sábado, 10 de outubro de 2009

A queda do Muro de Berlim: governantes ocidentais foram contra



Entrevista com Mikhail Gorbachev


Vinte anos depois, Mikhail Gorbachev conta a história desconhecida do Muro de Berlim. Sentado em seu escritório de Moscou no Leningradskij Prospekt, fala com um fio de voz, com calma. Mas das suas palavras transparece toda a emoção, a satisfação, mas também a indignação por aquilo que viu naquele ano fatal entre 1988 e 1989, que marcou para sempre a história do século XXI.

Lembra-se das pessoas de Berlim que saíram às praças, que lhe gritavam "Gorby, fique conosco", "Gorby, freiheit!", liberdade! Ele retornou com a mente aos acontecimentos que, verdadeiramente, comoveram o mundo, as reuniões com os partidos irmãos, ainda incertos e temerosos, os encontros e os telefonemas com Helmut Kohl, "a inadequação de Honecker", o chefe comunista da Alemanha Oriental, que não sabia entender. E depois "a feroz batalha contra a perestroika que se desenvolvia em Moscou", enquanto na Europa os líderes ocidentais procuravam impedir a reunificação alemã.

A reportagem é de Fiammetta Cucurnia, publicada no jornal La Repubblica, 30-09-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Mikhail Sergheevic, quando o senhor entendeu que, para a Alemanha, havia chegado o momento da unificação?

A história não é feita em um dia, e não poderei lhe indicar uma data precisa. A queda do Muro de Berlim, de fato, foi só o ato final, a culminação de um processo que ocorria há muito tempo. Quando as mudanças começaram a marchar na URSS, ocorreram as primeiras eleições democráticas, e, nos países do Leste europeu, estouraram as primeiras revoluções, de veludo ou não. Quando começou também o processo de desarmamento entre EUA e URSS, com o desmantelamento dos mísseis nucleares, uma triste realidade se mostrava claramente diante de nós: a Alemanha, e só a Alemanha, ficava à margem da grande estrada da história. Eles, os alemães, sentiam-se ofendidos e angustiados por causa isso. E eu os entendo.

Em sua opinião, qual foi o ato de nascimento da reunificação alemã?

Estamos falando de 1988. Foi então que, na Alemanha, ocorreram as primeiras manifestações. Em Moscou, chegava a notícia de cidadãos alemães orientais que procuravam passar para a República Federal através da fronteira húngara, diretamente ou através do vale austríaco. Depois, o mesmo ocorreu com a embaixada alemã na Polônia e na Tchecoslováquia, onde era possível chegar mais agilmente e onde os alemães orientais, então, pediam ajudar para passar para o Oeste. Eram pedidos sempre mais maciços e urgentes, que se tornaram depois um rio transbordante no verão [europeu] de 1989. Mas começaram bem antes que a imprensa se desse conta, muito antes que Hans-Dietrich Genscher [ministro do Exterior alemão] pudesse anunciar, na capital tchecoslovaca, a abertura da fronteira com a República Federal alemã. A história havia se colocado em ação. É inútil procurar relê-la hoje de modo primitivo. Os acontecimentos amadureceram no tempo, até que o seu fluir se tornou tão impetuoso que deixou só duas possíveis saídas: ou encontrávamos o modo de geri-los e governá-los, ou nos derrubavam.


Portanto, ficou logo claro para o senhor que a reunificação alemã era iminente?

O que eu entendi já perto do final de 1988 era que já era tarde demais para frear os eventos. Os alemães não tinham intenção de abandonar as praças e voltar para casa, resistiriam até o final, até a vitória. No dia 26 de janeiro de 1989, enquanto os protestos enfureciam em Berlim, decidi convocar uma reunião do Politburo, ampliada aos militares e aos diplomatas, para sondar os humores. Todos se disseram convencidos de que os alemães não se renderiam.

O PCUS [Partido Comunista da União Soviética] não temia a reunificação alemã?

Eram tempos de fogo. No partido, a batalha enfurecia, contra mim e contra a perestroika. Principalmente naquele momento. Estavam em jogo as grandes reformas políticas, as primeiras eleições livres da nossa história milenar. Justamente em 1989, o Politburo se reuniu logo depois das eleições de março. O resultado era impressionante: eleições livres, com listas de sete a 27 candidatos, em vez do nome único a que estávamos habituados. Pela primeira vez, todas as organizações tinham apresentado seus próprios candidatos e, no fim, 35 secretários regionais do partido não conseguiram ser eleitos, mesmo tendo à sua disposição todo o poder e todos os meios. Feitas as contas, porém, 84% dos deputados eleitos eram comunistas. O Politburo não conseguia aceitar que o nosso país, e com ele as nações que faziam parte do Pacto de Varsóvia, decidisse em plena autonomia a mudança dos homens no poder. Assim, logo depois, as forças reacionárias do partido começaram a se organizar e a fazer coalizões contra as mudanças, que percebiam como uma ameaça mortal. Foram golpes muito ferozes. Sempre às escondidas, pelas costas, porque não tinham nem a coragem nem a força de se mostrarem. Mais de uma vez fui obrigado a dar um soco na mesa e me retirar.

E os dirigentes alemães?

Naquele ano, fui à Alemanha duas vezes. Em junho, estive em Bonn, onde me encontrei com Kohl. Foi uma conversa calorosa, muito, muito amigável. Os jornalistas me perguntaram depois se havíamos discutido sobre os episódios alemães. Certamente havíamos discutido. Mas não havíamos decidido nada. Não era uma coisa que podia ser decidida em uma mesa de bar. Será a história, eu disse, que decidirá por nós. Quando? Eu e Kohl demos a mesma resposta, como se tivéssemos nos colocado de acordo: não antes do século XXI. Pelo contrário, as coisas ocorreram diferentemente. Bem rápido ficou claro que aquilo que ocorria na Alemanha não podia ser parado. Kohl me chamou mais de uma vez, já nos telefonávamos seguidamente: "O que fazemos?". Eu lhe dizia: "Fique atento. Não faça movimentos arriscados, senão serão perigosos". Foi então que ele apresentou os famosos dez pontos para a reaproximação entre as duas Alemanhas, que previam uma série de etapas em vista da reunificação. Nós, em Moscou, não fomos entusiastas dessa sua saída, mas as iminentes eleições alemãs lhes obrigavam a fazer alguma coisa.


O que o senhor encontrou em Berlim?

Cheguei a Berlim no dia 06 de outubro de 1989, para os festejos do 40º aniversário da RDT. Lembro que logo me dei conta do clima de inquietação, um fermento novo. Também logo me dei conta que o poder havia perdido a sua ligação com o país. Era uma realidade difundida, que não se referia diretamente à questão do muro. Era como se os alemães estivessem dando abertura à frustração de terem sido abandonados e deixados para trás, apenas eles, enquanto em todos os lados as transformações se impunham nos palácios do Leste. Há meses, as praças estavam cheias, pequenas e grandes manifestações que desafiavam o regime. Quando cheguei, entre os eventos organizados para o 40º aniversário estava também a Fackelzug, a marcha das tochas, na qual participavam os delegados de 28 regiões. Encontrei-me diante de uma massa de jovens e de menos jovens, cheios de entusiasmo, que gritavam "Gorbachev, fique aqui por um mês! Gorby, liberdade!". O primeiro-minis tro polonês, Tadeusz Mazowiecki, se aproximou de mim e disse: "Mikhail Sergheevic, o senhor entende alemão?". "Talvez com um tratado eu teria alguma dificuldade, mas eu entendo o que estão gritando aqui". E ele, em resposta: "Então entenderá que este é o fim".

É verdade que Honecker lhe revelou um dos seus maiores problemas?

Encontrei-o justamente naqueles dias. Foi uma conversa longa, de pelo menos três horas. Observei-o bem e me sentia desconfortável. Tinha a impressão de que fosse totalmente inadequado à grandeza dos eventos que estávamos vivendo. Como se não tivesse a percepção do que realmente tínhamos na nossa frente. Assim, no dia seguinte, pedi que me pudesse encontrar com toda a direção do partido. Não fiz recriminações, nem os incitei a agir. Fiel à linha que havia escolhido, contei sobre a perestroika, de como havíamos chegado tarde com as nossas decisões e por isso havíamos perdido e de como, pelo contrário, havíamos nos apressado muito outras vezes, terminando por tornar a tarefa ainda mais difícil. Os processos em curso, disse-lhes, exigiam grande inteligência. Depois, esse discurso se tornou famoso, resumido na frase "A história pune quem chega tarde".


Mikhail Sergheevic, como se comportaram os líderes europeus? É verdade que salvariam o muro com prazer?

Essa é uma questão dolorosa. À exceção dos EUA, posso dizer que todos estavam contra. Margaret havia se inclinado abertamente pelo "não". Não dizia isso publicamente, mas não fazia mistério durante os encontros oficiais. Andreotti era contrário, e Mitterrand era ferozmente contrário. Mais esperto do que os outros, dizia: "Amo a Alemanha de tal forma que prefiro ter duas". Todos os líderes europeus tinham medo. Mas não faziam propostas sobre como enfrentar a situação. Ficou-me claro que gostariam de impedir a queda do muro e a reunificação, mas queriam que, materialmente, nós os impedíssemos. Com o exército. Com as tropas de Gorbachev. Todos vieram até mim, um depois do outro, pedindo isso, abertamente. Com Mitterrand fomos a Kiev e falamos sobre isso. Só depois, quando tudo precipitou e tratou-se de decidir, todos assinaram.



Tem arrependimentos?

Pensei várias vezes nisso nestes anos. O que teria ocorrido? Os tanques e os soldados fora das casernas em marcha em Berlim. Muito sangue teria corrido. A Europa nas mãos dos militares de Oriente a Ocidente, armados até os dentes, dois milhões de cada lado. Poderíamos ter chegado à Terceira Guerra Mundial. Estou certo de que seria exatamente assim. E, de resto, disse isso desde o início aos dirigentes dos países do Pacto de Varsóvia, que não nos intrometeríamos mais nos seus assuntos internos. Talvez não tenham acreditado em mim, mas eu mantive a palavra. Nunca interviemos nas suas questões. E foi essa a sua tragédia.

Portanto, o senhor achou legítimas as expectativas dos alemães?

A primeira vez que fui à Alemanha foi em 1966. Ainda tinha no coração a recordação da dor, das destruições, das vítimas e dos horrores do nazismo. Mas quanto caminho os alemães fizeram no pós-guerra! Tanto no Leste quando no Oeste. Humilharam-se, pediram perdão, fizeram uma grande obra de purificação antinazista e democrática. Não é possível imaginar que eles tivessem que responder por Hitler até o final dos tempos. Hoje, todos parecem pensar assim. Mas nessa história há apenas dois heróis: os alemães e os russos.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Lula, desmatamento zero e os carecas


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva demonstrou estar pouco familiarizado com o conceito de desmatamento zero ao afirmar, durante a Cúpula entre Brasil e União Européia em Estocolmo, na Suécia, que “nem que fosse careca o Brasil pode assumir uma meta de desmatamento zero, porque sempre vai haver alguém que vai cortar alguma coisa”.

A análise é do sítio Greenpeace, 08-09-2009.

