segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Mas para que serve a riqueza?

 

Trabalhar cansa

 
Vinicius Torres Freire, jornalista, comentando dois livros recentes, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, 25-08-2013.
"Mas para que serve a riqueza?", pergunta Resende, secundando Keynes. Para reduzir o tempo dedicado ao trabalho. Nos termos de Belluzzo, formulados com o auxílio do mesmo Keynes (ecoando Marx), a economia industrial suscitou a "esperança do aumento do tempo livre desfrutado de forma enriquecedora por indivíduos autônomos", utopia negada por sociedades, porém, cada vez mais ricas", continua o jornalista.
Segundo Torres Freire, "note-se uma última coincidência essencial nos oceanos de diferenças entre Resende e Belluzzo, ou pelo menos um grande farol de suas preocupações: a ruína política no capitalismo plenamente desenvolvido ou esgotado, a depender dos autores".
Eis o artigo.
A crise de 2008 serve como ponto de fuga para dois livros acerca de um certo esgotamento do capitalismo. André Lara Resende e Luiz Gonzaga Belluzzo enfocam as perver sões da sociedade consumista e os impasses do crescimento, considerado tanto inviável a longo prazo como incapaz de promover qualidade de vida.
"Por que e para que crescer são perguntas que deixaram de ser feitas. Não costumamos nos questionar sobre o óbvio", afirma André Lara Resende num dos 18 artigos recolhidos em"Os Limites do Possível: a Economia além da Conjuntura" [Portfolio, 288 págs., R$ 44,90].
O economista causou certa sensação em 2012 ao associar a dificuldade de solução da crise de 2008 ao esgotamento dos recursos naturais do planeta.
A saída menos dolorosa para a crise e seu entulho econômico maior, o excesso de dívidas, seria o crescimento econômico. Porém, dado o "limite físico do ecossistema", que "pode ter sido atingido ou está muito próximo", "não há mais como pretender que a economia mundial volte a crescer". Caso cresça, não será por muito mais tempo, pois "não há como viabilizar 7 bilhões de pessoas, com o padrão de consumo e as aspirações do mundo contemporâneo, nos limites físicos da Terra", ideias em parte baseadas no livro "The Great Disruption", do ambientalista Paul Gilding.
Esses são "os novos limites do possível", título de um artigo do livro, de janeiro de 2012, publicado como a maioria dos demais no jornal "Valor Econômico".
Resende, como se sabe, foi um dos economistas que pensaram as manhas da inflação brasileira e as bases dos planos econômicos que dariam no Real. Foi professor da PUC do Rio, serviu no governo FHC e trabalha como financista.
Os Limites do Possível dialoga enfronhada e inadvertidamente com outra obra recente, O Capital e suas Metamorfoses [ed. Unesp, 192 págs., R$ 32], de Luiz Gonzaga Belluzzo, professor titular da Unicamp, também homem público e empresário na área de educação. O livro de  Belluzzo é feito de cinco ensaios baseados em aulas e textos dos anos 80 e 90, além de dois trabalhos mais conjunturais, dedicados à economia contemporânea.
Os dois livros têm como ponto de fuga a crise de 2008, a qual no entanto tratam como uma circunstância, embora grave, de processos históricos muito mais amplos. No caso de Belluzzo, como desenvolvimento último e consequente da lógica da acumulação capitalista. No caso de Resende, como inconsequências devidas à incompreensão de certo esgotamento capitalista, entre outros erros.
No livro, Resende comenta artigo do economista Robert J. Gordon que discute uma implicação ora lúgubre da teoria neoclássica do crescimento. No longo prazo, o crescimento depende dos ganhos de produtividade derivados do progresso tecnológico, avanços que nas economias ricas são agora muito menores que os registrados entre os séculos 18 e o final do 20. As economias na fronteira tecnológica tenderiam a crescer agora mais devagar.
Abismo
Ou seja, além de à beira do precipício ambiental, as economias avançadas talvez apenas possam chegar ao abismo se arrastando, se tanto, ou movidas a bolhas de consumo suicidas. A dificuldade de crescer não decorre pois da circunstância da crise de 2008, que seria mais um efeito das tentativas exageradas de anabolizar, com excesso de consumo e dívidas, economias que deram o que tinham que dar.

O crescimento, além de inviável ou esgotado, talvez também não seja mais desejável, quando não sem sentido. Res ende aceita, com restrições, conclusões de estudos em voga segundo os quais a satisfação (ou a felicidade) dos indivíduos deixa de aumentar a partir de um certo nível de renda.
Por que então crescer mais? Para aumentar a renda per capita: tornar a população na média mais rica (isto é, tornar a economia mais produtiva).
"Mas para que serve a riqueza?", pergunta Resende, secundando Keynes. Para reduzir o tempo dedicado ao trabalho. Nos termos de Belluzzo, formulados com o auxílio do mesmoKeynes (ecoando Marx), a economia industrial suscitou a "esperança do aumento do tempo livre desfrutado de forma enriquecedora por indivíduos autônomos", utopia negada por sociedades, porém, cada vez mais ricas.

Porém "nunca [atualmente] se considerou tão fundamental trabalhar... e nunca se considerou tão ameaçadora a ideia de que a economia possa não crescer", comenta Resende."O mundo contemporâneo" (e não só), no entanto, não tem opinião unívoca sobre o assunto, apesar do que dá a entender, talvez por lapso, o texto do economista. Há conflito social, desculpe-se a obviedade.
Os trabalhadores franceses, por exemplo, nos anos 1990 bateram-se pelo direito à semana de 35 horas, motivo de crítica ou desprezo e chacota dos economistas padrão. Os franceses seguem uma tradição moderna, de pelo menos 250 anos, de combate pelo direito ao tempo livre ou mesmo à preguiça; pelo direito de ganhar menos e seguir uma vida mais calma, como os plantadores de batata alemães estudados pela sociologia alemã da virada do século 19 para o 20, ou como tantos socialistas.
Barbárie
Os motivos da barbárie que é negar, a bilhões de indivíduos, condições de subsistência e de realização da vida boa são tratados de modo complexo pelos autores, mas no meio do caminho os dois curiosamente se detêm na mesma pedra cheia de musgo da obra do economista Thorstein Veblen (1857-1929), sua "Teoria das Classes Ociosas" (1899) e seu conceito de "consumo conspícuo", marginalizados pela teoria econômica tradicional.
Os dois tratam das perversões da sociedade consumista, com ênfase mais "psicológica" no caso de Resende e mais "sociológica" no caso de Belluzzo, para recorrer a um resumo adjetivo precário. Como diz Resende, não é a riqueza absoluta, mas a riqueza relativa que nos importa. "Não nos basta ser apenas ricos, mas sim mais ricos que nossos pares."
Ressalte-se que os enfoques são, porém, completamente diferentes. Apesar de se declarar ex-economista na introdução de seu livro, Resende não lança fora os fundamentos padrão de sua profissão, a qual no entanto tornou-se "um campo menor da matemática aplicada" (fala da teoria macroeconômica).

Na economia de Belluzzo, trata-se de uma conversa metaheterodoxa travada por Marx eKeynes, entre outros algo menos cotados; economia e sociedade são um caldo de cu ltura que resulta da mesma moenda do capital, da acumulação sem sentido, o que não é um problema, mas fundamento, da economia padrão.
O Capital e suas Metamorfoses pode ser lido como uma série de razões que desmontam argumentos vulgares sobre as origens e desenvolvimento da crise de 2008: imoralidade dos financistas, mero defeito da regulação da economia, "desvirtuamento" da economia de mercado ou "descolamento" da "valorização fictícia dos estoques de riqueza em relação à geração de valor na esfera produtiva".

Nos ensaios, Belluzzo reapresenta a maquinaria conceitual de O Capital de Marx, em diálogo com problemas atuais e com autores da tradição "ortodoxa" e "heterodoxa" da economia, em especial com KeynesBelluzzo procura mostrar congruências entre as ideias do comunista e do "fundador" da macroeconomia (Keynes) a respeito de finanças, crédito e investimento.

