quinta-feira, 21 de junho de 2007

Basta de mediocridade!


(*) Artigo extraído de http://www.cfh.ufsc.br/~aped/

(**) Filósofo, sociólogo e historiador, Cornelius Castoriadis também foi economista e psicanalista. "Um titã do pensamento, enorme, fora do comum" , é a opinião de Edgar Morin sobre ele. Nascido na Grécia, em 1922, instalou-se em Paris em 1945, quando criou a revista "Socialismo ou barbárie" . Em 1968, com Edgar Morin e Claude Lefort, publicou "Maio 68: a brecha" (edit. Fayard, Paris). Em 1975 aparece "L'institution imaginaire de la société" (edit. Seuil, Paris), sem dúvida sua obra mais importante. Em 1978, ele se engaja na série "Les Carrefours du labyrinthe" . Foi após a publicação de "La Montée de l'insignifiance" (edit. Seuil, Paris, 1996), que ele concedeu uma entrevista, em novembro de 1996, a Daniel Mermet - produtor do seriado "Là-bas si j'y suis" , da emissora France-Inter - na qual se baseou este texto.






Faz falta a voz de Cornelius Castoriadis, esse dissidente fundamental, nestes tempos de "não-pensamento". Ele não se acomodou numa resignação de esteta, nem mergulhou no cinismo ou nessa apatia bem nutrida que diz: "Tudo se equivale, já não há mais nada a ver e nada leva a nada." Ele denuncia uma elite política que se restringe a aplicar o integrismo neoliberal, mas ressalta também a responsabilidade do "cidadão" que, na precariedade, desiste da atividade cívica. Silenciosamente, uma formidável regressão foi tomando conta desse espaço: um não-pensar que produz essa não-sociedade, esse racismo social. Até o fim, Castoriadis buscou radicalidade: "Sou um revolucionário que defende mudanças radicais", dizia, algumas semanas antes de morrer, em dezembro de 97.
No tempo da monarquia, para chegar ao poder era necessário bajular o rei. Hoje, na nossa "pseudo- democracia", a arte de chegar ao poder está em ser fotogênico na televisão, em saber farejar a opinião pública.
É evidente que o que caracteriza o mundo contemporâneo são as crises, as contradições, as fraturas, mas aquilo que realmente me chama a atenção é a mediocridade. Tomemos a discussão entre esquerda e direita. Ela perdeu o sentido. Tanto uns como outros dizem a mesma coisa. A partir de 1983, os socialistas franceses puseram em prática uma política, depois veio Balladur e fez a mesma política; voltaram os socialistas e fizeram, com Pierre Bérégovoy, a mesma política; voltou Balladur e fez a mesma política; Chirac ganhou a eleição de 1995 dizendo: "Vou fazer diferente" e fez exatamente a mesma política.



A impotência da política



Os dirigentes políticos são impotentes. A única coisa que podem fazer é seguir a corrente, ou seja, aplicar a política ultraliberal da moda. Os socialistas não fizeram outra coisa desde que voltaram ao poder. Não se trata de políticas, mas de políticos, no sentido de politiqueiros. Gente que caça voto de toda e qualquer maneira. Não têm programa algum. O seu objetivo é permanecer no poder ou voltar ao poder e para isso são capazes de tudo.
Existe um vínculo intrínseco entre essa espécie de nulidade da política, essa transformação da política em nulidade, e a mediocridade que grassa na arte, na filosofia, na literatura. É a característica espiritual de uma época. Tudo conspira no sentido de prolongar a mediocridade.
A política é um ofício curioso. Ele pressupõe duas faculdades sem qualquer relação intrínseca. A primeira é a de chegar ao poder. Sem se chegar ao poder, de nada adianta ter as melhores idéias; e isso então implica numa arte de chegar ao poder. A segunda faculdade, é a de saber governar, quando já se está no poder.
Há milhões de cidadãos na França. Por que não seriam eles capazes de governar? Porque toda a vida política tem justamente como objetivo desensiná-los, convencê-los que existem peritos a quem se deve confiar o governo.
Nada garante que quem sabe governar sabe como fazer para chegar ao poder. No tempo da monarquia, para chegar ao poder era necessário bajular o rei, cair nas graças de Madame Pompadour. Hoje em dia, na nossa "pseudo-democracia", a arte de chegar ao poder consiste em ser fotogênico na televisão, em saber farejar a opinião pública. Digo "pseudo-democracia" porque sempre achei que a democracia dita representativa não é uma democracia de verdade. Já dizia Jean-Jacques Rousseau: os ingleses pensam que são livres porque elegem os seus representantes a cada cinco anos, mas no fundo eles só são livres um dia a cada cinco anos: o dia da eleição. Não que haja necessariamente fraude nas urnas. A eleição é trambicada porque as opções se definem previamente. Nunca se indaga ao povo quais são os assuntos sobre o quais ele quer votar. Dizem-lhe, por exemplo: "Vote a favor ou contra Maastricht" . Mas quem é que elaborou o tal tratado de Maastricht? Certamente não foi o povo.



Uma fábrica de cínicos



Há aquela frase maravilhosa de Aristóteles: "Quem é o cidadão? Cidadão é aquele que é capaz de governar e de ser governado." Há milhões de cidadãos na França. Por que não seriam eles capazes de governar? Porque toda a vida política tem justamente como objetivo desensiná-los, convencê-los que existem peritos a quem se deve confiar o governo. Existe, portanto, uma contra-educação política. Ao invés das pessoas se habituarem a exercer todo tipo de responsabilidade e a tomar iniciativas, habituam-se a seguir cegamente ou a votar nas opções que lhes são apresentadas. E como não são idiotas, as pessoas passam a acreditar cada vez menos na política, tornando-se cínicas.
E o que fizeram muitos intelectuais? Desenterraram liberalismo nu e cru do início do século XIX, tão combatido durante cento e cinqüenta anos e que teria indiscutivel- mente conduzido a sociedade à catástrofe.
Nas sociedades modernas, desde os tempos das revoluções americana (1776) e francesa (1789) e mais ou menos até o fim da segunda guerra mundial (1945), havia um vivo conflito social e político. Havia oposições, as pessoas se manifestavam sobre causas políticas. Os operários faziam greve, e nem sempre por interesses mesquinhos, corporativos. Havia grandes questões que diziam respeito a todos os assalariados. Foram lutas que marcaram os dois últimos séculos.
Observa-se, hoje, um recuo na atividade das pessoas. É um círculo vicioso. Quanto mais cresce o número de pessoas que desistem da atividade, mais os burocratas, os politiqueiros, os pretensos dirigentes, vão tomando conta do pedaço. Eles chegam com a justificativa: "Estou tomando a iniciativa porque ninguém faz nada..." E, quanto mais dominam, mais as pessoas ficam dizendo: "Não vale a pena se envolver, já tem bastante gente cuidando e, além disso, de qualquer maneira, não se pode dar jeito em nada."
O segundo motivo, vinculado ao primeiro, está na dissolução das grandes ideologias políticas - fossem elas revolucionárias ou reformistas - que queriam realmente operar mudanças na sociedade. Por mil e uma razões, essas ideologias foram desconsideradas, deixaram de corresponder às aspirações, à situação e à experiência histórica da sociedade. Um acontecimento de enormes proporções foi o colapso da URSS e do comunismo em 1991. Será que algum, entre todos os políticos de esquerda, para não dizer politiqueiros, parou para refletir sobre o que aconteceu? Por que isso aconteceu e quem soube, como diria o bobo, tirar as lições? Uma evolução desse tipo mereceria uma reflexão muito aprofundada, começando pela sua primeira fase - a acessão à monstruosidade, ao totalitarismo, ao Gulag etc. - e passando em seguida ao colapso propriamente dito; e uma conclusão sobre aquilo que um movimento que quer mudar a sociedade pode fazer, deve fazer, não deve fazer, não pode fazer. No entanto, o que temos? Nada, absolutamente nada.
Por volta de 1850, o liberalismo era uma verdadeira ideologia, porque apostava no progresso. Os liberais acreditavam que, com o progresso, ocorreria uma elevação do bem-estar econômico. Nas classes exploradas, as pessoas não ficariam ricas, mas a jornada de trabalho seria cada vez menor e o trabalho menos pesado: era esse o grande tema da época.
E o que fizeram muitos intelectuais? Desenterraram o liberalismo nu e cru do início do século XIX, combatido durante cento e cinqüenta anos, e que teria indiscutivelmente conduzido a sociedade à catástrofe. Pois, convenhamos, o velho Marx nem sempre estava errado. Se o capitalismo tivesse corrido solto, cem vezes teria desmoronado. Teria havido uma crise de superprodução a cada ano. Por que não desmoronou? Porque os trabalhadores lutaram, impuseram aumentos salariais, criaram enormes mercados de consumo interno. Impuseram reduções na jornada de trabalho que absorveram praticamente todo o desemprego tecnológico. Tem gente que estranha agora o fato de que há desemprego. Nem lembram que não houve, desde 1940, diminuição da jornada de trabalho ...
Os liberais nos garantem: "É preciso confiar no mercado." Mas os próprios estudiosos de economia refutaram essa afirmação desde a década de 30. E esses economistas não eram revolucionários nem marxistas! Eles mostraram que toda a conversa dos liberais sobre as virtudes do mercado - que garantiria o melhor investimento possível dos recursos e uma distribuição mais imparcial da renda - era um monte de aberrações. Tudo isso foi demonstrado. O que temos aí é essa grande ofensiva econômico-política das camadas governantes e dominantes - cujos símbolos estão nos nomes de Ronald Reagan e de Margaret Thatcher, e até mesmo no de François Mitterrand! Que diz: "Muito bem, chega de brincadeiras! Agora, todo mundo na rua!", vamos eliminar as "gorduras ruins", como disse Juppé! "Depois, a longo prazo, vocês verão que o mercado irá garantir-lhes o bem-estar." A longo prazo... Nessa espera, fica-se na França com uma taxa oficial de desemprego de 12,5%!



A crise não é uma fatalidade



Já se falou do tipo de terrorismo do pensamento único, ou seja, do não-pensamento. Ele é realmente único no sentido de ser o primeiro tipo de pensamento que é um não-pensamento integral. Um pensamento único liberal que ninguém ousa contestar. Qual era a ideologia liberal em seus tempos áureos? Por volta de 1850, o liberalismo era uma grande ideologia, porque se acreditava no progresso. Os liberais daquele tempo pensavam que, com o progresso, ocorreria uma elevação do bem-estar econômico. Mesmo quando não havia enriquecimento, como nas classes exploradas, caminhava-se em direção à diminuição do trabalho, ou para torná-lo menos penoso: era esse o grande tema da época. Dizia Benjamin Constant: "Os operários não podem votar porque são embrutecidos pela indústria [falou sem rodeios, naquela época eles eram mais honestos!], portanto é preciso um sufrágio do tipo censitário".
O que prevalece, hoje, é a resignação, inclusive entre os representantes do liberalismo. Qual é, afinal, o grande tema do momento? "Talvez seja ruim, mas a outra alternativa seria pior." E isso intimida bastante as pessoas. Elas pensam mais ou menos assim: "Se a gente fizer muita onda, acaba indo na direção de outro Gulag."
Mais tarde, diminuiria a jornada de trabalho, viriam a alfabetização, a educação, algumas luzes, não mais as luzes subversivas do século XVIII, mas luzes que, mesmo assim, difundem-se pela sociedade. Desenvolve-se a ciência, humaniza-se a humanidade, civilizam-se as sociedades e, aos pouquinhos se irá chegando a uma sociedade onde praticamente inexistirá exploração, onde essa democracia representativa se tenderá a transformar-se numa verdadeira democracia.
Mas não deu certo! Em consequência, as pessoas não acreditam mais nessas idéias. O que prevalece, hoje, é a resignação, mesmo entre os representantes do liberalismo. Qual é, o grande argumento que se ouve agora? "Talvez seja ruim, mas a outra alternativa seria pior." E isso imobilizou um bocado de gente. Ficam dizendo, para seus botões: "Se a gente fizer muita onda, vai acabar num novo Gulag." É isso que existe por trás deste esgotamento ideológico; e dele só sairemos se uma crítica poderosa ao sistema realmente vier a ressurgir. Junto com um renascimento da atividade e da participação das pessoas.



Nova chance para as utopias



Todavia, aqui e ali já se começa a compreender que a "crise" não é uma fatalidade da modernidade à qual cada um teria que se subordinar, "se adaptar", para não ser arcaico. Já se percebem vibrações de uma retomada de atividade cívica. E aqui surge o problema do papel dos cidadãos e da competência de cada um para exercer direitos e deveres democráticos com o objetivo - doce e bela utopia - de sair do conformismo generalizado.
Para tanto, será que nos deveríamos inspirar na democracia ateniense? Quem era eleito em Atenas? Não os magistrados, que eram designados através de um sorteio ou por rotatividade. Para Aristóteles, é bom relembrar, um cidadão é aquele que é capaz de governar e de ser governado. Como todo mundo é capaz de governar, escolhe-se por sorteio. A política não é para ser feita por especialistas. Não existe ciência da política. O que há é uma opinião, a doxa dos gregos, não há episteme 1. A idéia de que não há especialistas da política e que as opiniões têm igual valor é a única justificativa razoável para o princípio da maioria. Portanto, voltando aos gregos, o povo decide e os magistrados são escolhidos por sorteio ou por rotatividade. Nas atividades especializadas - construção de estaleiros ou de templos, condução de uma guerra -, especialistas são necessários. Esses são eleitos. Eleição é exatamente isso. Eleição significa "escolha dos melhores" . E aí intervém a educação do povo. Faz-se uma primeira eleição, ocorre erro, constata-se, por exemplo, que Péricles é um deplorável estrategista militar; ora muito bem, não o reelejamos, ou revoguemos seu mandato.
A política não é para ser feita por especialistas. Não existe ciência da política. O que há é uma opinião, a doxa dos gregos, não há episteme. A idéia de que não há especialistas da política e que as opiniões têm igual valor é a única justificativa razoável para o princípio da maioria.
Mas é necessário que a doxa seja cultivada. E como se pode cultivar uma doxa que se refere ao governo? Governando. A democracia, portanto - e isto é importante -, trata da educação dos cidadãos, o que definitivamente não existe hoje em dia.



Reflexão e ação



Recentemente, uma revista francesa publicou uma estatística revelando que 60% dos deputados confessam não entender coisa alguma de economia. Deputados que a todo momento estão decidindo! Na verdade, esses deputados, assim como os ministros, dependem dos seus técnicos. Têm seus especialistas, mas também têm preconceitos ou preferências. Quem acompanha de perto o funcionamento de um governo, ou de uma grande repartição burocrática, pode ver que os dirigentes confiam em especialistas, mas escolhem, entre estes, os que concordam com suas opiniões. É um jogo completamente imbecil, e é assim que somos governados.
As instituições dos dias de hoje enxotam, afastam, dissuadem as pessoas de participar. E, no entanto, em matéria de política, a melhor educação é a participação ativa - o que exige uma transformação das instituições de modo que essa participação passe a ser permitida e incentivada.
A educação deveria ser muito mais voltada para a coisa comum. Seria preciso compreender os mecanismos da economia, da sociedade, da política etc. As crianças se chateiam nas aulas de história, no entanto, aprender história é algo apaixonante. Seria preciso ensinar uma autêntica anatomia da sociedade contemporânea, como ela é, como funciona. Aprender a se defender das crenças, das ideologias.
A sociedade capitalista tende ao suicídio, pois não aprendeu a se autolimitar. E uma sociedade realmente livre, uma sociedade autônoma, deve saber fazê-lo: deve saber que há coisas que não podem ser feitas, ou que não se deve nem tentar fazer, ou que não devem ser desejadas.
Aristóteles dizia: "O homem é um animal que deseja o saber." Não é verdade. O homem é um animal que deseja a crença, a certeza de uma crença; daí a força e a influência das religiões, das ideologias políticas. O movimento operário tinha, no começo, uma postura muito crítica . Observe-se a segunda estrofe da Internacional: "Messias, Deus, chefes supremos: Nada esperamos de nenhum!" - nada de religião, nada de Lenin!
Hoje em dia, mesmo havendo uma parcela que continua procurando a fé, as pessoas tornaram-se muito mais críticas. Isso é muito importante. A "cientologia", as seitas ou o fundamentalismo são fortes em outros países, não no nosso, ou nem tanto. As pessoas tornaram-se muito mais céticas. E isso as inibe de agir.
Em seu discurso ao povo de Atenas, dizia Péricles: "Nós somos os únicos para quem a reflexão não inibe a ação." Admirável! E acrescenta: "Os outros povos, ou não refletem - e são temerários, cometem absurdos - ou então, por refletirem, acabam nada fazendo, pois ficam dizendo: há o discurso e há o discurso contrário." Atualmente atravessamos uma fase de inibição, sem dúvida. Gato escaldado tem medo de água fria... Não há carência de grandes discursos, há carência de discursos verdadeiros.



