quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Milho transgênico invade campo brasileiro




Das 261 novas cultivares de milho registradas no Ministério da Agricultura desde 2008, mais da metade são transgênicas. Gabriel Fernandes, da AS-PTA, avalia que maioria das cultivares deve ser comercializada até a próxima safra. Contaminação genética e dependência às multinacionais serão sentidas pelo agricultor.

A reportagem é de Raquel Casiraghi e publicada pela Agência de Notícias Chasque, 10-02-2009.

Levantamento da Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa (AS-PTA), com base em dados do Ministério da Agricultura (MAPA), mostra um cenário nebuloso para o campo brasileiro já na próxima safra. Das 261 novas cultivares de milho registradas no MAPA entre 2008 e janeiro deste ano, 146 são transgênicas. Ou seja, 56% das novas sementes que estão entrando no mercado são geneticamente modificadas.

O assessor técnico da AS-PTA, Gabriel Fernandes, estima que boa parte das cultivares já esteja à venda na próxima safra. Ele prevê que as empresas do setor forcem a substituição do milho convencional pelo transgênico mais rápido do que ocorreu com a soja.

"A informação que mais chama a atenção é que, como existe uma concentração muito forte no mercado de sementes, são quatro, cinco empresas que controlam o setor, o que achamos é que em pouco tempo essas empresas irão tirar do mercado as variedades não-trangsênicas. E vão deixar somente as transgênicas. Acho que este é o grande sinal de alerta", diz.

Fernandes analisa que a principal disputa deve se dar na fase da comercialização, já que muitos países, principalmente europeus, têm resistência ao milho transgênico. No Brasil, como as indústrias que usarem o geneticamente modificado deverão rotular os seus produtos, a população poderá rejeitar a semente.

Para os agricultores, a situação é mais grave do que no plantio de soja transgênica. Como o milho tem polinização cruzada, o perigo da contaminação é bem maior. O milho transgênico também deverá ser suscetível às estiagens e à criação de resistência a pragas, como já ocorre com a soja.

"O grande problema agora é a contaminação que vai ocorrer. Esse milho, uma vez plantado, vai se espalhar seja pelo pólen, seja pela mistura dos grãos, e vai contaminar qualquer tipo de milho que não seja transgênico. O grande desafio hoje é saber como vai ser possível manter o cultivo convencional ou agroecológico sem a contaminação", diz.

A comercialização do milho transgênico foi liberada pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) em 2008.



***

13/2/2009

Nova tentativa de reabilitação do milho transgênico na França


Estariam os OGM sendo reabilitados? A Diretora-geral da Agência Francesa de Segurança Sanitária dos Alimentos (AFSSA), Pascale Briand, teria, segundo o Le Figaro desta quinta-feira, 12 de fevereiro, assinado um parecer relativo ao milho geneticamente modificado, o Monsanto 810. A reportagem é de Hervé Kempf e publicada no jornal francês Le Monde, 13-02-2009. A tradução é do Cepat.

O parecer, datado em 23 de janeiro e que era “mantido em segredo” até agora, retoma na essência as conclusões da Autoridade Europeia de Segurança Alimentar de 31 de outubro de 2008 e que dizia que “não foi fornecida nenhuma prova científica, em termos de riscos para a saúde humana ou animal ou ambiental para justificar a invocação de uma cláusula de salvaguarda”.

O parecer da AFSSA faz menção ao relatório redigido pelo professor Yvon Le Maho cujas conclusões, contrárias às da EFSA, levaram a direção geral da Saúde a frear a Agência Francesa. O governo francês tomou o relatório Le Maho para justificar a sua decisão de proibir o plantio do milho transgênico invocando a cláusula de salvaguarda junto à Comissão Europeia.

A questão, pois, é saber se o governo manterá a sua posição apesar desta contundente advertência. Ao saber que o Ministério da Ecologia também fundamentou seu argumento sobre critérios não apenas sanitários, mas também ambientais, está em condições de solicitar o prolongamento da cláusula de salvaguarda.

Desaceleração no mundo

É neste contexto que novamente vem à tona a questão da área real que as culturas transgênicas ocupam no mundo. O organismo que anualmente publica a avaliação desta estatística, o ISAAA (International Service for the Acquisition of Agro-Biotech Applications), vê seus resultados fortemente contestados pela rede internacional dos Amigos da Terra. E a França está justamente no centro desta polêmica.

O ISAAA é um organismo sediado na Universidade de Cornell, de Nova York, e é financiado por organizações como a Fundação Rockefeller ou empresas como a Monsanto e a Syngenta, que produzem os OGM. Ele publica anualmente, desde 1997, um relatório sobre a difusão dos OGM mundo afora. Em seu estudo da situação para 2008, publicado nesta quarta-feira nos Estados Unidos, o ISAAA dá a entender que a área cultivada na Europa cresceu 21%. Errado, calcula a ONG Amigos da Terra, que observa que o ISAAA excluiu a França da sua contagem. A moratória adotada pela França metropolitana em 2008 sobre o milho MON 810 fez a área cultivada dos OGM na Europa diminuir em cerca de 50.000 hectares.

Como aumento, o ISAAA conta a Romênia para 2007 e 2008, ao passo que a excluía em 2006. Entretanto, a Romênia cultivava OGM em 2006. A explicação desta manipulação, segundo Amigos da Terra: a Romênia diminuiu fortemente a sua cultura de OGM quando ela passou a fazer parte da Europa, em 2007. O “esquecimento” de 2006 permite inchar a aparente progressão.

No total, segundo Amigos da Terra, a área cultivada de OGM na União Europeia não aumentou 21% em 2008, mas, ao contrário, diminuiu 2%. Esta crítica enfraqueceu drasticamente a confiança que se pode ter nos dados apresentados pelo ISAAA. Em 2008, Amigos da Terra também havia mostrado que o Instituto supervalorizou o número de hectares cultivados com OGM na Índia em mais de 400.000 hectares.

Apesar do que aparece como uma propensão à supervalorização, os números do ISAAA mostram uma diminuição da progressão dos OGM no mundo. Em seu relatório para 2008, o Instituto calcula que a área cultivada em 2008 aumentou em 9,4%, atingindo 125 milhões de hectares. Essa taxa é bem menor que aquela de 2007 (-12%), quando era avaliada em 12%. A desaceleração é contínua visto que, em 2006, a progressão era calculada em 13%, em 2005 em 11%, em 2004 em 20%, em 2003 em 15%, em 2002 em 12% e em 2001 em 19%.

Amigos da Terra, por sua vez, publica um relatório (intitulado Who benefits from GM crops?) no qual a associação ecológica destaca que 80% dos OGM cultivados no mundo são produzidos em apenas três países: Estados Unidos, Argentina e Brasil. Por outro lado, o ISAAA observa que a cultura dos OGM começou em 2008 em Burkina Fasso, Egito e Bolívia, mesmo que em áreas pequenas. Em outro ponto de fricção, Amigos da Terra estima que na maioria dos casos os OGM não trazem benefícios para os agricultores, mas para os grandes exploradores agrícolas.






Fontes:

http://www.unisinos.br/_ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=19917



e

http://www.unisinos.br/_ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=19956

A dieta do clima. Coma menos carne e combata o aquecimento



Das centenas de dietas criadas nos últimos anos esta, certamente, é a mais politicamente correta de todas: siga seus preceitos e ajude a salvar o planeta do aquecimento global. De quebra, ganhe uma vida mais saudável e, quem sabe, alguns quilos a menos.

É a dieta com baixos teores de carne vermelha, no máximo 400 gramas por semana.

A reportagem é do jornal O Globo, 11-02-2009.

Se for adotada no mundo todo, calculam especialistas, a redução de emissões de gases-estufa seria da ordem de 10%, uma economia de nada menos que US$ 20 trilhões nos custos do combate às mudanças climáticas — cerca da metade do valor total necessário para tal tarefa em 2050.

A diminuição da criação de animais seria uma forma natural de diminuir as emissões e reduzir os investimentos em outras formas mais caras de combate aos poluentes.

O estudo realizado por especialistas da Agência de Impacto Ambiental da Holanda concluiu que os hábitos alimentares modernos — calcados numa dieta muito rica em carne vermelha — têm um impacto significativo no aquecimento do planeta.

E a redução do consumo de carne bovina, de porco, de frango e ovos criaria um novo sorvedouro de dióxido de carbono.

Pode não parecer óbvio de imediato, mas a criação extensiva de animais tem um grande impacto no clima. Em primeiro lugar, porque quanto mais a dieta global for baseada no consumo de carne, maior terá que ser a criação e, portanto, a área que deixaria de ser ocupada por vegetação — que, naturalmente, absorve carbono.

A flatulência dos bois e o metano

Além disso, para alimentar os animais, há uma ampliação no cultivo de grãos, o que geralmente demanda o uso de energia geradora de emissões poluentes. Para se ter uma ideia, a produção de um único quilo de carne bovina demanda o gasto de 15 quilos de grãos e 30 quilos de forragem.

Por último, mas não menos importante, há a questão da flatulência.

O principal gás expelido pelos extensos rebanhos mundiais é o metano — um dos principais responsáveis pelo efeito estufa.

O grupo responsável pelo novo estudo, coordenado por Elke Stehfest, calculou o impacto do consumo de carne no custo da estabilização dos níveis de CO2 na atmosfera em 450 partes por milhão — um padrão que, segundo muitos cientistas, é necessário para prevenir graves alterações climáticas, como secas frequentes e elevação do nível dos mares.

Se os hábitos alimentares não se alterarem, em 2050, para alcançar esse nível de dióxido de carbono, as emissões teriam que ser reduzidas em dois terços , o que custaria aproximadamente US$ 40 trilhões.

Mas, se a população mundial passar a seguir uma dieta pobre em carne vermelha — definida como 70 gramas de carne bovina e 325 gramas de frango e ovos por semana — cerca de 15 milhões de quilômetros quadrados de área ocupada pela criação de animais seria liberada para vegetação.

As emissões de gases do efeito estufa seriam reduzidas em 10% com a queda do número de animais. Juntos, esses impactos reduziriam em 50% os custos do combate às mudanças climáticas em 2050.

