sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

O filósofo das HQs




Edgar Franco

Entrevista com Edgar Franco



(Extraído de: http://www.alanmooresenhordocaos.hpg.ig.com.br/entrevistas69.htm)

Prolífico colaborador de fanzines e alternativos, Edgar Franco é o artista de quadrinhos herméticos, prenhos de reflexoes filosóficas, numa linguagem poética bem particular, mas que se destaca também por desenhos bem caracteristicos, humanóides de ambos os sexos e/ou hermafroditas, seres mitológicos, paisagens oníricas biomecanóides, que lembram a arte de Moebius, Caza, Bilal, Giger e outros mais.

- Idade, onde nasceu e cresceu, estado civil, filhos, formação acadêmica e profissional.

Estou atualmente com 31 anos, nasci na cidade de Ituiutaba no Triângulo Mineiro (sou extremamente telúrico, tenho que ir para minha cidade natal pelo menos duas vezes ao ano para repor minha energias...), sou casado com Rose já há 4 anos e estamos juntos a 12 (ela é minha conterrânea-alma gêmea), ainda não temos filhos. Sou graduado em arquitetura e urbanismo pela Universidade de Brasília(UnB), em 2001 conclui o mestrado em multimeios na Unicamp , onde estudei a linguagem das HQs na Internet, o que resultou na dissertação "HQtrônicas (Histórias em Quadrinhos Eletrônicas) – Do Suporte Papel à Rede Internet,- ver artigo - e atualmente faço doutorado em artes na Escola de Comunicações e Artes da USP. Além de criar HQs para revistas & zines, trabalho com ilustração (capas de CDs & Livros), web arte e sou professor dos cursos de arquitetura e urbanismo & ciência da computação da PUC - MG, na unidade de Poços de Caldas, cidade onde resido atualmente.



-O quê e quando iniciou seu interesse pela Literatura, Quadrinhos e Cultura Pop em geral? Na infância você lia muito, tanto HQ quanto Literatura mainstream? Pode citar autores e obras que o influenciou?

Meu pai é um leitor inveterado, tem atualmente uma biblioteca com mais de 5.000 volumes, envolvendo todos os gêneros e assuntos, desde tenra idade eu cresci no meio dos livros, e foi muito natural o meu descobrimento do universo das letras. Meu pai sempre me deixou livre para escolher o que ler e inicialmente tive o meu interesse despertado por contistas como Edgar Allan Poe (meu nome é uma homenagem de meu pai a Poe e Edgar Wallace, dois autores que admirava na época), Guy de Maupassant, O. Henry, Ray Bradbury, isto por volta dos 10-11 anos. Mas desde tenra idade meu pai já comprava gibis pra eu ler, Disney, Brotoeja, Mortadelo e Salaminho, Mônica, durante uma fase li poucos gibis e me concentrei mais na literatura, foi por volta dos 13 anos que comecei a retomar gradativamente o interesse por quadrinhos, isso veio junto com a paixão pelo desenho, e na época um certo apreço pelas temáticas mórbidas, pelo horror. Eu assisti meu primeiro filme de horror aos 4 anos de idade, foi a versão clássica (p&b) de "O Fantasma da Ópera" que passou numa sessão noturna de TV em 1976, meu pai iria assistir ao filme, eu pedi a ele se podia ver também e ele deixou, até hoje ele se lembra bem de meu interesse e atenção, assisti tudo até o fim e nem precisei dormir na cama dos meus pais, he,he. Eu não gostava de super-heróis, não lia mesmo, achava um saco principalmente porque quando tentei ler parece que o gênero vivia uma fase horrível, só tinha herói dando porrada em herói, fui ter interesse novamente em super-heróis na década de oitenta, quando surgiram as obras clássicas de Frank Miller, Alan Moore, Grant Morisson; a única exceção foi o Conan, eu gostava de muitas HQs, principalmente as arte finalizadas pelo Alfredo Alcala. Mas o que eu lia mesmo era terror nacional, colecionava as revistas da D-Arte (que traziam trabalhos maravilhosos de Mozart Couto, Rodval Matias, Colin, Cortez, Ofeliano) e também garimpava nos sebos as antigas Kripta (com quadrinhistas clássicos dos EUA) e as Spektro & Pesadelo da Editora Vecchi. Foi também na década de 80 que vim a tomar contato com a HQ européia, conheci através da revista Animal e me deslumbrei, a partir dali vi que o que eu começava a criar tinha mais semelhanças com aquelas propostas do que com tudo que eu já tinha visto de quadrinhos. Só mais tarde fui conhecer autores como CAZA e DRUILLET dos quais sou grande admirador, mas considero que eles me influenciaram pouco, o meu trabalho já seguia o caminho atual quando me deparei com as obras deles, foi mais um lance de identificação do que uma influência propriamente dita. Eu sou mais influenciado pela literatura, artes plásticas e música do que pelos quadrinhos, gosto de citar como influência sempre o que estou lendo/vivenciando no momento, por isso agora estou sobre a influência do pensamento de Ken Wilber (Escritor e ensaísta americano, um dos criadores da psicologia transpessoal autor de " O Espectro da Consciência"), Rupert Sheldrake (polêmico biólogo que concebeu a "Teoria dos Campos Morfogenéticos"-veja Entrevista), Peter G. Bentley (autor de "Biologia Digital", livro onde eles questiona as noções vigentes do que é real e o que é virtual), Hans Moravec (cientista norte americano, estudioso de robótica e I.A. e autor de "Robot – Mere Machines to Transcendent Mind"), Stelarc (artista australiano que defende a tese de que "O Corpo Humano Está Obsoleto"), Eduardo Kac (que faz experimentos com "arte transgênica") e Stanislav Grof (criador da teoria da "mente holotrópica").



Ken Wilber



Na música tenho experimentado as vibraçoes de bandas como Negura Bunget (da Transilvânia), Rakoth (da Russia), Thee Maldoror Kollective, Napalmed, Recalcitrant, Dismal, Brighter Death Now, Daniele Brusaschetto, entre outros, inclusive tenho um site chamado KREPUSKULUM, onde faço resenhas e entrevistas com bandas underground do mundo inteiro, já está na décima edição, com mais de 700 resenhas de CDs e 90 entrevistas, quem quiser conhecer visite: http://www.geocities.com/krepuskulum/ .

-Como se iniciou profissionalmente no gênero e qual foi sua primeira atividade?

Bem, eu já publiquei HQs esporadicamente em diversas revistas, algumas que tiveram distribuição nacional, como a Metal Pesado e a Quark, mas também tive HQs publicadas em revistas como Quadreca (Eca/USP), Fêmea Feroz, Ervilha e no álbum Brazilian Heavy Metal, além de outras diversas HQs publicadas em revistas underground e alternativas do Brasil e Europa (Alemanha, Romênia, Portugal, Espanha, França e Inglaterra). Mas minha maior produção está concentrada nos fanzines, já publiquei em mais de 400 títulos, incluindo várias edições solo, e já ultrapassei a marca das mil páginas. Comecei a publicar em zines com 13-14 anos, quando criei minha primeira HQ, o nome do zine era Odisséia; o trabalho trazia um horror meio visceral, tinha o título de "O Filho de Lúcifer", mas já dava pra perceber a veia poética contaminando a narrativa.
Falar em "profissionalmente" para artistas dos quadrinhos no Brasil é piada, praticamente ninguém trabalha "profissionalmente" na atualidade...é complicado. Mas meu trabalho também sempre foi motivo de resistência por parte dos editores, é tido como hermético, pretencioso, ou não é considerado como quadrinhos por alguns, ou é tachado de setentista, hippie, ultrapassado, pornográfico, ou vanguardista demais...tenho colecionado dezenas de adjetivos que tentam denegrir minha proposta artística, mas apesar deles vou dando continuidade à obra, pois faço por prazer, por paixão. Se o Brazil tivesse um mercado de quadrinhos, artistas como eu, Gazy Andraus & Antônio Amaral seríamos os últimos da fila a sermos procurados pelos editores, já que não temos esse mercado, temos que nos contentar com a auto-publicação e com as oportunidades esporádicas e com o maravilhoso universo dos zines.




-Quando foi seu primeiro contato com o trabalho de Alan Moore e qual obra lhe causou algum impacto especial?

Comecei com "A Piada Mortal" e depois li o "Monstro do Pântano", fiquei fascinado com a densidade do texto, com as sutilezas do roteiro e a forte veia literária de Moore, são dois trabalhos impactantes, assim como a clássica "Watchmen", que desconstrói os famigerados Super-heróis e trabalha com propriedade os conceitos definidos pela Teoria do Caos (Gian Danton fez sua dissertação de mestrado analisando este aspecto da obra!). Tem um álbum que me foi emprestado pelo amigo Gazy Andraus, "A Small Killing", que é muito pungente, poderoso, um dos mergulhos de Moore na psicanálise Freudiana, implodindo-a em certos aspectos, é um trabalho que me impressionou muito, ainda mais depois que li um artigo de Andraus que desvela todo o subtexto desta obra.

-Preciso ver isto com o Gazy, urgente. Qual trabalho do mago bardo de Northampton que você considera sua obra-prima e porquê?

Como disse, gosto de diversos trabalhos e de maneiras diferentes, "V de Vingança", por exemplo, é muito interessante, mas muito diferente de "A Piada Mortal", ou de "Watchmen", não tenho predileção, são todos obras de uma mente genial, obrigatórios para aqueles que querem conhecer a fundo a importância das HQs enquanto gênero narrativo e artístico.

-Ao seu ver, quais foram as inovações mais importantes do autor? Especificamente sobre Watchmen e sua instigante forma narrativa – já apelidada de O Cidadaõ Kane da Nona Arte – o que tem a nos dizer?

O que mais me impressiona é que Moore parece não ter essa pretensão de ser genial, ele quer só escrever boas histórias, eu não me considero em nada inspirado pelo seu trabalho (pois como disse, ele esbarra muitas vezes no literário, eu gosto disso, mas minha proposta artística caminha em outra direção) que encontra eco no Brasil principalmente na obra de Gian Danton,- veja Entrevista - um fã confesso de Moore. Moore é sempre genial, mas esbarra no problema dos desenhistas, nem sempre eles são tão capazes quanto ele, Dave Gibbons é uma exceção maravilhosa!

-Voce acha que ainda existe espaço para seres musculosos e com super-poderes, metidos em colantes, na verdadeira Cultura Pop, mais madura? Pergunto porque muitos fãs dos super-heróis, ao mesmo tempo que admiram Alan Moore, o detestam por considerar que ele praticamente destruiu o gênero com Watchmen. E você?

Como já disse, nunca gostei do gênero Super-Heróis, se ele acabasse, para mim a cultura humana perderia muito pouco, a cultura pop talvez sofresse um abalo momentâneo...Os Super-Heróis são um produto Norte Americano, é claro que foram influenciados pelos herós clássicos gregos, mas eles são produtos do narcisismo e nacionalismo dos EUA, a megalomania de Tio Sam está refletida nestes tais seres de colante, eles são sua principal metáfora, seu arquétipo pós-moderno, o nacionalismo é um dos últimos bastiões dos idiotas, dos alienados. Mas eles já se infiltraram no inconsciente coletivo do ocidente, são onipresentes, mesmo que as novas gerações não estejam lendo quadrinhos como as anteriores, eles estão renascendo nos blockbusters de Hollywood, nos games para computador, veja estes novos produtos cinematográficos: Hulk, Demolidor, Homem Aranha, X-Men, etc.
Mas como um defensor da pluralidade, não faço uma cruzada contra os super-heróis, quem gosta e quer gastar seu dinheiro com eles, eu respeito, sem neurose nenhuma, só fico preocupado quando vejo os moleques idolatrando esses serviçais que trabalham como operários do traço para os americanos como se fossem "Deuses"...os caras nem sequer podem assinar o próprio nome, isso é se vender sim, não é só se adaptar, é cooptar com a condição de alienado, de operário nos moldes da revolução Industrial...Se fosse assim, uma adaptação apenas, os americanos iriam mudar também o nome dos diretores de cinema estrangeiro que fazem sucesso por lá, assim o Pedro Almodóvar poderia virar "Peter All Mod Over", o que você acha!!!
Mas agora tem também a proliferação virótica dos tais mangás, e dá-lhe lixo descartável no mundo da cultura Pop, é claro que existem bons trabalhos, mas no geral é tudo muito ruim, um negócio de misturar mitologia grega de boutique, com moleques dando voadora & karatê em todo mundo, virando robôs transformers e soltando raio (urghhhhh!), nem os super-herós conseguiram a façanha de serem tão ruins, e têm também aquelas centenas de milhares de páginas que não dizem porra nenhuma, umas sagas que possuem dez mil páginas, para contar histórias que dá pra narrar em 40 (um dos novos álbuns do mestre Shimamoto, conta em 48 páginas a saga de um dos míticos samurais do Japão, já uma série japonesa leva dezenas e dezenas de números de 100 páginas para contar a mesma história...revistas mensais que custam mais de 5 reais cada!!!!). Eu desenvolvi meu processo narrativo sempre em espaços exiguos (os fanzines), normalmente você tem de 3 a 5 páginas para contar uma história, tem que ser breve, ter poder de síntese, o exemplo mais radical desse narrativa enxuta é uma saga chamada Elegia que editei há alguns anos, são 3 volumes de 6 páginas cada, e contam a tragetória de vida de um personagem (vou relançá-la em volume único em breve).

-Tambem tenho o album do mestre Shima sobre o lendario Musashi. E a "vagabond" ja´ parei de comprar,por falta de grana tambem...E From Hell, você acha que Moore conseguiu atingir plenamente seu intento de forjar em uma HQ o caldeirão que nos preparou o Século XX, com toda sua paranóia, conspirações, contradições, horror e beleza?

Eu não li From Hell, ainda não tive grana pra comprar a série, está muito cara, dei uma olhada nos volumes e li muitos bons comentários a respeito, preciso guardar uma grana e comprar essa série, pois sei de sua importância e pungência...

-E a versão para o cinema agradou? Porque? O que espera da de Liga dos Cavalheiros Extraordinários?

Eu vi o filme e gostei sim, sei que ele não tem praticamente nada a ver com os quadrinhos, mas é um bom filme, tem clima, boa narrativa e personagens bem construidos (nesse sentido ele lembra a proposta de Moore, talvez seja por esse motivo que ele manteve seu nome nos créditos!).
Também não li "A Liga dos Cavaleiros Extraordinários"...

-Sei que você tem uma formação eclética, se podemos definir assim.O que pensa da Magia?

Eu penso que a magia permeia tudo, a vida é uma forma de magia, o estudo dos processos físicos e químicos que ocorrem em nosso corpo material não é suficiente para explicar o milagre da consciência; a ciência acadêmica, racional, é realmente digna de pena quando tenta explicar fenômenos naturais como os processos da vida e da consciência, o surgimento do Universo, a Eternidade, o Nada. Eu acredito que de certa forma somos imagens holográficas do Universo, nós contemos o todo e o todo nos contém (teoria holográfica de Stanislav Grof), dessa forma temos uma conexão muito profunda com todas as forças que regem a natureza (o Universo), estamos conectados a tudo e a todos, muitos estudiosos de "magia" e pesquisa da consciência, estudam na verdade canais que nos permitem uma conexão direta com essas forças da natureza, intrínsecas & extrínsecas à existência. Eu me interesso por esses estudos, pela manifestação dessas forças e pelas metáforas que elas envolvem.

-Outra obra interessante sobre isto e´”O Paradigma Holográfico” (Pensamento).E da obra Big Numbers a inacabada magnus-opus de Alan Moore, que através da Teoria do Caos e seus Fractais, a vida de uma comunidade representando o macrocosmo, tentaria explicar o próprio Universo?

