quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Admirável mundo novo animal

          
 


"Quanto mais se pesquisa a existência dos animais – especialmente aves e mamíferos -, mais se conclui que entre eles e nós há apenas diferenças de grau, e não de qualidade. Ambos temos consciência, inteligência, intencionalidade, inventividade, capacidade de improvisação e habilidade no uso de símbolos para a comunicação:

 ao que parece, os animais não-humanos fazem uso de tais capacidades de forma menos complexa que os humanos, e essa é toda a diferença". O comentário é de Renzo Taddei, doutor em antropologia pela Universidade de Columbia e professor da Universidade Federal de São Paulo em artigo publicado no Canal Ibase, 29-10-2013.
 

Segundo ele, "os protocolos de ética em pesquisa com sujeitos humanos foram desenvolvidos após a constatação dos horrores da experimentação médica nazista em judeus. Parece-me inevitável que, em algumas décadas, venhamos a pensar na experimentação com sujeitos-animais em laboratórios com o mesmo sentimento de indignação e horror".
Eis o artigo.
Se avaliada pela repercussão que obteve na imprensa, a libertação dos 178 beagles do Instituto Royal foi um marco histórico. Nem na época do debate sobre a regulamentação do uso de células-tronco tanta gente graduada veio a público defender suas práticas profissionais. O tema está na capa das principais revistas semanais do país. A análise dos argumentos apresentados na defesa do uso de animais como cobaias de laboratório é, no entanto, desanimadora. E o é porque expõe o quanto nossos cientistas estão despreparados para avaliar, de forma ampla, as implicações étic as e morais do que fazem.
Vejamos: no debate aprendemos que há pesquisas para as quais as alternativas ao uso de animais não são adequadas. Aprendemos que muitas das doenças que são hoje de fácil tratamento não o seriam sem os testes feitos em animais; desta forma, muitas vidas humanas foram salvas. (Exemplificando como a razão pode sucumbir à emoção – até mesmo entre os mais aguerridos racionalistas -, um pesquisador da Fiocruz chegou ao desatino de afirmar que os “animais experimentais são grandes responsáveis pela sobrevivência da raça humana no planeta”). Adicionalmente, o fato de cientistas importantes do passado, comoAlbert Sabin, Carlos Chagas ou Louis Pasteur, terem usado animais como cobaias de laboratório em suas pesquisas mostra que os cientistas, por sua contribuição à humanidade, não podem ser tratados como criminosos. Ainda pior que isso tudo, se o Brasil proibir testes com animais, a ciência brasileira perderá autonomia e competitividade, porque dependerá de resultados de pesquisas feitas em outros países para o seu avanço.
Além do mais, há que se levar o animal em consideração: é consenso entre cientistas de que os animais de laboratório não devem sofrer. Providências foram tomadas nesse sentido, como a criação do Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal, e da obrigatoriedade das instituições terem cada uma sua Comissão de Ética no Uso de Animais, com assento para representante de sociedades protetoras de animais legalmente constituídas. E, finalmente, os “próprios animais” são beneficiados, em razão de como as experiências de laboratório supostamente contribuem com o desenvolvimento da ciência veterinária.
De forma geral, o que temos aí resumido é o seguinte: os animais são coisas, e devem ser usados como tais; ou os animais não são coisas, mas infelizmente devem ser usados como tais. Há algo maior que se impõe (e sobre a qual falarei mais adiante), de forma determinante, de modo que se os animais são ou não são coisas, isso é um detalhe menor, que os cientistas logo aprendem a desprezar em seu treinamento profissional.
A ideia de que os animais são coisas é antiga: Aristóteles, em seu livro Política, escrito há dois mil e trezentos anos, afirmou que os animais não são capazes de uso da linguagem e, por essa razão, não são capazes de uma existência ética. Sendo assim, conclui o filósofo, os animais foram criados para servir os humanos. Ideia semelhante está no Gênesis bíblico: “E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a t erra” (Gênesis 1:26).
Santo Agostinho e São Tomás de Aquino reafirmam a desconexão entre os animais e Deus. (São Francisco é, na história cristã, claramente um ponto fora da curva). A ideia chegou aos nossos dias praticamente intacta. O Catecismo Católico afirma, em seu parágrafo 2415, que “Os animais, tal como as plantas e os seres inanimados, são naturalmente destinados ao bem comum da humanidade, passada, presente e futura”. A ciência renascentista, através de Descartes e outros autores, fundou o humanismo que a caracteriza sobre essa distinção entre humanos e animais, exacerbando-a: o animal (supostamente) irracional passa a ser entendido como a antítese do humano (supostamente) racional. O tratamento de animais como coisas pela ciência contemporânea tem, desta forma, raízes históricas antigas.
Ocorre, no entanto, que essa ideia se contrapõe à existência cotidiana da maioria da humanidade, em todas as épocas. Em sociedades e culturas não-ocidentais, é comum que se atribua alguma forma de consciência e personalidade “humana” aos animais. Nas sociedades ocidentais, quem tem animal de estimação sabe que estes têm muito mais do que a simples capacidade de sentir dor: são capazes de fazer planos; de interagir entre si e com humanos em tarefas complexas, tomando decisões autônomas; integram-se na ecologia emocional das famílias humanas de forma significativa, construindo maneiras inteligentes de comunicar suas emoções. (Isso sem mencionar como animais humanizados são onipresentes em nosso imaginário cultural, dos desenhos animados infantis aos símbolos de times de futebol, de personagens do folclore popular a blockbuster s hollywoodianos).
De fato, o contraste entre essa percepção cotidiana e o que sugerem os pensamentos teológico e teórico mencionados acima faz parecer que há racionalização em excesso em tais argumentos. E onde há racionalização demais, ao invés de uma descrição do mundo, o mais provável é que haja uma tentativa de controle da realidade. Ou seja, trata-se mais de um discurso político, que tenta estabilizar relações desiguais de poder, do que qualquer outra coisa (nada de novo, aqui, para as ciências sociais ou para a filosofia da ciência).
É da própria atividade científica, no entanto, que vêm as evidências mais contundentes de que os animais são muito mais do que seres sencientes. No dia 7 de julho de 2012, um grupo de neurocientistas, neurofarmacologistas, neurofisiologistas, neuroanatomistas e cientistas da neurocomputação, reunidos na Universidade de Cambridge, produziu o documento intitulado Manifesto de Cambridge sobre a Consciência, onde se afirma o seguinte: “a ausência de neocortex não parece impedir um organismo de experimentar estados afetivos. Evidências convergentes indicam que animais não-humanos têm os substratos neuroanatômicos, neuroquímicos e neurofisiológicos necessários para a geração de estados conscientes, aliados à capacidade de exibir comportamento inte ncional. Consequentemente, as evidências indicam que os humanos não são únicos em possuir substratos neurológicos que geram consciência.
Animais não-humanos, incluindo todos os mamíferos e aves, e muitas outras criaturas, como os polvos, também possuem tais substratos neurológicos” (tradução livre). O manifesto foi assinado em jantar que contou com a presença de Stephen Hawking. Phillip Low, um dos neurocientistas que redigiu o manifesto, disse em entrevista à revista Veja (edição 2278, 18 jul. 2012): “É uma verdade inconveniente: sempre foi fácil afirmar que animais não têm consciência. Agora, temos um grupo de neurocientistas respeitados que estudam o fenômeno da consciência, o comportamento dos animais, a rede neural, a anatomia e a genética do cérebro. Não é mais possível dizer que não sabí amos”.
