segunda-feira, 19 de maio de 2008

O mundo de Ronald McDonald: sobre a marca publicitária e a socialidade midiática



Isleide Arruda Fontenelle
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo



Resumo

O palhaço Ronald McDonald - uma das imagens de marca da Corporação McDonald's - é tomado como paradigma para pensarmos as relações entre mercado, mídia e entretenimento, as quais tem uma ligação direta com o que estamos conceituando como "socialidade midiática". Enquanto uma metáfora ideal de uma propaganda que parece não querer mais fazer sentido, a história do palhaço nos permite desvendar os sentidos contidos em duas das principais práticas do marketing moderno, a propaganda e a publicidade, revelando-nos como, entre o nonsense da propaganda contemporânea e uma publicidade que fundiu realidade e ilusão, há uma relação visceral entre mídia e publicidade, que estabelece uma nova forma de comunicação, na qual o sujeito torna-se apenas um meio para fins que ele sabe quais são, mas, paradoxalmente, age como se não soubesse. Tal paradoxo é revelador de uma forma de subjetividade profundamente marcada pela mídia enquanto agente socializador, na medida em que a atuação da mídia como mediador da socialidade contemporânea acabou por alterar o nosso universo perceptivo, saturando o nosso imaginário de uma forma radicalmente nova. Some-se a isso o fato de que a "socialidade midiática" implica uma nova forma de representação do sujeito no registro do "espetáculo", no sentido de que "estar na imagem é existir". Desnecessário dizer o quanto essas questões precisam ser contempladas pelos estudos contemporâneos sobre os processos de socialização e o quanto são desafiadoras para aqueles que atuam no universo da educação.



O que se está querendo dizer é que, depois de décadas de artimanhas por parte dos relações públicas e de exageros promocionais da mídia, e depois de mais outras tantas décadas de constante martelação por parte das inúmeras forças sociais que nos alertaram, a cada um de nós, pessoalmente, para o poder da performance, a vida virou arte, de tal forma que as duas são agora indistintas uma da outra.
(Neal Gabler )


Entre tantas imagens de marca do McDonald's, a escolha do clown Ronald McDonald, para tratar de questões ligadas à sociedade do entretenimento e à mídia, não foi à toa. A história do palhaço remete-nos aos primórdios da televisão e a uma nova forma de anúncio comercial eletrônico ¾ dois fenômenos que estão profundamente imbricados com a idéia de "entretenimento".


Ronald surge na década em que a sociedade americana já era definida como "sociedade do entretenimento" (Gabler, 1999), "do lazer" (Morin, 1990), "do espetáculo" (Debord, 1997), daí o palhaço poder ser tomado como uma figura emblemática de uma era marcada pela busca incessante de diversão. Cada um dos autores enumerados acima trata de tecer um panorama sobre esse novo modelo social, privilegiando um recorte histórico e analítico, seja enfocando a concepção material contida em termos como o "espetáculo"; seja abordando a noção de um novo "tempo livre" a ser preenchido pelo lazer; ou, finalmente, revelando a maneira como o entretenimento tornou-se uma forma de escape, pelo qual investe-se toda uma vida.






Por trás de conceitos e enfoques como estes, há um único que os aglutina: o de "sociedade/cultura de consumo". Esse é o denominador comum - explícito ou não - em cada uma das análises que procura historicizar e caracterizar a sociedade contemporânea, que também ganhou a conotação mais atual de "sociedade das imagens". Torna-se fundamental a explicitação desse ponto porque a sociedade de consumo constitui-se na gênese a partir da qual esses conceitos emergem, a ponto de tornarem-se, aparentemente, sinônimos, embora o que eles ofereçam sejam diferentes perspectivas de leitura de uma realidade social que tornou-se extremamente complexa.


Na impossibilidade de esgotarmos todas essas análises em um único artigo,(1) detenhamo-nos nos aspectos para os quais a história de Ronald nos conduz, pois eles estão mais diretamente relacionados com as questões que envolvem mercado, mídia e entretenimento, das quais emerge o que eu chamei de "socialidade midiática". Como eu vinha dizendo, Ronald é cria da televisão, e uma análise interna à construção dessa imagem de marca, pelos idos dos anos 1960, nos revelou por que e como esse período ficou conhecido como aquele que forjou a "sociedade das imagens".


Essa é a década em que o consumo de aparelhos de televisão se massifica. Com isso, não estou apelando para o aspecto "midiático" do espetáculo, no sentido de uma "referência exclusiva à tirania da televisão ou de meios análogos". Pelo contrário. Assumo a visão de espetáculo contida em Guy Debord (Jappe, 1999, p.19) de acordo com a qual é o "funcionamento dos meios de comunicação... [que] expressa perfeitamente a estrutura de toda a sociedade de que fazem parte". Apesar de sutil, a diferença é profunda. E, para entender a dinâmica interna ao meio TV, nada melhor do que uma boa "espiada" naquilo que a sustenta, qual seja, o anúncio comercial eletrônico.


E não é por acaso que nos anos da popularização da TV também se vê surgir uma nova forma de propaganda. Pela história da cria-ção de Ronald McDonald, podemos entender como começavam-se a se estreitar as relações entre sociedade, televisão e propaganda. A história de Ronald começa na década de 1960, quando um certo franqueado da rede McDonald's decidiu patrocinar um programa televisivo da época chamado O Circo do Bozo. Por esse tempo, Ronald nem sequer existia. Era o popular palhaço Bozo quem anunciava os produtos McDonald's junto às crianças - telespectadores do programa. Foi a partir do Bozo que surgiu a idéia do McDonald's criar o seu próprio palhaço e, já em 1965, Ronald torna-se o "personagem de marca" para as campanhas nacionais e, poste-riormente, internacionais, do McDonald's (Love, 1996).


Embora pela época do surgimento do palhaço a marca McDonald's já dispusesse de um símbolo forte como os seus "arcos dourados", os estrategistas de marketing alegaram que a televisão exigiria um novo formato de imagem - um símbolo que pudesse transmitir o discurso da marca de uma forma mais dinâmica e, consequentemente, mais divertida. Veicular um anúncio como um divertimento era um desafio de todas as grandes marcas da época, e isso só pode ser compreendido se entendermos que isso se deu em razão do lugar que a televisão passou a ocupar na sociedade americana.


Por um lado, as mudanças na forma de se veicular o anúncio tiveram a ver com transformações internas ao próprio meio publicitário, quais sejam, a necessidade urgente de diferen-ciação em relação à concorrência, em função de uma superprodução de mercadorias cada vez mais parecidas entre si no que se refere a aspectos como qualidade e utilidade. Certamente, a televisão passou a oferecer muito mais opções para que se desse essa diferenciação por imagens, por causa das características próprias desse meio eletrônico, que permite contar histórias condensadas em segundos.


Mas as transformações provocadas - ou intensificadas - pela TV eram mais profundas. A televisão é produto do que eu chamei de "tempo do fast-food", um tempo que originou uma sociedade mais dinâmica, mais móvel e, também, mais voltada para os prazeres imediatos. E se a televisão é produto dessa sociedade, ao mesmo tempo esse meio começa a interferir profundamente na maneira como essa mesma sociedade passa a perceber a realidade. Para entendermos melhor isto, basta nos determos um pouco nas análises que Walter Benjamin (1996) fez sobre o cinema, que têm muito a nos esclarecer sobre a relação do homem com as imagens televisivas. Benjamin preocupou-se em entender como se dava a recepção das imagens eletrônicas, imagens que estavam em constante mudança e que impediam o telespectador de se fixar em qualquer uma delas. A exposição constante a tal forma de imagens poderia, segundo o autor, gerar transformações radicais nas estruturas perceptivas, resultando em processos como o distancia-mento diante dessas imagens que se dão a ver.


Como tão bem apontou Kaplan (2000, p. 140), "podemos dizer com segurança que, nos contextos capitalistas, as tecnologias acompanham de perto (ou têm uma relação circular com) as mudanças sociais". Pois foi diante das mudanças tecnológicas e sociais elencadas acima que os "criadores de imagens" se viram em face de novas oportunidades e desafios em termos do ritmo e forma a se imprimir ao anúncio comercial eletrônico. Esse é o momento no qual a propaganda que apela para as características e benefícios de um produto cede espaço para a sua imagem. Chegara a época em que as campanhas publicitárias teriam que vender, "não o bife mas o chiado... não as latas de sopa, mas a felicidade fami-liar" (Hobsbawm, 1995, p. 496). Daí porque, em vez de anunciar hambúrgueres fumegantes, o McDonald's decidiu investir na figura do palhaço, buscando associar sua imagem de marca a um ideal de entretenimento que deveria começar na própria propaganda e se confirmar no interior da lanchonete, onde a "experiência McDonald's" deveria ser, de fato, uma experiência de diversão.


Fiquemos um pouco, ainda, no interior da propaganda que, em decorrência das mudanças provocadas na e pela TV, passa a apelar para uma forma "divertida" de anúncio. Interessaria, antes de mais nada, a história que ela iria contar, como se isso fosse um filme independente, como se, por trás, não houvesse um produto a ser vendido. Bastava, apenas, a retratação de situações nas quais a marca poderia ser associada positivamente a um certo modo de vida. Essa nova forma de anúncio comercial passou a predominar a partir dos anos 1960 e radicalizou-se de tal forma, a ponto de, a partir dos anos 1980, dar-se início ao que alguns autores consideraram ser a "perda de sentido" da propaganda.


No campo dos autores externos ao território do marketing, temos no francês Gilles Lipovetsky (1989) uma das análises mais fecundas sobre o assunto. Baseando-se nas propagandas vigentes, esse autor constatou que, de fato, a propaganda não queria mais fazer sentido. Certamente, tudo começou quando a propaganda passou a desvincular o produto de sua imagem, até chegar ao ponto em que isso ganhou uma dimensão do absurdo, de propagandas que parecem falar mal de si mesmas, de gozar do produto ou, muitas vezes, de nem sequer anunciar o próprio produto que a marca veicula. O importante, apenas, é que a marca estivesse presente em meio a essas "cenas do absurdo". É como se a marca ganhasse vida própria, a ponto de ela poder aparecer em qualquer situação, por mais sem lógica que essa pudesse parecer e, mesmo assim, estivesse acima de qualquer uma dessas situações. Finalmente, é como se a marca nos dissesse que é ela que importa. E que ela sabe que nós sabemos disso.


Por si só, isso já seria suficiente para pôr por terra uma das leituras críticas aos meios de comunicação de massa - especialmente a TV -, qual seja, a de que eles têm o poder de iludir o seu telespectador. Ao abolir o registro da ilusão, a propaganda estaria nos expondo claramente as regras desse "jogo do faz-de-conta", do qual parece que participamos de bom grado e com bom conhecimento de causa. Mesmo assim, aquilo que Benjamin um dia chamou de "aura" parece persistir na marca. Embora exposta em suas entranhas, por algum motivo ela seduz, ela encanta. Resta entender por que e como se dá esse paradoxo.