Os desejos e os limites



Seja como for, há um desejo irredutível. Nas sociedades antigas ou tradicionais, não há um desejo irredutível, esse desejo transformado pela socialização. Essas sociedades são sociedades de repetição. Lá se diz, por exemplo: "Tomarás tua mulher em tal clã ou tal família. Terás uma única mulher em tua vida. Se tens duas mulheres, ou dois maridos, será em segredo, será uma transgressão. Terás uma posição social, essa aqui e não uma outra."
Há uma frase maravilhosa de Tucídides: "É preciso escolher: descansar ou ser livre". Liberdade é atividade. E a liberdade é uma atividade que ao mesmo tempo se autolimita, ou seja, sabe que pode fazer tudo, mas sabe que não deve fazer tudo. Esse é o grande problema da democracia e do individualismo.
Ora, há hoje em dia uma liberação, em todos os sentidos da palavra, com relação às restrições impostas pela socialização dos indivíduos. Entramos numa época de ilimitação e é nisso que temos o desejo de infinito. Essa liberação é, num sentido, uma grande conquista. Não se trata de voltar às sociedades de repetição. Mas também é preciso - e esse é um tema da maior importância - aprender a se autolimitar, individual e coletivamente. A sociedade capitalista é uma sociedade que caminha para o abismo, sob todos os pontos de vista, por não saber se autolimitar. E uma sociedade realmente livre, uma sociedade autônoma, deve saber se autolimitar, saber que há coisas que não se pode fazer, que não se deve nem tentar fazer, ou que não se deve desejar.



Descansar ou ser livres



Vivemos neste planeta que estamos destruindo - e enquanto pronuncio essa frase, tenho em mente maravilhas. Penso no mar Egeu, nas montanhas cheias de neve, na vista sobre o Pacífico que se tem num cantinho da Austrália, penso em Bali, nas Índias, nos campos da França, que estamos transformando em desertos. Tantas maravilhas em vias de extinção. Penso que deveríamos ser os jardineiros deste planeta. Teríamos que cultivá-lo. Cultivá-lo como ele é e pelo que é. E, a partir daí, encontrar nosso lugar, nossa vida. A tarefa é enorme. Poderia absorver grande parte do lazer das pessoas, liberadas de um trabalho imbecil, produtivo, repetitivo etc. Só que isto está muito longe não só do atual sistema quanto da imaginação dominante. O imaginário da nossa época é o da expansão ilimitada, é a acumulação de bugingangas: uma tevê em cada quarto, um micro em cada quarto... isso é que é preciso destruir. É nesse imaginário que o sistema se apóia.
A liberdade é difícil. Porque é muito fácil a gente se deixar levar. O homem é um animal preguiçoso. Há uma frase maravilhosa de Tucídides: "É preciso escolher: descansar ou ser livre". E Péricles dizia, ao povo de Atenas: "Se quiserem ser livres, vocês têm que trabalhar." Não podem descansar. Não podem ficar plantados na frente da tevê. Vocês não são livres quando estão na frente da tevê. Voces se imaginam livres ao apertarem como idiotas os botões do controle remoto, mas vocês não são livres, isso é uma falsa liberdade. Liberdade é atividade. E a liberdade é uma atividade que ao mesmo tempo se autolimita, ou seja, sabe que pode fazer tudo, mas sabe que não deve fazer tudo. Esse é o grande problema da democracia e do individualismo.


Filósofo, sociólogo e historiador, Cornelius Castoriadis também foi economista e psicanalista. "Um titã do pensamento, enorme, fora do comum" , é a opinião de Edgar Morin sobre ele. Nascido na Grécia, em 1922, instalou-se em Paris em 1945, quando criou a revista "Socialismo ou barbárie" . Em 1968, com Edgar Morin e Claude Lefort, publicou "Maio 68: a brecha" (edit. Fayard, Paris). Em 1975 aparece "L'institution imaginaire de la société" (edit. Seuil, Paris), sem dúvida sua obra mais importante. Em 1978, ele se engaja na série "Les Carrefours du labyrinthe" . Foi após a publicação de "La Montée de l'insignifiance" (edit. Seuil, Paris, 1996), que ele concedeu uma entrevista, em novembro de 1996, a Daniel Mermet - produtor do seriado "Là-bas si j'y suis" , da emissora France-Inter - na qual se baseou este texto. [voltar]
1 O saber teoricamente fundamentado, ciência. [voltar]

terça-feira, 19 de junho de 2007

O STATUS ONTOLÓGICO DA TEORIA DA CONSPIRAÇÃO

Hakim Bey

(Para Kevin Coogan)

A teoria da conspiração é uma ilusão da Direita que também infectou a Esquerda? Teóricos da conspiração esquerdistas algumas vezes fazem um uso acrítico dos textos dos mais direitistas teóricos da conspiração – pesquisando por detalhes do Assassinato de JFK no trabalho do Liberty Lobby (1), adquirindo noções no estilo da John Birch Society (2) sobre os internacionalistas “liberais” CFR/Bilderberg/Rockefeller (3) etc. etc. Como o anti-semitismo pode ser encontrado tanto na Esquerda quanto na Direita, ecos dos Protocolos podem ser escutados de ambas as direções. Mesmo alguns anarquistas são atraídos pelo “Revisionismo Histórico”. O anticapitalismo (4) ou populismo econômico na Direita tem seu contraponto na Esquerda com o “Fascismo Vermelho”, que irrompeu na superfície da História no pacto Hitler/Stalin, e retornou para nos assombrar na bizarra combinação européia de “Terceira Onda” do extremismo de esquerda com o de direita, um fenômeno que aparece nos EUA com o niilismo libertino e o “satanismo” de grupos anarco-fascistas como a Amok Press (5) e a Radio Werewolf (6) – e a teoria da conspiração desempenha um importante papel em todas estas ideologias.
Se a teoria da conspiração é essencialmente da facção da direita, só pode ser assim por que ela pressupõe uma visão da História como o trabalho de indivíduos mais que de grupos. De acordo com este argumento, uma teoria no estilo de Mae Brussel (7) (ela acreditava que os nazistas tinham se infiltrado na Inteligência e Governo americanos no nível administrativo) poderia parecer esquerdista mas de fato não fornece nenhuma sustentação para uma genuína análise dialética, uma vez que ignora a economia e a luta de classes como forças causais, e em vez disso atribui todos os eventos às maquinações de indivíduos “escondidos”. Mesmo a Esquerda anti-autoritária pode algumas vezes adotar esta opinião rasa sobre a teoria da conspiração, apesar do fato de não estar presa a nenhuma crença dogmática no determinismo econômico. Tais anarquistas concordariam que acreditar em teoria da conspiração é acreditar que as elites podem influenciar a História. O anarquismo postula que as elites são simplesmente arrastadas pelo fluxo da História e que sua crença em seu próprio poder ou instrumentalidade é pura ilusão. Se fosse para se acreditar no contrário, tais anarquistas argumentam, então Marx e Lênin estariam certos, e o vanguardismo conspiratório seria a melhor estratégia para o “movimento do social”. (A existência do vanguardismo prova que a Esquerda – ou pelo menos a Esquerda autoritária – não foi simplesmente contaminada acidentalmente pela teoria da conspiração: o vanguardismo É conspiração!) Os Leninistas dizem que o estado é uma conspiração, seja de Direita ou de Esquerda – faça a sua escolha. Os anarquistas argumentam que o estado não “tem” poder em nenhum sentido absoluto ou essencial, mas que ele meramente ursupa o poder que, em essência, “pertence” a cada indivíduo, ou à sociedade em geral. O aspecto aparentemente conspiratório do estado é portanto ilusório – pura masturbação ideológica da parte de políticos, espiões, banqueiros e outras escórias, servindo cegamente aos interesses de sua classe. A teoria da conspiração é, por conseguinte, de interesse apenas como um tipo de sociologia da cultura, um rastreamento das fantasias ilusórias de certos grupos de incluídos e de excluídos – mas a própria teoria da conspiração não tem nenhum status ontológico.
Esta é uma hipótese interessante de muito valor, especialmente como uma ferramenta crítica. No entanto, como uma ideologia, ela sofre da mesma falha que qualquer outra ideologia. Ela constrói uma Idéia absoluta, então explica a realidade em termos de absolutos. A Direita e a Esquerda autoritárias compartilham uma visão do status ontológico das elites ou das vanguardas na História; a resposta anti-autoritária é transferir o peso ontológico-histórico para indivíduos ou grupos; mas nenhuma das teorias se importou em questionar o status ontológico da História, ou, quanto a isso, da própria ontologia.
No sentido tanto de confirmar quanto de negar a teoria da conspiração categoricamente, deve-se acreditar na categoria da “História”. Mas desde o século 19, a “História” se fragmentou em dúzias de partículas conceituais – etno-história, psico-história, história social, história das coisas e idéias e mentalidades, cliometria (8), micro-história – tais não são ideologias históricas rivais, mas simplesmente uma multiplicidade de histórias. A noção de que a História é o resultado da luta cega entre interesses econômicos, ou de que a História “É” sob qualquer condição algo específico, não pode realmente sobreviver a esta fragmentação numa infinidade de narrativas. A abordagem produtiva a uma tal idéia fixa não é ontológica mas epistemológica; ou seja, agora perguntamos não o que a “História” “é”, mas de preferência o que e como podemos saber sobre e a partir das muitíssimas estórias, supressões, aparecimentos e desaparecimentos, palimpsestos e fragmentos dos múltiplos discursos e múltiplas histórias das complexidades inextricavelmente emaranhadas do devir humano.
Então deveríamos pressupor (como um exercício epistemológico, se nada mais) a noção de que embora seres humanos sejam arrastados ou movidos por interesses de classe, forças econômicas, etc., podemos também aceitar a possibilidade de um mecanismo de feedback, por meio do qual as ideologias e ações tanto de indivíduos quanto de grupos possam modificar as reais “forças” que as produzem.
De fato, me parece que, como anarquistas de um tipo ou de outro, devemos adotar uma tal visão das coisas, ou então aceitar que nossa agitação, educação, propaganda, formas de organização, levantes, etc., são essencialmente fúteis, e que só a “evolução” pode ou irá ocasionar qualquer mudança significativa na estrutura da sociedade e da vida. Isto pode ou não ser verdade a respeito da longa duração do devir humano, mas é evidentemente falso no nível da experiência individual da vida cotidiana. Aqui, uma espécie de existencialismo tosco prevalece, de tal forma que devemos agir como se nossas ações pudessem ser efetivas, ou então sofrer em nós mesmos uma escassez de devir. Sem a vontade da auto-expressão em ação, somos reduzidos a nada. Isto é inaceitável. Portanto, mesmo que se pudesse provar que toda ação é ilusão (e não acredito que qualquer evidência nesse sentido esteja disponível), ainda nos defrontaríamos com o problema do desejo. Paradoxalmente somos forçados (sob a pena da total negação) a agir como se livremente escolhêssemos agir, e como se a ação pudesse causar mudança.
Com base nisso, parece possível elaborar uma teoria da conspiração não-autoritária que nem negue isso completamente, nem o eleve ao status de uma ideologia. Em seu sentido literal de “respirar junto”, a conspiração pode até ser pensada como um princípio natural de organização anarquista. Face a face, não mediados por qualquer controle, juntos construímos nossa realidade social para nós mesmos. Se devemos portanto fazê-lo clandestinamente, no sentido de evitar os mecanismos de mediação e controle, então perpetramos um tipo de conspiração. Mas tem mais: podemos também ver que outros grupos podem se organizar clandestinamente não para evitar o controle mas para tentar impô-lo. É inútil fingir que tais tentativas são sempre fúteis, porque mesmo que eles fracassem em influenciar a “História” (ou o que quer que isso seja), eles podem certamente ter impacto e se intersectar com nossas vidas cotidianas. Para tomar um exemplo, qualquer um que negue a realidade da conspiração deve certamente encarar uma difícil tarefa quando tentar justificar as atividades de certos elementos dentro da Inteligência e do Partido Republicano nos EUA durante as últimas poucas décadas. Não importa o Assassinato de Kennedy, esta perda de tempo espetacular; esqueça os remanescentes da Organização Gehlen (9) que estavam à espreita em Dallas; porém, como se pode sequer começar a discutir sobre os arapongas de Nixon, o Irã-Contra, a “crise” das poupanças e empréstimos (S&L) (10), as guerras-show contra a Líbia, Granada, Panamá e Iraque, sem alguma recorrência ao conceito de “conspiração”? E mesmo que acreditemos que os conspiradores estavam agindo como agentes de forças ocultas, etc., etc., podemos negar que suas ações tenham realmente produzido ramificações no nível de nossas próprias vidas cotidianas? Os Republicanos lançaram uma aberta “Guerra às Drogas”, por exemplo, enquanto secretamente usaram dinheiro da cocaína para financiar insurreições de direita na América Latina. Alguém que você conhecia morreu na Nicarágua? Alguém que você conhecia foi apanhado na hipócrita “guerra” à maconha? Alguém que você conhecia caiu na desgraça do vício em crack? (Não vamos nem mencionar os negócios da CIA com heroína no sudeste da Ásia ou no Afeganistão).
Como aponta Carl Oglesby, a teoria da conspiração mais sofisticada não pressupõe nenhuma trama singular, todo-poderosa, suprema, a cargo da “História”. Isso com certeza seria uma forma de paranóia estúpida, seja da Esquerda ou da Direita. Conspirações ascendem e caem, brotam e decaem, migram de um grupo para outro, competem entre si, fazem conluio, se colidem, implodem, explodem, falham, têm sucesso, suprimem, forjam, esquecem, desaparecem. Conspirações são sintomas das grandes “forças ocultas” (e portanto úteis como metáforas, se nada mais), mas elas também realimentam essas forças e algumas vezes até afetam ou infectam ou têm efeito sobre elas. Conspirações, de fato, não são A forma com que a história é feita, mas são antes partes de um vasto conjunto de miríades de formas nas quais nossas múltiplas estórias são construídas. A Teoria da Conspiração não pode explicar tudo mas pode explicar algo. Se ela não tem status ontológico, ainda assim ela realmente tem seus usos epistemológicos.
Aqui vai uma hipótese:
A história (com “h” minúsculo) é um tipo de caos. Dentro da história estão embutidos outros caos, se se pode usar um tal termo. O capitalismo “democrático” tardio é mais um destes caos, no qual o poder e o controle se tornaram extraordinariamente sutis, quase alquímicos, difíceis de localizar, talvez impossíveis de definir. Os escritos de Debord, Foucault, e Baudrillard, levantaram a possibilidade de que o “poder em si” está vazio, “desaparecido”, e foi substituído pela mera violência do espetáculo. Mas se a história é um caos, o espetáculo só pode ser visto como um “atrator estranho” (11), mais que como algum tipo de força causadora. A idéia de “força” pertence à física clássica e tem pouca função a desempenhar na teoria do caos. E se o capitalismo é um caos e o espetáculo um atrator estranho, então a metáfora pode ser ampliada – podemos dizer que as conspirações “Republicanas” são como os reais padrões gerados pelo atrator estranho. As conspirações não são causais – mas, então, nada é realmente “causal” no velho sentido clássico do termo.
Uma maneira útil pela qual podemos, por assim dizer, investigar no caos que é a história, é olhar através das lentes fornecidas pelas conspirações. Podemos ou não acreditar que as conspirações são meras simulações do poder, meros sintomas do espetáculo – mas não podemos rejeitá-las como desprovidas de qualquer significação.
Mais que falar da teoria da conspiração, poderíamos em vez disso tentar elaborar uma poética da conspiração. Uma conspiração seria tratada como um constructo estético, ou constructo de linguagem, e poderia ser analisada como um texto. Robert Anton Wilson fez isso com sua longa e divertida fantasia “Illuminatti”. Podemos também usar a teoria da conspiração como uma arma de agit-prop. Conspirações do “poder” fazem uso da pura desinformação; o mínimo que podemos fazer em retaliação é rastreá-la até sua origem. Sem dúvida deveríamos evitar a mística da teoria da conspiração, a ilusão de que a conspiração é todo-poderosa. Conspirações podem ser dinamitadas. Elas podem até mesmo ser impedidas. Mas temo que elas não possam simplesmente ser ignoradas. A recusa em admitir qualquer validez à teoria da conspiração é ela mesma uma forma de ilusão espetacular – crença cega no mundo cor-de-rosa liberal, racional, no qual todos temos “direitos”, no qual “o sistema funciona”, no qual “valores democráticos prevalecerão a longo prazo” por que a natureza assim o determinou.
A História é uma grande bagunça. Talvez conspirações não funcionem. Mas temos de agir como se elas realmente funcionassem. Na realidade, o movimento não-autoritário não somente necessita de sua própria teoria da conspiração, ele necessita de suas próprias conspirações. “Funcionem” elas ou não. Ou respiramos juntos ou nos sufocamos todos por iniciativa própria. “Eles” estão conspirando, nunca duvide disso, esses palhaços sinistros. Não apenas deveríamos nos armar com a teoria da conspiração, deveríamos ter nossas próprias conspirações – nossas TAZ – nosso comando de mercenários da guerrilha ontológica – nossos Terroristas Poéticos – nossas maquinações do caos – nossas sociedades secretas. Proudhon assim o disse. Bakunin assim o disse. Malatesta assim o disse. É a tradição anarquista.
Notas:
1. Controversa organização política direitista de Washington, DC, conhecida como anti-comunista e anti-semita, e que através de seu jornal Spotlight lançou uma campanha contra o agente da CIA E. Howard Hunt, acusando-o de conspirador no assassinato de J. F. Kennedy. (Nota do Tradutor)
2. Organização de ultradireita criada em 1958 em Indianápolis em homenagem a um agente da CIA e também missionário protestante. (N. do T.)
3. Conta a lenda que o CFR (Council on Foreign Relations), o Conselho de Relações Exteriores, é o braço americano de uma sociedade ultra-secreta originalmente organizada na Inglaterra, com os planos de instruir e governar todas as fases da política externa americana, e o objetivo final de dissolver as fronteiras mundiais e estabelecer um governo mundial único. Do CFR teriam participado quase todos os diretores da CIA e todos os secretários da Defesa dos EUA. Os Bilderberg seriam uma poderosíssima e semi-secreta sociedade da elite internacional que se reúne anualmente para definir os programas econômicos e políticos mundiais, com representantes somente do mundo anglo-saxão e da Europa ocidental. David Rockefeller, por sua vez, teria sido patrono do CFR, membro dos Bilderberg e criador da denominada Comissão Trilateral, outra dessas sociedades secretas da elite mundial que incluiria aqui membros do Japão. Teorias conspiratórias “clássicas” ligam essas três organizações ao grupo dos Illuminati, numa trama de dominação mundial. (N. do T.)
4. O anticapitalismo de direita se traduz, entre outras coisas, pela nostalgia aristocrática de um passado pré-industrial por certos grupos ultradireitistas, como, por exemplo, a TFP no Brasil, ou certos grupos monarquistas. (N. Do T.)
5. Editora underground de Los Angeles, célebre nos meios contraculturais por publicar os Amok Dispatches, verdadeiras fontes bibliográficas de todo tipo de material subterrâneo, conspiratório, transgressor, banido. (N. do T.)
6. Banda gótico-eletrônica de tendência satanista formada por Nickolas Schreck e Zeena LaVey, filha de Anton LaVey, fundador da Igreja de Satã.(N. do T.)
7. Mae Magnin Russel é tida como a “rainha das teorias da conspiração”. Ela acreditava, por exemplo, que os assassinatos de Kennedy e de Martin Luther King, os assassinatos perpertrados por Charles Manson e seu grupo, e o sequestro de Patty Hearst tinham todos sido planejados pela extrema direita juntamente com a CIA, o FBI e a Máfia numa massiva conspiração feita para desacreditar a esquerda e estabelecer um estado fascista. (N. do T.)
8. Cliometrics ou “história social-científica quantitativa” designa uma técnica de análise histórica fundada na quantificação de dados empíricos. Seus defensores mais radicais consideram-na o método científico por excelência da análise histórica.
9. Organização de inteligência baseada na Alemanha, a Gehlen Org seria composta de antigos agentes da SS e da Gestapo - incluindo, entre outros, Klaus Barbie -, tendo sido fundada, na Alemanha do pós-guerra, com a ajuda do advogado dos Rockfeller, Allen Dulles, que teria contratado o espião alemão Reinhart Gehlen para reviver a agência de espionagem SS e se tornaria depois a agência espiã BND da Alemanha Ocidental. Na verdade, a CIA teria sido formada a partir da Gehlen. (N. do T.)
10. S & L (Savings and Loans) - No final da década de 80 e início da de 90, as “poupanças e empréstimos” norte-americanos faliram. Em 1984, a administração e o Congresso dos EUA acreditavam que a crise das poupanças e depósitos era em torno de 20 a 30 milhões de dólares. Operadores do setor então inundaram Washington com lobistas, contribuições para campanhas, e viagens gratuitas de avião para recantos paradisíacos, entre outros agrados. Como resultado, o problema foi varrido para debaixo do tapete. Ele só voltou a aparecer nas eleições presidenciais de 1988, quando se descobriu uma crise que alcançava entre 400 e 500 bilhões de dólares. (N. do T.)
10. Na teoria do caos, atratores estranhos são sistemas dinâmicos atraentes e magnéticos que quando entram em estado de caos passam a ser designados como tais. Em 1970, físicos passaram a estudar os sistemas dinâmicos do imprevisível, denominando-os de atratores estranhos, expressão usada por David Ruelle e Floris Takens. Pelo fato dos atratores não serem nem curvas e nem superfícies lisas, mas objetos de dimensões não inteiras, Benoît Mandelbrot denominou-os de fractais. (N. do T.)