Outro grupo de pesquisas com resultados problemáticos para a manutenção de mamíferos em laboratórios vem das ciências que estudam a vida social dos animais, em seus ambientes selvagens. Animais são seres sociais; alguns, como os estudos em primatologia nos mostram, têm sua vida social pautada por dinâmicas políticas complexas, onde os indivíduos não apenas entendem suas relações de parentesco de forma sofisticada, mas também ocupam postos específicos em hierarquias sociais que podem ter quatro níveis de diferenciação. Estudos da Universidade de Princeton com babuínos mostraram que fêmeas são capazes de induzir uma ruptura política no bando, o que resulta na formação de um novo grupo social. Há muitos outros animais que vivem em sociedades hierárquicas complexas, como os elefantes, por exemplo. Cães, gatos, coelhos e rat os são também, naturalmente, animais sociais, ainda que a complexidade de seus grupos não seja equiparável ao que se vê entre babuínos e elefantes.
Além disso tudo, está amplamente documentado que muitos primatas são capazes de inventar soluções tecnológicas para seus problemas cotidianos – criando ferramentas para quebrar cascas de sementes, por exemplo – e de transmitir o que foi inventado aos demais membros dos grupos; inclusive aos filhotes. Tecnicamente, isso significa que possuem cultura, isto é, vida simbólica. As baleias mudam o “estilo” de seu canto de um ano para o outro, sem que isso tenha causas estritamente biológicas. Segundo o filósofo e músico Bernd M. Scherer, não há como explicar a razão pela qual o canto de um pássaro seja estruturado pela repetição de uma sequência de sons de 1 ou 2 segundos, enquanto outros pássaros cantam em sequências muito mais longas, usando apenas as ideias de marcação de território e atração de fêmeas. Scherer, atra vés de suas pesquisas (que incluem a interação musical, em estilo jazzístico, com pássaros e baleias), está convencido de que há uma dimensão estética presente no canto dos pássaros. Ele afirma, também, que grande parte dos pássaros precisa aprender a cantar, e não nasce com o canto completamente pré-definido geneticamente.
Não há razão para pensar que isso tudo não se aplique também às vacas, porcos e galinhas.Annie Potts, da Universidade de Canterbury, descreve no livro Animals and Society, deMargo DeMello (2012), sua observação da amizade de duas galinhas, Buffy Mecki, no santuário de galinhas mantido pela pesquisadora. Em determinado momento, Buffy adoeceu, e sua saúde det eriorou-se a ponto de ela não poder mais sair de debaixo de um arbusto. Sua amiga Mecki manteve-se sentada ao seu lado, a despeito de toda a atividade das demais galinhas do santuário, bicando-a suavemente ao redor da face e em suas costas, enquanto emitia sons suaves. Quando Buffy finalmente morreu, Mecki retirou-se para dentro do galinheiro, e por determinado período recusou-se a comer e a acompanhar as outras galinhas em suas atividades. As galinhas são susceptíveis ao luto, conclui Potts.
Quanto mais se pesquisa a existência dos animais – especialmente aves e mamíferos -, mais se conclui que entre eles e nós há apenas diferenças de grau, e não de qualidade. Ambos temos consciência, inteligência, intencionalidade, inventividade, capacidade de improvisação e habilidade no uso de símbolos para a comunicação; ao que parece, os animais não-humanos fazem uso de tais capacidades de forma menos complexa que os humanos, e essa é toda a diferença.
Vivemos o momento da descoberta de um admirável mundo novo animal. Nosso mundo tem muito mais subjetividades do que imaginávamos; talvez devêssemos parar de procurar inteligência em outros planetas e começar a olhar mais cuidadosamente ao nosso redor. O problema é que, quando o fazemos, o que vemos não é agradável. Se os animais têm a capacidade de serem sujeitos de suas próprias vidas, como apontam as evidências, ao impedir que o façam os humanos incorrem em ações, no mínimo, eticamente condenáveis.
Voltemos aos argumentos de defesa do uso de animais em laboratórios, citados no início desse texto. A maior parte das razões listadas se funda em razões utilitárias: “assim é mais eficaz; se fizermos de outra forma, perderemos eficiência”. Não se pode fundamentar uma discussão ética sobre pressupostos utilitaristas. Se assim não o fosse, seria aceitável matar um indivíduo saudável para salvar (através da doação de seus órgãos, por exemplo) outros cinco indivíduos doentes. O que boa parte dos cientistas não consegue enxergar é que se trata de um problema que não se resume à dimensão da técnica; trata-se de uma questão política (no sentido filosófico do termo, ou seja, que diz respeito ao problema existencial de seres vivos que coexistem em conflito de interesses).
Mas há outro elemento a pautar, silenciosamente, a lógica da produção científica: a competitividade mercadológica. Na academia, isso se manifesta através do produtivismo exacerbado, onde qualquer alteração metodológica que implique em redução de eficiência no ritmo de pesquisas e publicações encontra resistência. Em laboratórios privados, além da pressa imposta pela concorrência, há a pressão pela redução dos custos de pesquisa. É preciso avançar, a todo custo. Essa percepção do ritmo das coisas parece “natural”, mas não o é: os argumentos falam da colocação em risco das pesquisas que levarão à cura da AIDS ou da criação da vacina para a dengue, como se essas coisas já pré-existissem em algum lugar, e o seu tempo de “descoberta” fosse definido. Isso é uma ficção: não apenas científica, mas também política. As coisas não pré-existem, e o ritmo das coisas não tem nada de “natural”. O tempo é parte da política: é a sociedade quem deve escolher em qual ritmo deve seguir, e é absolutamente legítimo reduzir o ritmo dos avanços técnico-científicos, se as implicações morais para tais avanços forem inaceitáveis.
De todos os cientistas que se pronunciaram nos últimos dias, foi Sidarta Ribeiro, noEstadão do último domingo, o único que colocou, abertamente, o problema de os animais não serem coisas. Mas, para desânimo do leitor, e decepção dos que o admiram, como eu, suas conclusões caíram na vala comum do simplismo burocrático: o problema se resolveu com a criação do aparato burocrático de regulamentação do uso de animais, já mencionado anteriormente, no início desse texto. Ora, se os animais são seres dotados de intencionalidade, inteligência e afeto, e se a plenitude da sua existência depende de vida social complexa, a simples manutenção do seu organismo vivo e (supostament e) sem dor é suficiente para fazer com que eles “não sofram”? Sidarta coloca, de forma acertada, que é preciso atentar para o fato de que coisas muito piores ocorrem na indústria da carne, e também em muitas áreas da existência humana. Mas erra ao criar a impressão de que uma coisa existe em contraposição à outra (algo como “lutem pela humanização dos humanos desumanizados e deixem a ciência em paz”). Todas elas são parte do mesmo problema: a negação do direito a ser sujeito da própria vida. Uma atitude ética coerente implica a não diferenciação de espécie, considerando todos aqueles que efetivamente podem ser sujeitos da própria vida. O resto é escravidão, de animais humanos e não humanos.
Os protocolos de ética em pesquisa com sujeitos humanos foram desenvolvidos após a constatação dos horrores da experimentação médica nazista em judeus. Parece-me inevitável que, em algumas décadas, venhamos a pensar na experimentação com sujeitos-animais em laboratórios com o mesmo sentimento de indignação e horror.
 
 
     




      

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Mudanças no clima do Brasil até 2100

O clima no Brasil nas próximas décadas deverá ser mais quente – com aumento gradativo e variável da temperatura média em todas as regiões do país entre 1 ºC e 6 ºC até 2100, em comparação à registrada no fim do século 20.
 
A reportagem é de Elton Alisson, com a colaboração de Claudia Izique e Noêmia Lopes, publicada pela Agência FAPESP e reproduzida pelo sítio Instituto Carbono Brasil, 17-09-2013.
 
No mesmo período, também deverá diminuir significativamente a ocorrência de chuvas em grande parte das regiões central, Norte e Nordeste do país. Nas regiões Sul e Sudeste, por outro lado, haverá um aumento do número de precipitações.
 