A afirmação do presidente contraria o entendimento de importantes setores da economia nacional – como o do agronegócio, representado pela indústria da soja e os maiores frigoríficos do país – que já incorporaram o esforço de acabar com o desmatamento em suas cadeias de produção.

O desmatamento zero busca assegurar a conservação da floresta amazônica devido à sua crucial importância na manutenção do equilíbrio climático, da conservação da biodiversidade e na preservação do modo de vida de milhões de pessoas que dependem dela para sobreviver. Uma política de desmatamento zero não impede que árvores sejam cortadas, desde que de forma sustentável.

Ao contrário do que imagina o presidente, o desmatamento zero pretende acabar com o corte raso e a degradação de grandes extensões de mata e deve preocupar igualmente carecas e cabeludos. Aliás, quanto menos cabelo, mais cuidado deve ser dado a ele. O objetivo de uma política de desmatamento zero é dar corpo a uma gestão cuidadosa da floresta que ainda existe, com o estabelecimento de todo o remanescente como reserva florestal nacional, com exceção das propriedades particulares e em casos que envolvam populações tradicionais e indígenas.

A meta de obter uma redução de 80% do desmatamento até 2020, com relação à média do corte registrado entre 1996 e 2005, prometida pelo presidente no mês passado, é insuficiente. À luz da atual crise climática global, permitir a derrubada de 20% de mata em relação à média do período significa muito mais do que “ter sempre alguém cortando alguma coisa”. O presidente precisa botar seus assessores para fazer contas. Estima-se que em cada quilômetro quadrado da floresta amazônica, existam entre 45 mil e 55 mil árvores com mais de dez centímetros de diâmetro*.

A lógica presidencial, que admite que o Brasil continue derrubando cerca de 3.900 km2 de suas matas em 2020, significa que o país perderá, apenas neste ano, entre 175 milhões e 215 milhões de árvores. Isto está longe de ser um pauzinho qualquer. A diferença entre a proposta do Greenpeace e de outras organizações – Instituto Socioambiental, Instituto Centro de Vida, Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, The Nature Conservancy, Conservação Internacional, Amigos da Terra, Imazon e WWF-Brasil – de zerar o desmatamento em 2015 e a de Lula, de permitir 20% de desmatamento em 2020, equivale aceitar que nesse intervalo de cinco anos o Brasil perderá entre 800 milhões e 1 bilhão de árvores na Amazônia. Francamente, é um número inaceitável. Como por sinal parecia ser inaceitável para o próprio Lula há alguns meses.

Em junho desse ano, em Alta Floresta (MT), Lula disse que “se houve um momento em que a gente podia desmatar, agora desmatar joga contra a gente e vai nos prejudicar no futuro. Hoje, em vez de dizer que não pode cortar árvore, nós temos de incentivar e pagar para as pessoas plantarem árvores”, afirmou. Além de ser a forma mais barata e rápida de combater as mudanças climáticas, zerar o desmatamento é fundamental para o desenvolvimento econômico do país no longo prazo, já que as chuvas produzidas na Amazônia são importantes para a geração de energia, a produção de alimentos e o abastecimento de água nas regiões Centro-oeste, Sul e Sudeste do Brasil.

Ter como meta resguardar o que ainda nos resta de matas é buscar um futuro melhor para as gerações de brasileiros que virão. O Greenpeace se coloca à disposição do presidente para esclarecer quaisquer dúvidas que ele tenha sobre o conceito de desmatamento zero, a fim de construir um Brasil mais sustentável, justo e de fato inserido no esforço global contra as mudanças do clima. E, apenas para ajudá-lo na sua reflexão sobre esse futuro, não custa lembrar que o Brasil já perdeu 700 mil quilômetros quadrados de floresta amazônica nas últimas quatro décadas. Nesse espaço de tempo e de área, entre 33 bilhões e 41 bilhões de árvores viraram fumaça, ajudando a transformar o Brasil no quarto maior emissor mundial de gases que provocam o aquecimento global.

Agrotóxicos no seu estômago





"Na safra passada, as empresas transnacionais, e são poucas (Basf, Bayer, Monsanto, Du Pont, Sygenta, Bungue, Shell química...), comemoraram que o Brasil se transformou no maior consumidor mundial de venenos agrícolas. Foram despejados 713 milhões de toneladas! Média de 3.700 quilos por pessoa. Esses venenos são de origem química e permanecem na natureza. Degradam o solo. Contaminam a água. E, sobretudo, se acumulam nos alimentos", escreve João Pedro Stédile, economista e integrante da coordenação nacional do Movimento dos Sem Terra (MST), em artigo publicado no jornal O Globo, 24-09-2009.

Eis o artigo.

Os porta-vozes da grande propriedade e das empresas transnacionais são muito bem pagos para todos os dias defender, falar e escrever de que no Brasil não há mais problema agrário. Afinal, a grande propriedade está produzindo muito mais e tendo muito lucro. Portanto, o latifúndio não é mais problema para a sociedade brasileira. Será? Nem vou abordar a injustiça social da concentração da propriedade da terra, que faz com que apenas 2%, ou seja, 50 mil fazendeiros, sejam donos de metade de toda nossa natureza, enquanto temos 4 milhões de famílias sem direito a ela.

Vou falar das consequências para você que mora na cidade, da adoção do modelo agrícola do agronegócio.

O agronegócio é a produção de larga escala, em monocultivo, empregando muito agrotóxicos e máquinas.

Usam venenos para eliminar as outras plantas e não contratar mão de obra. Com isso, destroem a biodiversidade, alteram o clima e expulsam cada vez mais famílias de trabalhadores do interior.

Na safra passada, as empresas transnacionais, e são poucas (Basf, Bayer, Monsanto, Du Pont, Sygenta, Bungue, Shell química...), comemoraram que o Brasil se transformou no maior consumidor mundial de venenos agrícolas. Foram despejados 713 milhões de toneladas! Média de 3.700 quilos por pessoa. Esses venenos são de origem química e permanecem na natureza. Degradam o solo. Contaminam a água. E, sobretudo, se acumulam nos alimentos.

As lavouras que mais usam venenos são: cana, soja, arroz, milho, fumo, tomate, batata, uva, moranguinho e hortaliças. Tudo isso deixará resíduos para seu estômago.

E no seu organismo afetam as células e algum dia podem se transformar em câncer.

Perguntem aos cientistas aí do Instituto Nacional do Câncer, referência de pesquisa nacional, qual é a principal origem do câncer, depois do tabaco? A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) denunciou que existem no mercado mais de vinte produtos agrícolas não recomendáveis para a saúde humana. Mas ninguém avisa no rótulo, nem retira da prateleira. Antigamente, era permitido ter na soja e no óleo de soja apenas 0,2 mg/kg de resíduo do veneno glifosato, para não afetar a saúde. De repente, a Anvisa autorizou os produtos derivados de soja terem até 10,0 mg/kg de glifosato, 50 vezes mais. Isso aconteceu certamente por pressão da Monsanto, pois o resíduo de glifosato aumentou com a soja transgênica, de sua propriedade.

Esse mesmo movimento estão fazendo agora com os derivados do milho.

Depois que foi aprovado o milho transgênico, que aumenta o uso de veneno, querem aumentar a possibilidade de resíduos de 0,1 mg/kg permitido para 1,0 mg/kg.

Há muitos outros exemplos de suas consequências. O doutor Vanderley Pignati, pesquisador da UFMT, revelou em suas pesquisas que nos municípios que têm grande produção de soja e uso intensivo de venenos os índices de abortos e má formação de fetos são quatro vezes maiores do que a média do estado.

Nós temos defendido que é preciso valorizar a agricultura familiar, camponesa, que é a única que pode produzir sem venenos e de maneira diversificada. O agronegócio, para ter escala e grandes lucros, só consegue produzir com venenos e expulsando os trabalhadores para a cidade.

E você paga a conta, com o aumento do êxodo rural, das favelas e com o aumento da incidência de venenos em seu alimento.

Por isso, defender a agricultura familiar e a reforma agrária, que é uma forma de produzir alimentos sadios, é uma questão nacional, de toda sociedade.

Não é mais um problema apenas dos sem-terra. E é por isso que cada vez que o MST e a Via Campesina se mobilizam contra o agronegócio, as empresas transnacionais, seus veículos de comunicação e seus parlamentares, nos atacam tanto.

Porque estão em disputa dois modelos de produção. Está em disputa a que interesses deve atender a produção agrícola: apenas o lucro ou a saúde e o bem-estar da população? Os ricos sabem disso e tratam de consumir apenas produtos orgânicos.

E você precisa se decidir. De que lado você está?

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Economia verde pode proporcionar salto tecnológico para países em desenvolvimento



Muitos países em desenvolvimento ignoraram a tecnologia da rede fixa e pularam diretamente para a era digital. Mas também a eficiência energética pode significar uma chance de avanço tecnológico no século XXI.

A reportagem é de Helle Jeppesen, publicada pela Deutsche Welle, e reproduzida por EcoDebate, 08-10-2009.

Quando o assunto é tecnologia de comunicação móvel, muitos países em desenvolvimento já estão mais direcionados para o futuro do que os chamados países industrializados. Muitos simplesmente pularam a tecnologia de rede fixa, entrando direto na era digital.

Também a eficiência energética no século 21 poderia proporcionar a muitos países em desenvolvimento tal salto tecnológico. Afinal, energia é precondição para o crescimento econômico e o desenvolvimento. Isso explica os duros conflitos acerca do uso de energias fósseis e da redução de emissões de gases-estufa, travados nas negociações que pretendem levar a um acordo global sobre o clima em Copenhague, em dezembro próximo.

Grande negócio

No século 21, o mundo globalizado será definido não apenas pelas mudanças climáticas, mas também pela escassez de recursos. Sendo assim, a a energia exerce um papel fundamental, explica Martin Kaiser, chefe da delegação do Greepeace na rodada de negociações preparatórias que acontecem atualmente em Bangcoc.

“A luta pelo pioneirismo no setor de energias renováveis já começou há tempos. A Alemanha é com certeza pioneira e os EUA investem atualmente imensas quantias para recuperar o atraso. Também países como a China estão enormemente interessados em introduzir essas tecnologias, mas também em distribuí-las. É um big business”, conclui Kaiser.

Nova revolução tecnológica

Especialistas estão convencidos de que a nova economia verde vai definir o caminho do futuro. Da mesma forma que na tecnologia de comunicação, haverá um salto tecnológico também no setor energético, que consequentemente se refletirá na economia, argumenta Hermann Scheer, um dos iniciadores da Agência Internacional de Energias Renováveis da ONU (Irena) e pioneiro na luta por fontes energéticas sustentáveis.

Para Scheer, esta será a próxima grande revolução tecnológica industrial, cuja importância deverá ser ainda maior que a da revolução da tecnologia de informação, que ainda está em curso.

Trata-se, segundo ele, de uma grande chance de reforçar o progresso da sociedade industrial, o que não seria mais possível com as energias convencionais. “Não somente porque elas estão se acabando, mas também porque os efeitos prejudiciais se tornaram grande demais, provocando prejuízos econômicos de grande dimensão.”

