quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Deleuze e o xamanismo


Há alguns dias, um grupo de amigos e eu trocamos alguns comentários acerca da passagem abaixo, de autoria de Renato J. Ribeiro (Fonte: http://www.renatojanine.pro.br/Ciencia/pensando.html).

Para alguns, tratou-se de uma "má porta de entrada" a Deleuze, pois o autor não seria a melhor opção para interpretar o "caso" abaixo (haveria preconceito, arrogância etc).

Para outros, o interesse se encontrava justamente na "consideração ao outro", que se evidenciava tanto na "estória", como na interpretação do autor.


Para mim, todas as considerações guardam seu interesse, e creio que, além disso, o autor deixou de ir "às últimas consequências": acho que a filosofia de Deleuze propõe uma especie de xamanismo, onde o perspectivismo implica uma mudança radical, uma superação ou transformação (ou mesmo uma dissolução) do "eu", uma transitoriedade em nome de um fluxo positivo e permanente.


"De 1972 a 1975, assisti aos seminários de Gilles Deleuze, na Universidade de Vincennes, perto de Paris, onde o governo francês criara um território para os estudantes mais radicais do pós-1968. Era um espaço livre, mas ao mesmo tempo degradado – no restaurante universitário, por exemplo, como furtassem os talheres, a administração parou de fornecê-los, e só comia quem os trouxesse de casa. O pó às vezes se acumulava nos corredores. Mas as aulas, melhor dizendo, os "seminários" (il n’y a pas de cours! não há aulas, dizia Deleuze, quando lhe perguntavam se podiam assistir a elas) faziam pensar. Um dia, Deleuze elogiou as obras de Carlos Castañeda, antropólogo mexicano que estava em voga pela série de livros sobre um feiticeiro indígena com quem aprendera muito – e, em especial, a ver de uma maneira nova, diferente. (Mais tarde, Castañeda foi acusado de falsificar seus relatos mas, para o que nos interessa, tanto poderia ter escrito um documentário quanto uma obra de ficção; Deleuze também estudou Kafka, e ninguém vai perguntar se "o processo" ocorreu mesmo, e quando). Falou da importância de se aprender com a experiência. Um senhor na sala, o único de terno e gravata, lhe perguntou se por "experiência" entendia o que Husserl chamou de Erlebnis, que numa tradução literal seria "vivência".

Deleuze respondeu que não sabia alemão, que não conhecia Husserl – o que era tudo falso, porque ele era um fino entendedor da história da filosofia; só que, sendo mais um filósofo do que um historiador do pensamento, ele permitia-se esse duplo jogo. Por um lado, um certo charme: fingia uma ignorância que não tinha. Por outro, uma lição bem clara: não estava interessado no pedigree de suas idéias ou no pedantismo de seu ouvinte, mas em pensar a experiência. E concluiu, ante a insistência do senhor esnobe: "Pode definir experiência por vá ver o que está acontecendo, como Carlos Castañeda foi fazer com seu mestre índio".

Há, nesse diálogo entre o filósofo e o aluno engravatado, um lado algo coquete. Deleuze não endossaria um vale-tudo com o pensamento. É difícil alguém que passou pela filosofia avalizar uma irresponsabilidade em que qualquer opinião valha. Mas ele também rejeitava uma tentativa de o enquadrarem, ele ainda vivo, como um pensador já canônico, cujas raízes alguém estudaria. Mais que isso, o que lhe importava – e por isso estava em Vincennes, apesar da agressividade de parte dos estudantes da escola, que de vez em quando invadiam as salas de aula, diziam absurdos e, no caso dele, assim o faziam desaparecer por duas ou três semanas – era que suas idéias vivessem.

