sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Manifesto Telekommunista


Na era das telecomunicações internacionais, da migração global e do surgimento da economia da informação, como o conflito de classes e a propriedade podem ser entendidos? Partindo da economia política e de conceitos relacionados à propriedade intelectual, o"Manifesto Telekommunista", deDmytri Kleiner, é uma contribuição fundamental para formas baseadas emcommons, colaborativas e compartilhadas de produção cultural e distribuição econômica.

O texto foi publicado no blog do Institute of Network Cultures, 21-10-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Propondo o "comunismo de risco" como um novo modelo para a auto-organização dos trabalhadores, Kleiner converte o seminal"Manifesto do Partido Comunista" deMarx e Engels à era da Internet. Como um modelo peer-to-peer, o comunismo de risco aloca capital que é extremamente necessário para realizar o que o capitalismo não pode: a proliferação em curso da cultura livre e das redes livres.

Ao desenvolver o conceito de comunismo de risco, Kleiner faz uma crítica dos regimes de direitos autorais e das atuais visões liberais do software livre e da cultura livre que buscam capturar a cultura para dentro do capitalismo. Kleiner propõe o copyfarleft e fornece um modelo útil de uma Peer Production License [Licença de produção colaborativa].

Encorajando os hackers e os artistas a abraçar o potencial revolucionário da Internet para uma sociedade verdadeiramente livre, o "Manifesto Telekommunista" é um chamado político-conceitual à luta contra o capitalismo.

Dmytri Kleiner é um desenvolvedor de software que trabalha em projetos que pesquisam a economia política da Internet e o ideal de auto-organização dos trabalhadores da produção como uma forma de luta de classes. Nascido na União Soviética, Dmytri cresceu em Toronto, no Canadá, e hoje vive em Berlim, naAlemanha. É um dos fundadores do Telekommunisten Collective, que presta serviços de Internet e de telefonia, assim como desenvolve projetos artísticos que exploram a forma pela qual as tecnologias da comunicação sustentam relações sociais, como o deadSwap (2009) e o Thimbl (2010).

A íntegra do texto pode ser encontrada, em inglês, aqui.

Eis alguns trechos do "Manifesto Telekommunista".

Prefácio

Eu cunhei o termo "comunismo de risco" em 2001 para promover o ideal da auto-organização dos trabalhadores da produção como forma de tratar os conflitos de classe. O Telekommunisten é um coletivo sediado em Berlim, na Alemanha, onde eu vivo desde 2003. Encontrei pela primeira vez o termo "Telekommunisten" (que se tornou o nome do coletivo) em 2005, ao visitar o apartamento de um amigo. Ele e seu companheiro de quarto haviam dado o nome "Telekommunisten" à rede local utilizada em seu apartamento para compartilhar o acesso à Internet.

Telekommunisten tem sido usado como um termo depreciativo pela antiga empresa estatal de telefonia da Alemanha, a Deutsche Telekom, que agora é uma corporação transnacional privada, cuja marca T-Mobile é conhecida mundialmente. O uso do termo "comunista" aqui visa lançar a companhia telefônica como uma gigante monolítica, autoritária e burocrática. Essa é uma compreensão completamente diferente do uso positivo do termo como um compromisso no conflito de classe com o objetivo de uma sociedade livre, sem classes econômicas, em que as pessoas produzem e compartilham como iguais, uma sociedade sem propriedade e nenhum Estado, que produz não para o lucro, mas pelo valor social.

Dessa forma, não somos simplesmente um coletivo de trabalhadores-agitadores que lutam na esfera das telecomunicações. O Telekommunisten promove a noção de um comunismo distribuído: um comunismo à distância, um Telecomunismo.

Uma comuna de risco não está ligada a um local físico onde ela pode ser isolada e confinada. Semelhante em topologia a uma rede peer-to-peer, o Telekommunistenpretende ser descentralizado, com apenas uma coordenação mínima exigida no interior da sua comunidade internacional de produtores-proprietários.

Minha experiência é nas comunidades de hackers e de arte, nas quais eu tenho sido ativo desde o início dos anos 1990. As minhas opiniões têm sido desenvolvidas e expressas em correspondências online e offline ao longo do meu envolvimento no desenvolvimento de software, no ativismo e na produção cultural. Embora eu tenha escrito alguns ensaios ao longo dos anos, aqueles que conhecem o meu trabalho geralmente me conhecem pessoalmente, por meio de encontros em espaços sociais eletrônicos e físicos.

O presente trabalho é um "Manifesto", não no sentido de que ele descreve um sistema teórico completo, um conjunto de crenças dogmático ou a plataforma de um movimento político, mas no espírito do significado do manifesto como um começo ou introdução.

Matteo Pasquinelli, que me estimulou a realizar este "Manifesto", sentia que o meu papel como uma voz de fundo na nossa comunidade era muito subterrânea e declarou que era "hora de me lançar" com um texto publicado. Ele me colocou em contato comGeert Lovink, que sugeriu a estrutura e a abordagem do texto e se ofereceu como editor e, por meio do Institute of Network Cultures, como seu publicador.

O "Manifesto Telekommunista" é basicamente uma edição, uma reelaboração dos textos que eu produzi e coproduzi ao longo dos últimos anos. Ele incorpora passagens significativas de "Copyright, Copyleft and the Creative Anti-Commons", produzido em cooperação com Joanne Richardson e publicado originalmente em"Anna Nimmus", no site Subsol. Grande parte do texto referente à comercialização da Internet foi retirada de "Infoenclosure 2.0", coescrito por Brian Wyrick e originalmente publicado na Mute Magazine. Também devo créditos aos editores da Mute Magazine Josephine Berry Slater e Anthony Iles, pelo seu trabalho em"InfoEnclosure 2.0" e em "Copyjustright, Copyfarfleft", grande parte dos quais é reutilizada aqui.

Muitas pessoas ajudaram a integrar e a ampliar os textos originais em um conjunto coeso, particularmente Rachel Somers Miles, do INC, e Elise Hendrick, Mathew Fuller, Christian Fuchs, Alidad Mafinezam, Daniel Kulla, Pit Shultz e Jeff Mann, que ofereceram comentários detalhados. A Licença de Produção Colaborativa incluída neste texto como um modelo para uma licença copyfarleft foi escrita a partir de uma licença Creative Commons, com a ajuda de John Magyar.