Os cientistas sugerem que, para ajudar os consumidores, o custo ambiental da carne — ou o volume de emissões de CO2 e metano por porção — seja incluído nos rótulos.


terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

O FIB (FELICIDADE INTERNA BRUTA) É MAIS IMPORTANTE QUE O PIB


COMO EXPORTAR FELICIDADE

Texto e fotos: Haroldo Castro

Um pequeno reino no Himalaia ensina
ao mundo como ser feliz

"A Felicidade Interna Bruta é mais importante do que o PIB. Em nosso processo de desenvolvimento, a felicidade precede a prosperidade econômica." Jigme Singye, rei do Butão, em entrevista ao Financial Times


Uma nação encravada na Cordilheira do Himalaia está revolucionando alguns conceitos básicos da vida humana. Ao criar um novo índice para medir a qualidade de vida de seus habitantes, o Butão oferece uma receita inovadora para nosso mun­do de hoje, demasiadamente ancora­do em aspectos materiais.

Tudo começou com Jigme Singye Wangchuck, que substituiu seu pai como o rei do Butão, em 1972. Ele ti­nha apenas 17 anos de idade. Sua co­roação, dois anos mais tarde, marcou o fim do isolamento do pequeno pais (menor que o Estado do Rio de Janei­ro), escondido nas montanhas. De fato, até então, nenhum es­trangeiro tinha autori­zação para entrar no reino, a não ser quan­do convidado pela fa­mília real. A partir de 1974, o paraíso proi­bido começou a abrir as portas ao mundo.

Nos 34 anos de rei­nado, o desafio do rei Jigme Singye Wang­chuck foi o de equili­brar o desenvolvimen­to econômico com os valores culturais e espirituais da nação. Em 1987, respondendo a um repórter do jornal britânico Financial Times sobre a razão de o desenvolvimento no Butão caminhar a passos tão lentos, o rei teria respondido que "a Felicidade
Interna Bruta é mais importante do que o Produto Interno Bruto". E teria arrematado: "Em nosso processo de desenvolvimento, a felicidade precede a prosperidade econômica."

0 conceito de o bem-estar do indivíduo não estar obrigatoriamente relacionado com bens materiais passou a percorrer o mundo e chamou a atenção de estudiosos. Afinal, o índice Produto Interno Bruto (PIB), usado por todas as nações do planeta, sempre foi considerado limitado. 0 PIB é apenas uma fórmula que determina a quantidade total da produção e do consumo de serviços e bens por meio de transações econômicas. Pouco importa se a riqueza foi originada de guerras, prostituição e devastação da natureza ou é o resultado de um trabalho honesto e uma atividade sustentável.

Se algum bem é conservado e não é consumido, essa operação não é registrada no PIB, pois esta não gera um valor específico. Por exemplo, uma floresta mantida in­tacta não entra no cálculo do índice, enquanto o conserto de um veículo aci­dentado (que pode até ter provocado vítimas fatais) é contabilizado. O PIB não consegue medir o trabalho volun­tário e chega a ampliar a discrimina­ção contra as atividades não-remune­radas, cujas motivações estejam acima do ganho financeiro.

"As medidas do PIB não medem a degradação do meio ambiente, o esgotamento dos recursos naturais nem o agudo declínio na qualidade de vida dos cidadãos. Acho que, em todos os espectros políticos, existe o reconhe­cimento dessas deficiências e a con­vicção que é importante desenvolver medidas mais adequadas", afirma jo­seph Stiglitz, economista reconhecido com o Prêmio Nobel 2001 de Econo­mia. Stiglitz foi convidado pelo presi­dente francês, Nicolas Sarkozy, para desenvolver um novo sistema de cál­culo econômico que possa incluir fa­tores de qualidade de vida.

As palavras de um rei (adorado por seus súditos) sobre a importância da felicidade foram levadas a sério pelos butaneses. Era preciso colocar em prá­tica o desejo real e o índice Felicida­de Interna Bruta (FIB) devia ser sis­tematizado. Em 1998, o conselho de ministros estabeleceu o Centro de Es­tudos do Butão, o qual passou a orga­nizar as informações sobre a FIB. O conceito também foi incluído nos Pla­nos Qüinqüenais e foi definido que a FIB deveria se apoiar em quatro pila­res: desenvolvimento socioeconômico sustentável e eqüitativo, conservação ambiental, promoção do patrimônio cultural e boa governança.

Enquanto isso, ao redor do mundo, um número crescente de economis­tas, cientistas sociais e empresários buscava outras medidas e indicadores que levassem em consideração não apenas o fluxo de dinheiro (como no caso do PIB), mas também a saúde, a cultura, o tempo livre dos indivíduos, a conservação da natureza e outros fatores não-econômicos.

Vários índices começaram a apare­cer na década de 90. O primeiro pas­so foi dado com o estabelecimento do índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Utilizado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimen­to (PNUD), o IDH, além de incluir a renda per capita de um país, dá desta­que à expectativa de vida dos habitan­tes, ao grau de alfabetização e às rea­lizações educacionais.

Já o Indicador de Progresso Genuí­no (IPG) introduz em seus cálculos os fatores negativos criados pela socie­dade, os quais não são contabilizados pelo PIB. Por exemplo, a implantação de uma fábrica representa — indiscuti­velmente — um aumento no PIB de uma região. Mas se os benefícios tra­zidos pela nova empresa também vie­rem acompanhados por uma degrada­ção da saúde, da cultura e do bem-estar da comunidade, o resultado fi­nal pode ser zerado, anulando os be­nefícios econômicos trazidos. Segun­do os seguidores do IPG, existem vá­rios custos não-econômicos que de­vem ser incluídos, como o de uso dos recursos naturais, de perda dos ecos-sistemas, de poluição (sonora, do ar e da água), de criminalidade e, até mes­mo, de dissolução de famílias.

Outra tentativa de medir o bem-es­tar da sociedade, ainda menos ortodoxa, é o índice do Planeta Feliz (IPF), criado pela Fundação New Economics, um think-tank (usina de idéias) britâ­nico. Um dos componentes mais im­portantes do IPF é a eficiência ecoló­gica de uma nação e de seus indiví­duos. A idéia não é identificar o país "mais feliz" do planeta, mas sublinhar que é possível atingir altos índices de bem-estar e viver plenamente sem con­sumir excessivamente ou desgastar os recursos naturais.

Medir valores subjetivos, como a fe­licidade, é uma tarefa complicada, pois cada pessoa a compreende de forma distinta. Para alguns cientistas, a men­te funciona apenas como um aparelho que responde a estímulos externos. A felicidade, nesse caso, é percebida como uma conseqüência direta dos prazeres sensoriais registrados pela mente. Como estes são passageiros, a ênfase na busca de estímulos mate­riais é cada vez maior.
Já a filosofia budista aponta para ou­tra fonte de felicidade, aquela que tem origem em estímulos internos. E o es­tado em que o indivíduo vivencia o "ser", ao contrário de reagir apenas aos estímulos externos. A ciência compor­tamental comprovou que, de fato, a mente pode ser treinada por meio de práticas específicas (como a meditação) para promover estados duradouros de serenidade e contentamento. Quando a felicidade é compreendida dessa ma­neira, a busca desenfreada pelas sen­sações externas e o conseqüente con­sumo insustentável dos recursos natu­rais podem ser reduzidos consideravel­mente, promovendo uma economia mais saudável.

Segundo Karma Ura, presidente do Centro de Estudos do Butão, uma auto­ridade na pesquisa da FIB em seu país, a felicidade deve ser "um bem público, já que todos os seres humanos alme­jam alcançá-la". Ele acrescenta que "a busca da felicidade não pode ser deixada exclusivamente a cargo de esforços privados. Se o planejamento do governo e as condições macroeconômicas da nação forem adversos à felicidade, esse planejamento fracassará como meta co­letiva. Os governos precisam criar con­dições que conduzam à felicidade".

O primeiro-ministro do Butão, Jigmi Thinley, em discurso na Assembléia Ge­ral da ONU em setembro, explicou por que seu país instituiu a FIB. “É respon­sabilidade do Estado criar um ambiente que permita aos cidadãos buscar a feli­cidade." Ele considera que o ser huma­no deve ser visto de uma forma holísti­ca. "O bem-estar material é apenas um componente e este não assegura que os cidadãos estejam em paz com o am­biente e em harmonia entre eles."

Contando com o apoio incondicio­nal do monarca, a FIB passou a ser um elemento estratégico da política de planejamento do Butão e criou-se uma coleção de novos indicadores socioam­bientais. Um questionário com 1.300 perguntas foi elaborado e uma amos­tra da população respondeu ao teste. A pesquisa incluía as mais variadas perguntas, como quantas horas o in­divíduo dormia à noite ou quanto tem­po passava com amigos e parentes.

A convite do PNUD, Michael Pen­nock, diretor do Observatório para Saúde Pública em Vancouver, Canadá, passou três meses no Butão em 2006 para desenvolver um questionário mais "internacional" sobre a busca da felicidade. "O questionário butanês era muito longo, eram necessárias seis horas para ser respondido. Fui ao Bu­tão para criar uma versão menor, mais concisa, que pudesse ser respondida em 20 ou 30 minutos. Usamos apenas 100 variáveis para indicar os níveis de satisfação de um indivíduo no seu co­tidiano", diz Penncock.

Os pilares da FIB no Butão foram "ocidentalizados" e passaram a ter nove dimensões. Além das quatro ini­ciais — bom padrão de vida, boa governança, proteção ambiental e pro­moção da cultura — foram adicionados outros cinco itens: educação de quali­dade, boa saúde, vitalidade comunitá­ria, gestão equilibrada do tempo e bem-estar psicológico.

-Foi preciso dar pesos diferentes para cada área, em cada país. Para
países mais pobres, enfatizamos as ne­cessidades materiais. No Butão, um peso maior foi conferido ao aspecto cultural — o que não acontece no Canadá, uma nação multicultural por na­tureza", explica Penncock.
O conceito da FIB já chegou ao Bra­sil. No final de outubro, o butanês Kar­ma Ura se reuniu em São Paulo com empresários interessados em susten­tabilidade, deu palestras na Unicamp e na USP e participou da I Conferên­cia Brasileira sobre a FIB. Apesar de ter estranhado o clima quente e úmi­do, Ura adorou o calor humano brasi­leiro. "Tenho certeza de que o concei­to da Felicidade Interna Bruta vai ser bem aceito no Brasil. Vocês sabem o que é ser feliz."

