"Há algo novo no ar; nos artigos de opinião,
nas discussões políticas, no comentário econômico. Os observadores mais
atentos, olhando de longe a movimentação que veio de fora dos meios
esperados - a academia, a grande imprensa, a política, o meio artístico
-, já têm um nome na ponta da língua: "nova direita" - nome dado,
evidentemente, pela velha esquerda", escreve Joel Pinheiro, editor da revista "Dicta&Contradicta, em artigo publicado no jornal Valor, 31-01-2014.
Eis o artigo.
De perto ela é mais complexa. A tal "nova
direita" é no mínimo duas coisas bem distintas. E, dessas duas, uma nem é
direita, embora seja nova. Nesse mesmo balaio estão dois grupos:
conservadores e libertários. Eles têm algo em comum: a insatisfação com o
estado do Brasil e a descrença nas opções políticas disponíveis ou mesmo na política como um todo. Não pertencem à direita tradicional e, obviamente, se opõem ao governo do PT. O que não quer dizer que aceitem de bom grado o rótulo de direita.
Bem, os conservadores aceitam. Sua marca
distintiva é justamente o ódio a tudo o que vem da esquerda.
Consideram-se desprovidos de ideologia. Não querem grandes revoluções ou
mudanças bruscas e populistas. Veem no PT não apenas
um partido de esquerda e, sim, a peça de um movimento político corrupto,
revolucionário e destrutivo que põe o país em risco.
Nesse ódio ao esquerdismo entram articulistas como Reinaldo Azevedo no campo da política e, no da cultura, o filósofo Luiz Felipe Pondé.
Para além deles, aparece aqui e ali uma série de jornalistas,
comentadores sociais e mesmo artistas, cada um com seu público fiel: Rachel Sheherazade (SBT Brasil), Paulo Eduardo Martins, Lobão.
Por trás de todos está um mentor em comum: Olavo de Carvalho, jornalista e filósofo que vive nos Estados Unidos, de onde escreve artigos e dá cursos on-line. Rodrigo Constantino, Rachel Sheherazade, Lobão e Reinaldo Azevedo são leitores seus. Felipe Moura Brasil, novo blogueiro da "Veja",
é o organizador de seu livro mais popular - "O Mínimo Que Você Precisa
Saber para não Ser um Idiota", coletânea de artigos que resume seu
pensamento.
De acordo com Olavo de Carvalho,
o esquerdismo vai muito além da política. Toda a cultura está tomada
pelo marxismo cultural e a inversão de valores por ele efetuada. O
pensamento e os slogans da esquerda são hegemônicos e constituem, assim
como o PT, parte de um processo para implantar o
comunismo na América Latina via o Foro de São Paulo, organização que
reúne os principais partidos e movimentos de esquerda no continente.
O conservador vê sua luta antes de tudo como
uma guerra cultural. Por isso, a preocupação especificamente política,
quando vai além da mera oposição ao PT, se foca em
questões pontuais: aborto, casamento gay, drogas, armas, defesa da
família e da religião. Isso acaba dando ao movimento o aspecto de
reacionarismo ideológico que ele tanto quer evitar.
A outra metade da "nova direita", a ala
liberal ou libertária, também luta contra uma imagem negativa. O pouco
de liberalismo que o Brasil conheceu foi sempre visto como uma agenda
tecnocrática de economistas, gente que transita entre a teoria econômica
pura e o mercado financeiro. Justa ou injustamente, é tachado de
pensamento da elite. Além disso, sempre conviveu com o conservadorismo
cultural. Essa associação ainda é comum, como no caso de Rodrigo
Constantino, que iniciou sua carreira como liberal radical e vem cada
vez mais adotando o discurso conservador. O liberalismo brasileiro
clássico é, assim, facilmente classificável como direita.
Os libertários, ala mais radical do
liberalismo, querem enterrar essa associação. Parte dos membros se
coloca mesmo como "esquerda libertária", posição até então desconhecida
no Brasil. Seu foco é na erradicação da pobreza, nos custos que as
regulamentações estatais impõem às camadas mais baixas e aos
microempreendedores e em causas progressistas como casamento gay e
liberação das drogas. Uma boa leitura nesse sentido é o blog Capitalismo
para os Pobres, de Diogo Costa, professor do Ibmec-MG. É um liberalismo que não se opõe ao Bolsa Família, mas combate veementemente o BNDES, grande concentrador de capital e poder nas mãos de políticos e megaempresários.
Outra iniciativa que chama a atenção é o Estudantes Pela Liberdade,
com membros em universidades de todas as regiões do Brasil, que
organizam grupos de estudo, palestras, promovem debates, militância,
etc. Tudo isso num tom de diálogo com a esquerda universitária.
Se os conservadores têm conquistado mais
espaços nas mídias tradicionais (TV, jornais e revistas), os libertários
têm crescido principalmente na internet. O Instituto Mises Brasil tem o
site de economia mais acessado do país, com análises pautadas pela
escola austríaca de economia, conhecida pelo radicalismo de seus
membros. Já o site do Instituto Ordem Livre, que adota uma abordagem
mais plural, hospeda colunas sobre combate à pobreza, urbanismo, ética e
política.
Falando em política, tem outra novidade na área.
Falando em política, tem outra novidade na área.
O Partido Novo, que está em processo de
formalização, tem algo que ninguém mais tem: dinheiro. Talvez por isso
encarne a esperança de todos. Inicialmente, parece defender uma agenda
liberal mais tradicional, que pede privatizações, eficiência na gestão e
corte de impostos. Mas pode também dar uma guinada libertária,
defendendo desregulamentações e fim de transferências de renda
regressivas.
Conservadores olham para o passado: querem
conservar os valores da civilização ocidental e as instituições vistas
como suas principais representantes - a igreja, a família, o Estado
democrático de direito, os direitos naturais. Podem ser até liberais em
economia, mas seu coração não está na liberdade enquanto tal. Já
libertários olham para o futuro sem medo de criar utopias e apostar nas
mudanças revolucionárias que sua proposta trará. O Estado é visto ou
como uma barreira à criação do novo ou como um definidor de caminhos
fixos para a mudança, proibindo e barrando caminhos alternativos.
De princípios humildes, a "nova direita" vem
causando desconfortos e sendo bem recebida por muitos. De direita ou
não, o fato é que ela traz novidades.
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