Introdução

No prefácio a "Contribuição à Crítica da Economia Política", Marx afirma que, "em uma certa etapa do seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em conflito com as relações de produção existentes" [1]. O que é possível na era da informação está em conflito direto com o que é permitido. Editores, produtores de filmes e a indústria das telecomunicações conspiram junto aos legisladores para reprimir e sabotar as redes livres, para proibir a circulação da informação fora do seu controle. As empresas da indústria fonográfica tentam manter forçosamente a sua posição como mediadores entre artistas e fãs, já que os fãs e os artistas se aproximam e exploram novas formas de interação.

Produtores de software concorrentes, assim como os fabricantes de armas, atuam nos dois lados desse conflito: fornecem as ferramentas para impor um controle, e as ferramentas necessárias para evitá-lo. As relações não hierárquicas tornadas possíveis graças a uma rede peer, como a Internet, são contraditórias com a necessidade do capitalismo de cercamento e controle. É uma batalha até a morte. Ou a Internet como a conhecemos deve ir embora, ou o capitalismo como nós o conhecemos deve ir embora. Será que o capital irá nos jogar de volta às idades escuras da CompuServe, dos telefones móveis e da TV a cabo, ao invés de permitir que as comunicações peerconstruam uma nova sociedade? Sim, se eles puderem. Marx conclui: "Nenhuma ordem social jamais perece antes de que todas as forças produtivas para as quais há espaço nela se desenvolvam. E as novas e mais elevadas relações de produção jamais aparecem antes que as condições materiais de sua existência tenham amadurecido no seio da própria velha sociedade" [2].

O "Manifesto Telekommunista" é uma exploração do conflito de classes e da propriedade, nasce de uma compreensão do primado da capacidade econômica nas lutas sociais. A ênfase é posta sobre a distribuição dos ativos produtivos e seu resultado. A interpretação aqui é sempre amarrada a um entendimento de que a riqueza e o poder estão intrinsecamente ligados, e apenas através do primeiro é que o último pode ser alcançado. Como um coletivo de trabalhadores intelectuais, o trabalho doTelekommunisten está muito enraizado no software livre e nas comunidades de cultura livre. No entanto, uma premissa central deste Manifesto é que o engajamento no desenvolvimento de software e a produção de obras culturais imateriais não é suficiente. A comunização da propriedade imaterial por si só não pode mudar a distribuição de bens produtivos materiais e, portanto, não pode eliminar a exploração. Apenas a auto-organização da produção pelos trabalhadores é capaz disso.

Esta publicação pretende ser um resumo das posições que motivam o projetoTelekommunisten, com base em uma exploração do conflito de classes na era das telecomunicações internacionais, da migração global, e do surgimento da economia da informação. O objetivo deste texto é apresentar as motivações políticas doTelekommunisten, incluindo um esboço do quadro teórico básico no qual ele se enraíza. Através de duas seções interligadas, "Peer-to-Peer Communism vs. The Client-Server Capitalist State" [Comunismo colaborativo versus o Estado capitalista cliente-servidor] e "A Contribution to the Critique of Free Culture" [Uma contribuição à crítica da cultura livre], o Manifesto abrange a economia política de topologias da rede e da produção cultural, respectivamente.

A seção "Peer-to-Peer Communism vs. The Client-Server Capitalist State"centra-se na comercialização da Internet e no surgimento da produção distribuída em rede. Ela propõe uma nova forma de organização como um veículo para a luta de classes: o comunismo de risco. A seção termina com o famoso programa estabelecido por Marx e Engels em seu "Manifesto Comunista", adaptado em um Manifesto para uma sociedade em rede.

Com base na seção anterior, em "A Contribution to the Critique of Free Culture", o Manifesto continua com a história e as dificuldades de percepção do copyright, do movimento do software livre, do dissenso anticopyright/copyleft e da economia política do software livre e da cultura livre. O desafio de ampliar as conquistas do software livre na cultura livre é abordado ao conectá-lo com o programa tradicional da esquerda socialista, resultando no copyfarleft e oferecendo a Licença de Produção Colaborativa como um modelo.

Este texto é particularmente dirigido a artistas, hackers e ativistas politicamente motivados, e não para evangelizar uma posição fixa, mas sim para contribuir com um permanente diálogo crítico.

O Manifesto da Rede Telekommunisten

Escrito a partir do texto extraído da seção 2 do "Manifesto do Partido Comunista". Marx/Engels 1848. [3] [Grifos e tachados conforme o original]

A primeira fase da revolução operária é o advento do proletariado como classe dominante desenvolver uma rede de iniciativas em que as pessoas produzam pelo valor social e partilhem como iguais, e construir e expandir o tamanho econômico dessas iniciativas para o advento do proletariado organizado à posição de ser a classe econômica dominante. Somente quando os trabalhadores controlarem a sua própria produção é que poderemos vencer a batalha da democracia.

O proletariado utilizará sua supremacia política seu poder econômico em expansãopara arrancar, pouco a pouco, todo capital da burguesia, para centralizardescentralizar todos os instrumentos de produção nas mãos do Estado, isto é, do proletariado organizado em classe dominante em um fundo comum diretamente nas mãos daqueles cuja produção depende dele e para por meio dissoaumentar, o mais rapidamente possível, o total das forças produtivas.

Isso naturalmente só poderá realizar-se, em princípio, por uma violação despótica doestruturação de nossas iniciativas a partir do direito de propriedade e das relações de produção burguesas, isto é, pela aplicação de medidas que, do ponto de vista econômico, parecerão insuficientes e insustentáveis, e contrárias a nossos fins, mas que no desenrolar do movimento ultrapassarão a si mesmas e serão indispensáveis para transformar radicalmente todo o modo de produção.

Essas medidas, é claro, serão diferentes nos vários países nas várias comunidades.

Todavia, nos países mais adiantados nas comunidades mais adiantadas, as seguintes medidas poderão geralmente ser postas:

1. Expropriação Mutualização da propriedade latifundiária de todos os instrumentos de produção e emprego da renda da terra em proveito do Estadomútuo.