Por fim, note-se uma última coincidência essencial nos oceanos de diferenças entreResende e Belluzzo, ou pelo menos um grande farol de suas pre ocupações: a ruína política no capitalismo plenamente desenvolvido ou esgotado, a depender dos autores.
Na visão de Belluzzo, estamos vivendo uma situação histórica em que "a ação do Estado é vista como contraproducente pelos bem-sucedidos e integrados, mas como insuficiente pelos desmobilizados e desprotegidos. Essas duas percepções convergem na direção da deslegitimização' do poder administrativo e na desvalorização da política".
Resende não é um adepto "sem mais" do capitalismo, que cria desigualdades e exclusão (no entanto mencionadas de passagem) e promove valores (privatização excessiva da vida, consumismo etc) ora incompatíveis com a valorização da vida pública e da política, os meios de dar conta das mazelas da economia de mercado.
Mas o que seria essa revalorização da vida pública? O "projeto" é tornar compatível o mundo "globalizado" com a valorização das comunidades locais, aproximar homens públicos de sua comunidades, conter de modo drástico a influência da publicidade e do marketing sobre a vida pública, influência já bastante deletéria na promoção do consumismo.
 
     



sábado, 21 de setembro de 2013

Jaques Henno: estamos todos vigiados e fichados

          


Jacques Henno: ‘Estamos todos vigiados e fichados’

 
 
Antes de se deitar é preciso olhar embaixo da cama, desligar o sinal Wifi e fechar todos os acessos à internet da casa. A última leva de informações sobre a espionagem norte-americana atravessa uma nova fronteira da violação da privacidade. O jornal The New York Times revelou que Washington corrompeu toda a tecnologia que protege a internet para acentuar a espionagem. Por meio da Agência Nacional de Segurança norte-americana (NSA), os Estados Unidos roubaram chaves de segurança, alteraram programas e computadores e forçaram certas empresas a colaborar com o objetivo de ter acesso a comunicações privadas, tanto dentro como fora do território norte-americano. A NSA não respeitou limite algum: correios eletrônicos, compras na internet, rede VPN, conexões de alta segurança (o famoso SSL), acesso aos serviços de telefonia da Microsoft, Facebook,Yahoo e Google, a lista dos novos territórios de caça é interminável.
A entrevista é de Eduardo Febbro, publicada pelo jornal Página/12 e reproduzida por Carta Maior, 08-09-2013.
Eis a entrevista.
Segundo o diário norte-americano, a NSA gasta mais de 250 milhões de dólares anuais em um programa chamado Sigint Enabling cuja meta consiste em modificar a composição de certos produtos comerciais – computadores, chips, telefones celulares – para torná-los vulneráveis, ou seja, acessíveis aos ouvidos da NSA. A isto se somam as informações publicadas por Wikileaks sobre 80 empresas privadas que se servem das novas tecnologias para captar (espionar) em tempo real os intercâmbios no Facebook, MSN, Google Talk, etc. Estamos na mais perfeita intempérie tecnológica de maneira permanente sem que a vítima tenha a menor consciência disso. Um crime perfeito.
Em entrevista à Carta Maior, o pesquisador e especialista das novas tecnologias, Jacques Henno, analisa todos estes abusos e tendências que se inscrevem em uma nova era marcada pelo nascimento de um lobby entre os militares, a informática, os dados e os arquivos. Henno publicou vários livros que anteciparam de maneira detalhada e rigorosa as informações divulgadas pelo ex-analista da CIA e da NSA, Edward Snowden: estamos todos vigiados. “Silicon Valley: Prédateurs Vallée?” (Silicon Valley, o vale dos predadores) e “Tous Fichés: l’incroyable projet américain por d’éjouer les atentas terroristes” (Estamos todos arquivados: o incrível projeto americano para evitar os atentados terroristas) exploram com muita lucidez um mundo de espionagem e violação dos direitos que, até algumas semanas, parecia produto de uma imaginação paranoica. As investigações de Jacques Henno demonstraram que não. As revelações de Snowd en provaram que o especialista francês tinha razão.
 
Estamos descobrindo com uma assombrosa passividade a profundidade da espionagem de que somos alvo por parte dos Estados Unidos.
 
É preciso lembrar que a informática ao serviço do totalitarismo existe desde os anos 40. Durante a Segunda Guerra Mundial, se os campos de extermínio nazistas foram tão eficazes foi porque os alemães usaram as máquinas IBM que funcionavam com os cartões perfurados para contabilizar todas as pessoas. De modo similar, o Plano Condor que funcionou entre as ditaduras da América Latina para perseguir os opositores foi montado com o suporte de computadores vendidos pelos norte-americanos para as ditaduras da América do Sul. Estes computadores serviam para fichar os opositores.
 
Quando e como nasceu a espionagem moderna tal como está se revelando hoje?
 
Tudo isso nasce com um programa chamado TIA, Total Information Awareness. Após os atentados de 11 de setembro de 2011, os norte-americanos trataram de encontrar tecnologias capazes de prevenir este tipo de atentados. Rapidamente se deram conta de que tinham nas mãos todas as informações necessárias. Por exemplo, os terroristas que cometeram os atentados do 11 de setembro tinham sido identificados antes, quando andaram de avião, ou quando dois deles se escreveram em escolas de pilotagem de aviões. Tinham até fotos deles sacando dinheiro de um caixa automático. No entanto, o que faltava era a metodologia para unir todos esses arquivos e informações. Neste processo, entraram em ação empresas que foram ao governo norte-americano dizer: “nós trabalhamos com arquivos e podemos ajudá-los a prevenir atentados. Assim nasceu o sistema de vigilância completa, Total Information Awareness, ITA, capaz de criar arquivos sobre qualquer p essoa no mundo, sobre todos os habitantes do planeta, a fim de ter um máximo de informações sobre cada pessoa e, assim, descobrir sinais de preparação de atentados terroristas.
A Acxiom, por exemplo, é uma destas empresas. Ela é totalmente desconhecida para o grande público, mas é uma das empresas que detém o maior de arquivos sobre os consumidores do mundo. A cada ano, realiza pesquisas sobre a comida que damos aos gatos, o tipo de papel higiênico que utilizamos ou os livros que lemos. Na França, a Comissão Nacional de Informática e Liberdades (CNIL) se opôs várias vezes às pesquisas da Acxiom.
 
Essa tecnologia deu lugar ao nascimento de uma espécie de mega-sistema de cálculo matemático que cria perfis segundo uma série aparentemente racional de informações.
 
Exatamente. Por exemplo, logo depois dos atentados em Londres se descobriu que os terroristas preparavam os atentados comprando antes refrigeradores de grande capacidade para armazenar os explosivos. Com base nisso, agora, quem compra congeladores de grande capacidade torna-se suspeito e, por conseguinte, é fichado e vigiado. O mesmo ocorre com os aviões. Se alguém embarca em um avião rumo aos Estados Unidos e viaja pela primeira vez em classe executiva ou primeira classe também passa a ser vigiado. Os assentos de primeira classe são muito controlados porque estão mais perto da cabine dos pilotos. Então, se alguém compra uma passagem nesta classe e, segundo o resumo dos gastos do cartão de crédito, essa pessoa não tem os meios para pagar um bilhete a esse preço, automaticamente estará sob vigilância.
Em resumo, os norte-americanos exploram todas as informações que obtém de uma pessoa. Eles são, ao mesmo tempo, paranoicos e amantes da tecnologia. Paranoicos porque há muito tempo vivem armados. E amantes da tecnologia porque, cada vez que há um problema tratam de encontrar uma solução técnica e não forçosamente social ou econômica.
 
O curioso é que boa parte desses dados utilizados pela NSA foram entregues voluntariamente pelos usuários.
 