Publicidade e socialidade midiática


Insistindo em entender esse paradoxo a partir da história da marca McDonald's, constatei que o encantamento da marca só pode ser compreendido se captarmos o verdadeiro papel que a publicidade exerce na atualidade. Antes de mais nada, convém esclarecermos a diferença crucial entre propaganda e publicidade que, muitas vezes, são tidas como palavras sinônimas. Baseada na literatura do marketing, o que chamo de "propaganda" é o anúncio comercial pago, enquanto a "publicidade" seria a veiculação do nome de uma marca em notícias "reais", aquelas que são transmitidas pela "mídia-realidade", qual seja, a mídia de notícias, de informação. Claro que isso exige um trabalho bem pago de relações-públicas, mas a idéia é fazer com que o acontecimento seja o mais "natural" possível.


E a marca McDonald's é uma prova viva dessa prática. De caso pensado ou não, a força da publicidade já era evidente na época em que o McDonald's era apenas um drive-in. A história dos drive-ins nos mostra como eles floresceram especialmente na Califórnia e tiveram uma forte relação com o cinema, na cidade de Los Angeles. Dessa maneira, os drive-ins souberam colar-se nas imagens das grandes estrelas que paravam em seus estabelecimentos para comerem um hambúrguer. É bom lembrar, também, que o McDonald's surge pelas mãos de dois irmãos que buscaram a sorte no cinema e, diante da impossibilidade de êxito nessa área, passaram a investir no ramo de alimentação. Dessa maneira, essas formas peculiares de entretenimento e alimentação começaram de mãos dadas e caminham juntas até hoje, a ponto de tornarem-se dois dos três maiores e mais rentáveis negócios americanos da atualidade, especialmente para exportação, sendo o terceiro, o do segmento de armas (Jameson, 2001).(2)


A partir dos anos 1950 - já na gestão de Ray Kroc, o grande disseminador da marca McDonald's -, a relação entre marca e publicidade profissionaliza-se de fato. Kroc contratou uma agência de relações públicas para cuidar da "imagem" do McDonald's. Não por acaso, os proprie-tários dessa agência também cuidavam da carreira de grandes estrelas hollywoodianas. Com o seu feeling para o marketing, Kroc percebera que estava na era das imagens, daí ele declarar que não estava no negócio de hambúrgueres, mas no show business! Com essa frase, Kroc nos revela os pilares que sustentam a concepção de espetáculo: vender matéria - no sentido preciso do termo - revestida de imagem: o importante não é vender hambúrgueres, mas atitudes ligadas ao hambúrguer. O importante é vender cultura: a cultura do fast food. O importante era - e é - vender, seja algo concreto ou pura imagem - e é nisso que consiste o que eu chamo, aqui, de cultura material.


Embora não pretenda negar ou esconder essa lógica, a publicidade a torna muito sutil; melhor dito, glamouriza relações tão "chãs", especialmente porque essas imagens se colam a outras imagens que estão, essas sim, impregnadas de significados, gerando o quê, para parafrasear Arnaldo Jabor (1999), eu chamo de "fetichização do fetiche". Só para dar um exemplo: quando se candidatou à presidência dos Estados Unidos, Bill Clinton, em plena campanha eleitoral, parou para lanchar no McDonald's, obviamente, devidamente acompanhado pela mídia. Na época, os analistas de marketing definiram que "recado" Clinton pretendia passar com aquele gesto: mostrar-se um presidente popular, retratando "a diversidade racial e cultural da nova América" (Randazzo, 1996, p. 244). O fato de um candidato ao cargo de presidente da nação mais importante do mundo se colar a uma marca popular para passar tal mensagem é um exemplo singular do poder de transmutação de uma marca, que se dá a partir da relação entre publicidade e mídia. Explico: num momento, as marcas fazem uso de pessoas e eventos para poder constituírem suas imagens; num outro, são essas pessoas e eventos que se colam às marcas para falarem de si mesmas; melhor dito, de como gostariam de ser vistas.


Por isso mesmo, a melhor maneira para uma marca se constituir e se manter é se colando a imagens de "celebridades", enquanto, inversamente, essas celebridades se alimentam das imagens de tais marcas. E se alimentam não só no sentido simbólico, como também material, já que não é mais segredo para ninguém o quanto "gente famosa" se veste, se alimenta, se exercita, vai ao médico, ao dentista, enfim, vive "concretamente" a partir de "doações" de marcas famosas, pelo simples fatos de essas marcas poderem ter seus nomes e imagens associados a tais "celebridades".

E, como nos mostra muito bem Gabler (1999, p. 15),

ainda que o estrelato, seja qual for sua forma, confira celebridade automática, é muito provável que hoje em dia ela seja concedida igualmente a gurus de dietas milagrosas, a estilistas e a suas chamadas top models, a advogados, políticos, cabeleireiros, intelectuais, empresários, jornalistas, criminosos - qualquer um que calhe de ser captado, ainda que efemeramente, pelos radares da mídia tradicional e que, por isso, sobressai da massa anônima. O único pré-requisito é publicidade.

Trata-se do "elemento de identificação" que deve envolver a platéia para que aquilo que ele veicula possa ser consumido. E é o fato de estarmos numa sociedade onde há essa possibilidade de qualquer um, por uma razão qualquer, tornar-se um "elemento de identificação" - mesmo que num tempo muito efêmero - que gerou aquilo que Gabler chamou de "pseudo-vida".


O conceito de "pseudo-vida" de Neal Gabler é uma referência imediata ao de pseudo-evento, de Daniel Boorstin. E é exatamente nos anos 1960 que Boorstin se dá conta desse fenômeno: trata-se de eventos forjados, não espontâneos, algo criado, planejado com uma função bem específica: atrair os olhares da mídia. Nesse sentido, sua ocorrência é arranjada em função do meio de divulgação ou de reprodução da notícia e seu sucesso é medido pela amplitude com que é noticiado. Para ilustrar como isso se daria no campo comercial, Boorstin nos dá o exemplo de um proprietário de hotel que consulta um profissional de relações-públicas e pergunta-lhe como poderia melhorar o prestígio do seu estabelecimento e expandir seus negócios. Boorstin vai dizer que, "em tempos menos sofisticados", a resposta deveria ter sido uma proposta de se contratar um novo chefe, melhorar o encanamento, pintar os quartos ou instalar um candelabro de cristal no lobby. Mas a técnica de relações-públicas é mais sutil. O profissional de RP propôs que se celebrasse o aniversário de trinta anos do hotel, chamando a atenção para o serviço que aquele hotel havia prestado à comunidade. Essa celebração deveria ser fotografada e a ocasião amplamente noticiada nos jornais. Assim, Boorstin vai dizer que essa ocasião constitui-se num pseudo-evento, embora ela não tenha sido totalmente falsa (Boorstin, 1992, p. 9-10).


À fusão de mídia e publicidade corres-ponde, por sua vez, um sujeito performático. Interessa, antes de tudo, a representação da vida. Daí a razão de Gabler ter ido mais além na concepção de pseudo-evento de Boorstin para conceituar a pseudo-vida. Ele considera que a grande maioria das pessoas já "percebeu que o objetivo de praticamente todo mundo que ocupa dessa ou daquela forma a vida pública é atrair a mídia e que todo mundo, de atores famosos a pais de sete gêmeos, precisa de um agente para sua promoção". Nesse sentido, quase "tudo na vida se apropriou das técnicas de relações-públicas para poder ter acesso à mídia, de modo que não eram mais os pseudo-eventos que estavam sendo discutidos, quando se falava na habilidade dos relações-públicas; era a pseudo-vida". Por fim, "à medida que a vida estava sendo vivida cada vez mais para a mídia, esta estava cada vez mais cobrindo a si mesma e a seu impacto sobre a vida" (Gabler, 1999, p.96-97).




A idéia subjacente é a de que a vida teria se tornado, ela própria, um meio de comunicação. Por isso mesmo, toda a análise que esse autor faz sobre a sociedade do entretenimento é acompanhada de uma análise do espetáculo como encenação (não na concepção que Debord deu a esse termo embora, se tivesse boa vontade com essa corrente teórica, certamente Gabler faria bom uso de suas contribuições), no sentido de que entretenimento e publicização da vida estão intrinsecamente ligados. O entretenimento analisado por Gabler tem relação com consumir imagens como, também, com uma busca individual e coletiva por se fazer mostrar. Nesse caso, ser, ao mesmo tempo, espectador e platéia de um grande espetáculo: o espetáculo da vida.


É a partir desta constatação que eu desenvolvo a idéia de uma "socialidade midiática" - um jeito de ser e de se estar em sociedade profundamente marcado por essa necessidade da performance, da preocupação com a maneira como outro irá nos captar enquanto uma "representação" do que somos. Mas, nessa busca pela encenação permanente de papéis que nos garanta um lugar nesse mundo imagético, acabamos nos transformando em "meio", no sentido estrito do que seja "mídia", qual seja, um "meio".


Como nos filmes O show de Truman e, mais ainda, Matrix (já que este traz a questão de uma vida "falsa" para todos os seus habitantes e não apenas para um único sujeito), a vida torna-se um meio. Mas, diferentemente dessas ficções, os sujeitos da Vida - o filme (título do livro de Gabler) representam porque compreenderam há tempo que estar na imagem é existir - o que fica perfeitamente comprovado com os "reality shows" contemporâneos, tais como No Limite e, mais recentemente, Casa dos artistas e Big Brother Brasil, e seus similares (ou "originais" estrangeiros, Survivor e Big Brother).


Esses são exemplos que condensam, de uma forma mais evidente, a maneira como objetivamente os sujeitos transformam-se em meios, cada um sabendo que pode virar "moeda de troca" e, agindo assim, perpetuam na ação, no fazer, o jogo ultramoderno da "sociedade das imagens". Mas, na vida cotidiana, também joga-se o mesmo jogo: cada um consome imagem na esperança de transformar-se, ele mesmo, numa imagem. Quando como "um McDonald's" ou quando visto "um Armani", estou procurando criar uma imagem de mim mesmo e, ao mesmo tempo, alimentando a cadeia que sustenta essas imagens.


Fica evidenciado, assim, o pacto entre mercado, mídia e sociedade do entretenimento, selado por uma das principais ferramentas do marketing moderno: a publicidade. Sendo assim, como fica a comunicação numa sociedade onde a mídia assume o lugar de "suposto saber" e, mais ainda, quando a publicidade acaba influenciando decisivamente no que a mídia registra?


