sábado, 26 de maio de 2007

Sobre sonhos...

Sobre os sonhos...para além da cisão consciente x inconsciente
Parte I

Tomemos como exemplo os mecanismos que levam à geração dos sonhos.

Durante a vigília, somos invadidos por um grande fluxo de sensações: estas são não apenas provocadas por estímulos externos - internalizados - como também pela memória e por novos pensamentos, idéias, imagens e emoções. Tudo isso constitui um inesgotável universo produtor de sensações. (Há, ainda, inúmeras sensações que não são transferidas para a consciência, como por exemplo, a conversão automática de sons em imagens etc.). A hipótese é a seguinte: essa enorme quantidade de sensações pretende-se sempre ser tornada consciente, que é a instância simbólica por excelência, na qual o indivíduo "materializa" e manipula não apenas informações como também e sobretudo as próprias sensações - pelos mais diversos meios, seja pela geração de palavras, seja pela elaboração de imagens ou por idéias abstratas, mas que sempre têm a estrutura de uma linguagem. Em suma, as sensações são recepcionadas pela consciência por meio da geração de signos. Entretanto, segue-se que, nesse processo, subsiste um resíduo (e a hipótese é de que esse resíduo é estrutural, inerente), constituído por um conjunto de sensações, muito sutil, que não é nunca transferido à consciência, não é manipulado por meio dos símbolos (poderíamos mesmo dizer, quase escapara à esfera da linguagem, mas essa é uma questão ainda em aberto). Pois bem, ao dormirmos, é exatamente esse resíduo que requer e que demanda seu processamento por meio de signos, que se dá por meio da geração dos sonhos.

O sonho é assim um novo código, no qual sensações armazenadas e não expressadas (o resíduo) são traduzidas por imagens etc.; estas não guardam a mesma relação significativa que aquela estabelecida na vigília. Ou seja, na vigília, estamos sob o domínio de um código de correspondências - determinado em grande parte culturalmente - entre signos e significados (emocionais etc). No sonho, estamos sob domínio de um outro código, no qual sensações também são traduzidas por imagens ou signos, embora de maneira diferente. Entretanto, interessa-nos aqui o processo pelo qual esse fenômeno opera: ou seja, sob que forma, esse resíduo "motivacional" ("pulsional"?) consegue estabelecer uma ponte que possibilite ser traduzido de forma simbólica, gerando imagens etc (o sonho).

Para que essa transformação opere, há uma fase "intermediária", um pouco antes de entrarmos na fase do sonho, quando se processa uma operação de desconstituição do código da vigília. Nessa fase, inicia-se a retomada do resíduo, ou seja, as preocupações conscientes (e simbolizadas pelo código da vigília) começam a ser mescladas com o resíduo (que começa a emergir e tomar seu lugar); quando este último começa a se impor como significado dominante, inicia-se um relacionamento desse conteúdo inconsciente com imagens e signos comuns ou ordinários (e, note-se, também com elementos difusos e indeterminados): poderíamos dizer, as sensações começam a se transformar em signos, mas esse processo é paulatino e mais ou menos lento e caótico por definição; as sensações começam a adquirir um novo sentido. O processo termina com a elaboração e atribuição de signos completos para as sensações do resíduo, quando as percepções difusas e não elaboradas passam a ser traduzidas integralmente por imagens e sons (reconhecíveis em vigília, mas elaboras a partir de outro significado, que é o resíduo).

Nos sonhos, não há a geração de resíduos[1], pois os próprios resíduos constituem a matéria-prima para a geração e percepção dos signos oníricos. Por isso, tudo é automaticamente traduzido em imagens e fatos. E, assim, para que possamos obter uma consciência dentro do sonho (uma espécie de controle do sonho), torna-se necessário que a consciência seja de outra espécie, não podendo estar ancorada nos resíduos. A hipótese que surge, portanto, é de que o "Eu", nesse caso, deve estar ancorado em algo "além" das sensações, percepções, emoções que constituem a matéria-prima dos sonhos, pois, caso contrário, não haverá controle do sonho: o resíduo é sempre e imediatamente ("automaticamente") traduzidos em signos, durante o sonho.