Claro. Quando nos inscrevemos no portal de uma empresa norte-americana, Yahoo,Microsoft, Google ou outras, não lemos até o final as condições de utilização. No entanto, se prestarmos atenção veremos que ali é dito textualmente: “autorizo o armazenamento destas informações no território norte-americano”. Agora, se os dados que confiamos a Yahoo,Microsoft, Amazon, Facebook ou Google estão armazenados no território norte-americano, eles estão regidos pelo direito norte-americano. A lei votada depois dos atentados de 11 de setembro, o Patriot Act, permite a qualquer governo norte-americanorequisitar os arquivos e dados que julgar necessários. Os dados que entregamos a essas empresas vão parar na NSA.
Há uma mudança fundamental na regra da constituição dos lobbies que atuam nos Estados Unidos. O lobby da defesa mudou de perfil com as tecnologias da informação.
Sim. Antes se falava de um lobby militar-industrial. Havia, de fato, uma conjunção entre a indústria e os militares. Agora não. O lobby atual é entre os especialistas nestes arquivos, os técnicos em informática e os militares. Não somos conscientes da quantidade de informações privadas que fornecemos a cada dia aos operadores privados da internet. Por exemplo, no Facebook se publicam a cada dia 350 milhões de fotos. Ao cabo de dez dias, há 3,5 bilhões de fotos, e em cem dias 35 bilhões. O Facebook é hoje a maior base de imagens do mundo. É uma incrível quantidade de informações que fornecemos. O Google, por exemplo, é capaz de prevenir a epidemia de gripes no mundo só calculando a quantidade de pessoas que, em um determinado lugar, busca informação sobre os sintomas da gripe e como curá-la. Além disso, os custos desta tecnologia, de armazenamento, memória ou microprocessadores, são cada vez mais baixos. A NSA é perfeitamente capaz de armazenar todas essas informações e analisá-las com programas especializados, incluindo os e-mails que enviamos e recebemos.
 
Como você demonstra em seu livro “Sillicon Valle, vale dos predadores?”, tanto a espionagem como o dinheiro que Google ou Facebook ganham na internet provém de nossa...digamos, inocência.
 
O Vale do Silício é o vale do Big Data. Empresas como Google ou Facebook vivem dos dados que nós fornecemos. Com eles, tratam de saber quais são nossos centros de interesse e, a partir daí, nos enviam publicidades que correspondem a nosso perfil. Um portal como o Facebook vive da publicidade e fará todo o possível para saber mais coisas sobre nós e nossos amigos, para incitar-nos a publicar mais e mais coisas sobre nós. Uma vez obtidos esses dados, o que fazem é materializar essas informações sob a forma de publicidades. A essas empresas só interessam nossos dados, nossas informações, querem ampliar o campo da vida privada. Na verdade, não querem que o que dizemos pertença ao campo da vida privada, mas sim ao da vida pública.
O Facebook é capaz de identificar e classificar as pessoas em função de suas preferências por determinadas práticas sexuais ou por certas drogas. Isso é muito perigoso porque, em alguns países, há práticas sexuais que estão proibidas. Por conseguinte, a esses regimes políticos basta ir ao Facebook, fazer uma busca por idade, diplomas, zonas geográficas e práticas sexuais para encontrar as pessoas que queiram. Qualquer regime político tem acesso a todas essas informações. Em resumo, assistimos a um fichamento sexual, ideológico, político e religioso.
 
A Europa, neste terreno, é um mero aliado sem influência, um cliente menor. O que ocorreu com os europeus que ficaram dormindo, sem capacidade tecnológica alguma?
 
O império norte-americano utiliza as rotas da informação para captar as informações a fim de garantir sua segurança e, também, para a espionagem econômica ou industrial. E nós, como europeus, estamos na periferia do império norte-americano e, além disso, enviamos informações para ele. Fomos incapazes de criar o equivalente do Google, Facebook ouApple para conservar essas informações na Europa. Todas as informações que os europeus produzem transitam pelos Estados Unidos. O império norte-americano controla 80% de tudo o que passa através da internet no mundo. Imagine! O Google conta com mais de um bilhão de usuários no mundo. E toda a informação produzida por esse bilhão de usuários passa pelos Estados Unidos.
No plano militar ocorre o mesmo. Quando a França lançou a ofensiva contra os militantes islâmicos radicais em Mali teve que pedir respaldo norte-americano. Os Estados Unidos forneceram a França informação, radares e drones. Os exércitos da Europa dependem hoje das informações fornecidas pelos Estados Unidos. Os únicos que conseguiram desenvolver algumas tecnologias próprias são os chineses.
 
     

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Relatório indica que 2012 bateu recorde de aumento de nível do mar

 

Relatório indica que 2012 bateu recorde de aumento do nível do mar

 
O ano de 2012 foi recorde em perda de gelo no Ártico, em aumento do nível do mar e em emissão de gases do efeito estufa, segundo relatório divulgado nesta terça-feira pela Administração de Oceanos e Atmosfera dos Estados Unidos (NOAA).
A informação é publicada pelo portal Terra, 06-08-2013.
Além disso, 2012 esteve entre os 10 anos mais quentes desde que há registros, e países como os Estados Unidos e a Argentina tiveram o ano mais quente de suas histórias.
"Os níveis de carbono estão subindo, os níveis do mar estão subindo, o gelo do Ártico está derretendo e nosso planeta em seu conjunto está se transformando em um lugar mais quente", resumiu a diretora interina da NOAA,Kathryn Sullivan.
Este estudo sobre o clima em 2012 foi elaborado por 384 cientistas de 52 países.
O gelo marinho do Ártico alcançou seu nível mínimo em setembro, e em junho a camada de neve no hemisfério norte também chegou a mínimos históricos.
Além disso, durante um período de dois dias, em julho de 2012, 97% da camada de gelo da Groenlândia mostrou algum tipo de degelo, quatro vezes mais intenso que a média para a época do ano.
As temperaturas da superfície dos oceanos também aumentaram, segundo a NOAA, e, neste aspecto, 2012 foi um dos 11 anos mais quentes entre os registrados.
Após as quedas no primeiro semestre de 2011 por efeito do fenômeno "La Niña", em 2012 os níveis do mar se recuperaram e superaram seu recorde anterior.
Após uma pequena baixa associada à recessão econômica mundial, as emissões globais de gases do efeito estufa procedentes da queima de combustíveis fósseis também superaram recordes e as concentrações atmosféricas de dióxido de carbono (CO2) chegaram a uma média de quase 400 partes por milhão (ppm).
 
 




terça-feira, 17 de setembro de 2013

Agronegócio, um modelo esgotado

          

                        
Perante uma atenta plateia composta por mais de 3 mil pessoas, a renomada cientista indiana Vandana Shiva  fez uma palestra de uma hora, respondeu a perguntas e encantou a todos com suas ideias, experiências e convicções, durante a abertura do III Encontro Internacional de Agroecologia, no dia 31 de julho, na cidade de Botucatu, interior de São Paulo.
 
 
A reportagem é de Péricles de Olveira, publicada no jornal Brasil de Fato, 06-08-2013.



Vandana foi muito contundente ao longo de toda a sua fala. Começou contando de sua vida, de como havia estudado biologia e física quântica na universidade e de como se considerava uma pessoa alienada da realidade do mundo.
Esclareceu que o choque que a fez despertar foi um grave acidente ocorrido, 30 anos atrás, numa fábrica de pesticidas – que resultou numa tragédia, com a morte de mais de 35 mil indianos. A partir daí, é que ela acaba se convertendo à causa do povo e não para mais de pesquisar a ação das empresas transnacionais sobre a agricultura.
Hoje, ela é considerada uma das principais pesquisadoras dos malefícios para a saúde humana e para a destruição da biodiversidade que as sementes transgênicas e os agrotóxicos das empresas transnacionais vêm causando em todo o mundo.
 