De olho no Quênia

Segundo Achim Steiner, diretor-executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), o processo de adaptação para o futuro já começou. E países em desenvolvimento, tal qual o Quênia, onde está situada a sede do Pnuma, já tomaram conhecimento desses primeiros sinais.

Para ele, trata-se de um salto tecnológico semelhante ao da telecomunicação móvel. “No Quênia, por exemplo, estão sendo instalados cabos de fibra ótica, num país com regiões que nem são servidas pela rede elétrica. Mas cabos de fibra ótica já chegaram lá.”

Também quanto à eficiência energética, muitos países em desenvolvimento estão se preparando para o futuro. Nos próximos dois anos, o Quênia pretende triplicar a produção de energia elétrica proveniente de instalações geotérmicas.

Além disso, uma nova lei incentiva o uso da energia eólica no país, informou Steiner. Aprovada em janeiro, ela garante tarifas de remuneração para as empresas energéticas, permitindo assim o surgimento, nos próximos três ou quatro anos, do maior parque eólico do Quênia, em Turcana, no nordeste do país.

Ele calcula que, em dez anos, o Quênia poderá suprir sua demanda total de energia elétrica completamente livre de emissões de CO2, desde que também aposte na produção de energia solar em grande escala. Mas admite: “São necessários grandes investimentos para garantir um salto tecnológico como esse”.

Descentralizadas e renováveis

Para garantir tais investimentos, as negociações de um novo acordo climático global incluem também a transferência de tecnologia e o pagamento de compensações.

A vantagem é que tecnologias como a eólica e a solar se tornam cada vez mais baratas: quanto maior a quantidade e, quanto mais a tecnologia for testada, menor o preço. No final das contas, em muitas regiões ainda não interligadas à rede elétrica é mais barato investir em fontes energéticas descentralizadas e renováveis do que em tecnologias antiquadas.

A China, por exemplo, já tomou conhecimento disso, conta Jürgen Meier, diretor da Fundação Meio Ambiente e Desenvolvimento. Segundo ele, o país asiático é de longe o maior mercado mundial de aquecimento solar térmico, ou seja, o aquecimento de água para edifícios através da energia solar. Além disso, possui o programa eólico mais ambicioso do mundo, com fabricantes próprios, não dependendo mais da importação, explica Meier.

Donos do futuro

Meier ri ao dizer que “alguns fabricantes europeus já estão até com medo de que os chineses venham a construir suas próprias turbinas eólicas”. Ele informa que o Império do Meio produz células solares fotovoltaicas em grandes estilo, que, todavia, são destinadas quase completamente à exportação, já que os estímulos na China ainda são muito poucos. “Embora eu ache que isso vai mudar”, aposta.

Nesse contexto, os países industrializados já deveriam estar disputando quem irá reduzir em maior quantidade e de forma mais rápida as emissões de CO2 provenientes de fontes energéticas fósseis. Pois o futuro, como hoje já se mostra, pertencerá àqueles que puderem suprir o mercado global com energia sustentável e independente.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Pesquisadores estimam que já ultrapassamos os limites da Terra


Identificar e quantificar os limites da Terra que não podem ser transgredidos ajudaria a evitar que as atividades humanas continuem causando mudanças ambientais inaceitáveis. A afirmação, de um grupo internacional de cientistas, está em artigo destacado na edição desta quinta-feira (24/9) da revista Nature.

A notícia é publicada por EcoDebate, 25-09-2009.

Segundo eles, a humanidade deve permanecer dentro dessas fronteiras para os processos essenciais do sistema terrestre se quiser evitar alterações ambientais de dimensões catastróficas. Esses limites representariam os espaços seguros para a ação e para a vida humana.

O conceito de limites (ou fronteiras) planetários representa um novo modelo para medir as agressões ao planeta e define espaços seguros para a existência humana. Seguros tanto para o sistema terrestre como para o próprio homem, por consequência.

Johan Rockström, da Universidade de Estocolmo, na Suécia, e colegas sugerem nove processos sistêmicos principais para esses limites: mudanças climáticas; acidificação dos oceanos; interferência nos ciclos globais de nitrogênio e de fósforo; uso de água potável; alterações no uso do solo; carga de aerossóis atmosféricos; poluição química; e a taxa de perda da biodiversidade, tanto terrestre como marinha.

Para três desses limites da ação humana – ciclo do nitrogênio, perda da biodiversidade e mudanças climáticas -, os autores do artigo argumentam que a fronteira aceitável já foi atravessada. Afirmam também que a humanidade está rapidamente se aproximando dos limites no uso de água, na conversão de florestas e de outros ecossistemas naturais para uso agropecuário, na acidificação oceânica e no ciclo de fósforo.

O estudo dá números para esses limites. Para o ciclo do nitrogênio, por exemplo, antes da Revolução Industrial a quantidade de nitrogênio removido da atmosfera para uso humano era zero. O limite estabelecido pelo estudo é de 35 milhões de toneladas por ano. Parece muito, mas os valores atuais são de 121 milhões, mais de três vezes além do limite aceitável.

A taxa de perda de biodiversidade, calculada em número de espécies extintas por milhão de espécies por ano era de 0,1 a 1 até o início da era industrial. O limite proposto pelo estudo é de 35, mas o valor atual passou de 100.

O consumo de água potável por humanos era de 415 quilômetros cúbicos por ano antes da Revolução Industrial. Hoje, chegou a 2.600, perigosamente próximo ao limite sugerido de 4.000 quilômetros cúbicos por ano.

Os pesquisadores destacam a necessidade de se estabelecer os limites também para a emissão de aerossóis atmosféricos e de poluição química, apesar de não haver, atualmente, dados suficientes para tal definição.

Transgredir uma única dessas fronteiras planetárias por um tempo demasiadamente longo é o suficiente, argumentam, para promover alterações ambientais “abruptas e inaceitáveis que serão muito danosas ou até mesmo catastróficas à sociedade”. Além disso, quando um limite é derrubado, os níveis de segurança dos outros processos acabam sendo seriamente afetados.

“Embora a Terra tenha passado por muitos períodos de alterações ambientais importantes, o ambiente planetário tem se mantido estável pelos últimos 10 mil anos. Esse período de estabilidade – que os geólogos chamam de Holoceno – viu civilizações surgirem, se desenvolverem e florescerem. Mas tal estabilidade pode estar em risco”, descrevem os autores.

“Desde a Revolução Industrial, um novo período surgiu, o Antropoceno, no qual as ações humanas se tornaram o principal condutor das mudanças ambientais globais”, destacam. Segundo os pesquisadores, se não fosse a pressão promovida pelo homem, o Holoceno continuaria ainda por muitos milhares de anos.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

A elite destrutiva


Entrevista com Mike Davis


"A riqueza moderna e o consumo de luxo estão mais murados e enclavados socialmente do que em qualquer momento desde 1890. De fato, a lógica territorial do neoliberalismo retoma os padrões mais extremos de segregação residencial e consumo zoneado". A afirmação é do urbanista e historiador estadunidense Mike Davis em entrevista a Luis Brasiliano do jornal Brasil de Fato, 24-09-2009. Mike Davis é autor, entre outros, dos livros Cidade de Quartzo (1990) e Planeta Favela (2006), ambos publicados pela Boitempo.

Eis a entrevista.

Existe uma relação entre o modelo recente de urbanização nos Estados Unidos e o fato da crise econômica ter começado com a falência do mercado hipotecário? Quais mudanças ocorreram nas cidades desde o início do colapso financeiro?

A crise atual nos Estados Unidos combina a imprudência do ciclo de negócios orientado pela política oficial (ou seja, decisões dos republicanos, a partir de 2001, para superaquecer a economia) com déficits insustentáveis na balança comercial, investimento público insuficiente e especulação destrutiva da terra nas áreas de subúrbio.

Após ter mais ou menos roubado de Al Gore as eleições de 2000, a administração George W. Bush, com a conivência do chefe do Federal Reserve [banco central estadunidense], Alan Greenspan, alimentou uma bolha imobiliária com baixas taxas de juros, frágil regulamentação e empréstimos indiretos maciços de credores asiáticos. A elevação dos valores de ações e propriedades disfarçou, temporariamente, a erosão do emprego e da segurança das famílias nos Estados Unidos. Tendo a teoria econômica tradicional em mente, a nação mais rica do mundo financiou uma série de gastos sem precedentes com dinheiro emprestado de um país em desenvolvimento e, ainda em grande medida, pobre, a China.

Como isso foi possível? Como as exportações de bens e serviços dos Estados Unidos perderam terreno na pauta de importações da Ásia, o déficit resultante foi equilibrado por massivas compras asiáticas de papéis do governo e de dívida privada estadunidenses. Os chineses, especialmente, toleraram o excesso de consumo e o desequilíbrio comercial dos Estados Unidos em troca de aumentar a sua fatia no mercado estadunidense e de um yuan artificialmente sub-valorizado. Enquanto isso, os bancos e as instituições de crédito hipotecário nacionais, que reciclaram dívida externa como crédito interno, perderam de vista as contradições estruturais subjacentes enquanto abraçavam a mágica fraudulenta de evitar riscos por meio de derivativos [contrato financeiro cujo valor deriva de um outro ativo].

A bolha poderia ter tido um lado positivo se o déficit comercial tivesse sido investido em infraestrutura urbana ou em habitações a preços acessíveis. Mas, ao invés disso, o boom hipotecário simplesmente subsidiou a construção excessiva de grandes casas e shopping centers a distâncias absurdas (100 quilômetros ou mais) dos locais de trabalho. Essa curta explosão nos valores imobiliários, ademais, foi usada como garantia para pagar os custos em elevação com transporte, mensalidades escolares e atendimento médico. Agora, a bolha estourou como uma bomba de nêutrons, deixando para trás uma cratera de 10 trilhões de dólares na riqueza nacional.

O epicentro geográfico do derretimento do valor dos imóveis tem sido o sudoeste dos Estados Unidos, ou seja, as periferias recentemente “suburbanizadas” de San Francisco, Los Angeles, San Diego, Las Vegas e Phoenix. O valor das casas nessas áreas caiu 50% e o desemprego, em alguns subúrbios, é maior que em Detroit [cidade recordista em desemprego nos Estados Unidos que, em julho, atingiu o índice de 28,9%]. De fato, a paisagem ícone da Nova Depressão é a um bairro de casas abandonadas em um deserto próximo a um shopping center fantasmagórico, vazio.

Qual a sua opinião sobre este início de governo Obama e o comportamento da esquerda estadunidense nesse período?

As celebrações acabaram. A euforia com a eleição de Obama está se transformando em desencanto com os democratas no poder. Em cada uma das quatro áreas nas quais a campanha de Obama prometeu reformas radicais – saúde, legislação trabalhista, política de imigração e aquecimento global –, a Casa Branca já cedeu terreno. De fato, o elemento chave da reforma em cada caso (seguro-saúde público e universal, um procedimento mais rápido e simples para saber se um sindicato representa a maioria dos trabalhadores que necessária para a sua criação, anistia para imigrantes sem documentos e uma taxa de carbono sobre indústrias e prestadoras de serviços públicos) foi ou abandonado pela administração ou neutralizado no Congresso.

