terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Entrevista com Eduardo Coutinho

Quando a minha tese é outra: negro tem que filmar branco e camponês tem que filmar negro e tem que trocar. Índio tem que começar a filmar branco e branco…sabe? Nada impede que branco filme índio. Precisa dos dois lados, um do lado de dentro, um de fora. Não tem sentido que um filme sobre metalúrgico só pode ser feito por metalúrgico. Isso é uma tolice. O multiculturalismo que botou isso na cabeça. Então pra filmar uma lésbica eu tenho que ser lésbica? É o mesmo do mesmo, entende? Não há conflito. Não vou ao cinema para ser educado, pra aprender o bem. Odeio esse tipo de coisa tipicamente americana.
 
 

“Tudo o que eu faço é contra o jornalismo”

 
Entrevista inédita de Eduardo Coutinho concedida em 2011 a Mariana Simões e reproduzida pela Pública, 03-02-2014. Foto: Divulgação/SESC.
Eu tinha 22 anos quando comprei uma passagem para o Rio de Janeiro para entrevistar Eduardo Coutinho. Na época eu cursava graduação em Comunicação nos Estados Unidos e estava passando as férias em Brasília. Fiquei um mês trabalhando na tese: metade fazendo pesquisa sobre a obra de Coutinho e a outra metade com o telefone na orelha, tentando agendar uma entrevista com o documentarista.
Quando consegui o número de telefone do escritório dele,  achei que a minha entrevista estava garantida. Mas faltando uma semana para eu voltar para Nova York, ainda não tinha dado em nada. Comecei a entrar em pânico. “Se faça de boba, minha filha,” meu pais me disseram.
Eu segui o conselho: mandei um e-mail para a produtora dele dizendo que já tinha comprado minha passagem para ir ao Rio de Janeiro e que, no dia seguinte, ligaria para confirmar o horário da entrevista. “Você sabe como é, ele já está velho, não gosta mais de dar entrevista,” alguém me disse pelo telefone dias depois. Expliquei que já estava no Rio de Janeiro esperando ele me atender. A passagem custou caro, eu iria voltar logo para o exterior, fui dizendo.
Eu tinha entrevistado o cineasta Vladimir Carvalho na semana anterior. Ele foi simpático ao telefone e, quando nos encontramos, ficamos horas conversando. Um homem sorridente, com boa vontade, cheio de energia.  
Com Coutinho foi praticamente o oposto. Quando entrei na sala para entrevistá-lo, a única que estava sorridente era eu. Coutinho estava atrás de uma mesa, me esperando, um maço de cigarros em mãos. Ele falava baixo, meio rouco. Tossia muito.
Apertou minha mão. Perguntei se podia filmar a entrevista, ele gesticulou que sim e eu comecei a agradecer como uma tonta. Disse que era uma honra poder entrevistar um homem que mudou a cara do documentário brasileiro. Fui logo acrescentando que achava ele um grande documentarista, alguém que eu admirava, mas percebi que ele não gostou dos meus elogios. Não queria se fazer de herói, nem aceitar o título de grande cineasta; ele era apenas um cara que gostava de documentar o encontro da câmera com o mundo. E, de fato, avisou que não fazia filmes para descobrir a verdade sobre ninguém.
Tudo que eu tinha entendido sobre o trabalho dele até então foi aos poucos desmoronando. “Eu estou interessado que a pessoa fale a partir de sua experiência sabendo que, como é memória, toda memória é mentirosa, e portanto tem verdade e mentira juntos. Isso é inevitável,” ele explicava. De acordo com Coutinho, não era possível fazer um documentário que só contasse a verdade. Para ele, não existia uma verdade única sobre um acontecimento, mas sim várias verdades ou várias experiências vividas que juntas pudessem contar uma história.
Assim como os gestos e o comportamento dele, naquele dia, também contaram uma história.
Quando entrei na sala, vi um homem de 80 anos que já estava cansado, cuja voz às vezes falhava, mas um homem que ao longo da entrevista foi se soltando, começou a mostrar outra cara. Apesar da aversão que sentia em dar entrevistas, eu notava o brilho no olho dele, o orgulho que tinha pelo que fazia, a paixão que sentia pela arte que havia criado. Antes de ir embora, pedi para tirarmos algumas fotos juntos. Na última, ele puxou meu braço  e disse: “Agora chega de fotos genéricas, vamos fazer uma em movimento.” E aí ele acenou para a câmera e por um instante consegui capturar algo: não a verdade sobre Coutinho, mas um retrato dele naquele momento. Que se foi.
Você acha que o documentário é de alguma forma uma extensão do jornalismo?