Mídia e publicidade: sobre uma nova forma de comunicação

Pensado originalmente como uma palestra para o Io Seminário Comunicação e Educação, especialmente para uma de suas temáticas de trabalho - as formas contemporâneas de socialidade - este artigo tenta apresentar um pouco a idéia de "socialidade midiática", desenvolvida no meu livro, já citado, fruto de uma tese de doutorado em que procurei entender o que consistiria a assim chamada "sociedade das imagens". Não sou, portanto, uma especialista da comunicação, especialmente em sua relação com a educação. Nos resultados obtidos pela minha pesquisa, a questão da comunicação acabou se configurando tangencialmente, apenas a partir da análise que empreendi sobre a publicidade e na maneira como esta se imbrica com o que eu também cunhei de "mídia-realidade". A partir daqui, os desdobramentos buscados foram outros, quais sejam, as formas de subjetividade decorrentes de uma maneira de estar no mundo, marcada pela pressão contínua da "performance".


É interessante, portanto, voltarmos agora a essa mesma relação entre publicidade e mídia para pensarmos um pouco como essa relação desenha uma "nova forma de comunicação", apenas no sentido de apontar alguns elementos que elucidem como se dá essa relação. Gosto muito da maneira como Gilles Deleuze discorre sobre os efeitos da comunicação como "a transmissão e a propagação de uma informação".


Segundo ele,

uma informação é um conjunto de palavras de ordem. Quando nos informam, nos dizem o que julgam que devemos crer... Ou nem mesmo crer, mas fazer como se acreditássemos. Não nos pedem para crer, mas para nos comportar como se crêssemos. Isso é informação, isso é comunicação. O que equivale a dizer que a informação é exatamente o sistema do controle. (1999, p. 4)

Certamente o filósofo já tinha em mente o "tipo de comunicação" a que me referia antes: aquela em que mídia e publicidade se fundem. Essa forma já está tão imbricada na sociedade contemporânea que nos referimos a ela como a única forma possível de comunicação. Aliás, a relação entre mídia e mercado parece ter sido estabelecida desde os primórdios dos meios de comunicação de massa. A julgar, por exemplo, pelas informações contidas num livro que narra a história da Coca-Cola, em fins do século XIX a propaganda de mercadorias já era amplamente veiculada nos jornais impressos (Pendergrast, 1993). Mas, como já sabemos, até aí tratava-se, "apenas", de propaganda. Hoje, como pudemos constatar, o que há é uma fusão entre informação e publicidade que torna os dois indistin-guíveis. Não por acaso, um estudioso do marketing vai apontar a atual importância que ganhou os "publieditoriais" - os arranjos, parte editoriais, parte publicitários - que tornam-se "importantes fontes de endosso a produtos" (Buitoni, 2000, p. 119).


Por isso mesmo, o analista de tendên-cias sociais Jeremy Rifkin constata que "o poder, na próxima era, pertence aos porteiros". Porteiros, no caso, seriam as

instituições e indivíduos que determinam as regras e condições de admissão e controlam quem tem acesso e quem é barrado de uma sociedade baseada em rede (...) Os porteiros servem como mediadores e árbitros de nossas vidas e épocas. Eles controlam o que entra e o que é barrado do processo social.

Quando fala sobre os porteiros, obviamente Rifkin está se referindo à relação destes com os meios de comunicação, revelando-nos como, atualmente, os estudantes e acadêmicos de jornalismo passaram a estudar

a função de controle de entrada para entender melhor como as informações fluem para dentro e para fora da sala de notícias e como as decisões de editorial são tomadas quanto às reportagens que devem ser cobertas e aos artigos que devem ser ignorados e colocados de lado. (Rifkin, 2001 p. 144-147)

O processo de filtragem realizado pelos porteiros deixa clara a forte imbricação entre mídia e publicidade: se são necessários porteiros para se conseguir acesso aos "meios", não é menos necessário que, já inserido neles, novos porteiros sejam necessários para revalidar o "produto". Assim, no exemplo dado por Rifkin, depois de vencidas todas as etapas para a produção de um livro, este ainda não se concretizará até que passe pelo crivo dos resenhistas. Até aí, tudo bem, não fosse o fato de que alguns

estudos têm mostrado... que críticas favoráveis e desfavoráveis no New York Times Book Review podem influenciar se as livrarias, bibliotecas e o público comprarão os livros. Alguns dos mesmos estudos também mostram que os livros publicados por empresas que anunciam freqüentemente no New York Times Book Review têm mais probabilidade de receber mais espaço para resenhas no jornal. Assim, o Times tem uma posição estratégica no ponto de admissão e pode assumir um papel importante na determinação do nível de acesso que um autor tem. (Rifkin, 2001, p. 148)

O que ocorre, então, é um círculo vicioso no qual, na medida em que a mídia contemporânea acaba veiculando o que "vende", ou seja, "a cultura de mercado orientada para o consumo", aqueles que buscam o acesso aos portais acabam perpetuando uma forma de leitura da realidade cultural, tendo em vista passarem pelos "novos vigias dos portões" para poderem ter vez e lugar junto ao público consumidor. E, na medida em que vivemos numa era em que quase tudo que consumimos precisa ser legitimado por uma marca ou um "especialista em estilo de vida" - que acabam, por sua vez, sempre se referindo a marcas -, os tais porteiros acabam se tornando os intérpretes e, ao mesmo tempo, os criadores de significados culturais, fazendo a própria realidade se transformar numa mercadoria manufaturada e embalada para consumo.


Tem-se desenhado, assim, um novo modelo comunicacional que é produto natural de uma sociedade na qual, como tão bem demonstraram Jameson (2001) e Eagleton (1993), houve uma fusão entre o cultural e o econômico, fazendo com que "cultura" se tornasse igual a "mercado". Isso significa que o aparato produtivo contemporâneo está profundamente entrelaçado ao universo simbólico, fazendo com que a "indústria cultural" se torne o paradigma, por excelência, da produção capitalista contemporânea. Enquanto parte fundamental dessa indústria cultural, a mídia não foge às regras de sua dinâmica. Daí a razão pela qual, segundo o fotógrafo Oliviero Toscani, a publicidade deveria ocupar uma função de "comunicador". Toscani assume isso baseando-se em dados que apontam que os gastos com propaganda no mundo desenvolvido seriam quase o dobro do que se investe em educação pública (Calligaris, 1996, p. 74). Teria sido isso que levou o fotógrafo, segundo ele mesmo, a desenvolver as campanhas da Benetton desvinculando o produto da marca das imagens por ela veiculadas, para falar de questões sociais, para tratar da "realidade".


Pode até ser que Toscani tenha tido boas intenções, mas o fato é que, de caso pensado ou não, ele cumpriu fielmente a cartilha do marketing moderno: desvinculou-se da propaganda tradicional que equiparava a imagem ao produto, levando o "nonsense" da propaganda ao limite e, com isso, gerou uma estupenda publicidade, sendo notícia no mundo inteiro, dando palestras, publicando livros, virando tema de teses acadêmicas, etc. Como ele mesmo admitiu,

em alguns anos, com uma comunicação original, a United Colors of Benetton se fez conhecer internacionalmente como nenhuma outra marca de prêt-à-porter. Fizeram-se estudos em 1994 sobre a popularidade do título no mundo inteiro: o nome United Colors of Benetton bate desde então a Chanel na memorização das marcas e entrou no pelotão das cinco marcas mundiais mais conhecidas. (Toscani, 1996, p. 56)

Visto assim, até parece que vivemos um processo de manipulação pura e simples por parte de uma "entidade" absoluta que tudo pode. Mas o fundamental a ser compreendido - no que voltamos ao objetivo principal deste artigo - é como e por que os sujeitos precisam dessas imagens. Passado mais de um século de interação entre mídia e propaganda e, mais ainda, considerando a forte imbricação entre publicidade e mídia a partir de meados do século XX - cujo ápice vivenciamos hoje - já não se pode fugir ao fato de que esse fenômeno tornou-se um poderoso agente socializador e, mais ainda, passou a influenciar decididamente na nossa formação subjetiva, especialmente para as novas gerações, herdeiras diretas do modelo mais acabado. Nas acertadas palavras de Don DeLillo,

é o poder da mídia... mas também acho que é algo nas pessoas que talvez tenha mudado. As pessoas parecem precisar de notícias, notícias de qualquer tipo - más, sensacionalistas, avassaladoras. Parece que é a notícia a narrativa de nossa época. Ela quase assumiu o lugar do romance, quase substituiu o discurso entre as pessoas. Tomou o lugar da família. Tomou o lugar de uma maneira mais lenta, mais cuidadosamente montada de se comunicar, de uma comunicação mais pessoal... E isso nos torna consumidores de determinado tipo... É como comprar produtos que, na verdade, são imagens... Mas também é real, é a vida real. É como se isso fosse nossa derradeira vivência da natureza... De uma maneira estranha é tudo que nos resta da natureza. Mas está acontecendo na nossa TV. (3)

Não é à toa que os publicitários contemporâneos admitem que a propaganda mudou, especialmente, pelo desafio de dar conta de uma "geração de cínicos". Por isso mesmo, Ronald McDonald - enquanto um personagem de marca e, nesse sentido, reflexo do seu consumidor - pode continuar sendo uma metáfora ideal de uma sociedade que fundiu realidade e ilusão para, a pretexto de entretenimento, jogar o duro jogo de existir continuamente como a representação de um produto, de uma coisa que pode ser embalada para consumo.

Isso apresenta dois grandes desafios para aqueles que lidam com a tarefa - enorme - de pensar os novos rumos da educação: de um lado, é preciso assumir o quanto a mídia, atuando como mediador da socialidade contemporânea, alterou profunda e irreversi-velmente o nosso universo perceptivo. É, de novo, o historiador Eric Hobsbawm (1995, p. 501-502) - citando Walter Benjamin - quem nos lembra o quanto a "reprodutibilidade técnica" mudou a maneira como nós passamos a perceber a realidade e a usufruir dessas novas criações. E, especialmente para os herdeiros da sociedade de consumo de massa - cujo triunfo teria se dado em meados do século XX -, o universo perceptivo tornara-se


diferente, multiforme e variegado. As impressões dos sentidos, e mesmo as idéias, podiam alcançá-los simultaneamente de todos os lados - através da combinação de manchetes e fotos, texto e publicidade na página de jornal, o som no fone de ouvido enquanto o olho vasculhava a página, através da justaposição de imagem, voz, impressão e som - tudo, com quase toda a certeza, absorvido perifericamente, a menos que, por um momento, alguma coisa concentrasse a atenção. Era assim que as pessoas da cidade há muito sentiam a rua, era assim que funcionava o lazer no parque de diversões e no circo, uma maneira conhecida de artistas e críticos desde os dias dos românticos. A novidade era que a tecnologia encharcara de arte a vida diária privada e pública. Jamais fora tão difícil evitar a experiência estética... .