Por enquanto, o governo Obama tem atuado decisivamente em apenas duas áreas: salvando Wall Street e promovendo uma escalada da guerra no Afeganistão/Paquistão. No fim do verão [no hemisfério norte], bilhões de dólares do fundo de ajuda do governo federal foram usados no pagamento de bônus para executivos do mercado financeiro ou em fusões e aquisições. Existe uma imensa irritação pública com relação ao fato de que os arquitetos da crise parecem ter sido recompensados, enquanto estadunidenses comuns continuam a perder seus empregos e casas. Há também uma apreensão com relação ao fato do candidato “anti-guerra” ter, aparentemente, decidido deixar milhares de soldados no Iraque, enquanto expande dramaticamente a guerra no entorno do Passo Khyber [na fronteira entre Afeganistão e Paquistão].

As ações e compromissos da administração, em outras palavras, estão desorganizando sua própria base social. A inesperada dificuldade de Obama em aprovar sua reforma da saúde (dificuldade inesperada exceto em seu ponto crucial, o atendimento público universal) parte tanto da desmoralização dos democratas quanto da gigantesca campanha publicitária de seus opositores corporativos. Enquanto isso, a direita do Partido Republicano, agonizante há alguns meses, está retomando terreno. Um presidente moderado que confessa que vai sempre se inclinar em direção ao vento predominante, agora, enfrenta um vendaval da direita com nada além de uma brisa em seu flanco esquerdo. Liberais e progressistas estão em um recuo tático, com elementos cruciais de seu programa já irremediavelmente diluídos ou indefinidamente adiados.

Além da crise econômica, o mundo enfrenta outras duas: a climática e a da gripe suína. Como o senhor avalia a forma com os organismos internacionais competentes (Nações Unidas, FMI, OMC e OMS) estão reagindo a elas?

Se a história se repete como farsa, então sob qual forma a farsa se repete? A questão necessariamente surge quando consideramos o processo de Kyoto e o seu sucessor, o novo tratado climático que supostamente irá ser elaborado em Copenhague (Dinamarca), em dezembro.

Em retrospectiva, Kyoto fez pouco mais do que bombear mais ar quente na alta troposfera. Infinitos estudos e debates apontam para resultados negativos: de fato, as emissões de carbono na última década aumentaram muito mais rápido do que previam alguns cenários para “o pior possível”. Copenhague, mesmo com a assinatura de estadunidenses e chineses, irá somente produzir uma outra rodada de promessas heróicas (80% de redução até 2050 e daí em diante) sem nenhum plano sério de implementação.

A crise econômica – que alguns esperam possa levar a um “keynesianismo verde” – apenas oferece inúmeras desculpas para aprovar ações ou continuações de práticas ruins. Assim, a legislação para comercialização de emissões de gases do efeito estufa de Obama está repleta de exceções para produtores de carvão e prestadoras de serviços públicos. Na Alemanha, supostamente a vitrine da redução de carbono, companhias públicas que são gigantescas queimadoras de carbono estão sendo autorizadas a recolher bilhões de dólares em aumento de taxas dos consumidores sem reduzir emissões em contrapartida. Não admira que tantos pesquisadores e ativistas estejam se tornando cínicos.

A ameaça de pandemia de gripe mobiliza a mesma combinação de retórica humanista e ação egoísta. Em poucas palavras, a Organização Mundial de Saúde abdicou da luta pela cobertura de vacina universal. Doze países ricos entesouraram quase a totalidade do estoque de antivirais existente e da produção potencial de vacina. E a Big Pharma [grupo de grandes farmacêuticas, com faturamento anual superior a 3 bilhões de dólares] conserva seu monopólio sobre medicamentos vitais cuja disponibilidade deveria ser um direito humano universal.

Resumindo, os países ricos não estão fazendo absolutamente nada para ajudar o mundo em desenvolvimento a se adaptar às mudanças climáticas ou construir defesas contra novas pragas. Pessoalmente, dou mais crédito para certos spans (“Você ganhou 10 milhões de dólares...”) do que para declarações solenes do G-8 ou do G-20.

Em São Paulo estão se multiplicando empreendimentos imobiliários com grandes investimentos em segurança destinados às classes alta e média-alta. Para onde apontam as cidades do futuro?

Nesta última geração, nós temos testemunhado uma extraordinária divisão moral e territorial entre os ricos e quase ricos do resto da humanidade. A riqueza moderna e o consumo de luxo estão mais murados e enclavados socialmente do que em qualquer momento desde 1890. De fato, a lógica territorial do neoliberalismo retoma os padrões mais extremos de segregação residencial e consumo zoneado. Por toda a parte, as elites estão recuando para santuários condominiais, arranha-céus fortaleza, cidades de lazer e réplicas muradas de subúrbios californianos imaginários.

O que pode ser dito além de que esses mundos de sonhos alimentam desejos – de consumo infinito, total exclusão social e arquitetura monumental – que são claramente incompatíveis com a sobrevivência ecológica e moral da humanidade?

Como o senhor descreveria o processo de criminalização da pobreza? Como responder a isso?

Culpar os pobres pela pobreza é a jogada mais velha do mundo. O princípio mais importante do liberalismo vitoriano [1837-1901], por exemplo, era que os moradores de favelas criavam seu próprio inferno através de seus vários vícios e da pura libertinagem. Demorou quase um século para os reformistas de classe média reconhecerem as causas estruturais do subemprego urbano e da habitação inadequada. A criminologia, no entanto, continua sendo eminentemente vitoriana. Policiais e funcionários do Estado, apenas com raras exceções, se recusam a reconhecer a lógica econômica e a inevitabilidade do que poderia ser chamado “crime de subsistência”.

Ainda assim, todo policial de rua, do Brooklyn [em Nova York] ao Rio de Janeiro, entende que o crime organizado faz seu recrutamento a partir da crise global da dignidade da classe trabalhadora masculina, na esteira da desindustrialização e do aumento da informalidade. Eles também sabem que as “guerras” contra as drogas e gangues se auto-perpetuam e nunca poderão ser vencidas. Sociedades urbanas, como o Brasil e a Califórnia, que optaram pelo super-encarceramento – construção de prisões ao invés de escolas –, escolheram um suicídio em câmera lenta. O enorme sistema prisional californiano (quase 200 mil detentos) levou o estado à falência e forçou drásticos cortes no ensino superior.

Nem que seja só para nos salvar, é hora de substituir o Velho Testamento pelo Novo. Precisamos de soluções radicais para a criminalidade de massa: efetiva descriminalização de narcóticos, um “processo de paz” urbano que inclua negociações com grupos de fora da lei, revisão civil das ações policiais, serviço comunitário em substituição a sentenças de prisão para criminosos não-violentos, programas educacionais e emprego para a juventude dentro da vizinhança, voto aos 16 anos e assim por diante.


Veja ainda neste Blog:

sábado, 3 de outubro de 2009

Abate "humanitário": hipocrisia ou "humanismo" ?


Tão logo põe a cabeça para fora do túnel escuro e apertado que o conduz rumo ao amplo salão iluminado, o jovem adulto S., de cinco meses, encara seu destino. Tem só cinco segundos antes que dois eletrodos despejem em seu cérebro 1,3 ampère de eletricidade. Ele ficará inconsciente. O tempo é curto, mas S. pode ver, logo abaixo, uma esteira rolante que leva os corpos de seis outros adultos, jovens como ele. Da altura do coração de cada um, verte um grosso jorro de sangue. S. é o próximo da fila.

A reportagem é de Laura Capriglione e Marlene Bergamo e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 27-09-2009.

A massa de ruídos supera os 110 decibéis. São gritos dos animais que estão atrás na fila, barulhos de grossas correntes metálicas movimentando-se em carrossel, de jatos de fogo subindo, de máquinas a pleno vapor.

Quando o corpo rosado de S., aproximados 115 kg, pernas dianteiras esticadas - resultado da contração muscular provocada pela corrente elétrica -, desaba na esteira rolante, encontra o operador de sangria. O homem de olhos azuis, todo de branco como um cirurgião, empunha faca afiadíssima. Um golpe e todos os vasos do coração estão seccionados. Leva um segundo.

O suíno ainda pedala - é o chamado movimento clônico. Não grita mais. Pupilas dilatadas, S. olha para o nada.

O instrutor José Rodolfo Panin Ciocca toca na córnea do animal. Ele não reage. "Está insensibilizado, estão vendo?", diz Ciocca, que é zootecnista, a uma plateia atenta de 20 homens e mulheres. Para se certificar, aperta o focinho em forma de tomada e dá beliscões na orelha - sem resposta do corpo que sangra.

Todos os dias, o frigorífico Aurora, em Chapecó, no oeste catarinense, abate 4.500 suínos, que, em poucas horas, se transformam em quilômetros de linguiças e salsichas, toneladas de fatias de bacon, presuntos, mortadelas, costelas defumadas, pertences de feijoada - 384 toneladas diárias de produtos industrializados. E carcaças inteiras, voltadas principalmente para a exportação.

O rico mercado europeu é o alvo mais cobiçado. O Brasil nunca foi habilitado para vender carne para a Comunidade Europeia. Ora o argumento era a sanidade da carne. Ora, o preço. Ora, o jeito como os animais são tratados.

Mas isso pode mudar. No dia 20 de outubro, chega a Santa Catarina uma equipe de auditores europeus. Objetivo: avaliar como é produzida a carne suína por aqui e, quem sabe, dar ao país o diploma nunca antes alcançado: exportador para a Europa. O frigorífico Aurora, que representará toda a suinocultura brasileira, precisa chegar ao tal "Dia D" dominando toda a teoria e a prática exigidas pelos examinadores.

O instrutor José Rodolfo Panin Ciocca, de que se falou acima, trabalha para a Sociedade Mundial de Proteção Animal (WSPA, na sigla inglesa), ONG de 28 anos e presente em 156 países. Desde o início do mês, uma força-tarefa de veterinários e zootecnistas especialistas em bem-estar animal a soldo da WSPA (entre os quais Ciocca) está dentro das fábricas.

A proverbial desconfiança que sempre existiu entre as entidades de proteção e a indústria de proteína animal rompeu-se graças a um convênio firmado há um ano entre a entidade e o Ministério da Agricultura. Com o aval do ministério e o interesse nos mercados externos, ficou mais fácil para a WSPA entrar em territórios antes vetados, como eram os abatedouros e os frigoríficos.

"Todos os anos o Brasil abate 40 milhões de bovinos, 30 milhões de suínos e de 4 a 5 bilhões de frangos. São números gigantescos, que poderão ser duplicados, triplicados ou quadruplicados em pouco tempo. E isso só depende de conquistarmos novos mercados. Porque tecnologia para produzir nós já temos. Mão de obra, terra e água também", diz o veterinário Nelmon Oliveira da Costa, diretor do Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Animal do Ministério da Agricultura.

"Na virada do século XIX para o XX, firmaram-se os padrões quanto à qualidade sanitária da carne. Depois, vieram os requisitos quanto à qualidade organoléptica [cor, sabor, odor, textura]. Agora é a vez da valorização da qualidade ética da carne, que inclui o bem-estar dos animais, desde a criação até o abate, além da sustentabilidade ambiental", diz Eliana Renuncio Bodanese, 38, assessora técnica corporativa da cooperativa Aurora. "Não está escrito em lugar nenhum que um animal tenha de sofrer para morrer", afirma ela.

