8) Em Bruxelas, a comissão européia propôs uma lei que obriga todos os estados membros da Comunidade Econômica Européia a introduzir chips de identificação em seus passaportes emitidos para seus cidadãos contendo informações biométricas da face do proprietário e, possivelmente, sua impressão digital;

9) Nos Estados Unidos, um supermercado implantou um sistema de pagamento através da impressão digital armazenada em um banco de dados, permitindo que seus clientes paguem as compras sem a necessidade de levar dinheiro, passar o cartão de crédito ou débito.

10) Na Bélgica, um novo sistema via satélite de cobrança da taxa anual de veículos automotores funciona de forma que os carros são monitorados para saber o total de quilômetros percorridos individualmente podendo então cobrar as taxas aplicáveis de forma mais justa, acreditam as autoridades do país;

11)Na China, os 1,26 bilhões de habitantes terão suas carteiras de identidade trocadas por um novo modelo que virá com um chip contendo informações pessoais de cada pessoa, tendo como um de seus usos, fazer pedido de empréstimo bancário.

12) Na Finlândia, todo cidadão carrega uma identidade nacional, com um número identificador individual e todas as suas informações privadas e públicas estão armazenadas num gigantesco banco de dados no Governo, incluindo automóveis, empresas e todos os imóveis existentes no país. Toda esta parafernália de informações está disponível on-line.


13) Em setembro de 2004, a BBC informou que uma das boates mais badaladas das praias de Barcelona, a Baja Beach Club, estava implantando cartões de credito eletronicos debaixo da pele, para resolver o problema das pessoas que querem dançar, mas não querem carregar uma carteira: http://news.bbc.co.uk/2/hi/technology/3697940.stm

O sitio da boate confirma a informação: "Somos la primera discoteca del mundo en ofrecer el VIP VeriChip. Mediante un chip digital integrado, nuestros VIPs pueden identificarse como tal, así como pagar sus consumiciones sin la necesidad de aportar ningún tipo de documento." (http://www.baja-beachclub.com/bajaes/asp/zonavip.aspx).

14) A Motorola desenvolveu os biochipes BT952000, implantaveis em seres humanos, baseados na tecnologia medica e implantados por motivos clinicos, como o mal de Alzheimer, por exemplo. Esses biochipes transmitem permanentemente dados a satelites, através de impulsos curtos de altissima frequencia. O biochip da Motorola mede 7mm de comprimento e 0,75 mm de largura (mais ou menos o tamanho de um grão de arroz) e contém um transmissor-receptor e uma bateria de litio recarregavel. O carregamento da bateria faz-se através de um circuito de termopar com 250.000 componentes eletronicos que produz voltagem a partir das flutuações termicas do corpo. A bateria de litio mantém-se carregada durante a vida inteira através de uma variação maxima da temperatura corporal. A titulo de curiosidade, os pesquisadores gastaram 1,5 milhão de dolares para analisar as duas partes do corpo mais adequadas para receber o implante, com o proposito de tirar partido das variações maximas de temperatura. Após varios meses de estudo, concluiram que os dois melhores lugares eram, primeiro, a mão direita e, depois, a testa.

Mais noticias sobre o implante de chipes em seres humanos (em inglês):
http://www.guardian.co.uk/child/story/0,7369,785073,00.html
http://www.wnd.com/news/article.asp?ARTICLE_ID=17705
http://www.wnd.com/news/article.asp?ARTICLE_ID=23232
http://www.worldnetdaily.com/news/article.asp?ARTICLE_ID=26316


(Fonte - 13 e 14 : http://www.grupos.com.br/blog/oitocolunas/permalink/11027.html)


Conforme atcertadamente analisa o site "Oito Colunas":

"A imprensa frequentemente anuncia que a era do dinheiro de papel está chegando ao fim, para ser substituida pela do dinheiro eletronico, ou virtual. Cada vez mais as transações comerciais e financeiras são realizadas eletronicamente, através dos modernos cartões de credito e de debito. Estes cartões nos parecem muito uteis, pois nos poupam da necessidade de andar com dinheiro no bolso. Até porque o crescimento descontrolado da criminalidade faz do carregar dinheiro um comportamento bem pouco recomendavel. Uma das metas dos controladores globais é criar uma sociedade sem dinheiro vivo, em que todas as transações sejam efetuadas forçosamente através do sistema bancario. O dinheiro de papel nos garante privacidade e anonimato, ou seja, liberdade e independencia. Se todas as transações comerciais forem feitas eletronicamente, por meio do sistema bancario, poderão ser rastreadas todas as nossas compras e despesas.

"O controle sobre nossa vida ficará ainda mais completo se um mesmo instrumento permitir não sòmente o acompanhamento de nossas transações financeiras e comerciais, como também o reconhecimento dos nossos dados de identificação pessoal (nome completo, estado civil, profissão, endereço, RG, CPF, carteira de motorista, tipo sanguineo, impressão digital, nacionalidade, religião e opinião politica).

"Segundo um professor norte-americano de Ciencia Politica, citado por Daniel Estulin: "Primeiro o mundo será obrigado a usar um novo sistema de identificação internacional computadorizado, com dados pessoais digitalizados de acesso imediato, como informações bancarias, classificações de credito e situação profissional. Pouco depois, todos os documentos de identidade existentes, cartões de debito, cartas de motorista e cartões de credito serão consolidados num unico cartão inteligente multifuncional e tecnologicamente avançado, equipado com um chip de circuitos integrados que é capaz de armazenar tanto o dinheiro eletronico como os dados de identificação pessoal. Quase ao mesmo tempo, o mundo terá ficado sem dinheiro, e todas as moedas serão ilegalizadas para que sejamos obrigados a comprar tudo por via informatica" (In: ESTULIN, 2005:187-8).

"Essa invenção seria saudada como um habil meio de se facilitar a vida. Mas ainda apresentaria inconvenientes: por exemplo, todos esses dados seriam perdidos se ladrões nos levassem o cartão. Para esse e outros problemas seria oferecido como solução definitiva o implante, debaixo da pele das mãos, de um biochip identificador que substituiria todos os nossos cartões e documentos de identificação. Ninguém poderá comprar ou vender coisa alguma sem ele.

"Numa monografia elaborada pela advogada Elaine M. Ramesh para o Franklin Pierce Law Centre (uma faculdade norte-americana de Direito) lê-se: "Um sistema nacional de identificação atavés da implantação de microchips poderia ser implementado em duas fases: na fase de apresentação, como um sistema voluntario, já em curso no rastreio de animais, a implantação do microchip parecerá agradavel. Depois de se criar uma familiaridade com o processo e de se conhecer as suas vantagens, a implantação seria obrigatoria"
(o sublinhado é meu. Quem quiser consultar a integra da monografia da Dra. Ramesh, acessar: http://www.piercelaw.edu/risk/vol8/fall/ramesh.htm)."

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Pelo "re-encantamento" do mundo



A religião para conter o deserto?


“A extrapolação das tendências atuais na redução da biodiversidade implica um desfecho para a civilização dentro dos próximos cem anos.” E o único caminho para reverter esse quadro, propõe o biólogo Paul R. Ehrlich“talvez seja uma transformação quase religiosa, que leve à apreciação da diversidade por si própria, independentemente de seus benefícios diretos para a humanidade”. É o mesmo caminho proposto pelo coordenador da obra, o biólogo Edward O. Wilson", escreve Washington Novaes, jornalista, em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo, 18-07-2008.

Eis o artigo.


A recente divulgação de mais um relatório da Organização para a Alimentação e a Agricultura (FAO) da ONU, assim como novos congressos sobre desertificação no Brasil, trazem de volta o tema. O relatório da FAO, com um balanço dos últimos 20 anos, diz que a degradação do solo no mundo - medida pelo declínio nas funções e na produtividade de um ecossistema - já atinge mais de 20% das terras ocupadas pela agricultura, 10% das pastagens, 30% das áreas de floresta. E afeta 1,5 bilhão de pessoas, com insegurança alimentar, perdas agrícolas, perda da biodiversidade, necessidade de migrar. Também influi no clima, porque a perda de biomassa e de matéria orgânica no solo desprende carbono. E leva à redução do fluxo hidrológico, porque se reduz a capacidade de a terra desmatada reter água. A China está com 457 mil km2 afetados; a Índia, com 177 mil; a Indonésia, 86 mil; Bangladesh, 72 mil. Para o Brasil, o relatório aponta 46 mil km2, embora nossos relatórios nacionais mencionem 180 mil km2 em diferentes etapas do processo de desertificação, principalmente no Semi-Árido nordestino, mais Espírito Santo e Minas Gerais (11 Estados ao todo).