Como se já não fosse pequena a tarefa de atender a esse novo universo perceptivo, o outro desafio, a que me referi, parece ainda maior. Trata-se de um desafio ético: como enfrentar uma socialidade midiática marcada pela tarefa de "estar na imagem", ou seja, de existir, fundamentalmente, enquanto representação? Tal desafio pode ser evidenciado, concretamente, num fato narrado pelo psicanalista Marcus do Rio Teixeira (Teixeira, 1997) a respeito de como uma escola de classe média-alta de Brasília estava às voltas com uma dúvida angustiante: como educar as crianças em função das novas transformações sociais, que fazem com que os corruptos ou os espertos sejam mais propensos ao sucesso que aqueles que se pautam de acordo com o princípio da honestidade? Certamente não nos interessa discutir, aqui, as regras morais que determinam o que é ser honesto ou desonesto, mas apresentar dados que revelam o desafio da "arte de educar para o sucesso", tão presente na maneira como isso é direta ou indiretamente referido pelos meios de comunicação de massa e de como isso interfere no processo socializador contemporâneo, especialmente na instituição escolar.(4)

Meu texto não tem a pretensão de dar conta de tais desafios mas, tão-somente, oferecer alguns dados e reflexões. Do ponto de vista aqui apresentado - o da "socialidade midiática" - meu propósito foi o de apenas informar e questionar sobre o poder da mídia enquanto um poderoso agente socializador, especialmente na medida em que ela se encontra atada à publicidade e ao entretenimento, cujo ponto de chegada deverá ser sempre o consumo. Espero que essas análises possam ser melhor aproveitadas por aqueles que atuam mais diretamente na fronteira da educação com a comunicação.


Referências bibliográficas


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Recebido em 25.02.2002



Aprovado em 03.05.2002

Isleide Arruda Fontenelle é bacharel em Psicologia, com doutorado em Sociologia pela USP e pós-doutorado em Psicologia Social pela PUC-SP. É pesquisadora do Núcleo "Psicanálise e Sociedade" da PUC-SP e do Laboratório de Políticas Públicas da UERJ. Autora do livro O nome da marca: McDonald's, fetichismo e cultura descartável, 2002.


Notas


1. Para uma leitura mais aprofundada sobre o assunto, sugiro o livro (Fontenelle, 2002) que resultou da minha pesquisa de doutorado, no qual essas questões são analisadas mais detidamente.


2. Apenas para que fique claro como a lógica das imagens se sustenta numa certa materialidade, não custa nada lembrar como o lado da produção também se beneficiava dessa relação entre cinema e drive-in. Esse último costumava recrutar, para seu exército de trabalhadores, jovens aspirantes a estrelas, que acreditavam estar numa vitrine na qual poderiam ser "descobertos" pelos frequentadores famosos do cinema, especialmente, os produtores/diretores dos filmes.


3. Don DeLillo em entrevista a Remnick, David. A América paranóica nas letras de DeLillo, Folha de S. Paulo, São Paulo, 05.12.1997. (Ilustrada). p.8.


4. O fato a que Teixeira refere-se - da escola de Brasília - foi veiculado por um "diário de grande circulação". Como ainda informa o autor, o jornal não explicita qual a via pedagógica adotada pela escola. Entretanto, como Teixeira nos lembra tão bem, a notícia em si já é suficiente para apresentar alguns dilemas "ético-pedagógicos" que são reveladores de profundas mudanças sociais que repercutem nas nossas instituições socializadoras, dentre elas, claro, a escola.


The world of Ronald McDonald: on the trademark and the mediatic sociality




Abstract The clown Ronald McDonald ¾ one of the trademarks of the McDonald's Corporation ¾ is taken as a paradigm to reflect upon the relations between market, media, and entertainment, which have a direct link with what we define as "mediatic sociality". As an ideal metaphor of an advertising that no longer seems to attempt to make sense, the story of the clown allows us to unveil the meanings contained in two of the main practices of modern marketing, the advertisement and the publicity, revealing how, between the nonsense of contemporary advertising and a publicity that has fused illusion and reality, there is a vital relationship between media and publicity, that establishes a new form of communication in which the subject becomes only a means to ends that he/she knows about, but paradoxically acts as if he/she ignored them. Such paradox is revealing of a form of subjectivity profoundly marked by the media as a socializing agent, in the sense that the role of the media as a mediator of contemporary sociality had the effect of altering our perceptive universe, saturating our imaginary in a radically new way. In addition to that, the "mediatic sociality" implies a new form of representation of the subject in the record of the "spectacle", in the sense that "to be in the image is to exist". Needless to stress how much these issues must be included in contemporary studies about the processes of socialization, and how challenging they are to those that work within the universe of education.




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domingo, 18 de maio de 2008

A sociedade do narcisismo e da melancolia



De que maneira a sociedade contemporânea, marcada pela contínua desvalorização do passado e pela promoção crescente do narcisismo, está condenada à melancolia?

Por Luciana Chauí Berlinck

A melancolia (palavra que em meados do século 19 começa a ser substituída pelo termo depressão) é considerada a doença mental contemporânea, e cabe indagar como nossa sociedade facilita o surgimento dessa patologia. Não faremos distinção entre melancolia e depressão. Para muitos, a depressão é uma patologia orgânica, que transparece psicologicamente como tristeza profunda ou melancolia. Ou seja, esta é um sintoma daquela. Em contrapartida, para Freud, não há diferença entre uma e outra. Ambas exprimem o mesmo fenômeno, embora possamos considerar a depressão um sintoma da melancolia, uma vez que a palavra "depressão" significa rebaixamento, ou seja, uma diminuição das atividades, que pode ser tanto orgânica quanto psíquica.

Em "Luto e melancolia", Freud apresenta uma analogia entre melancolia e luto. A diferença entre ambos decorre da ausência de disposição patológica no luto e da presença dela na melancolia. Psicanaliticamente, uma "disposição patológica" é uma série de condições da vivência pessoal que faz alguém reagir sempre de uma certa maneira aos acontecimentos. Ao contrário da melancolia, no luto não há disposição patológica porque, embora leve a um afastamento das atitudes normais para com a vida, não é duradouro, não define um modo constante de viver e se espera que a anormalidade seja passageira, não necessitando de tratamento médico. No caso da melancolia, a predisposição patológica é dada pelo narcisismo: como este foi vivenciado e porque o indivíduo ficou fixado nele. Freud enumera os traços distintivos da melancolia, os mesmos encontrados no luto, com uma única exceção: a perturbação da auto-estima não é encontrada neste último. Os demais traços comuns a ambos são: desânimo profundo e penoso, perda de interesse pelo mundo externo, perda da capacidade de amar, afastamento de toda e qualquer atividade. Reação à perda de alguém que se ama, no luto a falta de interesse pelo mundo externo se dá porque este não traz de volta o objeto perdido; a falta de capacidade para amar outros ou outras coisas ocorre por não se ter a capacidade de substituir o objeto perdido por um novo objeto, fazendo com que a única atividade possível seja "realizada com a memória do ser querido".

Freud fala no "trabalho do luto", cujo objetivo é desinvestir o objeto perdido, renunciar a ele, levando a libido (a energia psíquica) de volta ao eu para que este possa desejar um outro objeto. De fato, ao sentir a falta do objeto, o sujeito enlutado descobre que era precisamente esse objeto desejado que, perdido, não pode ser substituído por outro, e a libido se volta para o objeto ausente por meio de lembranças e expectativas que o sujeito se recusa a abandonar. O trabalho do luto consiste em evocar as lembranças e investi-las fortemente uma a uma, de maneira a que, paulatinamente, a energia psíquica se desligue delas. O luto revela um traço constitutivo da humanidade do homem, isto é, a maneira de experimentar a ausência.

Perda e luto
Como o luto, a melancolia é também reação à ausência, à perda de um objeto amado. Nela, porém, a perda é de natureza mais ideal e inconsciente: "O melancólico não sabe o que perdeu", escreve Freud. A melancolia é, pois, a reação inconsciente a uma perda, seja ela real ou imaginária, seja conhecendo-se ou não o objeto perdido, seja conhecendo-se o objeto sem que se saiba o que se perdeu com ele. Nos dois casos há um empobrecimento e um vazio; contudo, no luto, isso ocorre em relação ao mundo, enquanto que, na melancolia, em relação ao eu. Enquanto o trabalho do luto tem como objetivo liberar o eu para que possa "viver" outra vez, na melancolia o sujeito experimenta desprezo por si mesmo, não busca a vida nem preza o instinto de viver. O que chama a atenção de Freud, de um ponto de vista psicológico, é a diminuição da pulsão de vida, e quando o melancólico busca a morte, compreende-se seu caráter patológico. Freud, ao introduzir a noção de inconsciente, introduziu também a exigência de que o médico ouvisse e levasse a sério o discurso de seus pacientes, signos visíveis de acesso ao invisível, entendido como o sentido. A revolução psicanalítica consiste em ouvir o paciente, não para desmenti-lo, e sim para compreender o sentido da imagem que tem de si mesmo. O melancólico tem satisfação ao comunicar seus defeitos, julgando com isso apresentar-se tal como é. As auto-acusações do paciente, explica Freud, não são totalmente desprovidas de razão, ainda que não haja correspondência entre o grau de autodegradação e sua justificativa real.

É exatamente isto que permite diferenciar a melancolia do luto: a fala e o comportamento do melancólico levam a uma conclusão surpreendente, pois o objeto amado perdido é o próprio eu. O outro (perdido) é o eu. Admitir que o paciente está descrevendo o que realmente se passa nele significa admitir que a perda se refere à auto-estima e que, portanto, o eu está perdido para si mesmo.

Freud descreve a melancolia como um fenômeno psíquico de caráter representacional, ou como uma "neurose de defesa". Em termos freudianos, a defesa nada mais é do que um mecanismo pelo qual o eu procura proteger-se das excitações ligadas a representações que lhe são incompatíveis (incompatíveis porque lhe causam dor ou sofrimento). A melancolia é um tipo peculiar de defesa, que Freud designa como "neurose narcísica", na qual a capacidade do sujeito de estabelecer vínculos libidinais (ou de energia psíquica) com os objetos está prejudicada ou mesmo perdida.