Tradução de Ricardo Rosas

Link: Site de Hakim Bey (www.hermetic.com/bey).

segunda-feira, 18 de junho de 2007

O Controle do Virtual

(*) COPYRIGHT: José Bragança de Miranda (1996). O texto pode ser lido e reproduzido livremente para uso pessoal. Para outras finalidades que não as estritamente pesoais, o texto não pode ser publicado ou reproduzido sob nenhum meio, sem autorização prévia do autor.
«...Interrupting the mutness of picturing with a seriously playful display of language...» Barbara KRUGER

O virtual que, filosófica e teologicamente, é uma categoria com longa história, está a tornar-se numa das categorias centrais da cultura contemporânea. Pretendemos analisá-lo na sua diferença ao que se poderia chamar «espaço de controlo» ou cyberspace. A relativa consistência que a tecnologia da informação está a dar ao virtual trouxe para a frente do problema decisivo do controlo, que se configura como uma relação «política» mediada tecnicamente. A cibernética de Wiener, os programas de Turing, a inteligência artificial, entre outras disciplinas, são tudo passos no caminho para a emergência do espaço de controlo. Parecendo confundir-se o virtual e o cyberspace - de facto têm muitos traços comuns - é essencial analisá-los separadamente. Seria possível mostrar que a tecnologização do virtual foi preparada pela metafísica, e a teologia ocidental, esse bloco que Heidegger denominava por «onto-teologia ocidental». Neste processo desempenhou papel determinante o esquema aristotélico da dynamis/energeia, modelo «metafísico» em que assentou toda a tecnologização ocidental1. Este modelo constituía um estrutura de realização, articulando potencialidade e actualização. Ou seja, de entre várias possibilidades apenas uma era realizada em cada momento (respeitando assim o princípio da identidade de que não é possível existir ao mesmo tempo A e não-A). Neste esquema o virtual identificava-se com a potencialidade, servindo apenas para hierarquizar as possibilidades realizáveis. Algo que começou por ser teológico e depois político, está a tornar-se hoje tecnológico2. O espaço de mediação clássica, que tendo uma dada relação ao controlo ainda não era o espaço de controlo3, implicava a prioridade dos fins, uma lógica do telos e um «demiurgo» (um artesão). Este espaço de realização, tinha a sua matriz na oposição entre possibilidade e existência, que se modulava numa série de outras oposições, como as de princípio e fim, de presença/ausência, de hard e de soft, de permanente e de efémero, etc. etc. A dualidade destas séries era absolutamente necessária, mas a verdadeira linguagem binária acabaria por ser a informática, que já era exigida pelo binarismo clássico e que a lógica clássica de certo modo antecipava. O virtual era o espaço do imaginário (determinado metafisicamente, mas também teologicamente ou politicamente), onde se intuíam, ou se construíam as possibilidades. Sendo semelhante ao espaço de controlo, o determinante era a ideia de realização de algo até então apenas possível4. Esse processo era ambivalente: por um lado, levava à separação entre ideal e material, entre presente e ausente, ou seja, realizando ora um, ora outro5; por outro lado, virtualmente estes elementos mantinham-se tensionalmente ligados. A técnica funcionava como auxiliar do processo de realização. Com a libertação da técnica que ocorreu na modernidade, a técnica acabaria por pôr em causa o próprio espaço onde funcionava, dominando-o crescentemente. Com as tecnologias da informação a técnica determina a realização dentro de processos de controlo abrangentes. Daí que o virtual emirja explicitamente, confundindo-se agora não com o espaço «real», mas com o espaço de controlo. Trata-se de distingui-los, muito dependendo dessa distinção. Nos nosso dias está-se a verificar o choque entre o espaço clássico da realização (cujo conceito político central era o de «dominação») e o espaço de controlo actual (o controlo é transpolítico) 6. Hoje o virtual está em tensão com a potencialidade, e de duas uma: ou o virtual é uma intensificação do potencial que suportava a realização, ou é uma forma de o menorizar, aligeirando a experiência da grande maquinaria da dominação. A incompreensão deste processo leva a que, um pouco ilusoriamente, se tente prolongar as estratégias teológicas e políticas de colonização do mundo que acompanhou a instalação da modernidade. Depois de colonizado o novo mundo, a América, hoje a América pretende colonizar o espaço da virtualidade, dotado de uma nova consistência, já não imaginária, mas não menos flexível e envolvente que o imaginário. O que leva a perigos, pois como diz Florian Rötzer: «The price we pay for the freedom of traveling weightlessly in virtual spaces, which are no longer subject to the laws of physics, is the totalitarian control over the environment, over each of our movements and perhaps over every thought as well, should we be successful in connecting the neural CRT to the computer»7. Como dizíamos, por razões graves que irão sendo explicitadas, é preciso pressupor uma tensão entre o virtual e o espaço de controlo. Não é possível concordar com as análises de Gilles Deleuze, bem importantes por sinal, sobre as «sociedades de controle», que teria substituído totalmente as formas anteriores de dominação. O problema é que é praticamente impossível distingui-los e as diversas reflexões de que começamos a dispor não ajudam muito a fazê-lo. O espaço de controlo, contrariamente ao espaço de realização, que era fechado e rigidamente centrado, é agora aberto e acentrado. Não é por esta característica que se distingue do virtual. Diria, ainda demasiado provisoriamente, que o virtual é «capturado» pelo controlo. De facto, o cyberspace é um espaço de modulações, de permanente retraçamento, de linearização absoluta, controlando as regras mais que as posições. Mas isso só é possível porque o virtual dá uma efectividade a todas as posições, sejam elas quais forem8. Bom exemplo disso é o hypertext. A possibilidade de controlo absoluto tem a ver com a possibilidade de uma tradução generalizada em linguagem digital, seja dos corpos seja das regras, seja das posições. O facto de uma imagem exigir mais bits não impede que a sua ocupação desse espaço seja idêntica à da escrita. O cyberspace opera uma espécie de linearização do virtual, estabilizando-o como espaço de suporte. Ou seja, para se transformar o espaço virtual em algo controlável este tem de ser linearizável, tudo se reduzindo a uma banda de dados de computador (como é exemplificado pelo programa Genoma). Depois é preciso um controlo desse controlo, e portanto uma linearização de segundo nível e por aí fora, numa circularidade que ocorre fora do tempo, a que paradoxalmente se chama «tempo-real»9. Como mostra William Burroughs é um tempo da morte infinitamente suspenso sobre o espaçamento do controlo. À pergunta: «If control's control is absolute why does control need to control?» vem a resposta sintomática: «Control needs time»10. Ou seja a única coisa que o controlo precisa é de tempo, mas para o abolir e realizar-se como controlo. Toda a necessidade ou desejo, é uma forma de dar tempo ao controlo11. Tese extraordinária que ainda está por explorar. Nos nossos dias ainda mal podemos começar a experienciar o que está a ocorrer. De facto, este processo está ainda a dar os primeiros passos, tendo muito de imaginário. Sintomaticamente foi o imaginário que começou a ser invadido pelo espaço de controlo, como o revela o enorme desenvolvimento dos jogos de computador, que está a constituir uma cultura própria. Esses jogos foram, como diz Ed Keller «one of the primary examples of an extension into cyberspace of the operative realm of the virtual in a way that is specifically spatial (as an extension of the subject into a virtual space through telepresence)»12. Este fenómeno que começou nos jogos está a afectar todos os domínios, indo dos arquivos à arquitectura, do entretimento as paixões. Dada a radicalidade deste controlo do controlo que é o cyberspace parece irrisória a tentativa da Realpolitik que procura servir-se do controlo para sobreviver. Apenas fortalecendo o que utiliza por necessidade absoluta. Contrariamente à visão utópica, como a do filósofo americano Mark Taylor, para quem com o virtual «o poder se tornou imaginário» e em que «ninguém está no controle»13. Ora, o problema agrava-se quando o controlo se se separa do poder. É que o poder enquanto dominação usava o controlo como auxiliar, enquanto que agora o controlo usa o poder como simulacro para melhor se disseminar. Por mais que o poder, tal como se estruturou na modernidade, procure vigiar todo o espaço, criando uma espaço de segurança total, acabou por o fazer em fracasso. A resposta a este fracasso passa pela intensificação do controlo (e da técnica, que tem aqui analogias surpreendentes, tendo passado de auxiliar para directora). Brian Massumi fala de uma potência ligada ao virtual e um poder ligado ao actual, como se o poder fosse apenas uma concretização e abaixamento do virtual. Mas as coisas parecem ser mais complexas: pois o virtual é o espaço de mediação imediata que tende a envolver todo o mundo, virtualizando-o. Enquanto cyberspace tudo se joga na actualização de certas possibilidades, provenientes do arquivo geral da experiência que é a cultura. Só que essa actualização é puramente simulacral, pois se tudo se pode actualizar é porque é indiferente aquilo que é actualizável. O virtual pode servir assim de espaço de suporte para a inscrição imediata do mundo e dos corpos no controlo. No fundo tudo depende de se conseguir distinguir a virtualidade da potencialidade. Será que se deve ao facto da existência, da efectividade? Na verdade, o controle implica pensar em relação à possibilidade. As possibilidades infinitas equivale, de algum modo, à virtualidade (que se torna efectivo sempre no singular), e em contragolpe, o cyberspace corresponde a finitização do virtual (que, paradoxalmente, leva sempre à indiferenciação). Mais do que falar-se de distingui-los, deveríamos dizer que estão misturados no mesmo processo. O carácter mesclado do controlo deve-se, tudo o indica, à tecnologização do virtual, mas também por à sua colonização a partir do arquivo da cultura. A instrumentalização do virtual como cyberspace ganha crescente força à medida que o virtual desaparece do imaginário e se torna em algo consistente, regrado, prolongando o espaço da cultura que é o nosso. A«impureza» do controlo actual, que ainda é obrigado a desdobrar-se no tempo, até se tornar controlo de controlo (Burroughs), passa por um fenómeno que estava preparado na modernidade e que agora emerge explicitamente. Refiro-me à criação de um bloco ultra-denso formado pelas máquinas, o desejo e os químicos. Perante os nosso olhos está a formar-se esse bloco, cuja génese remonta ao início da «modernidade». Revela-se assim como provisória a oposição entre razão e paixão, funcionando ambas como preparadoras desse «bloco», sendo no cyberspace que a essa fusão é possível, sem deslassamento14. A primeira, preparando os manipuladores e a segunda os pacientes. A pureza absoluta do controlo dispensaria a mescla de químicos (drogas) com as máquinas, tudo se ligando instantaneamente e sem obstáculos. A impureza de um controlo ainda hesitante, em torno do qual se luta, exige essa «álgebra do desejo» de que falou tão profeticamente William Burroughs15. A sua forma actual é a do cyberspace, sem que possamos ainda sonhar até onde pode chegar16. Intuímos, porém, que a sua natureza é alucinatória. Di-lo William Gibson no seu famoso romance: «o ciberespaço é uma alucinação consensual experimentada diariamente por milhares de milhões de operadores autorizados». Talvez suceda que o alucinatório acabará por não precisar desses meios rudimentares de ligação. Mas a própria existência dessa tendência revela o caminho por que estamos a adentrar-nos. Que levava já McLuhan a dizer em 1969 que «A atracção pelas drogas alucinogéneas é um meio de alcançar a empatia com o nosso meio ambiente electrónico, ambiente esse que é em si uma viagem interior sem drogas»17. O complicado aparato de luvas e de eléctrodos que hoje simulam a «realidade virtual» exige justamente formas de apagamento da realidade «real» do metal e das próteses para se poder atingir o estado alucinatório. A química acabará por o fazer, fazendo de todo o movimento, simples quimiotropismos. Ou enxertando-se directamente no cérebro, simples electrotropismos. O imaginário do zaping dissemina-se, tudo se resumindo a uma controlo remoto, mas não menos efectivo de uma «montage of attractions» (Sergei Eisenstein). Mas o que está subjacente a este movimento, é o prolongamento da vontade teológica de dominar a existência na sua totalidade, i.e., controlando todas as virtualidades e através dela realizando todas as possibilidades. Parodicamente já Jorge Luis Borges falara de um mapa à escala 1:1, que deixara de ser utilizado e que apenas se revela nas suas ruínas quando as tempestades de areia do deserto as traz à luz do dia. Esse mapa arcaico, que se confundia com a totalidade da Terra, era o mapa teológico, ou aquele que resultará de uma época pós-tecnológica. Esse lógico fantástico que foi Lewis Carrol refere também, numa das suas obras, a existência de um mapa desse género, que utilizaria o próprio território como mapa, com a vantagem de que seria muito mais fácil de actualizar que os outros mapas. Todo o acto seria cartografável, arquivável, pois a dimensão simbólica, da distância seria desnecessária nesse mapa, que aparentemente ainda pertence ao universo do simbólico, ou melhor, da mediação. Chegar-se-ia, assim, como diz Candeiras, a um «Ciberespacio como espacio virtual agregado y total»18. Esta nova possibilidade de realizar ateologicamente a totalidade é um processo de actualização, como se refere em Lewis, pois é isso que está em causa, que o mais mínimo movimento, seja retraçado, arquivável e isso só é possível com o controlo do virtual, enquanto espaço de efectividade em geral. Os perigos desta tendência são claros: criar-se-ia uma Terra única, onde tudo está suportado numa tecnologia evanescente, anulando-se as diferenças entre o humano e o não humano. Tendência celebrada pelos cyberpunks, mas que é inaceitável, pelo menos para aqueles que consideram que a liberdade humana implica uma ruptura com a «natureza». Na verdade está a tornar-se claramente problemática a fusão do virtual controlado tecnologicamente como cyberspace com a Terra, o inorgânico. Não é por acaso que tudo se joga na tentativa de povoar esse nova espaço, mas isso apenas reforça o automatismo do cyberspace. É preciso analisar as condições em que é possível lutar contra o controlo sem o reforçar. O que passa por uma outra compreensão do virtual, naquilo que ele tem de radicalmente distinto. É preciso privilegiar o virtual, não apenas enquanto virtualização da «realidade», em si mesma pesada, demasiado pesada, e que foi sempre a história das possibilidades vencedoras19, mas enquanto espaço outro, talvez da mesma natureza da Khora de Platão. Esse espaço outro foi algures descrito por Foucault como um «espaço do dehors». É um espaço de queda heteróclita de tudo, de fragmentação de toda a totalidade, sem princípio nem fim. Mas é nele que ocorre a incessante declinação da experiência em torno de singularidades não retraçáveis, que estão sempre «algures». O virtual seria a sombra da experiência, onde o real pode finalmente aceder sem terror nem violência. Esta simples possibilidade libertar-nos-ia de séculos de violência, de nihilismo. Enquanto a potenciação que lançou a máquina do controlo é negativa - a realização de uma possibilidade impede, desloca ou substitui outras - já o virtual é afirmativo. Várias possibilidades têm existência efectiva, num tempo que não é nem o da cronologia nem o da durée. Que é o tempo da finitude do humano. O actual empobrecimento da experiência, que é povoada pela telepresença, pela voz mediada tecnologicamente, pode ser contrariado pela arte, mas coloca como questão última a política20. Dada a sua fragilidade, que se apoia numa incompletude da técnica, numa insuficiência do controlo, tudo se joga no tempo, na tensão que ocorre entre ligação e desligação, entre velocidade e demora. Deste ponto de vista é incorrecto afirmar, como faz Kerckhove que «Il est désormais possible de réaliser une installation par laquelle le point de vue mental intérieur de l'imaginaire créateur peut être renversé techniquement vers l'extérieur, sans perdre tous les pouvoirs de contrôle qu'il possède sur la fabrication, la modification et la substitution des images mentales»21. Porque se misturam aí duas coisas bem distintas: a efectivação de possibilidades que não negam outras, i.e., que não têm de destruir outras para se actualizarem, mas também a ideia de uma totalidade de controlo que impeça a entrada em pane da tecnologização do virtual. Mas justamente enquanto o virtual é o «espaço do dehors», já o cyberspace é a negação da exterioridade, a imediaticiade da ligação de tudo com tudo. A vontade de controlar o controlo apenas o potencia. Mas também não é possível abandonar o espaço aberto pelas novas tecnologias. O fracasso, chegados ao ponto a que chegamos, será mais catastrófico do que em qualquer outra altura da história22. É preciso saber responder a este perigo, Daí que se precise de uma arte da distância, de um política da divisão, de uma lógica da declinação, que salve tudo o que fizemos de nós, deixando suspensa na sua exterioridade virtual. William Burroughs dá-nos uma lição política ao lutar esteticamente contra a linearização, a ligação forte. A sua obra foi das poucas que, neste século, conseguiu pensar as condições em que é possível intervir na fusão das máquinas, do bioquímico e das paixões, que constituem o bloco alucinatório que nos atrai irremediavelmente. E cujo término equivaleria à pura vitória do controlo ou à barbárie.
José A. Bragança de Miranda
1 - Nos últimos anos tem-se vindo a consolidar o interesse pela maneira como Aristóteles articula a potencialidade e actualidade. O estudo pioneiro é o de Martin Heidegger: Aristoteles Metaphysik IX. Há tradução francesa: Heidegger - Aristote. Métaphysique. De l'Essence et Réalité de la Force, Paris, Gallimard, 1991)
2 - Sobre as implicações políticas e tecnológicas do esquema da potencialidade, cf. Christoph Flüer - «Quod racio principatis et subjecti sumitur ex racione actus et potentie» in REVISTA DA FACULDADE DE CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS, 1 VOL, 1994, PP.127-142.
3 - Não por acaso no mito do progresso pressupunha-se a sua realização automática sem qualquer esforço acessório e exterior, um pouco já como Adam Smith falava da «mão invisível» do mercado, dispensando toda a intervenção.
4 - Não por acaso a modernidade, enquanto predomínio da realização, era dominada pela ideia de projecto e de programa. Cf. o meu livro Analítica da Actualidade, Lisboa, Vega, 1994.
5 - Por exemplo, na política surgiam os dois irmãos inimigos, a Realpolitik e a utopia, por dissolução da oposição entre material e ideal. Mas os dois comunicavam no espaço do imaginário virtual.
6 - Derrick de Kerckhove reconhece a existência de «dois» virtuais: «jusqu'à la révolution industrielle, consécration de la dynamique de la machine à imprimer, c'est à dire l'univers newtonien de la pesanteur, nous avons eu affaire à du virtuel "lourd", fortement conditionné par des finalités économiques et techniques. La métaphore technique fondamentale a été celle de l'énergie, potentiel brut plutôt que virtuel. Mais depuis que nous sommes entrés dans l'ère dite de l'information, du code électronique et des types de programmation qui ne passent même plus par le langage humain, le virtuel est devenu de plus en plus léger, son immatérialité invitant l'immatérialité des techniques elles-mêmes». Mas o virtual é um fenómeno bem mais lato.
7 - Cf. RÖTZER, Florian - «Virtual Worlds: Fascinations and Reactions» in PENNY, Simon (org) - Critical issues in Electronic Media, New York, Sunny, 1995, p.120.
8 - Daí o carácter ilusório de teses como as de Lyotard, na Condition Post-Moderne, sobre a invenção das regras como forma de responder ao império do tecnológico. Estas também podem ser virtualizadas, dependendo apenas da mudança de nível. E todo o salto de nível pode ser linearizado num nível superior.
9 - Cf. Jean Baudrillard - « The Virtual Illusion: Or the Automatic Writing of the World» in THEORY, CULTURE AND SOCIETY, Vol XII, 4, 1995, pp. 97.108.
10 - BOCKRIS, Victor - A Report from the Bunker with William Burroughs, Londres, Vermillion, 1982. 11 - Tese já anunciada por Rousseau no seu ensaio sobre as artes e as ciências.
12 - Cf. Ed Keller - «Cinematic Thresholds: Instrumentality, Time & Memory in the Virtual», mantis@basilisk.com, 1995.
13 - Cf. Imagologies. Media Philosophy, Londres, Routledge, 1993.
14 - O que é novo é a capacidade de jogar com a razão e a paixão ao mesmo tempo. Assim, enqaunto que anteriormente o espaço diurno da razão estava nitidamente separado do espaço nocturno do prazer, hoje com o novo espaço eléctrico essa distinção começa a esbater-se.
15 - Cf. o excelente tratamento de Eric Mottram - William Burroughs. The Algebra of Need, Londres, Marion Boyars, 1977.
16 - Os cyberpunks sonham já com os cyborgs.
17 - Marshall McLuhan - Entrevista à Playboy, 1969. Fala-se que Jerry García, do grupo rock Grateful Dead, depois de ter assistido a uma demonstração da realidade virtual, teria comentando: «Conseguiram proibir o LSD. Mas não vejo como irão conseguir proibir isto».
18 - Cf. CANDEIRA, Javier - «Bienvenidos à la Galaxia Virual in BALSA DE MEDUSA, 30/31, 1994, pp.97-116
19 - Estou a referir-me a uma conhecida passagem das «teses sobre a filosofia da história» de Walter Benjamin.
20 - Mas é uma política que mal estamos preparados para compreender, mas que não se confunde com a Realpolitik. O exemplo da administração Clinton revela a vontade controlar o controlo, sendo um bom exemplo da maneira como os políticos clássicos tentam colonizar este espaço.
21 - KERCKHOVE, Derrick de - «Le virtual, imaginaire théchnologique» in TRAVERSES, N° 44.
22 - Um breve exemplo: a falha do controlo dos paióis de pólvora no século passado, podia provocar uma quantidade de mortes e destruições apreciáveis, mas a falha de controlo ao nível da bomba nuclear, pode pôr em causa toda a humanidade. E o que dizer da experimentação com os vírus?

«O Fim do Espectáculo»

(*) COPYRIGHT: José Bragança de Miranda (1995). O texto pode ser lido e reproduzido livremente para uso pessoal. Para outras finalidades que não as estritamente pessoais, o texto não pode ser publicado ou reproduzido sob nenhum meio, sem autorização prévia do autor.*************************************