Haroldo Castro viaja como jornalista, fotógrafo e conservacionista.
Ele é o fundador do Clube de Viajologia e já documentou 138 países.


haroldo@viajologia.com.br

www.viajologia.com.br


Revista Planeta JANEIRO 2009




Extraído do Blog HolosGaia


Viveiros de Castro fala sobre Lévi-Strauss

Claude Lévi-Strauss


Leia entrevista com Eduardo Viveiros de Castro sobre Lévi-Strauss


CAIO LIUDVIK

colaboração para a Folha de S.Paulo




Um dos principais antropólogos brasileiros, Eduardo Viveiros de Castro se notabilizou também pela retomada criativa, em livros como "A Inconstância da Alma Selvagem" (ed. Cosac Naify), dos métodos e do projeto teórico de Claude Lévi-Strauss.
E tal dívida intelectual fica patente pelo entusiasmo com que, na entrevista a seguir, saúda o centenário do pai da antropologia estrutural. Professor no Museu Nacional (RJ), Viveiros de Castro também comenta o percurso de Lévi-Strauss, sua recepção pela antropologia brasileira e sua atualidade como paradigma científico e forma de compreensão crítica dos impasses do mundo global.


Folha - Como sintetizaria a importância de Lévi-Strauss para a antropologia e o pensamento ocidentais?


Eduardo Viveiros de Castro -
Lévi-Strauss reinventou a antropologia, ao desmontar os fundamentos metafísicos do colonialismo ocidental, e ao mesmo tempo revolucionou a filosofia, ao abrir um dos principais caminhos do século [20] para que outros pudessem desmontar os fundamentos colonialistas da metafísica ocidental.


Quais de suas obras o sr. destacaria? Por quê?


Viveiros de Castro -
Todas. "As Estruturas Elementares do Parentesco" (1949) é um dos grandes clássicos do pensamento sociológico, um livro de mesma estatura que "Economia e Sociedade", de Max Weber, ou que "As Formas Elementares da Vida Religiosa", de Durkheim.


"Tristes Trópicos" (1955) suscitou uma modificação dramática na sensibilidade européia em relação ao lugar da civilização ocidental na história humana.


"O Pensamento Selvagem" (1962) colocou os mundos intelectuais que estavam fora da órbita das chamadas "grandes tradições" (as culturas estatais, antigas ou modernas) ao alcance do horizonte filosófico euro-americano.


Isso tudo dito, penso, porém, que os estudos mais tardios sobre as mitologias ameríndias, a saber, a tetralogia "Mitológicas" (1964-71) e as três monografias posteriores ("A Via das Máscaras", 1979, "A Oleira Ciumenta", 1985, e "História de Lince", 1991) são o ponto alto da trajetória intelectual de Lévi-Strauss.


Com esses livros, Lévi-Strauss tirou o pensamento ameríndio do gueto em que jazia desde o século 16 e lhe deu carta de cidadania para ingressar com a cabeça erguida no futuro intelectual da espécie.


A partir das "Mitológicas", a obra de Lévi-Strauss se torna o momento em que o pensamento ameríndio faz seu lance de dados, ultrapassando seu próprio "contexto" cultural e se mostrando capaz de dar a pensar a outrem, isto é, a todo aquele que, persa ou francês, se disponha a pensar --sem mais.


Meu livro favorito de Lévi-Strauss são dois: "As Origens dos Modos à Mesa", o terceiro volume das "Mitológicas", maravilhosamente bem pensado, e "História de Lince", livro curto e grandioso, sombrio e genial, onde se acha exposta a teoria indígena da "descoberta" da América pelos europeus.

Eduardo Viveiros de Castro

Folha - Em que circunstâncias o sr. entrou em contato pela primeira vez com a obra lévi-straussiana? Que impacto esse "encontro" teve para o seu próprio modo de conceber e praticar a antropologia? Poderia exemplificar com alguma de suas obras?


Viveiros de Castro -
Os dois primeiros livros de antropologia que li foram "As Estruturas Elementares" e "O Cru e o Cozido", em 1970-71, em cursos que [o crítico] Luiz Costa Lima dava na PUC-RJ na época.


Note-se que, se foram os patronos da USP que trouxeram Lévi-Strauss ao Brasil nos anos 1930, não foi a USP quem trouxe o estruturalismo para essas plagas, a partir do final dos anos 1960. A antropologia estrutural custou um bocado a pegar no ambiente paulistano, por razões muito características, que não cabe adentrar aqui. A exceção que confirma a regra, para o caso de São Paulo, foi o grande Bento Prado Jr., que sempre esteve um passo ou dois à frente de seus congêneres.


A experiência de leitura de "O Cru e o Cozido" (volume 1 das "Mitológicas"), em particular, foi decisiva para mim.


Mergulhado como me achava, aos vinte e bem poucos anos, na efervescência cultural da época, a época da tropicália e da antropofagia (uma teoria política da bricolagem cultural), dos experimentos radicais da arte conceitual brasileira, da ascese barroca da poesia concreta, da querela do formalismo versus conteudismo em arte, do nacional-popular, das raízes, e tendo tomado fervorosamente o partido tropical-concreto, a leitura daquela série de mitos picarescos analisados por Lévi-Strauss, pornográficos às vezes, surrealistas sempre, tropicalistas literalmente, mitos tratados de modo impavidamente algébrico em "O Cru e o Cozido", me ofereceu à imaginação esse objeto perfeito: uma matemática rabelaisiana. Lévi-Strauss é a síntese, muito gálica, de Rabelais e Descartes.


Folha - Hoje é possível considerar a antropologia estrutural, em algum sentido, ultrapassada?


Viveiros de Castro -
Essa questão faria mais sentido se aplicada à coleção de verão de 2007 de algum costureiro ou a alguma droga ou ritmo da moda nas discotecas (ainda se chamam assim?) de Londres, Mikonos ou Recife.


Mas, se é para a respondermos: bem, sim, a antropologia estrutural está, em alguns sentidos, ultrapassada, como a filosofia de Kant está em alguns sentidos ultrapassada, ou a poesia de Dante.


Mas, como sabemos, isso não impede que ninguém se possa chamar filósofo se não leu e meditou profundamente sobre Kant, nem poeta se não leu nem se maravilhou com Dante.


Em outros sentidos, a antropologia estrutural nem sequer começou a ser explorada em toda a sua complexidade.



O estruturalismo está muito longe de ter tido todas as suas potencialidades analíticas esgotadas, e a fase das leituras brutalmente simplificadoras da obra lévi-straussiana --simplificação dialeticamente necessária, sem dúvida, para o prodigioso florescimento de novos temas e problemas na antropologia dos últimos 30 anos (e para a ressurreição de alguns temas bem velhos; já ia dizer, ultrapassados) --aproxima-se de seu fim.


Após a recauchutagem do evolucionismo pela psicoantropologia cognitiva, essa ciência perpetuamente promissora; após a ressurgência do difusionismo com a sociologia crítica da "invenção da tradição"; depois da volta do funcionalismo (mas ele alguma vez foi mesmo embora?) com a economia política da globalização; bem, talvez tenha chegado a hora de desesquecer e recomplicar --como dizia Leach, de "repensar"-- o estruturalismo.


Lévi-Strauss, que completou 100 anos em 2008,
em foto de 2005

Folha - Em "As Idéias de Lévi-Strauss" (ed. Cultrix), Edmund Leach mostra que a antropologia anglo-americana é herdeira de Malinowski na ênfase em aspectos como observação participante, menos generalizações e foco nas diferenças --mais do que nas semelhanças-- entre as culturas. E por isso tais antropólogos tenderiam a criticar o viés de Lévi-Strauss, que seria mais comparável ao de Frazer: erudição monumental, mas pouco trabalho de campo e uma vontade de elucidar os traços universais da "mente humana", negligenciando as particularidades culturais. Como vê tais críticas?


Viveiros de Castro -
Leach era um piadista, um caso curioso de enfant terrible vitalício da antropologia britânica. Pois suas críticas a Lévi-Strauss devem ser lidas tendo-se em mente que Leach foi justamente o principal difusor do estruturalismo nas terras malinowskianas da antropologia britânica.


(A antropologia norte-americana tem pouco a ver com Malinowski: não misturemos as estações).

Foi aliás graças ao ensino de Leach que, hoje, se pode dizer que o verdadeiro espirito do estruturalismo está mais vivo na antropologia britânica, graças à liderança intelectual de uma ex-estudante de Leach em Cambridge, a antropóloga Marilyn Strathern (o maior nome surgido na disciplina desde Lévi-Strauss), do que na França, onde o pensamento lévi-straussiano foi submetido, por alguns antropólogos eminentes no plano local, a uma empresa sistemática de sabotagem intelectual.


Quanto a isso de erudição monumental (não consigo imaginar essa expressão como significando uma crítica) versus particularidades culturais --tal coisa não existe.


A distinção entre antropologias francesa e britânica não se reduz a --nem sequer passa por-- um contraste entre generalizações e busca de semelhanças versus estudos monográficos particularizantes.


Aliás, nada mais particularizante e minuciosamente etnográfico que a etnologia francesa de hoje. E Lévi-Strauss nunca se interessou pelas semelhanças, mas pelas diferenças. Ou melhor, pelos sistemas formados pelas diferenças entre as diversas culturas particulares.


A oposição entre universal e particular é uma roubada epistemológica. Isso não existe.


Folha - Outro grande nome da antropologia contemporânea, Clifford Geertz, teceu críticas duras a "Tristes Trópicos", dizendo tratar-se de um livro a ser lido sobretudo como ficção, literatura, mais do que como etnologia. O sr. concorda? Como o sr. avalia essa obra de Lévi-Strauss?


Viveiros de Castro -
As críticas de Geertz (aliás, já morto há algum tempo) não são tão recentes assim. As primeiras delas datam do começo dos anos 1970, se não me falha a memória. De qualquer modo, elas são irrelevantes.