O outro é o eu
Todos nós partimos de uma "escolha objetal", isto é, da ligação da energia psíquica a determinada pessoa; pode ocorrer, a seguir, que a escolha seja abalada por um acontecimento real ou não, algo concreto, ou um sentimento, ou uma fantasia. Este leva à perda do objeto, ou seja, leva a libido a desligar-se dele. Se a energia psíquica tomar um caminho normal, liga-se a outro objeto. Ora, na melancolia, a energia psíquica livre se recolhe no eu e estabelece uma identificação entre este e o objeto perdido. Com essa identificação, entramos no núcleo da melancolia, qual seja, a perda do objeto passa a ser perda do próprio eu e o conflito que existia entre o eu e a pessoa amada passa a ser o conflito entre a crítica do eu e o eu. O "outro" é o outro e simultaneamente o próprio eu, que mimetizou esse outro, identificando-se com ele e o perdendo, donde a neurose ser narcísica.

A melancolia nos ensina muito sobre todos os humanos. De fato, no ponto de partida do desenvolvimento de nossa vida psíquica, há um momento claramente narcisista, pois, como explica Freud, definido como a condição em que o sujeito toma a si mesmo como objeto de amor, o narcisismo implica superestima, uma vez que no narcisismo infantil destaca-se a vivência prazerosa da criança de sentir-se especial, perfeita, de que são superestimadas sua beleza, sua inteligência e todas as suas qualidades, enquanto seus defeitos são negados ou esquecidos. Dessa forma, o amor do narcisismo se caracteriza pela idealização de si - um eu ideal. A libido descrita como narcisismo reivindica um lugar no curso regular do desenvolvimento sexual humano. A melancolia é a fixação no estágio infantil do narcisismo, quando a energia psíquica livre retorna ao eu e, por ter havido uma identificação narcisista com o objeto, é ao narcisismo que a libido retorna. A identificação narcisista com o objeto vem substituir a relação com o objeto, resolvendo assim o conflito entre o sujeito e a pessoa amada.

Caso o indivíduo no início da vida sofra sucessivos desapontamentos amorosos, o narcisismo infantil fica gravemente ferido e ele sente-se totalmente abandonado; isso gera as primeiras crises de depressão. A impossibilidade de referir-se a um passado de lembranças amoráveis define a situação da gênese psicológica da melancolia.

Se concordarmos com Freud em considerar a melancolia uma neurose narcísica, vale a pena observarmos as características da nossa sociedade, levantando a hipótese de que esta incentiva o surgimento de patologias narcísicas, entre as quais a melancolia. Idéia reforçada se, com Christopher Lasch ( A cultura do narcisismo), considerarmos não apenas que a cultura ocidental contemporânea estimula o narcisismo, mas também que a própria cultura é narcisista. Se uma cultura narcisista propicia o aparecimento da melancolia, podemos compreender porque a incidência de melancólicos (ou depressivos) é hoje tão grande.

Alguns traços permitem pensar a sociedade contemporânea como narcisista e promotora de narcisismo: o gosto pelo efêmero e a perda de referência temporal ao passado e ao futuro; a rápida obsolescência das qualificações para o trabalho, dos valores e das normas de vida e o prestígio do paradigma da moda; a competição como forma de constituição da identidade pessoal; o medo, gerado pela insegurança e pela competição; a perda da autonomia individual sob o poderio do "discurso competente" (a fala dos especialistas); a incapacidade para simbolização e o conseqüente fascínio pelas imagens e pela nova forma da propaganda e da publicidade, que não operam referidas às próprias coisas e sim às suas imagens (juventude, beleza, sucesso, poder) com as quais o consumidor deve identificar-se. Desses traços, a relação com o tempo, e a impossibilidade de simbolização sob o prestígio das imagens são importantes para a determinação da melancolia.

Sociedade narcisista
Nossa sociedade alimenta o gosto pelo efêmero; passado e futuro não são referências psicológicas e sociais predominantes, mas sim o presente como instante fugaz. Porém, a ordem humana surge exatamente como capacidade para simbolizar, isto é, para lidar com o ausente, e a primeira relação com a ausência é dada pela relação com o outro sob a forma do tempo, seja como relação com o morto - relação com o que se tornou ausente - seja como relação com a natureza por meio do trabalho, que torna presente o que estava ausente. A temporalidade, relação com a ausência, é, assim, decisiva para a realização do trabalho do luto, e a impossibilidade dessa relação temporal é o que opera na melancolia e dificulta (quando não impede) o trabalho de sua superação. Ora, a sociedade do efêmero, do tempo reduzido ao instante presente fugaz abandonou a densidade e profundidade do tempo, desencadeando a impossibilidade de simbolizar a ausência e, portanto, gerando depressão, isto é, a melancolia.

A sociedade narcisista desvaloriza culturalmente o passado, não sendo surpreendente que este apareça sob a forma da "nostalgia", como se o passado fosse o mesmo que velhos estilos e velhas modas sempre repostos pelo mercado como um bem de consumo volátil. De fato, sem interesse pelo passado, o narcisista também não se interessa pelo futuro, achando difícil a interiorização de associações e de lembranças felizes com as quais poderia enfrentar a velhice que, no seu entender, sempre traz tristeza e dor. A incapacidade para atar os laços do passado e do futuro coloca a sociedade e os indivíduos na mesma condição de Narciso, incapaz de amadurecer. Também a ameaça de catástrofes (de guerras de extermínio geral, desastres ecológicos irreversíveis, surgimento de novos vírus etc.) tornou-se uma preocupação cotidiana. E, assim, justifica-se viver o momento, o viver para si, e não para as gerações futuras. Perdeu-se o sentido de continuidade histórica, na qual as gerações se sucediam do passado para o futuro. A sociedade sem futuro se dispõe a um narcisismo coletivo.

Se a grande questão do melancólico é não conseguir lidar com uma perda, a perda inconsciente de si mesmo, da auto-estima, e sendo a sociedade atual marcada pelo descartável, ou seja, por perdas, o sentimento de ruína do indivíduo é explicado pela sua impossibilidade de sentir-se valorizado, de sentir-se capaz de corresponder a seu eu ideal, uma vez que ele próprio é descartável nesta sociedade. Se tudo é descartável e efêmero, tudo se torna imediatamente ruína e a própria sociedade, imersa em ruínas, é melancólica.

Nessa cultura do individualismo competitivo, o indivíduo é levado pelo desejo desenfreado da felicidade, identificada ao sucesso, sendo este identificado à supremacia pela eliminação do outro (eliminação que, se não é física, é moral e profissional). O propósito do indivíduo, porém, não é castigar o outro com suas próprias incertezas, e sim encontrar um sentido para a vida; por isso ele é perseguido pela ansiedade, desconfiando da competição por tê-la inconscientemente associado a uma enorme necessidade de destruição. Dessa forma, o narcisista ferozmente competitivo em busca de sucesso, portanto, de reconhecimento e aprovação, paradoxalmente só pode intensificar o isolamento do eu.

O núcleo da sociedade narcisista é a necessidade do espelho, isto é, das imagens. O indivíduo da cultura do narcisismo é aquele que depende do espelho dos outros para validar sua precária ou inexistente auto-estima, traço que, como vimos, marca indelevelmente o melancólico. Ficando a sós consigo mesmo, cresce sua insegurança, pois ele precisa de platéia e admiração.

Se tomarmos a relação dos indivíduos com as imagens produzidas pelos instrumentos produtores de realidade virtual e pelos outros meios de comunicação de massa, veremos repetir-se exatamente o que se passa no mito de Narciso. A imagem midiática, espelho que reflete uma imagem que deve ser desejada ou desejável, é, por sua irrealidade, inteiramente inalcançável. Há um abismo entre o dever-ser da imagem e o ser do indivíduo que, identificando-se com a imagem, sente-se distante de si e experimenta uma perda contínua.

Isso é tanto mais relevante para compreendermos a extensão assumida pela melancolia (com o nome de depressão), quanto mais levarmos em conta que as mensagens midiáticas, visando à sedução, operam com simulacros, imagens do real intensificado, dotado de uma aparência mais real do que o próprio real, para torná-lo absolutamente desejável. Isso significa que a identificação por meio do espelho ou da imagem inalcançável e absoluta impossibilita uma identidade pessoal positiva ou afirmativa e instaura uma identidade negativa ou por falta. Eis a razão por que um dos traços mais marcantes da experiência contemporânea é o auto-exame corporal e psíquico incessante com a finalidade de detectar imperfeições, incorreções e faltas por comparação com a imagem hiper-real ou virtual. Não poderia ser mais óbvia a conseqüência: tem um nome preciso uma experiência contínua de falta e perda, de desconhecimento de si por identificação negativa com um outro que é o próprio eu. Chama-se melancolia.

Luciana Chauí Berlinck é psicanalista, autora do livro Melancolia: Rastros de dor e perda (no prelo).

Fonte: Revista Cult
(http://revistacult.uol.com.br/website/news.asp?edtCode=20E706E2-C7EC-40FD-A886-92E8D595EDB7&nwsCode=29EFC61B-9111-440E-9EA9-0CF38AB9BB10)

PERDER O PESO DA MENTE



Osho


"Quando você está identificado com uma determinada idéia, então você está doente. Toda identificação é uma doença mental. Na realidade a mente é a sua doença.

Colocar a mente de lado é simplesmente olhar silenciosamente para a realidade, sem nenhum pensamento, sem nenhum preconceito, é um modo saudável de ficar familiarizado com ela.

E você encontrará uma realidade totalmente diferente. A descoberta do real liberará você de muitas imbecilidades, de muitas superstições. Limpará seu coração de todos os tipos de lixo que as gerações tem jogado sobre você. As doenças se transmitem de uma geração para outra; você herda todo o passado com todas as suas idéias estúpidas. Se não fosse assim, não existiria distinção, não exisitiria comparação. E, uma vez que vc se liberta de fazer comparações e distinções, você se torna leve, toda a sua existência se torna leve. Você perde todo o peso. Você se torna leve ao ponto de poder abrir suas asas e voar!"



Extraído de: http://holosgaia.blogspot.com/2008/05/osho.html

sábado, 17 de maio de 2008

O "Círculo Max Weber de Heidelberg"...(4)

Max Weber

Parte IV: Misticismo ou Marxismo ? - O pensamento de Ernst Bloch



Outro notável representante da "esquerda de Heidelberg" é Ernst Bloch, cuja obra - intimamente ligada, por seu estilo e tema, à corrente expressionista - é o mais coerente exemplo de romantismo revolucionário e a mais irrefutável demonstração da possibilidade de um desenvolvimento para o comunismo marxista a partir da Weltanschauung anticapitalista romântica. Neste sentido, ele é a negação viva da tese unilateral e esquemática do "velho Lukacs" sobre os frutos inevitavelmente envenenados, i.e., reacionários, se não fascistas, desta árvore ideológica.
Este pensamento profundamente original encontra suas raízes na sociologia alemã da passagem do século.
Bloch ensaiou seus primeiros passos no seminário berlinense de Georg Simmel, de quem foi um dos alunos preferidos.