Até o fim do mês que vem, 60 trabalhadores líderes de equipes da Aurora, dos abatedouros de suínos e de aves, receberão treinamento da WSPA. Depois, eles retransmitirão essas práticas a seus subordinados. No total, 700 frigoríficos de Santa Catarina, do Paraná, do Rio Grande do Sul e de São Paulo receberão a equipe da WSPA para treinamento.

A veterinária Charli Ludtke, 33, coordenadora do projeto de abate humanitário pela WSPA, já escutou um sem-número de vezes a pergunta: "Para que dar bem-estar ao animal que vai morrer?". "Sempre respondo: "Se você soubesse que vai morrer hoje, você preferiria morrer sob tortura, agonizando, ou calmamente, sem dor?". A obviedade da resposta é o que nos anima a prosseguir."




Ação é ''apenas anestesia de consciências''

A ativista pelos direitos dos animais Nina Rosa Jacob é o que se chama de "abolicionista" - pela abolição de todas as formas de "exploração dos animais".

A reportagem é de Laura Capriglione e Marlene Bergamo e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 27-09-2009.

Para ela, o trabalho desenvolvido pela WSPA é "apenas uma anestesia de consciências". "As pessoas continuarão ingerindo excesso de proteína e de gordura animal, continuarão ingerindo carne impregnada de pavor", diz.

Segundo a militante, o discurso pró-abate humanitário é omisso quanto aos problemas ecológicos relacionados ao consumo de carne: "Até aonde se poderá levar a destruição do ambiente, as queimadas na Amazônia, o desmatamento para abrir pastos? Temos de trabalhar para reduzir o consumo de carne, não inventar pretextos e incentivos para consumir ainda mais".

"Diz-se que o consumo de carne pode ser humanitário. Mas os animais continuarão confinados, privados da liberdade, sofrendo inseminações artificiais, as fêmeas apartadas de seus filhotes com apenas um dia, gritando chamando a cria. Isso é humanitário?"

De acordo com ela, a maioria das pessoas ainda come carne porque não conhece a realidade das fazendas e dos abatedouros. "Os frigoríficos tentam manter esse mundo bem escondido, enquanto vendem a imagem do boi e do porquinho alegres, que só existe na publicidade."



Filósofo influenciou a militância pelos animais



Um dos pais do moderno movimento de libertação dos animais é o filósofo australiano Peter Singer, cujo livro "Animal Liberation", publicado em 1975, influenciou profundamente a militância política em favor dos "não humanos".

O comentário é de Hélio Schwartsman e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 27-09-2009.

Singer é um utilitarista radical. Isso significa que ele não acredita muito em direitos - nem para animais nem para humanos -, mas apenas em interesses, como o de evitar a dor, buscar o prazer. Quando analisados à luz de certos princípios utilitaristas, como o de minimizar o sofrimento, esses interesses podem resultar em regras que devem ser observadas por todos os agentes morais - e isso é o mais perto de "direitos" que podemos chegar.

A ideia central de "Animal Liberation" é que qualquer ser vivo capaz de sentir dor tem interesse em evitá-la. E nós, humanos, não devemos restringir apenas a outros humanos o universo dos beneficiários de uma regra como a que manda não infligir sofrimento desnecessariamente. Todos os seres sencientes, sustenta Singer, são dignos de igual consideração.

Discriminar um animal senciente apenas porque ele não é humano configura um caso de especismo, que o filósofo põe no mesmo patamar do racismo ou do escravagismo.

É claro que nem todos os seres vivos têm os mesmos "direitos". O nível de consideração que cabe a cada qual é uma função direta de sua capacidade de perceber dor, prazer e até de fruir o transcendente -ou seja, de seu grau de consciência.

Numa leitura histórica, o círculo de solidariedade moral da humanidade vem se expandindo. Nos primórdios, o homem ligava apenas para si mesmo e, às vezes, para a sua família. Com o decorrer do tempo passou a preocupar-se também com seus vizinhos, compatriotas, irmãos de fé e, por fim, com todo o gênero humano. Agora, começamos a olhar para os outros bichos com os quais compartilhamos o planeta.

Essa é uma ideia radical que traz implicações radicais: para o filósofo, a melhor forma de não provocar dor evitável é convertendo a humanidade ao vegetarianismo. E vale observar que essa nem é a mais exuberante das teses de Singer.

Consequente com seus princípios, ele também defende o aborto, a eugenia e até o infanticídio. Se o grau de "direitos" está relacionado ao nível de consciência, seres menos conscientes podem, em certas situações, ser sacrificados, seja para reduzir a dor, seja para produzir benefícios maiores.

Outra tese polêmica de Singer é que todos os que já vivem com conforto têm o dever de doar parte de seus rendimentos para eliminar a pobreza do mundo. Ele próprio afirma abrir mão de 25% de seu salário em favor de organizações como a Oxfam e o Unicef. O fundamento de toda ética utilitarista é que os interesses de todos se equivalem: o resultado é um igualitarismo forte.

É claro que, como todo sistema utilitarista, esse também fica à mercê de paradoxos: em princípio, seria ético matar um paciente saudável e, com seus órgãos, salvar a vida de cinco doentes que precisavam de transplante; um porco saudável poderia ser visto como tendo mais "direitos" que uma criança com retardo mental.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

O Cerrado é a grande caixa dágua do País


Cerrado: Bioma é a grande caixa d’água do País


Por trás da aparência ressecada dos meses de inverno, quando a umidade do ar cai a níveis alarmantes em algumas regiões, o Cerrado esconde uma identidade secreta: o bioma é um gigantesco coletor e distribuidor nacional de água, crucial para o abastecimento das regiões Centro-Sul, Nordeste, do Pantanal e até partes da Amazônia. Um serviço ecológico gratuito que corre o risco de ser racionado por causa do desmatamento.

A reportagem é de Herton Escobar e publicada pelo portal do jornal O Estado de S. Paulo, 26-09-2009.

Das 12 bacias hidrográficas do País, 8 estão inseridas no Cerrado. A localização central do bioma, combinada com sua elevação topográfica e alta concentração de nascentes, faz com que ele funcione como uma caixa d’água. Cerca de 94% da água que corre na Bacia do Rio São Francisco em direção ao Nordeste brota no Cerrado - apesar de apenas 47% da bacia estar dentro do bioma, segundo cálculos da Embrapa.

No caso do sistema Araguaia-Tocantins, que corre para o Norte e vai desaguar no Pará, 71% da água da bacia nasce no Cerrado. A proporção é a mesma para o conjunto das Bacias do Paraguai e do Paraná, que drenam grandes áreas do Centro-Sul. "O rio é só o encanamento superficial pelo qual a água corre", diz o pesquisador Felipe Ribeiro, da Embrapa. "Mas onde a água nasce é no Cerrado. As besteiras que a gente fizer aqui em cima vão repercutir rio abaixo."

E as besteiras já estão em curso. Estudos realizados pelo pesquisador Marcos Costa, da Universidade Federal de Viçosa, mostram que o desmatamento nas cabeceiras do sistema Araguaia-Tocantins aumentou a descarga dos rios em 25%, apesar de não ter havido mudanças nos índices pluviométricos da bacia. Ou seja: a quantidade de água nos rios aumentou, apesar de a chuva ter continuado igual.

Mais água, nesse caso, é má notícia. O problema é que o solo coberto por pastagens e lavouras absorve menos água do que o solo com vegetação nativa. Consequentemente, mais água escorre para os rios e é levada para fora do Cerrado, diminuindo a quantidade de umidade que fica disponível para os ecossistemas locais e a própria agricultura - além de aumentar o risco de enchentes para as comunidades que vivem rio abaixo.

Segundo Costa, se o desmatamento continuar, é provável que os níveis de precipitação no bioma também sejam afetados. "Acho que estamos próximos do limite em termos climáticos."

"O problema mais sério que vamos ter daqui dez anos é com a irrigação", diz o pesquisador Hilton Silveira Pinto, do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri) da Unicamp.

O Pantanal também está de olho no problema. Praticamente todos os rios que deságuam no bioma nascem no Cerrado. "A sobrevivência do Pantanal depende diretamente da conservação do Cerrado", diz o ecólogo Leandro Baumgarten, da ONG The Nature Conservancy.

Ameaça ao Cerrado se volta para o norte. Mais da metade já foi destruída


Primeiro, a boa notícia: o desmatamento no Cerrado está em recessão. Nos últimos sete anos, caiu mais de 60%, segundo um levantamento inédito da Universidade Federal de Goiás (UFG).

A reportagem é de Herton Escobar e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 27-09-2009.

Agora, a dura realidade histórica: mesmo com essa redução, mais da metade do bioma já foi destruída ou alterada pelo homem nos últimos 40 anos, ao ritmo de quatro campos de futebol por minuto, sem que ninguém se preocupasse muito com isso.



Pior: o desmatamento, agora, começa a se embrenhar pelas áreas mais preservadas de grandes remanescentes no norte do bioma. É difícil imaginar como um dos ecossistemas de maior biodiversidade do planeta, dotado de paisagens belíssimas e com quase quatro vezes o tamanho da Espanha, poderia passar desapercebido durante tanto tempo. Mas essa é a história do Cerrado, uma savana esquecida entre duas florestas tropicais.

De um lado, a Amazônia, ícone máximo da ecologia mundial. Do outro, a Mata Atlântica. E no meio delas, o Cerrado. Espalhado por mais de 2 milhões de km², do litoral do Maranhão até o norte do Paraná e oeste de Mato Grosso do Sul, o Cerrado é a pele que recobre quase um quarto do território brasileiro. É o segundo maior bioma do País, com um mosaico de cenários que variam de dunas e campos a chapadas e florestas.

Tem aproximadamente a metade do tamanho da Amazônia, só que com uma ferida muito maior: 835 mil km² de terras desmatadas, suficiente para cobrir uma França e um Reino Unido. A Amazônia perdeu 100 mil km² a menos - uma diferença do tamanho de Santa Catarina. Em muitos aspectos, é o bioma mais ameaçado do Brasil. Mais até do que a Mata Atlântica, que, apesar de estar reduzida a só 7% de sua cobertura original, conta com um movimento ambientalista forte a seu favor.

Já o Cerrado nem é citado na Constituição. É como se não existisse. Apenas 11% de suas terras estão protegidas por unidades de conservação e terras indígenas, comparado a mais de 45% no bioma Amazônia.

A reserva legal - área de uma propriedade que precisa ser obrigatoriamente preservada com vegetação nativa - é de 80% na Amazônia e 20% no Cerrado. Ou seja: na Amazônia preserva-se 80%. No Cerrado, é possível desmatar nessa mesma proporção.

Os efeitos ecológicos e climáticos dessa devastação estão longe de ser compreendidos. Já os efeitos econômicos são bem conhecidos. Quase toda a área desmatada do Cerrado está ocupada por pastagens e plantações. Se por um lado perdemos em biodiversidade e serviços ambientais, por outro, ganhamos em produção de alimentos e desenvolvimento. É dos solos desmatados do Cerrado que brotam 47% dos grãos, 40% da carne bovina e 36% do leite produzidos no País.