2. Imposto fortemente progressivo. Estabelecimento de uma renda garantida, na forma de um dividendo pago a cada membro da comunidade de quantia igual à sua quota per capita de todas as rendas coletadas mutuamente.

3. Abolição do direito de herança. O direito à participação de todos que contribuem com seu trabalho e a concessão de participação somente pela contribuição do trabalho, não pela herança, compra ou transferência de qualquer tipo.

4. Confisco da propriedade de todos os emigrantes e rebeldes. Um contrato vinculante com todas as iniciativas membro para renunciar a toda propriedade privada de seus próprios bens produtivos e, ao invés disso, tomar posse do que eles precisam, alugando-o de fundos comuns mútuos.

5. Centralização do crédito nas mãos do Estado por meio de um banco nacional com capital do Estado e com o monopólio exclusivo. Estabelecimento de um mercado de títulos mútuo, onde os títulos são vendidos em leilão com o objetivo de construir o fundo comum de bens produtivos.

6. Centralizarão, nas mãos do Estado, de todos os meios de transporte.Desenvolvimento de recursos que coloquem os meios de comunicação e de transporte nas mãos de todos os membros.

7. Multiplicação das fábricas e dos instrumentos de produção pertencentes ao Estado, arroteamento das terras incultas e melhoramento das terras cultivadas, segundo um plano geral. Providenciar a todas as iniciativas a oportunidade de adquirir e estender os instrumentos disponíveis de produção ao maior grau possível.

8. Trabalho obrigatório para todos, organização de exércitos industriais, particularmente para a agricultura. Igualdade de oportunidade a todos para participar e produzir.

9. Combinação do trabalho agrícola e industrial, medidas tendentes a fazer desaparecer gradualmente a distinção entre a cidade e o campo por meio de uma distribuição mais uniforme da população ao longo do país. Abolição de todas as distinções entre produtores e consumidores e a transformação das relações de transações baseadas no mercado à distribuição generalizada, em que a produção de bens sociais tenha precedência sobre a produção de bens para a venda.

10. Educação pública e gratuita de todas as crianças, abolição do trabalho infantil nas fábricas, tal como é praticado hoje. Combinação da educação com a produção material etc. Estabelecer redes de partilha de conhecimento e de competências e sistemas de suporte para todos os membros, e oferecer oportunidades para desenvolver habilidades por meio da contribuição com a produção.

Uma vez desaparecidos os antagonismos de classes no curso do desenvolvimento e sendo concentrada distribuída toda a produção, propriamente dita, nas mãos dos indivíduos associados de abrangendo todo o país mundo, o poder público perderá seu caráter político. O poder político é o poder organizado de uma classe para a opressão de outra. Se o proletariado, em sua luta contra a burguesia, se constitui forçosamente em classe; se converte-se, por uma revolução pela auto-organização, em classe dominante e, como classe dominante, destrói violentamente as antigas relações de produção, destrói, juntamente com essas relações de produção, as condições dos antagonismos entre as classes e as classes em geral e, com isso, sua própria dominação como classe.

Em lugar da antiga sociedade burguesa, com suas classes e antagonismos de classes, surge uma associação em que o livre desenvolvimento de cada um é a condição do livre desenvolvimento de todos.

Notas:

1. Karl Marx, ‘Preface’, A Contribution to the Critique of Political Economy, Marxists Internet Archive,

2. Ibid.

3. Karl Marx and Frederick Engels, Manifesto of the Communist Party, 1848,http://www.marxists.org/archive/marx/works/1848/communistmanifesto/.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A radiação dos celulares mata ?


Passivo de radiação


"As crianças são loucas pelo celular, e seu cérebro, ainda em formação, absorve até mais radiação que o dos adultos", comenta Ruy Castro, escritor, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, 10-11-2010.

Eis o artigo.

O avião pousa em Congonhas, 99% dos passageiros sacam o celular e anunciam para alguém: "Cheguei". Eu, o 1%. As pessoas que me esperam para uma reunião sabem a hora do meu voo e podem passar sem essa informação. Desço a rampa rumo aos táxis, a tempo para o compromisso e saboreando o encontro com alguém querido ou o jantar que virá depois. Enquanto isso, sujeitos passam por mim afobados, rebocando a mala e bufando ao celular, discutindo medidas que não podem esperar nem um minuto ou para quando tiverem acabado de chegar.

Para mim, o estresse provocado por essa comunicação fácil e onipresente já seria asfixiante, motivo pelo qual mantenho distância de celulares -não quero ficar "on" o dia todo. Pois, agora, as graves denúncias da cientista americana Devra Davis, 64 anos, autoridade mundial em saúde pública e ambiental, completam minha apreensão. Seu livro "Disconnect", lançado em NY em setembro e ainda sem editor no Brasil, tem o subtítulo "A Verdade sobre a Radiação dos Telefones Celulares".

Segundo ela, a radiação que se desprende de um celular à orelha reduz as defesas do cérebro, induz à perda de memória, aumenta o risco de Alzheimer, interfere no DNA e é um agente cancerígeno. E a indústria sabe disso, mas ninguém interfere num negócio de trilhões de dólares se não for obrigado.

É cruel. As crianças são loucas pelo celular, e seu cérebro, ainda em formação, absorve até mais radiação que o dos adultos. A radiação de um celular usado num elevador rebate nas paredes e afeta quem está por perto, como acontece com o fumo. E é possível que só agora, anos depois, os verdadeiros efeitos nocivos dos celulares estejam se fazendo sentir.

A primeira pessoa que conheci com celular, em 1993, morreu este ano, de câncer no cérebro. Era um famoso jornalista esportivo.



quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Terra, o planeta consumido



Provocamos várias calamidades ao longo da nossa existência, mas sempre houve fenômenos limitados. Os mamutes foram extintos há 11 mil anos também por causa do homem. E esse é só um dos danos ao ecossistema. Com o caos climático produzido pelo uso dos combustíveis fósseis, tudo muda: a ameaça se torna global.

A reportagem é de Antonio Cianciullo, publicada no jornal La Repubblica, 09-11-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O mamute, o tigre dente de sabre, o uro [touro selvagem], o leão das cavernas: todos desaparecidos há 11 milênios em coincidência com a afirmação, em um mundo que estava mudando de clima, de um formidável predador, o homem. É esse o núcleo ao redor de uma das mostras em cena, entre os dias 12 a 28 de novembro, na Città della Scienza de Nápoles.