Questões gerais eu odeio. Se você me pergunta a diferença do documentário pra ficção nós não vamos sair do lugar. Não, eu fiz nove anos de jornalismo para a TV Globo, trabalhei três anos em jornal também, até fui jornalista, dirigi filmes para o Globo Repórter. Mas eu, desde que eu saí do Globo Repórter, tudo que eu faço é contra o jornalismo.
Contra o jornalismo?
Eu odeio o jornalismo. Não estou interessado em jornalismo. Não estou interessado em informações, mapas, em filme militante, em filme político. Deus me livre. Aquecimento global, liberar maconha. Não estou interessado em filmes políticos, sociais, genéricos. Nada que é genérico me interessa. Quero saber das pessoas que eu filmo, só. Então comigo é uma exceção, um tipo de cinema particular que eu faço, do qual é o único que eu sei falar. Não falo sobre o cinema em geral porque, bom, o documentário pode ser tudo, né? Jornalistas podem fazer excelentes documentários jornalísticos, evidente. O Michael Moore é jornalista, no fundo um cineasta, e que é um tipo engraçado e tal, mas que é um populista evidentemente de esquerda e que, enfim, usa metas que eu não usaria. Mas é um cara altamente eficaz, está milionário e tal, mas é jornalismo. E seus filmes são úteis? São, em certa medida são. Tratar dos assuntos que ele trata, agora, as metas que ele usa, não me interessa.
Você acha que o Michael Moore interfere muito no filme?
Michael Moore é um exemplo, tem mil outros. Todo cara que começa a fazer um filme dizendo “eu vou fazer esse filme para obter tal resultado” não me interessa. Vou dar um exemplo: o filme do Al Gore, não vou ver. Não estou interessado! O filme que o cara sabe que ele vai fazer para dizer que a maconha deve ser legalizada, não estou interessado! Que o mundo vai ser aquecido, o cacete a quatro, não estou interessado! Outro pra dizer que não pode comer carne. Outro pra dizer que a miséria é boa. Não quero saber disso, não interessa. Faça um livro, faça isso no jornal. Agora a experiência de fazer cinema, que é tão ingrata, que você não ganha dinheiro, que é chata pra burro, só tem sentido para mim se é uma coisa que você goste, desse tipo de coisa eu não gosto. Tem gente que adora e faz bem. Um filme que é feito sobre o nazismo etc, isso é um filme jornalístico de um certo sentido, mas com alto nível de pesquisa e tal e interessante, mas não é o tipo de filme que me interessa fazer.
Até que ponto você, como diretor, deve interferir, por exemplo, durante uma entrevista?
Eu tento não interferir. Ou melhor, eu tento… Eu não julgo. Eu não julgo se um cara, uma pessoa que é escrava, que gosta de ser escrava, eu não vou perguntar “mas como?!” Se ela quiser ela dá um discurso do porquê ela gostar de ser escrava. Eu não estou lá para mudar as pessoas, eu estou lá para ver o estado do mundo através das pessoas. A partir da relação que eu vou ter com a pessoa, que é o essencial, na qual tudo pode acontecer, pode haver conflitos ou não conflitos etc. Mas que eu não estou lá a fim de dizer para a pessoa que ela mude de opinião, não. Aliás, a opinião não me interessa. Me interessa que as pessoas tratem de sua vida. A partir de suas vidas, as pessoas vão ter opiniões de direita e esquerda, tanto faz, mas que são viscerais. Eu não estou interessado no conteúdo social da vida da pessoa, eu estou interessado no que a pessoa fala a partir de sua experiência sabendo que, como é memória, toda memória é mentirosa, portanto tem verdade e mentira juntas, isso é inevitável. Não há solução. Ninguém consegue desobstruir a memória, então eu aceito aquilo que é exagero. Como sabe se o sentimento é verdadeiro ou não? Sabe, “eu gostei de um cara.” Eu sei lá se gostou ou não, ela conta a história do romance dela, é um segredo. Porque são pessoas comuns. Se eu fosse entrevistar o Napoleão não ia entrevistar sobre a vida dele, o interessante é a política dele. Quer falar sobre um político, faça um livro.
Por que você começou a fazer documentário tão tarde na vida? Acho interessante que não foi na faculdade que você entrou nesse caminho. Você começou fazendo Direito, não foi?