Com o suicídio terminou a luta de Guy Debord com a «sociedade do espectáculo». Se fosse verdadeira a tese de que o espectáculo impera, e impera absolutamente, com este gesto consumar-se-ia a sua entrada no espectáculo, agora na cena e não já no público. Algo de indefinido faz com que Debord escape a este destino, no momento mesmo em que parece que a sua aceitação é geral. É certo que Debord gozara sempre de uma fama subterrânea, a que sempre se pretendeu furtar. Mas o eclipse voluntário, antecipando uma espécie de suicídio, desperta atenções. Aliás, depois de durante anos ter editado em editoras marginais e pequenas revistas, já em 1990 começou a ser publicada pela Gallimard, essa editora dos Grandes nomes da cultura. Para alguns, inseridos na tradição da Internacional Situacionista, de que fora um dos membros mais influentes, esse é um resultado longamente preparado, e esperado. É o caso do grupo que se oculta sob o «nome colectivo» de Luther Blissett, que fala na consumação da «deboredom» (reino da chatice) como um gesto preparado por «Guy The Bore» (Guy o chato). Também Régis Debray, que se prepara para lhe ocupar o lugar com a sua inefável mediologia, insiste no paradoxo: «Não existe actualmente um publicitário, um responsável pela programa televisiva, um conselheiro de comunicação, um arrivista da cultura que não se passei com A Sociedade do espectáculo debaixo do braço». Debord está noutro sítio, escapando-lhes a estes que o atacam e aos outros que o defendem, com o seu humor muito especial. Sabe-se que nos seus filmes recorre abundantemente à voz off, e a sua voz contínua fora destas pequenas paixões. Num desses filmes, talvez o mais importante, Hurlements à faveur de Sade, uma voz dizia: «A ambiguidade é a perfeição do suicídio». Debord é essa ambiguidade feita pessoa. Ocultando-se infinitamente, quando aparece fá-lo com frases que não ficam nada a dever à megalomania de Nietzsche. No roteiro de Im Girum imus nocte mostra-se convencido de que a sua obra terá «acabado por sacudir a ordem do mundo». Mas aqui o mais grave não é a pseudo-temática da recuperação que alimentava o ressentimento dos anos 60, nem mesmo que os media o usem por aquele abuso característico que é o de aquecer as máquinas com algumas paixões postiças, como sejam as provocadas pela morte dos outros. O mais preocupante é que, pelo menos desde há 20 anos se tem vindo a fazer com Debord o que já tinha sido feito a McLhuan. A sua redução a uma fórmula: a sociedade do espectáculo, metonímia de Debord, como o TIDE é a metonímia dos detergentes. Por mim estou convencido que por trás desta fórmula havia algo de novo, que ainda está bem vivo e actuante. Escolho por isso a via de analisar este conceito de espectáculo, de modo a determinar da sua utilidade para a vida. Ou da sua inutilidade. Mas também de desinseri-lo das cadeias com que foi amarrado pelo saber, pelos media. Para evitar, em suma, o seu anestesiamento pela cultura contemporânea. Não por Debord, mas por nós. Antes de mais seria preciso distinguir entre a fórmula do «espectáculo» e as potencialidades da obra de Debord. Aparentando confundir-se, há entre ambos aspectos uma tensão apreciável. Algumas das críticas a Debord provêm desta confusão. É o caso de Regis Débray que reduz Debord a um pequeno acontecimento de reciclagem do marxismo e das análises do fetichismo da mercadoria. As frase famosas sobre a mundo como uma «imensa acumulação de espectáculos», ou então que «o espectáculo não é conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas mediadas por imagens... » , traz a marca dessa ambiguidade. O oposição entre espectáculo e vida é inquietante, pois pressupõe que deverá existir uma apresentação directa da vida, e que toda a representação ou imagem implica uma negação dessa mesma vida. Nós, herdeiros do barroco mediterrânico, temos razões para suspeitar de uma crítica que recusa a mediação, como momento de divisão, de separação. Como disse um dia Beckett, arrancadas todas as máscaras, por trás estaria o vazio ou a morte. Aparentando Debord estar a prosseguir a crítica marxista ao valor abstracto, à ideologia, etc., elemento que está nitidamente presente na sua obra magna, faz mais do que isso. Pretendendo recorrer à mediação para a recusar, ao mesmo tempo ele revela que a mediação e a imagem são o novo do nosso tempo. Mais ainda, que não se trata de algo abstracto, antes palpável, existencialmente pertinente. O que faz dele um autor essencial, junto a Walter Benjamin e a McLhuan. Isso sobreleva o facto de continuar a funcionar dentro do esquema da dialéctica hegeliana, corrigida pela teoria da alienação do neo-marxismo de Lefèvbre, Marcuse, Gabel. A maior debilidade provém, contudo, daí: o espectáculo é visto uma imagem invertida da «realidade social», que se separou da sociedade para se voltar contra os homens. Daí a sensação de que Debord se deixa apanhar pela patologia apocalíptica, denunciando incansavelmente tudo e todos, levando-o a recusar a negatividade, a divisão, a separação, em suma, a finitude do homem moderno. Se virmos a sua prática política na Internacional situacionista, baseada na permanente divisão do movimento, por uma necessidade que parece advir de uma necessidade absoluta do seu pensamento, se reflectirmos no tipo de cinema que praticava, verificamos que existe um outro Debord, que nos pode interessar bem mais que o Debord basic da fórmula da «sociedade do espectáculo». A ambiguidade é então a seguinte: ele que recorria a procedimentos de negação que foram dos mais radicais deste século, e ao mesmo tempo recusa-os na teoria, sacrificando-os a uma história de reconciliação final, da comunidade humana realizada e «sem história». Tudo indica que Debord é verdadeiramente radical no momento da criação, que a própria criação revela uma política nova, capaz de aceitar gestos únicos e irrepetíveis que mais do que se legitimarem pela «humanidade do homem» são toda a humanidade em si. Mas, por outro lado, a sua teoria do espectáculo, e mais ainda, a sua concepção nostálgica da história em busca de uma unicidade perdida, é antitética de tudo isso. É preciso reactivar este diferendo interno da gesta de Debord. No fundo esta necessidade estava implícita na tese de que o espectáculo se disseminara absolutamente, estendendo-se a toda a experiência. A ser assim, então já não haveria um não-espectáculo, a própria divisão entre o actor activo, e o espectador passivo, desapareceria. Não fora este resultado já previsto por Nietzsche quando, no Crepúsculo dos Ídolos, mostra que a revelação de que tudo é aparência, leva a abolir a própria distinção entre aparência e verdade (ou não-aparência)? Não nos faz isso mais responsáveis pelas imagens que inventamos, sem a ilusão de que alguns são os proprietários da imagem da verdade? Quando o espectáculo emerge como espectáculo no estado puro, o que surge é a experiência como meio absoluto. Contrariamente ao que pressupunha Debord o problema não é a divisão nem a separação, mas a fusão, a indiferenciação. Tanto mais grave quanto o nosso meio dá ao virtual um suporte tecnologicamente estável. A actual discussão em torno de Debord é bem sintomática. A sua superação por Regis Débray (nos Manifestes Médiologiques) em busca de uma nova ciência, pesadamente inútil; a sua radicalização por Giorgio Agamben (na Comunidade que Vem) que identifica o espectáculo com a perda da linguagem e, portanto, da política humana; a sua dulcificação pelo filósofo americano Mark Taylor (em Imagologies) que nele um dos antecipadores do «pós-moderno», em que «o poder se tornou imaginário» e em que «ninguém está no controle», revela que há algo de excessivo em Debord, que escapa à apreensão. É esse «algo» que deve ser voltado contra o próprio Debord. Por mim suspeito que é na luta contra o controlo que tudo se joga . Hoje está em causa não apenas o controlo dos homens, mas o controlo do controlo, que alimenta a ilusão de dominar a tecnologia, apenas a potenciando. O novo espaço cibernético tende a inscrever na sua estrutura virtual o espaço da vida, todos os locais, como o espaço da visão e das paixões. A tendência à fusão das máquinas com as paixões, a todos amarrando pela imagem mostra que é a resposta passa pela divisão, pela desagregação, pelos pequenos vincos que possamos fazer nessa superfície extensa e ligada que é a da mediação. A categoria de espectáculo pressupunha ainda uma distancia, uma separação, entre o que era espectáculo e o que não o era. A sua aplicação é mínima, pouco se podendo esperar dela. É interessante verificar que Debord tem afinidades secretas com um dos grandes génios do nosso século, William Burroughs, que teve a vantagem de extrair dos seus procedimentos artísticos toda a filosofia e política de que precisava. Num pequeno texto, Quick Fix, Burroughs está já a anos-luz da pesada dialéctica do espectáculo. Numa frase aparentemente enigmática diz-se: «The theater is closed» («o teatro fechou»). E, sem qualquer argumento, somos arrastados por outras frases que refulgem uma sobre outras, acentuando que já não há lugar fora do teatro, tudo ocorre no mundo, que estamos divididos nesse mundo, que não há lugar para onde escapar, que tudo se resume a cortar as «linhas» das palavras e dos sentimentos com as máquinas. E a injunção que, no fundo, estou convencido, fazia mexer Debord: «Smash the control machine» ("Destrói a máquina de controlo"). Esse é o desafio estético e político do nosso tempo. A famosa noção de espectáculo revela-se como aquilo que é: um efeito da máquina de controlo. Neste sentido é preciso lutar contra ela. E podemos contar com Debord, que nos fala em voz off, como no seu cinema, para essa luta. Apesar de todas as ambiguidades...

domingo, 17 de junho de 2007

A MISÉRIA DO MEIO ESTUDANTIL



A MISÉRIA DO MEIO ESTUDANTIL
Considerada em seus aspectos econômico, político, psicológico, sexual e, mais particularmente, intelectual, e sobre alguns meios para remediá-la(*)


(*) Texto Situacionista publicado por conta da seção de Strasbourg da União Nacional dos Estudantes da França em 1966 e redigido, na quase totalidade, por Mustapha Khayati

Tornar a vergonha ainda mais vergonhosa entregando-a à publicidade


Pode-se dizer, sem grandes riscos de errar, que o estudante na França é, depois do policial e do padre, o ser mais universalmente desprezado. Os motivos por que ele é desprezado são, com freqüência, falsos motivos produzidos pela ideologia dominante. Já os motivos por que ele é efetivamente desprezível e desprezado do ponto de vista da crítica revolucionária são recalcados e dissimulados. No entanto, os partidários da falsa oposição sabem reconhecê-los, e se reconhecer neles. Por isso, eles invertem esse desprezo real transformando-o numa admiração complacente. Assim, a impotente inteligentsia esquerdista (da revista Temps Modernes ao L’Express) fica pasma ante a pretensa “subida dos estudantes”, e as organizações burocráticas decadentes (do Partido Comunista à stalinista UNEF – União Nacional dos Estudantes da França) travam enciumadas batalhas pelo apoio “moral e material” dos estudantes.
Iremos mostrar as razões de tal interesse pelos estudantes e como elas participam positivamente da realidade dominante do capitalismo superdesenvolvido. E utilizaremos este trabalho para denunciá-las, uma por uma: a desalienação segue exatamente o mesmo caminho da alienação.
Todos os estudos e análises empreendidos até agora sobre o meio estudantil sempre negligenciaram o essencial. Nunca ultrapassaram o ponto de vista das especializações universitárias (psicologia, sociologia, economia) e permanecem assim fundamentalmente errôneos. Todos esses estudos e análises produzem aquilo que Fourier já denunciava como leviandade metódica, “visto que toca regularmente nas questões primordiais”, mas ignorando a visão total da sociedade moderna. Diz-se tudo dessa sociedade menos o que ela efetivamente é: mercantil e espetacular. Os sociólogos Bourderon e Passedieu, em sua pesquisa Os Herdeiros: os Estudantes e a Cultura, ficam desarmados perante algumas verdades parciais que eles acabaram por provar. E, apesar de toda a sua boa vontade, recaem na moral dos professores, a inevitável ética kantiana da democratização real através da racionalização real do sistema de ensino, ou seja, do ensino do sistema; enquanto seus discípulos, os Kravetz, julgam-se milhares a despertar, compreendendo sua amargura de pequenos-burocratas pela mixórdia de uma fraseologia revolucionária ultrapassada.
A instalação da reificação no espetáculo[1], sob o capitalismo moderno, impõe um papel a cada um dentro da passividade generalizada. O estudante não pode fugir a essa regra. Ele desempenha um papel provisório, que o prepara para o papel definitivo que irá assumir, como elemento positivo e conservador, dentro do funcionamento do sistema mercantil. É apenas uma iniciação, e nada mais que isso.
Essa iniciação reencontra, magicamente, todas as características da iniciação mítica. Ela permanece inteiramente desconectada da realidade histórica, individual e social. O estudante é um ser dividido entre o status atual e o status futuro – nitidamente distintos –, cuja fronteira será cruzada de forma mecânica. Sua consciência esquizofrênica lhe dá condições de se isolar numa “sociedade de iniciação”, ignorando seu futuro e encantando-se pela unidade mística que lhe é oferecida por um presente ao abrigo da história.
A mola mestra desse mecanismo é muito simples de descobrir: é duro olhar de frente a realidade estudantil. Numa “sociedade da abundância”, o status atual do estudante é de extrema pobreza. Originários, pelo menos 80 % deles, de camadas cuja renda é superior a de um operário, e 90 % deles dispõem de renda inferior à do mais modesto assalariado. A miséria do estudante está aquém da miséria da sociedade do espetáculo, da nova miséria do novo proletariado. Numa época em que uma parcela crescente da juventude está se liberando cada vez mais dos preconceitos morais e da autoridade familiar para, cada vez mais depressa, fazer parte do mercado, o estudante se mantém, em todos os níveis, numa “menoridade prolongada”, irresponsável e dócil. Se a crise juvenil tardia o coloca de alguma forma em conflito com sua família, ele aceita sem problemas ser tratado como uma criança nas diversas instituições que regem a sua vida cotidiana.[2]
A colonização dos diversos setores da prática social encontra sempre no mundo estudantil sua mais gritante expressão. A transferência para os estudantes de toda má consciência social mascara a miséria e a servidão de todos.
Mas as razões que fundamentam o nosso desprezo pelo estudante são de outra ordem. Elas não se referem apenas à sua miséria real mas também à sua complacência com relação a todas as misérias, sua propensão doentia a consumir alienação beatamente, nutrindo a esperança, face à falta de interesse geral, de chamar a atenção para a sua miséria particular. As exigências do capitalismo moderno fazem com que a maioria dos estudantes acabem conseguindo ser apenas pequenos funcionários (ou seja, o equivalente à função de operário qualificado no século XIX[3]). Diante do tão previsível caráter miserável desse futuro mais ou menos próximo, que irá “indenizá-lo” pela vergonhosa miséria do presente, o estudante prefere se voltar para o presente e orná-lo com prestígios ilusórios. A própria compensação é lamentável demais para que alguém se prenda a ela. Os amanhãs não cantarão, e ele fatalmente se banhará na mediocridade. Eis porque ele se refugia num presente vivido de modo irreal.