No pacote dos alimentos vêm a indústria de máquinas, sementes, fertilizantes, defensivos e outros insumos com alto valor de mercado, que viraram a base da economia do Centro-Oeste. A qualidade de vida, medida pelo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), é bem mais alta nos municípios em que o Cerrado foi convertido para o agronegócio do que nas áreas em que o bioma ainda está preservado.

Quando se leva em conta as pastagens naturais - campos de capim nativo aproveitados pela pecuária -, a área ocupada do Cerrado sobe para 52%. Nesse sentido, o Cerrado é um bioma dividido, meio a meio, entre os destinos de suas aptidões agrícolas e ecológicas. Resta saber para que lado a balança vai pesar nas próximas décadas, com o crescimento populacional, econômico e energético pressionando cada vez mais seus recursos naturais.

A proposta deste caderno é fazer um retrato dessas duas faces do Cerrado e fomentar o debate sobre como elas podem conviver em harmonia no futuro.




Álcool invade regiões prioritárias do Cerrado


Áreas prioritárias para a conservação do Cerrado estão sendo invadidas pela cana-de-açúcar. Ao fazer o levantamento desses espaços, o Ministério do Meio Ambiente (MMA) constatou que pelo menos 16 áreas são ameaçadas pela entrada da cana. Dessas, 3 estão em Goiás.Dos seis Estados mais importantes no processo de expansão das usinas de álcool, Goiás é o que mais ampliou a área cultivada pela cana. Entre a safra de 2006 e a atual safra, houve um aumento de 111,8% das áreas ocupadas por canaviais, conforme constatação do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), por meio do projeto Canasat. É uma ampliação superior à verificada em Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Paraná, São Paulo e Mato Grosso.A área de Goianésia e Barro Alto, prioritária para a conservação do Cerrado, é ameaçada por “intensa atividade agrícola” e pela mineração, conforme o levantamento do MMA. O cultivo da cana, de seringueiras e de tomate na região pode representar novos desmatamentos, segundo a interpretação do ministério.



Fontes:

http://novoencanto2009.blogspot.com/2009/02/desmatamento-avanca-em-areas-do-cerrado_17.html


e



http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=26070

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Ajude a preservar a Serra Catarinense




Histórico do projeto

Desde 1960 existem estudos da IFC - Indústria de Fosfatados Catarinense (Antiga Adubos Trevo) para a exploração da mina de fosfato do Rio Pinheiros em Anitápolis.

A IFC é uma empresa da YARA - empresa de fertilizantes químicos norueguesa - e da BUNGE - empresa de soja transgênica americana.

O pouca viabilidade econômica deixou o projeto engavetado durante anos. Agora, a empresa voltou a se interessar no fosfato. O processo de licença ambiental esteve por quatro anos tramitando na FATMA e em 13 de abril de 2009, foi expedida a primeira das três licenças:
a LAP - Licença Ambiental Provisória.

A LAP aceita os laudos do EIA-RIMA apresentados pela empresa. Contudo, há um grande número de falhas no documento. Por conta disto, já existe no Ministério Público Estadual uma Ação Civil Pública que pede a suspensão da LAP através de uma liminar.

Em breve a IFC solicitará a LAI - Licença Ambiental de Instalação, onde começarão as obras. Após a LAI, solicitarão a LAO - Licença Ambiental de Operação, quando começará a fabricação do ácido sulfúrico e do NPK.

Anitápolis, na Serra catarinense, hoje...

e uma fosfateira funcionando nos
mesmos moldes do projeto, em Cajati-São Paulo


Como vai funcionar a fosfateira

Durante os dois primeiro anos acontecerá a construção da fábrica. Um canteiro de obras com 1.400 homens da contrução civil, que virão de fora para morar em Anitápolis. Após a contrução, a fábrica entrará em operação, que será do seguinte modo:

O fosfato retirado da mina será tratado quimicamente e adicionado ao ácido sulfúrico para transformação em adubo solúvel. O ácido será fabricado na própria fosfateira, utilizando como matéria prima o enxofre, que será importado pelo porto de Imbituba e chegará de caminhão até o local.

Deste processo sobram rejeitos químicos altamente poluentes que serão controlados com barragem de rejeitos, tratamento de efluentes e monitoramento de chaminés. Qualquer falha provocará chuva ácida, lama ácida e desastre por rompimento de barragem.Serão duas barragens. O material de contenção é barro (perigosamente frágil).

Será desviado o leito do Rio Pinheiros para a formação de dois lagos de lama. Tecnicamente está decretada a morte do rio e de todo o ecossistema do seu entorno.

Anitápolis

Encravada entre montanhas, Anitápolis é um típico município do interior de Santa Catarina. É uma cidade pacata, com pouco menos de três mil habitantes.

Anitápolis: paraíso ecológico preservado,
é também cenário de nascentes de muitos rios


Sua população descende, em grande parte, de colonos de origem alemã, que começaram a povoar aquelas terras em meados do séc. XIX.

A economia do município de Anitápolis é baseada principalmente em duas atividades: a agricultura e o turismo rural.

A agricultura, nos últimos anos, vem apresentando modificações importantes com a conversão da agricultura convencional para a agricultura orgânica.

O turismo é uma atividade que vem crescendo positivamente, pois o município tem paisagem e geografia que encantam os visitantes. Além disto, o turismo conta com o incentivo da Acolhida na Colônia, associação que auxilia o colono no desenvolvimento da atividade turística sustentável, aumentando os ganhos e a qualidade de vida do agricultor.

Ameaça da fosfateira

A instalação da indústria fosfateira causará um impacto social imprevisível. Na construção da fábrica, o canteiro de obras abrigará 1.400 homens vindos de fora.

Sem estrutura para receber esta população de que não se sabe a procedência, os habitantes do município de Anitápolis, em especial a comunidade do Rio Pinheiros, estão com a segurança perigosamente ameaçada.

Em se tratando de mulheres e crianças, não há como avaliar o risco de estupros e pedofilia, crimes tão horrendos. O contingente policial local não tem capacidade, muito menos estrutura/equipamentos para atender ocorrências deste tipo.

A Prefeitura de Anitápolis, bem como o Governo Estadual e Federal são favoráveis à instalação da fosfateira. Contudo, este empreendimento não trará desenvolvimento.

A instalação da fosfateria poderá trazer desordem, doenças, diminuição da atividade turística, violência e a morte de um rio e uma floresta preservados.

A devastação

Em Anitápolis localiza-se a Nascente do Rio Tubarão (Braço do Norte), interligando os Rios do Meio, Rio das Pedras, do Norte, Branco, dos Pinheiros Alto, do Ouro e da Prata.

É também afluente de vários Rios como: O Rio Branco na divisa com Rancho Queimado tem afluente no Rio Tijucas; O Rio da Serra da Garganta é afluente do Rio Cubatão; Na Serra Geral a nascente do Rio é afluente do Rio Canoas; O Rio Maracujá tem sua nascente que deságua no Rio Itajaí.

Além disso, em Anitápolis a mata é floresta ombrófila densa (mata úmida com árvores adultas). Berço de um ecossistema de grande valor ambiental.

A área pertencente à IFC é de 1800 ha. Deste total, 360 ha serão sumariamente destruídos para a construção da mina para extração do fosfato, bem como da fábrica de ácido sulfúrico.

O leito do Rio Pinheiros será desviado para a construção de dois lagos de rejeitos. A composição dos rejeitos é tóxica e prejudicial à saúde humana e animal.

Serão construídas duas barragens de barro. Material perigosamente frágil, com alto risco de rompimento. Em caso de acidente, a população corre risco de um desastre jamais visto.

Eliminação na atmosfera de gases tóxicos poluentes pela fábrica de ácido sulfúrico. Os gases, levados pelos ventos, atingirão longas distâncias provocando chuva ácida.

A chuva ácida provoca depósito de enxofre nas terras. A saúde das famílias será afetada, num raio de 200 km. Os agricultores orgânicos certificados, poderão perder a certificação de seus produtos.

Acontecerá o transporte de enxofre e ácido sulfúrico. Cargas tóxicas que poderão sofrer acidentes com consequências davastadoras.

As contradições FATMA - EIA/RIMA - IFC

Em visita ao local da fosfateira o Comitê Nascentes da Serra pode observar a presença da CELESC, já desenvolvento o projeto elétrico do canteiro de obras da fábrica. Este fato mostra a certeza da empresa IFC de que irá obter brevemente a licença de instalação para iniciar as obras.

A FATMA, órgão responsável para a emissão das licenças liberou a licença provisória - LAP -baseada no EIA/RIMA desenvolvido por empresas contratadas pela IFC.

O Comitê Nascentes da Serra encontrou uma série de falhas do EIA/RIMA que também foram apontadas na Ação Civil Pública que pede uma liminar suspendendo a LAP.

A comunidade local, também manifestou-se contra o empreendimento no começo. Contudo, as pessoas do local estão sendo ameaçadas e coibidas. Em Anitápolis é proibido manifestar-se contra a IFC, principalmente os professores e funcionários públicos.

Não podemos aceitar esta fábrica por questões meramente financeiras. O patrimônio social e ambiental que está em risco é muito mais valioso do que os empregos e impostos que ela vai gerar.

A denúncia dos riscos ambientais que podem acontecer com a instalação da IFC em Anitápolis não pode ser calada e deve ganhar destaque internacional.

A campanha

Uma série de ações estão sendo encaminhadas sobre os impactos nocivos da IFC:

Denúncias aos órgãos competentes;

Conscientização das comunidades com palestras apresentando os riscos sociais e ambientais;

Divulgação e manutenção do site com notícias sobre as licenças e o processo;

Acompanhamento das licenças solicitada e emitidas;

Organização de manifestações populares pacíficas contra a instalação da IFC.

Acompanhamento do abaixo assinado on-line.

Você pode ajudar

Se você também está preocupado com a instalação de uma mega indústria química multinacional em um paraíso ecológico, e gostaria de participar do movimento POR AMOR À VIDA. FORA FOSFATEIRA envie um e-mail para:

nascentesdaserra@gmail.com



Participe e ajude a salvar Anitápolis.

Fonte: http://nascentesdaserra.bio.br/index.htm



Sem redução de CO2, Terra deve esquentar 4 graus Celsius



As temperaturas globais devem subir 4 graus Celsius até meados da década de 2050, caso sejam mantidas as atuais tendências de emissões de gases do efeito estufa, segundo um estudo publicado na segunda-feira pelo Centro Hadley do Departamento Meteorológico da Grã-Bretanha.

A reportagem é de Gerard Wynn e publicada pelo portal do jornal O Estado de S. Paulo, 28-09-2009.

A previsão é compatível com um relatório da ONU na semana passada, segundo o qual as mudanças climáticas estão superando as piores previsões de 2007 do Painel Intergovernamental sobre a Mudança Climática (IPCC).

"Nossos resultados estão mostrando padrões similares (ao IPCC), mas também mostram a possibilidade de que mudanças mais extremas possam acontecer", disse Debbie Hemming, co-autora da pesquisa divulgada no início de uma conferência sobre a mudança climática na Universidade de Oxford.