Comecei por Direito porque era o que se fazia. Direito, Engenharia, Medicina. Mas enfim, larguei, fui trabalhar em jornalismo, depois fiz um curso de cinema e passei a fazer cinema. Agora, ninguém podia pensar em fazer documentário no Brasil nos anos 1960. Nem cinema! Quanto mais documentário. Longa metragem? Isso não existia. Som direto ia começar ainda e tal. E daí fui fazer ficção até o final dos anos 70. Fiz um filme interrompido que tinha um lado documental mas que ao mesmo tempo eram camponeses e atores. E daí eu parei, fui fazer televisão teve o golpe de estado tal, tal, tal. Eu larguei o cinema durante dez anos e voltei para fazer o Cabra [Marcado para Morrer] onde eu fiz um trabalho de história, de jornalismo, de cinema, tudo misturado. Cabra tem tudo isso. Cabra tem tudo, pesquisei como um filho da puta. Trabalhei muito antes de fazer o filme. Sobre a historia dos camponeses etc pra saber que perguntas que eu devia fazer. Nos filmes que eu fiz nos últimos dez anos e tal, não faço pesquisa, não tem que fazer pesquisa. Eu vou filmar num lixo e simplesmente vou ao lixo conversar com as pessoas. Isso é bom ou ruim? Você tem que perguntar pra uma pessoa que tá lá no lixo, isso é bom ou ruim? Porque eu sei que tem aquilo e tem coisa pior que aquilo.
Em Boca do Lixo, você se surpreendeu com o que as pessoas falaram nos depoimentos?
Não há coisa mais degradante do mundo do que o cara ser filmado catando o lixo. E tive a reação deles e aí eu dizia ‘e por que?’ E depois eles diziam os motivos pelos quais trabalham no lixo. Motivos até, econômicos. Entende? Em fim, eu tentei ouvir o lado deles. Ninguém diz aqui é bom, mas muitos dizem “não, mas aqui eu alimentei meus filhos, eu conheci amigos”, por exemplo. O cara de esquerda supõe que aquilo dali é horrível, que a culpa é do governo, que a culpa é do capitalismo. Acontece que eu fui lá aberto e ouvi gente dizendo: “Eu prefiro isso do que ser empregada”. Taí um troço novo. Porque o cara nas condições terríveis do lixo, pelo menos ele é autônomo, ele não tem patrão. Alienado ou não, o cara julga um triunfo ele não ter um patrão. No Brasil inteiro deve ter um milhão de pessoas que vive na rua vendendo coisas. E essa noção de liberdade, se é falsa ou não, não importa. O cara no lixo diz “Olha eu trabalho aqui, agora sábado eu não venho. Sábado eu faço feira, não sei o que.” Não ter um patrão para quem tem herança de escravidão é um troço essencial. Tudo no Brasil está ligado ao troço da escravidão. Isso pesa muito, entende? O horror ao trabalho é um troço que vem dos 350 anos de escravidão.
Edifício Master, documentário produzido por Coutinho em 2002
Pulando um pouco, o filme que me introduziu ao seu trabalho, foi o Edifício Master…
É onde eu já estou num outro caminho, em que eu não quero dizer que aquilo ali é o inferno ou o paraíso. Eu quero simplesmente tentar ver como as pessoas vivem aquilo. Porque como eu não vivo aquilo, se eu tivesse a minha idade e tivesse morando lá eu dizia ‘pô, fim de linha, que fracasso’. Depende, as pessoas que eu encontrei lá, tem um aposentado que esteve nos Estados Unidos, tem pessoas de classe média que estão lá um período da vida que depois saíram de lá e também foram para Alemanha, o cacete. Tem de tudo lá: classe média baixa, média e meia média. Entende? Então o que me interessava era conhecer isso, o que é viver naquela cidade. Paris, Moscou, Nova York, é tudo igual. Você encontra a mesma solidão. Um cara que mora numa quitinete e que morre dez dias depois alguém encontra pelo cheiro porque era solitário. Se encontra aqui, se encontra em Nova York, se encontra em todo lugar.
Inclusive a minha tia avô ela mora em um edifício igualzinho a esse…
Em Copacabana?
Em Copacabana!
A maior porcentagem de idosos no Brasil é em Copacabana: tem 15% de idosos. A razão é muito simples. Tem tudo lá: prostituição, crime, tal. Mas é um bairro que tem muita vida, tem comércio, tudo é perto. É muito melhor morar em Copacabana do que no centro da cidade que não tem nada. E a praia está perto então o velhinho vai lá e passeia. Então morar em Copacabana, hoje, para aquelas pessoas foi um ganho. É uma coisa interessante com todos os problemas que tem.
Eu li uma entrevista em que você dizia que, quando você começou a fazer o Edifício Master, sentia medo de não desenvolver uma história boa porque era um bairro de classe média.