Geertz se distinguiu por criticar logo os dois estilistas máximos, no sentido literário tanto como conceitual, que a antropologia jamais conheceu: o britânico Evans-Pritchard e o francês Lévi-Strauss.


Parece coisa de inveja da excelência alheia.


"Tristes Trópicos" não é um livro de ficção. É um livro que redefiniu as fronteiras e as funções intelectuais da ficção e da etnologia. Eu troco a obra inteira de Geertz --que não é nada má, diga-se de passagem-- por um único capítulo de "Tristes Trópicos".

Geertz



Folha - Em que medida as fortes denúncias de Lévi-Strauss contra o etnocentrismo do Ocidente ajudam hoje a pensar os rumos da civilização globalizada?


Viveiros de Castro -
As denúncias de Lévi-Strauss simplesmente anteciparam o que hoje está cada vez mais evidente: que a espécie entrou em um apertadíssimo beco sem saída.


E que, se alguma esperança há, esta reside em nossa capacidade de prestar a mais humilde, séria e solícita das atenções à tradição intelectual dos povos que não tiveram a pretensão inacreditavelmente estúpida e arrogante de se colocar como maiores do que o mundo em que vivem.


(Entrevista publicada na Folha de S. Paulo em 25/11/2008)

Extraído do Blog Epifenomenologia

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Fortaleza Europa


Planos para a detenção de imigrantes africanos ilegais provocam indignação em ilha italiana


Por: Clemens Höges

Em Lampedusa (Itália)
Da Der Spiegel


Moradores da ilha italiana de Lampedusa estão se rebelando contra Roma. Milhares de refugiados que chegaram lá de barco poderão ser em breve colocados em um centro de detenção na pequena ilha, para impedir que entrem na União Europeia e desapareçam.

Quando os dramas tornam-se comuns, até mesmo os idealistas podem às vezes parecer insensíveis. Antonino Maggiore diz que deseja construir "um mundo melhor" - para os italianos, ainda mais para os estrangeiros perseguidos e, na verdade, para todo mundo. Maggiore tem 25 anos, uma idade na qual é de se esperar pronunciamentos idealistas desse tipo. Ele dirige uma organização chamada Juventude Alternativa e trabalha para a emissora Rádio Delta, na ilha de Lampedusa, ao largo da costa do norte da África, um posto avançado da fortaleza Europa.

Os amigos dele na Rádio Delta transmitem músicas alegres que promovem um mundo melhor, enquanto Maggiore relata as notícias do mundo real. No entanto, só há um tipo de notícia que ele nunca lê: a de que as duas embarcações cinzentas da alfândega de Lampedusa rebocaram mais um barco a remo caindo aos pedaços até o porto da ilha. Alguns dos passageiros - homens, mulheres e crianças da África - estão invariavelmente mortos ou semi-mortos quando chegam a Lampedusa. "Se eu tivesse que falar sobre essas histórias todas às vezes que elas ocorrem, estaria noticiando a mesma notícia todos os dias", diz Maggiore.

No ano passado, 36.952 refugiados chegaram de barco às costas italianas. Cerca de 31 mil deles desembarcaram em Lampedusa. Ninguém sabe quantos morreram na tentativa de chegar à Europa. As organizações de auxílio humanitário calculam que para cada três refugiados que chegam vivos, um morre no mar.

O próprio continente africano é, de certa forma, como o mar que os migrantes atravessam. Ele envia ondas sucessivas de refugiados que vão quebrar-se todos os anos nas escarpadas costas europeias. É impossível deter as ondas, e a única forma de controlá-la é construindo novos quebra-mares. Os espanhóis deram início ao processo, primeiro selando o Estreito de Gibraltar e, depois, os seus enclaves norte-africanos de Ceuta e Melilla. Atualmente a rota de 130 quilômetros da Tunísia a Lampedusa, uma viagem de dez horas em barcos de pesca, é a mais fácil para os refugiados oriundos da África.

E, conforme argumenta o primeiro-ministro Silvio Berlusconi, é precisamente por isso que a ilha turística mediterrânea precisa transformar-se no quebra-mar mais eficiente da Europa. A sua coalizão de centro-direita deseja construir um novo centro de detenção de grande porte na ilha. Durante as eleições de abril do ano passado, os partidos de direita do país prometeram expulsar os imigrantes ilegais o mais rapidamente possível. E agora eles estão a ponto de cumprir a promessa - em Lampedusa.




Segundo a nova política proposta por Roma, os migrantes não serão mais transportados diretamente para o continente, mas sim para campos de refugiados na ilha. Lampedusa é ideal para isso. Não é possível sair de lá sem um barco, e um forasteiro teria dificuldades para se esconder por mais do que alguns minutos na única cidade da ilha. Algum dia os africanos serão deportados para algum outro país - mas isso será difícil e demorado.

Os 6.000 italianos que moram em Lampedusa passaram as duas últimas semanas fazendo rebeliões e greves para protestar contra os planos do governo para a ilha. Eles temem que o centro de detenção possa prejudicar o turismo, uma das bases da economia local. Afinal, quem vai passar férias em Guantánamo? Alguns temem que milhares de refugiados venham para Lampedusa, e que toda essa operação seja maior do que aquela referente ao famoso campo de detenção norte-americano.

Apesar de tais temores, não existe aqui nenhum graffiti racista ou xenófobo. Os moradores não entoam slogans hostis, e os italianos chegaram até a construir um memorial em homenagem aos refugiados que se afogaram. Muitos desejam aos africanos uma vida boa - mas não na ilha. Quanto a isso, eles concordam com os cerca de 1.300 refugiados que encontram-se atualmente trancados no velho campo provisório, que foi construído para acomodar 380 pessoas.

Os moradores de Lampedusa dirigem a sua raiva contra Berlusconi e o ministro do Interior, Roberto Maroni, da direitista Liga do Norte. Eles estão especialmente revoltados com a recente declaração de Berlusconi, que afirmou desconhecer qualquer situação precária em Lampedusa, e acreditar que os refugiados têm liberdade "para sair quando quiserem e tomar uma cerveja". Agora os moradores da ilha temem que os turistas achem que encontrarão africanos bebendo na ilha. Já os refugiados sabem por experiência própria que as palavras do primeiro-ministro não fazem sentido.

Dois dias atrás, os italianos, liderados pelo prefeito de Lampedusa, fizeram uma passeata até o campo de detenção. Ao vê-los, os refugiados pularam as cercas, gritaram "liberdade, liberdade" e juntaram-se à marcha de protesto.

A seguir os moradores da ilha fizeram uma greve geral, praticamente paralisando Lampedusa. A atividade na ilha durante o inverno já é bem pequena, mas, de qualquer maneira, eles mandaram uma mensagem à Roma.

"Nós ainda desejamos um futuro", diz Antonino Maggiore. Mas ele não quer passar esse futuro trabalhando como guarda carcerário. "Os africanos que chegam de barco querem ir para a Europa, e não para Lampedusa. Por que então esta pequena ilha teria que resolver um problema que aflige toda a Europa?".

Nenhum refugiado jamais permaneceu em Lampedusa. Muitos partem para a Europa e mergulham na clandestinidade, colhendo laranjas na Espanha, limpando vasos sanitários na França ou lavando pratos nos restaurantes de Hamburgo e Munique - como trabalhadores ilegais ou "clandestini", como são chamados em Lampedusa. Eles não desejam retornar à Etiópia ou a Mali, onde pagaram a traficantes de seres humanos uma quantia de US$ 2.000 a US$ 4.000 por uma viagem só de ida. Os destinos dessas pessoas, seja a morte ou a sobrevivência, frequentemente é decidido no último passo rumo à Europa, a viagem de barco rumo a Lampedusa.

Os traficantes ancoram as embarcações em vilas costeiras da Tunísia ou da Líbia. Apontando para o norte com os dedos, eles dizem aos refugiados que, assim que avistarem terra, devem destruir os lemes ou motores precários dos seus barcos. Depois disso, só resta aos refugiados esperar.





Se um barco à deriva não for descoberto, as pessoas a bordo morrerão. Mas, se forem avistados pelos aviões de patrulha operados pela agência europeia de controle da fronteira europeia Frontex, por exemplo, os refugiados estarão protegidos pelo Artigo 98 da Convenção das Nações Unidas sobre a Lei do Mar, que estipula o dever de prestar assistência a embarcações em perigo. Quando isso ocorre, as lanchas rápidas de Lampedusa dirigem-se infalivelmente ao barco dos refugiados e rebocam os imigrantes ilegais até o porto.

Os moradores acostumaram-se a esses hóspedes temporários. Isso não é difícil, porque ninguém os vê. Lampedusa tem nove quilômetros de comprimento por três de largura, e só há uma pequena cidade na ilha. Há alguns anos o governo construiu o velho campo de refugiados em uma colina. As cercas e os guardas que ficam em torno do campo garantem que os refugiados fiquem fora da cidade. É como se eles ainda estivessem na África.

Mauro Buccarello teme que tudo isto mude quando o novo campo for construído. A prática de virar as costas para o fato, cultivada no decorrer dos anos, poderá terminar. "O problema é a psicologia dos turistas", diz Buccarello. Ele tem 32 anos e está muito bem vestido. Buccarello usa grossos anéis de pratas nos dedos polegares e mínimos, veste roupas caras e tem muito a perder com a construção do campo de refugiados. Ele ganha bem transportando no seu barco turistas que praticam scuba diving nos locais mais belos espalhados pela costa.

Mas os turistas podem ser criaturas sensíveis. Eles não querem ver pessoas esquálidas nem sentirem-se ansiosos. Muitos turistas manterão distância da ilha caso saibam que milhares de africanos sem nenhuma perspectiva estão detidos em Lampedusa. O fato de o governo na distante Roma planejar construir o campo na extremidade da ilha, no terreno de um ex-quartel militar, não ajuda.






Em outras palavras, nada mudará para os turistas, e no entanto tudo será diferente, teme Bernardino de Rubeis, o prefeito. Todos na ilha o chamam pelo apelido, "Dino". Ele tem mais de dois metros de altura. "Se as pessoas acharem que isto será uma prisão ao ar livre para 5.000 imigrantes, o turismo em Lampedusa entrará em colapso".