“Revolução Verde”
Vandana falou sobre as consequências da chamada Revolução Verde, imposta pelo governo dos Estados Unidos, na década de 1960, a toda a sua área de influência como forma de vender mais insumos agroquímicos e suas mercadorias agrícolas.
O resultado disso – o de subjugar países e camponeses – pode ser visto hoje, já que 65% de toda a biodiversidade e dos recursos de água doce do planeta foram contaminados por agrotóxicos.
Além disso, há estudos comprovando que 40% de todo o efeito estufa que afeta o clima no planeta é causado pelo uso exagerado, desnecessário, de fertilizantes químicos na agricultura. Chegou a dizer, inclusive, que em muitas regiões da Europa, em função da mortandade e desaparecimento das abelhas, a produtividade agrícola já teria caído 30%.
A indiana atentou para o fato de que se fôssemos calcular os prejuízos e custos necessários para repor a biodiversidade e reequilibrar o meio ambiente com vistas a amenizar os desequilíbrios climáticos, eles seriam maiores, em dólares, do que todo o comércio de commodities que as empresas realizam.
 
Genocídio
Em relação à ação das empresas transnacionais que atuam na agricultura – comoMonsantoBungeSyngenta e Cargill – também não poupou críticas. Denunciou que elas controlam a produção e o comércio mundial da soja, milho, canola e trigo. E que fazem propaganda enganosa dizendo que a humanidade depende dos alimentos produzidos pelo agronegócio pa ra sobreviver, quando na prática a humanidade se alimenta com centenas de outros vegetais e fontes de proteínas, que elas ainda não puderam controlar.
Disse que essas “empresas, ao promoverem as sementes transgênicas, não inventaram nada de novo. Não desenvolveram nada. O único que fizeram foi fazer mutações genéticas que existem na natureza para viabilizar a venda de seus agrotóxicos”.
Citou que a Monsanto conseguiu controlar a produção de algodão na Índia, apoiada por governos subservientes, neoliberais, e que hoje 90% da produção depende de suas sementes e venenos. Com isso houve uma destruição do modo camponês de produzir algodão e um endividamento dos que permaneceram.
A conjunção do alto uso de venenos intoxicantes que levam à depressão e a vergonha da dívida fez com que, desde 1995 até os dias de hoje, houvesse 284 mil suicídios entre os camponeses indianos. Um verdadeiro genocídio escondido pela imprensa mundial e cuja culpada principal seria a Monsanto.
Apesar de tantos sacrifícios humanos, a Monsanto ainda recolhe em seu país 200 milhões de dólares anuais, cobrando royalties pelo uso de sementes geneticamente modificadas de algodão.
Commodities não são alimentos
O modelo do agronegócio é apenas uma forma de se apropriar do lucro dos bens agrícolas, mas ele não resolve os problemas do povo. Tanto é que aumentamos muito a produção, poderíamos inclusive abastecer 12 bilhões de pessoas [quase o dobro da população mundial], mas, no entanto, temos 1 bilhão de pessoas que passam fome todos os dias, sendo 500 milhões delas camponesas que vivem no meio rural e que tiveram seu sistema de produção de alimentos destruído pelo agronegócio.
As commodities agrícolas são meras mercadorias agrícolas, não são alimentos. Cerca de 70% de todos os alimentos do mundo ainda são produzidos pelos camponeses. É preciso entender que alimentos são a síntese da energia necessária que os seres humanos precisam para sobreviver, a partir do meio ambiente em que vivem, recolhendo essa energia d a fertilidade do solo e do meio ambiente.
Quanto maior a biodiversidade da natureza, maior o número de nutrientes e mais sadia será a alimentação produzida naquela região para os humanos. E o agronegócio destrói a biodiversidade e as fontes de energia verdadeiras.
As empresas lançam mão de um fetiche gerado pela propaganda, de que estão usando modernas técnicas de biotecnologia para aumentar a produtividade das plantas, mas isso é um engodo. Quando se vai pesquisar o que são tais biotecnologias, elas são guardadas em segredo. Porque, no fundo, elas não mudam nada na natureza. São apenas mecanismos para aumentar a rentabilidade econômica das grandes plantações.
Na verdade, a agricultura industrial é a padronização do conhecimento, é a negação do conhecimento sobre a arte de cultivar a terra. Porque o verdadeiro conhecimento é desenvolvido pelos próprios agricultores, e pelos pesquisadores, em cada região, em cada bioma, em cada planta.
 
Consumidores
O modelo do agronegócio quer transformar as pessoas apenas em “consumidores” de suas mercadorias. Vandana nos diz que devemos combater o uso e o reducionismo da expressão “consumidores”, que devemos usar o termo “seres humanos”, pessoas que precisam de uma vida saudável. “Consumidor” indica uma redução subalterna do ser humano.
As empresas do agronegócio dizem que são o desenvolvimento e o progresso. Na prática, chegam a controlar 58% de toda produção agrícola do mundo, porém, dão trabalho para apenas 3% das pessoas que vivem no meio rural. Portanto, o agronegócio é um sistema antissocial.
A indiana revelou ainda que fez parte de um grupo de 300 cientistas de todo mundo que se dedicam a pesquisar a agricultura e que após realizarem diversos estudos, durante três anos, comprovaram que nem a Revolução Verde imposta pelos Estados Unidos, nem o uso intensivo das sementes transgênicas e dos agroquímicos podem resolver os problemas da agricultura e da alimentação mundial. Algo que só pode acontecer por meio da recuperação de práticas agroecológicas que convivam com a biodiversidade, em cada local do planeta.
Vandana concluiu sua crítica ao modelo do agronegócio dizendo que ele projeta a destruição e o medo, porque é concentrador e excludente. Por isso, tornou-se algo comum o costume dessas empresas ameaçarem ou cooptarem os cientistas que se opõe a elas.
 
A saída é a agroecologia
Após criticar duramente o modelo do capital, a cientista dedicou sua palestra a projetar as técnicas ou o modelo de produção da agroecologia como a alternativa popular e necessária para produção de alimentos.
Defendeu que o modelo da agroecologia é o único que permite desenvolver técnicas de aumentar a produtividade e a produção sem a destruição da biodiversidade.
Que a agroecologia é a única forma de criar empregos e formas de vida saudáveis para a população permanecer no campo e não ter de se marginalizar nas grandes cidades. Sobretudo, fez a defesa de que os métodos da agroecologia são os únicos que conseguem produzir alimentos sadios, sem venenos.
 
Dificuldades da transição
Quando perguntada sobre as dificuldades da transição entre os dois modelos, contestou, citando a Índia: “Nós já tivemos problemas maiores na época do colonialismo inglês. No entanto, Gandhi nos ensinou que a nossa fortaleza é sempre ‘lutar pela verdade’, porque o capital engana e mente para poder acumular riquezas. Mas a verdade está com a natureza, está com as pessoas”.
Dessa energia que emana de GandhiVandana reforçou: “Se houver vontade política para fazer a mudança, se houver vontade para produzir alimentos sadios, será possível cultivá-los”.
Vandana concluiu conclamando a todos a se envolverem e participarem do Encontro Mundial de Luta Pelos Alimentos Sadios e Contras as Empresas Transnacionais que a Via Campesina, os movimentos de mulheres e centenas de entidades realizam todos os anos, na semana de 16 de outubro. “Precisamos unificar as vozes e as vontades em nível mundial. E essa será uma ótima oportunidade.”
 