As conclusões são do primeiro Relatório de Avaliação Nacional (RAN1) do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC), cujo sumário executivo foi divulgado nesta segunda-feira (09/08), durante a 1ª Conferência Nacional de Mudanças Climáticas Globais (Conclima).
 
Organizado pela FAPESP e promovido com a Rede Brasileira de Pesquisa e Mudanças Climáticas Globais (Rede Clima) e o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas (INCT-MC), o evento ocorreu no Espaço Apas, em São Paulo.
 
De acordo com o relatório, tendo em vista que as mudanças climáticas e os impactos sobre as populações e os setores econômicos nos próximos anos não serão idênticos em todo o país, o Brasil precisa levar em conta as diferenças regionais no desenvolvimento de ações de adaptação e mitigação e de políticas agrícolas, de geração de energia e de abastecimento hídrico para essas diferentes regiões.
 
Dividido em três partes, o Relatório 1 – em fase final de elaboração – apresenta projeções regionalizadas das mudanças climáticas que deverão ocorrer nos seis diferentes biomas do Brasil até 2100, e indica quais são seus impactos estimados e as possíveis formas de mitigá-los.
 
As projeções foram feitas com base em revisões de estudos realizados entre 2007 e início de 2013 por 345 pesquisadores de diversas áreas, integrantes do PBMC, e em resultados científicos de modelagem climática global e regional.
 
“O Relatório está sendo preparado nos mesmos moldes dos relatórios publicados pelo Painel Intergovernamental das Mudanças Climáticas [IPCC, na sigla em inglês], que não realiza pesquisa, mas avalia os estudos já publicados”, disse José Marengo, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e coordenador do encontro.
 
“Depois de muito trabalho e interação, chegamos aos resultados principais dos três grupos de trabalho [Bases científicas das mudanças climáticas; Impactos, vulnerabilidades e adaptação; e Mitigação das mudanças climáticas]”, ressaltou.
 
Principais conclusões
 
Uma das conclusões do relatório é de que os eventos extremos de secas e estiagens prolongadas, principalmente nos biomas da Amazônia, Cerrado e Caatinga, devem aumentar e essas mudanças devem se acentuar a partir da metade e no fim do século 21.
 
A temperatura na Amazônia deverá aumentar progressivamente de 1 ºC a 1,5 ºC até 2040 – com diminuição de 25% a 30% no volume de chuvas –, entre 3 ºC e 3,5 ºC no período de 2041 a 2070 – com redução de 40% a 45% na ocorrência de chuvas –, e entre 5 ºC a 6 ºC entre 2071 a 2100.
 
Enquanto as modificações do clima associadas às mudanças globais podem comprometer o bioma em longo prazo, a questão atual do desmatamento decorrente das intensas atividades de uso da terra representa uma ameaça mais imediata para a Amazônia, ponderam os autores do relatório.
 
Os pesquisadores ressaltam que estudos observacionais e de modelagem numérica sugerem que, caso o desmatamento alcance 40% na região no futuro, haverá uma mudança drástica no padrão do ciclo hidrológico, com redução de 40% na chuva durante os meses de julho a novembro – o que prolongaria a duração da estação seca e provocaria o aquecimento superficial do bioma em até 4 ºC.
 
Dessa forma, as mudanças regionais decorrentes do efeito do desmatamento se somariam às provenientes das mudanças globais e constituíram condições propícias para a savanização da Amazônia – problema que tende a ser mais crítico na região oriental, ressaltam os pesquisadores.
 
“As projeções permitirão analisar melhor esse problema de savanização da Amazônia, que, na verdade, percebemos que poderá ocorrer em determinados pontos da floresta, e não no bioma como um todo, conforme previam alguns estudos”, destacou Tércio Ambrizzi, um dos autores coordenadores do sumário executivo do grupo de trabalho sobre a base científica das mudanças climáticas.
 
A temperatura da Caatinga também deverá aumentar entre 0,5 ºC e 1 ºC e as chuvas no bioma diminuirão entre 10% e 20% até 2040. Entre 2041 e 2070 o clima da região deverá ficar de 1,5 ºC a 2,5 ºC mais quente e o padrão de chuva diminuir entre 25% e 35%. Até o final do século, a temperatura do bioma deverá aumentar progressivamente entre 3,5 ºC e 4,5 ºC  e a ocorrência de chuva diminuir entre 40% e 50%. Tais mudanças podem desencadear o processo de desertificação do bioma.   
 
Por sua vez, a temperatura no Cerrado deverá aumentar entre 5 ºC e 5,5 ºC e as chuvas diminuirão entre 35% e 45% no bioma até 2100. No Pantanal, o aquecimento da temperatura deverá ser de 3,5ºC a 4,5ºC até o final do século, com diminuição acentuada dos padrões de chuva no bioma – com queda de 35% a 45%.    
     
Já no caso da Mata Atlântica, como o bioma abrange áreas desde a região Sul do país, passando pelo Sudeste e chegando até o Nordeste, as projeções apontam dois regimes distintos de mudanças climáticas.
 
Na porção Nordeste deve ocorrer um aumento relativamente baixo na temperatura – entre 0,5 ºC e 1 ºC – e decréscimo nos níveis de precipitação (chuva) em torno de 10% até 2040. Entre 2041 e 2070, o aquecimento do clima da região deverá ser de 2 ºC a 3 ºC, com diminuição pluviométrica entre 20% e 25%. Já para o final do século – entre 2071 e 2100 –, estimam-se condições de aquecimento intenso – com aumento de 3 ºC a 4 ºC na temperatura – e diminuição de 30% a 35% na ocorrência de chuvas.    
     
Nas porções Sul e Sudeste as projeções indicam aumento relativamente baixo de temperatura entre 0,5 ºC e 1 ºC até 2040, com aumento de 5% a 10% no número de chuva. Entre 2041 e 2070 deverão ser mantidas as tendências de aumento gradual de 1,5 ºC a 2 ºC na temperatura e de 15% a 20% de chuvas.  
 
Tais tendências devem se acentuar ainda mais no final do século, quando o clima deverá ficar entre 2,5 ºC e 3 ºC mais quente e entre 25% e 30% mais chuvoso. 
        
Por fim, para o Pampa, as projeções indicam que até 2040 o clima da região será entre 5% e 10% mais chuvoso e até 1 ºC mais quente. Já entre 2041 e 2070, a temperatura do bioma deverá aumentar entre 1 ºC e 1,5 ºC  e haverá uma intensificação das chuvas entre 15% e 20%. As projeções para o clima da região no período entre 2071 e 2100 são mais agravantes, com aumento de temperatura de 2,5 ºC a 3 ºC e ocorrência de chuvas entre 35% e 40% acima do normal.    
              
“O que se observa, de forma geral, é que nas regiões Norte e Nordeste do Brasil a tendência é de um aumento de temperatura e de diminuição das chuvas ao longo do século”, resumiuAmbrizzi.       
 
“Já nas regiões mais ao Sul essa tendência se inverte: há uma tendência tanto de aumento da temperatura – ainda que não intenso – e de precipitação”, comparou.
 
Impactos e adaptação
 
As mudanças nos padrões de precipitação nas diferentes regiões do país, causadas pelas mudanças climáticas, deverão ter impactos diretos na agricultura, na geração e distribuição de energia e nos recursos hídricos das regiões, uma vez que a água deve se tornar mais rara nas regiões Norte e Nordeste e mais abundante no Sul e Sudeste, alertam os pesquisadores.
 
Por isso, será preciso desenvolver ações de adaptação e mitigação específicas e rever decisões de investimento, como a construção de hidrelétricas nas regiões leste da Amazônia, onde os rios poderão ter redução da vazão da ordem de até 20%, ressalvaram os pesquisadores.
 