Mas podemos realmente atri buir à espécie humana responsabilidades tão antigas na distorção dos ecossistemas? Ou a capacidade de competir com a natureza no desenho dos limites dos habitats e do equilíbrio do planeta deve se limitar ao período pós-revolução industrial, concretizando-se plenamente no século XX?

"É preciso distinguir entre os desastre que se limitaram no tempo e no espaço e um desequilíbrio profundo que ameaça o conjunto dos ecossistemas", responde Mario Tozzi, divulgador científico, apresentador de TV e autor de vários livros, dentre os quais um sobre as catástrofes.

"Os seres humanos provocaram várias calamidades ao longo da sua existência: mas sempre foram fenômenos limitados. Talvez causaram a extinção de alguns grupos ou de algumas espécies, mas jamais comportaram um risco em nível planetário. Com o caos climático produzido pelo uso dos combustíveis fósseis, tudo muda: a ameaça se torna global".

Em níve l local, o pesadelo já se realizou. Em "Collasso" [Colapso], o biólogo Jared Diamond descreve, por exemplo, a catástrofe que atingiu a Ilha de Páscoa, submetida a um desequilíbrio crescente por causa do progressivo corte de florestas. O desmatamento foi causada pela construção de um enorme número de estátuas aos deuses, construídas inexplicavelmente de modo sempre mais grandiosos e imponente, mesmo que os recursos à disposição continuavam diminuindo. E Diamond se pergunta o que pensou o homem que estava cortando a última árvore de palma, tornando assim irreversível a degradação que, ao longo de poucos anos, levaria à extinção de todas as espécies arbóreas, à impossibilidade de construir canoas para a fuga e à morte de todos os habitantes: "Talvez gritava, como os modernos lenhadores: não árvores, mas postos de trabalho? Ou: a tecnologia resolverá todos os nossos problemas".

As capacidades de adaptação do planeta permitiram durante muito tempo que se absorvesse o impacto desses episódios de desequilíbrio local, mas, defende o historiador John McNeill, ao longo do século XX, assistiu-se a um "golpe de Estado" biológico da espécie humana: a população se multiplicou por quatro, o consumo de energia por 16 e o de água por nove, obrigando 700 milhões de pessoas à sede e outras 24 milhões a se transformarem em refugiados climáticos.

A pressão nos ecossistemas assumiu, assim, uma dimensão planetária, e muitos biólogos consideram que essas foram as premissas para a sexta extinção de massa da história do planeta, a primeira criada por uma única espécie: o "homo sapiens". Nas projeções do quarto relatório do IPCC, a força tarefa de cientistas da ONU que venceu o Nobel para a Paz e para as Pesquisas sobre o Clima, também se prevê o desaparecimento de uma em cada quatro espécies no caso de um aumento de temperatura de dois graus (e se poderia chegar a seis até o final do século).

"Por milhões de anos, a Terra conseguiu se autorregular, reduzindo ou eliminando as presenças que perturbavam o seu equilíbrio", conclui Tozzi. "Agora, nós vencemos um tempo da partida, impondo uma situação desequilibrada, mas, se não corrigirmos a rota, corremos o risco de perder a partida".


domingo, 3 de outubro de 2010

WikiLeaks




A organização de denúncias WikiLeaks, que divulgou relatos da guerra do Afeganistão esta semana, transformou a publicação de segredos do governo em sua missão. Muitos veem seu fundador Julian Assange como um herói, mas outros, incluindo o Pentágono, consideram-no uma ameaça à segurança nacional.
Ele entra rapidamente, quase num salto. Antes de cumprimentar qualquer pessoa na sala, procura uma tomada para seu pequeno computador preto.
É um notebook simples e barato, mas as agências de inteligência do mundo pagariam muito dinheiro para terem a chance de ver o que há lá dentro.
O nome dele é Julian Assange. Ele acabou de voltar de Estocolmo, depois de uma breve estadia em Bruxelas. Antes disso, ficou fora do radar por algumas semanas.
Assange é praticamente um homem procurado hoje em dia. É quase como se ele estivesse em fuga.
Cinco agentes do Departamento de Segurança Interna dos EUA tentaram visitá-lo há duas semanas, pouco antes de uma conferência em Nova York da qual ele deveria participar. Mas seus esforços foram em vão. Assange decidiu ficar na Inglaterra depois que seu advogado disse que várias outras agências do governo também estavam muito interessadas em falar com ele. O secretário de Defesa Robert Gates recentemente caracterizou Assange e seu trabalho como “irresponsáveis”.

Fórum para denúncias anônimas


Assange é o criador da plataforma wikileaks.org na internet. Junto com um punhado de funcionários em tempo integral e muitos voluntários, ele opera o site desde 2007. O WikilLeaks reúne e publica material que empresas e agências do governo classificaram como secreto. O site funciona como um fórum para informantes e publica apenas documentos originais – em outras palavras, nada de rumores nem material escrito pela equipe do WikiLeaks.

No passado, o WikiLekas já publicou e-mails escritos pela ex-candidata à vice-presidência dos EUA Sarah Palin, relatórios sobre as atividades corruptas do ex-líder queniano Daniel Arap Moi e documentos secretos do campo de detenção norte-americano na Baía de Guantánamo. Nessa época, o site era visitado principalmente por pessoas da área, mas ganhou atenção internacional em abril, quando Assange convidou um grupo de jornalistas ao Clube Nacional de Imprensa em Washington para assistir a um vídeo.

O filme mostrou o ataque fatal, em 2007, de um helicóptero Apache norte-americano contra um grupo de cerca de doze civis em Bagdá, dois deles funcionários da agência de notícias Reuters. As vozes da tripulação do helicóptero também eram audíveis, seus comentários cínicos acrescentavam horror às imagens do vídeo. Desde o incidente, a Reuters havia tentado, em vão, obter uma cópia do vídeo. Assange, entretanto, conseguiu uma. Foi seu maior furo jornalístico até hoje.





Uma ameaça à segurança nacional


Para alguns, Assange e seus colaboradoras são heróis lutando pela liberdade total de informação e contra qualquer forma de censura. Mas, para outros, eles são traidores.

