O termo hermetismo é empregado para descrever a literatura hermética, atribuída ao deus grego Hermes. Essa literatura se caracteriza pela busca de conhecimentos secretos (gnósticos). Hermes é o deus da comunicação, o mensageiro, aquele que viabiliza as trocas de informações, como o Exú do candomblé afro-brasileiro. O ciberespaço é, como o espaço sagrado de movimentação de conhecimentos e de informações, um espaço de encruzilhadas. Ele é uma casa para as "comunidades de almas" (13). Assim sendo, nós podemos traçar paralelos entre o ciberespaço e a arte hermética da memória, a criptografia demoníaca e a cosmologia gnóstica (14).
O hermetismo é, desde o começo, uma técnica mágica de armazenamento e de tratamento de informações. O pensamento mágico é imerso num mundo de informações das mais diversas (nomes rituais, códigos secretos, correspondências astrológicas, signos, imagens) onde o sucesso da busca se realiza na manipulação dessas informações. O conhecimento hermético visa organizar este vasto saber através de uma arte da memória (Frances Yates) que consiste na criação de espaços imaginários, como uma vasta edificação. Essa arte da memória, ou mnemônica, se aproxima da idéia do poeta grego Simonide de Céos (556-469 aC) que pensava a memória como uma casa onde depositaríamos "souvenirs" em cada peça da casa. A recuperação dessas informações se dava por um percurso imaginário na casa imaginária. Podemos pensar a memória como uma arte de percorrer um "espaço imaginário".
A manipulação mágica das informações no hermetismo e no gnosticismo encontra um paralelo com as manipulações de dados nas redes de computadores e nos sistemas de realidade virtual, pois como um espaço hermético, o ciberespaço é um espaço da memória, um espaço imaginário povoado de imagens, de encruzilhadas, um "inner space" (Santo Agostinho)..
A arte medieval da memória, baseada na alegoria, que o poeta catalão Lull chamava de "Arbor Scientae", se estrutura enquanto un conjunto de conhecimentos agrupados em florestas de árvores, sendo a imagem das árvores uma metáfora para o crescimento da natureza e do saber. Da mesma forma, a metáfora da teia (o WEB) que liga todas as informações disponíveis no planeta, serve hoje como imagem para o ciberespaço. As interfaces gráficas são também metáforas e alegorias para a busca de informações. Manipular os ícones revela a essência da manipulação mágica. Dessa forma, a manipulação mágica do mundo, como a manipulação de dados no ciberespaço, se situam na mesma dinâmica.
As imagens, os totens e os ícones, mais que simples representações, são simulações do mundo: eles funcionam "como se". Da mesma forma que no "voudou" a manipulação da boneca é a manipulação do alvo, na metáfora do "desktop", os ícones simulam objetos reais (como arquivos, pastas, lixeiras, etc.), permitindo a manipulação virtual desses objetos. Assim como as alegorias medievais, as redes de computadores "fusionam as imagens com abstrações, elas tendem para uma complexidade barroca, contendo operações mágicas e hiperdimensionais, e freqüentemente representam espacialmente suas abstrações" (15).
A batalha atual dos "cypherpunks" (16) pela adoção de sistemas públicos de criptografia de mensagens encontra também um eco na mística da cabala e das criptografias antigas. A criptografia de mensagens era vinculada à valorização do poder não como simplesmente saber ou conhecimento, mas como código secreto, como conhecimento hermético, acessível somente aos iniciados. A quebra dos códigos secretos é a fonte do poder máximo pois o hermetismo é fundado nas técnicas de numerologia a partir das quais nós podemos desvendar mensagens esotéricas. O desenvolvimento da criptografia de massa pelos cypherpunks (assim como o de agentes) faz com que o ciberespaço seja um espaço mágico de circulação de códigos secretos e de anjos ou demônios, que aí circulam em busca de informações. Logo, não é ao acaso que McLuhan dizia que com o advento da eletricidade nós entramos num "tempo de iluminação" (17).