Os relatórios apontam situações difíceis em áreas que o mundo se habituou a considerar desenvolvidas e ausentes de questões dessa natureza. É o caso da Espanha, por exemplo, onde um terço do território é considerado como de “risco significativo” nessa área, principalmente por causa da escassez de água. Até o fim deste século, prevê-se que o fluxo hidrológico ali, especialmente no sul do país, diminua 22%. Barcelona, cidade admirada e invejada, enfrenta uma escassez inédita, que a leva a disputar com outras zonas as águas do Rio Ebro (que quer transpor e captar, para diminuir a crise). E até a proibir que se encham piscinas.

A Austrália é outra área com graves dificuldades, já que o fluxo das principais bacias hidrográficas caiu 41% - é o mais baixo em 117 anos, desde quando se têm registros - e afeta a produção de frutas, grãos e outros bens. Certamente é essa uma das razões que levaram o país (o maior exportador de carvão no mundo) a mudar sua posição e aderir ao Protocolo de Kyoto, sobre mudanças climáticas. As previsões dos cientistas para lá são de que as “ondas de calor” se tornarão muito mais freqüentes e afetarão ainda mais o fluxo dos rios (cada grau Celsius de alta na temperatura média pode reduzi-lo em 15%, dizem alguns cientistas).

O fato é que o drama da desertificação avança à razão de 60 mil km2 por ano no mundo. E seriam necessários, diz a ONU, pelo menos US$ 12 bilhões anuais para programas de informação, monitoramento e recuperação de áreas. Mas esses recursos não estão disponíveis, embora os prejuízos anuais sejam muito maiores que isso, sem falar no drama das migrações e conflitos que provocam. No Brasil mesmo, os R$ 500 mil anuais teoricamente disponíveis para o Fundo de Iniciativas Sociais no Semi-Árido têm sido reduzidos a ridículos R$ 25 mil/ano. Quando deveríamos ser muito mais cuidadosos. Além do Semi-Árido, as imagens de satélites mostram cada vez mais pontos problemáticos em todo o território nacional, da fronteira gaúcha ao sudoeste goiano. E já há alguns anos o Ministério do Meio Ambiente apontava uma perda de 90 milhões de toneladas anuais de solo fértil por ano no Cerrado, por causa de erosão; no Rio Grande do Sul, 80 milhões/ano; no País todo, 1 bilhão de toneladas anuais. É possível que o plantio direto nas lavouras de grãos tenha reduzido esses números, mas eles ainda são altos. E a área de pastagens degradadas é enorme: em Goiás, na última negociação com o Fundo do Centro-Oeste, foram apontados 70% das pastagens em algum estágio de degradação. No mundo, estima-se que a perda seja de 23 bilhões de toneladas anuais de solo. E leva 30 anos para o solo em descanso recompor uma polegada de terra fértil.

Enquanto tudo isso acontece, ganha mais corpo uma discussão que ao longo das últimas décadas se desenvolveu timidamente, confinada quase apenas a áreas ditas “ambientalistas”. Um dos primeiros a expô-la foi o biólogo Paul R. Ehrlich, da Universidade de Stanford, na Califórnia - segundo quem o problema da relação do ser humano com seu meio físico e com as espécies das quais depende só terá encaminhamento com o que chama de “recuperação do sagrado”, quando nossa espécie reconhecer o direito à vida de todas as espécies, independentemente de sua utilidade para os humanos (como alimentos ou materiais). Diz ele (Biodiversidade, Editora Nova Fronteira, 1997) que “a causa básica da decomposição da diversidade orgânica não é a exploração ou a maldade humana, mas a destruição de hábitats que resulta da expansão das populações humanas e suas atividades”. Para ele, “muitos desses organismos que o Homo sapiens está destruindo são mais importantes para o futuro da humanidade do que a maioria das espécies sabidamente em perigo de extinção; as pessoas precisam mais de plantas e insetos do que precisam de leopardos e baleias (sem querer com isso menosprezar o valor dos dois últimos)”. Seu prognóstico: “A extrapolação das tendências atuais na redução da biodiversidade implica um desfecho para a civilização dentro dos próximos cem anos.” E o único caminho para reverter esse quadro “talvez seja uma transformação quase religiosa, que leve à apreciação da diversidade por si própria, independentemente de seus benefícios diretos para a humanidade”. É o mesmo caminho proposto pelo coordenador da obra, o biólogo Edward O. Wilson, em outro livro - A criação, Companhia das Letras, 2007) - já comentado neste espaço. Wilson acha que a única possibilidade de mudança rápida no padrão civilizatório, capaz de rever os rumos, está numa aliança entre a ciência e a religião.

Pois não é que o Equador está discutindo incluir em sua Constituição os “direitos da natureza”?

Extraído de: http://www.unisinos.br/_ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=15337

terça-feira, 22 de julho de 2008

Nazismo e contemporaneidade


A Revista IHU-On Line dedicou seu último numero (IHU-On Line, n. 265) à análise do Nazismo. Sob o título "Nazismo: a legitimação da irracionalidade e da barbárie", a revista traz uma série de entrevistas exclusivas com diversos intelecttuais brasileiros e estrangeiros, enfatizando a abordagem filosófica e psicanalítica do fascismo alemão.


Coletei alguns trechos - selecionando passagens das entrevistas concedidas por Ricardo Timm, Michel Stürmer, Vladimir Safatle, Saul Kirschbaum e Mário Fleig - sobretudo por trazerem à luz aspectos que se relacionam de perto com a realidade contemporânea (a aproximação da "esquerda" com a "extrema-direita", o discurso exclusivista e politicamente correto porém essencialmente intolerante etc).






I) Ricardo Timm (1)



IHU On-Line - Como a marca do ódio do homem contra o homem deixada pelo nazismo perpassa e inspira Lévinas a construir um sistema em que a Ética e alteridade são os pilares principais? Podemos falar numa ética da diferença? O que seria ela?

Ricardo Timm -
A Ética da Alteridade - que, em sentido lato, é uma ética das diferenças, assim mesmo, no plural - se constitui essencialmente em uma resposta à violência contra a vida e a Alteridade, o Outro, que não apenas o Nazismo significou de modo eminente, mas que todos os sistemas opressores da humanidade (e mesmo dos animais e da natureza em geral) vêm significando ao longo dos séculos. Consiste essencialmente em mostrar que a ética não é subsidiária de nenhum conhecimento ou saber prévio, mas condição vital-temporal de todo saber e conhecimento, ou seja, prima philosophia. Observe-se que Lévinas não “nega” o Ser; para Lévinas, o Ser é o lugar, o espaço onde o encontro com o Outro e a responsabilidade por ele se devem dar na construção do sentido humano-ecológico.

IHU On-Line - Filosoficamente, que outros autores, além de Lévinas, construíram respostas ao horror nazista?

Ricardo Timm -
É difícil conceber que algum filosófo que tenha vivenciado diretamente ou indiretamente o horror nazista não tenha sido influenciado por este acontecimento maior na história contemporânea, mas, se algum filósofo não o foi, eu duvido muito que permaneça merecendo essa designação de “filósofo”. Assim, a totalidade dos grandes pensadores que vivenciou o período foi obrigado a sobreviver a este trauma radical. Todavia, eu destacaria nesse universo um pensador em particular - Theodor W. Adorno - que elabora, a partir da crítica filosófica a um tal estado de coisas e em articulação com um diagnóstico interdisciplinar extremamente sofisticado da sociedade e cultura contemporâneas, um modelo de pensamento que propõe alternativas sólidas à violência que Auschwitz e tudo que se lhe assemelha significa. Temos em Adorno a fundamental reconfiguração do imperativo categórico da tradição: para ele, é imperativo “impedir que Auschwitz se repita”.


IHU On-Line - A Filosofia mudou depois de Auschwitz? Em que aspectos?