“Essas variações de impactos mostram que qualquer tipo de estratégia planejada para geração de energia no leste da Amazônia está ameaçada, porque há uma série de fragilidades”, disse Eduardo Assad, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
 
“Dará para contar com água. Mas até quando e onde encontrar água nessas regiões são incógnitas”, disse o pesquisador, que é um dos coordenadores do Grupo de Trabalho 2 do relatório, sobre Impactos, vulnerabilidades e adaptação.
 
De acordo com Assad, é muito caro realizar ações de adaptação às mudanças climáticas no Brasil em razão das fragilidades que o país apresenta tanto em termos naturais – com grandes variações de paisagens – como socioeconômicas.
 
“A maior parte da população brasileira – principalmente a que habita as regiões costeiras do país – está vulnerável aos impactos das mudanças climáticas. Resolver isso não será algo muito fácil”, estimou.
 
Entre os setores econômicos do país, segundo Assad, a agricultura é um dos poucos que vêm se adiantando para se adaptar aos impactos das mudanças climáticas.
 
“Já estamos trabalhando com condições de adaptação há mais de oito anos. É possível desenvolver cultivares tolerantes a temperaturas elevadas ou à deficiência hídrica [dos solos], disse Assad.
 
O pesquisador também ressaltou que os grupos populacionais com piores condições de renda, educação e moradia sofrerão mais intensamente os impactos das mudanças climáticas no país. “Teremos que tomar decisões rápidas para evitar que tragédias aconteçam.”
 
Mitigação
 
Mercedes Bustamante, professora da Universidade de Brasília (UnB), e uma das coordenadoras do Grupo de Trabalho 3, sobre Mitigação das Mudanças Climáticas, apresentou uma síntese de estudos e pesquisas sobre o tema, identificando lacunas do conhecimento e direcionamentos futuros em um cenário de aquecimento global.
 
Bustamante apontou que a redução das taxas de desmatamento entre 2005 e 2010 – de 2,03 bilhões de toneladas de CO2 equivalente para 1,25 bilhão de toneladas – já tiveram efeitos positivos na redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE) decorrentes do uso da terra.
 
“As emissões decorrentes da geração de energia e da agricultura, no entanto, aumentaram em termos absolutos e relativos, indicando mudanças no perfil das emissões brasileiras”, disse.
 
Mantidas as políticas atuais, a previsão é de que as emissões decorrentes dos setores de energia e de transportes aumentem 97% até 2030. Será preciso mais eficiência energética, mais inovação tecnológica e políticas de incentivo ao uso de energia renovável para reverter esse quadro.
 
Na área de transporte, as recomendações vão desde a transformação de um modal – fortemente baseado no transporte rodoviário – e o uso de combustíveis tecnológicos. “É preciso transferir do individual para o coletivo, investindo, por exemplo, em sistemas aquaviários e em veículos elétricos e híbridos”, ressaltou Bustamante.
 
O novo perfil das emissões de GEE revela uma participação crescente do metano – de origem animal – e do óxido nitroso – relacionado ao uso de fertilizantes. “Apesar desses resultados, a agricultura avançou no desenvolvimento de estratégias de mitigação e adaptação”, ponderou.
 
Para a indústria, responsável por 4% das emissões de GEE, a lista de recomendações para a mitigação passa pela reciclagem, pela utilização de biomassa renovável, pela cogeração de energia, entre outros.
 
As estratégias de mitigação das mudanças climáticas exigem, ainda, uma revisão do planejamento urbano de forma a garantir a sustentabilidade também das edificações de forma a controlar, por exemplo, o consumo da madeira e garantir maior eficiência energética na construção civil.
 
Informação para a sociedade
 
Os pesquisadores participantes da redação do relatório destacaram que, entre as virtudes do documento, está a de reunir dados de estudos científicos realizados ao longo dos últimos anos no Brasil que estavam dispersos e disponibilizar à sociedade e aos tomadores de decisão informações técnico-científicas críveis capazes de auxiliar no desenvolvimento de estratégias de adaptação e mitigação para os possíveis impactos das mudanças climáticas.  
 
“Nós, cientistas, temos o desafio de conseguir traduzir a seriedade e a gravidade do momento e as oportunidades que as mudanças climáticas globais encerram para a sociedade. Sabemos que a inação representa a ação menos inteligente que a sociedade pode tomar”, disse Paulo Nobre, coordenador da Rede Clima.
 
Por sua vez, Celso Lafer, presidente da FAPESP, destacou, na abertura do evento, que a Fundação tem interesse especial nas pesquisas sobre mudanças climáticas, expresso no Programa FAPESP de Pesquisa em Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG), mantido pela instituição.
 
“Uma das preocupações básicas da FAPESP é pesquisar e averiguar o impacto das mudanças climáticas globais naquilo que afeta as especificidades do Brasil e do Estado de São Paulo”, afirmou.
 
Também participaram da abertura do evento Bruno Covas, secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo, Carlos Nobre, secretário de Políticas e Programa de Pesquisa e Desenvolvimento (Seped) do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), e Paulo Artaxo, membro da coordenação do PFPMCG.
 
Carlos Nobre ressaltou que o relatório será a principal fonte de informações que orientará o Plano Nacional de Mudanças Climáticas que, no momento, está em revisão.
 
“É muito importante que os resultados desse estudo orientem os trabalhos em Brasília e em várias partes do Brasil, em um momento crítico de reorientar a política nacional, que tem de ir na direção de tornar a economia, a sociedade e o ambiente mais resilientes às inevitáveis mudanças climáticas que estão por vir”, afirmou.
 
Segundo ele, o Brasil já sinalizou compromisso com a mitigação, materializado na Política Nacional de Mudanças Climáticas e que prevê redução de 10% e 15% das emissões entre 2010 e 2020, respectivamente, relativamente a 2005.
 
“São Paulo lançou, em 2009, um programa ambicioso, de redução de 20% das emissões, já que a questão da mudança no uso da terra não é uma questão tão importante no Estado, mas sim o avanço tecnológico na geração de energia e em processos produtivos. O Brasil é o único país em desenvolvimento com metas voluntárias para redução de emissões”. 
 
  
Ele ressaltou, entretanto, que “a adaptação ficou desassistida". "Não é só mitigar; é preciso também se adaptar às mudanças climáticas. As três redes de pesquisa – Clima, INCT eFAPESP – avançam na adaptação, que é o guia para o desenvolvimento sustentável.”
 
 




sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Desigualdade para todos

          
 
Um documentário revela como 400 norte-americanos tornaram-se financeiramente mais ricos que metade da população do país.
A reportagem é de Inês Castilho e Andrew Barker* e publicada pelo sítio Outras Palavras
 
23-01-2013.

Uma forma de medir o aumento da desigualdade de renda é comparar, ao longo do tempo, o salário do trabalhador médio com o do trabalhador do topo do mercado. É o que faz o economista político Robert Reich, ex-secretário do Trabalho dos EUA e professor da Universidade da Califórnia, em Berkeley, no documentário Inequality for All (Desigualdade para Todos), que acaba de ser apresentado no Sundance Festival.l
Em 1978, diz Reich, um trabalhador homem norte-americano típico ganhava cerca de 48 mil dólares anuais, enquanto um profissional de elite recebia cerca de 393 mil dólares anuais. Em 2010, o trabalhador médio viu seus ganhos reduzidos a 33 mil dólares anuais, enquanto o profissional do topo pulou para mais que o dobro, aproximadamente 1,1 milhão de dólares anuais.