Líderes dos principais países emissores de gases do efeito estufa reconheceram em julho a opinião científica de que, para evitar as mudanças climáticas mais perigosas, a temperatura média da Terra não pode ficar mais do que 2 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais.

O relatório de 2007 do IPCC estimava um aquecimento de 4 graus Celsius até o final da década de 2050. O novo estudo confirma que tal aquecimento pode acontecer ainda antes, em meados da década de 2050, e sugere efeitos locais mais extremos.

Um avanço em relação a 2007 foi incluir o provável efeito dos "ciclos de carbono". Por exemplo, se parte da Amazônia morrer por causa de uma seca, isso exporá o solo, liberando mais carbono originalmente presente na matéria orgânica à sombra.

"Isso amplifica a quantidade do dióxido de carbono (o mais comum dos gases do efeito estufa) que entra na atmosfera, e portanto (amplifica também) o aquecimento global. Isso realmente está levando a mais certezas (quanto ao aquecimento)", disse Hemming.

As conclusões devem ser levadas em conta nas negociações de cerca de 190 países para a adoção de um novo acordo climático global, numa reunião da ONU em dezembro em Copenhague.

O aumento das temperaturas é sempre avaliado em comparação aos níveis pré-industriais. Cientistas dizem que o mundo já se aqueceu 0,7 grau Celsius desde então.

Um aumento médio de 4 graus Celsius mascara aumentos regionais ainda mais intensos, como por exemplo um aquecimento superior a 15 graus Celsius em partes do Ártico, ou de até 10 graus Celsius no oeste e sul da África, segundo o estudo divulgado na segunda-feira.

"É bastante extremo. Não acho que caia a ficha para as pessoas", disse Hemming. O degelo da calota polar, por exemplo, exporá à luz do sol uma maior superfície de água escura, absorvendo mais radiação e provocando efeitos ainda mais descontrolados sobre o clima global.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Britânicos descobrem que geleiras da Groenlândia e Antártida derretem em velocidade acelerada





Cientistas britânicos descobriram que os mantos de gelo - enormes geleiras que datam da última grande glaciação do planeta - da Groenlândia e da Antártida estão encolhendo a um ritmo muito mais rápido do que se imaginava. Segundo o estudo, publicado no jornal científico "Nature", as geleiras estão perdendo 9 metros de profundidade por ano desde 2003.


Geleiras da Groenlândia são tomadas por águas mais quentes

Os cálculos foram feitos a partir de dados de satélite da Nasa e confirmam o que alguns dos cientistas mais pessimistas já diziam: o derretimento das duas maiores camadas de gelo do mundo está acelerando e se retroalimentando. Em algumas partes da Antártida, as taxas anuais de perda de gelo entre 2003 e 2007 foram 50% maiores do que aquelas registradas entre 1995 e 2003. Na Groenlândia, 81 das 111 geleiras da região estão afinando em ritmo acelerado.



"O principal problema não é o calor do ar, mas a água próxima aos mantos de gelo", disse Hamish Pritchard, da British Antarctic Survey, um dos autores do estudo. "A água não só está mais quente, como também está se misturando ao gelo e causando um maior derretimento".

Para Pritchard, o derretimento das geleiras é um efeito fora de controle. "A questão é saber até quando ele vai durar", disse o pesquisador.



Imagem de satélite colorida mostra
áreas mais afetadas pelo derretimento dos mantos de gelo
na Antártida e na Groenlândia



A pesquisa não responde à dúvida mais importante motivada pelas novas informações: o quanto as projeções de aumento no nível dos mares deve subir com o derretimento dos mantos de gelo.

Conforme os cientistas observam os recuos das geleiras, os mais otimistas acreditavam que o derretimento poderia ser freado, ou um fenômeno temporário. Mas para o professor Richard Alley, da Penn State University, nos Estados Unidos, as novas medidas das calotas polares acabam com essa visão mais otimista.

"O estudo é alarmante", disse Jason Boz, da Ohio State University, também nos EUA. Para ele, os novos dados mostram que "estamos subestimando quão sensíveis os mantos de gelo são às mudanças [climáticas]".

*Com informações da Associated Press


Fonte: http://noticias.uol.com.br/ultnot/cienciaesaude/ultnot/2009/09/23/ult4477u2068.jhtm

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

As últimas palavras de Paul Feyerabend



Também comecei minha autobiografia, principalmente para lembrar meu período no exército alemão e como vivenciei o nacional socialismo. Esta, porém, demonstrou ser uma boa maneira de explicar como minhas "idéias" estavam entrelaçadas ao resto de minha vida.


Prometi para Grazia um livro sobre a "realidade", que está tomando forma muito lentamente e cujo título provisório é A conquista da abundância. O livro deverá mostrar como especialistas e pessoas comuns reduzem a abundância que os cerca o os confunde, e as conseqüências de suas ações.

Ele é principalmente um estudo do papel das abstrações, noções matemáticas e físicas especialmente, e da estabilidade e "objetividade" que parecem trazer consigo. Discute como emergem tais abstrações, como são apoiadas pelos modos comuns de falar e viver, e a mudança como resultado de argumentação e/ou pressão prática.

Procuro também enfatizar a ambigüidade essencial de todos os conceitos, imagens e noções que pressupõem mudança.

Sem ambigüidade não há mudança, nunca. A teoria quântica - como interpretada por Niels Bohr - é um perfeito exemplo disto.


"A conquista da abundância" deveria ser um livro simples, de leitura agradável e fácil compreensão. Entre meus motivos para escrever Contra o Método estava o de libertar as pessoas da tirania dos ofuscadores filosóficos e de conceitos abstratos como "verdade", "realidade" ou "objetividade", que estreitam a visão e as maneiras de ser das pessoas no mundo.

Ao formular o que eu acreditava ser minha própria postura e convicções, infelizmente acabei introduzindo conceitos igualmente rígidos, tais como "democracia", "tradição" ou "verdade relativa". Agora que estou consciente disto, me pergunto como pode ter acontecido.

O anseio de explicar as próprias idéias, não de modo simples, não numa história, mas por meio de uma "explicação sistemática" é de fato muito forte.

De que outra maneira poder-se-ia explicar que um destacado produtor teatral como Herbert Blau - um artista capaz de tornar claras para atores e audiências peças opacas - tenha escrito um tratado sobre teatro com afirmações incompreensíveis e desprovidas de sentido? Não se trata de uma dificuldade inerente ao assunto em questão. Platão, Aristóteles, Brecht e Dürrenmatt escreveram sobre teatro de modo agradável e compreensível. É o desejo de ser grande, profundo e filosófico.

Mas o que é mais importante? Ser compreendido pelo público em geral ou ser considerado um "pensador profundo"?.

Escrever de maneira simples, de modo que pessoas sem preparo específico possam entender não significa ser superficial.

Eu exorto todos os autores que querem se comunicar com as pessoas a manter distância da filosofia, ou ao menos que evitem ser intimidados e influenciados por ofuscadores como Derrida, lendo, ao invés disto, os ensaios populares de Schopenhauer ou Kant.



No final de 1993, o título deste capítulo assumiu um novo significado. Estou parcialmente paralisado, num hospital, com um tumor cerebral inoperável.


Eu não gostaria de morrer logo agora que finalmente consegui me "sistematizar" - também em minha vida privada.

Gostaria de ficar com Grazia e apoiá-la e fortalecê-la quando houver problemas. Depois de passar a vida lutando pela solidão, eu queria viver em família, contribuindo com a minha parte, esperando-a, por exemplo, com o jantar e algumas piadas prontas em sua volta do trabalho. Poderíamos mesmo tentar os métodos mais avançados para ter filhos; mas temos que esperar para ver como se desenvolve minha doença, e esta não é uma posição agradável de se estar, justamente agora que Grazia esperava tanto de uma nova vida que teríamos juntos.

Escrever colunas para uma revista pode mesmo ter melhorado meu estilo de escrita, e o livro que prometi a ela poderia vir a ser simpes e luminoso, mostrando como a razão e emoção podem coexistir em uma produção “acadêmica”.

Grazia está comigo no hospital, o que é uma grande alegria, e ela enche o quarto de luz. De certo modo, estou pronto para partir, malgrado todas as coisas que ainda gostaria de fazer; mas por outro lado, estou triste por ter de deixar este mundo esplêndido, e especialmente Grazia, a quem eu gostaria de acompanhar por mais alguns anos.

Estes devem ser os últimos dias. Nós os sorvemos um por um.

Minha última paralisia veio de algum sangramento dentro do cérebro. Eu queria que depois de minha partida ficassem algumas coisas minhas, não escritos, não declarações filosóficas finais, mas amor.

Espero que isto fique e não seja muito afetado pela maneira de minha partida final, que eu gostaria que fosse tranqüila, na forma de um coma, sem luta contra a morte e más lembranças deixadas atrás. O que quer que aconteça agora, nossa pequena família pode viver para sempre - Grazia, eu e nosso amor.

Isto é o que eu gostaria que acontecesse, a sobrevivência não intelectual, mas do amor.





***




Um par de semanas depois de Paul escrever estas palavras, o tumor comprometeu o centro de dor de seu cérebro e ele precisou de doses extremamente elevadas de morfina. Ele estava habituado a analgésicos, tendo sofrido dores lancinantes toda sua vida em conseqüência de seu ferimento de guerra (isto, bem como a prodigiosa quantidade e variedade de suas leituras são aspectos importantes da vida de Paul que ele mal menciona em sua autobiografia), mas os médicos ainda assim se surpreenderam que ele pudesse suportar tanto e por tantos dias. Era 11 de fevereiro de 1994 e Paul estava num tipo de coma induzido há mais de uma semana. O correio trouxe uma carta da editora italiana Laterza, dizendo que estavam entusiasmados com a autobiografia e dispostos a publicá-la em breve. Eu estava angustiada e exausta, mas fiquei feliz com as boas novas e contei-as a Paul com alegria em minha voz. Ele respirava lentamente e de certo modo tranqüilamente. Poucos segundos depois já não estava. Estávamos sozinhos, de mãos dadas, e era meio-dia.




(Paul Feyerabend, Matando o Tempo - Uma autobiografia - Ed Unesp)

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

A crise da Civilização nasce com o fim das utopias


Crise da civilização: A união de todas as crises.


Entrevista especial com Jean Pierre Leroy


O francês Jean Pierre Leroy chegou ao Brasil na década de 1970. Padre, ele atuou na região do Pará.

É filósofo e mestre em Educação pelo Instituto de Estudos Avançados em Educação/FGV. Foi Coordenador do Programa de Pesquisa sobre Campesinato em Áreas de Fronteira, Assessor da Comissão Pastoral da Terra e do Programa Nacional Fase Amazônia. Atualmente, é Membro da Rede Brasileira de Justiça Ambiental e assessor do Movimento pelo Desenvolvimento da Transamazônica e do Xingu.

Escreveu, recentemente, o artigo O lugar da crise do desenvolvimento capitalista na crise de civilização baseado nas ideias que propagou durante o Fórum Social Mundial deste ano.

A IHU On-Line conversou com Leroy, por telefone, sobre o que ele chama crise da civilização.