George Simmel



Mais tarde, vai desenvolver em suas obras a problemática simmeliana da tragedia da cultura, i.e., da oposição entre a alma e suas objetivações, notadamente em Geist der Utopie, onde, por exemplo, formulará esta sugestiva metáfora:

"Todas as alienações humanas (alles Menschlinch Entfremdete), em última análise, não têm valor, já que Deus...no julgamento final, apenas reconhece a ética como valor em ouro, enquanto o conjunto das exteriorizações formais...aparentemente objetivas em si mesmas...para ele não passam de Assignats."

Bloch deixará Berlim por volta de 1912 para ir a Heidelberg, onde será introduzido no "Círculo de Max Weber" por Lukacs.

Segundo Paul Honigsheim, a Weltanschauung de Bloch, neste momento, era "uma combinação de elementos católicos, gnósticos, apocalípticos e econômico-coletivistas." A mulher de Max Weber (que não gostava de Bloch) descreve-o como "um novo filósofo judeu, um jovem...que acreditava ser, com toda certeza, o precursor de um novo Messias" e cujo pensamento se caracterizava por "altas especulações apocalípticas". Com a Guerra Mundial, o pensamento de Bloch "politiza-se" e aproxima-se do marxismo, sem abandonar, no entanto, seu ar messiânico, o que resultará no célebre último capítulo de Geist de Utopie:"Karl Marx, der Tod und die Apokalypse", onde denuncia a guerra como um produto do capitalismo - "uma guerra de empresários em toda sua nudez" - e vê na revolução anticapitalista a única forma de "arrancar da boca do Golem do militarismo europeu seu papel da vida". Bloch vai saudar, portanto, com esperança e com um fervor quase religioso o início da Revolução russa (o livro foi terminado em maio de 1917, antes, portanto, da Revolução de Outubro), e particularmente "o Conselho dos Operários e dos Soldados" que quer destruir "a economia monetária e a moral de comerciantes, o ápice de tudo o que há de celerado no homem". Entretanto, sua visão dos acontecimentos na Rússia ainda está profundamente impregnada pelo universo espiritual religioso de Tolstoi e de Dostoievsky, que constitui para os intelectuais alemães anticapitalistas românticos da época, um dos principais pontos de referência ideológicos. É no quadro desta "russofilia" mística que se situa a estranha e espantosa passagem de Geist der Utopie, onde Bloch explica que as obras de Marx atravessam a fronteira alemã e se encontram na Rússia em mãos de "pretorianos que, agora, na Revolução russa, pela primeira vez, instauram o Cristo como Imperador".
Apesar do misticismo, a posição de Bloch quanto ao "Conselho dos Operários e dos Soldados" russo, situa-o decididamente no campo revolucionário proletário, e separa-o, portanto, de todas as correntes e pensadores reacionários e conservadores, saídos do neo-romantismo literário ou sociológico. Iring Fetscher ressalta, de maneira penetrante, a propósito de Gaist der Utopie: "Para Bloch, o artista não podia cegar perante a desnaturalização da arte e o declínio da força criadora, pela generalização do mercado, pela transformação de cada objeto em mercadoria. Reconhecendo, entretanto, que o lamento pela perda de qualidade e de pureza é impotente e reacionário se não se liga à vontade de transformação futura, Bloch une-se - em seu pensamento - ao movimento operário revolucionário, depositando nele sua esperança."

Ernst Bloch


Isso não impede que se encontre ainda em Bloch, em 1918, uma nostalgia do passado pré-capitalista, de certos valores sociais e religiosos da Idade Média que Bloch vai projetar no próprio centro de sua visão utópico-messiânica do futuro. Assim, por exemplo, nesta passagem de Geist der Utopie, onde escreve:
"Toda Utopia pode apresentar o quadro de uma hierarquia que já não é economicamente rentável, que em sua base reconhece apemas camponeses e artesãos, e que se distingue em direção ao alto, talvez pela honra e pela glória, por uma nobreza (Adel) sem servos e sem guerra, por homens novos, diferentemente cavaleirescos (ritterliche) e pios, pela autoridade de uma aristocracia espiritual".
Na entrevista que nos deu (*), Bloch explica o sentido desta postura (ao que parece, partilhada por Lukacs): trata-se de uma hierarquia invertida, inspirada pela doutrina católica, ou seja, uma hierarquia onde o ascetismo e as dificuldades (e não os privilégios) e as provas, aumentam em direção ao alto da escala. De qualquer forma, na segunda edição de Geist der Utopie (1923) esta problemática "medieval" desaparece e a passagem supracitada é substituída pelo seguinte texto:
"Toda longínqua Utopia apresenta o quadro de uma estrutura (Bau) que já não é mais economicamente rentável: cada um produz segundo sua capacidades e concome segundo suas necessidades".
Inútil ressaltar que a diferença entre estas duas formulações é aquela entre o neo-romantismo e o marxismo: a reformulação da obra atesta a evolução ideológica de Bloch de 1918 a 1923.


No entanto, embora se aproprie cada vez mais do pensamento de Marx, a filosofia de Bloch guardará sempre uma dimensão romântica (revolucionária). É esta a razão de sua profunda identidade com Lukacs até 1918 e de sua progressiva separação depois desta data. Da entrevista que nos deu (*), depreende-se claramente que Bloch considerava as novas posições de Lukacs, depois da guerra, como uma espécie de traição das suas idéias comuns, na juventude. A célebre polêmica entre os dois amigos-rivais, sobre o experessionismo nos anos 30, não é mais que o resultado desta divergência fundamental entre um marxismo de cores neo-românticas e um marxismo rigorosamente "neoclássico". Ainda mais significativa é a diferença de suas análises e atitudes políticas em face do fascismo na Alemanha: Lukacs denuncia com veemência o pensamento romântico da passagem do século como raiz ideológica do fascismo e procura a salvação numa aliança político-cultural com a burguesia esclarecida e democrática (encarnada, a seus olhos, por Thomas Mann).

Thomas Mann, em 1937


Bloch, ao contrário, vai analisar em Erbschaft dieser Zeit (A Herança de Nossa Época, 1933) o mundo cultural contraditório e despedaçado da pequena burguesia alemã, tentando separar a esperança e a revolta autênticas de seu contexto reacionário. O irracionalismo e o antimecanicismo desta classe, não são julgados por ele como simples "destruição da razão", mas como uma reação irrefletida contra os sofrimentos inflingidos à pequena burguesia pelo desenvolvimento industrial e a racionalidade capitalista. Para Bloch, a conclusão é que a conquista política das camadas médias pauperizadas e a ativação de suas contradições com o capitalismo são tarefas tão importantes para a Alemanha quanto a conquista do campesinato o foi para a Revolução russa.
Um aspecto particular do neo-romantismo que permanecerá como um dos traços mais característicos da postura de Bloch, é a dimensão religioso-atéia, "eclesiástica", messiânico-revolucionária.
Em Thomas Münzer, Theologien de la Revolution (1921) - obra que o próprio Bloch classifica de "romântico-revolucionária" - ele se refere a uma imemorial tradição subterrânea de misticismo e de heresia:
"Eis que os Imãos do vale, os Cátaros, os Valdenses, os Albigenses, o abade Joaquin de Calabre, os Irmãos da Boa Vontade, do Livre Espírito, Eckhart, os Hussitas, Münzer e os Batistas, Sebastian Franck, os Iluministas, Rousseau e a mística racionalista de Kant, Weitling, Baader, Tolstoi, eis que todos unem suas forças, e a consciência moral desta imensa tradição bate novamente à porta para acabar...com o Estado, com todo o poder desumano."
Mas além das heresias, Bloch também se interessa pelo catolicismo e pela Igreja. Em Geist der Utopie (edição de 1918), desenvolve uma visão do futuro espantosa:
"o socialismo, liberando o homem dos problemas materiais, apenas consegue tornar mais intensa a problemática socialmente insolúvel (Sozial Unaufhebbare) da Alma, que deve estar relacionada com 'os grandes meios de graça sobre-humanos e supraterrestres da Igreja, da Igreja necessariamente e a priori instituída depois do socialismo'".
Este tema reaparece na edição de 1923, que proclama:
"Uma Igraja transformada é o suporte de fins a longo prazo...é o espaço imaginável de uma tradição e de uma ligação com o Fim, sompre renovados; e nenhuma ordem, seja qual for sua finalização, pode prescindir desta última articulação na série de relações entre o Nós e o problema final do Por Quê (Wozu-problem)."
Até a obra sobre Münzer, que critica severamente os compromissos da Igreja com o mundo, contém essa nostalgia de uma Igreja "autêntica":
"Assim, para além da Igreja efetiva, como se impedir de evocar em espírito uma outra Igreja, muito mais profunda, aquela que sonharam, em seu próprio seio, tantos hereges - uma Igreja que conserve alguma coisa de sua primeira exigência, e que conheça uma verdadeira tensão com a própria existência ?"
Portanto, Bloch chega a conciliar, ou melhor, a fundir, numa combinação alquimística misteriosa e sibilina, Karl Marx e o Apocalipse, Mestre Eckhart e a Revolução de Outubro, o socialismo científico e a Igreja Cristã.
A ousada associação entre estes elementos aparentemente contraditórios, faz pensar irresestivelmente em certo jesuíta comunista, fervoroso partidário da revolução proletária e a Igreja católica, e em quem se vê, por vezes, uma alegoria de Lukács, por outras, uma imagem de Bloch, ou ainda uma síntese sui generis dos dois: "Leon Naphta", a singular criação literária de Thomas Mann em A Montanha Mágica.


(Fonte: Michael Löwy - "Para Uma Sociologia dos Intelectuais Revolucionários" - pags. 46 e segs.)




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(*) Nota do Blog: Trata-se de uma entrevista concedida por Ernst Bloch a Michael Löwy em 24/03/74, que, segundo Löwy, teve por objetivo esclarecer alguns aspectos das relações entre Bloch e Lukacs, sobretudo no período de 1910 a 1918, no quadro da problemática geral de formação da corrente anticapitalista entre os intelectuais alemães na passagem do século. É minha intenção postar futuramente essa entrevista - ou parte dela - no Blog.


segunda-feira, 5 de maio de 2008

Um novo modelo do Universo




Abaixo, trecho do livro "um novo modelo do universo", do Ouspensky. O livro inteiro é bom, o cara era genial. O texto abaixo foi escrito por volta de 1920.

"A filosofia se baseia na especulação, na lógica, no pensamento, na síntese do que sabemos e na análise do que não sabemos. Pode incluir dentro dos seus limites o conteúdo da ciência, da religião e da arte. Mas onde podemos encontrar essa filosofia? Tudo o que conhecemos nos nossos dias com o nome de filosofia não é filosofia, mas simplesmente "literatura crítica" ou a expressão de opinião pessoais, principalmente com a finalidade de vencer e destruir outras opiniões pessoais.