Do ponto de vista das autoridades norte-americanas, o australiano é uma séria ameaça à segurança nacional – algo que o Pentágono até mesmo colocou em palavras. Já em 2008, os militares norte-americanos classificaram o WikiLeaks como um sério problema de segurança e discutiram qual era a melhor forma de combater o site. Esse documento também vazou para Assange – e foi publicado no wikileaks.org.

Desde então, alguns expressaram preocupações com sua segurança, e até mesmo com sua vida. Mas não está muito claro se o homem que agora estava ligando o seu computador em Londres é perigoso ou está em perigo. Ele certamente chama a atenção: um homem alto e magro com cabelo branco e uma pele que parece pálida demais para o verão – em parte porque passou as últimas semanas preparando seu novo projeto e quase não saiu ao ar livre durante o dia.

Numa sala do quinto andar do prédio que abriga os escritórios do “Guardian”, ele está dando ao jornal britânico, ao “New York Times” e à “Spiegel” uma prévia de um conjunto de mais de 90 mil relatórios individuais sobre a guerra no Afeganistão, a maior parte deles marcados como “secretos”.

“Brutalidade cotidiana”


A publicação desse arquivo, diz Assange, não só mudará a forma como o público vê a guerra, ela também “mudará a opinião de pessoas que ocupam posições influentes na política e na diplomacia”. De acordo com Assange, os documentos “revelam a brutalidade cotidiana e a sordidez da guerra” e “mudará nossa perspectiva não só sobre a guerra no Afeganistão, mas sobre todas as guerras modernas.”

O arquivo contém informações de inteligência, avaliações e muitos nomes, tanto de oficiais militares quanto de fontes. A publicação de documentos militares secretos de uma guerra, que nunca foram pensados para o público, levanta novas questões. Será que isso é jornalismo e está dentro do direito do público à informação? É um olhar legítimo por trás da máquina de propaganda de guerra? Ou é um ato de espionagem, e Assange e seus colaboradores são culpados por revelar segredos do governo? E eles estão no fim das contas prejudicando as tropas internacionais e os informantes afegãos que as ajudam?

Uma base de dados num pen drive


O WikiLeaks e sites como ele já mudaram a forma como governos e corporações lidam com informações delicadas.

Sempre existiram informantes, empregados de companhias ou agências do governo que deixam vazar informações confidenciais para a imprensa para chamar atenção para acontecimentos indesejáveis e corrupção, ou para expor abusos de poder. Mas uma base de dados tão extensa sobre a guerra, que cabe num único pen drive USB e portanto pode ser facilmente publicada na Internet, é um novo fenômeno.

Será que o WikiLeaks é o novo farol do esclarecimento? Ou o site representa uma ameaça às nações democráticas, porque permite que um ex-hacker e alguns colaboradores próximos decidam que peça de informação explosiva revelarão na sequência – sem dar à outra parte a chance de contar seu lado da história ou tomar medidas legais para impedir o vazamento? “Essas pessoas podem publicar o que bem entenderem e nunca são responsabilizadas por isso”, disse o secretário de Defesa Robert Gates, em resposta à divulgação do vídeo sobre o caso do helicóptero em 2007. Raras vezes um membro do governo dos EUA pareceu tão impotente.

O problema começa com o fato de que o WikiLeaks, até hoje, continua sendo muito mais uma ideia brilhante do que uma organização no sentido convencional. Ele não tem uma sede e nem mesmo um endereço, apenas uma caixa posta anônima na Universidade de Melbourne. Até agora Assange e um colega alemão, que se apresenta como Daniel Schmitt, são as duas únicas pessoas envolvidas com o WikiLeks que mostraram seus rostos em público. Do contrário, a operação consiste em pouco mais do que o próprio site, alguns endereços de e-mail e uma conta do Twitter que os organizadores usam para relações públicas. Os servidores, que estão distribuídos pelo mundo todo em lugares com leis que fornecem proteção extensiva a informantes, são o cerne da operação. Doações cobrem os custos anuais de cerca de US$ 258 mil, e Assange e Schmitt nem mesmo recebem um salário.

Altamente inteligente


Na reunião em Londres, logo ficou claro a forma como o WikiLeaks depende dos ativistas – e, em grande parte, do pequeno laptop preto de Assange. Também ficou claro que os adversários de Assange têm nesse homem confiante e altamente inteligente de 39 anos de idade um oponente a ser levado a sério.

Assange trabalha obsessivamente na base de dados com a qual o WikiLeaks pretende tornar a guerra no Afeganistão mais tangível. Ele usa uma combinação estranha de jaqueta amassada, camiseta, calças cargueiras e tênis gastos. Ele não fez a barba e tem a aparência de quem não dorme há duas noites. Pessoas bem intencionadas e próximas dizem que ele precisa urgentemente de algumas semanas de férias.

Assange discorda. Seus dedos voam pelo teclado, e vez ou outra ele para e diz alguma coisa. “Precisamos de uma função que relacione os incidentes de acordo com sua importância relativa”, diz ele em sua voz profunda e sonora. Não demora muito e ele instala um filtro que permite aos usuários do site buscarem os milhares de incidentes individuais de acordo com sua “importância”. Assagne escolheu o número de mortes de civis como principal critério. Também é possível buscar por data e região na base de dados, e todos os incidentes estão ligados a um mapa que mostra exatamente em que lugar do Afeganistão aconteceram. É a guerra na forma de uma apresentação multimídia.

“Rá”, diz ele de repente. “Inacreditável”. Ele descobriu outro exemplo grotesco do jargão que os militares usam para descrever a realidade no campo de batalha. O termo é: “ausência de sinais vitais” - em outras palavras, morto. A linguagem da guerra o fascina, o que explica porque o WikiLeaks chamou o vídeo de Bagdá de “Collateral Murder” [“Assassinato Colateral”]. Sua intenção ao escolher o título, diz Assange, era expor o termo cínico “collateral damage” [“dano colateral”] e tornar impossível seu uso.