Se isso for verdadeiro, temos aqui uma segunda questão: se podemos explicar os signos criados durante o sonho por meio de sua vinculação com o resíduo, muito mais complexo será o procedimento inverso, ou seja, verificar por que tal ou qual conjunto de resíduos deu origem àquela determinada imagem (e não outra) dentre um conjunto infinito de signos possíveis de serem criados. Por exemplo: se sonho com uma grande onda no mar que me atinge, posso explicar a correspondência disso com o resíduo; porém, mais difícil é explicar porque esse resíduo não deu origem a outra espécie de imagem, por exemplo, um cão latindo... Evidentemente, essa questão se assemelha àquela, já clássica, levantada por Levi-Strauss acerca dos mitos, com os quais os sonhos guardam muitas semelhanças e, entendemos, poderiam também ser eles próprios analisados estruturalmente. Pois bem, a hipótese aqui é de que essa determinação é impossível: não há uma lógica na escolha dessa ou aquela imagem para a tradução simbólica do resíduo, vigindo o "princípio de indeterminação" de Saussurre, segundo o qual a escolha desse ou daquele signo não obedece a um princípio determinado. E aqui, talvez, encontremos a dimensão da liberdade: há uma liberdade na construção do código que gera a construção dos signos. Haveria assim uma matriz inteiramente livre, que molda o código.
Parte II
Uma outra questão interessante acerca dos sonhos se refere à estrutura onírica e à vontade envolvida nos sonhos.
Vou tentar explicar essas 2 questões, começando pela segunda.
Quando sonhamos, uma série de acontecimentos se desenrrolam e reagimos a eles das mais diversas formas. Entretanto, nossas reações a esses "acontecimentos" não se dão de acordo com o mesmo tipo de vontade que move nossos atos na vigília. (E, além disso, devemos ter claro que tudo o que ocorre em nossos sonhos é produzido por nós mesmos). Ou seja, os sonhos também são um ato de nossa vontade. Há porém uma diferença importante: na vigília, posso decidir pegar um objeto ou me mover nessa ou naquela direção. E assim os atos são produzidos. Porém, nos sonhos, os "acontecimentos" - imagens, sons, personagens, sentimentos etc - parecem se desenrrolar independentemente de nossa vontade. Isso parece realmente ocorrer, porque elegemos como critério critério a vontade ordinária que rege nossas ações na vigília. Contudo, sabendo-se que o sonho resulta de uma ação de nossas próprias mentes, devemos concluir que em sua produção acionamos um outro tipo de vontade: aquela que dá origem à produção dos próprios sonhos. A questão, portanto, é estarmos em contato com esse tipo de vontade, que, sendo parte de nós mesmos, se impõe, contudo, durante o sonho ( e será que somente no sonhos ?) como se fosse um poder externo (pois no interior do sonho os eventos aparentam ser "externos" a nós mesmos).
A outra questão - a estrutura dos sonhos - relaciona-se com a primeira.
Quando sonhamos, parece que os acontecimentos e nossas ações são do tipo "reativo". Estamos como que inteiramente "condicionados" nos sonhos, apenas reagindo a essa ou aquela imagem, acontecimento etc. Entretanto, se tivermos em conta que tudo nos sonhos são parte de nós mesmos - produto daquela vontade descrita acima - temos que o caráter reativo do sonho tem por referência apenas aquilo que identificamos com o "EU" nos sonhos, uma espécie de "Ego onírico": o "Ego onírico" é que se encontra condicionado, não o Eu real, que é produtor do sonho todo. O "Ego onírico" ou "consciência onírica" diz respeito àquela identificação que temos no sonhos com um personagem qualquer (tido como "eu" no sonho) e que geralmente se encontra condicionado pelos eventos oníricos, meramente reagindo a eles.
Isso nos permite elaborar uma espécie de homologia entre o sonho e a vigília: é como se o sonho nos demonstrasse como nosso Ego se encontra falsamente condicionado, não dando chance à nossa vontade real interferir de maneira plena em nosso cotidiano. Ou seja, recuperando-se a vontade, recuperaríamos a nossa liberdade, nossa existência não dependente, tanto nos sonhos, quanto na vigília. Dessa forma, tudo se passa como se na vigília também estivéssemos num sonho: a cisão consciente/inconsciente não nos deixa acordar e recuperar nossa autonomia.
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[1] É verdade, entretanto, que já tive sonhos em que fiquei "preocupado": ou seja, aparentemente, esse sonho ocorreu à semelhança da vigília, em que um determinado fato ocorria paralelamente à minha consciência, que se movia, ela própria, independentemente do fato que se desenrolava: por exemplo, enquanto alguém me ameaçava, eu examinava a situação, por meio de pensamentos...Mas parece não ser isso o que ocorre na fase intermediária...

2 comentários:

z.B. disse...

Aqui há algo de interessante. Será que deveríamos fazer política como Fellini faz filmes? Talvez melhor que assistir àquelas aulas inúteis de política devessemos assistir mais filmes do Fellini.
Mas falando um pouco mais sério: a proposta, já havia dito em outro lugar, de "sonhar acordado" é ótima. Agora como podemos pegar de volta essa "vontade" e esse "arbítrio"? Pode parecer um pouco menos difícil numa discussão teórica, apesar da dificuldade de se trabalhar sem conceitos, ou conceitos "móveis". Mas como transfomar o sonho em Ato, e mais, em "Ato Transformador"? Como fazer política sonhando?

jholland disse...

Acho que a questão se refere à recuperação de uma vontade que seja autônoma. Acredito que a liberdade possa ser encontrada no "reino da vontade".Uma votade autônoma dá surgmento à liberdade. Quando dermos vazão à nossa vontade mais íntima, não cindida, nos libertamos dos condicionamentos. E, nesse sentido, a pesquisa dos sonhos pode ascender algumas luzes, pois nos remete àquilo que há de mais íntimo, a cisão entre consciente e inconsciente.