Ricardo Timm -
Definitivamente, se quiser merecer continuar sendo chamada de Filosofia. A Filosofia é obrigada, pelo horror e pelo imperativo de sua evitação, a se encontrar com seus fundamentos éticos de sentido. O problema não é mais questionar pelo Ser, mas questionar pelo sentido que o Ser deve assumir na construção de um mundo em que “Auschwitz” não tenha lugar.


IHU On-Line - Hitler dizia ter lido, entre outros, Hegel e Nietzsche, além de se declarar um wagneriano convicto. Em que medida Hitler compreendeu e distorceu o pensamento desses filósofos e compositor?

Ricardo Timm -
Nem Hegel, nem Nietzsche, nem mesmo o polêmico Wagner permitiriam, apenas pela leitura de suas obras ou de parte delas, inferências tão baixas que sustentassem uma doutrina do teor do nazismo. Outra questão é saber se nesses pensadores - Wagner incluído - não se encontram elementos da grande tradição logocêntrica ocidental que permitiram, por alguma metamorfose doentia, alguns aspectos daquilo que se pode ler como uma certa base “filosófica” de aspectos da doutrina nazista.


IHU On-Line - De que forma o agir político de Hitler se entrelaçou com a filosofia de pensadores como Heidegger e Carl Schmitt ?

Ricardo Timm -
Carl Schmitt é um pensador singular, essencial para a compreensão da filosofia política contemporânea independentemente de seu viés político explícito. Todavia, ao meu ver, permanece, apesar de tudo, um pensador, ou seja, alguém capaz de dialogar até mesmo com um Walter Benjamin. Há que saber distinguir o que, de Schmitt, nos dá hoje o que pensar. Já o caso de Heidegger me parece bem mais complicado; não é segredo para ninguém que ele, durante certo período crítico, abraçou o nacional-socialismo, havendo perdido posteriormente várias chances de se retratar. De qualquer forma, é possível - e tem sido realizada, especialmente na Alemanha, mas não apenas lá - uma exegese de seus textos que indiciam que sua proximidade com o referido ideário era mais intenso, até mesmo visceral, em relação ao que se depreende apenas, por exemplo, da leitura do “Discurso do reitorado”.

IHU On-Line - Como podemos entender que, em pleno século XX, e com amplo apoio da população alemã e de outras partes do mundo, se chegou ao terror nazista?

Ricardo Timm -
Através de uma rigorosa arqueologia da razão ocidental. Pensadores como os filósofos da Escola de Frankfurt, Derrida e Lévinas, entre outros, nos mostram que estranho seria se o caminho que vai “da funda à bomba atômica”, no dizer dos frankfurtianos, não fosse trilhado, uma vez que a obsessão pelo ser e o desprezo pela temporalidade confluem necessariamente em um delírio ontológico-instrumental no qual a ética como realidade propriamente dita não tem, ou apenas tem dificilmente lugar.

IHU On-Line - Na Alemanha e no mundo atual, há espaço para esse tipo de político ditador? As pessoas, em pleno século XXI, apoiariam uma política como aquela?

Ricardo Timm -
As condições permanecem. Devemos perder a ingenuidade e entender que a crença em uma idéia linear de “progresso moral” não se justifica nem historicamente, nem filosófica, política ou sociologicamente. Enquanto a racionalidade instrumental permanecer ditando as regras maiores do mundo, como hoje o faz sob a forma capitalista, na transformação da qualidade em quantidade pela anulação das diferenças, da Alteridade, nada nos garante que as massas não venham a aderir ao suicídio coletivo que significam doutrinas aberrantes em relação à vitalidade e à saúde dos seres humanos individuais, das comunidades e dos ecossistemas.


II) Michel Stürmer (2)



IHU On-Line – Qual era a situação dos partidos de direita e esquerda no período entre as guerras? De que modo esta situação política contribuiu para o advento do nacional-socialismo?

Michael Stürmer -
A República de Weimar foi uma civitas sitiada, desde o início, de ambos os lados: a guerra civil da esquerda, que no início foi forte, e a da direita, que no final venceu. Mas o nacional-socialismo é ambas as coisas: direita e esquerda – isto não se pode esquecer, caso se queira explicar o seu êxito.


IHU On-Line –Quais foram as influências intelectuais de Hitler? Até que ponto ele realmente entendeu os autores que ele afirma ter lido? Na mesma entrevista ao La Repubblica, o senhor considera que “o completo niilismo de sua vontade de poder não foi levado a sério”.

Michael Stürmer -
Hitler foi leitor compulsivo e autodidata. Mas, sobretudo um possuído pelo poder. Somente uma edição crítica de seu Mein kampf poderá dar informação mais exata a essa pergunta.


IHU On-Line – Alguns autores afirmam que o fenômeno do nazismo não seria uma anomalia social ou uma patologia cultural, mas uma síntese do pensamento reacionário europeu. Qual é seu ponto de vista?

Michael Stürmer -
Sobre isto, dou duas respostas. Quem se prepara para a guerra de ontem, vencerá a de amanhã. Mas a radical combinação de esquerda-direita, impulsionada pela crise social e de recursos, pode retornar e já é observável em alguns lugares. Os humanos aprendem pouco.

IHU On-Line – Na Alemanha e no mundo atual, ainda há lugar para tal tipo de ditador político? As pessoas que vivem em pleno século XXI ainda apoiariam tal política?

Michael Stürmer -
Não. As tentações são sempre diferentes, sempre novas. O estado do bem-estar torna todos nós imaturos. A história é mais rica em suas variações do que em deixar-se influenciar por pura repetição. Hoje em dia, as tiranias chegam via Tecnologia de Informação, via estado do bem-estar, estado econômico etc. Como poderia você acreditar que o nível de moral ou de sabedoria seria hoje mais alto do que nos anos 1970, 1980?

IHU On-Line – Que razões explicam a maciça adesão da juventude à proposta de Hitler?

Michael Stürmer - Juventude é embriaguez sem vinho. A capacidade de sedução é enorme. O desejo do parricídio também.

IHU On-Line –
Após 75 anos desde a ascensão de Hitler ao poder, como os alemães lidam com o passado?

Michael Stürmer - Sempre falar disso, jamais pensar nisso.

III) Vladimir Safatle (3)

IHU On-Line -
Nesse aspecto, o Iluminismo seria a exacerbação do logos e o ocaso definitivo de nossos aspectos dionisíacos, nietzschianamente falando? O homem se transformou num ressentido, num rato de subsolo (como dizia Dostoiévski ) que se compraz em arquitetar o mal, deixando de lado sua “crueldade inocente”?

Vladimir Safatle - Na verdade, tenho uma certa dificuldade em entender o que pode significar “o mal” neste contexto. Não creio que ele seja realmente um conceito ou um princípio que funda uma certa lógica própria da ação. Normalmente, dizemos que o mal está vinculado ao prazer de fazer o outro sofrer e de destruí-lo. Não seria difícil mostrar que este não é um prazer que funda um modo de conduta, mas é uma espécie de prazer derivado da hipóstase de princípios de auto-conservação. Mais aterrador não é o prazer de destruir o outro, mas a destruição do outro sem prazer, feita a partir de um formalismo levado às últimas conseqüências, um pouco como aquela máquina de “Na colônia penal”, de Kafka, que de tanto escrever a Lei no corpo dos condenados acaba por mutilá-los “em nome da Lei”.

IHU On-Line - O homem contemporâneo é suscetível de se deixar levar por outros ditadores como Hitler?

Vladimir Safatle -
Há um aspecto do fascismo que acabamos por esquecer. No entanto, ele é para mim o mais aterrador. Tendemos a acreditar que o fascismo era uma ditadura no velho estilo Law and Order. No entanto, ele era uma situação social onde, no fundo, ninguém acreditava na ideologia bricolada e inconsistente dos líderes. Na verdade, encenava-se a crença, agia-se como se todos acreditavam. Esta era a única maneira do sistema funcionar.
Pensando nisto, peguem alguém como Silvio Berlusconi. Trata-se de um caso extremamente interessante. Primeiro porque, do ponto de vista econômico, a Itália votou contra seus próprios interesses. Desde que Berlusconi subiu ao poder, a Itália estagnou. Meios de comunicação conservadores como The Economist e Financial Times fizeram campanha contra ele devido a sua mais completa inépcia econômica. No entanto, ele ganhou pela terceira vez, mas agora com um discurso francamente racista e xenófobo.