“Frente à crise política que conhecemos aqui no Brasil, vemos como é complexa e como está nos fazendo falta, de fato, uma esquerda. Um campo político que tenta segurar as pontas e, ao mesmo tempo, tenha um projeto ético de igualdade, que parte das bases da sociedade, e com projeto que resgate essa convivência com a natureza e a possibilidade da humanidade de amanhã continuar conectada com ela e poder continuar vivendo nela e dela”, apontou.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O senhor afirma que vivemos uma crise de civilização. Como se manifesta essa crise?

Jean Pierre Leroy
– O primeiro ponto é que não vislumbramos um projeto portador de utopia. Claro que existem muitos movimentos na base da sociedade que ainda mantêm, mas sempre mínimos. Em todo o lugar que olhamos a tendência majoritária de movimentos sociais se torna cotada, vê o imediato e não mantém a busca de uma utopia. Não falo só do Brasil, falo em termos gerais. Isto existe na base da sociedade, mas ainda podemos dizer que nenhum projeto, desses movimentos de base que mantêm um sentido utópico, consegue impor e fazer com que a sociedade reconheça os seus projetos. Hoje o que há é um vazio frente à possibilidade de renovar e repensar o mundo. O segundo ponto, da crise da civilização, é como os grandes problemas estão afetando o mundo.

Sabemos que a crise, as guerras e as incompreensões em torno do fundamentalismo colocam em perigo o conjunto da humanidade, porque cada um se volta para si mesmo e as diferenças acentuam as incompreensões entre povos e nações. Ninguém sabe onde isto vai nos levar. A crise climática se torna mais profunda a cada dia. Isso ameaça a humanidade de modo desigual, mas é uma ameaça geral. Frente a isso se vê uma paralisia quase total. É neste sentido que falo de crise da civilização. O modelo dominante de produções do consumo no mundo é o industrial, nascido com a Revolução Industrial. A medida de felicidade para a humanidade é ter bens. E isto numa espiral crescente de consumo, inovação, tecnologia, e de novos produtos, aderida pelo conjunto dos países.

Não quer dizer que na base da sociedade todo mundo está envolvido neste modelo, mas pelo desejo quase todo mundo está envolvido, mesmo que não tenha condição de consumir. Talvez isso seja mais profundo que esta falta de utopia alimentada por esse modelo, que nos devora por dentro. Isto é um elemento que faz com que não se pense em utopia, porque pensa em como vamos sobreviver, em como vamos viver amanhã.

IHU On-Line – A partir de que momento histórico o senhor acredita que a humanidade entrou no estágio da crise de civilização?

Jean Pierre Leroy
– Acho que, olhando o passado fica mais fácil dizer, cada civilização porta dentro de si as sementes de seu sucesso e, ao mesmo tempo, as sementes do seu fracasso futuro, de um momento em que ela chegará ao fim. A civilização ocidental, por exemplo, foi muito marcada pelo cartesianismo. Descartes, filósofo francês, separou a raça humana da natureza de modo muito forte, dizendo que a humanidade está acima da natureza e está necessitando dominá-la. Dizendo isso ele permitiu, do ponto de vista da filosofia, que a humanidade pudesse desenvolver a inteligência e as tecnologias, mas ao mesmo tempo, levou o homem a se afastar tanto da natureza, artificializando o mundo, que hoje estamos começando a pagar caro por isso. Em uma sociedade como o renascimento, com gente como Descartes, que ajudou a humanidade a avançar em uma linha onde obteve sucesso, ao mesmo já estava a ruína da sociedade de hoje.

IHU On-Line – Não se trata de uma incongruência falar em crise de civilização, considerando que essa mesma civilização – manifestação da possibilidade da convivência humana – é responsável pela crise?

Jean Pierre Leroy
– Sim, mas quando se diz crise da civilização não se está lamentando forçosamente que esta civilização esteja em crise, se constata que está em crise e, é claro, que é produzida por ela mesma. No início das civilizações está sua destruição futura. Ela mesma se destrói. Este modelo de produção e de consumo é inerente a esta civilização ocidental, que se estende hoje a todo o mundo. É claro que este modelo é destrutivo porque não consegue universalizar os bens, marginaliza e sempre marginalizará parte da humanidade, e porque não há recursos naturais capazes de dar conta e de fornecer os recursos necessários para a reprodução desse modelo.

IHU On-Line – O liberalismo e a esquerda clássica são tributárias da mesma racionalidade: a crença no progresso infinito. Ambas têm a mesma responsabilidade pela crise de civilização?

Jean Pierre Leroy
– Não devíamos esquecer que a União Soviética, com o capitalismo de estado, também reproduzia esse modelo do ponto de vista econômico e de uso dos recursos naturais. Tanto que hoje, na ex Alemanha Oriental e na Europa do leste, há muitos lugares onde já se deixou uma catástrofe de destruição ambiental, de contaminação de solos, de áreas industriais extremamente contaminadas, e não falo só de Chernobyl, elas mesmas estavam implicadas neste modelo. Aliás a gente vê, no caso do Brasil, que boa parte do PT e da esquerda está achando que há o progresso e o desenvolvimento, e quer continuar com esse modelo. Isto, sem dúvida, permeou as esquerdas também.

IHU On-Line – O capitalismo nos últimos dois séculos assistiu a duas grandes revoluções: a Revolução Industrial e a Tecnológica. Sob a perspectiva cultural, qual das duas impactou mais a sociedade humana?

Jean Pierre Leroy
– Ambas. A Revolução Tecnológica é diretamente ligada à Revolução Industrial. A Industrial levou à produção e ao consumo de massa e isso impactou no sentido de que permitiu a organização maciça, e que a população possa aumentar de modo exponencial. A morte jovem não se tornou a única alternativa para a maioria da humanidade. Esta revolução ajudou enormemente a humanidade a poder aumentar, o que levou a uma corrida tecnológica permanente, com o aperfeiçoamento de produtos. Isto renova a capacidade de alimentar mais população, de permitir que as pessoas vivam mais e dar qualidade de vida, ainda a uma minoria. Como isso foi capturado pelas empresas e pelo mercado, leva a uma corrida onde se explora a mão-de-obra e muita vezes a marginaliza e a torna inútil.

Com esse esquema sempre temos mais povos e classes sociais que ficam sobrando. E por outro lado, leva a uma superexploração dos recursos naturais. Não tem jeito. Tem gerações de celulares que fazem cada vez mais coisas, mas para cada uma delas deve ter muita água, recursos naturais, energia e minerais. A base da produção da sociedade não muda com essas novas tecnologias. Por que cada nova tecnologia leva a mais produto. Esta combinação da industrialização do artefato, sempre a um grau mais sofisticado de tecnologia, está nos levando à catástrofe. Esta também é a lei do mercado. As empresas buscam seu lucro. E como, hoje, as empresas estão sempre mais anônimas com investidores do capital e muito distantes da produção, então, só interessa mesmo o lucro. Tecnologia e lucro combinados nos levam a esse buraco. Progressivamente a impressão que se tem é que quem está “dando as cartas” e está dizendo qual deve ser nosso futuro são as grandes multinacionais e os grandes lotes empresariais. Todos os governos estão presentes em todas as grandes negociações internacionais. Hoje, para não se buscar mais longe, aqui no Brasil vemos claramente o poder dos grandes grupos empresariais.

Eles que dizem para onde deve ir o consumo e a produção de energia, o que devemos produzir no campo e como devemos produzir. Não imaginemos que sejam só produtores rurais na bancada ruralista no Congresso, é todo um grupo do agronegócio e grandes multinacionais que estão por trás disso também. Isto é uma incoerência e uma catástrofe.

IHU On-Line – Quais seriam as bases de um projeto de esquerda radicalmente transformador frente à crise de civilização?

Jean Pierre Leroy
– Frente à crise política que conhecemos aqui no Brasil, vemos como é complexa e como está nos fazendo falta, de fato, uma esquerda. Um campo político que tenta segurar as pontas e, ao mesmo tempo, tenha um projeto ético de igualdade, que parte das bases da sociedade, e com projeto que resgate essa convivência com a natureza e a possibilidade da humanidade de amanhã continuar conectada com ela e poder continuar vivendo nela e dela. O que há provavelmente, e talvez mais do que investir em espaços formais de poder no plano local, nacional, regional e mundial, é costurar, aos poucos, espaços em que setores da base da sociedade tentem viver de outra maneira e tentem conectar estas questões econômica, ecológica, da igualdade e da justiça, conjuntamente num projeto de vida.

Hoje existem tantas coisas fantásticas que se fazem, mas a necessidade que haveria é de costurar aos poucos isso, mostrando que, no fundo, todas as iniciativas de setores da sociedade e movimentos sociais de pequenos grupos, poderiam ser interpretadas como a busca de um outro modo de viver e de se relacionar com os outros e com o mundo.

IHU On-Line – É possível identificar movimentos sociais que interpretam corretamente a natureza da essência da crise civilizacional e trazem consigo o gérmen de outra sociedade? Quem são esses movimentos?

Jean Pierre Leroy
– Hoje eu diria que nenhum movimento por si lançou algo que traga isso. Acho que isto é um problema, inclusive. A Via Campesina coloca questões fundamentais. Primeiro por que resgata a percepção de que, lá na base da sociedade, existem setores ainda excluídos e marginalizados, que devem ser considerados, e que tem direito à igualdade e dignidade. Também resgata a percepção que existem classes sociais, e que ainda existem setores sociais que querem eliminar outros. E, ao mesmo tempo, dentro deste movimento há muita gente que também tem a clareza de que deve reatar esse laço com a natureza e que tem um papel pela agricultura camponesa, pela produção de água e cuidar da biodiversidade.

Esses movimentos, com todas as suas ramificações são muito interessantes, mas também enfrentam a questão do machismo com os movimentos de mulheres. Do outro lado eu, pessoalmente, não acho que sozinhos podemos dizer “aqui está o nosso futuro” ou “este movimento é o exemplo acabado”. Não vejo nenhum movimento sozinho capaz de dizer “eu o represento”. É buscar dentro de novas formas, não digo de organização mas de conexão a novas redes, que juntas dizem “estamos cada um com nossas diferenças, mas avançando na mesma direção”. Hoje tem muita gente na universidade, indivíduos que individualmente não são nada, mas coletivamente, cada um no seu lugar, trabalham para um novo movimento, para novas ideias. As escolas que tentam dar outra direção ao ensino, isto em uma ou duas escolas, não é movimento pois é pequeno e isolado, mas temos que ver e tentar pensar que é de um conjunto ainda muito pulverizado, mas que pode surgir alguma coisa. Internacionalmente é a mesma coisa. Hoje, talvez a Via Campesina seja o exemplo maior de movimento que ainda consegue congregar. Hoje tem movimentos indígenas, como o movimento que está partindo dos Andes e da Bolívia pelo bem viver. Politicamente não tem um peso no Brasil, o peso dele é quase nulo, mas ao mesmo tempo eles colocam questões superimportantes que vão na mesma linha da Via Campesina ou de um pequeno movimento urbano que perceba que não dá para ir como a gente está indo. Acho que mais do que apontar um só movimento, vamos buscar se conectar com outros que já avançam, mas que estes movimentos tenham também a percepção que “uma andorinha só não faz a primavera”.