Eu me interesso muito pela teoria do caos, e por todas essas novas teorias científicas que abalam a estrutura da física Newtoniana, mostrando que o fluxo dos acontecimentos não pode ser contabilizado em termos de ações e reações de intensidade semelhante, elas exemplificam bem a falência completa da ciência (até o momento) em tentar explicar os fenômenos...O princípio da causa e efeito adquire outras proporções, um simples piscar de olhos pode provocar um deslocamento de elétrons que desencadeará um processo que finalmente culminará em um maremoto na outra extremidade da Terra, ou porque não irmos mais longe, esse piscar de olhos pode provocar o surgimento de uma nova estrela daqui a milhões de anos, nenhum ato, por insubstancial que pareça pode ser desconsiderado. No início dos anos oitenta li uma HQ de Steve Ditko (acho que foi na Kripta), que era pura teoria do Caos, narrava a história de um cientista que desenvolve uma máquina do tempo e vai para o passado, para a pré-história, antes do surgimento do homem, ele desce da máquina para ver melhor o ambiente e sem que perceba pisa em um pequeno lagarto, quando ele retorna para o tempo presente fica assustado, todos os seres humanos tem feições e corpo de lagarto!!!! É simples e muito impactante, a morte de um único lagarto desviou todo o processo de evolução da espécie humana, antes de Moore, Ditko já falava de Teoria do Caos (antes mesmo das bases da teoria terem se solidificado). Mas eu gostaria imensamente de conhecer os volumes publicados de Big Numbers!!! Por acaso você têm??? Se tiver gostaria de piratear uma cópia....

- Eu conheço essa estoria, que e´ um conto clássico da Ficção Cientifica escrita por nada mais nada menos que Ray Bradbury, o poeta do gênero. E se nao me falha a memória, o desenhista (dessa versao da saudosa Kripta) foi o filipino Alex Nino, compatriota do Alfredo Alcala. Você acha que uma HQ tem a capacidade de abarcar tamanha complexidade e ser compreendida?

Eu acredito que as HQs como qualquer outra forma de linguagem têm um potencial ilimitado, elas se prestam a qualquer assunto, gênero, tendência, têm as particularidades que a tornam um meio de expressão único, tão poderoso quanto qualquer outro. O hermetismo de uma obra depende muito do referencial do leitor, acho que o autor deve ter consciência do público com o qual ele quer dialogar, deve ter consciência das pessoas que quer alcançar, se eu faço HQ infantil, tenho que ter em mente o público para o qual o trabalho se destina. No caso específico dos meus quadrinhos, eu tenho consciência de que o meu público leitor será sempre pequeno, eu faço HQs poéticas e filosóficas que exigem uma certa espontaneidade, disposição para o novo, interesse por assuntos que vão da metafísica à biotecnologia, para aqueles que são abertos à trabalhos menos literários e mais poéticos, menos literais e mais sutis, é claro que a compreensão da mensagem dependerá do discernimento desse leitor, de seu referencial, assim existem infinitos níveis de interpretação, mas quando faço uma HQ tenho uma idéia em mente, uma mensagem, uma reflexão a passar, a compreensão ou não dessa mensagem dependerá do leitor, mas eu não acho que o artista deva "esquartejar" o seu ideário ou mastigar a mensagem para que ela fique insonsa e fácil, a não ser que esse seja o seu desejo (normalmente é o desejo dos editores, he, he!). Eu não faço HQ pra vender, eu não me vendo, sou autêntico, tenho consciência do preço a pagar por fazer essa opção. Penso que autores como Moore também têm plena consciência disso e quando criam obras como BIG NUMBERS sabem que o público para elas será exiguo, seleto (é por isso que a série parou de ser publicada...não vendeu, os editores cortam mesmo, se eu fosse o Mooore publicava esse negócio em Fanzine, he,he!!!).

- Mais um esclarecimento: BN nao parou por falta de venda e a editora era do proprio Moore, a Mad Love. Parou porque ele se desentendeu com o artista Bill Sienkiewicz (Bill achou na época o roteiro de Moore muito ditatorial, nao dando margem para o artista fazer nada que o autor não quisesse), seu sucessor Al Columbia simplesmente “endoidou” ao fazer o 4ª numero, tanto que destruiu os originais e desapareceu) e, finalmente, mais por boicote das grandes editoras e distribuidores, o famigerado establishment, a Mad Love quebrou. Mas, ainda nesta direção metafísica, qual é a sua concepção do Tempo? Considera-o a Quarta Dimensão do Espaço, como teorizou Einstein ou tem outra visão?

Uma das últimas concepções sobre o tempo que mais me fascinaram foi a de Ken Wilber, na verdade o tempo não existe, não é outra dimensão, o que existe é um eterno agora, infinito, e nossa existência é infinita pois estamos sempre nesse eterno agora, gravado na essência do Universo, o passado/presente e futuro são prognósticos falsos criados por uma das válvulas de nossa percepção para que possamos compreender o mundo; veja como os nossos processos de pensamento não são lineares (são hipertextuais, damos saltos quânticos a todo momento), mas a nossa concepção de nossa existência é linear, pois ela é baseada nessa noção de tempo linear que corre do passado para o futuro. Eu tenho uma HQ chamada ATEMPORAL (publicado no fanzine Bifa de Marcelo Garcia) que metaforiza isso, o ser coexiste em todos os seus pseudo tempos : infância –maturidade e velhice, mas não existe linearidade/processo, é tudo coexistente, um eterno agora, como no Retroagir da cultura Indu, dos Vedas





-Realmente.Também tenho algumas obras do Wilber,”o careca”, alem de muitos ensaios e lectures baixados da web. E veja você que ate´ a Ciência parece abraçar também essa teoria: o físico britânico Stephen Hawking também considera o tempo como um sólido, onde tudo esta´se passando simultaneamente, portanto, se pudéssemos “se examinados” por um ser “fora do tempo”, ele nos veria como uma gigantesca centopéia, com milhares de pernas e braços e cabeças, se esticando desde de um bebe ate´ um velhinho, por todos os lugares – e tempos – por onde já passamos – mais ou menos como Kubrik tentou visualizar no antológico final de seu “2001”.Como você imagina um ser ou objeto (como o Tesserato) da Quarta Dimensão? (se pudesse aparecer a nos, pobres materializações tridimensionais que somos ?

Este é um grande paradoxo, o paradoxo de nossa limitação perceptiva, é impossível para nós concebermos algo que foge de nosso paradigma perceptivo, H. P. Lovrecaft tinha uma palavra muito certeira e poderosa para descrever as criaturas de seus mitos terroríficos, ele dizia "o inominável", "o indizível", é brilhante. Stanislaw Lem faz a mesma coisa em Solaris, para mim um dos maiores livros de "filosofia" (embalada num pacote de FC)de todos os tempos, ele nos mostra que sempre que falamos em outras vidas, extra terrestres, estamos falando sobre o nosso paradigma, estamos procurando espelhos, será que se essa outra forma de vida aparecesse teriamos percepção para compreendê-la? Será que ela já não existe??...veja a teoria de Gaia (a Terra é um organismo vivo, um ovo em gestação) de Lovelock, é muito interessante, mas para a ciência e para a maioria das pessoas é inconcebível!!! Esses dias vi um filme B que trata dessa questão da quarta dimensão, chama-se "O Cubo 2", vale a pena ser visto, pois apresenta uma visão curiosa para o conceito da quadridimensionalidade.


Ken Wilber




-Me interessei muito! Sou apaixonado por esse instigante tema. Inclusive, num nº de sua “1963”, Alan Moore tenta mostrar justamente como seria essa quarta dimensão se a pudéssemos “exergar”, e e´ muito interessante.Ele brinca inclusive visualmente, com o “mundo bidimensional” que e´ a pagina dos Quadrinhos, mostrando figuras geométricas impossíveis, ilusões de ótica,etc.Já li em algum lugar que você se interessa pela imberbe Teoria do Caos, com seus Fractais e o popular "efeito borboleta". Quais suas considerações a respeito e como acha que esta teoria pode ser aproveitada por exemplo em algum enredo – HQ ou literário?

Tenho pelo menos uma meia dúzia de HQs curtas que tratam da Teoria do Caos, tenho muitas idéias envolvendo esse tópico...

-Dos meus entrevistados ate´ agora, você e´ um dos poucos que leu as obras do matemático-filósofo soviético P.D. Ouspenski, do qual sou estudioso. Qual o seu entendimento para as teorias dele sobre o Tempo e a 4ª Dimensão – ver final do meu artigo Holismo e Caos em Big Numbers – em suas obras – ao meu ver – mais expressivas, Tertium Organum e Um Novo Modelo de Universo (Editora Pensamento)?

Eu li alguns trabalhos de Ouspenski, gosto da forma densa com que desenvolve suas teorias, partindo de uma certa aura acadêmica proveniente de sua formação racionalista de matemático, acho que ele é brilhante em algumas de suas visões, mas peca em outras, discordo em partes em seu entendimento das dimensões, sobretudo pela classificação evolutiva que dá a elas, colocando alguns animais em segundo plano, como menos perceptivos (só com percepção bidimensional), acho que é meio reducionista (ranço racionalista), mas é brilhante na concepção dessa quarta dimensão, e tem solidez matemática para criar a conceituação. O seu mestre Gurdjieff é mais leve, brincalhão, jocoso, vivo, é um verdadeiro mago, no sentido mais profundo que essa palavra engendra, por isso sempre foi tido como charlatão, mas é mais profundo e contundente. Uma das teorias que Ouspenski resgata, a da Lua como organismo que apreende energia da Terra, é assustadora e muito intrigante.

-E a teoria dele de que a reencarnaçao seria na verdade um circulo vicioso, como a serpente mordendo a cauda – ou seja, que na verdade nos sempre nos reencarnaríamos em nos proprios, vivendo a mesma vida eternamente e somente pequeninas modificações e´que, aos poucos, iria nos libertando desta vida material compulsória? (em Tertium Organum).

Pois é, de certa forma essa teoria é muito semelhante à da inexistência do tempo de Ken Wilber, ao "eterno agora", mas o equívoco de Ouspenski está nessa necessidade de acreditar que há uma "evolução", mais uma vez é um ranço da racionalidade cartesiana, onde tudo tem que ter um motivo, um resultado, neste ponto prefiro a visão de Wilber: o "Ouroboros Eterno", pura e simplesmente...

-Alan Moore e´adepto fervoroso da Cabala – inclusive toda a serie Promethea gira em torno dessa “escola”. Como você encara a Cabala? Vê utilização pratica de seus conceitos?

Como muitos outros tratados herméticos de evolução e transcendência a Cabala é um instrumento legítimo para a busca dessa quintessência transcendente, mas existem infinitos caminhos para essa elevação, alguns são pré-estabelecidos, outros são criados pelo navegante, William Blake fez de sua arte o seu "processo alquímico", eu tenho trabalhado neste sentido!

-Verdade? Precismaos falar sobre isto mais.Voltando aos seus escritos, o que você fez que considera o melhor até agora?

O melhor sempre é o que está sendo feito, eu valorizo muito a fluência do momento em que estou concebendo, criando, esse ato criativo (taoísta) é mais importante que o produto acabado, por isso sempre prefiro os trabalhos que estão em gestação. Mas se você me perguntar dos meus trabalhos quais mais gosto, eu destacaria o álbum AGARTHA (que está na sua segunda edição pela editora "Marca de Fantasia"), e as HQtrônicas "Ariadne e o Labirinto Pós-Humano" (ainda Inédita) e "NeoMaso Prometeu" (Menção honrosa no 13º VIDEOBRASIL –Festival Internacional de Arte Eletrônica) , tem também algumas HQs curtas que selecionei para o meu novo álbum que será publicado pela Marca de Fantasia, e algumas capas de CD que curto bastante, como as do Medicine Death e do projeto Noise for Deaf.

-Por ter se interessado por Historias em Quadrinhos em nível profissional e ser um acadêmico, você sofreu – ou sofre ate´ hoje – alguma especie de preconceito ou discriminação? Como lida com isto?

Faço a minha parte, tenho trabalhado para desmistificar as HQs como coisa de criança, apresentando artigos em congressos, ministrando palestras em Universidades e cursos de HQ de Autor. Mas o preconceito é forte, apesar de que nos últimos anos ele está diminuindo, o número de dissertações e teses sobre quadrinhos defendidas em Universidades do mundo todo é impressionante, talvez esse seja um sintoma do amadurecimento completo da linguagem.

-E atualmente, o que tem escrito?

Tenho diversos projetos em andamento, um álbum só com HQs inéditas & coloridas, uma HQ de 28 páginas para um número especial da coleção Corisco da Marca de Fantasia, um projeto artístico envolvendo Vida Artificial, e uma nova narrativa hipermidiática nos moldes de "Ariadne e o Labirinto Pós-Humano", além de alguns roteiros para outros artistas...

-Alguma produção em Quadrinhos?

Estou com alguns trabalhos no prelo, o álbum "Transessência" (60 páginas de HQs curtas) que está para ser lançado pela Marca de Fantasia, o álbum "Biocyberdrama" (64 pgs) – parceria com o lendário Mozart Couto (que quadrinizou meu roteiro de forma belíssima) já concluido e que será lançado pela Opera Graphica, além do álbum "Duetos Essenciais" que também já está pronto mais ainda demorará um pouco para ser editado.

-Voce sempre batalhou arduamente por um autêntico Quadrinho nacional. Ele existe?

Acho que o Brasil tem muitos talentos individuais, e chego a acreditar que temos um gênero de HQs que frutificou no Brasil de uma forma muito autêntica e contundente, o gênero que foi batizado pelo crítico espanhol Henrique Torrero de "Fantasia Filosófica" e que inclui artistas como eu, Gazy Andraus, Flávio Calazans(Entrevista) Antônio Amaral, Henry Jaepelt, Al Greco, entre outros, eu estou preparando um artigo sobre esse gênero que praticamente passou despercebido pela HQ maistream pois quase toda a produção desses autores foi publicada nos fanzines, a exceção é a revista MANDALA da editora Marca de Fantasia que é dedicada a esse gênero de HQs e publicou mais de 10 números com trabalhos dos autores referidos. Também gosto muito do ciclo de HQs das revistas de terror da Vechi que abriu espaço para que artistas como Mano (ele era autêntico, divertido, despretensioso), Shimamoto & Colin falassem de elementos e assuntos de nossa cultura.
Mas não sou apegado a esse discurso de que HQ nacional deve falar de assuntos da cultura brasileira, isso é pseudo-culturalismo xiita, eu estou de saco cheio de ler/ouvir/ver histórias sobre o regime militar (parece que existe um saudosismo desse período, todo mundo quer posar de coitadinho - reprimido pelo regime militar), também ficar plagiando os romances de Guimarães Rosa & congêneres e achar que está escrevendo grandes roteiros é babaquice, isso é pastiche, tem muita gente por aí plagiando e dizendo que é homenagem... isso vem acontecendo no cinema, nas artes visuais em geral e também nos quadrinhos.
O bom quadrinho deve ser regional & universal ao mesmo tempo, dialogar com todos os povos e eras.

-Voce citou o Mano (o cariocaElmano), do qual tambem sou fan e procuro ha algm tempo contata-lo. O que você acha que dificulta para o quadrinista brasileiro sobreviver de sua arte? Falta de talento ou de mercado?

Como acontece com o cinema nacional, nos não temos mercado, o produto importado já vem com o marketing incorporado e custa mais barato, por isso há um desinteresse completo de editores pela HQ feita no Brasil, isso é ruim pois a HQ acaba tornando-se um trabalho residual dos artistas, eles têm que conseguir outros meios pra sobreviver e a HQ vira um hobby, o tempo dedicado a ela é menor, o processo de evolução mais lento. Penso também que nós praticamente não temos editores de quadrinhos no Brasil, dá pra contar nos dedos de uma mão os verdadeiros editores, o resto é oportunista, crápula e safado...

-Como nacionalista ferrenho que é , também considera que o nosso artista “se vende” quando passa a publicar no Exterior, nos EUA principalmente, adequando-se ao estilo e mudando até mesmo de nome?

Ops!!! Não sou nacionalista ferrenho de forma alguma, sou cidadão do mundo, holista, esse negócio de pátria e fronteira é coisa de políticos e suas linhas imaginárias, sou sim, telúrico, tenho respeito e amor pela terra onde fui gerado. Como diz minha esposa "cada um, cada um", os caras conseguiram uma forma de ganhar dinheiro desenhando, uma forma de sustento, mas achar que são quadrinistas, isso é hilário, são operários do traço, mão de obra barata do terceiro mundo que não tem nem o parco direito de assinar o nome verdadeiro, se isso é o modelo de "quadrinista" que todos devemos seguir eu passarei longe por toda a vida, isso não me interessa, os trabalhos que vi não valem nada, são muito ruins, cópias de cópias, padronizações industriais, produto descartável para pré-adolescentes ...é realmente lastimável.