Mas a desigualdade torna-se brutal mesmo quando se examinam os rendimentos dos mega-milionários. Eles cresceram tanto nas décadas neoliberais que hoje, conta Reich, as 400 pessoas financeiramente mais ricas dos EUA possuem mais que metade da população do país � �� os 150 milhões de norte-americanos da base da pirâmide.

Cobrindo uma amplo espectro da teoria econômica de modo simples e interessante, o documentário Inequality for All pretende fazer, para a questão da desigualdade de renda, aquilo que Uma Verdade Inconveniente fez para as mudanças climáticas, com Robert Reich no lugar de Al Gore como grande professor. Esforçando-se para manter-se imparcial e oferecendo “respiros” visuais, este é um documentário que quer comunicar-se com um público além dos simpatizantes do movimento Occupy.

Como Uma Verdade InconvenienteDesigualdade para Todos ancora-se em uma longa aula, no caso “Riqueza e Pobreza”, de Robert Reich, em Berkeley, com cortes para entrevistas e recursos visuais – uma coleção de gráficos alarmantes que se alinha a outras tendências socioeconômicas. Reich tem um argumento simples: a ampliação da distância entre ricos e pobres está levando ao fim da classe média e irá paralisar a economia, se não for controlada. Para apoiar sua tese, traça todo o desenvolvimento fiscal do país desde a Grande Depressão, e faz isso com louvável ausência de tom professoral.

Se a classe média não consegue mais se manter, à medida que o custo de vida aumenta e o salário se mantém igual, argumenta Reich, o motor central da economia – os gasto s com o consumo – devem levar o sistema à paralisação. Uma de suas preocupações principais é que, para compensar a estagnação dos salários, os trabalhadores da classe média fizeram empréstimos. Este é um dos gráficos mais chocantes: o salário se mantém imutável na base da tela, enquanto a dívida pessoal sobe para a estratosfera.

Paralelamente, o jovem diretor Jacob Kornbluth acompanha personagens do mundo real, incluindo um empresário multimilionário que argumenta contra seu próprio papel de ‘criador de emprego’ isento de certos impostos, e um casal Mormon que vota no partido Republicano e procura sindicalizar trabalhadores de uma usina geotérmica em sua cidade. Mas o depoimento mais revelador é o de uma trabalhadora mãe de dois filhos cuja demissão do marido fez com que perdessem sua casa. Forçada a dividir um a pequena casa com outra família, ela pergunta: “Como faço para ganhar dinheiro? Não que eu queira ser rica, mas… Como você faz para ganhar dinheiro, quando não tem ações?”

Reich recorda com carinho seu tempo de White House como secretário do Trabalho de Clinton, embora se admita frustrado com o que (não) conseguiu alcançar. Mas, estranhamente, não menciona o importante papel de Clinton na desregulamentação financeira que viria abalar a economia mundial uma década depois. Ainda assim, ele oferece lições a serem aprendidas. Como informa durante o filme, vem pregando contra o crescimento da desigualdade há décadas, e quando começou era considerado de centro. Mas, recentemente, as mesmas ideias levaram a Fox News a tachá-lo de marxista radical.

Em uma das sequências mais tocantes, Reich é arrastado para um diálogo áspero com um trabalhador que se opõe com eloquência à sindicalização. Reich trava com ele um debate de admirável civilidade e, ao mesmo tempo, falta de condescendência. Esse diálogo mostra que não será fácil derrubar os muros que impedem a reforma do sistema financeiro, e a luta que o filme terá de travar para tocar as pessoas que mais precisam ser convencidas.

* A partir do quarto parágrafo, o texto é tradução/adaptação de resenha publicada pel a revista Variety.
 
     

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Por uma sociedade que produza menos e consuma menos

          

 


Era o ano 2001, quando ao economista Serge Latouche coube moderar um debate organizado pela UNESCO. Na mesa, à sua esquerda, lembra, estava sentado o ativista antiglobalização José Bové; e um pouco além, o pensador austríaco Ivan Illich. Naquele momento, Latouche já havia tido a oportunidade de comprovar em campo, no continente africano, os efeitos que a ocidentalização produzia sobre o chamado Terceiro Mundo.

A reportagem é publicada no sítio Redes Cristianas, 31-08-2013. A tradução é do Cepat.
Naqueles anos, o que estava em moda era falar de desenvolvimento sustentável. Entretanto, para os que discordavam deste conceito, o que o desenvolvimento conseguia era tudo, menos a sustentabilidade.
Foi nesse colóquio que a teoria do decrescimento começou a alçar voo. Um conceito que um grupo de mentes com inquietudes ecológicas resgataram do título de uma coleção de ensaios do matemático romeno Nicholas Georgescu-Roegen. A palavra decrescimento foi escolhida para provocar. Para despertar as consciências. “Era pre ciso sair da religião do crescimento”, diz o professor Latouche...
Foi assim que nasceu esta linha de pensamento... Um movimento que poderia se enquadrar dentro de certo tipo de ecossocialismo para bradar contra a cultura do usar e jogar, da obsolescência programada, o crédito sem tom, nem som e os atropelos que ameaçam o futuro do planeta.
Estamos imersos em plena crise. Para onde você acredita que o mundo caminha?
“Atualmente, a crise que estamos vivendo vem se somar com muitas outras, e todas se misturam. Já não se trata de uma crise econômica e financeira, mas é uma crise ecológica, social, cultural..., ou seja, uma crise de civilização. Alguns falam de crise antropológica...”.
“Sim. O capitalismo sempre esteve em crise. É um sistema cujo equilíbrio é como o do ciclista, que nunca pode deixar de pedalar, caso contrário, cai no chão. O capitalismo sempre deve estar em crescimento, caso contrário é a catástrofe. Há trinta anos não há crescimento, desde a primeira crise do petróleo; desde então, temos pedalado no vazio. Não houve um crescimento real, mas um crescimento da especulação imobiliária, das bolsas. E agora esse crescimento também está em crise”.
Latouche defende uma sociedade que produza menos e consuma menos. Sustenta que é a única maneira de frear a destruição do meio ambiente, que ameaça seriamente o futuro da humanidade. “É preciso uma revolução. Porém, isso não quer dizer que haja que massacrar e apertar as pessoas. É preciso uma mudança radical de orientação”. Em seu último livro, “A sociedade da abundância frugal”, editado por Icaria, explica que é necessário almejar uma melhor qualidade de vida e não um crescimento ilimitado do Produto Interno Bruto. Não se trata de defender o crescimento negativo, mas um reordenamento de prioridades. A aposta no decrescimento é a aposta na saída da sociedade de consumo.
E como seria um Estado que apostasse no decrescimento?
“O decrescimento não é uma alternativa, mas uma matriz de alternativa. Não é um programa. E seria muito diferente a forma de construir a sociedade no Texas ou em Chiapas”.
Entretanto, em seu livro, você explica algumas medidas concretas, como os impostos sobre os consumos excessivos ou a limitação dos créditos que são concedidos. Também diz que é preciso trabalhar menos. É necessário trabalhar menos?
“É preciso trabalhar menos para ganhar mais, porque quanto mais se trabalha, menos se recebe. É a lei do mercado. Se você trabalha mais, aumenta a oferta de trabalho, e como a demanda não aumenta, os salários baixam. Quanto mais se trabalha, mais se provoca a baixa dos salários. É necessário trabalhar menos horas para que todos trabalhem, mas, sobretudo, trabalhar menos para viver melhor. Isto é mais importante e mais subversivo. Temos ficado doentes, toxicodependentes do trabalho. E o que as pessoas fazem quando lhes reduzem o tempo de trabalho? Assistem televisão. A televisão é o veneno por excelência, o veículo para a colonização do imaginário”.
Trabalhar menos ajudaria a reduzir o desemprego?
“É claro. É necessário reduzir as horas de trabalho e relocalizá-lo. É preciso fazer uma reconversão ecológica da agricultura, por exemplo. É necessário passar da agricultura produtivista à agricultura ecológica campesina”.
Dirão que isto significaria voltar na História...
“Nada. De qualquer modo, não haveria razão para ser obrigatoriamente algo ruim. Não é uma volta ao passado, já que há pessoas que fazem permacultura e isso não tem nada a ver com a forma como era a agricultura de outrora. Este tipo de agricultura requer muita mão de obra, e se trata justamente disso, de encontrar empregos para as pessoas. É necessário comer melhor, consumir produtos sadios e respeitar os ciclos naturais. Para tudo isso é preciso uma mudança de mentalidade. Caso se consiga os apoios suficientes, medidas concretas poderão ser tomadas para provocar uma mudança”.
Você disse que a teoria do decrescimento não é tecnófoba, mas ao mesmo tempo propõe uma moratória das inovações tecnológicas. Como essas coisas casam?
Isto foi um mal-entendido. Queremos uma moratória, uma reavaliação para ver com quais inovações é preciso prosseguir e quais outras não possuem grande interesse. Hoje em dia, importantes linhas de pesquisa são abandonadas, como as de biologia do solo, porque não possuem uma saída econômica. É necessário escolher. E quem escolhe? As empresas multinacionais”.
Latouche considera que as democracias, na atualidade, estão ameaçadas pelo poder dos mercados. “Já não possuímos democracia”, proclama... “Estamos dominados pela oligarquia econômica e financeira que tem a seu serviço toda uma série de funcionários que são os chefes de Estado dos países”. E sustenta que a prova mais óbvia está no que a Europa fez com a Grécia, submetendo-a a estritos programas de austeridade. “Eu sou europeísta convencido, teria que se construir uma Europa, mas não assim. Teríamos que ter construído, primeiro, uma Europa cultural e política, e ao final, um par de séculos mais tarde, adotar uma moeda única”.
Latouche sustenta que a Grécia deveria declarar a suspensão dos pagamentos, como as empresas fazem. “Na Espanha, o rei Carlos V quebrou duas vezes e o país não morreu, pelo contrário. Com a Argentina isto aconteceu após a ruína do peso. O presidente da Islândia, e isto não foi dito de forma suficiente, disse no ano passado, em Davos, que a solução para a crise é fácil: anula-se a dívida e, em seguida, a recuperação vem muito rápido”.
E essa também seria uma solução para outros países, como a Espanha?
“É a solução para todos, e acabará sendo realizada, não há outra. Faz-se de conta que está se tentando pagar a dívida, esmagando as populações, e é dito que deste modo são liberados os excedentes que permitem resolver a dívida, mas, na realidade, entra-se no círculo infernal, no qual cada vez é preciso liberar mais excedentes. A oligarquia financeira tenta prolongar sua vida o máximo tempo possível, é fácil de compreender, mas é em detrimento do povo”.
 