A representação de um espaço mágico, pleno de conexões e de estruturas multi-dimensionais é a forma de estruturação do ciberespaço. Como dizia Aggripa no seu "De Occulta Philosophia", existem três tipos de magia: uma magia natural (manipuladora das forcas da natureza), uma magia matemática (influenciada pela filosofia mística de Pitágoras) e uma magia teológica (relativa à comunicação angélica). Essa comunicação angélica se atualiza hoje com a disseminação de agentes electronicos. Ora, os agentes, programas inteligentes que circulam pelo cyberespaco em busca de informações personalizadas, são assim como demônios bem próximos da "magia teológica" de Aggripa. A gnose (do grego conhecimento, ligado ao conhecimento de Deus) é, mais do que uma transcendência mística, uma busca afinada de informações que, colocadas juntas, trazem à tona conhecimentos revelados a poucos. A gnose é assim uma técnica mágica, uma "technè" (18), como manipulação prática de informações (nomes secretos, códigos, etc.). Podemos assim, ver a gnose e o hermetismo como antecipadores do ciberespaço e da cybercultura.
A gnose é atualizada hoje pela nova forma de esoterismo que emerge com a cybercultura na forma do "tecno-paganismo" típico dos "ravers" e "zippies" (19). Esses são personagens da cybercultura que misturam esoterismo e novas tecnologias, principalmente aquelas que dão acesso ao ciberespaço. Os tecnopagãos visam assim restabelecer a tecnologia como parte da cultura, ao mesmo tempo em que refutam as dicotomias entre o sagrado e o profano. Assim, a partir das novas tecnologias, são visados os rituais (festas, sexo e drogas), a busca do espírito e da transcendência da matéria. Para os tecnopagãos, as novas tecnologias do ciberespaço devem ser vistas como parceiras dionisíacas da gnose.
O ciberespaço é para os tecnopagãos, um espaço mágico por excelência, um espaço imaginário. Eles se interessam pela ficção cientifica, pela realidade virtual e, obviamente, pelos MUDs, espaço imaginário por excelência. Como define um "tecnopagão" "viver on-line faz parte da minha pratica diária (...) é um tipo de experiência eremita, como entrar numa caverna" (20). Os tecnopagãos criam dessa forma uma rede eclética que mistura espiritualidade, teosofia, hermetismo e medicina natural. Eles são herdeiros diretos dos hippies e da onda nova era. Eles incorporam esses valores à cybercultura. Entretanto, eles atualizam o movimento hippie de uma nova maneira. Eles aceitam a tecnologia, perspectiva essa oposta aos hippies (retorno à natureza, refutação do artificial, etc.), não de uma forma simplesmente conformista, mas de uma forma apropriativa. Eles implantam assim um "cyberpsicodelismo", valorizando a utilização comunitária e espiritual das novas técnicas já que essas são as ferramentas mais importantes para atingir os objetivos da Era de Aquário.
O ciberespaço, como espaço mágico por excelência, é visto como potencializador das dimensões lúdicas, eróticas, hedonistas e espirituais. Nós podemos dizer que com o advento da cybercultura, estamos diante de uma verdadeira "info-gnose", um rito de passagem em direção à desmaterialização pós-industrial.
Ritos de passagem para a Pós-modernidade
Nós vimos como o ciberespaço se comporta como um espaço mágico. Vimos que, se durante a modernidade o espaço e o tempo eram entidades concretas, transformadas pela industrialização, hoje, com o processo de desmaterialização engendrado pelas economias avançadas, o espaço é aniquilado pelo tempo real. Assim, o ciberespaço pode ser visto também como uma fronteira, um espaço intermediário na passagem do industrialismo para o pós-industrialismo. Ele é também como o espelho de Alice, uma passagem do indivíduo austero para o indivíduo "re-ligado" (do individualismo ao tribalismo), participante do fluxo de informações do mundo contemporâneo. Ele é ainda um rito de passagem obrigatório para os novos cidadãos da cybercultura (21).