Ora, o que é ainda pior, a filosofia não passa de uma dialética que se satisfaz a si mesma cercando-se de uma barreira impenetrável de terminologia ininteligível ao não-iniciado e resolvendo para si mesma todos os problemas do Universo, sem qualquer possibilidade de provar essas explicações ou de torná-las inteligíveis ao comum dos mortais(...). A pseudo-religião, a pseudo-filosofia, a pseudo-ciência e a pseudo-arte são praticamente tudo o que conhecemos. Somos alimentados por substitutos, em todos os aspectos e formas. Muito poucos de nós conhece o sabor das coisas genuínas."
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Os comentários postados foram passados aqui. Isso porque temos a sensação que às vezes eles ficam muito escondidos numa página esquecida dentro do blog. Coo o objetivo desse blog e conversar (por isso mesmo é coletivo), a conversa também tem, muitas vezes, um estatuto tão ou mais importante que a postagem que a gerou. Bem, aí vai.
lupus. disse...
Olá vkitsis,eu não te conheço,mas gostaria de iniciar algum tipo de debate aqui.Discordo total e completamente deste post seu.Vou tentar me explicar.Vejamos: ”Tudo o que conhecemos nos nossos dias com o nome de filosofia não é filosofia, mas simplesmente "literatura crítica" ou a expressão de opinião pessoais, principalmente com a finalidade de vencer e destruir outras opiniões pessoais.”.A filosofia!,como um mero instrumento numa guerra de egos?Ela não se resume a isso.Este senhor está enganado.A filosofia não é.E explodiu na mesma bolha cultural que a ciência,não se sabe bem quando.Ou ela é conhecimento proprietário dos poderes ideológicos(Universidade,Estado,Empresas capitalistas de comunicação e etc)?.Não: filosofia é poesia,e poesia é Arte: são todos sinônimos.O Império imaginário ruiu,ou está ruindo.“Ora, o que é ainda pior, a filosofia não passa de uma dialética que se satisfaz a si mesma cercando-se de uma barreira impenetrável de terminologia ininteligível ao não-iniciado e resolvendo para si mesma todos os problemas do Universo, sem qualquer possibilidade de provar essas explicações ou de torná-las inteligíveis ao comum dos mortais(...).”À que barreira “impenetrável” de terminologia “ininteligível” você está se referindo?Se há “não-iniciados”,há iniciados,segundo a sua conclusão,certo?Me fale um pouco sobre eles e sua iniciação,por favor.Será que você também não estará se referindo à meras microrelações de poder dentro de algum círculo social acadêmico de qualquer espécie?Que “comum dos mortais” é esse?E porque ele não poderia ser um iniciado?Some kind of faith here: a filosofia não é uma máquina moderna de produção de Verdade.”Nada é verdadeiro:tudo é permitido”,como disseram os muros,na revolução que completa agora seus quarenta anos.Eu penso que a filosofia não seja e nem possa ser uma ciência.Ela e a Arte estão entre as poucas linhagens de conhecimento ancião que talvez ainda não tenham sido completamente infectadas pelo autoritarismo epistemológico(dentre outras coisa,distinção informação-discurso,objetividade-subjetividade,ciência-religião,prosa-poesia).Abraço.PS : Se eu não tiver sido inteligível em alguma das minhas afirmações,meu email é lupus@riseup.net
17 de Maio de 2008 17:53
dummy disse...
Lupus,Primeiro gostaria de chamar para um pequeno detalhe: as palavras não são de vkitsis, ela apenas as trasncreveu. O porque dela ter postado, ela mesmo pode responder.Entretanto gostaria de argumentar porque EU acho que essa postagem, essa citação do FILOSOFO russo Ouspenski, é pertinente e mereceu ser postada aqui.Para começar, acho que você tem razão, filosofia é poesia, já diziam os bons e velhos românticos (você pode até procurar algumas postagens aqui para ler maravilhas de Novalis a esse respeito.Mas voltando ao argumento de Ouspenski. Ele se refere a filosofia burocrática, aquela que é feita pela maioria das instituições. Se refletirmos um pouco veremos que tais instituições transformaram-se em verdaeiras "ilhas" de iniciados, "oásis" da fina "intelectualidade", que não se mistura com a mera "mundaniedade" de nós, iletrados, não versados nas profundezas dos mais nobres pensamentos da filofia clássica! Façamos um teste para ver se Ouspenski tem razão. Segue um pequeno excerto de um filoso que admiro bastante:"Ora, há um paradoxo de base em toda posição ontológica na filosofia atual, pois o meio com que se procura alcançar o ser transubjetivo não é outro que a mesma razão subjetiva, que anteriormente garantiu a estrutura do idealismo crítico."Você concorda?
17 de Maio de 2008 20:21

jholland disse...
Olá lupus, vou dar meu "pitaco', minha interpretação sobre essas questões q vc levantou.Creio que o autor está se referindo a uma filosofia que tem bases "intelectuais". Creio mesmo que ele está propondo uma superação dos "jogos de linguagem" dos quais a filosofia ocidental - todos nós, por consequência - se tornou prisioneira e que impede um conhecimento muito mais "direto" da realidade, a começar por nós mesmos, nossa própria mente. (Não nos esqueçamos que Ouspenski tem os 2 pés fincados nas tradições místicas do Oriente...)A fusão arte-cortidiano-filosofia a que vc se referiu somente pode ser alcançada por meio da superação completa das cisões internas que impõem à nossa mente um labirinto de mediações conceituais. São contra essas mediações que Gurdjieff e Ouspenski se propõem a construir um "método" não apenas de "pensar", mas de "existir". Há muitas afinidades aqui com as tradição Sufi, Hinduísta e Budistas, caso vc se interesse sobre esse tema, será um enorme prazer continuar esse debate, aqui mesmo no Blog.Abraços e continue participando !jholland
17 de Maio de 2008 20:26
lupus. disse...
Opa,uma conversa xDAntes de tudo,eu percebi agora que tinha me confundido ao ler o post: as aspas não acabam no segundo parágrafo,como eu tinha computado quando li e escrevi o comentário anterior.Elas vão até o final do post.Perdão :)Vou repensar o texto de novo,com o equívoco corrigido:A crítica de Ouspensky é valiosa ao se referir indiretamente à todas as institucionalizações do conhecimento,mas talvez não contenha Insurreição nenhuma.Para ilustrar essa minha posição,vou começar e terminar com citações dos ácidos discordianos.“Os Antigos Gregos não eram influenciados pelos Antigos Gregos”.A civilização-em-processo-de-unificação(Império,Babilônia ou o que quiserem) que é nosso palco cultural hoje é mais apegada ao passado do que deveria ser.Falta na história,na minha opinião,um senso de temporalização das idéias:a antiga grécia foi fruto dos antigos gregos,mas quem havia antes deles?Pra Filosofia,pra Ciência(em alguma medida,temos que admitir) e pras religiões,não havia nada antes deles.Escolas,Igrejas,Universidades.”Our civilization is a bad trip”Dummy,Eu me expressei mal no post.Não conheço nada de Ouspenski.Esse excerto,ao que parece,é do Adorno.Eu sei pouco de Adorno,e sei pouco também sobre o uso dado à palavra ontologia (conhecimento do ser) nos círculos acadêmicos à que essa logos todas pertencem.Qual o sentido que o autor está dando à ela?O Hakim Bey,por exemplo,é herdeiro da tradição situacionista e ao mesmo tempo escreve Caos,que é uma obra de pura ontologia,admitidamente.Mas também,filosofar por filosofar,eu gosto de ter um objetivo,ou pelo menos um horizonte.Sair da escravidão física.Jholland,Eu me interesso bastante pelo sufismo,hinduísmo e budismo vistos pela lente libertária.Só não conheço nada sobre o assunto.Alguma luz aí seria bem-recebida.Mas do ponto de vista arte-vida,eu vejo uma perspectiva totalmente real.Não quero uma civilização artística.Seria interessante,mas isto não é um desejo meu: é somente uma vontade.Viver arte-vida-filosofia é viver de 2 coisas : de criação e de crítica.É o que eu penso hoje em dia,pelo menos.Que piensas?Abraço ;)
17 de Maio de 2008 22:03
jholland disse...
Penso que corremos o risco a que se referiu Ouspensky, ou seja, cairmos em "jogos de linguagem" - aos quais ele (e não apenas ele, obviamente...), acertadamente, viu que estamos quase todos amarrados.Vc disse que a observação de Ouspensky "talvez não contenha Insurreição nenhuma...". Discordo, embora as razões de minha discordância estejam ancoradas em outros textos daquele autor, talvez necessários, reconheço, para a compreensão do alcance da postagem. É que a crítica de Ouspensky à "Filosofia" não é de natureza filosófica, no sentido tradicional, nem pode ser compreendida apenas como crítica à burocratização, ao anestesiamento e à esterilização dessa filosofia, APENAS. Trata-se de uma crítica muito mais radical. Tão radical quanto se possa imaginar. Trata-se da dissolução do pensar enquanto instância privilegiada do existir. Trata-se, sobretudo, de uma proposta que vise à eliminação dos condicionamentos desse existir, pois passamos 99,99 % de nossas vidas estabelecendo triagens sobre "o que me agrada" x "o que não me agrada". É sobre esse tipo de condicionamento íntimo - fonte de todo aprisionamento - que o autor está tratando.E aqui voltamos à questão da fusão arte-vida, pois como é possível obter essa fusão aqui, neste momento, senão a partir do rompoimento de todas as barreiras íntimas mais sutis que nos prendem ao cotidiano alienado ?

terça-feira, 29 de abril de 2008

O "Círculo Max Weber de Heidelberg"...(3)

Parte III: O "Círculo" e o Expressionismo alemão
Max Weber



Também na Alemanha, o fascismo (ou a reação) não é necessariamente o desaguadouro do anticapitalismo romântico dos intelectuais, escritores e universitários. Se tomarmos como ponto de referência o círculo de Max Weber de Heidelberg, que foi um dos principais focos de irradiação desta corrente, encontramos uma “ala esquerda”, que se tornará marxista, revolucionária, e bolchevique no pós-guerra. Esta “esquerda de Heidelberg” dará ao movimento comunista um grande filósofo marxista, utópico-messiânico – Ernst Bloch – um poeta, dramaturgo e comandante do Exército Vermelho da República dos Conselhos da Baviera (1919) – Ernst Toller – e, finalmente, o maior filósofo marxista do século XX e comissário do povo na República húngara dos Conselhos (1919) – Gyorgy Lukacs...