-Sobre Telematica e extrapolação cientifica, tenho lido muito dos seus artigos nestas areas, abordando tantas teorias que chega a fervilhar-nos o pensamento – biomidiologia, efeitos subliminares da propaganda e outras mídias, psicologia, psiquiatria, enfim, você demonstra um vasto conhecimento que precisa ser mais explorado, em nosso – seus leitores – beneficio – ver artigo “Quadrinhos e as Novas Tecnologias” Quais autores e obras recomenda para nos dar uma visão mais abrangentes destas areas?

Não tenho um vasto conhecimento, ainda estou engatinhando nesses tópicos e assuntos, mas sou muito interessado e empolgado sempre buscando novas informações, para aquele que está iniciando nessas áreas indico alguns trabalhos que considero seminais (em língua portuguesa):

- "A Mente Holotrópica" de Stanislav Grof (Editora Rocco).

- "A Consciência sem Fronteiras" de Ken Wilber (Editora Cultrix)

- "O Renascimento da Natureza" de Rupert Sheldrake (Editora Cultrix)

- "Criação e Interatividade na Ciberarte" de Diana Domingues (Editora Experimento)

- "Cibercultura – Tecnologia e Vida Social na Cultura Contemporânea" de André Lemos (Editora Sulina).

- "Teleantropos – A desmaterialização da cultura material, arquitectura enquanto inteligência, a metamorfose planetária" de Emanuel Dimas de Melo Pimenta (Lisboa – editorial Estampa).

- "Biologia Digital" de Peter G. Bentley (Editora Berkeley Brasil).
A relação é enorme, e muitos livros ainda não tem edição em português, mas acho que estes 7 que indiquei são um bom começo.

- E especificamente a Literatura de FC tupiniquim, atualmente capengando sem um “mercado “mas por outro lado bem mais amadurecida, a julgar por recentes contos publicados pelos fanzines, o que você acha que “está faltando “?

É o mesmo problema das HQs, mas nesse caso a coisa é mais grave pois a literatura não tem nem o apelo visual, as novas gerações não conseguem ler, seu processo perceptivo não condiz mais com os procedimentos necessários para a leitura que exige muito tempo de concentração sobre um mesmo assunto/tópico, as mídias interativas têm contribuido gradativamente para essa mudança de perfil cognitivo, a literatura, a longo prazo necessitará cada vez mais da imagem para sustentá-la. Por isso temos escritores de talento que não têm quem os lê. Me diz se o adolescente prefere ir para a Lan House e jogar um game realista 3D de Guerra nas Estrelas, ou ler um livro com a história da saga? O apelo da hipermídia é muito grande, os autores têm que começar a usar dessas mídias para difundir os seus trabalhos, tornarem-se escritores multimídia, ou estarão cada vez mais fadados ao ostracismo. E olha que eu sou apaixonado por literatura de FC, inclusive leio alguns brasileiros, entre os quais destaco o brilhante André Carneiro (Entrevista) com um dos trabalhos mais pessoais e interessantes da FC mundial, uma densidade pouco vista, se escrevesse em inglês já teria pelo menos meia dúzia de filmes baseados em seus escritos. Há anos recebo o zine "Notícias do Fim do Nada" com o qual tenho colaborado periodicamente com ilustrações, gosto muito to trabalho cuidadoso e apaixonado de Ruby Felisbino Medeiros, uma verdadeira enciclopédia humana da FC mundial!!! Também colaboro esporadicamente com capas e ilustrações para o ótimo Megalon, e colaborei com a extinta Quark, tenho lido excelentes contos e novelas de autores nacionais nessas publicações...

-Quais dos nossos autores você julga mais em condições de produzir uma obra de fôlego?

Temos dezenas e dezenas de autores de talento, só faltam as chances para que eles brilhem!!!

-Especificamente sobre desenho Edgar, como começou o seu interesse, quais as influências do início e os artistas que admira atualmente? E nos Quadrinhos?

Quando comecei a desenhar tinha uma aversão à copiar desenhos, nunca copiava nada, sempre tentava desenhar de memória ou recorria a fotos e modelos do real, devido a isso a evolução de meu desenho foi lenta, mas ao mesmo tempo já muito cedo já me "acusavam" de ter um estilo, este estilo frutificou-se mais rapidamente devido à minha insistência em não copiar, eu gosto do meu desenho, apesar de conhecer suas limitações, sempre trabalhei com fantasia e metáforas, por isso não me interesso por criar trabalhos "realistas", minhas referências visuais são sempre simbólicas e fantásticas, ao contrário de muitos desenhistas que com o tempo conseguem ser mais sintéticos no traço, meu desenho fica cada vez mais rebuscado (enquanto o argumento cada vez está mais enxuto), é uma tendência natural que não consigo evitar, com o passar do tempo ao inves de gastar menos tempo em uma página tenho gastado cada vez mais. Sobre influencias, posso dizer que gosto de Bosch & Bruegel, de Doré e Goya, de Giger & Caza, e dos brasileiros Jaime Cortez, Shimamoto, Gazy Andraus, Antônio Amaral e Mozart Couto, considero o Mozart um dos desenhistas mais completos do mundo, é impressionante a capacidade cênica deste artista, o domínio da sombra e da luz, da anatomia, da perspectiva e do movimento, Mozart é um gênio do traço, um monstro sagrado do desenho, tenho certeza que será motivo de estudo por gerações e gerações, mas apesar dessa grande admiração não posso dizer que meu desenho é influenciado pelo dele.

Desenho de Mozart


-Endoso em gênero, numero e grau: Mozart e´ o melhor desenhista do Brasil, o nosso Michelangelo das HQs.E´´ meu amigo de longa-data e sua entrevista uma das mais aguardadas aqui. Como o leitor interessado pode adquirir seus Quadrinhos e livros, quais os que estão disponíveis?

Recentemente foi feita uma segunta tiragem do meu álbum AGARTHA, que pode ser adquirido diretamente com a editora Marca de Fantasia (site: http://www.mdefantasia.hpg.com.br/), também existem vários números disponíveis da revista Mandala (todos contém algum trabalho meu) que podem ser encomendados através do site da Marca de Fantasia, assim como o meu novo álbum TRANSESSÊNCIA que deve estar sendo lançado em breve. Tenho alguns fanzines solo que distribuo, principalmente os da minha série de HQs baseadas no I-Ching, basta que me mandem 2 selos de segundo porte que remeterei dois números para os interessados, meu endereço postal é: Av. Melvin Jones, 265 – Bairro Santa Ângela, Poços de Caldas – MG – 37701-274. Tem HQs minhas em dois números da revista on-line Pixel (que podem ser baixados gratuitamente no site da editora Nona Arte- www.nonaarte.com.br ) , além disso o leitor poderá encontrar HQs, ilustrações e poemas no meu site pessoal (que em breve será totalmente reformulado) Ritualart: http://www.geocities.com/ritualart.geo/, e finalizando o trabalho de História em Quadrinho Eletrônica (HQtrônica) "NeoMaso Prometeu" que pode ser baixado no url: http://wawrwt.iar.unicamp.br/HQtronicas/index.html

-Voce acha que a “sede” do nosso “espírito” – ou essência, ou anima, o nome que se dê - se encontra na mente? Ou tudo não passa de um aperfeiçoamento fantástico de uma verdadeira “maquina orgânica” com seus ilimitados neurônios e suas ligações sinápticas?

Eu tenho dúvidas sobre tudo, não cheguei a uma conclusão sobre esses tópicos, gosto da teoria dos campos morfogenéticos de Sheldrake que propõe que nosso cérebro nada mais é do que um instrumento de captação, uma antena que capta de um outro "logos" nossa consciência, tanto a individual quanto a coletiva, céticos defendem que o humano é só uma máquina natural...eu discuto isso no meu álbum Biocyberdrama (em parceria com Mozart Couto), no fundo a questão central da história é essa, espero que ele seja lançado em breve, e que pessoas que têm esse questionamento legítimo e importante (como você) possam lê-lo para continuarmos o papo...

-O que você acha que é a consciência em si?

É a morada do mistério, a esfinge mais cruel e maravilhosa que emudece a ciência e turva a religião. É nossa condição "Luciferiana", de questionarmos o poder e a razão daquilo que nos gerou!

-Com esta você fechou com chave de ouro, amigo! Militando há tanto tempo “no ramo” você pode dizer que valeu – ou vale – a pena?

Viver vale a pena, é maravilhoso poder ter a percepção do mundo e das coisas, sentir. Eu aconselho a todas as pessoas a tentarem fazer de sua vida um passeio, leve e gracioso, como o vôo da borboleta, levar tudo menos a sério, sorrir muito e principalmente criar. Se eu tivesse somente aberto os olhos, visto o sol e desfalecesse já teria valido a pena, o que dizer então de tantas dádivas que tenho tido nestes anos? Viva a vida!

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Processo Criativo da HQ "Lord Unikorn".


Por: Edgar Franco


A idéia de falar sobre o processo de criação dessa HQ surgiu devido à série de procedimentos intuitivos, aleatórios e racionais que envolveram o seu desenvolvimento, mesmo para mim que há muito venho tentando trabalhar com novas formas para o já desgastado conceito tradicional de histórias quadrinhos, ela funcionou como quebra de alguns paradigmas. Meu processo usual é partir de um argumento inicial, o conteúdo chave da história, e deixar as imagens fluírem a partir desse argumento, assim ele acaba sendo modificado e acrescido, mas sempre será de certa forma uma chave para desvendar o "Big Bang" deflagrador do processo.
Em LORD UNIKORN as coisas foram bem diferentes, para início de conversa, não existia uma intenção inicial de criar uma HQ. Fui convidado por uma amiga artista plástica para participar de uma exposição de "Livros de Autor", um conceito muito amplo envolve essa tal categoria artística (mais uma dentre tantas criadas pelo racionalismo acadêmico), no final das contas optei por uma espécie de caderno de rascunhos como sendo meu "Livro de Autor", comprei um livro de notas daqueles antigos, com 500folhas brancas e capa dura e resolvi tratá-lo como um "Grimoire Intuitivo de Autor", passei então a criar imagens livres para preencher as páginas desse álbum e adotei total liberdade para desenvolvê-las, usei para a confecção das mesmas um pincel japonês muito macio deixando o traço inicial direcionar a imagem sem censurá-la, muitas delas foram sendo feitas diretamente a tinta, outras tiveram um rascunho feito com lápis 6B, mas sem nunca usar borracha, pois o ato de apagar acaba tirando a espontaneidade cósmica-arquetípica da imagem e trazendo-a para os processamentos racionais do lado esquerdo do cérebro. Para desenhar sempre colocava um fundo musical que podia variar muito dependendo do meu estado de espírito do momento, podendo ir do rock progressivo ao doom metal . Em pouco tempo tinha já prontas cerca de 50 imagens, mas devido aos compromissos da vida "mundana" tive que parar. Como tinha como meta conseguir fechar o livro, isto é, completá-lo com imagens, decidi não apresentá-lo na primeira exposição de minha amiga, e prometi incluí-lo numa próxima.
Guardei o "Grimoire" e fiquei sem olhar para suas imagens por quase 3 meses, voltando a ele, descobri imagens realmente muito fortes de sentido, um certo lirismo que transcende em força boa parte da minha produção de HQs, resolvi então fotocopiá-las para utilizá-las como capas ou contracapas de fanzines de amigos, selecionei dentre todas umas 20 que me pareceram mais simbólicas, considero essa seleção uma ação mútua entre o lado direito (intuitivo) e o esquerdo (racional) do cérebro. Depois disso aconteceu um fato interessante, fui convidado por um editor de zines para fazer a capa de sua nova produção, quando vi a proposta de seu zine decidi enviar uma das imagens que tinha fotocopiado para a capa e aconteceu um fato raro de se ver no universo zinístico, tive o desenho censurado pelo editor, que de forma amena tentou me dizer que aquela imagem era "um pouco agressiva demais" para figurar na capa de seu zine. Já estou calejado de receber recusas de editores de revistas que usam milhões de argumentos e subterfúgios para não publicar o meu trabalho ("é datado", "é setentista", "é meio Metal Hurlant, né?", "mas isso não é HQ!", "até que é bonito, mas é poesia ilustrada", "mas cadê os quadrinhos e os balões?", "tem muita mulher pelada!" etcetera e tal), mas no meio zineiro foi uma novidade ser censurado, ainda mais sendo o editor em questão um cara de mente aberta com quem
já tinha feito várias parcerias, detalhe importante: a imagem censurada é aquela que posteriormente tornou-se a página sete da HQ estudada neste artigo.
Esse acontecimento fez-me reavaliar o valor dessas imagens e passei a mostrá-las para alguns amigos que sempre se assustavam ou gargalhavam com algumas. Arrisco dizer então que algumas delas funcionam como Koans, para usar um conceito detalhado na dissertação de mestrado "Existe o quadrinho no vazio entre dois quadrinhos?(ou: O Koan nas Histórias em Quadrinhos Autorais Adultas)",
desenvolvida pelo quadrinhista e pesquisador Gazy Andraus, onde ele esclarece-nos o que é um Koan: "O koan, é uma forma de pergunta, em forma de enigma indecifrável pelos padrões lógicos racionais vigentes. Uma forma de pergunta, para a qual não possui resposta imediata racional, que busca derrubar toda a estrutura condicionada da mente racional. Na verdade o koan seria apenas um desafio aos arraigados hábitos de nossa mente, ao seu modo de pensar e então agir.(1)" Na dissertação Gazy demonstra-nos que os Koans podem surgir na forma de questionamentos filosóficos, poemas, problemas da física quântica e é claro em HQs. Na minha opinião algumas dessas imagens criadas para o meu "Livro de Autor" têm esse potencial de provocar certos deslocamentos em nossa lógica
racional.
Diante dessa conclusão decidi fazer mais uma seleção escolhendo as imagens que ao meu ver fossem mais "Koânicas"(2), para a partir delas criar uma HQ, chegando finalmente a 9 imagens, entretanto uma delas já havia sido utilizada para outro fim, como capa para a demo-tape de uma banda de Death Metal de uns amigos meus, o mais interessante desse fato é que além de ser convidado para desenvolver o desenho da capa, também fui incumbido de escolher um nome para a banda, chegando a LORD UNIKORN quando lia alguns verbetes de um dicionário de ciências ocultas, o nome me chamou a atenção por sua sonoridade e curiosamente por remeter-me a uma das imagens de meu "Grimoire" (e menos por seu significado: trata-se de um demônio que chefia 29 legiões), imediatamente procurei a minha imagem e desenhei o logotipo que criei para a banda sobre ela, o trabalho agradou muito aos músicos. Como a capa da demo-tape fazia parte das 9 imagens selecionadas, optei por usá-la como primeira página da HQ, adotando como título para a mesma o nome LORD UNIKORN (com a concessão de meus amigos da banda homônima). Para impedir que o lado racional criasse critérios para ordenação lógica das demais páginas, entreguei-as a minha esposa e pedi para que as embaralhasse e me devolvesse, essa "ordem aleatória" foi a utilizada na HQ. E ela veio repleta de
sincronicidades, uma ordem gerada no caos do processo criativo.
O texto/roteiro da HQ surgiu em poucos minutos e foi escrito diretamente sobre as páginas, na primeira ele é apenas uma frase descritiva, mas nas seguintes ele fluiu liricamente fundindo-se às imagens e redobrando seus significados, tendo como foco central questionamentos sobre eternidade, ego e vazio e certas alusões aos Koans, ao Taoísmo, ao Zen e ao oráculo milenar chinês I-Ching. Aquilo que parecia não deflagrar uma seqüência de ligações lógicas, acabou gerando seqüências aleatórias interessantes, reparem nas 3 primeiras páginas, os personagens estão de perfil e olhando para o lado direito da folha, além disso todos têm um objeto nas mãos (crânio, relógio e espada), já a penúltima e a última página apresentam relações simbólicas com a sexualidade e os genitais.
Todas essas sincronicidades, coincidências e convergências intuitivas levam-me a refletir sobre o conceito do artista como veículo de forças transcendentais, o artista talvez seja o pincel do Universo e a arte a forma mais profunda de ciência, envolvendo a inexpugnável e maravilhosa intuição. O ato criativo um orgasmo cósmico puro e eterno!