Os ritos de passagem são rituais que marcam, na vida de um indivíduo ou grupo, a passagem para um outro estado, seja ele biológico ou social. Esses ritos fazem parte de um processo de iniciação (nascimento, casamento, morte, mudança de estação, etc.) criados com o objetivo de preservar uma certa continuidade espaço-temporal e simbólica. Como um "lugar" de passagem, os ritos se caracterizam por um espaço simbólico intermediário, através do qual um indivíduo ou grupo se integra à globalidade da vida social. O ciberespaço deve ser compreendido como um rito de passagem da era industrial à pós-industrial, da modernidade dos átomos, à pós-modernidade dos bits, como diria Negroponte (22), já que existem várias similaridades entre as estruturas dos ritos de passagem e os mecanismos simbólicos do ciberespaço.
O ato de se conectar ao ciberespaço sugere versões dos ritos de agregação e de separação, onde a tela do monitor possibilita a passagem à um outro mundo. A tela é a fronteira entre o individual e o coletivo; entre o orgânico e o artificial; entre o corpo e o espírito. O ciberespaço é onde se realizam ritos de passagem do espaço físico e analógico ao espaço digital sem fronteiras, do corpo átomo ao corpo bit. Se conectar ao ciberespaço significa ainda, a passagem da modernidade (onde o espaço é esculpido pelo tempo) à pós-modernidade (onde o tempo aniquila o espaço); de um social marcado pelo indivíduo autônomo e isolado ao coletivo tribal e digital. Será pelo ciberespaço que irá passar toda a "socialidade" (23) contemporânea. Como afirma Benedikt, « a post-industrial work environment predicated on a new hardwired communications interface that provides a direct and total sensorial access to a parallel world of potential work space » (24).
Como rito de passagem, hermetismo e gnosticismo o ciberespaço impõe uma interface entre o profano e o sagrado; uma fronteira entre a existência banal do dia a dia, e o espaço eletrônico de circulação do saber. Mais uma vez retornamos à gnose e ao hermetismo. O ciberespaço é uma interface entre a estrutura de máquinas de comunicação e a massa de informações numéricas despejadas na "consciência planetária" (o grande sonho dos enciclopedistas, a saber, reunir num só mídia, todo o conhecimento da humanidade).
O ciberespaço no entanto, não é um lugar asséptico, de informações precisas e utilitárias. O grande interesse do ciberespaço reside justamente no vitalismo social que ele permite (BBS, "chat lines", "MUDs", "newsgroups", "e-mail"). O interesse está no fato de que todas as formas de sociabilidade contemporâneas encontram na tecnologia um potencializador, um catalisador, um instrumento de conexão - que vai contra a lógica iniciada na Escola de Frankfurt e que nos chega contemporaneamente nas vozes de Baudrillard ou Virilio. O ciberespaço não é uma entidade puramente cibernética, mas uma entidade efervescente, caótica e descontrolada.
Tempo, espaço e hierofania de dados
O ciberespaço, como espaço sagrado, é o lugar privilegiado para observarmos esse reencantamento da tecnologia. Como todo espaço sagrado, o ciberespaço acolhe um tempo também sagrado. Ele é um lugar de hierofanias (manifestações do sagrado). Assim como o ciberespaço é o nome desse novo espaço sagrado, o tempo real é o nome desse novo tempo mágico. Podemos utilizar aqui esses conceitos de acordo com o mitólogo romeno Mircea Eliade (25).
Como toda hierofania, se conectar ao ciberespaço é ter a experiência de uma revelação de um outro mundo, uma irrupção do sagrado em plena luz do quotidiano. Isso fica claro com a fascinação que temos ao ver uma máquina fazer coisas (quando na verdade não entendemos direito como é que ela as faz); com o delírio de se conectar à "distance homes" e ver o desenrolar de imagens, textos e ícones os mais diversos; com a absorção de se passar horas sem nos darmos conta; com antiquíssimo desejo de alcançar um mundo do conhecimento, da inteligência ou da consciência planetária, etc. Não é exagero afirmar que, no ciberespaço, temos o sentimento de participarmos de uma hierofania, à uma outra realidade, à um espaço de qualidade distinta (logo sagrado) daquele por onde circulamos nossos corpos (sem falar no potencial para futuros desenvolvimentos da realidade virtual de massa "on line").