E por isso, ao pedigree nobre que lhe oferecia o porta-voz do espírito de seriedade, fazendo remontar sua "experiência" à fenomenologia, ele preferia contrapor uma origem de registro quase vulgar. É claro, Deleuze não sabia que talvez Castañeda tivesse mentido. Mas ele recorria à antropologia e não aos clássicos, a um autor do Terceiro Mundo e não da Europa, ao saber de um adivinho e não ao de um acadêmico, ao mundo popular e não ao culto, à empiria e não à dedução. Este é um dos modos, certamente não o único, de nos fazer pensar. Melhor ainda, se combinarmos as duas origens, a culta que Deleuze marotamente ocultava e a vivencial, que ele enfatizava.

É o que procuramos, aqui. Relatamos toda uma experiência com a política procurando, ao mesmo tempo, pensá-la. Este projeto não veio do nada. Cada texto, cada passo que demos esteve marcado por anos de reflexão sobre a política. (Algo disto se pode encontrar em meu A Universidade e a vida atual – Fellini não via filmes, ao qual remeto, mas lembrando que são dois livros inteiramente diferentes, até porque o eixo aqui é a questão da nova política)."

3 comentários:

Luciana G. disse...

Ei, JL,
chego aqui e encontro Deleuze!
Bacana, conheço pouco do filósofo do desejo, nunca li Antí-Édipo. Mas recebi, uma vez, a transcrição de uma entrevista dele. Fui lá catar nas pastinhas do meu computador, estava lá! Em sua homenagem, transcrevo um trecho que acho bem significativo:

"Nossa oposição à psicanálise é múltipla, mas quanto ao problema do desejo, é que os psicanalistas falam do desejo como os padres. Não é a única aproximação, os psicanalistas são padres. De que forma falam do desejo? Falam como um grande lamento da castração. A castração é pior que o pecado original. É uma espécie de maledicência sobre o desejo, que é assustadora. Acho que há três pontos, que se opõem diretamente à psicanálise. Esses três pontos são: o inconsciente não é um teatro, não é um lugar onde há Édipo e Hamlet que representam sempre suas cenas. Não é um teatro, é uma fábrica, é produção. O inconsciente produz. Não pára de produzir. É o contrário da visão psicanalítica do inconsciente como teatro, onde sempre se agita um Hamlet, ou um Édipo, ao infinito. Nosso segundo tema é que o delírio, que é muito ligado ao desejo, desejar é delirar, se você olhar um delírio, qualquer que seja ele, se olhar de perto, não tem nada a ver com o que a psicanálise reteve dele, ou seja, não se delira sobre seu pai e sua mãe, delira-se sobre algo bem diferente, é aí que está o segredo do delírio, delira-se sobre o mundo inteiro, delira-se sobre a história, a geografia, as tribos, os povos, as raças, os climas, é em cima disso que se delira. Posso dizer, sinto isso, mesmo depois de tantos anos, depois de O anti-Édipo, digo: a psicanálise nunca entendeu nada do fenômeno do delírio. Delira-se o mundo, e não sua pequena família. O terceiro ponto: o desejo se estabelece sempre, constrói agenciamentos, se estabelece em agenciamentos, põe sempre em jogo vários fatores. E a psicanálise nos reduz sempre a um único fator, e sempre o mesmo, ora o pai, ora a mãe, ora não sei o que, ora o falo, etc. Ela ignora tudo o que é múltiplo, ignora o construtivismo, ou seja, ignora os agenciamentos."

Um abraço,
Luciana

jholland disse...

Muuito legal essa...Obrigado pela participação "construtiva" no Blog.
De fato, acabo de vir de uma aula sobre Deleuze, abro o Blog e me deparo novamente com... Deleuze. Só isso que vc se escreveu já dava amplas discussões. Uma coisa interessante é que ainda não vi ninguém falar explicitamente das relações etre Deleuze e a filosofia indiana e, em especial, o Budismo,embora vejo claramente muitas cinexões e que estão me permitindo entender mais facilmente o filósofo.

Bjs.
José Luiz

Luciana G. disse...

Olha, se pudesse mandava a transcrição original que tenho, são 71 páginas de Word. Uma longa entrevista que ele deu, em vídeo, e que foi transcrita - virou o Abecedário de Deleuze. Copiei um pequeno trecho de D, de desejo.
Um abraço, Luciana