“Nosso critério é claro como água”


Quando Assange fala sobre esse projeto – ao longo do jantar, por exemplo, durante o qual o australiano pediu apenas duas bolas de sorvete de cardamomo – ele tem a intenção de passar a ideia de que o WikiLeaks é um projeto radical, cuidadosamente concebido. Assange toma bastante tempo para refletir antes de responder às perguntas, e insiste em dar a resposta completa. Ele não gosta de ser interrompido.

Assange diz que teve a ideia básica nos anos 90, e em 1999 reservou o domínio leaks.org. Para Assange, a regra fundamental nas sociedades abertas deve ser a de que todos sejam capazes de se comunicar abertamente sobre tudo. A experiência, diz ele, mostra que onde quer que existam segredos, costuma haver irregularidades, porque pessoas em posição de poder tendem a usar segredos em sua vantagem.

Se esta visão estiver correta, algumas pessoas poderosas no mundo provavelmente deveriam ficar muito preocupadas, porque o WikiLeaks tem supostamente muito material ainda não publicado. Quem decide o que é publicado, e quando?

A fonte, diz Assange. Sempre que recebe uma denúncia anônima, o WikiLeaks pergunta ao informante se ele ou ela acreditam que o material tem relevância política ou moral. “Nosso critério é claro como água, e se ele é atendido, nós publicamos”, diz Assange.

Quem é “nós”? “No final, alguém precisa estar no comando, e essa pessoa sou eu”, diz Assange. “E quando fico em dúvida, sempre publico.”

Vivendo como um nômade


É uma posição notável para uma organização que não divulga nem mesmo os nomes dos cinco funcionários que supostamente emprega – e para um homem que tenta evitar questões sobre sua própria vida. Alguns fatos básicos, de qualquer forma, parecem claros.

Assange nasceu em 1971 numa família de artistas em Queensland, Austrália. Seus pais eventualmente se separaram. Sua mãe se casou novamente, mas o relacionamento também fracassou. Foi tão desastroso, que a mãe o pegou e fugiu do segundo marido, chegando até a viver com um nome falso por algum tempo.

Já nesta época ele já tinha uma vida de nômade, e teria frequentado quase 40 escolas diferentes.

Nos anos 80, a Idade da Pedra da internet, quando o computador pessoal era um Commodore 64 e os modems eram conhecidos como “conectores acústicos”, Assange desenvolveu uma paixão por computadores e redes. Mais tarde ele ganhou renome na comunidade de hackers de Melbourne, depois de entrar em redes corporativas e do governo, incluindo computadores militares dos EUA.

“Era Deus Todo Poderoso andando por aí fazendo o que gostava”, disse um promotor público alguns anos depois. O grupo de hackers ao qual Assange pertencia monitorava até a investigação da polícia federal sobre eles mesmos online. Assange foi eventualmente multado e condenado a um período de liberdade condicional. Uma reportagem de televisão sobre o caso mostra Assange de casaco e óculos escuros, com seus cabelos longos e castanhos presos num rabo de cavalo. O grupo de hackers se autointitulava “Subversivos Internacionais”.

Assange já tinha um filho pequeno quando foi condenado. Ele também era novo quando se tornou pai, e logo se envolveu numa complicada e amarga batalha pela custódia da criança, que durou vários anos – e levou a novos desentendimentos com agências do governo.

Uma tentativa de se vingar?


Será que o WikiLeaks é simplesmente a forma que um hacker magoado e gênio não reconhecido da computação encontrou para se vingar? Por causa de sua história pessoal, será que Assange quando Assange fala sobre o “inimigo” ele não está de fato falando sobre o governo?

É esse tipo de pergunta que os jornalistas costumam fazer a Assange. Ele os odeia com a mesma intensidade com a qual despreza o carimbo de “secreto” nos documentos oficiais. Para ele, o WikiLeaks também é um projeto para transformar a mídia tradicional. Ele quer que os usuários formem suas próprias opiniões com base nos documentos originais, sem nenhum viés jornalístico. Mas com o vídeo “Assassinato Colateral”, o WikiLeaks violou seus próprios princípios por acrescentar um título editorializado, pelo qual Assange recebeu algumas críticas.

O problema, diz o australiano, surge na cabeça do repórter. Ele prefere revistas científicas, com suas notas de rodapé e listas de referências. Embora descreva a si mesmo como um jornalista investigativo, seu trabalho é na verdade mais parecido com o de um arquivista e bibliotecário. Não é nenhuma acidente o fato de ele ter registrado o WikiLeaks como uma biblioteca na Austrália.

Assange e seus colegas podem estar muito satisfeitos com o andamento do WikiLeaks no momento. Há alguns dias, o australiano deu uma palestra para jornalistas investigativos em Londres, enquanto seu colaborador alemão Daniel Schmitt falava em Hamburgo – ambos foram aplaudidos com entusiasmo. Eles receberam o prêmio de mídia da Anistia Internacional no ano passado.

Sob tensão


Mas o projeto está sob tensão desde 29 de maio. Nesse dia, Bradley Manning, soldado norte-americano de 22 anos, foi preso na Base Operacional Hammer no Iraque e levado a uma prisão militar no Campo Arifjan no Kuwait.

Os militares norte-americanos tornaram públicas as acusações contra Manning, um ex-analista militar. Eles alegam que entre 19 de novembro de 2009 e a primavera deste ano, ele baixou o vídeo de Bagdá publicado pela WikiLeaks, assim como 150 mil mensagens diplomáticas secretas do Departamento de Estado norte-americano e uma apresentação secreta em PowerPoint.

Os militares acusam Manning de ter passado o vídeo e 50 relatórios para uma “pessoa que não estava autorizada a recebê-los”. De acordo com um porta-voz do Exército dos EUA, se for condenado, Manning poderá receber até 52 anos de prisão.

Parece que Manning acabou se entregando sem querer. Em 21 de maio, ele teria começado uma série de conversas pela internet com um hacker norte-americano chamado Adrian Lamo. A revista norte-americana “Wired” publicou trechos das conversas.

Dublando Lady Gaga em silêncio


Um dos lados da conversa, que as autoridades norte-americanas acreditam que seja Manning, abriu o coração para Lamo, um completo estranho para ele até então. Ele descreveu como era capaz de acessar as redes secretas SIPRNET e JWICS através de dois computadores, e que também encontrou material desprotegido num computador da Central de Comando norte-americana (CENTCOM). “Não acredito que estou confessando isso a você”, disse ele.