Rubeis diz que os assessores de Berlusconi não serão capazes de deportar os refugiados com rapidez suficiente, se é que algum dia os deportarão. Ele observa que a Itália só possui um acordo em vigor com o Egito, mas que pouca gente vem daquele país. Ninguém se dispõe a aceitar os imigrantes que vem de outras nações.
"Se quisermos que tudo permaneça como está, tudo terá que mudar", disse Alain Delon para Burt Lancaster no filme "O Leopardo". Giuseppe Tomasi é o autor do livro no qual o filme se baseia. "Quando uma onda grande chega, é impossível nadar contra ela", escreveu ele. Na época ninguém falava em refugiados africanos.

Mas muitos na ilha estão familiarizados com o livro dele, que foi publicado em 1958. Tomasi tinha os títulos de Duque de Palma, Barão de Montechiaro e Príncipe de Lampedusa.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

O porquê do retorno do sagrado




Um artigo de Charles Taylor


O filósofo Charles Taylor, em artigo publicado no jornal Corriere della Sera, 15-01-2009, aborda a "tese da secularização" e sugere que hoje vive-se uma redescoberta do espírito. Segundo ele, "é necessário também saber trazer à superfície aqueles valores vividos profundamente pelas pessoas, isto é, articulá-los, dar voz a eles". A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

É surpreendente, mas as ciências sociais, de resto nascidas secularizadas, foram até agora cegas e surdas frente aos valores espirituais. Salta aos olhos a total indiferença que não poucos filósofos, sociólogos e historiadores reservam à dimensão do espírito. As consequências desse desinteresse são pesadas no nível da imprensa e da opinião pública, especialmente a culta. Mas não é suficiente que, ao redor da religião, tenha sido criada intencionalmente uma cortina de indiferença e de ignorância; assim, a fé se torna objeto de contínuos ataques. É significativa a frase do Nobel Steven Weinberg, que além do mais é um cosmólogo e não um sociólogo: “Há pessoas boas que fazem coisas boas, e pessoas ruins que fazem coisas ruins, mas, se quiserem encontrar pessoas boas que façam coisas ruins, voltem-se para a religião”. Em alguns países, essa frase se tornou quase um provérbio e é repetida pela imprensa e nos bares. É impressionante que um homem como Weinberg se saia com tal frase, um homem que viveu grande parte da sua vida em um século, o XX, que conheceu os regimes mais opressivos da história. É essa objeção que eu utilizo logo que alguém se sai com a frase de Weinberg. E obtenho, invariavelmente, a seguinte resposta: “Mas o comunismo era uma religião!”. Em síntese, para alguns, a palavra “religião” se tornou sinônimo de irracionalidade e até mesmo de assassínio.

Na prática, há quem entenda por “religião” um complexo de crenças que pode induzir pessoas boas e pacíficas (que não matariam nem uma mosca, sei lá, para conseguir um ganho pessoal) a se transformar em assassinas por uma “causa”. Um modo de pensar bastante rústico, esse. Ao qual se coloca uma outra objeção ainda: Hitler, Stalin, Pol Pot, Mao etc. eram todos inimigos da religião. O outro efeito negativo da mentalidade antirreligiosa é o atraso com o qual o verdadeiro problema da violência que cresce nas nossas sociedades é enfrentado. Ninguém está imune ao risco de ser arrancado da própria vida tranquila e recrutado na violência de grupo. Está na espreita a tentação de assumir como um alvo um outro grupo social e de considerá-lo responsável por todos os nossos males. Ora, a tarefa urgente é entender o que leva grupos inteiros de pessoas a se sentirem prontos para ser cooptados em um projeto do gênero.

Mas temos uma abordagem imperfeita sobre esse problema. Grandes escritores como Fëdor Dostoevskij iluminaram a origem da violência e do delito, que, porém, ainda permanece envolvida no mistério. E é incompleto o conhecimento que temos acerca do caminho seguido por personagens dotados de carisma espiritual, como Gandhi, para convencer as massas a repudiar a violência, parando-as justamente quando estavam por ultrapassar a linha de não retorno. Sem intervenção de autoridades espirituais, frequentemente os esforços melhor intencionados também não conseguem impedir que a história se faça “sobre a mesa do açougueiro”, como disse Hegel. E dá calafrios pensar que Robespierre votou contra a pena de morte nas primeiras discussões sobre a Constituição republicana.

Recentemente, trabalhei para compreender quais são hoje os significados e as implicações do termo “secularização”. Durante muito tempo, a sociologia considerou esse processo como inevitável. Algumas características da modernidade – o desenvolvimento econômico, a urbanização, a mobilidade em contínuo aumento, o nível cultural mais alto – eram vistas como fatores que teriam provocado um inevitável declínio da crença e da prática religiosa. Era a famosa “tese da secularização” e, durante muito tempo, dominou o pensamento nas ciências sociais e nos estudos históricos. Essa convicção foi abalada por acontecimentos recentes. A religião reagiu à modernização, respondeu ao desafio demonstrando a própria vitalidade. Em todo o caso, porém, a religião se tornou a base para uma mobilização política e o fenômeno é inclusive ameaçador, dadas as proporções que assumiu. É hora de conhecer a fundo essa dinâmica, os benefícios e os malefícios que comporta, ver claramente em um mundo que a velha teoria da secularização ainda esconde à vista. A incapacidade de distinguir a dimensão espiritual da vida humana nos torna incapazes de explorar temas vitais. Então, trata-se de reportar a espiritualidade ao centro e em domínios abertos em que descobertas decisivas são possíveis.

No mundo secularizado, ocorreu que as pessoas se esqueceram das respostas às principais perguntas sobre a vida. Mas o pior é que se esqueceram também das perguntas. Os seres humanos – que o admitem ou não – vivem em um espaço definido por perguntas profundas. Qual é o sentido da vida? Existem modos de vida melhor e piores, mas como são reconhecidos? Quais são os modos úteis para o indivíduo e para a comunidade à qual pertence? Qual é o fundamento da minha dignidade pessoal, que eu procuro defender por mim mesmo, a cada dia? As pessoas têm fome de respostas para todas as questões e, se se dão conta ou não, sentem a necessidade de vê-las resolvidas por qualquer um. Haverá quem considere errada ou absurda a minha ideia. Eu estou certo de que é fundamentada.

Fala-se de “descoberta do espírito”, em analogia com as descobertas que ocorrem na biologia, física e química. Mas é mais exato falar de “redescoberta do espírito”: o homem tem uma excepcional capacidade de se esquecer de coisas que conhecera e depositara no profundo do coração. Os filósofos, a partir de Platão, analisaram essa característica humana. Heidegger fala, a propósito, de “esquecimento do ser”. Eu penso que o homem desliza em uma “desmemória do ser”. Creio que caímos em um tipo especial de esquecimento. Em todo o caso, o mundo moderno se funda sobre uma cadeia bem precisa de desmemórias.

Uma das regras principais do saber humano é tirar para fora as respostas inarticuladas que as pessoas se dão na vida. Por isso, temos necessidade de um novo conhecimento da razão. Não se trata simplesmente de se mover com procedimento dedutivo por meio de um argumento. É necessário também saber trazer à superfície aqueles valores vividos profundamente pelas pessoas, isto é, articulá-los, dar voz a eles. Penso que é muito perigoso esquecer os valores, porque novidades positivas diversas emergiram no nosso tempo, enquanto o povo respondera, de um certo modo, às perguntas que as novidades pressupunham. Boa parte da violência ocorrida no nosso mundo provém do fato de que os jovens são recrutados por causas que os transformam em horríveis robôs assassinos. Quem os recruta é uma oferta que promete dar um conteúdo às suas vidas. Estão sem trabalho, sentem-se sem futuro, não têm (não podem ter) o sentido da dignidade. Sim, deram uma resposta a uma pergunta. Uma resposta extremamente destrutiva, porque autodestrutiva. E nós estaremos desesperados, se não conseguirmos recomendar-lhes, em tempo útil, uma resposta diferente.



O capitalismo apostou em paixões, não na moral




Por: Renato Janine Ribeiro,
(professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo)

Capitalismo, burguesia e às vezes modernidade são palavras que parecem se referir ao mesmo universo. Mas há diferenças. A burguesia pode ter surgido ainda perto do ano 1000, afirma a historiadora francesa Régine Pernoud. Já nos séculos XII e XIII, as cidades italianas vão-se emancipando dos senhores feudais e passando ao poder dos citadinos, dos burgueses, dos que têm dinheiro mas não são da anterior nobreza. Contudo, é no século XV ou XVI que se dá a grande ruptura conceitual, que talvez mostre um capitalismo indo além dos burgueses, ou pelo menos dos burgueses entendidos como cidadãos dos burgos. Essa ruptura supõe que não basta ter dinheiro, é preciso que ele se torne capital. O capital é o dinheiro tornado poder. Uma pessoa pode ter muito dinheiro no banco mas, se não for quem decide como se vai utilizá-lo, seu poder é bem limitado.

Para o dinheiro se tornar poder, uma mudança nas mentalidades, nas instituições e na produção se faz necessária. É difícil datá-la. Mas quem melhor a expõe talvez seja Bernard Mandeville, médico holandês radicado na Inglaterra, que, no começo do século XVIII, escreve um livro escandaloso, "A Fábula das Abelhas", também conhecido pelo subtítulo, que é "Vícios privados, benefícios públicos". É interessante notar que vários leitores, apressadamente, transformam o final do subtítulo em virtudes públicas, o que não é o caso.

Qual a tese central de Mandeville? É que as virtudes podem causar grandes prejuízos à sociedade, e os vícios ser-lhes úteis. Assim resumido, lembra muito Maquiavel. Os dois causaram forte aversão em seus leitores - e não-leitores. Mas Maquiavel prudentemente só deixou publicar seu "Príncipe" depois de sua morte, enquanto Mandeville teve a audácia de editar sua "Fábula" ainda jovem, sendo até levado a julgamento (e absolvido) por isso.