Escravo estóico, o estudante acredita que quanto mais numerosas forem as cadeias de autoridade que o prendem, mais livre ele será. Como sua nova família, a universidade, ele se julga o mais “autônomo” ser social, sem se perceber atado, direta e conjuntamente, aos dois mais potentes sistemas de autoridade social: a família e o Estado. Ele é o filho bem comportado e agradecido de ambos. Conforme a mesma lógica da criança submissa, ele participa de todos os valores e mistificações do sistema e as concentra em si. O que eram ilusões impostas aos empregados torna-se ideologia interiorizada e veiculada pela massa dos futuros pequenos funcionários.
Se a miséria social antiga gerou os mais grandiosos sistemas de compensação da história (as religiões), a miséria marginal estudantil só encontrou consolo nas mais desgastadas imagens da sociedade dominante, na repetição burlesca de todos os seus produtos alienados.
O estudante francês, na qualidade de ser ideológico, chega sempre tarde demais em tudo. Todos os valores e ilusões que fazem o orgulho do seu mundo fechado já estão condenados como ilusões insustentáveis, há muito ridicularizadas pela história.
Recolhendo um pouco do prestígio em frangalhos da universidade, o estudante ainda se sente feliz por ser estudante. Tarde demais. O ensino mecânico e especializado que lhe é ministrado já se encontra tão profundamente degradado (em relação ao antigo nível da cultura geral burguesa)[4] quanto seu próprio nível intelectual no momento em que ele tem acesso a esse ensino. Pela simples razão que a realidade que domina tudo isso, o sistema econômico, exige a fabricação maciça de estudantes incultos e incapazes de pensar. Que a universidade tenha se tornado uma organização – institucional – da ignorância, que a própria “alta cultura” se dissolva ao ritmo da produção em série dos professores, que todos esses professores sejam cretinos e que em sua maioria provocariam risos em qualquer público de liceu – isso o estudante ignora. E continua a ouvir respeitosamente seus mestres, com a vontade consciente de perder qualquer espírito crítico de modo a melhor comungar da ilusão mística de ter se tornado um “estudante”, alguém que está tratando seriamente de aprender um conhecimento sério, na esperança de que irá realmente receber o conhecimento das “derradeiras verdades”. Trata-se de uma menopausa do espírito. Tudo aquilo que hoje acontece nas salas das escolas e faculdade será, na futura sociedade revolucionária, condenado como barulho, socialmente nocivo. Desde já, o estudante provoca risos.
O estudante não se dá conta nem mesmo do fato que a história altera também o seu irrisório mundo “fechado”. A famosa “crise da universidade”, mero detalhe da crise mais geral do capitalismo moderno, permanece objeto de um diálogo de surdos entre diferentes especialistas. Ela traduz simplesmente as dificuldades de um ajuste tardio desse setor especial da produção a uma transformação global do aparelho produtivo. Os resíduos da velha ideologia da universidade liberal burguesa se banalizam no momento em que a sua base social desaparece. A universidade conseguiu julgar-se uma potência autônoma na época do capitalismo de livre troca e de seu Estado liberal, que lhe concedia uma certa liberdade marginal. Na realidade, ela dependia essencialmente das necessidades desse tipo de sociedade: fornecer cultura geral apropriada à minoria privilegiada que nela estudava antes de se integrar às fileiras da classe dirigente, da qual havia se ausentado apenas por um breve momento. Daí o ridículo desses professores nostálgicos[5], amargurados por terem trocado sua antiga função, bem menos nobre, de cães pastores conduzindo, segundo as necessidades planificadas do sistema econômico, levas de “colarinhos brancos” para seus respectivos escritórios e fábricas. São eles que opõem seus arcaísmos à tecnocratização da universidade e continuam imperturbáveis a recitar fragmentos de uma cultura dita geral para futuros especialistas que dela não saberão o que fazer.
Mais sérios e, portanto, mais perigosos são os modernistas de esquerda e da UNEF, liderados pelos “ultras” da FGEL (Federação Geral dos Estudantes Laicos), que reivindicam uma “reforma da estrutura da universidade”, ou seja, a sua adaptação às necessidades do capitalismo moderno. De fornecedoras da “cultura geral” para uso das classes dirigentes, as diversas faculdades e escolas, ainda ornamentadas de prestígios anacrônicos, são transformadas em centros de criação apressada de pequenos e médios funcionários. Longe de contestar esse processo histórico que subordina diretamente um dos últimos setores relativamente autônomos da vida social às exigências do sistema mercantil, nossos progressistas protestam contra os atrasos e deficiências a que ficam submetidos. São os partidários da futura universidade cibernetizada que já se anuncia aqui e ali.[6] O sistema mercantil e seus servidores modernos: eis o inimigo.
Mas é normal que todo esse debate passe por cima da cabeça do estudante, pelo céu de seus mestres, escapando-lhe inteiramente: o conjunto de sua vida e, com mais razão, da vida, escapa-lhe.
Por força de sua situação econômica de extrema pobreza, o estudante está condenado a um certo modo de sobrevivência pouquíssimo invejável. No entanto, sempre satisfeito consigo, ele erige a sua miséria trivial como um “estilo de vida” original: o miserabilismo e a boemia. Ora, a “boemia”, já longe de ser uma solução original, nunca será autenticamente vivida sem uma ruptura prévia completa e irreversível com o meio universitário. Seus partidários da boemia entre os estudantes (e todos se vangloriam de assim o serem de alguma forma) nada mais fazem a não ser se agarrarem a uma versão artificial e degradada daquilo que não passa, na melhor das hipóteses, de uma medíocre solução individual. São merecedores até mesmo do desprezo das velhas provincianas. Estes “originais” continuam – trinta anos depois de W. Reich[7], esse excelente educador da juventude – a ter comportamentos erótico-amorosos dos mais tradicionais, reproduzindo as relações gerais da sociedade de classes em suas relações intersexuais. A aptidão do estudante para se tornar um militante de qualquer natureza atesta claramente a sua impotência. Dentro da margem de liberdade individual autorizada pelo espetáculo totalitário, e apesar de sua utilização de tempo, mais ou menos relaxada, o estudante ignora ainda a aventura preterindo-a por um espaço-tempo cotidiano estreito, dirigido em sua intenção pelas barreiras de proteção do mesmo espetáculo.
Ele próprio separa, sem a isso ser obrigado, o trabalho do lazer, enquanto proclama um desprezo hipócrita pelos “burros de carga” e “CDFs”. Ele ratifica todas as separações e em seguida vai gemer em diferentes “círculos” religiosos, esportivos, políticos ou sindicais, sobre o tema da não-comunicação. Ele é tão tolo e infeliz que chega ao cúmulo de se abrir espontaneamente e em massa ao controle parapolicial dos psiquiatras e psicólogos, implementado para seu uso pela vanguarda da opressão moderna; controle este, portanto, aplaudido pelos seus “representantes”, que vêem naturalmente nos Centros de Apoio Psicológico Universitário uma conquista indispensável e merecida.[8]
Mas a miséria real da vida cotidiana estudantil encontra a sua compensação imediata, fantástica, naquilo que é o seu ópio principal: a mercadoria cultural. No espetáculo cultural, o estudante reencontra com naturalidade o seu lugar de discípulo respeitoso. Próximo do local da produção sem nunca a ele ter acesso – o santuário lhe será proibido – o estudante descobre a “cultura moderna” na qualidade de espectador contemplativo. Numa época m que a arte morreu, ele continua sendo o principal fiel dos teatros e dos cineclubes, bem como o mais árido consumidor de seu cadáver congelado e difundido em celofane nos supermercados para as donas-de-casa da abundância. Ele participa disso sem nenhuma reserva, sem segundas intenções e sem distanciamento algum. É o seu elemento natural. Se os “centros culturais” não existissem, o estudante os teria inventado. Ele confirma com perfeição as análises mais banais da sociologia norte-americana do marketing: consumo ostentatório, estabelecimento de uma diferenciação publicitária entre produtos idênticos em nulidade (Pérec ou Robbe-Grillet, Godart ou Lelouch).
E basta que os “deuses” que produzem ou organizam o seu espetáculo entrem em cena, para ele mostrar que é seu público principal, o devoto ideal. Assim, ele assiste em massa às mais obscenas demonstrações de seus “deuses”. Quem mais, além dele, o estudante, lotaria as salas quando, por exemplo, sacerdotes de diferentes igrejas vêm expor publicamente seus diálogos intermináveis (semana do pensamento dito marxista, reunião de intelectuais católicos) ou quando os escombros da literatura vêm constatar que são impotentes (5 mil estudantes em O que Pode a Literatura?).
Incapaz de sentir paixões reais, ele se delicia com polêmicas se paixão entre os ícones da ininteligência a respeito de falsos problemas cuja função é disfarçar os verdadeiros: Althusser – Garaudy – Sartre – Barthes – Picard – Lefebvre – Levi-Strauss – Halliday – Chatelet – Antoine. Humanismo – existencialismo – estruturalismo – cientismo – novo criticismo – dialeto-naturalismo – cibernetismo – planetismo – metafilosofismo.
Na sua aplicação, ele se considera de vanguarda porque assistiu ao último Godard, comprou o último livro argumentista[9], participou do último happening desse Lapassede, uma besta. Ignorante, ele acredita serem novidades “revolucionárias”, garantidas por certificado, as piores versões de antigas pesquisas efetivamente importantes em seu tempo, edulcoradas para uso do mercado. A questão será sempre a de preservar seu nível cultura. O estudante se orgulha de comprar, como todo mundo, as reedições em livro de bolso de uma série de textos importantes e difíceis que a “cultura de massa” dissemina num ritmo acelerado.[10] Só que ele não sabe ler. Ele se contenta em consumi-los com o olhar.
Sua leitura predileta continua sendo a imprensa especializada que rege o consumo diante dos gadgets culturais. Docilmente, ele aceita determinações publicitárias fazendo delas a referência-padrão de seus gostos. Ele ainda se delicia com L’Express e L’Observateur, ou então acredita que Le Monde, cujo estilo já é difícil demais para ele, é realmente um jornal “objetivo” que reflete a atualidade. Para aprofundar seus conhecimentos gerais, ele bebe da Planète, a revista mágica que remove as rugas e os cravos das velhas idéias. É seguindo tais guias que ele acredita participar do mundo moderno e se iniciar na política.
Pois o estudante, mais que qualquer outro, se sente feliz por se considerar politizado. Só que ele ignora que participa disso através do mesmo espetáculo. Assim, ele se reapropria de todos os restos dos frangalhos ridículos de uma esquerda que foi aniquilada há mais de quarenta anos pelo reformismo “socialista” e pela contra-revolução stalinista. Isso ele ainda ignora, ao passo que o poder conhece bem claramente o fato e os operários têm dele um conhecimento confuso. Ele participa, com orgulho cretino, das mais irrisórias manifestações que atraem somente ele próprio. A falsa consciência política é encontrada nele em seu estado mais puro, e o estudante constitui a base ideal para as manipulações dos burocratas fantasmáticos das organizações moribundas (do partido dito comunista à UNEF). Estas programam totalitariamente suas opções políticas. Qualquer desvio ou veleidade de “independência” entra docilmente, após um simulacro de resistência, numa ordem que em momento algum foi colocada em questão.[11] Quando ele pensa estar obedecendo, como essas pessoas que se autodenominam, em função de uma patológica inversão publicitária, JCR (Juventude Comunista Revolucionária), não sendo nem jovens, nem comunistas, nem revolucionários, é para aderir alegremente à palavra de ordem pontificial: Paz no Vietnã.
O estudante tem orgulho de se opor aos arcaísmos de um De Gaulle, mas não compreende que age assim em nome de erros do passado, de crime congelados (como o stalinismo, na época de Togliatti – Garaudy – Krutchev – Mão), e assim a sua juventude é ainda mais arcaica que o poder, porque esse dispõe efetivamente de tudo aquilo que necessita para administrar uma sociedade moderna.
Não sra um arcaísmo a mais que fará muita diferença para o estudante. Ele acha que deve ter idéias gerais sobre tudo, conceitos coerentes do mundo que dão um sentido à sua necessidade de agitação e de promiscuidade assexuada. Eis porque, manipulados pelas últimas febres das igrejas, ele se precipita sobre a mais velha das velharias para adorar a carcaça fétida de Deus e atar-se às migalhas decompostas das religiões pré-históricas, que ele acredita serem dignas dele e do seu tempo. Não é necessário frisar que o meio estudantil é, justamente com o das senhoras idosas de interior, o setor onde se mantém o mais alto índice de prática religiosa, conservando-se como uma “terra de missões” ideal (ao passo que, nas demais, os missionários já foram devorados ou expulsos), na qual padres-estudantes continuam a sodomizar, às claras, milhares de estudantes em suas latrinas espirituais.
É claro que, entre os estudantes, ainda existem pessoas com nível intelectual suficiente. Essas dominam com facilidade os miseráveis controles de capacidade previstos para os medíocres, sendo que essa dominação acontece justamente porque eles entenderam o sistema, porque eles o desprezam e são seus inimigos de forma consciente. Eles tomam o que há de melhor no sistema de estudos: as bolsas. Tirando proveito das falhas do controle, que, na sua lógica própria, obriga aqui e agora a conservar um pequeno setor puramente intelectual, a “pesquisa”, eles vão tranqüilamente elevar a turbulência ao mais alto nível: seu desprezo declarado pelo sistema caminha no mesmo passo que a lucidez que lhes permite justamente serem mais fortes que os serviçais do sistema e, em primeiro lugar, mais fortes intelectualmente. As pessoas de quem estamos falando já constam, na realidade, no rol dos teóricos do movimento revolucionário que se aproxima, e orgulham-se de serem tão conhecidos quanto ele no momento em que se começar a ouvir falar dele. Não escondem de ninguém que aquilo que tomam tão facilmente do “sistema de estudos” está sendo utilizado para a destruição do mesmo. Pois o estudante não pode se revoltar contra nada antes de se revoltar contra seus estudos, e a necessidade dessa revolta se faz sentir menos naturalmente que no caso do operário, que se revolta espontaneamente contra a sua condição. Mas o estudante é um produto da sociedade moderna, tanto quanto Godard e a Coca-Cola. Sua extrema alienação só pode ser4 contestada pela contestação de toda a sociedade. Esta crítica não pode, de modo algum, ser feita no campo estudantil: o estudante, como tal, arroga-se um pseudo-valor que o impede de tomar consciência do quanto ele é um “despossuído” e, por causa disso, permanece no cúmulo da falsa consciência. Em todos os cantos onde a sociedade moderna começa a ser contestada existe, contudo, revolta na juventude, que corresponde imediatamente a uma crítica total do comportamento estudantil.