O que é interessante em seu caso é como sua figura de fora-da-lei notório, misto de malandro boa praça e mafioso empresarial, acaba por encarnar o desconforto e a ira da maioria contra uma Lei que, até agora, foi apenas a vontade do mais forte. Berlusconi representa a revolta contra a Lei social. No entanto, esta revolta está agora associada a demandas de “segurança”, que a suspensão pura e simples da Lei não traria. Por isto, pedimos ao fora-da-lei que, ao mesmo tempo, suspendam e cumpram a Lei com dureza. Cumpram não contra nós, mas contra os outros, contra estes invasores, parasitas, estes que não gozam como nós, sejam eles os judeus de ontem ou os árabes de hoje. Tanto faz quem ocupa o lugar dos que representam a insegurança contra o Todo social.
Berlusconi é a melhor figura do totalitarismo: alguém que mistura, de um lado, o sorriso maroto da criança que não quer se submeter à Lei e que, com isto, ganha a simpatia destes para quem a Lei tem gosto de opressão e que traz na sua mão o porrete implacável da polícia que não se deixa enganar pela ingenuidade destes que são complacentes com a insegurança e com os que burlam a lei de imigração. Um criminoso duro contra o crime. Alguém que não pede para acreditarmos nele, mas para apenas fingir que acreditemos nele.

IV) Saul Kirschbaum (4)

IHU On-Line - Em Mein kampf, Hitler afirma ter lido Hegel e Nietzsche, além de se declarar um admirador de Wagner. Em que medida Hitler compreendeu e distorceu o pensamento desses filósofos e compositor?

Saul Kirschbaum -
A idéia de “distorcer” conota uma intencionalidade perversa. Por outro lado, qualquer texto é suscetível de múltiplas leituras, dependendo da ótica do leitor. Certamente, não se pode afirmar que Hegel e Nietzsche tenham sido nazistas, ou proto-nazistas, ou mesmo simpatizantes do nazismo (ao contrário de Wagner, cuja recuperação e interpretação dos mitos germânicos foi instrumental para a elaboração do ideário nazista, e por quem a admiração de Hitler era notória). Mas, se o nazismo, o totalitarismo, a barbárie, são possibilidades concretas, apesar de extremas, da Civilização Ocidental, então deve ser possível encontrar aspectos que corroborem essas possibilidades em muitos pensadores. Neste sentido, talvez Hitler não tenha, propriamente, distorcido o pensamento dos filósofos, mas apenas compreendido em uma dimensão que nos aterroriza; para nos tranqüilizarmos, precisamos pensar que ele distorceu.

IHU On-Line - Além do extermínio físico, os nazistas promoveram um verdadeiro extermínio moral por onde passaram. De que forma a mentalidade nazista pôde ser aceita numa Europa evoluída? Por que as pessoas não se levantaram contra esse totalitarismo?

Saul Kirschbaum -
O extermínio físico somente foi possível por ter sido precedido pelo extermínio moral. Os judeus, ciganos, homossexuais, foram primeiro desumanizados, desindividualizados, rebaixados a números, condenados à exclusão pelo fato mesmo de pertencerem a um determinado grupo. O regime, totalitário, se encarregou de criar uma imensa burocracia, recrutada e treinada para suprimir quaisquer considerações éticas a respeito das tarefas recebidas. Uma gigantesca máquina de propaganda recebeu a atribuição de convencer a população de que as dificuldades vividas pela Alemanha eram conseqüência da presença maléfica dos grupos que estavam sendo excluídos, pois impediam a caminhada da Alemanha rumo ao seu futuro glorioso, de outra forma garantido pela supremacia racial dos alemães; ao mesmo tempo, a prática da brutalidade contra os adversários do regime, do fato consumado, espalhou o terror, impedindo que as pessoas se levantassem. Muitos intelectuais, reduzidos à impotência, optaram por emigrar.

IHU On-Line - O nazismo é uma expressão da pós-modernidade ou é sua própria essência, representando a falência de valores e o niilismo moral?

Saul Kirschbaum -
É necessário um consenso prévio sobre o significado da expressão “pós-modernidade”. Se a entendermos como a constatação do fracasso dos “ismos” do século XIX (comunismo, socialismo, liberalismo, positivismo), que prometiam um futuro jubiloso de progresso material permanente e a conseqüente melhoria moral da humanidade, então, sim, o nazismo é a própria essência da pós-modernidade, é a expressão máxima dessa aterradora e sempre presente possibilidade da Civilização Ocidental, a irrupção da barbárie; é a possibilidade do Campo de Concentração em escala internacional.

IHU On-Line - Como a marca do ódio do homem contra o homem deixada pelo nazismo perpassa e inspira Lévinas a construir um sistema em que a Ética e alteridade são os pilares principais?

Saul Kirschbaum -
O ponto de partida da reflexão levinasiana é que a primazia da liberdade do sujeito, constitutiva da ontologia ocidental, serve de suporte para a postulação da plena realização do Eu. O Outro se apresenta, então, como um obstáculo ao desenvolvimento do Eu em todo o seu potencial, e deve, por isso, ser suprimido. A liberdade é assassina, e a relação entre os homens é marcada pelo ódio. Esta reflexão inspira Lévinas a propor “a ética como filosofia primeira”, e a infinita responsabilidade pelo Outro em lugar da primazia do Eu.

IHU On-Line - Em que aspectos o pensamento de Lévinas é uma resposta e uma contraposição à filosofia nazista? A dominação do Ser na filosofia ocidental cede espaço ao Outro na filosofia Lévinasiana?

Saul Kirschbaum -
Lévinas já havia percebido, em seu ensaio de 1934, “Quelques réflexions sur la philosophie de l’hitlérisme”, que “a filosofia do hitlerismo [...] põe em questão os próprios princípios de uma civilização”. Como assinalou Miguel Abensour, no ensaio que acompanha aquela obra, “[t]rata-se de uma civilização, ou antes de uma anti-civilização instalada na brutalidade do fato de ser, na brutalidade do fato consumado. [...] Daí a advertência final de Lévinas em De l’évasion: ‘Toda civilização que aceita o ser, o desespero trágico que ele comporta e os crimes que ele justifica, merece o nome de bárbara’” [traduções minhas]. A grande lição do nazismo, a barreira moral até então intransponível que ele derruba para a Civilização Ocidental, é a demonstração prática de que é possível matar milhões de pessoas, bastando, para isso, que elas sejam previamente desumanizadas, privadas de seus direitos mais elementares. A constatação de que essas possibilidades extremas residem na aceitação do Ser (e, conseqüentemente, na desumanização do Outro, reduzido a corpo “matável”) tem como decorrência, para Lévinas, que somente uma filosofia baseada na infinita responsabilidade pelo Outro, no pleno reconhecimento de sua alteridade, será capaz de se opor à barbárie.

V) Mário Fleig (5)

IHU On-Line - É possível afirmarmos que no nazismo a perversidade se converteu na norma?

Mário Fleig -
A norma no nazismo estaria, penso eu, na negação de qualquer diferença, a começar pela afirmação de uma única raça pura, e a proposta de um único Reich para toda a humanidade. A norma, nesse caso, é a afirmação constante de apenas e somente um Um. Isso que significa o sistema exacerbado, que tem a pretensão de conter tudo, inclusive a si mesmo. É a imanência plena e completa. Por isso é que a dimensão da alteridade não tem lugar em tal sistema e, em decorrência, desaparece o pensamento, se o considerarmos como a operação da diferença ou da polêmica, como já propunha Heráclito , por meio do polemos.

IHU On-Line - Como podemos entender que, enquanto algumas pessoas pensam no mal e não o executam, outras o concretizam em campos de extermínio, por exemplo? Somos todos um pouco perversos?