Notas:

(1) In ANDRAUS, Gazy - Existe o quadrinho no vazio entre dois quadrinhos? (ou: O Koan nas Histórias em Quadrinhos Autorais Adultas), Dissertação de Mestrado defendida em dezembro de 1999 no Instituto de Artes da UNESP- Universidade Estadual Paulista, São Paulo.
(2) Koânico - Neologismo criado pelo pesquisador Gazy Andraus para designar os gêneros narrativos e obras de arte que contém Koans.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Cúpula da Polônia teve fim triste




O embaixador extraordinário do clima do Brasil, Sérgio Serra, avaliou que a 14ª Conferência do Clima, em Poznan, terminou num "tom ruim", de forma "triste e decepcionante".

A reportagem é de Afra Balazina e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 14-12-2008.

A declaração melancólica, diz, se deve ao fato de os países industrializados, notadamente a Rússia, barrarem mecanismos que poderiam aumentar os recursos para o fundo de adaptação às mudanças climáticas.

Esse é o instrumento financeiro para apoiar projetos em países vulneráveis ao aquecimento global. Hoje, o fundo é alimentado com 2% dos créditos gerados para projetos de melhorias do chamado MDL (Mecanismo de Desenvolvimento Limpo), programa pelo qual países ricos ajudam os pobres a cortarem emissões em troca do direito de emitir mais.

Uma das idéias barradas foi a da obtenção de mais recursos com o comércio de créditos de emissões entre países ricos.

Atualmente, os recursos são mínimos, de US$ 80 milhões ao ano -e chegarão no máximo US$ 300 milhões em 2012. A aprovação de novos mecanismos representaria um valor de US$ 20 bilhões para o fundo.

"Foi um episódio lamentável", disse Serra, ressaltando que a idéia acabou "enterrada" e não voltará à pauta de negociações no próximo ano.

Clima de enterro

Nem o otimista inveterado Yvo de Boer, secretário da Convenção do Clima da ONU, disfarçou o clima triste ao fim do encontro de Poznan, em meio à briga de países em desenvolvimento contra desenvolvidos.

Visivelmente exausto após concluir os trabalhos às 3h de anteontem, ele disse que a atmosfera era "boa" na conferência do ano passado, em Bali - diferentemente da deste ano em Poznan. Boer alegou que a mudança ocorreu porque agora, de fato, começaram as negociações para o próximo acordo de metas de redução de emissões de gases-estufa, que deve entrar em vigor após 2012.

Para Boer, os países ricos avaliaram que não era o momento de oferecer mais recursos aos países pobres, pois isso os enfraqueceria nas negociações de 2009. Isso porque o objetivo das nações ricas é fazer com que os emergentes se comprometam também com as reduções de emissões de gases.
"Vamos ser honestos", disse, explicando que conter recursos é uma maneira de países desenvolvidos forçarem a mobilização dos em desenvolvimento.

Anfitrião do encontro, o sorridente Maciej Nowicki, ministro polonês do Meio Ambiente, tentou colocar panos quentes. "Não tivemos consenso aqui, mas vamos trabalhar para conseguir isso em 2009", disse.

Aparentemente não percebeu o clima de enterro. "Poznan é o lugar em que a parceria entre o mundo em desenvolvimento e o desenvolvido para lutar contra a mudança climática avançou para além da retórica e se transformou em ação real", disse. Acredite quem quiser.


terça-feira, 16 de dezembro de 2008

A massa



Por: Luiz Felipe Pondé

"Imaginem celulares e internet nas mãos nazistas! Seria esta uma contradição insuperável da modernidade? Sua eficácia técnica e burocrática repetiria a maldição atávica de Prometeu?", escreve Luiz Felipe Pondé, professor da PUC-SP, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, 15-12-2008. E continua perguntando: "Uma vez que fetos não são mais humanos, por que não usá-los em pesquisas de cosméticos ou remédios? Quem teria um argumento contra isso que não fosse miseravelmente metafísico, uma vez que a decisão legal tiver definido o que é humano e o que não é "na matéria da lei"? A tentativa de definir questões desse tipo como "problemas de saúde pública" é mera retórica que visa transparecer um halo de objetividade pré-moral. No fundo, é simples questão de dinheiro associada ao desejo de aniquilar o senso moral pra "baratear" o aborto".

Eis o artigo.

Leitores apressados identificam em mim um culto da escuridão. Pensam que me faltaria luz. Daí meu "pessimismo". Não, isso é um engano. Suspeito, sim, que levar as "luzes" a sério demais é sinal de pouca luz.

Confesso, não sou muito moderno. "Seria este colunista um retrógrado?", indaga-se o leitor apressado. Respondo: não se deve ter medo de ser anacrônico. Muitas vezes ser extemporâneo pode ser uma forma de consciência. Hoje, em meio à pressa do cotidiano, gostaria de partilhar com o leitor um desconforto. Há uma relação perigosa entre políticas de saúde e a estupidez das massas: chantagem emocional, humilhação moral, procedimento estatístico, opressão burocrática, constrangimento legal. O leitor apressado, movido por seus vícios, pensará que sou "contra" a saúde, mas não se pode fazer muito contra os vícios. Sei disso porque os tenho aos montes.

Enfrentaremos nos próximos anos novas formas de eugenia que a saúde de massa assumirá ao atingir o formato legal. A violência é invisível quando é legal. Recentemente li nesta Folha uma pequena nota que falava de um projeto da Organização Mundial da Saúde propondo políticas mais agressivas contra a Aids. Ironicamente diria que aí está um alerta para jantares inteligentes: jamais questione políticas como essa; melhor contar, entre dois goles de vinho, sua vida sexual com um pastor alemão.

Cientistas cogitam uma lei que obrigaria toda pessoa acima de 15 anos a fazer todo ano exame de HIV. Já vejo o documento do "HIV zero" com validade de um ano sem o qual você não tira passaporte, não saca dinheiro, não faz seguro de saúde, não casa, não herda. Por que não fazer o mesmo com doenças genéticas e diabetes? As empresas adorariam "administrar" a qualidade da saúde de seus funcionários.

Como nos diz Zygmunt Bauman em seu livro "Modernidade e Holocausto", o mal-estar é um traço da consciência moral moderna. Diante do constrangimento causado pela burocracia da saúde de massa, seriam os incompetentes uma esperança? Sabemos que, num campo de concentração, um soldado bêbado ou corrupto salvaria vidas. Imaginem celulares e internet nas mãos nazistas! Seria esta uma contradição insuperável da modernidade? Sua eficácia técnica e burocrática repetiria a maldição atávica de Prometeu?

Nunca foi possível abortar e depois ir ao cinema. O avanço da ciência nos impõe impasses éticos antes impensáveis. Avanços dramáticos são aqueles que demandam definições do tipo "o que é o humano?". Novas formas de barbárie invisível podem surgir da relação entre avanços científicos e definições jurídicas. Chama-me a atenção a fúria como as campanhas pró-aborto repetem o movimento de desumanização, agora, do feto: "Feto não é gente, pode jogá-lo fora". Campanhas assim (de definição do "humano") já foram realizadas em outros momentos da história e aplicadas com sucesso a outras vítimas.

Só tolos crêem que juízes possam evitar essa forma de violência invisível. Ao contrário, eles podem ser os agentes dela porque são submetidos ao próprio processo de acomodação que o imaginário cultural produz ao longo do tempo. Um juiz não tem autonomia em relação ao seu momento histórico.

Uma vez que fetos não são mais humanos, por que não usá-los em pesquisas de cosméticos ou remédios? Quem teria um argumento contra isso que não fosse miseravelmente metafísico, uma vez que a decisão legal tiver definido o que é humano e o que não é "na matéria da lei"? A tentativa de definir questões desse tipo como "problemas de saúde pública" é mera retórica que visa transparecer um halo de objetividade pré-moral. No fundo, é simples questão de dinheiro associada ao desejo de aniquilar o senso moral pra "baratear" o aborto.

Antes de tudo, é necessário desumanizar o feto para atingir o afeto vazio que caracteriza o aborto sem culpa. Sem a agonia moral não existe moral. O leitor apressado, agora também irritado, suporá que nego a possibilidade de uma pessoa ter vida moral sem sofrimento. Confesso, nisso ele está certíssimo. O coração da vida moral é o sentimento de culpa.

Temo que dentro de cem anos essa discussão se acabe. A própria identificação entre sexualidade e reprodução estará extinta. A reprodução será, como tudo mais, mediada pelo mercado, aquele das tecnologias da reprodução. A sexualidade será, por sua vez, algo assim como ir ao cinema.




Tompkins, o ambientalista latifundiário e antiliberal

Por:Humberto Saccomandi, de Rincón del Socorro, Argentina

24/11/2008

Em Rincón del Socorro, uma estância na Província argentina de Corrientes, a paisagem é absolutamente plana e o horizonte parece não ter fim. A longa e poeirenta estrada de terra converge para o infinito. Apesar dessa amplitude, até onde a vista alcança a terra pertence a uma pessoa, o americano Douglas Tompkins. Mas lá não há plantações e quase não há gado, como nas estâncias vizinhas. Sobram pássaros, capivaras e jacarés, comuns nessa região, os Esteros del Iberá, uma versão argentina do pantanal brasileiro.

Tompkins, de 65 anos, é um dos maiores proprietários de terras do mundo. Empresas e fundações dele e de sua mulher, Kristine, possuem cerca de 830 mil hectares na Argentina e no Chile (o número é uma estimativa). Mas seu objetivo é diametralmente oposto ao de grandes latifundiários, como os reis da soja brasileiros. Ex-empresário do setor de moda, Tompkins vendeu sua empresa nos EUA para se tornar um ícone do ambientalismo, comprando terras para promover a conservação da paisagem e da biodiversidade.

Para isso, ele disse já ter gasto US$ 370 milhões de sua fortuna. E espera gastar outro tanto até o fim da vida. "Mas isso vai depender de quanto eu vou viver", brincou Tompkins em entrevista ao Valor em sua casa, em Rincón del Socorro, parte dos 135 mil hectares que possui nos Esteros del Iberá.

A maior parte de suas terras é área de conservação natural, onde não há nenhum tipo de atividade econômica, a não ser visitação turística. É o caso do imenso Parque Pumalín, com seus quase 300 mil hectares no sul do Chile. Ele divide o país ao meio, pois ocupa uma área que vai da costa do Pacífico até a fronteira com a Argentina (veja mapa). Mas Tompkins tem também fazendas com criação de gado e plantações, cujos objetivos são, segundo ele, dar dinheiro e fornecer um modelo de produção ambientalmente sustentável. "Somos bons fazendeiros."

Olhando pelo seu ponto de vista atual, o da conservação quase sem concessões, Tompkins passou por uma espécie de conversão, já que hoje renega a atividade com a qual fez fortuna. Ele fundou nos anos 60 duas grifes de muito sucesso nos EUA: a The North Face, que logo vendeu para criar a Esprit.

"Comecei a me dar conta do negócio em que atuava, que era produzir coisas de que ninguém necessitava. Na verdade, o que fazíamos era produzir o desejo nas pessoas de comprá-las, por meio de propaganda, construção de imagem e marketing. E constantemente fornecer algo novo", disse.

Essa crise existencial coincidiu com um interesse maior pelo ambiente. "Eu retornava a lugares e via vários tipos de desenvolvimento, como projetos florestais, estradas, prédios, represas. Projetos humanos tinham avançado sobre a paisagem, deformando-a. Tentei entender, de modo sistemático, quais eram as forças que estavam por trás dessa marcha implacável do progresso e do desenvolvimento, como chegamos ao ponto de achar que é bom derrubar florestas e eliminar biomas, alterando seriamente paisagens e ecossistemas." Sua conclusão foi que "isso era uma crise de civilização".

Essa conversão foi um processo longo, explica. O ativismo ambiental conviveu anos com a atividade empresarial, até 1990. "Então simplesmente me livrei dos meus negócios. E usei a receita aferida para criar fundações sem fins lucrativos, cujo objetivo é parar a demolição da paisagem por essa civilização perturbada. Coloquei-me do lado de Davi contra Golias."

Sua primeira fundação foi a Deep Ecology Foundation, inspirada no conceito de ecologia profunda, do filósofo norueguês Arne Naess, que coloca o ser humano em pé de igualdade com outras espécies como parte integrante (e não acima) do ambiente e que se opõe a um uso utilitarista da natureza pelo homem. Essa fundação financia estudos e publica livros. Em seguida, Tompkins criou a The Conservation Land Trust, por meio da qual passou a comprar terras para conservação, inicialmente no Chile e depois na Argentina. A Conservacion Patagonica foi criada em 2000, por Kristine, para projetos específicos de conservação na Patagônia argentina.

Hoje, o casal mora parte do ano na Argentina e parte no Chile. Nos dois lugares, Tompkins comprou brigas pelo ativismo conservacionista. No Chile, ele se opõe à construção de hidrelétricas, que ajudariam a minimizar o problema da escassez de energia no país, e de estradas na região de seu parque. Na Argentina, denunciou à Justiça fazendas vizinhas que retiravam, sem autorização, água do pantanal para irrigar plantações. Isso levantou suspeitas e críticas. Ele foi acusado, entre outras coisas, de ser agente da CIA e de querer se apoderar do aqüífero Guarani. Na estrada que leva à sua estância, há pichações "Tompkins pirata".

"Há oposição em todo lugar, não há dúvida. O mundo da produção e o da conservação são antagonistas, por natureza. É assim no mundo inteiro, pois o uso da terra é uma questão política."

A estância Rincón del Socorro, onde ele mora, foi quase totalmente convertida de rancho de gado para a conservação (há também uma pequena pousada). Parte das terras fica dentro da reserva natural do Iberá. O vilarejo mais próximo, que antes dependia da produção, agora vive de turismo e das atividades de conservação, como o monitoramento ambiental da área, em boa parte financiadas por Tompkins. "A conservação da biodiversidade sempre foi uma questão central na minha visão de mundo. Ao final, é a saúde do ecossistema que sustenta tudo", disse.

Para ele, a visão utilitarista segundo a qual o homem pode fazer o que bem entender com a natureza, é uma característica do que ele chama de sociedade tecnológico-industrial, que se desenvolveu no Ocidente rico e se alastrou. "Essa obsessão pela produção e pelo consumo é, na realidade, uma conversão da natureza em produtos humanos. Isso é claramente uma coisa errada, é a grande ilusão da modernidade", diz. "Essa sociedade acha que pode ignorar a natureza, que seria apenas um vasto armazém de recursos à nossa disposição, e que podemos mudar a paisagem do modo que quisermos e não haverá conseqüências."

Nessa hora lhe vem em mente o Brasil. "Você vê aquelas imensas plantações de soja no Brasil e se pergunta: que tipo de vida selvagem vai sobreviver lá? Nenhuma. Mas isso nem é percebido como um problema." Mas os produtores brasileiros podem respirar aliviados. Tompkins diz que nunca cogitou comprar terras no Brasil e que não tem planos para isso. "Vocês no Brasil têm um imenso reservatório de espécies, e provavelmente estamos extinguindo espécies que ainda não foram descobertas. Deveríamos nos envergonhar."


O Chile o atraiu por conta da paisagem, com montanhas, neve, vales e o mar, tudo muito perto, além da segurança jurídica oferecida pelo país no início dos anos 90. Já a maior parte das terras na Argentina foi comprada durante a crise econômica no país, no início desta década. Nesse caso, Tompkins se disse atraído por um ecossistema muito particular, os Esteros del Iberá, que estavam em situação ruim de degradação. "Gosto de comprar as coisas em mal estado e recuperá-las."

Tompkins esclarece alguns princípios de sua atuação. Ele não compra pequenas propriedades para juntá-las, pois nesse caso teria de remover muita gente, em geral gente pobre. Ele mantém seu dinheiro em fundos em euro, mas não permite investimentos numa série de empresas, como de armas, biotecnologia e combustíveis (inclusive etanol). Ele e suas fundações não financiam partidos nem políticos. "Queremos estar bem com todos, o que não é fácil." Ele cita a boa colaboração com o governo do ex-presidente socialista Ricardo Lagos, no Chile, e com o ex-presidente argentino Néstor Kirchner, nesse caso para a criação de um parque nacional na Província natal de Kirchner.

Milionário, ele diz que não tem ambições patrimonialistas e que seu modelo preferido é, sempre que possível, recuperar o ecossistema e devolver a terra ao país, por meio da criação de parques nacionais. Nesse caso, ele faz uma doação ao governo, condicionada à manutenção do parque. "Se tentarem dar um outro uso, retomamos a terra." Essas doações já foram feitas na Argentina e no Chile.