     

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Mas para que serve a riqueza?

 

Trabalhar cansa

 
Vinicius Torres Freire, jornalista, comentando dois livros recentes, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, 25-08-2013.
"Mas para que serve a riqueza?", pergunta Resende, secundando Keynes. Para reduzir o tempo dedicado ao trabalho. Nos termos de Belluzzo, formulados com o auxílio do mesmo Keynes (ecoando Marx), a economia industrial suscitou a "esperança do aumento do tempo livre desfrutado de forma enriquecedora por indivíduos autônomos", utopia negada por sociedades, porém, cada vez mais ricas", continua o jornalista.
Segundo Torres Freire, "note-se uma última coincidência essencial nos oceanos de diferenças entre Resende e Belluzzo, ou pelo menos um grande farol de suas preocupações: a ruína política no capitalismo plenamente desenvolvido ou esgotado, a depender dos autores".
Eis o artigo.
A crise de 2008 serve como ponto de fuga para dois livros acerca de um certo esgotamento do capitalismo. André Lara Resende e Luiz Gonzaga Belluzzo enfocam as perver sões da sociedade consumista e os impasses do crescimento, considerado tanto inviável a longo prazo como incapaz de promover qualidade de vida.
"Por que e para que crescer são perguntas que deixaram de ser feitas. Não costumamos nos questionar sobre o óbvio", afirma André Lara Resende num dos 18 artigos recolhidos em"Os Limites do Possível: a Economia além da Conjuntura" [Portfolio, 288 págs., R$ 44,90].
O economista causou certa sensação em 2012 ao associar a dificuldade de solução da crise de 2008 ao esgotamento dos recursos naturais do planeta.
A saída menos dolorosa para a crise e seu entulho econômico maior, o excesso de dívidas, seria o crescimento econômico. Porém, dado o "limite físico do ecossistema", que "pode ter sido atingido ou está muito próximo", "não há mais como pretender que a economia mundial volte a crescer". Caso cresça, não será por muito mais tempo, pois "não há como viabilizar 7 bilhões de pessoas, com o padrão de consumo e as aspirações do mundo contemporâneo, nos limites físicos da Terra", ideias em parte baseadas no livro "The Great Disruption", do ambientalista Paul Gilding.
Esses são "os novos limites do possível", título de um artigo do livro, de janeiro de 2012, publicado como a maioria dos demais no jornal "Valor Econômico".
Resende, como se sabe, foi um dos economistas que pensaram as manhas da inflação brasileira e as bases dos planos econômicos que dariam no Real. Foi professor da PUC do Rio, serviu no governo FHC e trabalha como financista.
Os Limites do Possível dialoga enfronhada e inadvertidamente com outra obra recente, O Capital e suas Metamorfoses [ed. Unesp, 192 págs., R$ 32], de Luiz Gonzaga Belluzzo, professor titular da Unicamp, também homem público e empresário na área de educação. O livro de  Belluzzo é feito de cinco ensaios baseados em aulas e textos dos anos 80 e 90, além de dois trabalhos mais conjunturais, dedicados à economia contemporânea.
Os dois livros têm como ponto de fuga a crise de 2008, a qual no entanto tratam como uma circunstância, embora grave, de processos históricos muito mais amplos. No caso de Belluzzo, como desenvolvimento último e consequente da lógica da acumulação capitalista. No caso de Resende, como inconsequências devidas à incompreensão de certo esgotamento capitalista, entre outros erros.
No livro, Resende comenta artigo do economista Robert J. Gordon que discute uma implicação ora lúgubre da teoria neoclássica do crescimento. No longo prazo, o crescimento depende dos ganhos de produtividade derivados do progresso tecnológico, avanços que nas economias ricas são agora muito menores que os registrados entre os séculos 18 e o final do 20. As economias na fronteira tecnológica tenderiam a crescer agora mais devagar.
Abismo
Ou seja, além de à beira do precipício ambiental, as economias avançadas talvez apenas possam chegar ao abismo se arrastando, se tanto, ou movidas a bolhas de consumo suicidas. A dificuldade de crescer não decorre pois da circunstância da crise de 2008, que seria mais um efeito das tentativas exageradas de anabolizar, com excesso de consumo e dívidas, economias que deram o que tinham que dar.

O crescimento, além de inviável ou esgotado, talvez também não seja mais desejável, quando não sem sentido. Res ende aceita, com restrições, conclusões de estudos em voga segundo os quais a satisfação (ou a felicidade) dos indivíduos deixa de aumentar a partir de um certo nível de renda.
Por que então crescer mais? Para aumentar a renda per capita: tornar a população na média mais rica (isto é, tornar a economia mais produtiva).
"Mas para que serve a riqueza?", pergunta Resende, secundando Keynes. Para reduzir o tempo dedicado ao trabalho. Nos termos de Belluzzo, formulados com o auxílio do mesmoKeynes (ecoando Marx), a economia industrial suscitou a "esperança do aumento do tempo livre desfrutado de forma enriquecedora por indivíduos autônomos", utopia negada por sociedades, porém, cada vez mais ricas.