Toller representa o desenvolvimento expressionista revolucionário do romantismo anticapitalista. Sua primeira educação política tem lugar em 1916-1917, junto a Max Weber em Heidelberg, mestre do qual ele presta homenagem em seu romance autobiográfico, Uma Juventude na Alemanha (1933):

“A juventude une-se a Max Weber; sua personalidade, sua probidade intelectual atraem-na para ele...Nas conversas noturnas revela-se a natureza combativa deste erudito. Com palavras, que colocam em perigo sua liberdade, sua própria vida até, ele revela as misérias do Reich. Ele vê no Imperador o mal principal...”.

Max Weber com Ernst Toller ao lado




Em seguida, sofre a influência utópica do grande pensador anarco-sindicalista Gustav Landauer (descrito por seu amigo Martin Buber como “conservador revolucionário”) que queria substituir a cidade capitalista por uma Gemeinschaft rural, uma aldeia socialista simultaneamente agrícola e industrial, da qual o ponto de partida deveriam ser as tradições camponesas comunitárias conservadas, renovadas e desenvolvidas. Em 1917, Toller corresponde-se com Landauer, cujo Apelo ao Socialismo (1915) “tocou-o e determinou-o de forma decisiva”. De início simplesmente pacifista, enojado com a guerra (que viveu pessoalmente como convocado) o jovem poeta vai evoluir rapidamente para uma posição anticapitalista:

“Os politiqueiros enganam-se a si mesmos e enganam os cidadãos, chamam de ‘ideais” a seus interesses e, por estes ‘ideais’, pelo ouro, pela terra, pelas minas, pelo petróleo, por todas estas coisas mortas, os homens estão famintos, desesperados e são mortos por toda a parte. A questão de saber de quem é a culpa da guerra empalidece ao lado da culpa do capitalismo.”

Ernst Toller



Vai então se revoltar, em nome de seu pacifismo ardente, contra a economia e o estado capitalistas, esses Golems, esses falsos ídolos que reclamam sacrifícios ilimitados da visdas humanas.

Preso durante uma manifestação operária contra a Guerra, em Munique, Toller escreve da prisão, em 1917-1918, um drama romântico-expressionista que o tornará célebre, A Mutação (Die Wandlung), no qual se encontram grandiosas visões idealistas e messiânicas:

“Agora abrem-se saídas do seio do universo
As altas portas arqueadas da catedral da humanidade
A juventude ardente de todos os povos se lança
À caixa luminosa de cristal, que percebe na noite.”

Tendo aderido ao USPD – Partido Social Democrata Independente – cisão de esquerda da SPD em 1917) e estabelecido ligações da amizade com seu dirigente Kurt Eisner (socialista neo-kantiano e presidente do Governo de esquerda da Baviera), Toller tornar-se-á – após o assassinato de Eisner por um aristocrata reacionário – um dos chefes da efêmera República dos Conselhos da Baviera.

Ernst Toller



As participações de Toller, do poeta expressionista Erich Müsahm e de Gustav Landauer na Comuna de Munique de abril de 1919, mostram bem quanto, malgrado sua confusão e limitação ideológicas, essas correntes expressionistas e neo-românticas podem ganhar uma dimensão revolucionária autêntica.
Lukács, em seu célebre ensaio sobre A Grandeza e a Decadência do Expressionismo (1934), sublinha o parentesco dessa corrente artística com o anticapitalismo romântico, e particularmente com a crítica cultural do capitalismo, tal como ela se encontra, por exemplo, em A Filosofia do Dinheiro de Simmel. Além disso, Lukács tente destacar as ligações entre expressionismo e a ideologia do USPD, citando como exemplo típico de sua unidade precisamente o caso de Toller em Munique. Entretanto, de maneira estranha e unilateral, não vê nesses dois movimentos (político e artístico) senão “a hesitação da pequena burguesia em face da revolução proletária eminente...o medo em face do “caos” da revolução”. E conclui com esta observação feroz, na qual se sente um ranço do sectarismo do “Terceiro Período”do Komitern: “As duras lutas dos primeiros anos da revolução e seus primeiros fracassos na Alemanha destroem de maneira cada vez mais clara as pseudo diferenças entre a retórica revolucionária e os gemidos dos que capitularam. E acontece então o fim – simultaneamente à dissolução do USPD numa coincidência temporal que não é devida ao acaso – do expressionismo como corrente literária na Alemanha.”



Ora, Lukacs silencia sobre o fato de que o desaparecimento do USPD teve lugar no Congresso de Halle, quando a maioria dos delegados decide a fusão com o PC alemão, partido ao qual adere também (como muitos escritores expressionistas) Ernst Toller, após haver passado muitos anos na prisão por suas funções como cabeça da República dos Conselhos e do Exército Vermelho da Baviera...







O esquematismo de Lukacs torna-se ainda mais surpreendente quando ele pretende que “o expressionismo é, sem dúvida, uma das múltiplas correntes ideológicas burguesas que desemboca mais tarde no fascismo; seu papel ideológico de preparação não é maior – nem menor – que o de diversas outras correntes contemporâneas.”






Três anos depois da publicação do ensaio de Lukács, os nazistas organizaram a tristemente célebre exposição Art Degenere (Arte Degenerada), na qual figuravam praticamente todos os pintores expressionistas conhecidos. Em uma nota acrescentada a seu artigo em 1953, Lukacs proclama imperturbavelmente: “O fato dos nacional-socialistas terem rejeitado mais tarde o expressionismo como ‘arte degenerada’ não muda em nada a exatidão histórica da análise naqui exposta”. O mínimo que se pode dizer (sem querer negar a ambigüidade ideológica da corrente) é que uma análise histórica que ignora a dimensão revolucionária do expressionismo e o reduz a um precursos da ideologia nazista está muito longe de ser “exata”...



Extraído de:
Michael Löwy, "Para Uma Sociologia dos Intelectuais Revolucionários", Ed.LECH - 1979 - pags. 42-46.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Sobre sonhos...(6)


Em outra postagem sobre este assunto (vide Blog Metamorficus - "Sobre sonhos...(7)"), havia proposto que um firme propósito - mantido conscientemente durante o estado hipnagógico - poderia ser a chava para a entrada no estado onírico já lúcido.
Embora não tenha tido (ainda) progressos substanciais por essa técnica, noticio aqui um "insight" que pareceu digno de nota.
Ao adentrar no processo de relaxamento que acabará redundando no sonho, percebi que o processo pode ser dividido em fases distintas:
1) Primeira fase: ao deitarmos e começarmos a relaxar, comumente entramos em um processo de recordação de eventos ou de pensamentos acerca de problemas, pessoas ou desejos. O que importa aqui é que, ordinariamente, essa primeira fase é acentuadamente verbal. Podemos traduzir isso pela expressão "diálogo interno". Trata-se, repito, de um conjunto de frases, argumentos, afirmações, indagações etc. tal como se um diálogo verbal realmente estivesse se sucedendo. Note-se que, ainda que imagens e outras sensações se sucedam, nessa fase inicial parece que esse "diálogo" serve como condutor para as associações (que se tornarão cada vez mais livres).
2) Segunda fase: conforme as associações de idéias vão se tornando mais livres, aquilo que estava sendo verbalizado começa a se tornar mais "sólido", mais real e independente, começando a se converter em imagens (ainda abstratas) e sensações. Aqui, é importante frisar, começamos a perder nossos referenciais da realidade externa, especialmente do corpo.
3) Terceira fase: quando as associações se emancipam completamente da "razão" e dos referencias externos (do corpo etc), as associações se convertem em imagens completas e sólidas. Aqui, parece que há um "salto", pois se até então as associações pareciam "nos pertencer" - embora de modo difuso e cada vez mais livre e dissociado dos referenciais - agora há uma criação de cenários completos, dotados de grande realismo: somos transportados para um outro mundo "independente" (lembro que aqui o "Ego onírico" ainda não está formado).
O que importa dizer neste momento é que, entre a segunda fase e a terceira, parece haver um "gap" , um hiato ou, melhor ainda, um "salto" qualitativo de grande importância.
Pois, havendo uma perda efetiva de todos os referenciais que nos permitem ancorar nossa identidade, tudo se passa como se ficássemos, por apenas um brevíssimo instante, no NADA, um Não-Eu, tal como um "piscar de olhos" em que tudo desaparece, uma espécie de "morte" em vida.
Penso que esse momento é de grande importância, não apenas porque ele prepara o sonho em si, mas sobretudo porque, talvez, seja esse o momento em que podemos experimentar algumas daquelas experiências descritas por yogues e sábios budistas. Há uma expansão da lucidez, posto que a "conciência" não mais se identifica com nada, não há amarras, nem apegos.
Creio que esse momento possa talvez ser aquilo que se descreve como a consciência "entre pensamentos" ou mesmo o espaço "entre sonhos", descritos em alguns textos tibetanos.
A meditação realizada antes de dormir pode ser um excelente meio de atingirmos uma calma mental e uma lucidez que facilite a dilatação desse instante e, o que proponho, é que talvez possamos ficar parados nesse estágio de liminaridade, "suspendendo" o Eu antes que o sonho se forme.
Por fim, gostaria de observar que, cada vez mais, penso que os estágios de sono e sonho são semelhantes às descrições relacionadas ao Bardo da Morte. Neste, como se sabe, é dito que a audição é o último sentido que desaparece. Ora, sou tentado a reconhecer alguma semelhança com o que disse acima, acerca do "diálogo interno" que ocorre e parece se impor com grande influência sobre o sonho - ou seja, aquilo que subsiste antes de perdermos nossos referenciais e que exerce uma importante influência sobre a "nova realidade".
De fato, parece que esse diálogo interno diz respeito às imposições que os pensamentos exercem sobre a consciência, sendo essa a razão pela qual esses pensamentos verbalizados acabam dando origem às idéias e imagens que nos parecem mais reais do que nós mesmos durante os sonhos. Ou seja, enquanto os pensamentos nos parecerem dotados de "realidade externa", escravizando-nos, torna-se muito difícil exercermos a lucidez onírica. Há aqui uma correspondência entre pensamentos "externos" a nós e imagens "externas" a nós.
E, por outro lado, a situação de liminaridade descrita acima - o "Nada" em que nos encontramos antes da formação dos sonhos - pode ter alguma relação com o momento em que podemos atingir a iluminação após a morte: segundo os textos tibetanos, o ser que acaba de morrer, ao perder seus referenciais, tem, por um breve instante, contato com a liberação total. Porém, caso não reconheça esse momento, acabará por cair no processo que levará ao renascimento (e, no caso do sono, aos sonhos).
Vê-se assim que o Bardo dos Sonhos pode ser um importante instrumento para o reconhecimento das situações geradas no Bardo da Morte.