Recomendações
Quando perguntada sobre as recomendações que daria aos jovens, aos estudantes de agronomia, aos agricultores praticantes da agroecologia, Vandana Shiva elencou seis pontos:
Primeiro: disse que a base da agroecologia é a preservação e a valorização dos nutrientes que há no solo. Neste instante, a indiana fez referência a outra cientista presente na plateia que a assistia muito atenta, a professora Ana Maria Primavesi. “Precisamos ir aplicando as técnicas que garantam a saúde do solo, e dessa saúde, recolheremos frutos com energia saudável.”
Segundo: estimular que os agricultores controlem as sementes. As sementes são a garantia da vida. “Nós não podemos permitir que as empresas transnacionais transformem nossas sementes em meras mercadorias. As sementes são um patrimônio da humanidade.”
Terceiro: precisamos relacionar a agroecologia com a produção de alimentos saudáveis que garantam a saúde e assim conquistar os corações e mentes da população da cidade, que está sendo cada vez mais envenenada pelas mercadorias com agrotóxicos. “Se vincularmos os alimentos com a saúde das pessoas, ganharemos milhões de pessoas da cidade para a nossa causa.”
Quarto: precisamos transformar os territórios em que os camponeses têm hegemonia em verdadeiros santuários de sementes, de árvores sadias, de cultivo da biodiversidade, da criação de abelhas, da diversidade agrícola.
Quinto: precisamos defender a ideia que faz parte da democracia, a liberdade das pessoas de terem opções de alimentos. Elas não podem mais serem reféns dos produtos que as empresas colocam nos supermercados de acordo com a sua vontade apenas.
Sexto: precisamos lutar para que os governos parem de usar dinheiro público – que é de todo o povo – para subsidiar, transferir esses recursos para os fazendeiros. Isso vem acontecendo em todo o mundo e também na Índia. O modelo do agronegócio não se sustenta sem os subsídios e vantagens fiscais que os governos lhes garantem.

      

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Análise do uso do Twitter revela ‘mapa’ de protestos no Brasil


Uma análise da atividade dos brasileiros no Twitter durante a onda de protestos que atingiu o país no mês de junho fornece um "mapa" da intensidade dos protestos e revela detalhes sobre a mobilização das pessoas por meio das redes sociais.



A reportagem é de Mariana Della Barba e Camilla Costa e publicada pela BBC Brasil, 11-07-2013.



Pesquisadores do Labic (Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura), em Vitória, no Espírito Santo, analisaram as conexões criadas entre usuários do Twitter nos principais dias de protesto e as palavras de ordem mais ecoadas na internet.



Os posts de usuários do Twitter, o segundo site de rede social mais acessado no Brasil, mostram a pluralidade de temas relacionados aos protestos e a evolução do debate sobre as manifestações em palavras-chave e hashtags ─ desde "tarifa" a "Dilma".



As redes sociais foram consideradas o motor dos últimos grandes protestos de massa em países como a Turquia, com os protestos contra a destruição do Parque Gezi; a Espanha, com o movimendo dos indignados em 2011, e nos Estados Unidos, com o movimento Occupy Wall Street, em 2010.



No Brasil, boa parte dos atos de protesto foi organizada em páginas de eventos noFacebook e acompanhada em tempo real por depoimentos, fotos e vídeos postados noTwitter, pelos celulares dos manifestantes. Em comum, eles tinham hashtags como #vemprarua e #ogiganteacordou.



"A emoção gerada nas ruas entra na internet, via celular, e causa comoção, solidariedade. E isso vai sendo disseminado, contaminando os seguidores de quem compartilhou ou deu um deu um RT (retweet) na mensagem", disse Fabio Malini, professor da Universidade Federal do Espírito Santo e coordenador do Labic, à BBC Brasil. "E isso fica tão intenso que gera uma mobilização e volta para as ruas, já que mais gente resolve sair para protestar. Assim, o ciclo recomença. É algo que se retroalimenta."



Agitação crescente



Gráficos que mostram o debate no Twitter em torno das tarifas de transporte público em São Paulo no dia 13 de junho mostram a ativação da rede social minutos antes e logo após o início do confronto dos manifestantes com a polícia ─ tido como o episódio que "espalhou" os protestos pelo resto do país.



"O retrato dessa rede é a genealogia, o momento inicial do conflito no Brasil. Acho que é a partir daí que se multiplicam as hashtags e o conflito em outros estados. No momento do confronto, a rede se intensifica e as pessoas começam dar seus depoimentos e compartilhar depoimentos sobre o que estava acontecendo", afirma Malini.



Assim que o confronto começa, os relatos de violência policial ganham a rede na forma de tweets ─ muitas vezes acompanhados por fotos e vídeos, naquela ocasião, incluindo manifestantes e jornalistas feridos ─, e a temperatura da discussão online aumenta.



A partir do dia 13, segundo Malini, o nome da presidente Dilma Rousseff passa a ser mais mencionado no site, ao mesmo tempo em que manifestantes e defensores dos protestos começam a dizer que a luta não era somente por R$ 0,20, mas também por melhores serviços públicos e contra a corrupção.



No dia 17 de junho, quando aconteceram cerca de 30 manifestações em todo o país, a análise do Labic já mostra "aglomerados" de pessoas que apoiam e que criticam o governo federal, além do papel da mídia dentro do debate.



"A mídia aparece aqui mais como difusora de informações do que associada a um dos lados. As notícias colocadas no Twitter são compartilhadas por ambos os lados para enfatizar seus argumentos", explica o pesquisador.



Além de críticas e defesas do governo, outro grupo de usuários "verbaliza pautas que os dois grandes grupos (de oposição e apoio ao governo) não mobilizam, como a questão dos índios e dos grandes projetos de desenvolvimento, a questão da mobilidade urbana e a crítica aos gastos da Copa".



Celulares



Entre 16 e 19 de junho, a participação no Twitter atinge seu ápice ─ quase 170 mil perfis participam das discussões. Também no Facebook, segundo um levantamento da consultoria Serasa Experian divulgado pelo jornal Valor Econômico, a taxa de participação (perfis de usuários que tiveram atividade) dos brasileiros chegou a 70%, o terceiro maior índice do ano.



A partir de então, o levantamento do Labic mostra uma queda acentuada no número de tweets e de usuários falando sobre protestos. Mas, longe de indicar o fim da mobilização política, a análise mostra somente que o foco do debate mudou após a diminuição dos protestos, de acordo com Fabio Malini. "O universo vocabular tem mudado para (palavras como) assembleia, plebiscito e greve geral."



Um retrato do papel dos celulares na difusão dos protestos também aparece na análise do Labic.



Malini chama a atenção para o fato de que o mapa da distribuição de tweets sobre os protestos no território nacional ─ feito com cerca de 10% da amostra, que continha dados de localização ─ tem uma configuração muito semelhante ao mapa da banda larga no país (Clique veja aqui), criado pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br).



"O acesso à internet 3G era fundamental para registrar e dar visibilidade ao protesto", diz o pesquisador. "Os movimentos sociais aprenderam que a internet é estratégica para dar força de comoção às suas lutas. Em compensação, todo um conjunto de protestos foi eclipsado pela falta de acesso a banda larga e rede 3G de qualidade."

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Manifesto Convivialista

“O convivialismo, uma ideia nova para evitar a catástrofe”. Entrevista com Alain Caillé

“Jamais a humanidade dispôs de tantos recursos materiais e competências técnicas e científicas (...) Mas, por outro lado, ninguém pode mais acreditar que essa acumulação de poder possa prosseguir indefinidamente, tal qual em uma lógica de progresso técnico inalterada, sem se voltar contra ela mesma e sem ameaçar a sobrevivência física e moral da humanidade”. Essas são as primeiras frases do Manifesto do Convivialismo, uma publicação de 40 páginas, mas de grande ambição intelectual diante desse sentimento de urgência.



Na origem está a vontade de Alain Caillé, sociólogo fundador do MAUSS (Movimento Antiutilitarista nas Ciências Sociais), que conseguiu reunir e fazer trabalhar juntos um grupo de 64 pesquisadores e universitários procedentes do mundo inteiro, de sensibilidade altermundista, ecologista, ou oriundos do cristianismo social (Edgar Morin, Susan George,Patrick Viveret, Serge Latouche, Elena Lassida, Jean Baptiste de Foucauld, Jean Pierre Dupuy, Jean Claude Guillebaud...). O resultado é a elaboração de uma nova base doutrinal filosófica, o convivialismo, para responder às quatro grandes crises – moral, política, econômica e ecológica – vividas pelas nossas sociedades nesse início do século XXI.



A entrevista é de Olivier Nouaillas e publicada no sítio da revista francesa La Vie, 17-06-2013. A tradução é do Cepat.



Eis a entrevista.



Qual é a gênese desse Manifesto Convivialista?