O ponto central da atuação de Tompkins é que a paisagem deve ser o principal "marcador", sinalizador, da economia, e não a produção. Assim, um modelo que estimula, por exemplo, uma agricultura intensiva baseada na monocultura, que resulta em profundas modificações na paisagem e no seu ecossistema, não é um modelo saudável, ainda que em termos de produção seja mais eficiente. "Isso significa passar de um mundo antropocêntrico para um mundo ecocêntrico. Essas duas visões de mundo estão em disputa, e uma delas é muito perigosa."

"Obviamente isso é muito diferente do que dizem os economistas e políticos 'integrados', cuja visão e gestão nos levaram à crise das extinção [de espécies], da redução da biodiversidade e, é claro, da mudança climática, que é a expressão pura do modelo econômico neoliberal." Modelo, ele alfineta, que é promovido pelos jornais econômicos. "Todas as pessoas que têm poder, prestígio e privilégio são ligadas a esse modelo, se beneficiam dele, e não querem ver nada diferente." E, no que ele qualifica de realidade única, "o desenvolvimento, o progresso e o crescimento econômico são dogmas".

Tompkins é cético quanto à maioria dos programas de sustentabilidade promovido por empresas. "Isso em geral é bobagem, é só marketing. O máximo que podemos falar é de menos insustentabilidade." Também é crítico de boa parte do movimento ambientalista pelas excessivas concessões.

Para ele, não é possível conciliar sustentabilidade com transformações profundas na natureza, inerentes ao padrão de produção e consumo atual, e que geram efeitos imprevisíveis. "Temos de pensar no sistema como um todo. É um sistema muito complexo e não deveríamos ter a arrogância da ciência ocidental que crê que tudo é compreensível. Em última análise, não é. E não é bom pensar que vamos entender, pois isso é um modo de nos isolarmos da enorme complexidade do mundo. Há esferas que não conhecemos. Toda vez que se lança no ambiente uma nova tecnologia, como os telefones celulares, abre-se um vasto buraco negro de ignorância. Não sabemos quais os efeitos de todas essas microondas. Suspeita-se agora que elas estão confundindo os sinais de reprodução dos sapos. E se os sapos não se reproduzem, estamos perdendo sapos por toda a parte. Bem, um financista em Nova York ou Paris pode dizer: ´Para que precisamos de sapos?´. Isso só demonstra o quão estúpido ele é. Os sapos são peças-chave para ciclos que são importantes para outras coisas, pois tudo está interconectado. As variáveis são tantas que nenhum modelo de computador pode predizer quais são as implicações. Só podemos saber que haverá problemas não previstos em cascata nos ecossistemas."

Pergunto a Tompkins: como fazer para vencer o incentivo econômico que é o fato de que as pessoas, a sociedade, o país ficam mais ricos no curto prazo derrubando florestas para plantar soja? "Sua questão é típica, pois vai direto para a estratégia. Sabemos que as pessoas ficam mais ricas no curto prazo, que essa é a força motora. Como se muda isso? Não sei, prefiro deixar para o futuro. Mas sei que, se mais pessoas pensarem como eu penso, políticas diferentes começarão a ser elaboradas. Haverá uma preocupação com o futuro. Não pensamos no curto, mas no longo prazo, bem além das nossas vidas. É uma posição religiosa, moral, se você quiser. Vai além do você ganha ou perde hoje. Você precisa acordar pela manhã preocupado com o futuro do mundo. Se você assume essa posição, então pode liberar a sua mente para poder ver o que estamos de fato fazendo."

Tompkins admite que as desigualdades no mundo constituem um obstáculo, mas não justificam continuar a marcha de destruição da natureza. "Vamos olhar pelo outro lado: se não for possível [reduzir a degradação ambiental], podemos dar adeus ao mundo." Observo que quem não tem o que comer dará adeus ao mundo antes. "Se partirmos da idéia de que não há futuro, então tanto faz dar adeus mais cedo ou mais tarde." E argumenta que o modelo de produção intensiva, além de degradar o ambiente, não favorece a distribuição de renda, pelo contrário.

Tompkins não fornece uma estratégia clara de saída, mas a sua atuação indica para onde ele gostaria de ir. A sua produção agrícola sustentável implica pequena escala, com variedade de culturas e pouco ou nenhum uso de fertilizantes químicos e agrotóxicos. Isso reduziria a produção e elevaria o preço dos alimentos. Haveria assim menos excedente para gastar com consumo de outros bens e serviços, o que, por sua vez, diminuiria a pressão sobre outros recursos e sobre o ambiente. O mundo seria materialmente mais pobre.

Ele diz que que as pessoas nos países ricos gastam de 5% a 10% de sua renda, em média, com alimentação. "Deveria ser muito mais, algo como 25% a 30%." Essa redução, para que as pessoas tivessem um excedente para gastar com carros, viagens e universidades caras, só foi conseguida por meio da produção agrícola intensiva, com forte dano ambiental. Ele vê nisso um antagonismo entre o campo e a cidade. "A população urbana vive de sugar os recursos do campo, mas não tem a menor idéia do que se passa lá, do tsunami ambiental que está chegando."

A entrevista está acabando e pergunto a Tompkins se ele não se sente às vezes vivendo numa ilha da fantasia, tanto pela paisagem que se vê de sua janela como pelas suas idéias. "Toda revolução começa com um primeiro passo. Não sabemos onde estamos na história. Vamos descobrir isso depois. Ao final, todos buscam fazer o melhor que podem, sob as condições e as perspectivas que têm. O que mais você pode fazer? Sabemos que estamos lutando contra as tremendas forças motoras da economia e seus fatores políticos. Mas qual é a alternativa? Aderir a isso? Isso está arruinando o futuro. Você tem de trabalhar no que acredita, e acredito que o que fazemos é melhor para o presente e para o futuro. É por isso que acordamos todas as manhãs, mesmo sem ilusões e sem grandes esperanças diante das tremendas forças da sociedade tecnológico-industrial. Sem encontrar um sentido no trabalho diário, a vida não vale a pena."


Fonte: VALOR ONLINE

O mundo não agüenta essa pantomima

"Encarregados de produzir um plano para cortar emissões de carbono, os governos produziram muito pouco além de bravatas", escreve Kevin Watkins, pesquisador sênior do Programa de Governança Econômica Global da Universidade de Oxford (Inglaterra), comentando a reunião de Poznan, em artigo publicado pelo jornal Folha de S. Paulo, 16-12-2008. Segundo ele, "nos últimos meses, os governos dos países ricos moveram montanhas financeiras para proteger a integridade de seus sistemas bancários. Qual é o preço da integridade ecológica do planeta, do bem-estar das gerações futuras e do compromisso com os pobres do mundo?"

Eis o artigo.

As negociações cruciais sobre mudança climática em Poznan, Polônia, caminharam para lugar nenhum. Encarregados de produzir um plano para cortar emissões de carbono, os governos produziram muito pouco além de bravatas, com ministros reciclando promessas vagas de ação futura. Sem dúvida, eles se deitam à noite recitando uma variação da oração de Santo Agostinho: "Ó Senhor, torna-me casto - mas não ainda, e certamente não em Poznan".

Infelizmente, este é um momento do tipo "agora ou nunca". A Conferência de Poznan marcou a metade da trajetória de negociação de uma nova convenção climática das Nações Unidas. Esperava-se que prepararia o terreno para um grande pacto global para enfrentar o maior desafio que a humanidade já viu.

Falando claramente, o desafio em Poznan era estabelecer as coordenadas para evitar uma colisão entre os sistemas de energia que alimentam nossas economias e a biosfera da Terra. Metas ambiciosas devem estar no cerne de qualquer acordo para enfrentar o desafio. Mas também necessitamos de uma nova arquitetura institucional de cooperação entre países ricos e pobres.

Se a tendência no aumento da temperatura continuar, conduzirá a reversões no desenvolvimento humano sem precedentes ainda em nosso tempo de vida, seguidas rapidamente de uma catástrofe ecológica para as gerações futuras. As economias podem se recuperar de uma crise financeira. Mas não há antídoto ou tecla de replay para o aquecimento global.

Em Poznan, os países ricos deveriam ter estabelecido uma intenção séria. Era preciso sinalizar um compromisso obrigatório de reduzir sua pegada de carbono pelo menos em 80% (relativo aos níveis de 1990). Acima de tudo, era e é preciso aproximar as metas de mudança climática e as políticas energéticas.
Os países ricos têm os recursos financeiros e a capacidade tecnológica para fazer uma transição rápida para baixo carbono. Com um aumento do preço da emissão de carbono, por meio de impostos, cotas e normas regulatórias mais duras, podem transmitir um sinal claro para os investidores e estimular a inovação.

As parcerias público-privadas em pesquisa têm um papel-chave no desenvolvimento e na comercialização de novas tecnologias. A captura e o armazenamento de carbono são uma prioridade porque têm o potencial de reduzir as emissões das usinas de energia movidas a carvão, a forma predominante de geração elétrica, a zero. Contudo, nem os EUA nem a UE foram além de investimentos de pequena escala em projetos piloto.

Os países ricos também precisam construir as bases para um novo pacto global com os países em desenvolvimento. Não se trata apenas do fato de esses países abrigarem as populações mais vulneráveis à mudança climática, incluindo 1,6 bilhão de pessoas vivendo com menos de US$ 1 por dia. Eles também respondem por grande parte do aumento projetado de emissões de CO2 até 2030: o crescimento econômico movido a carvão na China e na Índia será responsável por bem mais que a metade do aumento. E o desmatamento em países em desenvolvimento é responsável por cerca de um quinto das emissões.

Em Poznan, os governos tinham a oportunidade de estabelecer três dos pilares para um acordo global. Primeiro, precisamos de um plano de ação para adaptação. Como indicado por Oxfam, para milhões das pessoas mais pobres do mundo, a mudança climática perigosa não é uma ameaça futura: está acontecendo agora.

O Relatório de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas estima o custo de combater essa ameaça em US$ 86 bilhões de ajuda adicional, quase um nono do que foi oferecido pelo governo nos EUA para o resgate dos bancos americanos.

Em segundo lugar, os países ricos têm que parar de falar e começar a agir com relação ao desmatamento, um dos caminhos mais custo-efetivos para cortar emissões de gás de efeito estufa.

Em terceiro lugar, o mundo precisa de um Plano Marshall para financiamento de baixo carbono e transferência de tecnologia. Um elemento desse plano deverá ser a expansão de oportunidades de comercialização de emissões para países em desenvolvimento. Mas os países ricos também têm que implementar mecanismos multilaterais mais amplos para sistemas de descarbonização da energia.

O mundo não agüenta o tipo de exibição desorganizada que foi encenada em Poznan. Nos últimos meses, os governos dos países ricos moveram montanhas financeiras para proteger a integridade de seus sistemas bancários. Qual é o preço da integridade ecológica do planeta, do bem-estar das gerações futuras e do compromisso com os pobres do mundo?

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

A terceira revolução industrial e a crise ambiental



Entrevista com Jeremy Rifkin

Na semana decisiva para o futuro do pacote sobre o clima europeu, o professor Jeremy Rifkin está em Bruxelas. Nesta terça-feira, 09, o guru da Terceira Revolução Industrial, já consultor de Merkel e de Zapatero, acompanhado de uma dezena de administradores delegados de grandes sociedades, encontrou o vice-presidente da Comissão, Gunther Verheugen, para estabelecer um plano de ação em vista ao próximo salto qualitativo em matéria de clima e de energia, que está previsto para 2050. “Estamos prontos para colaborar também com a administração Obama – explica Rifkin – mas a Europa é o carro-chefe da terceira revolução industrial. E esta semana será crucial se ela quiser continuar a sê-lo”.
A reportagem é de Andrea Bonanni, publicada no jornal La Repubblica, 09-12-2008. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Por que crucial, professor?
Porque, sobre a mesa dos chefes de governo europeus, cruzam-se três crises de época estreitamente ligadas umas a outras: a crise do clima por causa do efeito estufa, a crise energética e a crise econômico-financeira.

De que modo elas estão conectadas?
Porque todas as três são produto do declínio da segunda revolução industrial, baseada sobre a exploração da energia fóssil e nuclear. Essa era chegou à linha final quando o petróleo alcançou os 147 dólares por barril e o sistema foi contra o muro. E, com a segunda revolução industrial, a globalização também declina.

Não lhe parece ser um pouco drástico?
Não. Não acho. Esse modelo de relações econômicas e produtivas não pode ser retomado: faltam os recursos energéticos e faltam os capitais. O ingresso da China e da Índia na era da globalização levou ao colapso.

Mas e o plano de restauração americano? E o europeu?
São migalhas. O crescimento dos últimos anos que a globalização produziu foi alimentado pelo forte consumo dos americanos. Agora, este acabou. Sabe a quanto chega o endividamento das famílias americanas? Treze bilhões e quinhentos milhões de dólares! Não se resolve um buraco dessas dimensões injetando umas poucas centenas de milhões. Os quatro furacões que atingiram as costas americanas neste ano custaram, sozinhos, a metade do pacote de financiamento da Casa Branca. Entre energia, clima e finanças, combinaram-se os elementos de uma “perfect storm”, uma tempestade perfeita. Estamos frente a uma mudança de época. E são precisos anos para sairmos dela.

E então o que se faz?
É preciso um plano estratégico de longo prazo. É certo manter o corpo exânime do velho sistema vivo artificialmente, pelo menos até que sejamos capazes de dar a luz ao filho da terceira revolução industrial. Mas para obter esse resultado, também é preciso investir muito dinheiro nos quatro pilares dessa revolução: energias renováveis, construção e alta eficiência energética, hidrogênio, sistemas de transporte elétricos baseados em pilha combustível. Segundo os nossos cálculos, para iniciar esse processo, é necessário ao menos um trilhão de dólares para os EUA, assim como para a Europa.

Estamos longe também dos objetivos mais ambiciosos da próxima cúpula?
Sim. Mas a União Européia hoje é a única que tem um projeto que compreenda todos os três mecanismos necessários para dar o salto. Há um pacote energético para reduzir 20% das emissões, para aumentar em 20% a eficiência energética e, sobretudo, para aumentar em 20% as energias renováveis, que é um primeiro esboço da terceira revolução industrial. Além disso, há uma estratégia de longo prazo baseada no corte de 50% até 2050. Enfim, há um programa de restauração da economia.

Mas a Itália ameaça vetar?
Sim. Nesse quadro, a Itália está dando o pior exemplo. E francamente isso me deixa atônito. Porque Berlusconi é um homem de negócios capaz, e não entendo como ele não vê as enormes oportunidades de negócios que esse programa comporta.

Será que não ameaçamos o veto porque estamos atrás há pelo menos dez anos com relação a países como a Espanha e a Alemanha e tememos não conseguir superar isso?
Sim, é verdade. A Itália está atrasada. Mas permanece sempre como a sexta potência econômica. Se a Espanha conseguiu, vocês [italianos] também podem conseguir. E depois não há alternativas. Se a Itália não se mexe agora para recuperar o tempo perdido, dentro de dez anos, onde ela estará? E as crianças italianas de hoje, que futuro terão?

Etnometodologia






A etnometodologia e a análise da conversação e da fala

Por: Adalto H. Guesser (1)

1. Introdução

O termo etnometodologia designa uma corrente da sociologia americana, que surgiu na Califórnia no final da década de 1960, tendo como seu principal marco fundador a publicação do livro Studies in Ethnomethodology [Estudos sobre Etnometodologia], em 1967, de Harold Garfinkel.
A publicação da obra de Garfinkel provocou uma reviravolta na “sociologia tradicional” gerando intensos debates no meio acadêmico das universidades americanas e européias, particularmente inglesas (2) e alemãs (Coulon, 1995a, p. 7).
Segundo Coulon, na França a etnometodologia chegou no início da década de 1970, quando traduções de textos etnometodológicos começaram a ser publicados em algumas revistas. No entanto, somente a partir de meados da década de 1980 é que passou a ser ensinada em várias universidades francesas e, posteriormente, já nos anos 1990, é que um grupo de pesquisadores da sociologia da educação, desenvolvendo trabalhos com base etnometodológica3, propagaram largamente a nova teoria naquele país. No Brasil, a etnometodologia ainda é pouco conhecida nos campos da sociologia, possuindo alguns raros trabalhos publicados; são exemplos as duas obras traduzidas do francês, de Alain Coulon, (1995a e 1995b) e um artigo traduzido do inglês, de John Heritage (1999). Outras referências esparsas e bastante resumidas podem ser encontradas em manuais de metodologia, como o caso de um breve capítulo dedicado à etnometodologia na obra de Haguette (1992) e na de Birnbaum & Chazel (1977), dentre outros. Nas universidades brasileiras, a etnometodologia ainda é mais utilizada pelos campos da educação infantil, ensino de matemática e de educação física (4).