O tempo real (acesso instantâneo, como todo toque de varinha de condão) é similar ao tempo sagrado, circular e reversível. O tempo sagrado do mito é um tempo repetitivo que fixa determinada memória coletiva; e ele é reversível, pois o passado é a fonte do saber na preparação do presente e do futuro. Ele atualiza o "ilo tempore", o tempo primordial onde tudo veio à existência. O tempo sagrado do mito (26), assim como o tempo real do ciberespaço, não é o tempo linear e progressivo, mas o tempo de conexões, aqui e agora, um tempo presenteísta (27), correspondente ao presenteísmo social contemporâneo.
Circular pelo Web, participar aos MUDs, recomeçar ao infinito um jogo eletrônico ou um CD Rom, se perder nos "links" dos hypertextos, voltar várias vezes à Home Page preferida, etc., tudo isso faz do tempo real do ciberespaço um tempo sagrado, circular e reversível. O tempo real da informática é assim correlato ao tempo presenteísta da sociedade contemporânea. Mais uma vez encontramos a essência da cybercultura: a imbricação entre uma sociedade tribal, emocional e presenteísta e as máquinas do ciberespaço. Hoje os computadores pessoais são cada vez menos individuais e cada vez mais computadores coletivos, máquinas de comunicação (28).
Após termos visto o ciberespaço como um espaço gnóstico e hermético, dotado de um tempo e de um espaço sagrados, representando um rito de passagem da tecnocultura moderna à cybercultura pósmoderna, veremos o ciberespaço como uma nova camada do planeta (Noosfera) e como um novo organismo complexo (o Cybionte). O ciberespaço pode assim ser visto em termos de evolução da vida na Terra, de acordo com a teoria de Theillard de Chardin, elaborada na década de 50. Essa expansão da Noosfera se traduz pela formação de um "organismo-rede" rizomático e auto-organizante.
A noosfera eletrônica e a inteligência coletiva
No seu "fenômeno humano" (29), Theillard de Chardin considera a evolução humana em termos intelectuais e espirituais. Segundo o padre jesuíta, no mundo físico existem duas energias: uma energia radial (correspondente ao conceito de força newtoniana de causa e efeito) e uma energia tangencial (que vem de dentro, de onde o divino aparece). Essa energia tangencial seria de três níveis, que Chardin chama de pré vida (para os objetos inanimados), vida (para os seres vivos) e consciência(para os homens). A pré vida corresponde à formação de matéria inorgânicas, a vida corresponde ao aparecimento de matérias orgânicas e a consciência ao aparecimento do homem e, consequentemente, do pensamento reflexivo. Assim, camadas sucessivas vão se empilhando umas sobre as outras : o mundo mineral, o mundo animal e o mundo da consciência. Esse camada da consciência, Chardin chama de Noosfera.
A Noosfera é assim uma rede invisível da consciência humana que virtualmente engloba todo o planeta terra. Noosfera vem de noogênese, ou mais precisamente, o desenvolvimento ou evolução do espírito. Como explica Chardin, "s’étale depuis lors par dessus le monde de plantes et des animaux; hors et au dessus de la biosphère, une Noosphère" (30). A Noosfera é uma camada invisível pela qual circula a consciência humana. Ela é uma nova membrana onde "c’est um Age nouveau qui commence. La Terre fait ‘peau neuve’. Mieux encore, elle trouve son âme" (31).
Com as redes eletrônicas como Internet, o ciberespaço, enquanto Noosfera está diante de nós. O ciberespaço é uma Noosfera na medida em que ele é uma camada abstrata e invisível, pela qual circulam dados, imagens, espectros e fantasmas digitais (32). Esse cyberespaco-Noosfera está em via de expansão planetária como um tipo de consciência coletiva. Isso nos leva à hipótese levantada por Pierre Lévy, segundo a qual o ciberespaço é o receptáculo de uma "inteligência coletiva" (33).