O ponto de partida é um colóquio organizado em julho de 2011 em Tóquio em torno da herança de Ivan Illich. Havia especialmente três convidados franceses: Serge Latouche, que é um promotor do decrescimento, Patrick Viveret, que trabalhou muito sobre os novos indicadores de riqueza, e eu. E para minha grande surpresa, embora eu tenha muitas reticências em relação aos dois primeiros conceitos – especialmente o decrescimento que é uma palavra inutil mente desmancha-prazeres –, nós fomos capazes de ultrapassar as nossas divergências intelectuais para nos colocar de acordo sobre uma constatação: não podemos mais fundamentar o projeto democrático sobre uma perspectiva de crescimento infinito. A humanidade não sobreviverá a ele.



A questão que se coloca então e para a qual temos que encontrar um novo conceito é como, apesar das suas imperfeições, a palavra convivialismo se impôs a nós. Depois, no meu retorno à França, decidi escrever um livro Rumo a um manifesto do convivialismoreunindo pessoas – cerca de 40 nomes que eu gostaria de associar a este projeto. E para minha grande surpresa, todos eles aceitaram participar do projeto, sem nenhum confronto narcísico. Como se houvesse um sentimento de urgência diante do estado do mundo. Depois, com reuniões de trabalho em Paris e intercâmbios pela internet com outros amigos que se encontram nos Estados Unidos, no Japão e no México, chegamos a esse manifesto, um texto curto de 40 páginas, publicado pela editora Le Bord de l’Eau e que lançamos em Paris no dia 19 de junho. Eu estou muito orgulhoso com esse resultado, pois creio que soubemos manter um equilíbrio entre duas extremidades possíveis: o catastrofismo (o decrescimento) e uma versão irênica (o amor universal).



Você pode dar uma definição simples do convivialismo?



A palavra pode ser problemática. Por outro lado, quando dois terços dos participantes, se reuniram, dissemos: “Estamos de acordo em trabalhar juntos, mas não em relação ao termo que se utilizaria”. Certamente, porque compreendia, por um lado, a palavra convivialidade e, por outro, havia um “ismo”. Mas, como não encontramos uma palavra melhor, voltamos ao ponto de partida. Eu defendia muito o “ismo” por uma razão fundamental: nós temos 36.000 soluções de políticas econômicas, financeiras, ecológicas para propor, mas o que nos falta hoje é uma base doutrinal de filosofia política comum. E para representar isso, nós precisamos de uma palavra em “ismo” que seja agregadora. Daí esta definição que propomos de convivialismo, segundo os trabalhos de Marcel Mauss: como conviver sem se massacrar? É uma questão prévia, central em todas as sociedades humanas e indispensável para colocar antes daquela de saber qual seria o bom regime político (monarquia, república, império, socialismo, etc.), em relação ao qual cada um pode ter suas preferências.



A constatação do mundo que vocês fazem é inquietante. Vocês evocam especialmente as “dinâmicas mortíferas”, e inclusive que “a questão da sobrevivência física e moral da humanidade está colocada”. Por que tamanho pessimismo?



Havia uma enorme inquietação em nosso grupo. Embora eu esteja cheio de otimismo, é preciso levar a sério a versão pessimista. Seria à maneira de Jean Pierre Dupuy, que afirma que “o único meio de evitar a catástrofe é estar seguro de que ela virá”. Quando se vê os riscos nucleares pós Tchernobyl e Fukushima, o esgotamento dos recursos naturais ou ainda as ameaças de aquecimento climático, só podemos estar inquietos.



Das quatro crises que o Manifesto evoca – moral, política, econômica e ecológica – qual lhe parece a mais grave?



A mais grave é, certamente, a crise moral, porque sua resolução condiciona todas as outras. Tomemos as discussões sobre o desenvolvimento sustentável; podemos imaginar todos os tipos de soluções técnicas, mas se você não tem homens e instituições confiáveis para colocá-las em prática, nada acontecerá. E, portanto, anterior a um verdadeiro desenvolvimento sustentável é uma democracia duradoura que, ela mesma, tem necessidade de um alicerce, de uma base ética duradoura. É uma condição para que os políticos não caiam na hubris, na desmedida. E a tradução concreta e visível desta desmedida é a corrupção, seja financeira, seja pelo poder. Ela explode em os cantos do mundo. Especialmente na França com a acumulação dos negócios (Cahuzac, Tapie, Guéant) que atingem tanto a direita como a esquerda. Como imaginar um instante em que podemos salvar a democracia, se, de um lado, não há mais crescimento econômico e se, do outro, todas as classes dominantes estão corrompidas? Esta corrupção está estreitamente ligada aos paraísos fiscais e a uma economia criminosa, às vezes constituída de verdadeiras máfias, como no Oriente Médio, na Ásia e na Rússia.



Pelo contrário, vocês evocam uma infinidade de iniciativas alternativas – do slow food à sobriedade voluntária, passando pelo cuidado ou pelo comércio justo. Mas elas têm peso diante de um sistema econômico mundializado?



Todas essas iniciativas aparecem de forma dispersa e não chegam a explicitar o que têm em comum. Ora, a hipótese central do Manifesto é que nós não chegaremos a inverter uma relação de forças com um neoliberalismo rentista e especulativo, caso não encontrarmos uma forma de unidade. As cúpulas altermundistas tinham esta vontade, mas elas não tiveram sucesso nisso. Porque elas permaneceram na justaposição de visões ético-ideológicas de uns e de outros, mas isso faz um patchwork insuficiente.



Com efeito, o principal problema que se coloca é um problema de filosofia política. Nós somos herdeiros das grandes filosofias políticas da modernidade: o liberalismo e o socialismo, com suas derivações que são o anarquismo e o comunismo. Estas quatro doutrinas não estão mais à altura dos atuais problemas. Porque todas elas repousam sobre uma visão errada de ser humano, visto como um “homo economicus”. As quatro doutrinas, com efeito, tinham em comum a ideia de que o principal problema da humanidade era a falta de meios para a satisfação das necessidades materiais. Que o homem é um ser de necessidades movido pela escassez e que, portanto, a solução primária é o crescimento. Ora, esta visão antropológica é falsa – os homens não são seres de necessidades, mas de desejos – e a solução proposta tornou-se impossível de achar, inclusive perigosa: o crescimento contínuo, permanente do PIB não pode mais ser uma solução. Primeiramente, porque já não é mais uma realidade nos países ricos – nós não teremos mais as taxas de crescimento dos “Trinta Gloriosos” – e, em segundo lugar, nos países emergentes vai diminuir e não será mais ecologicamente sustentável.



Quais podem ser os contornos de uma “alternativa ao modo de existência atual”? Vocês apontam algumas pistas, como a instauração de uma renda máxima ou a relocalização da produção nos territórios...



A solução está em pesquisar do lado desta velha ideia dos economistas ingleses do século XIX, como John Stuart Mill, a saber, que as sociedades tendem para um estado estacionário. Mas, hoje, tratar-se-á, com todas as invenções tecnológicas de que nos beneficiamos (na informática, na medicina, etc.) de um estado estacionário dinâmico, uma espécie de “prosperidade sem crescimento”, termo que empresto de Tim Jackson, outro economista inglês, desta vez contemporâneo.



Esta sociedade estacionária dinâmica deverá ser relocalizada, reterritorializada, permanecendo aberta ao mundo inteiro. Há uma reabilitação a fazer aqui e agora, porque nada deve ser comandado a 20.000 quilômetros de onde se vive. E se quisermos colocar no centro do projeto a luta contra a desmedida e a corrupção, isso implica igualmente duas outras medidas simples de compreender, mas mais difíceis de realizar: uma renda mínima e uma renda máxima. Para nós, tanto a extrema pobreza como a extrema riqueza são ilegítimas. Pois, o Manifesto do Convivialismo se assenta sobre uma forte vontade de justiça social.







segunda-feira, 29 de julho de 2013

Monitoramento digital é intolerável, afirma Stallman


Celebridade da computação, Richard Stallman chegou ao Fórum Internacional do Software Livre (Fisl), em Porto Alegre, deixando o mínimo de rastros possível. O pai do sistema GNU/Linux usa cartão de crédito apenas para comprar passagens de avião, não tem celular e proíbe que tirem fotos suas para postar no Facebook. O americano formado por Harvard e MIT parece ranzinza, mas contou até piadas em português.