Harold Garfinkel



Heritage (1999) justifica que vários fatores contribuíram para que o surgimento da etnometodologia tenha sido bastante turbulento. Aponta como principal causa o fato de os escritos de Garfinkel serem altamente condensados e não estarem sistematicamente articulados em termos de referência da sociologia clássica, dando origem a muita confusão e equívocos, mesmo entre os adeptos da nova matriz teórica. Soma-se ainda o fato de a obra de Garfinkel ter sido publicada justamente num período de “caótica convulsão nas ciências sociais”, principalmente nos Estados Unidos, com a crise do paradigma dominante, o estrutural-funcionalismo parsoniano. Mesmo antes da publicação dos Estudos sobre Etnometodologia, Garfinkel já havia se preocupado em “repensar” a teoria da ação parsoniana, cujo corpus teórico vinha criticando e reformulando. Por este motivo, Garfinkel atraiu para si as críticas tantos dos defensores, como dos opositores do estrutural-funcionalismo, legando aos primórdios da etnometodologia uma resistência quase gratuita no meio acadêmico.
A perspectiva de Garfinkel parte da base teórica de Parsons, que fora seu orientador entre 1946 e 1952, mas com profundas reformulações advindas da influência da fenomenologia sobre ele exercida através de Alfred Schütz e Eduard Husserl, entre outros, que o levaram a posicionar-se contra certas versões da sociologia tradicional da época (Haguette, 1992). O ponto central da inovação teórica de Garfinkel residia no âmbito de questões conceituais da sociologia, como a teoria da ação social, a natureza da intersubjetividade e a constituição da ação social do conhecimento, com amplas ramificações teóricas e metodológicas (Heritage, 1999, p. 323). Para uma melhor compreensão da obra de Garfinkel se faz necessário uma revisão das principais correntes teóricas que influenciaram o seu pensamento, sendo que destacamos neste trabalho três delas: a teoria da ação de Parsons, a fenomenologia social de Alfred Schütz e o interacionismo simbólico desenvolvido pela “Escola de Chicago”.

2. A influências da teoria da ação social de Talcot Parsons

Talcot Parsons exerceu forte influência sobre o pensamento de Garfinkel. Importante figura na sociologia americana, tentou com sua obra integrar os trabalhos de Durkheim, Weber, Pareto e outros nomes de peso da sociologia mundial. Por esta razão, a teoria da ação é denominada por muitos como “a grande teoria”. O principal feito de Parsons foi reabilitar a sociologia de matriz européia aos trabalhos desenvolvidos nos Estados Unidos. Segundo Coulon (1995a), sua perspectiva provinha de um ambiente acadêmico rico, pois o departamento em Havard, ao qual estava vinculado e liderava, apresentava a vantagem de reunir a sociologia propriamente dita, a psicologia e a antropologia. A teoria parsoniana da ação se constituiu basicamente como uma teoria da motivação da ação.

Talcot Parsons


Segundo Parsons,

as motivações dos atores sociais são integradas em modelos normativos que regulam as condutas e as apreciações recíprocas. Assim se explica a estabilidade da ordem social e sua reprodução em cada encontro entre os indivíduos. Compartilhamos valores que nos transcendem e governam. Temos a tendência, para evitar a angústia e castigos, a nos conformarmos com as regras da vida em comum (Coulon, p. 10).

Para Parsons o ator submete-se às normas sociais, que por sua vez determinam suas ações. O ator é privado de reflexividade e por esta razão é incapaz de analisar sua relação de dependência a esse conjunto de normas. Heritage (1999) aponta duas questões fundamentais que dominavam as preocupações de Parsons. A primeira é que considerava que os homens não vivem em sociedade apenas reproduzindo ações de modo a se adaptar ao ambiente onde estão inseridos. Ao contrário, os homens e mulheres se empenham em alcançar metas, e suas ações estão sendo sempre orientadas por esta “metafísica voluntarista”, como designou o fenômeno. A outra questão tinha a ver com o “problema da ordem” proposto por Hobbes. Levando em conta as discussões de Hobbes e a constatação do estado de “caos” no estado de natureza, Parsons tenta perceber como os esforços ativos dos agentes sociais podem reconciliar-se uns com os outros de tal sorte que as relações sociais não venham a ser dominadas pelo exercício externo da força e da fraude. Parsons se valeu do conceito de “super-ego” de Freud para explicar a regularidade da vida social. Segundo esta concepção moralista, durante todo o processo da vida, as regras sociais e as formas de conduta são apreendidas e interiorizadas pelos indivíduos. Tal acúmulo de conhecimentos se configura como que um “tribunal interior”, que julga os nossos comportamentos e até mesmo os nossos pensamentos (Coulon, 1995a, p.10). Percebe-se aqui a forte influência de Durkheim no pensamento de Parsons, quando ele absorve a idéia de que existe uma coerção externa que molda e determina as ações dos indivíduos e que os valores morais interiorizados no curso da socialização exercem forte influência no processo de tomada de decisões dos agentes. Segundo Garfinkel, Parsons não construiu uma teoria da ação, capaz de resgatar as formas de como os agentes agem, mas ao invés, desenvolveu apenas uma teoria das disposições para agir. Ou seja, a teoria desenvolvida por Parsons não era capaz de identificar a ação em si, mas apenas as motivações que impeliam os agentes a agirem desta ou daquela maneira. Uma vez que os agentes são dominados por coerções externas e suas decisões e ações são orientadas para dar conta de uma normatividade que se coloca “de fora”, a sua reflexividade sobre a ação fica em segundo plano, bastando agir segundo um sistema de normas previamente acumulado pelo processo de socialização. Garfinkel desconsidera esta passividade reflexiva, afirmando que o indivíduo não é um “idiota social”, regido apenas por coerções externas. As normas estão presentes em sua análise e o influenciam, entretanto ele interage com elas interpretando-as, ajustando-as e modificando-as (Votre & Figueiredo, 2003, p.2). Foi a partir deste ponto que Garfinkel começou a divergir mais decisivamente de Parsons, principalmente no período pós-guerra.
Outro ponto em que Garfinkel vai concentrar suas críticas é em relação ao processo de comunicação que desenvolvemos através do uso da linguagem. Para Parsons, nossa comunicação é estabelecida a partir de símbolos que preexistem a nossos encontros, como sistema de referência e como recurso externo, inexaurível e estável (Coulon, 1995a, p.10). Para a perspectiva da etnometodologia ocorre justamente o contrário.
Os símbolos utilizados para nossa comunicação não se encontram estabelecidos em conjuntos de regras e normas de comunicação preexistentes, mas são construídos e produzidos por processos de interpretação. Aqui se funda a passagem de um paradigma normativo (parsoniano) para um interpretativo (etnometodológico). Ou seja, os indivíduos produzem os símbolos e códigos utilizados para estabelecer uma comunicação inteligível, interpretando as ações daqueles com quem estabelecem relação. Tais símbolos são reinventados e adaptados a cada novo encontro. Parsons desenvolve uma discussão sobre a racionalidade do agente, afirmando que esta é determinada no momento em que o mesmo calcula o tipo de atitude que deve tomar com o objetivo de atingir um determinado fim, com base em conhecimentos adquiridos, compatíveis com o conhecimento científico (Heritage, 1999, p.327). Neste caso, toda explicação científica deverá ser a mesma explicação que o próprio agente dá para sua ação, pois cada agente singular ao mover-se racionalmente, desenvolve uma lógica fixa, que deverá ser a mesma empregada por todos os demais, que participam do mesmo grupo social, e que almejam alcançar o mesmo fim. Garfinkel descarta esta opção, pois considera que o efeito cumulativo de ações normativamente orientadas levaria à formação de agentes sociais incapazes de agir livremente por orientação própria. Na memorável expressão de Garfinkel, os agentes sociais nesta concepção passam a ser tratados como de “juízo dopado” [judgemental daps] em termos de discernimento, cuja compreensão e raciocínio em situações de ação concreta são irrelevantes para um enfoque analítico da ação social (Heritage, p. 328).
Ao contrário, considera que cada indivíduo contribui decisivamente e singularmente na “construção” de seus processos de interação com os demais agentes sociais, e seu esforço interacional deve ser levado em conta no momento das análises sociológicas, pois são eles os únicos capazes de revelar o “sentido das ações” empreendidas pelos agentes.

3. A influência do interacionismo simbólico da Escola de Chicago

O interacionismo simbólico, com origem na chamada “Escola de Chicago”5 representou uma nova possibilidade para a sociologia, popularizando o uso dos métodos qualitativos na pesquisa de campo, movendo-se na contracorrente da concepção durkheimiana do ator.

Durkheim, embora reconhecesse a capacidade do ator para descrever os fatos sociais que o cercam, acha que essas descrições são por demais vagas, muito ambíguas, para que o pesquisador possa usá-las de modo científico, sendo tais manifestações subjetivas não subordinadas ao domínio da sociologia. Ao invés, o interacionismo simbólico afirma que a concepção que os atores fazem para si do mundo social constitui em última análise o objeto essencial da pesquisa sociológica (Coulon, 1995a, p. 14).

Para esta corrente, o conhecimento sociológico só pode ser percebido pelo pesquisador a partir da observação direta e imediata das interações entre os atores sociais, das ações práticas dos atores e o sentido que eles atribuem aos objetos, às situações, aos símbolos que os cercam, pois é nesses pormenores que os atores constróem seu mundo social. E se a sociologia pretende resgatar a realidade, deve tomar conta desses inúmeros contatos interacionais que se estabelecem entre os atores nas ações corriqueiras do cotidiano. Os interacionistas rejeitam o modelo da pesquisa quantitativa e suas conseqüências sobre a concepção do rigor e da causalidade nas ciências sociais (Coulon, 1995a, p.15). Para esta corrente, é impossível apreender o social através de princípios objetivos, pois a subjetividade, ou a intersubjetividade dos atores, é extremamente importante e determinante das ações sociais. Desconsiderar as motivações pessoais e a liberdade subjetiva dos atores é criar um mundo imaginário, idealizado, que não corresponde à realidade concreta. O interacionismo simbólico ancora-se numa concepção teórica que considera que os objetos sociais são construídos e reconstruídos pelos atores interminavelmente. Ou seja, o significado social dos objetos se deve ao fato de lhes darmos sentido no decurso de nossas interações (Coulon, 1995a, p.16). Portanto, a interação social é uma ordem frágil, instável, temporária, que está em constante construção pelos atores, de modo que estes podem, através dela, interpretar o mundo em que estão inseridos e no qual interagem. Em outras palavras, afirma-se que as ações sociais não podem ser capturadas no decurso de uma lógica pré-estabelecida, causalmente estabelecida a partir de uma ordem de fatos externos e fixos.
A ordem dos fatos sociais e o sentido das ações, por ser mutável e própria de cada ato interacional, deve ser considerada a cada nova interação. Portanto, a pesquisa de campo é importantíssima para a efetivação desta forma de se fazer sociologia. O pesquisador deve observar diretamente o cotidiano das relações estabelecidas pelos atores sociais e procurar recuperar o sentido que eles dão a cada ato, no contexto em que se inserem, temporal e espacialmente.

4. A influência da fenomenologia social de Alfred Schütz

Alfred Schütz estudou Direito em Viena, Áustria. Em seus primeiros estudos tomou como ponto de partida a obra de Max Weber, publicando sua primeira obra em 1932, Der Sinnhafte Aufbau der Sozialen Welt [A Fenomenologia do Mundo Social], a qual dedicou a Edmund Husserl, considerado o pai da fenomenologia (6) e com o qual Schütz manteve contato muito próximo e de intensa colaboração, até sua forçada saída do país em fuga ao regime nazista, em 1938. Schütz desenvolve a noção de Verstehen, já presente em Max Weber (7). Propõe o estudo dos processos de interpretação que utilizamos em nossa vida diária, cotidiana. Para ele, a linguagem cotidiana esconde um tesouro de tipos e características pré-constituídos, de essência social, que abrigam conteúdos inexplorados (Coulon, 1995a, pg. 11). O mundo social que Schütz se propõe a estudar é aquele da vida cotidiana, vivida por pessoas comuns, tanto o daquelas simples e iletradas, como o daquelas cultas. Neste mundo a maioria dos atos são realizados, muitas vezes, automaticamente, sem grandes elaborações racionais, Para Schütz a realidade social é

a soma total dos objetos e dos acontecimentos do mundo cultural e social, vivido pelo pensamento de senso comum de homens que vivem juntos numerosas relações de interação. (...) Desde o princípio, nós, os atores no cenário social, vivemos o mundo como um mundo ao mesmo tempo de cultura e natureza, não como um mundo privado, mas intersubjetivo, ou seja, que nos é comum, que nos é dado ou que é potencialmente acessível a cada um de nós. E isso implica a intercomunicação e a linguagem (Schütz apud Coulon, 1995a, p. 12).


Alfred Schütz



Para este autor, o mundo é interpretado a luz de categorias e construtos do senso comum que são largamente sociais na sua origem (Heritage, 1999, p. 329). Esses elementos cognitivos são os recursos que os indivíduos utilizam para compreender e serem compreendidos nas suas ações do cotidiano. A realidade é fruto dessa contínua atividade de interpretação dos sentidos das ações que são empreendidas no dia-a-dia. Ninguém percebe a realidade da mesma forma que os outros. Cada um de nós realiza experiências subjetivas que são inacessíveis aos outros, mas que são “compartilhadas” através da comunicação, por processos de entendimento que são construídos entre os atores, de modo a que possam ser compreendidos. Para Schütz,

los actores sociales experimentan el mundo social como una realidad llena de significados. Un acto tiene un único contenido, el que proviene del actor mismo, y si el mundo social es algo entendible para todos sus actores sociales, implica que ellos lo entienden de una manera similar y así poder crear relaciones sociales (Mella, 2003, p. 47).

Esta percepção do mundo social como um fenômeno intersubjetivo é o ponto central da obra de Schütz. Ou seja, independentemente de como o sintamos, o mundo cotidiano não é constituído de nossas experiências privadas, particulares. Não é vivido independentemente dos demais indivíduos sociais, ao contrário, é compartilhado, é construído nas relações estabelecidas com outros atores a partir da comunicação. As nossas ações num mundo social somente tomam sentido em relação com as ações dos demais. Embora cada ator perceba a realidade de uma maneira singular, existe a possibilidade da troca de percepções através da comunicação. Embora os homens nunca realizem experiências idênticas, eles supõem que elas sejam idênticas, fazem que sejam idênticas, para todos os fins práticos (Coulon, 1995a, p. 12). Ou seja, criam processos de ajustes de modo que a experiência vivida por um seja assimilada e compreendida pelo outro através de processos de interação e comunicação, desta forma podem compartilhar da mesma realidade criando um mundo comum, compreensível para todos aqueles que vivenciam o mesmo contexto cultual e social. Teoricamente, Schütz descreveu cinco propriedades importantes do conhecimento e da cognição (Heritage, 1999, p. 329). Primeiro, denomina que o mundo da vida cotidiana é um mundo permeado de naturalidades. Os atores que interagem no cotidiano agem, geralmente, seguindo cursos ordinários, desenvolvidos por percepções pré-adquiridas no decurso dos acontecimentos do passado ou do cálculo racional das orientações das ações empreendidas no presente. Segundo, propõe que a construção (constituição) dos objetos (tanto naturais, quanto sociais) é necessária e continuamente atualizada por meio de “sínteses de identificação” (ibidem, p. 330), ou seja, a realidade se transforma a cada segundo, os atores constróem os objetos da realidade adicionando elementos e resignificando-os a cada novo instante que os percebem, variando de acordo com os contextos onde estão inseridos. Terceiro, Schütz estabelece que os objetos do mundo social são constituídos no interior de uma estrutura de “familiaridade e pré-conveniências, fornecida por um “estoque de conhecimentos à mão” que é esmagadoramente social em sua origem (ibidem). Quarto, esse estoque de construtos sociais é mantido numa forma tipificada, ou seja, são ordenados em tipos característicos capazes de serem correlacionados e reconhecidos à medida em que são novamente observados. Esta propriedade permite também o ordenamento dos objetos em categorias para futuras análises cognitivas. E, por último, que a compreensão intersubjetiva se realiza por meio de um processo no qual os atores esperam “reciprocidade”, apesar das diferentes perspectivas que orientam as compressões da realidade de cada um deles. É essa propriedade que permite que se estabeleçam relações de comunicação e de troca de experiências objetivas entre os atores ao desenvolverem suas ações subjetivas.
Apesar de Schütz evidenciar a necessidade de compreensão do senso comum, ele antecipa que esta não é uma tarefa fácil. Segundo ele, o senso comum é como uma “colcha de retalhos”, formada de partes altamente desiguais e, por vezes, desconexas. O senso comum não é formado por uma lógica racional, ao contrário, as ações do senso comum são muitas vezes irracionais e ilógicas. Portanto, Garfinkel influenciado por Schütz, vai divergir de Parsons que acreditava que as ações dos agentes se confundem com a lógica científica, e passa a considerar que as ações idealmente racionais não devem ser buscadas no mundo do senso comum (Heritage, 1999, p. 331). Aliás, ratifica Garfinkel, caso o cientista deseje reduzir seu trabalho a identificar a lógica dos acontecimentos ordinários a partir, exclusivamente, de uma orientação racional, terá seu trabalho perdido, pois esta empreitada é tão desnecessária quanto impossível de ser alcançada. Com esta observação, estabelece um novo território para as análises sociológicas, qual seja, o estudo das propriedades do raciocínio prático de senso comum nas situações mundanas de ação (ibidem).