Porém "nunca [atualmente] se considerou tão fundamental trabalhar... e nunca se considerou tão ameaçadora a ideia de que a economia possa não crescer", comenta Resende."O mundo contemporâneo" (e não só), no entanto, não tem opinião unívoca sobre o assunto, apesar do que dá a entender, talvez por lapso, o texto do economista. Há conflito social, desculpe-se a obviedade.
Os trabalhadores franceses, por exemplo, nos anos 1990 bateram-se pelo direito à semana de 35 horas, motivo de crítica ou desprezo e chacota dos economistas padrão. Os franceses seguem uma tradição moderna, de pelo menos 250 anos, de combate pelo direito ao tempo livre ou mesmo à preguiça; pelo direito de ganhar menos e seguir uma vida mais calma, como os plantadores de batata alemães estudados pela sociologia alemã da virada do século 19 para o 20, ou como tantos socialistas.
Barbárie
Os motivos da barbárie que é negar, a bilhões de indivíduos, condições de subsistência e de realização da vida boa são tratados de modo complexo pelos autores, mas no meio do caminho os dois curiosamente se detêm na mesma pedra cheia de musgo da obra do economista Thorstein Veblen (1857-1929), sua "Teoria das Classes Ociosas" (1899) e seu conceito de "consumo conspícuo", marginalizados pela teoria econômica tradicional.
Os dois tratam das perversões da sociedade consumista, com ênfase mais "psicológica" no caso de Resende e mais "sociológica" no caso de Belluzzo, para recorrer a um resumo adjetivo precário. Como diz Resende, não é a riqueza absoluta, mas a riqueza relativa que nos importa. "Não nos basta ser apenas ricos, mas sim mais ricos que nossos pares."
Ressalte-se que os enfoques são, porém, completamente diferentes. Apesar de se declarar ex-economista na introdução de seu livro, Resende não lança fora os fundamentos padrão de sua profissão, a qual no entanto tornou-se "um campo menor da matemática aplicada" (fala da teoria macroeconômica).

Na economia de Belluzzo, trata-se de uma conversa metaheterodoxa travada por Marx eKeynes, entre outros algo menos cotados; economia e sociedade são um caldo de cu ltura que resulta da mesma moenda do capital, da acumulação sem sentido, o que não é um problema, mas fundamento, da economia padrão.
O Capital e suas Metamorfoses pode ser lido como uma série de razões que desmontam argumentos vulgares sobre as origens e desenvolvimento da crise de 2008: imoralidade dos financistas, mero defeito da regulação da economia, "desvirtuamento" da economia de mercado ou "descolamento" da "valorização fictícia dos estoques de riqueza em relação à geração de valor na esfera produtiva".

Nos ensaios, Belluzzo reapresenta a maquinaria conceitual de O Capital de Marx, em diálogo com problemas atuais e com autores da tradição "ortodoxa" e "heterodoxa" da economia, em especial com KeynesBelluzzo procura mostrar congruências entre as ideias do comunista e do "fundador" da macroeconomia (Keynes) a respeito de finanças, crédito e investimento.

Por fim, note-se uma última coincidência essencial nos oceanos de diferenças entreResende e Belluzzo, ou pelo menos um grande farol de suas pre ocupações: a ruína política no capitalismo plenamente desenvolvido ou esgotado, a depender dos autores.
Na visão de Belluzzo, estamos vivendo uma situação histórica em que "a ação do Estado é vista como contraproducente pelos bem-sucedidos e integrados, mas como insuficiente pelos desmobilizados e desprotegidos. Essas duas percepções convergem na direção da deslegitimização' do poder administrativo e na desvalorização da política".
Resende não é um adepto "sem mais" do capitalismo, que cria desigualdades e exclusão (no entanto mencionadas de passagem) e promove valores (privatização excessiva da vida, consumismo etc) ora incompatíveis com a valorização da vida pública e da política, os meios de dar conta das mazelas da economia de mercado.
Mas o que seria essa revalorização da vida pública? O "projeto" é tornar compatível o mundo "globalizado" com a valorização das comunidades locais, aproximar homens públicos de sua comunidades, conter de modo drástico a influência da publicidade e do marketing sobre a vida pública, influência já bastante deletéria na promoção do consumismo.
 
     



sábado, 21 de setembro de 2013

Jaques Henno: estamos todos vigiados e fichados

          


Jacques Henno: ‘Estamos todos vigiados e fichados’

 
 
Antes de se deitar é preciso olhar embaixo da cama, desligar o sinal Wifi e fechar todos os acessos à internet da casa. A última leva de informações sobre a espionagem norte-americana atravessa uma nova fronteira da violação da privacidade. O jornal The New York Times revelou que Washington corrompeu toda a tecnologia que protege a internet para acentuar a espionagem. Por meio da Agência Nacional de Segurança norte-americana (NSA), os Estados Unidos roubaram chaves de segurança, alteraram programas e computadores e forçaram certas empresas a colaborar com o objetivo de ter acesso a comunicações privadas, tanto dentro como fora do território norte-americano. A NSA não respeitou limite algum: correios eletrônicos, compras na internet, rede VPN, conexões de alta segurança (o famoso SSL), acesso aos serviços de telefonia da Microsoft, Facebook,Yahoo e Google, a lista dos novos territórios de caça é interminável.
A entrevista é de Eduardo Febbro, publicada pelo jornal Página/12 e reproduzida por Carta Maior, 08-09-2013.
Eis a entrevista.
Segundo o diário norte-americano, a NSA gasta mais de 250 milhões de dólares anuais em um programa chamado Sigint Enabling cuja meta consiste em modificar a composição de certos produtos comerciais – computadores, chips, telefones celulares – para torná-los vulneráveis, ou seja, acessíveis aos ouvidos da NSA. A isto se somam as informações publicadas por Wikileaks sobre 80 empresas privadas que se servem das novas tecnologias para captar (espionar) em tempo real os intercâmbios no Facebook, MSN, Google Talk, etc. Estamos na mais perfeita intempérie tecnológica de maneira permanente sem que a vítima tenha a menor consciência disso. Um crime perfeito.
Em entrevista à Carta Maior, o pesquisador e especialista das novas tecnologias, Jacques Henno, analisa todos estes abusos e tendências que se inscrevem em uma nova era marcada pelo nascimento de um lobby entre os militares, a informática, os dados e os arquivos. Henno publicou vários livros que anteciparam de maneira detalhada e rigorosa as informações divulgadas pelo ex-analista da CIA e da NSA, Edward Snowden: estamos todos vigiados. “Silicon Valley: Prédateurs Vallée?” (Silicon Valley, o vale dos predadores) e “Tous Fichés: l’incroyable projet américain por d’éjouer les atentas terroristes” (Estamos todos arquivados: o incrível projeto americano para evitar os atentados terroristas) exploram com muita lucidez um mundo de espionagem e violação dos direitos que, até algumas semanas, parecia produto de uma imaginação paranoica. As investigações de Jacques Henno demonstraram que não. As revelações de Snowd en provaram que o especialista francês tinha razão.
 
Estamos descobrindo com uma assombrosa passividade a profundidade da espionagem de que somos alvo por parte dos Estados Unidos.
 
É preciso lembrar que a informática ao serviço do totalitarismo existe desde os anos 40. Durante a Segunda Guerra Mundial, se os campos de extermínio nazistas foram tão eficazes foi porque os alemães usaram as máquinas IBM que funcionavam com os cartões perfurados para contabilizar todas as pessoas. De modo similar, o Plano Condor que funcionou entre as ditaduras da América Latina para perseguir os opositores foi montado com o suporte de computadores vendidos pelos norte-americanos para as ditaduras da América do Sul. Estes computadores serviam para fichar os opositores.
 