Mário Fleig -
Quando não conseguimos ver claramente um fato social, talvez seja porque, de algum modo, fazemos parte dele. Parece que assim se passa com a perversão, pois temos indícios de que o funcionamento social hoje certamente é muito mais regido pela perversão, isto é, a recusa em fazer da subjetividade daquele com quem lidamos o menor entrave ao exercício de um poder ou de um gozo, não importando o fato de que ele exista. O que importa é que ele realize sua tarefa e isso sem nenhum limite, sem nenhuma barreira, sem nenhuma fronteira. Esse tipo de dispositivo parece fazer parte de nossa organização social, ao ponto de que não sabemos muito bem de que modo estamos imerso na perversão. Ou seja, os funcionamentos perversos tende a passar por normais e o questionamento que alguém possa levantar é visto como inconveniente. O império do politicamente correto, que estaria dentro da lógica da perversão comum que perpassa nossa cultura, determina que qualquer discordância àquilo que é suposto aprovado pelo consenso seja mal visto e reprovado.
Querer fazer o mal parece algo inerente à condição humana. Precisaríamos nos perguntar o que produz o ódio ao outro e qual é o futuro de nosso futuro do ódio. A partir disso, por que os modos de recalcamento do ódio têm sido tão ineficientes na contemporaneidade?

IHU On-Line - Como caracterizaria o tipo psicológico de Hitler?

Mário Fleig -
Não creio que seja algo produtivo fazer a psicologia de figuras públicas, ainda menos de Hitler. Penso que seja mais produtivo prestar atenção ao que se manifesta no discurso. Ressalto um elemento no caso de Hitler, que contraria a hipótese de se tratar alguém situado na perversão: a insistência em ocupar o lugar de exceção em nome próprio. Sabemos que o perverso tende a agir sempre fazendo uso do outro, especialmente de seu nome. O célebre “Burlador de Sevilha”, de Tirso de Molina, o Don Juan, costumava realizar suas conquista se apresentando no lugar e em nome de outro. Não é o caso deste senhor que exigia que todos declarassem incessantemente: Heil Hitler.

IHU On-Line - Como é possível compreender a adesão dos intelectuais ao nacional-socialismo? Nesse contexto, como se situa Heidegger e sua filosofia?

Mário Fleig -
Acredito que uma posição intelectual não implica necessariamente uma proteção contra o totalitarismo, a segregação e a maldade. Os intelectuais estão tão sujeitos a serem seduzidos pelas promessas perversas e paranóicas quanto o homem comum. Heidegger certamente não soube identificar os sinais de maldade que já se descortinava na proposta política nazista. Por que não conseguiu ou por que caiu na sedução que lhe prometia uma radical renovação da universidade? É uma pergunta que teria de buscar respostas dentro do pensamento do filósofo, assim como examinar a oposição à ideologia nazista posterior à renúncia ao posto de reitor da Universidade de Freiburg. Poderíamos levantar a hipótese de que o pensamento veiculado em sua obra principal Ser e tempo (1927) estava excessivamente centrado na perspectiva da subjetividade, sem suporte para a crítica dos fenômenos sociais. É após sua renúncia ao lugar político dentro da administração nazista que Heidegger inicia a elaboração dos fundamentos da crítica ao império da técnica e ao discurso objetivante calcado na raça. Não concordo com seus críticos que fazem uma equiparação injustificada entre sua filosofia e o nazismo. Bem pelo contrário, se Heidegger tivesse se ancorado de modo mais firme do que já fizera em seu antecessor, Kierkegaard, propulsor incansável do valor do indivíduo contra o sistema, talvez não tivesse se enleado tão desastrosamente na teia paranóica nazista. Sugiro, para esse debate atual, a lúcida discussão de vários colegas franceses em Heidegger, à plus forte raison (Paris: Fayard, 2007).


Notas

(1)
Timm é graduado em Instrumentos, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Estudos Sociais e Filosofia, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Também cursou o mestrado em Filosofia, pela mesma universidade, e doutorado em Filosofia, pela Universität Freiburg (Albert-Ludwigs) com a tese Wenn das Unendliche in die Welt des Subjekts und der Geschichte einfällt - Ein metaphänomenologischer Versuch über das ethische Unendliche bei Emmanuel Lévinas. Escreveu inúmeros livros, entre eles, Sujeito, Ética e História - Lévinas, o traumatismo infinito e a crítica da filosofia ocidental (Porto Alegre: EDIPUCRS, 1999), A condição humana no pensamento filosófico contemporâneo (Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004) e Em torno à diferença - Aventuras da alteridade na complexidade da cultura contemporânea (Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2007). É também um dos organizadores de Alteridade e Ética - Obra comemorativa dos 100 anos do nascimento de Emmanuel Lévinas (Porto Alegre: EDIPUCRS, 2008).


(2)
Desde 1973, Stürmer é professor adjunto de estudos europeus e professor emérito de história medieval e moderna da Universidade Friedrich-Alexander, Erlangen-Nürnberg. Estudou História, Filosofia e Línguas na London School of Economics e Ciências Políticas na Universidade Livre de Berlim e na Universidade de Marburg. Foi conselheiro político do chanceler Helmut Kohl nos anos 1980. Desde 1989, é diretor de redação do jornal alemão Die Welt. Escreveu, entre outros, Bismarck und die preussisch-deutsche Politik, 1871-1890 (München: Deutscher Taschenbuch-Verlag, 1970), Die Reichsgründung: deutscher Nationalstaat und europäisches Gleichgewicht im Zeitalter Bismarcks (München: Deutscher Taschenbuch Verlag, 1984) e The German Empire, 1870-1918 (New York : Random House, 2000).


(3)
Graduado em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP) e em Comunicação Social, pela Escola Superior de Propaganda e Marketing, Vladimir Safatle é mestre em Filosofia, pela Universidade de São Paulo, e doutor em Lieux et transformations de la philosophie, pela Université de Paris VIII, com a tese La passion du négatif: modes de subjectivation et dialectique dans la clinique lacanienne. Professor da USP, atualmente desenvolve pesquisas nas áreas de epistemologia da psicanálise, desdobramentos da tradição dialética hegeliana na Filosofia do século XX e Filosofia da Música. É um dos coordenadores da International Society of Psychoanalysis and Philosophy.


(4)
Kirschbaum é graduado em Engenharia Elétrica, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), especialista em Administração, pela Fundação Getúlio Vargas São Paulo (FGV-SP), e mestre e doutor em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaica, pela Universidade de São Paulo. Sua tese intitulou-se Ética e literatura na obra de Samuel Rawet. Autor de inúmeros artigos e capítulos de livros é um dos organizadores de Dez Ensaios para Samuel Rawet (Brasília: LGE Editora, 2007


(5)
O psicanalista e filósofo Mário Fleig é professor do curso de pós-graduação em Filosofia da Unisinos e membro da Associação Lacaniana Internacional. Graduado em Psicologia pela Unisinos e em Filosofia pela Faculdade de Filosofia Nossa Senhora Medianeira, é mestre em Filosofia, pela UFRGS, doutor em Filosofia, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), e pós-doutor em Ética e Psicanálise, pela Université de Paris XIII (Paris-Nord), França.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Site: Polar Inertia


Um site bem interessante. É uma espécie de guia visual das manifestações residuais que a vanguarda pós-moderna deixou para trás em todo o mundo. Sem descuidar do texto, essa revista fotográfica contem matérias sobre diferentes "zonas de fronteiras", liminaridades coletivas. Há, por exemplo, matérias sobre uma "cidade nômade" espanhola, ou sobre bases secretas norte-americanas, sobre grafites em zonas de guerra, bunkers abandonados e reaproveitados e diversas outras instalações e manifestações urbanas, antigas ou ultra-modernas.
Uma espécie de coleção fotográfica do delírio paraníoco-consumista pós-moderno.


Merece uma visita o Arquivo da Revista em: http://www.polarinertia.com/archives.htm.



Endereço do site: http://www.polarinertia.com/

Burocratização, neo-fascismo e estado policial no Brasil



Fascismo. Moralismo faz a política ficar de fora da discussão.


Entrevista especial com Luiz Werneck Vianna






Ao analisar os recentes episódios de corrupção no Brasil, a partir da prisão (ou da tentativa de) do banqueiro Daniel Dantas, o professor Luiz Werneck Vianna, do Iuperj, em entrevista concedida por telefone à IHU On-Line, identifica apenas “o capitalismo operando”. Para ele, o mal não está em figuras como a de Dantas ou de Eike Batista, “como se a sociedade fosse melhorar se nos livrássemos delas”. Ele garante: “Não vai melhorar. A sociedade vai melhorar se organizando em torno das suas questões centrais”, que são, na sua opinião, o crescimento econômico, a reforma agrária e a democratização da propriedade. O pesquisador acredita que “os piores instintos da sociedade estão sendo suscitados com tudo isso”. E que a solução virá “com mais política”. “O que constatamos, ao longo desse episódio, é que a política recua. Não há política. Está faltando sociedade organizada, reflexiva. A política está reduzida ao noticiário policial”, explica.