A entrevista é de Paula Minozzo e publicada no jornal Zero Hora, 06-07-2013.

Eis a entrevista.

Como o senhor vê a inclusão digital, que permite mais pessoas com acesso à internet?

Eu não acho que inclusão digital seja necessariamente boa. Depende o tipo de sociedade digital em que vivemos. Se é uma sociedade livre, que respeita nossa liberdade, então é boa. Se é injusta e tirânica, como a que Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos proporciona, o povo está melhor sem inclusão digital. O que deveríamos fazer é lutar por uma sociedade digital livre.

Software livre seria a saída?

Não apenas o software livre. Uma das ameaças à nossa liberdade é o software que controla os usuários, ou seja, software que não é livre. Podemos nos livrar desse problema, porém há outras ameaças. O constante monitoramento digital de certos países é intolerável. As pessoas não deveriam confiar dados pessoais aos sites. As pessoas não deveriam usarsites que exigem essas informações. Eu uso internet no computador de outras pessoas, para que minha navegação não seja relacionada a mim.

O senhor tem celular?

Eu não tenho um aparelho móvel porque ele rastreia você.

Então a internet não seria um meio tão democrático assim?

Democrático é um termo ambíguo, e eu não tenho certeza do que significa, mas de alguma maneira, se você publicar conteúdo em alguns sites, você pode receber atenção sem ser rico ou famoso, mesmo que eu saiba que empresas como Microsoft pagam pessoas para falar bem dos produtos deles na internet. Há pessoas usando a internet de forma errada e, ao mesmo tempo, empresas coletam muitos dados sobre as pessoas que se relacionam com elas.

Toda empresa faz isso?

Angry Birds (jogo para smartphones), por exemplo, coleta informação sobre a localização de usuários, e claro, é um software que não é livre. Mas o que você esperava? É claro que é mal-intencionado. Os programas mais vendidos são conhecidos por terem funções maliciosas. Há três funções maliciosas: restringir o usuário (as chamadas algemas digitais), a espionagem e os backdoors (falhas no sistema que permitem entradas sem conhecimento do usuário). Computadores da Apple têm só algemas digitais, creio, mas os com Windowstêm os três.

Isso pode ser combatido?

Refleti sobre isso quando estávamos fazendo um telefone móvel apenas com software livre, mas tive de pensar: ‘há uma maneira de fazê-lo funcionar e controlar o rastreamento?’ Não consegui encontrar uma forma de fazer isso. Eu teria de carregar uma antena junto, para mirar nas torres. Seria um grande trabalho, então decidi não ter celular. Quando preciso ligar, peço para alguém fazer a ligação por mim, e nunca tive problemas. Consegui alguém todas as vezes que precisei.

Por que o senhor considera inseguras as urnas eletrônicas do Brasil?

O Brasil perdeu todas as suas possibilidades de saber se os votos são contados corretamente. Acredito também que no Brasil alguém pode descobrir os votos dos outros à distância. As urnas emitem radiação eletromagnética, que pode ser usada para ver o que está sendo mostrado na tela. Há maneiras de ver em quem se vota, e isso é muito perigoso.

Por que os governos querem saber tudo sobre as pessoas?

Porque assim o governo pode pegar qualquer delator. O governo não quer que nós saibamos o que acontece. Os Estados Unidos já mostraram que estão dispostos a caçar e condenar delatores, a qualquer custo. O monitoramento que temos nos Estados Unidos, hoje, é incompatível com os direitos humanos.

Como vê o uso dessas ferramentas para organizar protestos contra governos?

É irônico, dado o quão horrível é o Facebook. O Facebook é uma ferramenta monstruosa de monitoramento. Eu imploro para que você não use. Eu nunca usei.


sexta-feira, 26 de julho de 2013

''Há uma crise de legitimidade do atual sistema político'', diz Castells


O que há no mundo, como mostram há tempos os protestos de rua, "é uma crise de legitimidade do atual sistema político", adverte o sociólogo espanhol Manuel Castells. "É uma rejeição aos partidos e o clamor por transparência e participação", acrescenta. Estudioso, desde os anos 1990, da cultura digital e de seu impacto na sociedade, Castellsafirma que "a democracia atual deixou de ser democrática, segundo a maioria dos cidadãos do mundo". Nesta entrevista, desde Barcelona, onde vive, ele avisa: "Cabe às instituições encontrar novas formas de democracia, porque as que temos já estão esgotadas".



A entrevista é de Gabriel Manzano e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 09-07-2013.



Eis a entrevista.



Pela rápida mobilização do governo e do Congresso, o sr. vê nos protestos do Brasil um êxito maior que em outros países?



Sim, e isso se deve ao caráter mais democrático da presidente Dilma, embora essa abertura às demandas populares não se verifique também na classe política - incluindo a maioria do PT. Mas é claro que os movimentos não vão acreditar nessa abertura até verem resultados concretos nas políticas sociais e na reforma política.



A ausência, nesses atos, de movimentos tradicionais, como CUT, MST, UNE e os sem teto, indica que esses grupos, e mesmo os sindicatos, estão perdendo espaço na sociedade em rede?



Os novos movimentos sociais dispõem de autonomia de organização, debate e mobilização. As entidades burocratizadas, com uma cúpula profissional que negocia em nome dos filiados, estão tão ameaçadas quanto os partidos políticos.



Como descreveria o impacto dessas redes, em especial na democracia contemporânea?



Elas apontam para uma crise de legitimidade do atual sistema político, organizado na partidocracia, na política midiática e na dominação da política pelo dinheiro, legal e ilegalmente. Analisei todo esse processo em meu livro Comunicação e Poder (não lançado ainda no Brasil). Em todos os casos, em diferentes contextos e condições econômicas, o que há de comum é a rejeição aos partidos e o clamor por transparência e participação. Os cidadãos lembram aos políticos que o governo não é deles, mas dos cidadãos que os elegem e pagam. Agora cabe às instituições encontrar novas formas de democracia, porque as que temos estão esgotadas no mundo inteiro.



Mas os protestos organizados em rede têm limites. Não oferecem interlocutores e as demandas são muito amplas. Como superar essa contradição?



Não é uma contradição. Eles rechaçam a gestão dos governos por entender - provavelmente com razão - que a gestão dos políticos é em beneficio próprio, não para os cidadãos. Eles criticam a corrupção, a arrogância, a falta de transparência e de participação. A essa rejeição cabe às instituições responder com diálogo e propostas de mudança. Não se trata de negociar com uma cúpula, mas de responder às demandas do movimento. O que é seguro é que a democracia atual deixou de ser democrática, segundo a maioria dos cidadãos em todo o mundo, e que sua recuperação terá de ocorrer a partir dos movimentos autônomos surgidos na rede. O maior perigo para a democracia é a atual classe política.









quarta-feira, 24 de julho de 2013

Drones no jardim de sua casa

Com Drones no jardim de sua casa?
Há governos vendo como regular isso

Que o céu observe nossos comportamentos não é mais só uma questão de fé. Pequenos veículos aéreos não tripulados (drones) equipados com instrumentos de vigilância de grande precisão sobrevoam não só alguns cenários de zonas de conflito, mas também a vida civil cotidiana de muitos cidadãos. O diretor do FBI, Robert Mueller, reconheceu em 19 de junho passado diante do Congresso americano que sua agência já os utiliza em tarefas de investigação no espaço aéreo nacional. "Muito esporadicamente", explicou. Mas, depois das recentes revelações sobre os maciços e indiscriminados registros de comunicações praticados pela espionagem americana e autorizados pelos juízes locais, a explicação deMueller não é totalmente tranquilizadora.



A reportagem é de Andrea Rizzi, publicada pelo jornal El Pais e reproduzida pelo Portal Uol, 05-07-13.