Nas conversas, ele até revelou como teria retirado o material de seu local de trabalho. Ele disse que colocou CDs virgens em seus computadores de trabalho no Iraque, CDs que ele havia intitulado antes de “Lady Gaga”, para criar a impressão de que ele estava levando CDs de música para casa. De acordo com as conversas, Manning disse que “ouvia e dublava em silêncio a música 'Telephone' de Lady Gaga enquanto filtrava o que talvez fosse o maior vazamento de dados da história norte-americana.”

Ele fez várias referências ao WikiLeaks e a Assange, com quem dizia estar em contato. E também sugeriu que estava motivado por uma profunda insatisfação com a situação local e os militares norte-americanos.

Lamo informou o FBI e entregou o registro de suas conversas. Em entrevistas para a mídia norte-americana, ele tentou justificar suas ações dizendo que temia que a segurança nacional estivesse ameaçada. Manning foi preso pouco tempo depois.

Entregando os informantes


O caso de Manning se transformou numa situação delicada para o WikiLeaks e Assange. Ela lembra misteriosamente um cenário montado para prejudicar o WikiLeaks que os militares norte-americanos criaram num documento secreto em 2008. De acordo com esse cenário, a identificação bem sucedida, o julgamento e a revelação de indivíduos que passam informações para o WikiLeaks prejudicariam e possivelmente até destruiriam o site, e impediriam que outros tivessem atitudes semelhantes.

Como o fundador do WikiLeaks se sente com a suposta autoincriminação do soldado norte-americano?

“Se acreditarmos na alegação, Manning foi traído por um jornalista e hacker norte-americano que não tem nada a ver com o WikiLeaks”, diz Assange. “Não podemos salvar as pessoas delas mesmas, infelizmente.”

Não temos a mínima ideia se Manning era nossa fonte”


Manning pode também ter sido a fonte do material sobre o Afeganistão, como alguns observadores estão especulando agora? “Não temos a mínima ideia de quem era nossa fonte”, diz Assange. “Estruturamos nosso sistema de forma que não sabemos a identidade de nossas fontes.”

E por que o WikiLeaks quer dar assistência legal a Manning, se o site de fato instalou dispositivos técnicos de segurança para tornar impossível saber quem enviou o material?

“Temos que ajudar todas as nossas supostas fontes”, diz Assange. “Devemos lembrar que independente de Manning ser ou não a fonte do vídeo “Assassinato Colateral” ou de ele estar diretamente ou acidentalmente envolvido com qualquer material que publicamos, ele é um jovem que está preso no Kuwait por ter sido acusado de ser nossa fonte.”

Ficando na casa de apoiadores no mundo inteiro


Depois da prisão de Manning, Assange também desapareceu por algumas semanas, e seus advogados o aconselharam a não viajar para os Estados Unidos. “Um de nossos contatos informou que estavam considerando me acusar de conspirar para a espionagem”, diz ele.

Este é o motivo pelo qual ele se registrou num hotel em Londres com um nome falso e depois desapareceu rapidamente para ficar na casa de um de seus apoiadores, como aconteceu frequentemente nos últimos anos. Ele ficou em vários lugares em todo o mundo, do Quênia à Islândia, onde ele e uma equipe de voluntários preparavam-se para publicar o vídeo de Bagdá.

As precauções valem para todos em seu grupo. Quando Jacob Appelbaum, um conhecido programador da comunidade da internet, defendeu Assange numa convenção de hackers em Nova York há dois fins de semana, ele até mesmo contratou um dublê para se passar por ele depois de dar sua palestra. O próprio Appelbaum foi direto para o aeroporto, levando apenas seu passaporte, algum dinheiro e uma cópia da Constituição norte-americana, e tomou um voo para fora do país.


Cada vez mais cauteloso

Daniel Schmitt, o representante alemão do WikiLeaks que é, ao lado de Assange, a segunda voz mais importante do site, também se tornou mais cauteloso.

Durante um encontro com a “Spiegel” num café de Berlim, Schmitt olha ao seu redor para ver se não há ninguém ouvindo a conversa. Ele também diz que não quer que tirem fotos na sua presença.

A Alemanha é um dos locais mais importantes para o WikiLeaks, e serve como um dos pilares da organização relativamente dispersa. O WikiLeaks recebe muitas denúncias em alemão, recebe assistência técnica de pessoas associadas ao Clube de Computação Chaos, uma influente organização alemã de hackers, e os apoiadores alemães são responsáveis por uma grande parte das doações.

Schmitt, 32, é magro, usa barba e óculos. Ele estudou ciências da computação e trabalhou com segurança de TI antes de se dedicar totalmente ao WikiLeaks. Ele parece comum se comparado ao excêntrico Assange, que era conhecido por andar por Londres de meias e saltar e virar estrela de repente.

Só o começo

Uma fundação chamada “Amigos do WikiLeaks” deve ser lançada na Alemanha este ano. Schmitt está trabalhando num panfleto designado a encorajar as pessoas a revelarem informações, que ele quer que os voluntários entreguem em frente ao Reichstag, onde fica o parlamento alemão, e o Ministério da Defesa. Ele também considerou colocar anúncios no metrô.

Os dois homens, Assange e Schmitt, dizem que o WikiLeaks tem uma montanha de documentos não publicados à sua disposição – e que isso é só o começo.

“Se quisermos usar uma metáfora de alpinistas, estamos apenas no acampamento base”, diz Assange.

Então ele fecha seu pequeno laptop preto, guarda-o dentro de sua mochila de nylon cinza-grafite, e sai da sala.


Tradução: Eloise De Vylder




Fonte:

http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/derspiegel/2010/10/03/o-wikileaks-e-bencao-ou-maldicao-para-a-democracia.jhtm

sábado, 2 de outubro de 2010

Reinterpretando a História - Parte 1

Erich von Däniken

(artigo extraído do site Obvious...)

Por: Miguel Oliveira



Erich von Däniken



Erich von Däniken pode, para muitos, soar como um louco. Assinalava no entanto André Suarès, pseudónimo de um poeta e crítico francês e um dos quatro pilares da Nouvelle Vague, que “a loucura é o sonho de uma única pessoa [e a] razão é, sem dúvida, a loucura de todos”.