Werneck Vianna é professor pesquisador do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo, é autor de, entre outros, A revolução passiva: iberismo e americanismo no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1997), A judicialização da política e das relações sociais no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1999) e Democracia e os três poderes no Brasil (Belo Horizonte: UFMG, 2002).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Personagens como Daniel Dantas e Eike Batista avançaram sobre nacos importantes do patrimônio do Estado brasileiro. Quais foram as condições políticas e econômicas que permitiram o surgimento desses personagens?

Luiz Werneck Vianna –
O Brasil é um país capitalista. E esses são empresários audaciosos, jovens, e têm encontrado um terreno favorável a tratativas com o executivo no sentido de fazer negócios de interesse comum. E nisso ambos parecem que têm se complicado muito. No entanto, há uma zona de sombra que ainda precisa ser esclarecida. Meu problema em relação a tudo é essa sucessão de intervenções espetaculosas da Polícia Federal, a mobilização da mídia, do Ministério Público, do Judiciário e da opinião pública para esses fatos. As questões centrais não são essas. Com essa cortina espetacular, o mundo continua como dantes. Nada muda no que se refere à questão agrária, às políticas sociais. A população anda desanimada, desencantada. Além disso, o que aparece aqui, que é muito perigoso, é um espírito salvacionista. Há um “Batman institucional” atuando sobre a nossa realidade. Esse “Batman” é a Polícia Federal associada ao Ministério Público. Há elementos muito perigosos aí, de índole messiânica, salvacionista, apolítica, que podem indicar a emergência de uma cultura política fascista entre nós. Todos esses escândalos e espetáculos atraem a opinião pública como se dependesse da salvação de todos apurar os negócios do Eike Batista e do Daniel Dantas. Não depende, isso é mentira! Com isso, se mobiliza a classe média para um moralismo que não pára de se manifestar. A política cai fora do espaço de discussão. Enquanto isso, aparecem dois personagens institucionais, ambos vinculados ao Estado: o Ministério Público e a Polícia Federal. Este caminho é perigoso, e a sociedade não reage a ele faz tempo. A cultura do fascismo pode se manifestar com traços mais bem definidos, a partir da idéia de que nosso inimigo é a corrupção, especialmente aquela praticada pelas elites. Então, a sociedade acha que se resolve esse problema colocando a elite branca na cadeia. Desse modo, o país viveria numa sociedade justa. Não vai, mentira!

IHU On-Line – O que o senhor considera como as questões centrais na sociedade brasileira, que devem ser discutidas com mais ênfase?

Luiz Werneck Vianna –
O tema do crescimento econômico, da reforma agrária, da democratização da propriedade. Para isso ninguém mobiliza ninguém.

IHU On-Line - Pode-se afirmar que os anos dourados do neoliberalismo brasileiro produziram uma nova burguesia nacional da qual Daniel Dantas e Eike Batista são hoje personagens centrais? O que distingue essa nova burguesia da “velha burguesia nacional” do período desenvolvimentista?

Luiz Werneck Vianna –
Eike Batista não é um homem das finanças, e sim um homem da produção. O Daniel Dantas, não. Ele é um homem do setor financeiro. Este setor apresentou enormes possibilidades. Esses executivos do setor financeiro não têm 40 anos. Se examinarmos os currículos deles, veremos que são formados por boas universidades, com doutorado no exterior. Apareceu um novo mundo para esses setores médios e educados da população, especialmente os economistas. Se passa da posição de economista para a posição de banqueiro hoje muito facilmente.

IHU On-Line - Como o senhor interpreta essas relações aparentemente ambíguas que o banqueiro Dantas tinha, ao mesmo tempo, com o mercado financeiro internacional e os fundos de pensão do Estado do qual fazem parte sindicalistas? Acabou-se a velha contradição capital - trabalho?

Luiz Werneck Vianna –
Essa questão dos fundos previdenciários existe em toda a parte, não apenas no Brasil. E o controle disso tem sido em boa parte corporativo. Quem mexeu com a questão e falou no surgimento de uma nova classe foi o Francisco de Oliveira. Não sei se devemos concordar inteiramente com o que ele diz, mas, pelo menos, é uma alusão importante. O capital hoje tem uma outra forma de circular, e isso não ajuda o mundo sindical a se reorganizar. O que vemos é um sindicalismo inteiramente cooptado pelo Estado. Dantas jogou com as oportunidades que viu. Até agora, as únicas coisas concretas pelas quais ele pode ser pego são o suborno ao policial e seu problema com o Imposto de Renda. Esse é o capitalismo operando. Daqui a pouco vão querer “prender” o capitalismo. E não creio que isso esteja na intenção da Polícia Federal. O mal não está nessas figuras, como se a sociedade fosse melhorar se nos livrássemos delas. Não vai melhorar. A sociedade vai melhorar se organizando em torno das suas questões centrais.

IHU On-Line - O banqueiro Dantas estabeleceu uma rede de conexões políticas tecida ao longo de três governos – Collor, FHC e Lula. Como entender o poder de Daniel Dantas, sua capacidade de manipulação e envolvimento de tantas pessoas, de diferentes governos, nessa malha de corrupção?

Luiz Werneck Vianna –
Era necessário que nessa rede público-privada aparecessem personagens. Essa rede não podia se montar sem pessoas concretas. Dantas foi uma. O ponto da privatização estabeleceu um caminho para que esses homens encontrassem a sua oportunidade.

IHU On-Line - O senhor considera que o caso Dantas ameaça o conceito de República, ou se pode afirmar que efetivamente o Brasil nunca desfrutou do status de República?

Luiz Werneck Vianna –
Não ameaça nada. Esse é um affaire midiático, com cortinas de fumaça. Os piores instintos da sociedade estão sendo suscitados com tudo isso. Vejo as primeiras fumacinhas de uma síndrome fascista entre nós. E isso deve ser denunciado, combatido, e com política, com mais política. O que constatamos, ao longo desse episódio, é que a política recua. Está faltando sociedade organizada, reflexiva, e a política está reduzida ao noticiário policial.

IHU On-Line - Como o senhor analisa a postura do Supremo Tribunal Federal nesse caso? Como interpreta o comportamento do ministro Gilmar Mendes?

Luiz Werneck Vianna –
Interpreto bem. O papel da Suprema Corte é defender a Constituição, as liberdades individuais, e também não deixa de incorporar essa preocupação com o testemunho do espetacular que essas operações policiais manifestam. Uma outra questão vinculada a isso é a escuta telefônica. Estamos indo para um estado policial? E a sociedade aprende a apontar como culpado o “malvado” lá da ponta, responsável por todos os males, que, caso preso e execrado, vai fazer com que a sociedade melhore. Num ano eleitoral, tudo se discute, menos a política. Não podemos defender a idéia de que um grande inquérito, um grande processo pode resolver as máculas da nossa história, criar um novo tipo de um encaminhamento feliz para nós (e isso é feito pela polícia, pelos grampos telefônicos, pela repressão!). Isso não lembra a linguagem do regime militar, quando ele se impôs? De que o grande inimigo é a corrupção? Só que agora tudo está sendo feito numa escala nova, imensa, com um domínio total dos meios de comunicação. O próprio Congresso se tornou uma ampla comissão parlamentar de inquérito, apurando, investigando e não discutindo políticas e soluções para os problemas. Além do mais, temos um grupamento novo na sociedade: a Polícia Federal é nova. Ela foi extraída da classe média. Seu pessoal é concursado, bem formado, com curso superior. Seus integrantes estão autonomizados a ir para as ruas com esse sentimento messiânico, que aparece no relatório do delegado Protógenes, de que a Polícia pode salvar o mundo.

IHU On-Line - Qual é a sua opinião sobre o combate à corrupção no Brasil? Este episódio recente abre a possibilidade de mudanças?

Luiz Werneck Vianna –
Nesse processo, a ordem racional legal avança, se aprimora, se aperfeiçoa. No entanto, o que tento combater é uma visão salvadora, justiceira, messiânica do papel policial para a erradicação dos nossos males, como se não devesse haver nenhum impedimento entre a ação da polícia e a sociedade, como se não devêssemos ter habeas corpus, como se as pessoas pudessem ser presas, retiradas das suas casas nas primeiras horas da manhã, algemadas, e tudo isso passando por câmeras de televisão... Não creio que isso seja um indicador de democracia.