Quando e como nasceu a espionagem moderna tal como está se revelando hoje?
 
Tudo isso nasce com um programa chamado TIA, Total Information Awareness. Após os atentados de 11 de setembro de 2011, os norte-americanos trataram de encontrar tecnologias capazes de prevenir este tipo de atentados. Rapidamente se deram conta de que tinham nas mãos todas as informações necessárias. Por exemplo, os terroristas que cometeram os atentados do 11 de setembro tinham sido identificados antes, quando andaram de avião, ou quando dois deles se escreveram em escolas de pilotagem de aviões. Tinham até fotos deles sacando dinheiro de um caixa automático. No entanto, o que faltava era a metodologia para unir todos esses arquivos e informações. Neste processo, entraram em ação empresas que foram ao governo norte-americano dizer: “nós trabalhamos com arquivos e podemos ajudá-los a prevenir atentados. Assim nasceu o sistema de vigilância completa, Total Information Awareness, ITA, capaz de criar arquivos sobre qualquer p essoa no mundo, sobre todos os habitantes do planeta, a fim de ter um máximo de informações sobre cada pessoa e, assim, descobrir sinais de preparação de atentados terroristas.
A Acxiom, por exemplo, é uma destas empresas. Ela é totalmente desconhecida para o grande público, mas é uma das empresas que detém o maior de arquivos sobre os consumidores do mundo. A cada ano, realiza pesquisas sobre a comida que damos aos gatos, o tipo de papel higiênico que utilizamos ou os livros que lemos. Na França, a Comissão Nacional de Informática e Liberdades (CNIL) se opôs várias vezes às pesquisas da Acxiom.
 
Essa tecnologia deu lugar ao nascimento de uma espécie de mega-sistema de cálculo matemático que cria perfis segundo uma série aparentemente racional de informações.
 
Exatamente. Por exemplo, logo depois dos atentados em Londres se descobriu que os terroristas preparavam os atentados comprando antes refrigeradores de grande capacidade para armazenar os explosivos. Com base nisso, agora, quem compra congeladores de grande capacidade torna-se suspeito e, por conseguinte, é fichado e vigiado. O mesmo ocorre com os aviões. Se alguém embarca em um avião rumo aos Estados Unidos e viaja pela primeira vez em classe executiva ou primeira classe também passa a ser vigiado. Os assentos de primeira classe são muito controlados porque estão mais perto da cabine dos pilotos. Então, se alguém compra uma passagem nesta classe e, segundo o resumo dos gastos do cartão de crédito, essa pessoa não tem os meios para pagar um bilhete a esse preço, automaticamente estará sob vigilância.
Em resumo, os norte-americanos exploram todas as informações que obtém de uma pessoa. Eles são, ao mesmo tempo, paranoicos e amantes da tecnologia. Paranoicos porque há muito tempo vivem armados. E amantes da tecnologia porque, cada vez que há um problema tratam de encontrar uma solução técnica e não forçosamente social ou econômica.
 
O curioso é que boa parte desses dados utilizados pela NSA foram entregues voluntariamente pelos usuários.
 
Claro. Quando nos inscrevemos no portal de uma empresa norte-americana, Yahoo,Microsoft, Google ou outras, não lemos até o final as condições de utilização. No entanto, se prestarmos atenção veremos que ali é dito textualmente: “autorizo o armazenamento destas informações no território norte-americano”. Agora, se os dados que confiamos a Yahoo,Microsoft, Amazon, Facebook ou Google estão armazenados no território norte-americano, eles estão regidos pelo direito norte-americano. A lei votada depois dos atentados de 11 de setembro, o Patriot Act, permite a qualquer governo norte-americanorequisitar os arquivos e dados que julgar necessários. Os dados que entregamos a essas empresas vão parar na NSA.
Há uma mudança fundamental na regra da constituição dos lobbies que atuam nos Estados Unidos. O lobby da defesa mudou de perfil com as tecnologias da informação.
Sim. Antes se falava de um lobby militar-industrial. Havia, de fato, uma conjunção entre a indústria e os militares. Agora não. O lobby atual é entre os especialistas nestes arquivos, os técnicos em informática e os militares. Não somos conscientes da quantidade de informações privadas que fornecemos a cada dia aos operadores privados da internet. Por exemplo, no Facebook se publicam a cada dia 350 milhões de fotos. Ao cabo de dez dias, há 3,5 bilhões de fotos, e em cem dias 35 bilhões. O Facebook é hoje a maior base de imagens do mundo. É uma incrível quantidade de informações que fornecemos. O Google, por exemplo, é capaz de prevenir a epidemia de gripes no mundo só calculando a quantidade de pessoas que, em um determinado lugar, busca informação sobre os sintomas da gripe e como curá-la. Além disso, os custos desta tecnologia, de armazenamento, memória ou microprocessadores, são cada vez mais baixos. A NSA é perfeitamente capaz de armazenar todas essas informações e analisá-las com programas especializados, incluindo os e-mails que enviamos e recebemos.
 
Como você demonstra em seu livro “Sillicon Valle, vale dos predadores?”, tanto a espionagem como o dinheiro que Google ou Facebook ganham na internet provém de nossa...digamos, inocência.
 
O Vale do Silício é o vale do Big Data. Empresas como Google ou Facebook vivem dos dados que nós fornecemos. Com eles, tratam de saber quais são nossos centros de interesse e, a partir daí, nos enviam publicidades que correspondem a nosso perfil. Um portal como o Facebook vive da publicidade e fará todo o possível para saber mais coisas sobre nós e nossos amigos, para incitar-nos a publicar mais e mais coisas sobre nós. Uma vez obtidos esses dados, o que fazem é materializar essas informações sob a forma de publicidades. A essas empresas só interessam nossos dados, nossas informações, querem ampliar o campo da vida privada. Na verdade, não querem que o que dizemos pertença ao campo da vida privada, mas sim ao da vida pública.
O Facebook é capaz de identificar e classificar as pessoas em função de suas preferências por determinadas práticas sexuais ou por certas drogas. Isso é muito perigoso porque, em alguns países, há práticas sexuais que estão proibidas. Por conseguinte, a esses regimes políticos basta ir ao Facebook, fazer uma busca por idade, diplomas, zonas geográficas e práticas sexuais para encontrar as pessoas que queiram. Qualquer regime político tem acesso a todas essas informações. Em resumo, assistimos a um fichamento sexual, ideológico, político e religioso.
 
A Europa, neste terreno, é um mero aliado sem influência, um cliente menor. O que ocorreu com os europeus que ficaram dormindo, sem capacidade tecnológica alguma?
 
O império norte-americano utiliza as rotas da informação para captar as informações a fim de garantir sua segurança e, também, para a espionagem econômica ou industrial. E nós, como europeus, estamos na periferia do império norte-americano e, além disso, enviamos informações para ele. Fomos incapazes de criar o equivalente do Google, Facebook ouApple para conservar essas informações na Europa. Todas as informações que os europeus produzem transitam pelos Estados Unidos. O império norte-americano controla 80% de tudo o que passa através da internet no mundo. Imagine! O Google conta com mais de um bilhão de usuários no mundo. E toda a informação produzida por esse bilhão de usuários passa pelos Estados Unidos.
No plano militar ocorre o mesmo. Quando a França lançou a ofensiva contra os militantes islâmicos radicais em Mali teve que pedir respaldo norte-americano. Os Estados Unidos forneceram a França informação, radares e drones. Os exércitos da Europa dependem hoje das informações fornecidas pelos Estados Unidos. Os únicos que conseguiram desenvolver algumas tecnologias próprias são os chineses.