Colocamos questões: que seria da Humanidade se finalmente conseguíssemos chegar ao âmago de Deus, se passássemos a compreender a sua existência, o fundamento dos mitos do divino, se resolvêssemos o paradoxo da sua existência? Inúmeras questões poderiam ser colocadas. Erich von Däniken, escritor suíço, colocou 238 pontos de interrogação no seu best-seller “Chariots of the Gods? – Memories of the Future – Unsolved Mysteries of the Past” (em português chegou-nos com o título: “Eram os Deuses Astronautas?” mas a tradução literal da obra é: “Carruagens dos Deuses? – Memórias do Futuro – Mistérios do Passado por Resolver”). Este é um livro repleto de especulações, assumidas como tal pelo autor, e que a comunidade científica e teológica preferiu encarar como “assunções”/alegações, de alguma forma (talvez propositada ou ingenuamente) descredibilizando-o perante os seus “rebanhos”.

A análise de Däniken sobre o passado do ser humano é densa o suficiente para que não baste uma síntese; passo no entanto, e de qualquer forma, a apresentar uma: os seres humanos terrestres foram “visitados”, num passado longínquo, por seres extraterrestres que influenciaram a sua conduta. Como resultado desta influência surgiram inúmeros avanços científicos, tecnológicos e morais no desenvolvimento da espécie e um emaranhado de mitos e religiões. Poder-se-ia dizer até todas as religiões.

Quando se refere que “fomos visitados” num tempo “longínquo”, temos que considerar que, segundo Däniken, as datações e alcance da ciência estão errados, tendo existido seres humanos muito antes do homo sapiens convencional. Sociedades com um elevadíssimo grau de desenvolvimento e consciência cujas provas da existência ter-se-ão em grande parte perdido devido a catástrofes de diversas ordens (naturais, na maior parte dos casos). As teorias de Däniken vêm colmatar diversas lacunas que ultrapassam os conhecimentos da arqueologia e de outras disciplinas. Assim, os seres que desciam dos céus (o incompreensível transformado em “deuses”, do indo-europeu deiwos : resplandecente, luminoso, o que nos faz lembrar algo) em “máquinas voadoras”, presentes virtualmente em todas as religiões, seriam reminiscências dessas visitas extraterrestres arrastadas até nós em lendas, mitos, orações, imagens, textos, objectos. Transformamos seres altamente tecnológicos em anjos, cujo capacete foi estilizado com o passar do tempo, mantendo-se porém lá, agora sob o formato de auréola. O inexplicável ganha uma nova e surpreendente análise e os arquétipos humanos uma nova compreensão.







Mas então, onde param essas evidências, esses objectos, esses textos, essa tradição? “Neste momento não poderia estar a sentir-me mais céptico”, pensa porventura o leitor. Alto! Van Däniken diz-nos onde encontrá-las, e não poderiam estar mais perto, mais visíveis. As evidências estão por todo o lado, mesmo à nossa volta, só precisamos de abrir os nossos olhos, tornar a nossa mente disponível, libertar a nossa imaginação! Estão presentes nos textos bíblicos, nos textos hindus, nas paredes das cavernas, nas estátuas da Ilha da Páscoa, nas linhas de Nazca, em Puma Punku, no túmulo de Pacal, o Grande. As “evidências” são infindáveis, segundo o autor.

"O Astronauta" - um dos muitos desenhos
pertencente às Linhas de Nazca, no Peru

"A Porta do Sol", Tiwanaku, Bolívia


O que são, para onde olham, por quem esperam estes seres de pedra?





"Moais", Ilha de Páscoa

Antes de vos deixar o documentário sobre esta tese de Däniken (documentário do Canal História, dividido em 10 partes), onde se apresentam muitas das respostas que sustentam estas teorias e se confrontam com a ciência “ortodoxa”, permitam-me uma consideração final em formato de discussão, especulação, reflexão e questionamento.

Haverá evidências desta teoria deliberadamente ocultadas, devido à imprevisibilidade da reacção da população mundial, ao risco da desconstrução dos mitos religiosos, de uma catástrofe de consciência, à inevitável necessidade de reformular a cultura e história humanas se tivermos de aceitá-las? De forma semelhante ao que aconteceu noutras alturas da história, e tal como ainda hoje se conservam sítios e documentos secretos, que não têm carácter militar, vedados ao público? O que é real, o que é verdade? Até que ponto podemos não desconfiar de governos, de sociedades secretas, de grandes instituições? Até que ponto o ceticismo é um exercício saudável, e quando começa a ser uma fantasia ou um acto de paranóia?

De que religião seríamos se acreditássemos na tese dos antigos astronautas extraterrestres? Seríamos o quê? Continuaríamos a acreditar em “Deus”, ou nos “Deuses”?

Existe um problema com o ego do ser humano que pode ser a base da crença ou descrença nestas teorias. Um outro autor, Robert Charroux, opina sucinta e abertamente que seria muito mais interessante para o nosso ego sermos descendentes de alienígenas (termos sido visitados e influenciados por eles, termos copulado com eles) do que de “macacos”. Sem dúvida tem uma certa razão, não obstante a maravilha evolucionista de Darwin. Robert Charroux será tema do próximo artigo desta série de artigos.

Fica assim apresentada a tese de Erich von Däniken - para os cépticos, para os curiosos, para os insatisfeitos, para os loucos. E se tudo for verdade? Quem estará pronto para o “choque dos deuses”, quando um dia eles regressarem?



(“Reinterpretando a História” é uma série de três artigos que apresentam diferentes e peculiares visões de três autores em relação ao passado da Humanidade. Interpretações que diferem da visão científica aceite e que exigem uma mente aberta e uma boa dose de pirronismo face ao senso comum. O presente artigo é o primeiro desta série).


O autor: Miguel Oliveira; possui o cérebro na ponta dos dedos. Pinta palavras em ecrãs de computador com aquilo que sintetiza do mundo e diz possuir um rádio no lugar da cabeça. Saiba como colaborar.



Mais em: http://obviousmag.org/archives/2010/10/reinterpretando_a_historia_parte_1_erich_von_danik.html#ixzz11FpqzaF9