IHU On-Line - Que tipo de sentimento esse episódio provoca na população brasileira? Revolta, descrédito nas instituições?

Luiz Werneck Vianna –
Descrédito. E também aprofunda o fosso entre a sociedade e a política, mantém a sociedade fragmentada, isolada, esperando que a ação desses novos homens, dessas corporações novas, nos livre do mal. Talvez eu tenha dado muita ênfase à dimensão negativa de tudo isso, mas também vejo que esse processo pode ser corrigido se a ordem racional legal for defendida por recursos democráticos, sem violência, com respeito às leis, à dignidade da pessoa humana. É possível se avançar na ordem racional legal, investigando a corrupção, prendendo seus responsáveis, mas sem que isso assuma o caráter de escândalo, de espetáculo, no qual parece que temos um agente de salvação em defesa da sociedade. Isso sim é perigoso.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Blog Subtopia

Trata-se de um Blog pesado, com conteúdo forte. Um guia-denúncia sobre as diversas co-ações, de caráter fascista, que vêm sendo perpetradas ao redor do mundo.


Por ele, ficamos sabendo, por exemplo, que a Austrália transformou as Ilha Natal (Christmas Island) em uma mega-prisão destinada a encarcerar eventuais imigrantes oriundos principalmente da Indonésia. E, não apenas isso, que supostos agentes australianos invadem o território indonésio para praticar ações de sabotagem contra embarcações que possam ser eventualmente utilizadas para esse fim.


A esse respeito, segue abaixo um pequeno trecho dessa matéria (tradução livre):

"Enquanto a mídia e os céticos ficam dando voltas em torno do novo documentário de James Cameron sobre a possível descoberta do túmulo de Jesus de Nazaré, fui dar uma olhada em uma instalação de detenção maciça que está sendo erguida na Ilha Natal, bem na costa da Austrália.

(...)


"Desde 2005, o Departamento de Imigração da Austrália vem construindo um “Centro de Recepção e Processamento de Imigração”.

"2.400 KM de Perth, 360 KM de Jakarta e apenas 2000 KM de Darwin, este complexo prisional fica na extremidade da ilha, que é uma estreita faixa de 24 KM de comprimento por 7 KM de largura.

"Tenha em mente que “sob as leis Australianas, é possível internar pessoas extra-judicialmente (sem julgamento ou condenação) e, desde 2004, fazê-lo indefinidamente.

"Detenção por imigração é, assim, uma questão meramente administrativa. Então, o que exatamente eles estão construindo ali ? (...) Trata-se de uma prisão “paraíso-tropical” de $ 396 milhões. Isso mesmo. Para aquilo que, segundo o governo, se destina a deter a imigração ilegal, é um complexo prisional “state of the art” de 800 lugares, com cercas elétricas, detectores de movimento, centenas de câmeras de vigilância e microfones ocultos nas árvores.

Ilha Natal / Christmas Island - vista por satélite


"O campo na Ilha Natal possui um sistema de TV a cabo ligado a uma sala de controle remoto para que os guardas em Canberra possam assistir aos detentos 24 hs. por dia. “Os detentos vestirão ID eletrônicos ou cartões, identificando-os onde quer que eles estejam.(...)"
"Além disso, para desenvolver esta ilha offshore-barreira contra a imigração, o governo australiano lançou seu navio de patrulha costeira, o Triton, apelidado de navio-prisão por seus críticos. Este "trimaran" de 98 metros tem a reputação de ser capaz de deter 30 pessoas por mais de um mês a bordo e é armado com duas metralhadoras."

Navio Triton


(Fonte e texto original completo em inglês em: http://subtopia.blogspot.com/2007/02/doing-time-on-christmas-island.html)

No Blog, há ainda interessantíssimas postagens acerca das muralhas que vêm sendo erguidas ao longo de diversas fronteiras ao redor do mundo - uma espécie de "Nova Idade Média" sem os laços de proteção religiosos e tradicionais daquele período - além, é claro, de instrutivas matérias sobre o exército privado que vem "administrando" o Iraque ocupado ("Blakwater"), como protótipo do novo modelo de guerra privada do século XXI.

Endereço do Blog: http://subtopia.blogspot.com/ (também ascessível pelo link "Sites Recomendados" ao lado).



quinta-feira, 3 de julho de 2008

Baixar arquivo na internet pode virar crime


Mais um capítulo da série: "Criminalizando o cotidiano"

Projeto de lei sobre crimes eletrônicos, ou cibercrimes, em tramitação adiantada no Senado, pode levar à criminalização em massa de usuários de internet que baixam e trocam arquivos (músicas, textos e vídeos) sem autorização do titular. A reportagem é de Elvira Lobato e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 03-07-2008.

Esse é o entendimento de seis professores da Escola de Direito da Fundação Getulio Vargas, em parecer conjunto divulgado no Rio. Segundo eles, as conseqüências iriam além do âmbito da internet. Pela amplitude da redação, poderia haver conseqüências até para donos de celulares que desbloqueiam seus aparelhos. O Brasil tem 130 milhões de celulares.

Assinam o parecer os advogados Ronaldo Lemos, Carlos Affonso Pereira de Souza, Pedro Nicoletti Miozukami, Sérgio Branco, Pedro Paranaguá e Bruno Magrani, fundadores do Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da FGV.

O projeto de lei foi aprovado pelas comissões de Assuntos Econômicos e de Constituição e Justiça do Senado, no mês passado, e está em fase de recebimento de proposta para votação em plenário.

O mesmo projeto já causara polêmica em 2006, quando especialistas e provedores de acesso à web reagiram contra a obrigatoriedade de identificação prévia dos internautas nas operações com interatividade, como envio de e-mails, que burocratizaria a rede.

O texto foi modificado, mas novos questionamentos estão sendo feitos. O parecer dos professores da FGV sustenta que os artigos 285-A e 285-B do projeto, que tratam dos crimes contra a segurança de sistemas informatizados, atingem ações triviais, praticadas por milhares de pessoas, na internet, e criam um instrumento de ""criminalização de massas".

O artigo 285 - A qualifica como crime - com pena de reclusão de 1 a 3 meses e multa- ""acessar rede de computadores, dispositivo de comunicação ou sistema informatizado sem autorização do legítimo titular, quando exigida".

Segundo o professor Ronaldo Lemos, diretor do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV, as pessoas poderiam ser condenadas por desobedecer a termos de uso criados por particulares.

"Cada "legítimo titular" decide quais são os termos de autorização e passa a ser dele o papel de preencher o conteúdo da lei penal. A violação passa a ocorrer de acordo com condições subjetivas e com interesses específicos, dando margem para abusos de direito", afirma o parecer dos professores.

MP3

Segundo Ronaldo Lemos, ao se referir a "rede de computadores", "dispositivos de comunicação " e ""sistema informatizado", o projeto engloba não só computadores mas reprodutores de MP3, aparelhos celulares, tocadores de DVD, sistemas de software e até conversores de TV digital, além de websites. Nessa linha, segundo ele, o projeto alcançaria até o desbloqueio de celular.

Os professores alegam que nenhum país criminaliza o acesso a informações na internet de forma tão ampla. "A legislação mais próxima ao que se propõe foi adotada nos EUA, que criminalizaram o ato de quebrar ou contornar medidas de proteção tecnológica. Mas nenhuma criminalizou o próprio acesso", diz o parecer.

O artigo 285-B qualifica como crime, também sujeito a reclusão de um a três anos, e multa "obter ou transferir dado ou informação" sem autorização do legítimo titular.

Os professores da FGV propõem a exclusão ou a mudança do texto dos dois artigos. Querem que só sejam considerados crime o acesso e a transferência de informações na internet se feito por meio fraudulento e com a finalidade de obter vantagem para si ou para outrem.

Vigilância

Um terceiro artigo do projeto de lei - o artigo 22 - também está sendo questionado tanto pelos provedores de acesso à internet quanto pelos professores da Escola de Direito da FGV do Rio de Janeiro. Ele cria a obrigação para os provedores de informar, sigilosamente, às autoridades indícios de prática de crime de que tenham tomado conhecimento.