Pierre Lévy mostra como as novas tecnologias do ciberespaço podem verdadeiramente ajudar a criar uma circulação do saber, circulação essa que forma o que ele chama de "Inteligência Coletiva". Partindo de uma análise antropológica do espaço, Lévy vai mostrar que, depois da terra (espaço do mito e do rito, marcado por uma ligação completa do homem ao cosmos), do território (fruto da revolução neolítica onde surge a agricultura, as primeiras cidades, a escrita e o Estado), do mercado (espaço do trabalho e da velocidade, instaurado no século XVI com as conquistas marítimas e a globalização dos mercados com os fluxos de matéria prima, de mão de obra e de capital), o ciberespaço seria o formador de um quarto espaço, um espaço do saber. Esses espaços antropológicos não são excludentes, podendo interagir como camadas (de novo a idéia de Noosfera) comunicantes.
O espaço do saber é criado a partir da expansão dos mídias de comunicação e dos meios de transportes modernos (paradoxalmente existe um relação direta entre a locomoção e os mídias) e, principalmente com o nascimento de uma nova economia baseada na aceleração de trocas, na abolição de limites geográficos e com o surgimento do tempo real. De acordo com Lévy, esse quarto espaço antropológico pode instaurar uma verdadeira inteligência coletiva, "uma inteligência distribuída em todas as direções, valorizada sem cessar, coordenada em tempo real, e que chega à uma valorização e mobilização efetiva de competências"(34). Dessa forma o ciberespaço pode se tornar um meio de discussões pluralista, reforçando competência e laços comunitários específicos.
Um cybionte de estrutura rizomática
O ciberespaço é hoje uma realidade em forma ainda embrionária, conhecido como a estrutura de informação (rede de computadores, satélites, sistemas de telefonia, etc.). A dinâmica atual do desenvolvimento das redes de computadores e seu crescimento exponencial caracterizam o ciberespaço como um organismo complexo, interativo e auto-organizante.
De acordo com Joël de Rosnay (35), o ciberespaço é hoje uma entidade quase biológica, um organismo no sentido orgânico do termo. De Rosnay chama esse organismo de "Cybionte", uma forma emergente da simbiose entre a cibernética e o biológico. Para De Rosnay, o Cybionte é um cérebro planetário (como a Noosfera e a Inteligência Coletiva) formado pelo conjunto de cérebros humanos, de redes conectadas, de computadores e de modens: "um organisme planétaire unique (...), la forme la plus avancée d’un cerveau planétaire em cours de constitution" (36). O Cybionte faz parte assim da tendência pós-orgânica da civilização contemporânea, a saber, a fusão entre os homens e as máquinas (o cyberpunk R. U. Sirius, editor da revista californiana "Mondo 2000", afirma que nós somos já, de certa forma, "cyborgs": lentes de contato, marcapassos, drogas sintéticas, engenharia genética...).
Esse organismo planetário que é o Cybionte vai ganhar a forma daquilo que Guattari e Deleuze (37) chamaram de estrutura rizomática. Uma estrutura rizomática é um sistema de multiplicidade, um sistema de formas as mais diversas, como um verdadeiro rizoma, com extensão ramificada em todos os sentidos. De acordo com Deleuze e Guattari, um rizoma pode ser conectado com qualquer outro rizoma e "deve ser". Como multiplicidade, um rizoma não tem nem sujeito nem objeto e ele cresce de acordo com a dinâmica das conexões. Os rizomas se ramificam e se reticulam permitindo estratificações e territórios, da mesma forma que cria linhas de fuga e de desterritorialização. Existe assim um processo de desterritorialização e reterritorialização à partir de múltiplos "devenirs".
Avessos à centralização, os rizomas não tem um eixo genético como estrutura profunda, como é o caso das estruturas em arborescência. Eles não nos dão a imagem triste de uma hierarquia superior e determinante de um sistema centralizado. O modelo da árvore dominou, segundo os filósofos franceses, todo o pensamento ocidental. Mas a partir das crises da modernidade, esse modelo árvore cede lugar aos rizomas. Assim, dentro do processo civilizatório contemporâneo podemos ver estruturas rizomáticas nos beatniks, no underground, nas tribos de "hackers" e "cyberpunks", nos "tecno-anarquistas" e nos "tecnopagãos" que pulsam lateralmente, sem controle e sem eixo gerador, e que se espalham horizontalmente como os canais de Amsterdã.