5. Os conceitos desenvolvidos pela etnometodologia

A etnometodologia, como toda teoria, elencou uma série de conceitos que traduzem perspectivas epistemológicas e metodológicas do conjunto de idéias que defende. Muitos desses conceitos não foram criados pelos etnometodólogos, senão que foram tomados de empréstimo de outras correntes e áreas do conhecimento, imputando sobre eles alguma modificação ou acréscimo. Uma característica interessante da etnometodologia, em relação às demais correntes antecessoras, é o caráter de complementaridade e de valorização do aporte já construído pela ciência. Ou seja, os etnometodólogos estavam certos de que estavam criando uma teoria nova, no entanto não acreditavam que partiam do zero, desconsiderando o acúmulo desenvolvido pelas correntes anteriores; ao contrário, aproveitavam o que era possível e acrescentavam valor aos aspectos pouco desenvolvidos, descartando apenas aqueles que contradiziam os princípios etnometodológicos. São muitos os termos e conceitos trabalhados pelos etnometodólogos e que delineiam um perfil teórico desta corrente, porém ressaltaremos neste trabalho apenas cinco, considerando-os como os mais importantes e fundamentais para uma boa compreensão dos princípios etnometodológicos. Seguiremos a pista de Alain Coulon (1995a) e explicitaremos os conceitos de “prática/realização”; a “indicialidade”, a “reflexividade”; a “relatabilidade (ou accountability)”; e a “noção de membro”.

6. Prática, realização

A preocupação central da etnometodologia é buscar abordar as atividades práticas, as circunstâncias práticas e o raciocínio sociológico prático desenvolvido pelos atores no curso de suas atividades cotidianas, sejam estas atividades ordinárias ou extraordinárias, partindo de um raciocínio profissional ou não. Considera que a realidade social é construída na prática do dia-a-dia pelos atores sociais em interação; não é um dado pré-existente (Votre & Figueiredo, 2003, p. 4). Evidencia-se uma nova preocupação para a sociologia, a recuperação e a análise do “senso comum”, que para a sociologia clássica, desde Durkheim, devia ser evitado como um problema. Ao contrário, os etnometodólogos procuram descobrir no senso comum os verdadeiros sentidos que os atores dão às suas ações e esperam desvendar o raciocínio prático que orienta as ações sociais. A etnometodologia analisa as crenças e os comportamentos de senso comum como os constituintes necessários de “todo comportamento socialmente organizado”(Coulon, 1995a, p. 30).
Esta nova perspectiva exige uma mudança dos métodos e das técnicas de coleta de dados, bem como da construção teórica. Já não é mais possível trabalhar com a hipótese de que exista a priori um sistema de normas estável que dá significação ao mundo social, mas é preciso considerar que os fenômenos cotidianos estão em constante criação, transformação, e extinção. Tais fenômenos são criados pelos atores para dar significação às suas ações e permitir uma compreensão das ações empreendidas pelos demais atores que coexistem com ele num mesmo contexto. Ao contrário da sociologia tradicional que considerava possível determinar as “leis sociais” que regem os comportamentos e as ações sociais, a etnometodologia entende que as ações desenvolvidas pelos atores é guiada pelo seu raciocínio prático, fruto dos momentos particulares vivenciados e experimentados a cada ato interacional.

7. A indicialidade

O mundo social é constituído de ações interacionais entre os agentes, que são desenvolvidas pelo uso da linguagem. As intenções, ações, pedidos, ordenamentos, ensinamentos, trocas de auxílio, etc. são comunicadas através da linguagem estabelecida entre os atores, uma linguagem que não é ordenada e radicalmente fixa, mas que é flexível e adaptável, conforme o grupo de agentes que a desenvolve. Para os etnometodólogos, compreender o mundo social, antes de tudo, é compreender a linguagem que este mundo se utiliza para se fazer compreensível e transmissível. As ações sociais somente adquirem sentido neste contexto, ou seja, somente possuem significação quando são compreendidas pelos atores que interagem no mundo social. Portanto, para se capturar o mundo social nas análises sociológicas, é necessário estar atento e levar em conta as redes de significações que são estabelecidas pelo uso da linguagem.
A linguagem que interessa aos etnometodólogos não é a linguagem culta, dos lingüistas eruditos ou aquela dos discursos estruturados, mas aquela do dia-a-dia, utilizada pelo cidadão comum, nas suas ações práticas do cotidiano. Os etnometodólogos utilizam em suas pesquisas, em suas descrições e interpretação da realidade social, os mesmos recursos lingüísticos que o homem ordinário, a linguagem comum (Coulon, 1995a, p. 32). Uma das bases do estudo do raciocínio prático consiste na maneira como os membros de uma sociedade utilizam a palavra narrativa quotidianas para determinar a posição de suas experiências e de suas atividades. Portanto, o etnometodólogo se interessa pela maneira como os atores se servem da elocução ou da fala para construir um conjunto de ações coordenadas e inteligíveis. Cicourel (1977) estabelece que o método utilizado pelos etnometodólogos deve ser o mesmo do lingüista que, pretendendo descrever a estrutura da linguagem, se utiliza da elocução ou da fala para construir a sua gramática. Segundo ele,

etnometodólogos e lingüistas recorrem a concepções da significação um pouco diferentes, mas tanto uns como outros tomam como ponto de partida a produção do discurso e da narrativa (...). O etnometodólogo sublinha que é preciso entregar-se a todo um trabalho de interpretação para chegar a reconhecer que uma regra abstrata se adapta a uma situação particular, enquanto os lingüistas minimizam a influência das propriedades interacionais sensíveis ao contexto, insistindo, ao contrário, na importância das regras sintáticas, na análise semântica (Cicourel, 1977, p.61).


A linguagem cotidiana, ordinária, é repleta de expressões indiciais. As expressões indiciais são expressões, como por exemplo “isto”, “eu”, “você”, “etc”, que tiram o seu sentido do próprio contexto (Coulon, 1995a, p. 32). Indicialidade é um termo adaptado dos lingüistas e refere-se a expressões que possuem significados “trans-situacional”, ou seja, expressam em si mesmas um conjunto de idéias que superam o seu próprio significado literal ou sugerem a interligação de conteúdos já subentendidos ou já referidos, ou ainda, conteúdos que podem ser deduzidos pelos próprios atores no momento da interação, sem a necessidade de explanação verbal pormenorizada. As expressões que os atores empregam nos seus atos interacionais estão carregadas de indicialidade, ou seja, são formadas de expressões que somente ganham significado a partir do conhecimento do contexto local onde elas são produzidas. A indicialidade é assim essa incompletude que toda palavra possui. Ela precisa estar situada num contexto específico para revestir-se de significado (Votre & Figueiredo, 2003, p. 5). Segundo Coulon, uma expressão indicial que foi minuciosamente analisada pelos etnometodólogos foi a expressão “et cetera”. Esta expressão sugere ao discurso um complemento narrativo que só poderá ser desenvolvido pelos atores que possuírem o conhecimento contextual local no qual aquela fala se insere. A regra do “et cetera” exige que um interlocutor e um ouvinte aceitem tacitamente e assumam juntos a existência de significações e de compreensões comuns daquilo que se diz, quando as descrições são consideradas evidentes, e mesmo que não sejam imediatamente evidentes. Isto manifesta a idéia de existir um saber comum socialmente distribuído (Coulon, 1995a, p. 36).
No pensamento sociológico onde a lógica é utilizada para balizar o discurso, as expressões indiciais são vistas como inconvenientes e são rechaçadas das análises por não permitir enunciar proposições gerais, uma vez que seu conteúdo somente recebe significação num contexto de relação mais amplo, via de regra variável e muito flexível, podendo ser interpretado de inúmeras maneiras, dependendo do referencial contextual que dispõe o ouvinte. Os etnometodólogos entendem que a linguagem ordinária desenvolvida pelos atores comuns, nas suas ações práticas e corriqueiras do dia-a-dia, por ser a base das relações sociais, fornece a chave para o entendimento dos sentidos das ações que as pessoas desenvolvem nas suas práticas cotidianas. Procurar analisar e compreender o sentido das ações é procurar entender como estas ações são comunicadas e transmitidas socialmente. Uma outra característica decorrente desta perspectiva deriva do fato de que a indicialidade sugere sempre um sentido local e contextual, singular para cada ato interacional. Portanto, a sociologia não pode jamais almejar obter com suas análises generalizações que possam servir para explicar o conjunto dos fatos sociais dispersos nos diferentes contextos históricos e culturais. Desta forma, o pesquisador não deve solapar as expressões indiciais de suas análises, mas ao contrário, deve privilegiar atenção a elas, de modo a poder absorver o maior conteúdo explicativo possível através das significações contidas nelas.

8. A reflexividade

Os atores sociais ao desenvolverem e praticarem suas atividades cotidianas descrevem o quadro em que estão inseridos a partir de uma operação mental onde correlacionam o cabedal de experiências adquiridas, os conhecimentos, a capacidade criativa e adaptativa e as trocas de intenções do processo interacional. Segundo Coulon, a reflexividade designa as práticas que ao mesmo tempo descrevem e constituem o quadro social. Descrever uma situação é constituí-la. A reflexividade designa a equivalência entre descrever e produzir uma interação, entre a compreensão e a expressão dessa compreensão (Coulon, 1995a, p. 42), ou seja, na medida que desenvolvemos nossas ações práticas, estamos envolvendo uma série de atividades racionais motivadas tanto pelos reflexos dos sinais que recebemos do exterior como daqueles produzidos em nosso próprio interior. Essa reflexividade de sinais produzidas pelos atores é que dá origem às ações sociais, e é esse o produto social que deve ser analisado pelos sociólogos.
O processo de reflexividade não é o processo de reflexão que os atores desenvolvem sobre suas atitudes fatuais ou mentais. Quando se diz que as pessoas têm práticas reflexivas, isto significa que refletem sobre aquilo que fazem, embora não tenham consciência do caráter reflexivo de suas ações. Nos Estudos sobre Etnometodologia, Garfinkel afirma que a reflexividade pressupõe

que as atividades pelas quais os membros produzem e administram as situações de sua vida organizada de todos os dias são idênticas aos procedimentos usados para tornar essas situações descritíveis (Garfinkel, 1984, p. 55).

A propriedade reflexiva dos atores sociais permite que eles exprimam as significações de seus atos e de seus pensamentos, ou seja, de suas ações sociais. Esse processo é automático e contínuo. Mesmo sem perceber, o indivíduo desenvolve esta atividade a cada minuto de sua existência, pois necessita a si próprio de encontrar motivações e orientações para suas ações. Esse conjunto de percepções gerados pela reflexividade serve como base para a tomada de decisão e para a formação de uma idéia de mundo, coordenando os atores e articulando-os cooperativamente com os demais atores sociais. Para os etnometodólogos, a compreensão das significações das ações só é possível a partir do próprio processo de reflexividade desenvolvido pelos atores, que deve ser captado e recuperado no momento em que são produzidos. Portanto as fontes dos dados para as análises sociais devem ser os próprios atores, em interação efetiva, a partir do processo de relatabilidade, que apresentamos abaixo.

9. A relatabilidade (ou accountability)

O termo accountability, que designa para Garfinkel a propriedade de relatabilidade, ou seja, de descrição, é uma característica que permite aos atores sociais comunicarem e tornarem as atividades práticas racionais compartilháveis. A relatabilidade está intimamente ligada ao processo de reflexividade. A relatabilidade são as descrições que os atores fazem de seus processos reflexivos, procurando mostrar sem cessar a constituição da realidade que produziram e experienciaram. Em outras palavras, a relatabilidade não é a descrição pura e simplesmente da realidade enquanto pré-constituída, mas enquanto essa descrição em se realizando, fabricando o mundo, construindo-o (Coulon, 1995a, p. 46). A relatabilidade é a propriedade que permite que os atores tornem o mundo visível a partir de suas ações, tornando as ações compreensíveis e transmissíveis. Ao passo que são descritas, ou seja, ao passo que são dotadas de significado e sentido através dos processos pelos quais são relatadas, as ações sociais exprimem o mundo social na sua mais pura essência. Os etnometodólogos não estão, portanto, preocupados em apenas descrever as ações sociais a partir dos relatos fornecidos pelos atores, mas procuram compreender como os atores reconstituem permanentemente uma ordem social frágil e precária, a fim de compreenderem e serem compreendidos (Coulon, 1995a, p. 46), em outras palavras, como os atores conseguem estabelecer intercâmbio, comunicação, interação. Considerar que o mundo social é relatável (accountable), significa dizer que ele é disponível, passível de ser descrito, compreendido, analisado pelos sociólogos a partir da accountable dos atores em interação.

10. A noção de membro


Para os etnometodólogos, membro não é apenas um ente que pertence a um determinado grupo, mas ao contrário, é um ente que compartilha a construção social daquele determinado grupo. Em outras palavras, é membro o indivíduo que domina a linguagem comum do grupo, que interage com os demais a partir de redes de significação estabelecidas nos processos interacionais, que compreende o mundo social em que está inserido sem grandes esforços racionais, mas apenas pela pertença natural de sua socialização. Segundo Coulon, um membro é

uma pessoa dotada de conjunto de modos de agir, de métodos, de atividades, de savoir-faire, que a fazem capaz de inventar dispositivos de adaptação para dar sentido ao mundo que a cerca. É alguém que, tendo incorporado os etnométodos de um grupo social considerado, exibe “naturalmente” a competência social que o agrega a esse grupo e lhe permite fazer-se reconhecer e aceitar (Coulon, 1995a, p. 48).