Há uma forte diferença entre os dois autores. Maquiavel entende que o príncipe, e só ele, pode violar a palavra dada e faltar à moralidade cristã. Somente o soberano pode afastar-se da religião, em nome do que depois se chamará a "razão de Estado". Já Mandeville entende que as pessoas em geral podem infringir a moralidade, assim fazendo prosperar a sociedade. Ou seja, para Maquiavel, a infração ao bem é restrita ao chefe de Estado e tem sentido sobretudo político. Já a exceção ao bem se torna, com Mandeville, mais difundida - e seu sentido é econômico, antes de mais nada.

Vamos aos dois grandes exemplos de Mandeville. O primeiro é o do ladrão que assalta rico abade a transportar uma fortuna destinada a ficar inútil, infecunda, entesourada. O assaltante a dilapida, em comida, bebida e mulher. Ora, pergunta o autor, quem faz mais pela humanidade, o gordo sacerdote, cujo dinheiro não circula, ou o bandido que com as moedas roubadas irriga as artérias da economia? O segundo exemplo é o das prostitutas de Amsterdam. Coisa ruim, concorda Mandeville - mas que evita algo pior por que, se os marinheiros que chegam ao porto após meses "sem mulher" não dispuserem de profissionais, haverão de atacar senhoras e senhoritas "de família". Por isso, explica, os austeros governantes da cidade calvinista toleram a prostituição, que, embora sendo um vício privado, acarreta - como a ganância do ladrão ou do empresário - benefícios públicos.

Instinto animal, destruição criadora e outras expressões que temos lido nos últimos anos - um período de grande celebração, na mídia, do capitalismo pouco controlado pelo Estado - derivam, em última análise, desses dois grandes pensadores. A grande idéia de Maquiavel é que o bem, se estiver no poder, leva os Estados à breca. A grande idéia de Mandeville é que podemos canalizar nossos pendores para "o mal", de modo que produzam efeitos socialmente positivos. Em comum, os dois não crêem na bondade natural do homem - ou melhor, não crêem que uma eventual bondade humana traga resultados bons para a sociedade. Para que a sociedade esteja bem, o bem tem de ser reduzido. Mas nenhum deles defende o mal pelo mal: o que querem é canalizá-lo. O segredo da vida social beneficiada está em sabermos utilizar, no homem (isto é, em nós mesmos), o que não é bom, mas pode ser bem aproveitado. Está em desistirmos de uma aposta na bondade humana, coisa de sacerdotes, para - aceitando-nos como somos - gerarmos uma vida mais confortável.



Essa é a chave do constante jogo capitalista entre bem e mal, entre a difícil moralidade e, digamos, a espontaneidade do instinto. Vi, quinze anos atrás, interessante espetáculo na TV inglesa: no congresso do Partido Conservador, velhinha após velhinha protestava contra a abertura do comércio aos domingos, "dia do Senhor", dia de estar com a família. O governo - também conservador - não estava nem aí para elas. Os conservadores não crêem mais nos valores da família e da religião, tanto que a direita hoje fala mais em liberalismo. Querem a liberdade de empreender. É verdade que a ética protestante analisada por Weber era muito rigorosa, e que nada ou pouco tem a ver com o thatcherismo. Mas sustento que a ética dos pastores de Genebra teve menor impacto histórico do que o hábil jogo de Mandeville que faz do mal, não emergir o bem, mas emergirem bens.

Quer isso dizer que o capitalismo está condenado à ganância, que pode destruir o mundo, assim como está eliminando riquezas enormes? Não sei. O que deu força ao capitalismo é que apostou em paixões, digamos, fáceis de seguir. As alternativas a ele, feudais ou socialistas, exigem mais de nós. O capitalismo é confortável. Não pede uma alta moralidade. Lida com os homens "como eles são". Uma sociedade cristã, socialista ou amiga da natureza demandaria muito mais de todos nós. Será que nos dispomos a pagar o preço da moral? Ela não é barata. Por isso, a questão é mais funda: pode ser que, estes séculos, estas décadas, tenhamos vivido na ilusão de que dava para viver bem e para viver segundo o bem. Pode ser que não dê. Pode ser que tenhamos de escolher. A ética é cara. Pode custar riqueza, cargos, a própria vida. Estaremos dispostos a incluir o heroísmo, talvez até o martírio, em nosso rol de experiências possíveis? Se não, a destruição periódica que o capitalismo efetua pode continuar sendo mais conveniente para nós.

Mesmo que, um dia, o planeta acabe.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Agrofloresta

História do Sítio São José da família Ferreira
Vi ontem no canal Futura um programa chamado jeitinho brasileiro. No programa a história da família Ferreira que tem um Sítio autosustentável em Paraty. Claro, que a primeira coisa que fiz hoje foi procurar mais referências na internet e acabei achanod o blog deles. Abaixo transcrevo a história da famíla até chegar no grau de sustentabilidade de hoje.
O blog com endereço e contatos é: http://agroflorestaferreira.blogspot.com/
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O local foi descoberto em 17 de novembro de 1987, a partir daí o local foi preparado para a construção de um barraco para moradia. Contava com a ajuda de dois amigos do serviço. A construção era coberta com palha e mudei sem colocar porta em 18 de janeiro de 1988, depois a porta foi feita de vara.
Entrei para morar nessa terra com minha mulher e três filhos, a coragem e a Fé em Deus.
Deixei para trás 18 anos de carteira assinada e varias profissões inclusive a de mestre de obras. Estava sendo mais um começo na minha historia, desta vez com muita esperança porque era o que sempre quis: voltar para a terra, era um sonho de quase 18 anos. Em pouco tempo já estava colhendo o básico.
Em julho de 1989 começamos a colher os primeiros cachos de banana, era acultura de mercado da região, acreditava-se que a banana era uma boa alternativa. Também introduzi a cultura do café pensando em melhorar a renda, para cobrir as despesas. O sonho era comprar um animal para carregar a compra, também queria comprar uma vaca, mas a renda ia embora nas despesas com o transporte da banana e com o que nos tínhamos que comprar na cidade. Como o café não tinha comércio na região tinha que levar pra fora e o dinheiro ia embora com as despesas. Com isso notei que precisava tomar um outro rumo, não perdendo as esperanças, mas precisava de um outro rumo de trabalho.
Em 1993 colhi a terceira safra de café e depois de colher e beneficiar não consegui comprador, vendi a metade e foi tudo nas despesas de transporte. Desisti, cortei tudo e plantei pasto, pois era o meu sonho criar vaca. Mas apesar da grande colheita de banana não sobrava dinheiro para comprar nem um bezerro. Continuava dependendo da renda extra ou trabalhava fora ou então tirava palmito do mato, mesmo sendo contra a minha vontade.
Em agosto de 1994 completo cinco mil pés de banana plantados, foi meu ultimo plantio de banana, na época nos colhíamos 350 cachos de banana. Em 1995 invisto mais na cultura do inhame e passo a fazer tentativas de venda e também alimento outros cultivos, mesmo assim continuo fazendo bico ou tirando palmito.
No ano de 1996 surge a necessidade de reformar a casa e começamos a fazer cursos de fabricação caseira, mas nós não tínhamos matéria prima para fabrica nada, mas a esperança continuava. Em 1997 derrubei a casa para fazer uma outra, preparei o alicerce na esperança de construir no ano seguinte. No mês de agosto nasce Jonatan, nós estávamos com uma colheita de 500 cachos de banana por mês, o que nos dava uma renda média de R$ 1.700,00.
Em julho de 1998 a grande decepção, não temos mais para quem vender a banana, com isso não só tinha que fazer bico, tinha que ir mais longe. Abençoado por Deus consegui um serviço em São Paulo, onde trabalhei quatro meses e consegui levar alguns trocados para tentar uma nova alternativa.
Em 1999 passamos a vender inhame, aipim (mandioca), e em seguida os doces. Na luta para fazer os doces tinha a dificuldade para comprar as embalagens e de como negociar o produto, mas não paramos, fizemos outros cursos de capacitação, entre eles o de adubação verde e orgânica.
Foi em três de Setembro de 1999 que eu tive o primeiro contato com a agrofloresta. Com essa descoberta já comecei a fazer experimentos e logo percebi que seria possível melhorar a produção. Durante o mês de setembro a dezembro de 1999 eu voltei no tempo lembrando que via meu pai recuperar o solo com resto de vegetação, tive a certeza que esse sistema era tudo que precisava para sair da dificuldade.
Em 2000 fizemos alguns experimentos, e em Março fizemos uma viagem para conhecer um sistema agroflorestal produzido no Vale do Ribeira, em São Paulo. A partir daí o sitio entrou num planejamento de um projeto agroecológico para a sustentabilidade com qualidade de vida. Antes de criar o nosso projeto de sustentabilidade, a renda do sitio só garantia 18% das despesas da família, tínhamos que completar as despesas com trabalho fora ou cortando palmito.No ano de 2001 a história começou a mudar, a nossa renda passou de 18% para 32% naquele ano. Já em 2002 a renda foi para 48%, passando para 61% em 2003 e para 82% em 2004. Quando realizamos a nossa primeira Vivência Agroflorestal a qualidade de vida estava se concluindo... e no ano de 2005 alcançamos 100% da renda vinda das atividades do sitio.
As Vivências são visitas programadas ao sitio para pessoas interessadas em conhecer nosso estilo de vida. A maioria dos visitantes tem sido estudantes de agronomia, engenharia florestal, biologia, entre outros. Nosso estilo de vida vem atraindo pessoas de vários segmentos da sociedade, não só estudantes, mas de toda a sociedade como professores e leigos, que desejam conhecer a agricultura que conservamos longe da tecnologia moderna.
Nosso trabalho apesar de ser com o esforço próprio, em cinco anos, alem de conseguirmos melhorar a nossa renda, também conseguimos contribuir para a preservação do meio ambiente em nossa volta. Durante o período de 2000 a 2005 produzimos e plantamos 31.844 mudas de espécies arbóreas e frutíferas, sendo que 80% foram de espécies nativas da mata atlântica. No mesmo período plantamos 52.474 mudas de palmito, sendo um total de 84.318 mudas plantadas em cinco anos.
Em 2006, resolvemos parar a produção de mudas para cuidar de outras atividades como a pesquisa do desenvolvimento das arvores e das frutíferas, mas a idéia é plantar mais 68.580 mudas em uma área de pasto a partir de 2007. A nossa meta é mostrar que para preservar a natureza não é tirando o homem do campo, mas sim educando e orientando para que viva em harmonia com o mesmo e contribuindo para a conservação ambiental. Nosso propósito é conservar a tradição agrícola que a cada dia está deixando de existir.
O Sitio São José com muita fé em Deus continua firme na agroecologia, plantando, produzindo e preservando a nossa cultura agrícola. Já superada nossas expectativas com todos os resultados positivos em todos os aspectos, vamos continuar com nossa produção de mudas para plantar nas próximas vivencias que serão realizadas nos próximos anos sempre no mês de Novembro, momento em que reunimos pessoas que tenham interesse na agroecologia e na sustentabilidade rural. O sítio São José hoje com seu sistema agroflorestal vem garantindo a sustentabilidade e a qualidade de vida da propriedade, longe da tecnologia moderna podemos zelar pela nossa saúde cultivando sem agredir a natureza, podemos nos alimentar bem e oferecer um produto de qualidade para nossos visitantes. Hoje podemos oferecer um produto turístico rural e ecológico com qualidade sustentável.Nosso Sistema Agroflorestal tem como meta a auto sustentabilidade com qualidade de vida, porque no meu ponto de vista a agricultura familiar precisa ser bem planejada. Ter como meta a produção baseada no consumo diário, para ter certeza que está consumindo um alimento saudável. Nosso sistema mostra que ser auto sustentável e produzir uma diversidade de alimento é vem mais viável do que produzir em alta escala determinado produto. O armazenamento de nossos produtos são em conserva natural e ela nos garante o abastecimento na época de baixa produção.Sem tecnologia moderna na produção ou fabricação, o Sítio São José tem como meta resgatar e conservar as tradições agrícolas que estão se perdendo a cada dia com o avanço datecnologico no campo.
Agricultor José Ferreira