É óbvia a semelhança entre as estruturas rizomáticas e o ciberespaço. Ambos são descentralizados, conectando pontos ordinários, criando territorialização e desterritorialização sucessivas. O ciberespaço não tem um controle centralizado, multiplicando-se de forma anárquica e extensa, desordenadamente, a partir de conexões múltiplas e diferenciadas. O ciberespaço permite agregações ordinárias, de pontos a pontos, onde entram em jogo toda a dialógica (Morin)(38) entre o particular e o geral e a formação de comunidades virtuais (ou "quelconques", como quer o filosofo italiano Agamben)(39). As conexões do ciberespaço, assim como aquelas dos rizomas, modificam as suas estruturas, caracterizando-se como sistemas complexos e auto-organizantes (os exemplos do Minitel francês e de Internet ilustram bem esse ponto). Como explica Deleuze e Guattari, a árvore impõe o "ser", o rizoma o "e, e, e,...". Aí está toda a força social do ciberespaço.
Conclusão
Nós tentamos nesse artigo desenvolver rapidamente as similaridades entre o pensamento mágico (hermetismo, gnose, hierofania, tempo cíclico) e a estrutura da Noosfera, do Cybionte, da inteligência coletiva e do rizoma, para trazer à luz algumas particularidades do ciberespaço. Nenhuma delas no entanto, tem a supremacia sobre as outras pois, como entidade escorregadia, o ciberespaço não nos revela tão facilmente seus segredos. Ele é um pouco de tudo isso, sem ser totalmente o conjunto de todas essas particularidades.
Exageramos em alguns pontos para tentar fazer, mais do que um retrato fiel, uma caricatura do ciberespaço. Identificar (pois as caricaturas identificam mais do que diferenciam) essas particularidades pode nos ajudar à compreender melhor esse lugar poroso e rizomático por onde vai passar toda a cultura do próximo século.
1. Gibson, W., "Neuromancien", Paris, La Découverte, 1985., p.64
2. Gibson, W., op. cit.
3. Sobre a Matrix, nome dado ao cyberespaco, ver Quaterman, J.S., "The Matrix. Computer Network and Conferencing Systems Worldwide"., Digital Press, 1990.
4. Sobre a visão erótica do ciberespaço, ver Heim, M., "The Metaphysics of Virtual Reality"., Oxford Press, 1993.
5. Kellogg, W; Carroll, J.M.; Richards, J.T., "Making Reality a Cyberspace". in, Benedikt, M., "Cyberspace. First Steps". Mit Press, 1992.
6. BBS (Bulletin Board Systems), MUDS (Multi Users Dungeons), Minitel (sistema videotexto francês). Sobre o Minitel ver Lemos, A., "The Labyrinth of Minitel"., in Shields, R. (ed). "Cultures of Internet". Sage, Londres, 1996.
7. Ted Nelson é também o mentor do projeto Xanadu. Sobre esse projeto ver Wolf, Gary., "The Curse of Xanadu", in Wired, 3.06, juin 1995, p. 137.
8. Sobre a interface e o utilizador como agentes numa perspectiva teatral ver Laurel, B. "Computer as Theater"., Addison-Wesley, 1993.
9. Wooley, B. "Virtual Worlds. A Journey in Hype and Hyperreality", Penguin Books, 1992., p. 165.
10. Todo o desenvolvimento da micro-informática é ligado à essa "sopa cultural". Os micros computadores, a rede Internet e a explosão do Web não são diretivas tecnocráticas de nenhuma instituição. Essa relação, entre a técnica e o social, sem que nenhum dos dois tenha a chave da equação, é que caracteriza a cybercultura. Ver Lemos, A. "La Cyberculture. Les Nouvelles Technologies et la Société Contemporaine". Tese de Doutorado, Paris V, Sorbonne, 1995.
11. Bolle de Bal mostra como a modernidade é marcada pela separação. A "tentação comunitária" leva a uma nova forma de relação que ele chama de "reliance". Sobre a "reliance" comunitária ver Bolle de Bal, M. "La Tentation Communautaire. Les Paradoxes de la Reliance et de la Contre-Culture". Université de Bruxelles, Bruxelas, 1985.