Não basta que o pensamento procure sua realização. É preciso que a realidade procure o pensamento.

Após um longo período de sono letárgico e de contra-revolução permanente, esboça-se há alguns anos um novo período de contestação do qual a juventude parece ser a portadora. Entretanto, a sociedade do espetáculo, conforme a representação que ela faz de si mesma e de seus inimigos, impõe suas categorias ideológicas para a compreensão do mundo e da história. Essa sociedade do espetáculo procura classificar tudo o que acontece na categoria dita da “ordem natural das coisas” e aprisiona as verdadeiras novidades que anunciam sua caducidade dentro do âmbito restrito de sua vontade ilusória.
A revolta da juventude contra o modo de vida que lhe é imposto é, na realidade, apenas o sinal precursor de uma subversão mais ampla que englobará o conjunto daqueles que se sentem cada vez mais impossibilitados de viver. É o prelúdio da próxima época revolucionária. Só que a ideologia dominante, juntamente com seus órgãos cotidianos, consegue, por meio dos mecanismos já eficazmente comprovados de inversão da realidade, reduzir este movimento histórico real a uma pseudo-categoria socionatural: a Idéia de Juventude (que já traria a revolta em sua essência). Dessa forma, rebaixa-se uma nova juventude da revolta à eterna revolta da Juventude, que renasce em cada geração para desaparecer quando o “jovem é tomado pela seriedade da produção e pela atividade com vistas a fins concretos e verdadeiros”.
A “revolta dos jovens” foi e continua objeto de uma verdadeira inflação jornalística que faz dela o espetáculo de uma “revolta” possível oferecida à contemplação para impedir que seja vivida, ou seja, a esfera aberrante – já integrada -, necessária ao funcionamento do sistema social. Essa revolta contra a sociedade tranqüiliza a sociedade porque se faz crer que essa revolta permanece parcial, dentro do apartheid dos “problemas” da juventude – do mesmo modo que haveria um problema da mulher, ou um problema negro – e dura somente uma parte da vida. Na realidade, se existe um problema da “juventude” na sociedade moderna é porque a crise profunda dessa sociedade é sentida pelo jovem [12]com mais acuidade.
Produto por excelência dessa sociedade moderna, o jovem é – ele mesmo – moderno, seja para integrar-se nela sem reservas, seja para recusá-la radicalmente. O que deveria surpreender não é tanto que a juventude seja revoltada, mas que os “adultos” seja tão resignados. Coisa, aliás, que não tem uma explicação mitológica, mas uma explicação histórica: a geração anterior conheceu todas as derrotas e consumiu todas as mentiras do período da vergonhosa desagregação do movimento revolucionário.
Considerada em si mesma, a juventude é um mito publicitário já profundamente vinculado ao modo de produção capitalista, como expressão de seu dinamismo. Essa ilusória primazia da juventude tornou-se possível com o reaquecimento da economia após a Segunda Guerra Mundial, com a entrada em massa no mercado da toda uma categoria de consumidores mais maleáveis, um papel que assegura o atestado de integração à sociedade do espetáculo. Mas a explicação dominante do mundo encontra-se novamente em contradição com a realidade socioeconômica (pois está atrasada em relação a esta) e é justamente a juventude que, primeiro, afirma uma irresistível fúria de viver e se insurge espontaneamente contra o tédio cotidiano e o tempo morto que o velho mundo continua a secretar através de suas diferentes modernizações. A fração revoltada da juventude expressa recusa no estado puro de recusa, sem a consciência de uma perspectiva de superação desta sua recusa niilista. Essa perspectiva é procurada e vem se observando em todos os lugares do mundo. Ela precisa atingir a coerência da crítica teórica e a organização prática dessa coerência.
À primeira vista, os blousons noirs exprimem em todos os países, com a máxima violência aparente sua recusa a se integrarem. Mas o caráter abstrato da sua recusa não lhes deixa nenhuma chance de escapar às contradições de um sistema de que são o produto negativo e espontâneo. Os blousons noirs são produzidos por todos os lados da ordem atual: o urbanismo dos grandes conjuntos, a decomposição dos valores, a extensão do lazer consumível cada vez mais tedioso, o controle humanista-policial cada vez mais estendido a toda vida cotidiana, a sobrevivência econômica na célula familiar privada de qualquer significado. Eles desprezam o trabalho mas aceitam as mercadorias. Eles gostariam de possuir tudo quanto à publicidade lhes exibe, de modo imediato e sem que tivessem de pagar. Essa contradição fundamental domina toda a sua existência, e é ele o quadro que reprime suas tentativas de afirmação através da busca por uma verdadeira liberdade no uso do tempo, da afirmação individual e da constituição de uma espécie de comunidade. (só que tais micro-comunidades recompõem, à margem da sociedade desenvolvida, um primitivismo em que a miséria recria inelutavelmente a hierarquia no bando. Esta hierarquia, que somente pode se afirmar-se na luta contra outros bandos, isola cada bando e, em cada bando, o indivíduo.) Para escapar a essa contradição, o blousons noirs deverá finalmente trabalhar para comprar mercadorias – e aí, todo um setor da produção é expressamente dedicado à sua recuperação como consumidor (motos, guitarras elétricas, vestuário, discos, etc) –, ou brigar contra as leis da mercadoria, seja de modo primário, roubando-as, seja de modo consciente, elevando-se à crítica revolucionária do mundo da mercadoria. O consumo adoça os hábitos desses jovens revoltados, e sua revolta transforma-se no pior dos conformismos. O mundo dos blousons noirs não tem outra saída a não ser a tomada de consciência revolucionária ou a cega obediência dentro das fábricas.
Os provos constituem a primeira forma que ultrapassou a experiência dos blousons noirs, a organização da sua primeira expressão política. Eles nasceram ao sabor de um encontro entre alguns detritos da arte decomposta em busca de sucesso e uma massa de jovens revoltados em busca de afirmação. Sua organização permitiu a estes e aqueles avançar e ter acesso a um novo tipo de contestação. Os "artistas" trouxeram algumas tendências, ainda muito mistificadas, para o jogo, acompanhadas de um caos ideológico; os jovens rebeldes só dispunham da violência da sua revolta. Desde o momento em que sua organização foi formada, as duas tendências permaneceram distintas. A massa sem teoria viu-se imediatamente sob a tutela de uma camada pequena de dirigentes suspeitos, que tentam preservar seu "poder" pela secreção de uma ideologia “provotarista”. Em vez da violência dos blousons noirs passar para o plano das idéias numa tentativa de deixar para trás a arte, foi o reformismo neo-artístico que venceu. Os provos são a expressão do último reformismo produzido pelo capitalismo moderno: o da vida cotidiana. Enquanto é evidente que será necessário nada menos do que uma revolução ininterrupta para mudar a vida, a hierarquia provo acredita – da mesma forma que Berstein acreditava na possibilidade de transformar o capitalismo em socialismo através de reformas – que basta implantar algumas melhorias para que a vida cotidiana seja modificada. Os provos, ao optarem pelo fragmentismo, acabaram por aceitar a totalidade. Para se firmarem numa base, os dirigentes inventaram a ridícula ideologia do provotariado (uma salada artístico-política inocentemente montada a partir dos restos mofados de uma festa que eles não conheceram), destinada, segundo eles, a se opor à pretensa passividade e ao aburguesamento do proletariado. A tese favorita de todos os cretinos do século. Porque perdem o ânimo de transformar a totalidade, eles desanimam também das forças que – somente elas – trariam a esperança de uma possível superação total. O proletariado é o motor da sociedade capitalista e, portanto, seu perigo mortal. Tudo deve ser feito para reprimi-lo (partidos, sindicatos burocratas, polícia – mais freqüentemente do que contra os provos -, a colonização de toda a sua vida), pois ele é a única força realmente ameaçadora. Os provos nada entenderam disso e, assim, permanecem incapazes de realizar a crítica do sistema de produção, ficando, portanto, prisioneiros de todo o sistema. E quando, durante um distúrbio operário anti-sindical, sua base juntou-se à violência direta, os dirigentes perderam completamente o controle do movimento e, em seu desatino, nada acharam de melhor para fazer do que denunciar os “excessos” e conclamar ao pacifismo, renunciando lamentavelmente a seu programa: provocar as autoridades para mostrar a elas o caráter repressivo (gritando que eles estavam sendo provocados pela polícia). O cúmulo foi quando, através do rádio, eles pediram aos jovens baderneiros para se deixarem educar pelos “provos”, isto é, pelos dirigentes que demonstraram amplamente que seu vago “anarquismo” não passava de mais uma mentira. A base rebelada dos provos só poderá passar à crítica revolucionária no momento em que começar a se revoltar contra seus chefes, o que significa unir-se às forças revolucionárias objetivas do proletariado e livrar-se de um Constant, o artista oficial da Holanda Monárquica, ou de um De Vries, um fracassado parlamentar admirador da polícia inglesa. Somente então os provos poderão se integrar à contestação moderna autêntica, que já possui uma base real no meio deles. Se quiserem realmente transformar o mundo, devem se livrar daqueles que querem se contentar apenas em pintá-lo de branco.
Ao se revoltarem contra seus estudos, os estudantes norte-americanos colocaram imediatamente em questão uma sociedade que necessita de tais estudos, da mesma forma que a sua revolta (em Berkeley e outros lugares) contra a hierarquia universitária afirmou-se, de cara, como uma revolta contra todo o sistema social baseado na hierarquia e na ditadura da economia e do Estado. Recusando-se a integrarem as empresas para as quais, naturalmente, seus estudos especializados se destinavam, eles colocam profundamente em questão um sistema de produção em que todas as atividades e o produto destas escapam totalmente de seus autores. Assim, tateando em meio a uma confusão ainda muito grande, a juventude rebelada norte-americana chega ao ponto de procurar dentro da “sociedade da abundância” uma alternativa revolucionária coerente. Ela continua fortemente atada aos dois aspectos relativamente acidentais da crise norte-americana: os negros e o Vietnã. E as pequenas organizações que constituem a “Nova Esquerda” muito se ressentem disso. Se, naquilo que diz respeito à forma, se faz sentir uma autêntica exigência de democracia, a fraqueza de seu conteúdo subversivo as leva a recair em perigosas contradições. A hostilidade à política tradicional das velhas organizações é facilmente recuperada pela ignorância do mundo político, que se traduz por uma enorme falta de informações, e por ilusões sobre aquilo que realmente se passa no mundo. A hostilidade abstrata à sua sociedade leva as militâncias a admirar e apoiar seus aparentes inimigos, isto é, as burocracias ditas socialistas, China ou Cuba. Assim, encontramos num grupo como o Resurgence Youth Movement uma manifestação pela morte do Estado e, simultaneamente, um elogio à “revolução cultural” executada pela mais gigantesca burocracia dos tempos modernos: a China de Mao. Da mesma forma, sua organização semilibertária e não diretiva corre o risco de, a qualquer momento, por absoluta falta de conteúdo, recair na ideologia da “dinâmica dos grupos” ou no mundo fechado das seitas. O consumo de drogas em massa é a expressão de uma miséria real e o protesto contra essa miséria real: é a busca enganosa de liberdade num mundo sem liberdade, a crítica religiosa de um mundo que já superou a religião. Não é por acaso que a encontramos sobretudo nos meios beatniks (que é a direita dos jovens revoltados), lares da recusa ideológica e da aceitação das mais fantásticas superstições (zen, espiritismo, misticismo da New Church e outras podridões como o ghandismo ou o humanismo...). Na sua busca por um programa revolucionário, os estudantes norte-americanos cometem o mesmo erro dos provos ao se proclamarem “a classe mais explorada da sociedade”. Eles devem, desde já, compreender que seus próprios interesses não são diferentes dos interesses de todos aqueles que sofrem a opressão generalizada e a escravidão mercantil.
No Leste, o totalitarismo burocrático também já começa a gerar suas forças negativas. A rebelião dos jovens lá é mais particularmente virulenta e conhecida somente através das denúncias feitas pelos diferentes órgãos do “aparelho” ou das medidas policiais que ele toma para contê-la. Assim, somos informados que uma parte da juventude não “respeita” mais a ordem moral e familiar (tal como essa ordem se apresenta sob a sua forma burguesa mais detestável), entrega-se à “libertinagem”, despreza o trabalho e não obedece mais à polícia do partido. E, na antiga União Soviética, nomeia-se um ministro para a tarefa de combater o hooliganismo.
Mas, paralelamente a essa revolta difusa, uma contestação mais elaborada tenta se afirmar e grupos ou pequenas revistas clandestinas surgem e somem ao sabor das flutuações da repressão policial. O fato mais relevante foi a publicação pelos jovens poloneses Kuron e Modzelewski de sua Carta Aberta ao Partido Operário Polonês. No texto, eles afirmam expressamente a necessidade da “abolição das relações sociais atuais” e constatam que, para atingir tal objetivo, “a revolução é inelutável”. A intelligentsia dos países do Leste procura atualmente tornar conscientes e formular claramente os motivos dessa crítica que os operários concretizaram em Berlim Oriental, Varsóvia e Budapeste, a crítica proletária ao poder da classe burocrática. Essa revolta sente profundamente a desvantagem de expor, de imediato, os problemas reais e sua solução. Se, nos outros países, o movimento é possível, mas o objetivo permanece mistificado, nas burocracias do Leste a contestação não tem ilusões e seus objetivos são conhecidos. Trata-se, para ela, de inventar as formas da sua realização e abrir o caminho que leva a isto.
Quanto à revolta dos jovens ingleses, ela encontra sua primeira expressão organizada no movimento antinuclear. Essa luta particular, reunida em torno do vago programa do Comitê dos Cem – que conseguiu reunir até 300 mil manifestantes -, cumpriu o seu mais belo gesto durante o verão de 1963, com o escândalo RSG6[13]. Ela só podia mesmo arrefecer por falta de perspectivas, sendo recuperada pelos restos da política tradicional e pelas belas almas pacifistas. O arcaísmo do controle da vida cotidiana, uma característica da Inglaterra, não conseguiu resistir ao assalto do mundo moderno, e a decomposição acelerada dos valores seculares criou tendências profundamente revolucionárias na crítica de todos os aspectos do modo de vida.[14] É preciso que as exigências dessa juventude possam se reunir à resistência de uma classe operária considerada uma das mais combativas do mundo, a dos shopstewards e das greves selvagens, e a vitória de sua luta somente poderá ser atingida dentro das perspectivas comuns. O esfacelamento da social democracia no poder dá mais uma chance para a realização desse encontro. As explosões que ele provocará serão muito mais fortes do que tudo o que se viu em Amsterdam. O distúrbio provotariano não passará, diante delas, de uma brincadeira de criança. Somente daí poderá nascer um verdadeiro movimento revolucionário, no qual as necessidades práticas terão encontrado sua resposta.
O Japão é o único país industrializado desenvolvido onde essa fusão da juventude estudantil com operários de vanguarda já aconteceu.
Zengakuren, a famosa Organização dos Estudantes Revolucionários, e a Liga dos Jovens Trabalhadores Marxistas são as duas importantes organizações formadas sob a orientação comum da Liga Comunista Revolucionária.[15] Essa formação tem já a capacidade de resolver o problema da organização revolucionária de forma prática. Ela combate, simultaneamente e sem ilusões, o capitalismo do Ocidente e a burocracia dos países ditos socialistas. Ela já reúne alguns milhares de estudantes e operários organizados numa base democrática e anti-hierárquica, fundamentada na participação de todos os membros em todas as atividades da organização. Assim, os revolucionários japoneses são os primeiros do mundo a empreender desde já grandes lutas organizadas, com um programa avançado e com ampla participação das massas. Milhares de operários e estudantes saem às ruas, sem tréguas, e enfrentam violentamente a polícia japonesa. No entanto, a LCR (Liga Comunista Revolucionária), embora combatendo ambos com firmeza, não explica, concreta e completamente, os dois sistemas. Ela ainda procura como definir com precisão a exploração burocrática, da mesma forma que ainda não conseguiu formular explicitamente as características de capitalismo moderno, a crítica da vida cotidiana e a crítica do espetáculo. A Liga Comunista Revolucionária continua fundamentalmente uma organização política de vanguarda, herdeira da melhor organização proletária clássica. Ela é atualmente a mais importante formação revolucionária do mundo e deve ser, desde já, um dos pólos de discussão e de reunião da nova crítica revolucionária proletária no mundo.