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Consumismo tecnológico

Minha participação é bissexta, mas ainda continuo acompanhando e tentando acrescentar algo interessante a esse blog. Segue uma entrevista enviada a mim por Ricardo Musse com Fernando Tulo Molina, da Universidade de Quilmes. A Entrevista saiu no Jornal da Ciência de hoje, 20/01/2009, e está disponível em http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=61116
Aí vai.
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Notícias
Terça-Feira, 20 de janeiro de 2009

JC e-mail 3682, de 16 de Janeiro de 2009.

12. Falsa neutralidade

Para Fernando Tula Molina, da Universidade de Quilmes, as crenças de que a ciência e a tecnologia são politicamente neutras e de que as inovações são sinônimo de progresso afastam o conhecimento das necessidades sociais
Fábio de Castro
A ciência e a tecnologia estão longe de ser politicamente neutras e as novas descobertas não correspondem necessariamente a progressos para a sociedade, segundo o professor Fernando Tula Molina, da Universidade de Quilmes, na Argentina. Para ele, embora façam parte do senso comum, as noções de neutralidade científica e determinismo tecnológico representam obstáculo para uma ciência democrática, capaz de melhorar a sociedade.
Ideias como essas foram expostas por Molina em nove sessões entre agosto e dezembro de 2008, durante o 15º Seminário Internacional de Filosofia e História da Ciência, realizado pelo Grupo de Filosofia, História e Sociologia da Ciência e da Tecnologia do Instituto de Estudos Avançados (IEA), da Universidade de São Paulo (USP).
O seminário foi um produto do Projeto Temático Gênese e significado da tecnociência: relações entre ciência, tecnologia e sociedade, Universidade de São Paulo, apoiado pela Fapesp e coordenado por Pablo Rubén Mariconda, do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.
Doutor em filosofia pela Universidade de Buenos Aires, Molina permaneceu no Brasil como professor convidado do projeto. No evento, discutiu o tema “Controle, rumo e legitimidade das práticas científicas".
Para avaliar as implicações científicas e sociais das práticas tecnológicas, o professor propõe uma distinção entre a “eficácia” e a “legitimidade” dessas práticas – e busca elementos conceituais para a compreensão das origens culturais dessa distinção e da complexidade dos diferentes atores envolvidos.
Segundo Molina, que também é pesquisador adjunto do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas (Conicet), na Argentina, “essa compreensão contribuirá para que se encontrem os caminhos que levem ao acordo requerido pelas políticas científicas nos espaços de diálogo das instituições democráticas”.
– Uma das idéias centrais desenvolvidas pelo senhor durante o seminário realizado no mês passado em São Paulo é a de que a ciência não pode ser dissociada da política. Como essa questão foi tratada nos debates?
Molina – As discussões tiveram origem em um Projeto Temático apoiado pela FAPESP dirigido pelo professor Pablo Mariconda, do Grupo de Filosofia, História e Sociologia da Ciência e da Tecnologia do IEA, responsável pelo seminário. Esse projeto discute a gênese e os significados da tecnociência. Isso envolve questões históricas, filosóficas e sociológicas, mas no fundo tudo está virando uma área importante ligada à política. Tentamos problematizar duas idéias que hoje são muito fortes em nossa cultura: a neutralidade da ciência e o determinismo tecnológico. Essas duas noções estabelecem no imaginário popular uma idéia de que a ciência é neutra, desprovida de política, quando, na verdade, a ciência – e sobretudo a tecnologia – tem muita política.
– Como esse aspecto político se manifesta?
Uma das linhas que está sendo desenvolvida é que essa política pode ser vista com clareza, por exemplo, no chamado código técnico. Esse gravador digital que você está utilizando, por exemplo, possui um design que encerra em si todo o contexto de sua concepção e está ligado a determinadas estratégias. Essas estratégias representam interesses – que, no caso de uma sociedade capitalista, correspondem aos interesses das corporações. São interesses que têm a ver com o consumismo tecnológico. O projeto do gravador já prevê quando ele sairá de linha, isto é, carrega consigo uma estratégia de obsolescência programada. Para que você consuma mais, é preciso que na sua cabeça a aquisição de novos produtos tecnológicos seja entendida como um progresso. Você acredita que está progredindo e tem um aparelho melhor, de última tecnologia. Mas eventualmente os aparelhos mais antigos tinham mais qualidade. Isso é pura política.
– Essa é a idéia do determinismo tecnológico?
Uma crença de que o produto que acaba de ser lançado é necessariamente melhor, mais eficiente e mais desejável? Sim. É uma estratégia de consumo que se baseia na novidade. O produto é um bem cultural que se vale do valor simbólico que tem a “eficácia” na nossa cultura, levando a pessoa a pensar que os produtos desenvolvidos mais recentemente são melhores. Mas isso é uma falácia. Outra falácia está no discurso político oficial dos nossos países: a idéia de que o cientista pode dizer o que é melhor para a sociedade. O cientista não sabe o que é melhor para a sociedade. Não existem nem mesmo elementos conceituais para abordar essa questão. O seminário teve, portanto, a tarefa central de instalar uma discussão e conscientizar sobre alguns erros. Muitos desses erros, como o individualismo, têm origem filosófica.
– Como o individualismo é tratado nessa discussão?
Quando a lógica predominante é a de que alguém só consegue ganhar quando os demais perdem, o resultado é que as pessoas passam a achar que podem ser livres apenas de portas fechadas. O que gostaríamos de opor a essa idéia individualista é a possibilidade de pensar que, ainda hoje, apesar das assimetrias e desigualdades do capitalismo, podemos aprender a nos organizar de um jeito diferente e reaprender a conviver. A convivência é o ponto central da política em um sentido muito antigo, do qual já falava Sócrates. Como todos os atores, tão diferentes, podem conseguir a felicidade e a plenitude no meio de todos, no espaço restrito da pólis? A ideia de democracia que está por trás do seminário é mais profunda que uma noção de igualdade: é a ideia de que somos todos diferentes.
– Qual o efeito desse contexto dominado pelo individualismo sobre o desenvolvimento tecnológico e científico?
Vamos tentar falar do conjunto ciência e tecnologia: a tecnociência. Se as pessoas acreditam que o investimento em ciência e tecnologia leva o país a crescer automaticamente, melhorando a vida da população, temos o determinismo tecnológico. Nesse caso, já que o resultado seria necessariamente bom para todos, o investimento poderia ser feito sem preocupação com a participação da coletividade – esse determinismo tecnológico é favorecido em um contexto individualista.
– Então, sem a participação da coletividade nas decisões científicas e tecnológicas, os avanços do conhecimento não chegam a beneficiar a sociedade?
Acho que é por isso que temos que combater o determinismo tecnológico. Com essa lógica, o investimento não volta diretamente para a população, mas para as corporações. Os investimentos públicos formam técnicos, especialistas e recursos humanos para a universidade e para o sistema tecnológico. Mas essas pessoas poderão desenvolver tecnologias que melhorem as corporações, não necessariamente o país. Se nossa sociedade tem base tecnológica e capitalista, mesmo que se possa desenvolver a melhor tecnologia, ela irá se limitar a desenvolver a tecnologia com melhor custo-benefício. Tudo o que está envolvido com essas tecnologias será avaliado do ponto de vista quantitativo, porque estará orientado pela produtividade. Incluindo as relações com trabalhadores.
– Esse tipo de modelo tecnológico tenderia a agravar o quadro de exclusão social?
Acredito que sim. A tecnologia orientada pela produtividade só é acessível a quem tem determinado poder de consumo. As distâncias sociais que deveriam ser diminuídas por conta da tecnologia começam a aumentar. O crescimento das diferenças sociais agrava a violência. No fim, a tecnologia, que poderia ter um papel de inclusão, acaba fazendo o contrário.
– As tecnologias sociais seriam um possível caminho para contornar esses problemas?
O Brasil tem uma rede muito boa de tecnologia social. Ela tem 700 organizações – a maioria organizações não-governamentais –, sendo 400 muito ativas. Todas pensam em confrontar essa idéia da tecnologia capitalista associada à corporação. Nesse modelo fundamentado na produtividade, não se pode acessar o conhecimento – que deve ser patenteado. O usuário não é dono do meio onde essa tecnologia vai se produzir e não se pode decidir para onde vai o benefício do desenvolvimento.
– Essas tecnologias teriam então mais legitimidade?
As tecnologias sociais têm um papel importante na democratização do conhecimento, mas elas não chegam a garantir a legitimidade da forma como a entendemos. É preciso distingui-la da eficácia. A tecnociência tem eficácia, mas não tem legitimidade social. Esses dois conceitos muitas vezes são confundidos no próprio discurso do desenvolvimento tecnológico, que está baseado na ideia de controle. O que é o controle? Uma coisa é poder controlar a matéria ou a partícula – como pode a nanotecnologia – no espaço e no tempo. Esse é o controle científico, que é necessário e desejável. Mas não suficiente. Outra coisa é poder dar legitimidade a esse controle.
– E como dar mais legitimidade ao controle das práticas científicas?
Para mim, a legitimidade não está no conteúdo das decisões sobre os rumos tecnológicos, mas no jeito como essas decisões são tomadas. Se a decisão foi tomada de maneira coletiva e democrática e daí gerou os rumos e decisões, isso a legitima, não pelo conteúdo, mas pela forma coletiva. O que temos que pensar é quais são os atores em cada âmbito que deveriam participar democraticamente, sendo reconhecidos como diferentes e igualmente importantes, do rumo mais democrático da enorme capacidade tecnológica que já temos. Mas se não conseguimos dar a isso um caráter democrático, então o rumo será tecnocrático e corporativo. A responsabilidade é nossa. A palavra-chave é participação.
– Há propostas para melhorar essa participação?
O controle tecnológico, voltado para o controle da matéria no espaço e no tempo, não tem, em si, nenhuma legitimidade. Propomos dois novos eixos para pensar essa legitimidade: o tempo da educação e o espaço da participação política. Para melhorar essa participação, temos que gerar um espaço de protagonismo social em que os outros atores possam interagir com os cientistas. O especialista tem uma função consultiva importante, um compromisso de indicar as possibilidades, mas não a prerrogativa de ditar os rumos. Com a ajuda dele, o leigo poderia ter a possibilidade democrática de decidir o futuro. Mas isso não acontece. Na nossa organização estamos excluídos de todas as decisões tecnológicas. Não temos o espaço da participação política.
– E quanto ao tempo da educação?
Levamos tempo para educar alguém a ser crítico com a tecnologia e a conhecer sua própria capacidade de decisão e sua autonomia de criatividade. Essa é a dimensão do tempo da educação. Temos que introduzir essa discussão na escola inicial, porque ali as crianças já têm celular, videogames e muitas possibilidades tecnológicas. Seria importante começar a combater cedo a idéia introjetada de que a ciência é apolítica. Ao superar as idéias de neutralidade e determinismo do desenvolvimento tecnocientífico, só nos restará a possibilidade de um desenvolvimento político, democrático, com participação cidadã. Mas esse cidadão crítico ainda não existe, daí a importância dessa dimensão da educação.
– Ainda estamos muito distantes da formação desse cidadão crítico?
Talvez nem tanto. Podemos pensar no que aconteceu com a cultura ecológica. As crianças e as novas gerações já colocam o problema ecológico de forma mais prioritária. Isso ocorreu, entre outros fatores, porque a ecologia começou a ser apresentada às crianças de forma muito forte, desde a escola inicial. Acho que poderia acontecer o mesmo com o problema tecnológico. Para isso temos que começar a refletir com mais clareza sobre lixo tecnológico, obsolescência planejada, qualidade tecnológica, durabilidade, tecnologias para o futuro, tecnologias sustentáveis, tecnologias adequadas aos problemas – e não apenas ao consumo em massa – e tecnologias customizadas, que não impõem uma única solução, como se fôssemos todos iguais.
(Agência Fapesp, 16/1)