Desenvolvidos pela indústria de defesa para fins militares, esses aparelhos não tripulados têm aplicações civis que se revelam extraordinariamente úteis, tanto para órgãos públicos quanto para privados. Equipamentos de diversas dimensões e características podem desempenhar com grande eficácia tarefas de detecção precoce de incêndios, vigilância e cuidado de terrenos agrícolas (necessidades de irrigação, lançamento de fertilizantes ou inseticidas, etc.), inspeção da segurança de infraestruturas como petróleo e gasodutos, controle de fronteiras, missões científicas, transporte de mercadorias ou cobertura de assuntos de interesse da mídia.



A companhia ferroviária alemã Deutsche Bahn anunciou recentemente sua intenção de utilizar helicópteros não tripulados e equipados com câmeras de radiação infravermelha para defender os trens dos grafiteiros e do vandalismo. As possibilidades são realmente infinitas e permitem economizar custos e inclusive vidas humanas.



Mas entre os cenários que se abrem também estão novas e preocupantes oportunidades de vigilância. Esses aparelhos podem ser muito pequenos, muito precisos e muito baratos, e com isso poderiam ser utilizados de maneira maciça e quase sem ser percebidos. Alguns modelos pesam menos de um quilo e custam poucos milhares de euros. Quer dizer que não só estão ao alcance de administrações públicas ou exércitos, mas também de um bom número de potenciais compradores particulares.



Por enquanto, o uso desses aparelhos por parte de usuários privados não está regulamentado na maioria dos países ocidentais. Em geral só é autorizado o uso por parte de determinadas autoridades públicas. Ou, como no caso alemão, se permite um uso privado muito restrito, substancialmente para aparelhos de tamanho reduzido, que voem em baixa altitude e à vista do operador. Na Espanha, na falta de um marco legal específico, as autoridades do setor não emitiram qualquer certificação de aeronavegabilidade para esses aparelhos, que portanto não podem voar legalmente.



Mas existe uma intensa pressão da indústria do setor e dos potenciais beneficiários para que seu uso seja liberado. Nos EUA, por exemplo, o Congresso exigiu que as autoridades aéreas determinem as regras dessa liberalização para setembro de 2015. Na Espanha o governo também prepara um esboço de decreto sobre a matéria.



Em substância, são dois os aspectos que precisam regulamentar: o código de conduta que discipline como esses aparelhos podem utilizar o espaço aéreo; e os requerimentos a fabricantes, operadores, empresas de manutenção, etc., para garantir a segurança dos mesmos.



Na era da vigilância total em que entramos de forma cada vez mais evidente, essa nova frente desperta sérias preocupações. Nos EUA, especialmente, o assunto causou um intenso debate. Eric Schmidt, presidente-executivo do Google, pediu que se proíba o uso privado desses aparelhos mediante tratados internacionais, alegando que podem representar um grande risco para a privacidade e a segurança.



Já em 2011 a União Americana de Liberdades Civis (ACLU na sigla em inglês) publicou um relatório intitulado "Protegendo a intimidade da vigilância aérea", no qual pedia que o Congresso adotasse normas muito precisas para reduzir os riscos de abusos por parte das autoridades.

Catherine Crump, uma das advogadas da organização e coautora do estudo, explica em conversa por telefone que a "preocupação básica [da ACLU] é que os dr ones não se transformem em um instrumento de vigilância total". "É preciso criar um marco jurídico", prossegue Crump, "pelo qual as forças de segurança possam fazer voar esses aparelhos só de forma pontual, quando houver uma determinada suspeita, quando permitam encontrar provas ou deter um crime específico. Deve-se evitar que a polícia possa lançá-los sem uma boa razão. Seria uma violação da privacidade. Além disso, embora o uso por parte das autoridades seja nossa preocupação principal, também é preciso estar conscientes de que se for permitido o uso para particulares também poderão abusar dos aparelhos", argumenta.



Nos EUA se viu recentemente como os juízes não hesitaram em autorizar registros de comunicações maciços e indiscriminados. Quem garante que não ocorra o mesmo com os drones? É necessária uma legislação específica?



Mario Mairena, responsável por relações governamentais da Associação Internacional para Aparelhos Aéreos Não Tripulados (AUVSI na sigla em inglês), afirma que não. Em conversa telefônica dos EUA, ele apresenta o ponto de vista do setor: "Somos, é claro, a favor do respeito absoluto à privacidade. Quem a viola tem que responder. Mas cremos que em geral a legislação vigente representa uma garantia suficiente.



Simplesmente será preciso aplicá-la a esses casos. Por outro lado, há muita confusão a respeito. Os aviões não tripulados não representam por si sós uma revolução na tecnologia da vigilância. Esses sistemas tecnologicamente sofisticados já são usados em aparelhos tripulados. A única diferença é que o operador está em terra", diz.



Os críticos indicam, entretanto, que as dimensões e os custos reduzidos dos drones podem facilitar muito a tarefa de vigilância em relação aos tripulados - e portanto os riscos. Em relação à idoneidade dos princípios gerais da legislação vigente, Crump afirma que não são uma garantia suficiente. "Nos EUA, por exemplo, ainda não se aplicou a esse setor a Quarta Emenda [da Constituição, que protege o cidadão diante de pesquisas ou registros arbitrários]. Não sabemos como se fará, e cremos que é arriscado confiar todo o assunto a que se consolide uma interpretação jurisprudencial adequada. É mais prudente definir a proteção especificamente pela via legislativa", afirma Crump.



No âmbito privado, há setores em que as possíveis aplicações desses aparelhos são claramente benéficas. Entre eles está o dos meios de comunicação, que poderiam baratear os custos de algumas coberturas noticiosas, hoje realizadas com a ajuda de helicópteros. Pequenos aparelhos não tripulados ampliariam notavelmente a capacidade de acesso a zonas especialmente perigosas (conflitos bélicos, desastres naturais, etc.). Os direitos à informação e à intimidade estão claramente estipulados nas legislações dos países desenvolvidos, e com isso é mais provável que as normas nesse âmbito sejam estendidas às coberturas realizadas com esses equipamentos.



O que preocupa a ACLU é sobretudo que haja abusos por parte de órgãos governamentais. Segundo Crump, a regulamentação no setor privado "tem sérias complicações". "A liberdade dos jornalistas de fotografar ou gravar em lugares públicos está justificadamente estabelecida, e é difícil conjugar normas que evitem violações da intimidade no uso de aparelhos aéreos não tripulados com a liberdade de imprensa", diz.



Pelo menos por enquanto, o uso de drones continua não regulamentado na grande maioria dos países desenvolvidos. Francisco Gayá, presidente da Flightech, uma companhia espanhola que trabalha no setor, espera com grande interesse que finalmente seja regulamentada a matéria para poder dar um impulso decisivo no uso desses aparelhos. "Já chegou o verão e com ele infelizmente voltarão os incêndios", indica Gayá. "E mais uma vez temos um modelo muito apto para realizar tarefas anti-incêndios, mas não se poderá utilizá-lo porque só temos uma certificação para uso experimental. Estamos há mais de seis anos nisso!", lamenta. Juan Ayanz, diretor de comunicação da Flightech, explica que a Espanha, à espera da aprovação do decreto real, se encontra atualmente em um "limbo legal". Os pedidos deste jornal ao Ministério de Fomento e à Agência Espanhola de Segurança Aérea para falar sobre o assunto não foram atendidos.



Quem defende a regulamentação insiste no uso benéfico que está sendo feito desses aparelhos em alguns países. Na outra margem se colocam os que veem sobretudo perigos. Na audiência em que o diretor do FBI admitiu que sua agência já utiliza aviões não tripulados em território nacional, a senadora democrata Dianne Feinstein, uma das vozes mais respeitadas desse órgão, declarou que "a maior ameaça à privacidade dos americanos são os drones e seu uso, e as muito poucas regulamentações que disciplinam seu uso hoje". No intenso debate sobre privacidade e segurança que hoje em dia agita as grandes potências, os drones deverão desempenhar um papel essencial.