11. Uma perspectiva metodológica da etnometodologia

Como vimos, a etnometodologia se funda sob o estudo do raciocínio prático do cotidiano, buscando a partir desde conjunto de evidências reconstruir uma explicação precária da realidade observada. Precária não no sentido pejorativo, ou seja, com a conotação de parcialidade, de insuficiência, mas de relativa humildade científica, admitindo-se que as explicações servem para dar conta das significações interacionais de um determinado grupo, em determinado contexto histórico e cultural, e tão somente, não podendo explicar realidades totalizantes, de grande abrangência.
A partir dos anos de 1970, a etnometodologia começou a cindir-se, segundo Coulon em dois grupos. De um lado, se colocaram aqueles sociólogos que, embora adeptos das novas perspectivas propostas pela etnometodologia, mantinham seus vínculos com as preocupações mais tradicionais da sociologia, como os campos da educação, da justiça, das organizações, das administrações, da ciência (Coulon, 1995a, p. 26). De outro lado, se colocaram os analistas de conversação, que tentam descobrir em nossas conversas as reconstruções contextuais que permitem lhes dar um sentido e dar-lhes continuidade (ibidem). De fato, uma das bases do raciocínio prático encontra-se na maneira como os membros de uma sociedade utilizam a palavra e a narrativa cotidianas para determinar a posição de suas experiências e de suas atividades (Cicourel, 1977, p. 60).
Greg Myers (2002) discute a análise da conversação e da fala, uma técnica derivada da etnometodologia. Ao apresentar a técnica, Myers diverge de metodologias que tentam reduzir enormes quantidades de dados brutos de uma pesquisa, sejam eles entrevistas já transcritas, formulários de levantamento e anotações de estudos de caso ou anotações de campo, com o objetivo de usar estes dados em uma argumentação, pois assim são desconsiderados os momentos reais da fala e/ou as marcas na página. O autor argumenta que, muitas vezes, é adequado voltar a esta enorme quantidade de dados da pesquisa, desde que possamos percebê-los como falas, olhando para interações específicas em suas situações particulares (Myers, 2002, p. 271).
Myers também dedica importância à interação social entre pesquisador e pesquisado. Segundo ele, o objetivo dos manuais de pesquisa em ciências sociais é eliminar possíveis influências que possam afastar a situação da pesquisa do mundo real. Sendo assim, as interações de pesquisa são planejadas a fim de serem padronizadas e reduzidas, desconsiderando, assim, o pesquisado e as circunstâncias da interação de pesquisa, enquanto que, outros pesquisadores lembram que até mesmo os encontros planejados transformam-se em complexas formas de interação social. Tudo pode ser analisado a partir do referencial do sujeito da investigação. Portanto, o interesse da análise de conversação está em perceber como os participantes organizam a interação de momento a momento (Myers, 2002, p. 272).
Na análise da conversação, os dados de pesquisa não são considerados como tendo um status especial que os separe de outra fala (Myers, 2002, p. 272). Com esta técnica, o pesquisador realiza uma análise detalhada a partir da fala dos sujeitos da pesquisa, podendo, assim, identificar categorias utilizadas pelos participantes, como também, seus pontos de vista. Segue, desta forma, em direção a uma pesquisa mais reflexiva, pois, além de considerar o referencial do participante, o próprio pesquisador poderá refletir a respeito de seu papel social. Ao trabalhar com grupos focais (8), Myers percebe que esta técnica produz uma grande quantidade de dados e uma forma de trabalhar com tal quantidade seria usar as transcrições como dados brutos. Ele objetiva mostrar como os participantes gerenciaram ordenadamente a interação. Para este enfoque, o analista busca a interpretação de um turno (fala de uma pessoa do começo ao fim), examinando a resposta de outro participante no turno seguinte, pois, a chave da organização espacial está nas relações entre os turnos adjacentes (Myers, 2002, p. 274). Porém, este enfoque exige muita atenção para a forma com que cada fala foi realmente feita, principalmente, com questões de tempo. Os detalhes da transcrição são essenciais para realizar a análise de conversação e, portanto, Myers destaca alguns tópicos práticos que devem ser considerados desde o começo da pesquisa.

a) Planejamento: o tópico guia, ou a folha da entrevista, deve garantir uma gravação clara.
b) Registro: a gravação deve ser clara para permitir uma boa transcrição. O local deve ser analisado com antecipação, pois não pode haver muitos ruídos.
c) Transcrição: sua forma é muito discutida; algumas opiniões são citadas por Myers que destaca, entre outros, Elinor Ochs como a favor de tratar a “transcrição como teoria”; Sharrock & Anderson que defendem uma transcrição detalhada utilizada na análise de conversação e Atkison & Heritage como defensores de uma lista de símbolos-padrão para análise de conversação. Entende-se que quanto mais detalhada for a transcrição, mais rica será sua análise; no entanto, para uma transcrição mais acurada é preciso dispor de maior tempo e recursos financeiros.
d) Atribuições: para analisar uma fala é preciso ter clareza a fim de saber quem disse o quê. Tal ponto exige um certo esforço para identificar as continuidades ou as falas de cada participante.
e) Análise: será menos extensa que a transcrição, no entanto, é importante que o primeiro passo da análise seja uma leitura atenta da transcrição juntamente com a escuta da fita.
f) Relatório: para Myers, a forma ideal de relatório seria mostrar seções da fita como demonstração de um argumento. No entanto, como as transcrições são detalhadas, elas ocupam muito espaço em relatórios impressos e a leitura de transcrições detalhadas pode ser desestimulante para leitores não acostumados com a técnica. Myers acredita que tecnologias futuras superem essas dificuldades, porém cabe ao pesquisador definir os pontos mais relevantes e definir as metodologias de pesquisa e os pressupostos teóricos sobre suas investigações sociais. Myers sugere algumas características para análise. Ele acredita não existir uma listagem simples de características que sejam relevantes na análise de conversação; no entanto, a partir de seu exemplo, ele sugere pontos como: seqüência, tópico, formulação e indexação. Tais características se relacionam com os tópicos mais amplos da investigação.

As pessoas não apenas chegam com atitudes favoráveis ou desfavoráveis, com respeito a determinados atores ou ações. Elas tomam posição com respeito às insinuações do moderador, sobre as contribuições dos outros participantes, sobre os objetos que as rodeiam e sobre as ações e a fala que se desenvolvem. Elas propõem e exploram possíveis colocações com relação ao turno anterior, e desse modo não é surpresa que seus pontos de vista sejam muitas vezes complexos, instáveis e aparentemente contraditórios. Para os pesquisadores, a interação é um modo de investigar opiniões; para os participantes, as formulações de suas opiniões são um modo de interação, em uma sala cheia de pessoas estranhas (Myers, 2002, p. 285).

O autor ainda expõe alguns problemas metodológicos sobre análise de conversação. Para ele, a análise detalhada da fala propõe questões diferentes. A inferência se refere à capacidade de persuasão de toda a interpretação. O analista procuraria exemplos em que os participantes discordam e mostraria como outros participantes respondem a essas instâncias como uma oportunidade de realização de suas expectativas. A relação da amostra com o conjunto social mais amplo chama-se generalização. É preciso evitar tais generalizações, pois os grupos estudados não são escolhidos para representar a sociedade como um todo, mas são grupos escolhidos devidos às suas particularidades para que pudessem dizer algo referentes às questões teóricas propostas. Outro problema metodológico levantado por Myers é sobre a relação dos participantes da investigação com vários grupos sociais, ou seja, a identidade. É preciso ter cuidado ao atribuir afirmações a grupos sociais específicos; os pesquisadores da análise de conversação somente dão atenção para os elementos de identidade mostrados pelos participantes na fala. Um último problema apresentado é sobre o tipo de atividade, sobre a relação entre o que eles fazem ou dizem nos grupos focais e o que eles iriam fazer ou dizer em outros contextos, sobre em que pensam os participantes quando falam.
Os argumentos de Myers justificam que uma análise cuidadosa das falas, das transcrições, adotando modelos baseados na análise de conversação, pode nos levar a compreensões mais claras sobre os dados coletados de uma pesquisa em ciências sociais. No entanto, é preciso considerar que a análise necessita de muita atenção durante a gravação e a transcrição. Por um lado, tal análise permite ao pesquisador examinar as categorias dos participantes e a relevância dada a essas categorias pelos próprios participantes, fornecendo explicações mais claras. E por outro, pode ser uma oportunidade para o melhoramento das técnicas de pesquisa, pois possibilita a reflexão sobre a investigação e o lugar do pesquisador dentro dela.

12. Bibliografia

BERGMANN, Peter e LUCKMANN, Thomas. A Construção Social da Realidade: Tratado de Sociologia do Conhecimento. Porto Alegre: EdPUCRS, 1998.

BIRBAUM, Pierre e CHAZEL, François. Teoria Sociológica. Tradução de Gisela Stock de Souza e Hélio de Souza. São Paulo: Hucitec/EdUSP, 1977.

CICOUREL, Aaron. A Etnometodologia. In BIRBAUM, Pierre e CHAZEL, François. Teoria Sociológica. Tradução de Gisela Stock de Souza e Hélio de Souza. São Paulo: Hucitec/EdUSP, 1977.

COHN, Gabriel. Weber. Coleção Grandes Cientistas Sociais. 7 ed. São Paulo: Ática, 1999.

COULON, Alan. Etnometodologia. Tradução de Ephraim Ferreira Alves. Petrópolis, Vozes, 1995a.

______. Etnometodologia e Educação. Tradução de Guilherme João de Freitas Teixeira. Petrópolis, Vozes, 1995b.

______. A Escola de Chicago. Campinas: Papirus, 1995c.

CARVALHO, Anabela Soriano e MARQUES, Rafael. Teorias da Interacção, In FERREIRA, Carvalho J. M. et allii, Sociologia. Lisboa: McGrawHill, 1995.

GARFINKEL, Harold. Studies in Ethnomethodology. Cambridge England: Polity Press, 1984.

HAGUETTE, Maria Teresa Frota. A Etnometodologia. In Metodologias Qualitativas na Sociologia. Petrópolis: Vozes, 1992.

HANS, Joas. Interacionismo Simbólico e a Escola de Chicago. In GIDDENS, Anthony e TURNER, Jonathan (org.), Teorial Social Hoje. Tradução Gilson César Cardoso de Sousa. 1a reimpressão. São Paulo: UNESP, 1999.

HERITAGE, John C. Etnometodologia. In GIDDENS, Anthony e TURNER, Jonathan (org.). Teoria Social Hoje. Tradução Gilson César Cardoso de Sousa. 1a reimpressão, São Paulo: UNESP, 1999.

MELLA, Orlando. La Metodología Representada por la Etnometodología, In Naturaleza y Orientaciones Teórico-Metodológicas de la Investigación Cualitativa. Disponível em http://www.reduc.cl/reduc/mella.pdf, acessado em 27/03/2003.

MYERS, Greg. Análise da Conversação e da Fala, In BAUER, Martin W. & GASKELL, George (org.). Pesquisa Qualitativa com Texto, Imagem e Som: Um Manual Prático. Petrópolis: Vozes, 2002.

SAINT-PIERRE, Héctor Luis. Max Weber: Entre a Paixão e a Razão. 3 ed. Campinas: EdUnicamp, 1999.

TURNER, Roy. Ethnomethodology. Canadá: Penguim Books, 1974.

VILA NOVA, Sebastião. Donald Pierson e a Escola de Chicago na Sociologia Brasileira: entre humanistas e messiânicos. Lisboa: Veja, 1995.

VOTRE, Sebastião Josué & FIGUEIREDO, Carlos. Etnometodologia e Educação
Física. Disponível em http://www.geocities.com/Athens/Styx/9231/etnometodologia.html, acessado em 26/906/2003.

WEBER, Max. Economía y Sociedad. México: Fondo de Cultura Económica, 1979.

______. Ensayos sobre metodología Sociológica. Buenos Aires: Amorrortu, 1982.

ZITKOSKI, Jaime José. O Método Fenomenológico de Husserl. Porto Alegre: EdPUCRS, 1994.

Notas

1 Mestrando em Sociologia Política (UFSC), Bacharel em Ciências Sociais (UFSC), Correio Eletrônico: adalto@cfh.ufsc.br

2 Ressalta-se aqui o importante trabalho intitulado Ethnomethodology de Roy Turner (1974).

3 Alan Coulon (1995b) indica alguns trabalhos franceses no campo da sociologia geral, a obra de Jean-Michel Berthelot L’intelligence du social, Paris, PUF, 1990 e La construction de la sociologie, Paris, PUF (“Que sais-je?”, n. 2602), 1991.

4 Esta afirmação não é precisa, parte de nossa constatação, bastante superficial, após ter explorado o tema pela Internet e verificado o uso da etnometodologia nas áreas aqui apresentadas.

5 Para uma análise mais aprofundada do interacionismo simbólico ver Hans Joas. (1999) Interacionismo simbólico; Alain Coulon (1995c). A Escola de Chicago; Sebastião Vila Nova (1998). Donald Pierson e a Escola de Chicago na Sociologia Brasileira: entre humanistas e messiânicos.

6 Sobre o método fenomenológico de Husserl ver Zitkoski (1994) O método fenomenológico de Husserl. Porto Alegre, EdPUCRS. Ressalta-se que a “fenomenologia social” de Schütz difere em alguns pontos da obra de Husserl, para uma compreensão mais acurada deste ver Bergmann & Luckmann (1998) A construção social da realidade: tratado de sociologia do conhecimento. Petrópolis, Vozes.

7 Sobre o conceito de Verstehen em Weber ver Saint-Pierre (1999) Max Weber: Entre paixão e a Razão, Campinas: EdUnicamp, e Cohn (1999) Weber. Coleção Os Grandes Ciêntistas Sociais. São Paulo: Ática, ou diretamente na obra do autor em Weber (1979) Economía y Sociedad. México: fondo de Cultura Económica e (1982) Ensayos sobre metodología Sociológica. Buenos Aires: Amortu.

8 Myers toma como exemplo uma transcrição de seu estudo realizado na Lancaster University, em conjunto com John Urry, Bronislaw Szerszynski e Mark Toogood, sobre “Cidadania global e o meio ambiente”, cuja técnica utilizada foi a de grupos focais.




Fonte: Revista Eletrônica dos Pós-Graduandos em Sociologia Política da UFSC Vol. 1 nº 1 (1), agosto-dezembro/2003, p. 149-168

www.emtese.ufsc.br

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Restam poucos dias para salvar o clima


Este Blog retransmite um comunicado da AVAAZ:


Longe dos holofotes da mídia, um debate crucial está acontecendo na Reunião da ONU sobre Mudanças Climáticas na Polônia e no Encontro da União Européia em Bruxelas e um acordo climático global depende do resultado das negociações desta semana!

Os governantes da Alemanha, Itália e Polônia estão usando a crise econômica como desculpa para enfraquecer o seu compromisso com o clima, cedendo ao lobby das grandes indústrias poluidoras. Se os líderes destes três países não mudarem seu posicionamento não haverá um acordo entre os países europeus, e conseqüentemente todo o processo global estará em risco. Precisamos erguer nossas vozes e mostrar que as proteções ambientais podem favorecer, e não competir, com o desenvolvimento.

Os membros da Avaaz conseguiram agendar reuniões com os negociadores em Bruxelas e Polônia. Portanto estaremos entregando a nossa petição global diretamente para os representantes de países chave. Para termos um impacto precisamos de um grande número de assinaturas por isso clique abaixo para assinar a petição e depois encaminhe este alerta para os seus amigos.

http://www.avaaz.org/po/europe_climate_crunch_time



Ano passado os EUA, Canadá e Japão foram os negociadores mais irresponsáveis nos encontros climáticos internacionais e nós tivemos um impacto quando mais de 300.000 apoiadores da Avaaz se manifestaram. Mas agora o Bush, Fukuda e Harper, já saíram ou estão saindo do poder, e o peso da decisão caiu sobre a Europa. Para conseguirmos um acordo climático satisfatório precisamos que a Europa assuma os seguintes compromissos: reduzir em 30% as emissões de carbono até 2020 se um acordo climático for alcançado, leiloar 100% das permissões dentro do seu Sistema de Comércio de Emissões, e instalar mecanismos rígidos para garantir que as metas de redução de emissão sejam cumpridas.

Estamos presentes na Polônia e em Bruxelas de várias formas: nos reunimos com as delegações de vários países, encomendamos pesquisas de opinião, organizamos uma manifestação na Varsóvia, apresentamos o "Prêmio Fóssil" para os piores países das negociações e enviamos notas diárias para a imprensa. Porém, a nossa arma mais forte é a petição global com 150.000 assinaturas. Com ela podemos mostrar para as lideranças presentes que o mundo exige deles um compromisso forte com o clima. Vamos entregar a petição ainda esta semana e precisaremos de mais que 150.000 assinaturas por isso assine a petição agora mesmo no link abaixo:

http://www.avaaz.org/po/europe_climate_crunch_time



Para todos nós que nos preocupamos com as mudanças climáticas, esta é a hora de demandar uma liderança séria. Até o Ano Novo a Europa já terá uma política climática estabelecida, e levará com ela a esperança, ou decepção, do acordo climático por vir.

Com determinação,

Ben, Iain, Brett, Graziela, Ricken, Paula, Milena, Paul, Alice, Pascal – e o resto da equipe Avaaz

Leia mais sobre o assunto:

Semana decisiva para a conferência da ONU sobre a mudança climática:

http://http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL914225-5602,00-SEMANA+DECISIVA+PARA+A+CONFERENCIA+DA+ONU+SOBRE+A+MUDANCA+CLIMATICA.html



Nova conferência do clima é crucial para obtenção de acordo em 2009:

http://http://txt.estado.com.br/editorias/2008/11/30/ger-1.93.7.20081130.1.1.xml



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