OBS: Relacionada a esse assunto, veja ainda a postagem: "A bioética versus o niilismo tecnocientífico"

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

O oceano Ártico está bombeando mais calor na atmosfera


Entrevista especial com Mark Serreze


A calota polar do Ártico nunca foi tão pequena quanto atualmente. Um estudo da WWF apontou que em 2008 o nível de cobertura de gelo do Pólo Norte está inferior aos 4,13 milhões de quilômetros quadrados do ano anterior. A espessura do gelo na região é tão fina que já se prevê que, em alguns dias do verão, o Ártico pode ficar praticamente sem gelo. “Em comparação com o resto do Planeta, o Ártico é a via rápida para as consequências das alterações climáticas”, disse-nos o professor de Geografia da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos, Mark Serreze. Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, Serreze explicou qual a situação do Ártico e da Antártida hoje, além de falar sobre como o aquecimento global está atingindo o pólo norte e que consequências isso gera para o Planeta. “A cobertura do gero marinho funciona como uma barreira, um isolante, entre a atmosfera quente e o frio bastante intenso abaixo do oceano de gelo. Quando perdemos essa cobertura de gelo sobre o mar, perdemos o isolador. Com isso, o oceano começa o bombeamento de calor na atmosfera, contribuindo para o aquecimento do Planeta”, relatou ele.

Mark Serreze é pós-graduado em geografia e professor e pesquisador da Universidade do Colorado, nos Estado Unidos. É também cientista sênior do Centro Nacional de Monitoramento de Neve e Gelo (NSIDC). Recentemente, desenvolveu uma pesquisa, juntamente com a professora Julienne Stroeve, em que revelou provas importantes de que as temperaturas da região do Ártico estão se elevando numa velocidade maior do que as do restante do mundo.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Em que situação está, atualmente, o degelo do Ártico?

Mark Serreze
- Em comparação com o resto do Planeta, o Ártico é a via rápida para as consequências das alterações climáticas. Em setembro de 2008, o nível do mar de gelo foi o segundo mais baixo registrado pelos satélites, apenas um pouco mais elevado do que o registrado um ano antes. O mar de gelo da Groenlândia está começando a derreter por baixo, contribuindo para o aumento do nível do mar. O Permafrost [1] (o solo congelado que subjaz as terras do Ártico) está aquecendo e descongelando. Áreas que antigamente eram desarborizadas estão, hoje, tomadas por arbustos. Essa é a situação geral do Ártico, atualmente.

IHU On-Line – O gelo Ártico pode desaparecer?

Mark Serreze
– A capa de gelo do mar Ártico é suscetível ao desaparecimento durante o final do verão e o princípio do outono (nos meses de agosto e setembro) em, provavelmente, 30 anos ou mais. No entanto, ainda haverá gelo no inverno durante séculos, mesmo com o aquecimento global, e este continuará sendo frio e escuro. Porém, o gelo que se forma no inverno vai derreter durante o verão.

IHU On-Line – Por que a temperatura no Ártico sobe mais rapidamente do que o resto do mundo?

Mark Serreze –
Há uma série de razões que explicam o motivo pelo qual a temperatura do Ártico irá aumentar mais do que em outras regiões do Planeta, mas o mais importante é o efeito de perda da capa de gelo marítimo flutuante. A cobertura do gero marinho funciona como uma barreira, um isolante, entre a atmosfera quente e o frio bastante intenso abaixo do oceano de gelo. Quando perdemos essa cobertura de gelo sobre o mar, perdemos o isolador. Com isso, o oceano começa o bombeamento de calor na atmosfera, contribuindo para o aquecimento do Planeta. Isso é conhecido como amplificação do Ártico. Observações que fizemos mostram que a amplificação do Ártico já começou.




IHU On-Line – Num plano mais amplo, qual é a situação dos oceanos?

Mark Serreze –
Como disse antes, o oceano Ártico está bombeando mais calor na atmosfera e, com isso, todos os oceanos estão aquecendo também. O gelo do mar está sendo “machucado” de duas formas: com o clima quente e com a temperatura mais quente do Oceano Ártico. Ambos significam que o verão tende a derreter mais gelo e o crescimento de gelo no inverno será menor.

IHU On-Line – O Pólo Sul está na mesma situação do Pólo Norte? Qual é o estado atual de gelo no sul dos oceanos?

Mark Serreze –
O mar de gelo antártico é o que aumentou ligeiramente, em grande parte em resposta às mudanças na circulação da atmosfera. Não há surpresa alguma nisso. Todos os nossos modelos climáticos mostram que é no Ártico onde os sinais de aquecimento global se apresentarão de modo mais acentuado e que a Antártica vai mudar de forma muito mais lenta. Ao sul, o gelo marinho pode mesmo aumentar por algum tempo. Os céticos com relação às mudanças climáticas gostam de argumentar que, já que a Antártica não está realmente mudando como o Ártico, os cientistas que estudam o clima devem estar errados. Mas são eles quem estão errados, uma vez que, em relação às mudanças climáticas, a Antártida sempre comportou-se muito bem.






IHU On-Line – Em sua opinião, com que perspectiva o homem deve olhar e tratar o ecossistema?

Mark Serreze –
Quanto mais tempo esperarmos para enfrentar as alterações climáticas, o problema será pior. Esta questão não diz respeito simplesmente ao aquecimento, mas como este aquecimento mudará o Planeta (como, por exemplo, nos padrões de precipitação), afetando tanto a parte terrestre quanto os oceanos e os ecossistemas.

IHU On-Line – O sistema político mundial está dando que tipo de resposta para o problema dos oceanos e, sobretudo, o problema do aquecimento global?

Mark Serreze –
Para que finalmente os nossos líderes eleitos nos Estados Unidos aceitem que o aquecimento global é real e que precisamos fazer algo sobre isso. O aquecimento global é um problema mundial e exige uma solução global. No entanto, os Estados Unidos têm de assumir a liderança em relação às soluções para o aquecimento global. Tenho esperança de que agora finalmente fará isso.

Notas:

[1] Permafrost é um termo inglês para nomear o tipo de solo encontrado na região do Ártico. É constituído por terra, gelo e rochas permanentemente congelados. Esta camada é recoberta por uma camada de gelo e neve que, se no inverno chega a atingir 300 metros de profundidade em alguns locais, ao se derreter no verão, reduz-se para de 0,5 a 2 metros, tornando a superfície do solo pantanosa, uma vez que as águas não são absorvidas pelo solo congelado.