12. Virilio, P., "Esthétique de la Disparition"., Paris, Galilée, 1989.
13. Ver Zorach, R., "New Medieval Aesthetic", in Wired, n° 2.01, p. 48. Ela analisa a cultura do monastério e a estética dos manuscritos medievais como uma rede de "comunidades de almas".
14. Ver Davis, E., "Techgnosis: Magic, Memory, and the Angels of Information"., in Dery, M., "Flame Wars. The Discourse of Cyberculture"., The South Atlantic Quarterly 92:4, fall 1993.
15. Ver Davis, Erik., "Techgnosis..." op. cit., p. 593.
16. Sobre os cypherpunks ver Levy, S. "Cryptorebels", in Wired, 1.2. e Lemos, A. "Technorebels", in Citizen K, Paris, dec, 1995.
17. Ver McLuhan, M. "La Galaxie Gutenberg.", Paris, Gallimard, 1967.
18. Mauss e Ellul mostram como a magia é uma das primeiras expressões da "technè", da técnica humana. Ver. Mauss, M. "Sociologie et Anthropologie", Paris, PUF, 1962 et Ellul, J., "La Technique ou l’Enjeu du Siècle"., Paris, A. Colin, 1954.
19. Sobre os "ravers" e "zippies" ver Marshall, J., "Zippies", in Wired, 2.05, maio 1994; "The Roots of Techno", in Mondo 2000, n° 2.07 e Davis, E., "Technopagans", in Wired, 3.07, julho, 1995.
20. Citado por Davis, E., op.cit., p.180.
21. Sobre o ciberespaço como rito de passagem, ver Tomas, D. "Old Rituals for New Spaces. Rites de Passage and William Gibson’s Model of Cyberspace"., in Benedikt, M., op.cit.
22. Negroponte, N., "L’Homme Numérique"., Paris, Fayard, 1995.
23. Sobre a "socialidade" contemporânea ver a obra de Michel Maffesoli, particularmente Maffesoli, M. "La Conquête du Présent. Pour Une Sociologie de la Vie Quotidienne"., Paris, PUF, 1979.
24. Benedikt, M., "Cyberspace. Some Proposals"., in Benedikt (ed). "Cyberspace; First Steps"., op.cit., p. 35.
25. Ver Eliade M. "Le Sacré et le Profane"., Paris, Gallimard, 1965.
26. Ver Eliade, M., "Mito e Realidade", SP, Perspectiva. 1977.
27. Sobre o "presentísmo", ver Maffesoli, M, op.cit.
28. O "netcompute" da Oracle (máquinas sem disco rígido e prontas para se conectarem às redes) comprova essa tendência.
29. Theillard de Chardin, P., "Le Phénomène Humain"., Paris, Seuil, 1955.
30. Theillard de Chardin, op.cit., p. 179.
31. idem.
32. Sobre espectros e fantasmas digitais ver, Guillaume, M., "Téléspectres", in Traverses, número 26, Paris, CGP, outubro de 1982.
33. Lévy, P. "L’Intelligence Collective. Pour une Anthropologie du Cyberspace". Paris, La Découverte, 1995.
34. Lévy, P. op.cit, p. 29
35. De Rosnay, J. "L’Homme Symbiotique". Paris, Seuil, 1995.
36. De Rosnay, op.cit., p. 315.
37. Deleuze, G.; Guattari, F., "Mille Plateaux. Capitalisme et Schizophrénie"., Paris, Minuit, 1982.
38. Sobre a dialógica ver Morin, E., "La Methode I. La Nature de la Nature". Paris, Seuil, 1977.
39. Ver Agamben, G. "La Communauté qui Vient. Essais sur la Singularité Quelconque". Paris, Seuil, 1990.
André L.M. Lemos é doutor em sociologia pela Sorbonne, professor e pesquisador do Programa de Pòs-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da Faculdade de Comunicação (FACOM), UFBA/CNPq. E-mail: lemos@svn.com.br