Para os professores da FGV, o artigo cria um sistema de delação e de vigilância privada sobre os internautas, na medida em que os provedores estariam obrigados a informar os casos em que -de acordo com suas próprias convicções- haveria indício de crimes.


Extraído de: http://www.unisinos.br/_ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=15059

Ser homem ou mulher


Por: CONTARDO CALLIGARIS


A anatomia é o destino? Talvez, mas há lugares em que a mulher pode escolher ser homem

NOS ANOS 1960, "descobrimos" que a identidade de cada gênero, masculino, feminino ou outro (há outros, sim), era construída e imposta pela cultura em que vivíamos. Ou seja, nosso sentimento íntimo de ser homem ou mulher dependia dos valores que nos eram transmitidos: "alguém" nos oferecera bonecas ou soldados e nos propusera futebol ou costura.
A descoberta encorajou a militância igualitária, os papéis sociais de homens e mulheres se aproximaram e, enfim, tornou-se possível sentir-se homem e cuidar das crianças ou fazer bordado, e sentir-se mulher e pensar na vida profissional ou entrar no exército. Isso, sem que ninguém se atormentasse com dúvidas excessivas sobre sua identidade viril ou feminina.
Nas últimas décadas, houve um refluxo: hoje, sentir-se homem ou mulher nos parece ser, antes de mais nada, um efeito da diferença biológica entre os sexos.
Talvez seja por causa das próprias mudanças que mencionei acima: as diferenças culturais entre gêneros se tornaram menos relevantes e procuramos outras, mais "sólidas".
Mas muitos dirão que aconteceu o seguinte: os avanços da ciência mostraram que, na constituição das identidades de gênero, hormônios, genes etc. contam mais do que as palavras e os comportamentos. Ou seja, pouco importa que eu vista você de renda ou de farda, você será ou se sentirá homem ou mulher como mandam a química e a física de seu corpo.
Paradoxalmente, essa posição, que pretende ser materialista, parece apostar na separação de corpo e mente, como se um mundo "real" de genes e hormônios existisse separado do da fala e dos atos da gente (que, cá entre nós, não é menos real). Acho mais provável que haja um mundo só, em que interagem fenômenos descritos de jeitos diversos, mas que pertencem a uma única realidade, a nossa, feita de descargas hormonais, obrigações indumentárias e comportamentais, genes, xingões, chapoletadas, neurotransmissores, conselhos, amores e carícias.
Além disso, é bom não esquecer que a primazia atual das explicações "anatômicas" é, por sua vez, um fato cultural. Ela é a evolução esperada da cultura ocidental moderna, que promove, dessa forma, sua melhor idéia: a de uma humanidade comum a todos, além das diferenças culturais. Por exemplo, para justificar a existência de direitos humanos universais, nada melhor do que uma definição da espécie a partir da biologia comum e não das culturas, que divergem.
Seja como for, o clima de hoje sugere que a anatomia seja o destino. Nesse quadro, é bom meditar sobre um extraordinário artigo de Dan Bilefsky, no "New York Times" de 25 de junho (em www.nytimes.com, procurar "Woman as Family Man"). Bilefsky viajou pelas montanhas do norte da Albânia, onde sobrevivem os restos de uma cultura tradicional, regida por um cânon rigoroso que, entre outras coisas, prescreve a vendeta entre famílias, de geração em geração: vocês matam um dos nossos, nós mataremos um dos seus -sendo que só podem matar e ser mortos os homens das respectivas famílias. "Abril Despedaçado", de Ismail Kadaré (Companhia das Letras), dá uma boa idéia do clima local. Quem não leu pode assistir ao filme homônimo, de Walter Salles, que transpôs o romance de Kadaré para o norte do Brasil no começo do século 20.
Pergunta: o que acontecia, numa cultura como essa, quando só sobravam as mulheres de uma família? Pois é, no caso, encorajada pelo fato de que, nessa cultura, ser mulher era especialmente chato, uma virgem, livremente, podia decidir ser homem. Ela cortava o cabelo, vestia-se de homem, carregava faca e arma, sentava-se com os homens e com eles rezava na mesquita, matava e era morta nas vendetas e tornava-se patriarca da família.
Belefsky encontrou e fotografou várias mulheres-homens, na faixa dos 80 anos, mulheres que, 60 anos atrás, virgens, renunciaram à vida sexual e decidiram ser homens. E, de fato, sentiram-se e foram homens. Na verdade, ainda são: no pleno exercício de seu patriarcado.
O que assombra nessa história, aliás, não é só a construção cultural do gênero, mas a incrível liberdade que se revelava possível numa sociedade estritamente tradicional (a gente pensa, em geral, que a liberdade de escolha seja coisa exclusivamente nossa).
Queria prestar homenagem a Ruth Cardoso. O jeito foi escrever sobre algo que, onde quer que ela esteja hoje, talvez a interesse.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Filme: Investigação Sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita



Abolicionismo penal, anarquismo e cinema

(Indagine Su Un Cittadino Al Di Sopra Di Ogni Sospetto)




País: Itália, 1970, 112 min


Direção: Elio PetriRoteiro: Elio Petri, Ugo Pirro


Fotografia: Luigi Kuveiller


Elenco: Gian Maria Volontè, Florinda Bolkan, Gianni Santuccio, Orazio Orlando




Um homem degola sua amante (Florinda Bolkan) com uma lâmina de barbear. Em seguida, espalha pelo cenário do crime diversas evidências apontando sua autoria: coloca um fio de sua gravata na unha da vítima, suja a sola de seu sapato no sangue dela e deixa impressões digitais num copo e no telefone. Este homem é o respeitado e eficiente chefe do Setor de Homicídios, que acabou de ser promovido ao Departamento de Informações Políticas. Qual o significado dessa autoridade querer se incriminar? Ele quer provar para si mesmo (devido ao poder conferido por seu cargo) que é intocável, ou melhor, "acima de qualquer suspeita". Ao mesmo tempo, ele tenta incriminar o outro amante da vítima, um universitário anarquista.
Para ele, crime e subversão são indistinguíveis; o preso comum e o preso político se assemelham e se apartam, segundo as conveniências do Estado e da polícia. Com sua conduta de assassino esperando pela denúncia, este fascista pretende fortalecer as hierarquias repressivas. Entretanto, não contava com o anarquista individualista, o único que sabia do crime e que podia livremente denunciá-lo. O jovem estudante, preso nos porões da democracia italiana, mesmo sob a ameaça da tortura e delatado por um companheiro supliciado, dá-lhe as costas informando que não o denunciará. Ao chefe de polícia resta confessar aos pares, as demais autoridades do Estado. Sem a denúncia do exterior que aciona o tribunal penal ele precisa apelar à confissão aos superiores. Mas esta é a zona restrita das medidas administrativas e que não abalam a eficácia da instituição.

O cidadão, a investigação, a tortura, o tribunal,... permanecem acima de qualquer suspeita!



Drama político ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e do Prêmio Especial do Júri do Festival de Cannes, também indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original, escrito e dirigido por Elio Petri (um dos mais importantes realizadores do cinema italiano nos anos 70 e responsável por filmes como "A Décima Vítima", "Condenado pela Máfia", "Um Lugar Tranqüilo no Campo", "Sacco e Vanzetti", "A Classe Operária Vai ao Paraíso" e "O Caso Mattei") e estrelado por Gian Maria Volonté (de "Condenado pela Máfia" e "A Classe Operária..."), Florinda Bolkan (de "Os Deuses Malditos", "Amargo Despertar" e "Bela Donna"), Gianni Santuccio, Orazio Orlando (de "As Bonecas") e Arturo Dominci.

Fontes: http://64.233.169.104/search?q=cache:01jaTnWE4fEJ:www.nu-sol.org/hypomnemata/boletim.php%3Fidhypom%3D92+%22investiga%C3%A7%C3%A3o+sobre+um+cidad%C3%A3o+acima+de+qualquer+suspeita%22&hl=pt-BR&ct=clnk&cd=19&gl=br

e

http://64.233.169.104/search?q=cache:dxSK5PxKXPAJ:www1.folha.uol.com.br/folha/especial/2006/30mostradecinema/sinopses-i.shtml+%22investiga%C3%A7%C3%A3o+sobre+um+homem+acima+de+qualquer+suspeita%22&hl=pt-BR&ct=clnk&cd=3&gl=br