Criar finalmente a situação que torne impossível qualquer retorno

"Estar na vanguarda significa andar no passo da realidade."[16] A crítica radical do mundo moderno deve agora ter como objeto e como objetivo a totalidade. Ela deve inevitavelmente encarar o passado real deste mundo, aquilo que ele efetivamente é e as perspectivas de sua transformação. É que, para podermos dizer toda a verdade do mundo atual e, com mais razão, para formular o projeto de sua subversão total, é preciso ter a capacidade de revelar toda a sua história oculta. Ou seja, ter uma visão totalmente desmitificada e fundamentalmente crítica da história de todo o movimento revolucionário internacional, inaugurada já faz um século pelo proletariado dos países do Ocidente, e encarar seus "fracassos" e suas "vitórias".
"Esse movimento contrário ao conjunto da organização do velho mundo já se acabou há muito tempo"[17] e fracassou. Sua última manifestação histórica foi a derrota da revolução do proletariado na Espanha (em Barcelona, em maio de 1937). No entanto, seus "fracassos" oficiais, assim como suas "vitórias" oficiais, devem ser julgados à luz de seus prolongamentos, e suas verdades devem ser restabelecidas. Podemos portanto afirmar que "existem derrotas que são vitórias e vitórias mais vergonhosas que derrotas" (Karl Liebknecht, na véspera de seu assassinato). A primeira grande "derrota" do poder proletário, a Comuna de Paris, é, na realidade, sua primeira grande vitória pois, pela primeira vez, o proletariado primitivo afirmou sua capacidade histórica de dirigir, de modo livre, todos os aspectos da vida social. Da mesma forma que a sua primeira grande "vitória", a revolução bolchevique, é definitivamente a derrota que lhe trouxe as conseqüências mais pesadas.
O triunfo da ordem bolchevique coincide com o movimento contra-revolucionário internacional que teve início com o esmagamento dos espartaquistas pela "social democracia" alemã. O triunfo comum era mais profundo que sua aparente oposição e essa ordem bolchevique não passava definitivamente de uma nova máscara e de uma representação particular da ordem antiga. Os resultados da contra-revolução russa foram, internamente, o estabelecimento e o desenvolvimento de um novo modo de exploração, o capitalismo burocrático estatal, e, externamente, a multiplicação de seções da Internacional dita comunista, sucursais destinadas a defendê-lo e disseminar o seu modelo. O capitalismo, sob suas diferentes variantes burocráticas e burguesas, reflorescia sobre os cadáveres dos marinheiros de Kronstadt, dos camponeses da Ucrânia e dos operários de Berlim, Kiel, Turim, Xangai e, mais tarde, Barcelona.
A III Internacional, criada pelos bolcheviques aparentemente para lutar contra os fragmentos da social democracia reformista da II Internacional e reagrupar a vanguarda proletária nos "partidos comunistas revolucionários", estava excessivamente ligada a seus criadores e aos interesses destes para poder realizar, em qualquer lugar, a verdadeira revolução socialista. A II Internacional era, na realidade, a verdade da III. O modelo russo logo se impôs às organizações operárias do Ocidente e suas evoluções tornaram-se uma única e mesma coisa. À ditadura totalitária da burocracia, uma nova classe dirigente sobre o proletariado russo, correspondia, no seio dessas organizações, o domínio de uma camada de burocratas políticos e sindicais sobre a grande massa dos operários, cujos interesses se tornaram francamente contraditórios com os dos burocratas. O monstro stalinista assombrava a consciência operária, ao passo que o capitalismo, em vias de burocratização e superdesenvolvimento, debelava suas crises internas e afirmava, com orgulho, sua nova vitória, que ele pretende ser permanente. Uma mesma forma social, aparentemente divergente e variada, está se apossando do mundo e os princípios do velho mundo continuam a governar nosso mundo moderno. Os mortos continuam assombrando os cérebros dos vivos.
No seio desse mundo, organizações pretensamente revolucionárias só ó combatem de modo aparente, em seu próprio terreno, através das mais diversas mistificações. Todas invocam ideologias mais ou menos petrificadas e, de fato, não fazem mais do que participar da consolidação da ordem dominante. Os sindicatos e os partidos políticos forjados pela classe operária para sua própria emancipação tornaram-se simples reguladores do sistema, a propriedade privada de dirigentes que trabalham em prol de suas emancipações particulares e encontram um status dentro da classe dirigente de uma sociedade que eles jamais pensam colocar em questão. O programa real desses sindicatos e partidos apenas repete, de forma grosseira, a fraseologia "revolucionária" e aplica, na realidade, palavras de ordem do mais edulcorado reformismo, visto que o próprio capitalismo se torna oficialmente reformista. Nos lugares onde conseguiram tomar o poder - em países mais atrasados que a Rússia - isso só foi feito para reproduzir o modelo stalinista do totalitarismo contra-revolucionário.[18] Nos demais lugares, eles representam o complemento estático e necessário[19] à auto-regulação do capitalismo burocratizado. São a contradição indispensável à conservação de seu humanismo policial. Por outro lado, eles permanecem, em relação às massas operárias, os indefectíveis avalistas e os incondicionais defensores da contra-revolução burocrática, os dóceis instrumentos de sua política estrangeira. Num mundo fundamentalmente mentiroso, eles são portadores da mais radical mentira e trabalham em prol da perenidade da ditadura universal da economia e do Estado. Como afirmam os situacionistas, "um modelo social universalmente dominante que tende para a auto-regulação totalitária é combatido apenas aparentemente por falsas contestações colocadas sempre em seu próprio terreno, ilusões que, pelo contrário, reforçam esse modelo. O pseudo-socialismo burocrático é a mais grandiosa das máscaras do velho mundo hierárquico do trabalho alienado".[20] O sindicalismo estudantil não passa, dentro disso tudo, da caricatura de uma caricatura, da burlesca e inútil repetição de um sindicalismo degenerado.
A denúncia teórica e prática do stalinismo sob todas as suas formas deve ser a obviedade de base de todas as futuras organizações revolucionárias. É claro que na França, por exemplo, onde o atraso econômico ainda faz recuar a consciência da crise, o movimento revolucionário somente poderá renascer sobre as ruínas do stalinismo aniquilado. A destruição do stalinismo deve se tornar o Delenda Carthago da última revolução da pré-história.
Esta revolução deve, por sua vez, romper em definitivo com a sua própria pré-história e extrair toda a sua poesia do futuro. Os "bolcheviques ressuscitados" que participam da farsa do "militantismo" dentro dos diferentes grupelhos de esquerda são emanações bolorentas do passado e não anunciam o futuro de modo nenhum. Destroços do grande naufrágio da "revolução traída", eles se apresentam na qualidade de fiéis defensores da ortodoxia bolchevique: a defesa da União Soviética representa a sua insuportável fidelidade e sua escandalosa renúncia.
Só mesmo nos famosos países subdesenvolvidos[21], onde eles próprios ratificam o subdesenvolvimento teórico, podem ainda manter vivas suas ilusões. De Partisans (órgão dos stalinistas-trotskistas reconciliados) a todas as tendências e semitendências que se digladiam por "Trotsky" no interior e no exterior da IV Internacional, reina uma mesma ideologia revolucionarista, e uma mesma incapacidade prática e teórica de compreender os problemas do mundo moderno. Quarenta anos de história contra-revolucionária os separam da revolução. Eles não têm razão pois não estão mais em 1920 e, em 1920, eles já não tinham razão. A dissolução do grupo "ultra-esquerdista" Socialisme ou Barbarie, após sua cisão em duas facções, "modernista cardanista” e "velho marxismo" (de Pouvoir Ouvrier), prova, se necessário, que não pode haver revolução fora do moderno, nem pensamento moderno fora da crítica revolucionária a ser reinventada.[22] Ela é significativa no sentido de que qualquer separação entre esses dois aspectos recai, inevitavelmente, seja no museu da pré-história revolucionária acabada, seja na modernidade do poder, isto é, na contra-revolução dominante: Voz Operária ou Argumentos.
Quanto aos diversos grupelhos "anarquistas", prisioneiros em conjunto dessa designação, eles nada possuem fora uma ideologia reduzida a um simples rótulo. O incrível "Mundo Libertário", redigido evidentemente por estudantes, atinge o grau mais fantástico de confusão e burrice. Essa gente tolera efetivamente tudo porquanto se tolera mutuamente.
A sociedade dominante, que se orgulha de sua modernização permanente, deve agora encontrar a quem falar, ou seja, a negação modernizada que ela mesma produz: "Deixemos agora aos mortos o cuidado de enterrar seus mortos e chorá-los”.[23] As desmistificações práticas do movimento histórico livram a consciência revolucionária dos fantasmas que a assombravam: a revolução da vida cotidiana se encontra frente a frente com as imensas tarefas que ela deve cumprir. A revolução, tal qual a vida que ela anuncia, deve ser reinventada. Se o projeto revolucionário permanece fundamentalmente o mesmo - a abolição da sociedade de classes - é porque, em nenhum lugar, as condições nas quais ele é formado foram radicalmente transformadas. Trata-se de retomá-lo com um radicalismo e uma coerência fortalecidos pela experiência da falência de seus antigos portadores, a fim de evitar que sua realização fragmentária acarrete uma nova divisão da sociedade.
A luta entre o poder e o novo proletariado só podendo acontecer na sua totalidade, o futuro movimento revolucionário deve abolir, em seu seio, tudo aquilo que tende a reproduzir os produtos alienados do sistema mercantil.[24] Ele deve ser, simultaneamente, a crítica viva e a negação desse sistema, e é essa negação que traz em si todos os elementos possíveis da ultrapassagem. Como bem percebeu Lukács (mas para aplicá-lo a um objeto que não era digno dele: o partido bolchevique), a organização revolucionária é essa mediação necessária entre a teoria e a prática, entre o homem e a história, entre a massa dos trabalhadores e o proletariado constituído em classe. As tendências e divergências "teóricas" devem ser imediatamente transformadas em questão de organização se quiserem indicar o caminho de sua realização. A questão da organização será o julgamento derradeiro do novo movimento revolucionário, o tribunal perante o qual será julgada a coerência de seu projeto essencial: a realização internacional do poder absoluto dos Conselhos Operários, da forma como foi esboçado pela experiência das revoluções proletárias desse século. Uma organização dessas deve priorizar a crítica radical de tudo aquilo que fundamenta a sociedade que ela combate, a saber: a produção mercantil, a ideologia sob todas as suas máscaras, o Estado e as separações que ele impõe.
A cisão entre a teoria e a prática foi o rochedo contra o qual veio se arrebentar o velho movimento revolucionário. Apenas os maiores momentos das lutas proletárias ultrapassaram essa cisão para encontrar a sua verdade. Nenhuma organização jamais realizou tal salto. A ideologia, tão "revolucionária" quanto é possível ser, está sempre a serviço dos mestres, o sinal de alarme que denuncia o inimigo disfarçado. Eis porque a crítica da ideologia deve ser, em última análise, o problema central da organização revolucionária. Só o mundo alienado produz a mentira, e esta não poderia ressurgir no interior daquilo que pretende carregar a verdade social sem que essa organização se transforme, ela própria, em mais uma mentira num mundo fundamentalmente mentiroso.
A organização revolucionária que projeta realizar o poder absoluto dos Conselhos Operários deve ser a instância na qual são esboçados todos os aspectos positivos desse poder. Assim, ela deve travar um combate mortal contra a teoria organizacional leninista. A revolução de 1905 e a organização espontânea dos trabalhadores russos em sovietes já era uma crítica em atos[25] dessa nefasta teoria. Entretanto, o movimento bolchevique insistia em acreditar que a espontaneidade operária não poderia ultrapassar a consciência "sindicalista", e era incapaz de captar a "totalidade". O que equivalia a decapitar o proletariado para permitir ao partido tornar-se o "cabeça" da revolução. Não se pode contestar, de modo tão impiedoso quanto fez Lênin, a capacidade histórica do proletariado de se emancipar por si mesmo, sem contestar sua capacidade de gerir totalmente a sociedade futura. Dentro de tal perspectiva, o lema "todo o poder aos sovietes" não significava nada mais do que a conquista dos sovietes pelo Partido, a instauração do Estado do Partido no lugar do "Estado" definhante do proletariado armado.
No entanto, esse é o lema que deve ser radicalmente retomado, livrando-o do oportunismo bolchevique. O proletariado só pode se dedicar ao jogo da revolução se o objetivo for ganhar todo um mundo, caso contrário, não é coisa nenhuma. A forma única de seu poder, a autogestão generalizada, não pode ser compartilhada com nenhuma outra força. Sendo ele a dissolução efetiva de todos os poderes, não haveria como tolerar nenhuma limitação (geográfica ou outra). Os compromissos que ele aceitasse se transformariam imediatamente em comprometimentos, em renúncias. "A auto gestão deve ser simultaneamente o meio e o fim da luta atual. Ela é não somente aquilo que está em jogo na luta, mas também a sua forma adequada. Ela é, em relação a si mesma, a matéria que ela trabalha assim como sua própria pressuposição."[26]
A crítica unitária do mundo é a garantia da coerência e da verdade da organização revolucionária. Tolerar a existência de sistemas de opressão (por usarem a velha farda "revolucionária", por exemplo) em qualquer ponto do mundo é reconhecer a legitimidade da opressão. Da mesma forma, quando ela tolera a alienação numa esfera da vida social, ela está reconhecendo a fatalidade de todas as reificações. Não basta ser a favor do poder abstrato dos conselhos operários, é preciso mostrar o significado correto deles: a supressão da produção mercantil e, portanto, do proletariado. A lógica da mercadoria é a primeira e a última racionalidade das sociedades atuais, ela é a base da autoregulação totalitária dessas sociedades comparáveis a quebra-cabeças cujas peças, aparentemente tão distintas, são, na verdade, equivalentes. A reificação mercantil é o obstáculo essencial para uma emancipação completa, para a livre construção da vida. No mundo da produção mercantil, a práxis não é perseguida em função de um determinado objetivo de modo autônomo, mas sob as diretrizes de forças externas. E, se as leis econômicas parecem se tornar uma nova espécie de leis naturais, é porque a sua força repousa unicamente na "ausência de consciência por parte daqueles que dela participam".
O princípio da produção mercantil é a perda de si dentro da criação caótica e inconsciente de um mundo que escapa completamente a seus criadores. O núcleo radicalmente revolucionário de auto gestão generalizada é, pelo contrário, a direção consciente, por todos, do conjunto da vida. A auto gestão da alienação mercantil tornaria todos os homens meros programadores da sua própria sobrevivência: é a quadratura do círculo. A tarefa dos conselhos operários não será, portanto, a auto gestão do mundo existente mas a transformação qualitativa e ininterrupta deste: a superação concreta da mercadoria (enquanto gigantesco desvio da produção do homem por ele mesmo).
Essa superação envolve, naturalmente, a supressão do trabalho e sua substituição por um novo tipo de atividade livre: a abolição, portanto, de uma das cisões fundamentais da sociedade moderna, entre um trabalho cada vez mais reificado e um lazer passivamente consumido. Grupelhos atualmente em liquidação, como S. ou B., ou o PO[27], embora unidos sob a palavra de ordem moderna do poder operário, continuam a seguir, nesse ponto central, o velho movimento operário no caminho do reformismo do trabalho e de sua "humanização". É o próprio trabalho que devemos hoje atacar. Longe de ser uma "utopia", sua supressão é a primeira condição para a ultrapassagem efetiva da sociedade mercantil, para a abolição - dentro da vida cotidiana de cada um - da separação entre o "tempo livre" e o "tempo de trabalho", setores complementares de uma vida alienada, onde se projeta indefinidamente a contradição interna da mercadoria entre valor de uso e valor de troca. É somente além dessa oposição que os homens poderão fazer da sua atividade vital um objeto de sua vontade e de sua consciência, e contemplar a si mesmos num mundo que eles próprios criaram. A democracia dos conselhos operários é o enigma resolvido de todas as separações atuais. Ela torna "impossível tudo aquilo que existe fora dos indivíduos".
A dominação consciente da história pelos homens que a constroem, eis todo o projeto revolucionário. A história moderna, como toda a história passada, é o produto da práxis social, o resultado - inconsciente - de todas as atividades humanas. Vivendo a época da sua dominação totalitária, o capitalismo produziu aquela que é sua nova religião: o espetáculo. O espetáculo é a realização terrestre da ideologia. Nunca o mundo funcionou tão bem de cabeça para baixo. "E, como a 'crítica da religião', a crítica do espetáculo é hoje a primeira condição para qualquer crítica."[28]
É que o problema da revolução é historicamente colocado para a humanidade. A acumulação cada vez mais grandiosa dos meios materiais e técnicos só pode se comparar à insatisfação à cada vez mais profunda de todos. A burguesia e sua herdeira no Leste, a burocracia, não podem ter o modo de uso desse superdesenvolvimento que será a base da poesia do futuro, precisamente porque ambas trabalham no sentido da manutenção de uma ordem antiga. Elas detêm, no máximo, o segredo de seu uso policial. Elas só fazem acumular o capital e, portanto, o proletariado. Proletário é aquele que não tem poder algum sobre sua vida, e que sabe disso. A chance histórica do novo proletariado é de ser o único herdeiro conseqüente da riqueza sem valor do mundo burguês, que transforma e supera, no sentido do homem total perseguindo a apropriação total da natureza e da sua própria natureza. Essa realização da natureza do homem só pode ter sentido através da satisfação ilimitada e da multiplicação infinita dos desejos reais que o espetáculo recalca e expulsa para as zonas longínquas do inconsciente revolucionário, desejos que ele é capaz de realizar somente na fantasia, no delírio onírico de sua publicidade: É que a realização efetiva dos desejos reais, ou seja, a abolição de todas as pseudo-necessidades e desejos que o sistema cria cotidianamente para perpetuar seu poder, não pode acontecer antes da supressão do espetáculo mercantil e da sua positiva superação.
A história moderna só pode ser liberada, e suas inúmeras aquisições só poderão ser livremente utilizadas, através da ação das forças que ela reprime: os trabalhadores sem poderes sobre suas condições, sobre o sentido e o produto de suas atividades. O proletariado, que já era, no século XIX, o herdeiro da filosofia, tornou-se agora, além disso, o herdeiro da arte moderna e da primeira crítica consciente da vida cotidiana. Ele não pode se suprimir sem realizar, ao mesmo tempo, a arte e a filosofia. Transformar o mundo e mudar a vida são para ele a única e a mesma coisa, as palavras de ordem inseparáveis que acompanharão sua supressão, como classe, a dissolução da sociedade presente, como reino da necessidade, o acesso enfim possível ao reino da liberdade. A crítica radical e a livre reconstrução de todas as condutas e valores impostos pela realidade alienada são seu programa máximo, e a criatividade liberada na construção de todos os momentos e eventos da vida é a única poesia que ele irá reconhecer, a poesia feita para todos, o início da festa revolucionária. As revoluções proletárias serão festas ou não serão nada, pois a vida que anunciam será, ela própria, criada sob o signo da festa. O jogo é a última racionalidade dessa festa, viver sem tempo morto e gozar, sem impedimentos, são as únicas regras que ele poderá reconhecer.


Strasbourg, novembro de 1966.

[1]Estes conceitos - espetáculo, papel desempenhado etc. - são utilizados aqui no sentido situacionista
[2] Quando não estão a cagar-lhe na cara, estão a mijar-lhe no rabo
[3] Mas sem a consciência revolucionária. O operário não tinha a ilusão de ser promovido.
[4] Não estamos falando da cultura da École Normale Supèrieure ou da Sorbonne, mas da cultura dos enciclopedistas ou de Hegel.
[5] Sem coragem para se confessar adeptos do liberalismo filisteu, eles inventam para si mesmos referências nas liberalidades universitárias da Idade Média, época da “democracia da não-liberdade”.
[6] Conforme a Internationale Situacionniste n.9 (redação: caixa postal 307.03, Paris). Correspondência com um Ciberneticista e o panfleto situacionista A Tartaruga na Vitrine, contra o neo-professor Abrham Moles.
[7] Ver A Luta Sexual dos Jovens e A Função do Orgasmo.
[8] Para o restante da população, a camisa-de-força é necessária para fazê-la comparecer, na sua fortaleza, perante o psiquiatra. Para o estudante, basta anunciar que os postos avançados de controle estão abertos no gueto: ele acorrerá com tal frenesi que a distribuição de senhas será necessária.
[9] Sobre a gangue argumentista e o desaparecimento de seu órgão (a revista Arguments) ver o panfleto Na Lata do Lixo da História, divulgado pela Internacional Situacionista em 1963.
[10] A esse respeito, nnca será demais recomendar a solução, já praticada pelos mais inteligentes, que consiste em roubá-los.
[11] Ver as últimas aventuras da UEC (União dos Estudantes Comunistas) e de seus homólogos cristãos, com suas respectivas hierarquias. Elas demonstram que a única unidade entre todas essas pessoas reside na submissão incondicional aos seus mestres.
[12] No sentido que o jovem não somente sente, mas quer expressar.
[13] Quando os partidários do movimento antinuclear descobriram a existência de abrigos nucleares ultra-secretos reservados aos membros do governo, tornaram o fato público e, em seguida, os invadiram.
[14] Pensamos aqui na excelente revista Heatwave, cuja evolução parece orientar-se para um radicalismo cada vez mais rigoroso. Endereço: 13, Redclife Rd., Londres, Inglaterra.
[15] Kaihosha: c/o Dairyuso, 3 Nakanoekimae, Tóquio, Japão. Zengakuren: Hirota Building 2 - 10, Kandajimbo, Chyioda-Ku, Tóquio, Japão.
[16] Internationale Situationniste n. 8
[17] Internationale Situationniste, n 7.
[18] Sua efetiva realização é tender a industrializar o país por meio da clássica acumulação primitiva às custas do camponês. E fazer isso de uma forma acelerada pelo terror burocrático.
[19] Há mais de 45 anos que, na França, o partido dito comunista não dá um passo em direção à tomada do poder. O mesmo acontece em todos os países desenvolvidos, onde o exército dito vermelho não chegou.
[20] “Lutas de classe na Argélia”, Internationale Situationiste, n. 10.
[21] Sobre seu papel na Argélia, ver “Lutas de Classe na Argélia”, Internationale Situationiste, n. 10.
[22] Internationale Situationiste, n. 9.
[23] Internationale Situationiste, n. 10.
[24] Definido pela permanência do trabalho-mercadoria.
[25] Depois da crítica teórica empreendida por Rosa Luxemburgo.
[26] “Lutas de classe na Argélia”, Internationale Situationiste, n. 10.
[27] Socialismo ou Barbárie, Poder Operário etc. Um grupo como o ICO, pelo contrário, ao se proibir qualquer organização e uma teoria coerente, fica condenado à inexistência.
[28] Internationale Situationiste, n. 9.