Isso aí é porque as pessoas se defendem. Se vai lá na favela e todo mundo está disposto a falar, eles têm eloquência, têm beleza na fala, têm a gíria. Cem anos de cultura em favela. A favela é um troço orgânico e forte em comparação com o asfalto. O exterior/interior não existe, você está andando e, da janela, alguém te chama pra entrar, entende? Eles têm consciência que tem o ‘nós da favela’ e tem o ‘nós do asfalto’. Isso está ligado, porque eles vivem a vida do asfalto também, vão à praia e tal mas eles tem consciência do ‘nós’ favelados. Num prédio, ninguém fala ‘nós’. A diferença é essa. Como é que eu vou dizer ‘nós do meu prédio’? Eu moro num prédio normal- 30 apartamentos, 35, sei lá. Mas não vou dizer ‘nós’. Nem conheço quem mora lá, nem quero conhecer ninguém. As pessoas na favela se conhecem todas, é um outro tipo de vida. Tem esse lado positivo de formar comunidade, de que é uma vida muito aberta. Então quem se mata é quem mora no Master, em favela ninguém se mata. Já ouviu falar em algum suicídio em favela? Eu nunca vi. É impressionante, não sei se tem estudo sobre isso, mas eu não conheço caso. Um mata o outro, droga é outra coisa porque o cara é viciado, dependente e guerra do tráfico é outra coisa. Mas suicídio mesmo, sem razão ou por depressão, é difícil.
Então por isso eles [os personagens de Master] falavam pouco, eles riam pouco, tinham pouca riqueza vocabular. Em termos de experiência de vida também não era tão forte. É por isso que tem 37 personagens – eu tinha que ter quantidade porque eu sabia que não ia ter personagens maravilhosos como tive em outros filmes que podiam ocupar dez minutos. Tem 37 pessoas no filme e acho que nenhum chega a cinco seis minutos. Pessoas que entram por três, quatro minutos. Mas em compensação é 1 hora e 50 minutos de gente falando.
Quando te veio essa ideia de botar só gente falando?
Isso foi desde que eu voltei a fazer cinema com Santo Forte. Fui fazer um filme sobre religião mas não queria botar culto nenhum, queria botar gente falando sobre religião. Daí eu fiz, acabei filmando também culto, mas acabei tirando e jogando fora. Depois de longas experiências arrumando e montando, tirei praticamente tudo, mas ainda tem imagens. E eu fui reduzindo e atualmente tem um filme que não tem imagem nenhuma. Só tem um preto e tem uma pessoa que fala ou canta. E é chegar no limite. Filme que só tem pessoas falando como Jogo de Cena. O próximo vai ser pior ainda, só tem uma pessoa que fala, um corpo falando. Então atrás você não tem que distrair, mostrar fotografia do filho, do neto. “Meu filho morreu”, pronto, conta a história do filho. A pessoa imagina, não preciso da foto do filho. Se é dito, a imagem é totalmente desnecessária no caso dos filmes que eu faço. Eu trabalho com cinema que se baseia na palavra. Por isso é muito difícil vender pra fora. Nunca vendeu. Quem não entende português é difícil, a legenda passa 60 %. Então é difícil porque meus filmes não vendem.
Você acha que vocês documentaristas são heroicos?
Não, não, não, não. A palavra herói não existe. Vítima e herói: não existe. Não tem coitadinho. Sabe o pobre, o coitadinho, como são feito os filmes. “Ah o coitadinho do pobre!” Eu não fui no lixo para tratar de vítima, senão acaba a relação. Eu vou tratar ele de igual pra igual na medida que é possível. Eu quero conhecer a sua razão. As minhas razões para estar aqui eu sei – eu posso, eu quero. Agora quais são as suas? Cada um tem suas razões para estar em algum lugar para fazer alguma coisa. Isso que eu quero descobrir. Então a razão do outro me interessa. Tentar estar no lugar do outro é a chave da questão. É impossível, mas tem que tentar, e nesse confronto de tentar entender o outro sai um diálogo que é improvisado, que é inventado, porque você inventa também quando fala. E não importa, se inventa bem, é verdade. Se é bem inventado, é verdadeiro e ponto final. “Eu fui feliz”, sei lá se é verdade. Tá dizendo! Pode ser que daqui um ano diga outra coisa. Entendeu? Tem que ser inventado com verdade. Quem inventa mal tá fora!
O documentário já existe à margem do cinema brasileiro. E os filmes estrangeiros dominam o mercado brasileiro então…
Tem o Cinema Novo, tem o cinema brasileiro sério que sempre foi marginal e vai continuar a ser. Tem Globo Filmes e tal, as exceções, mas é 15 % do mercado. O cinema brasileiro em geral é marginal no mercado. Calcule os filmes sérios que tem alguma dimensão estética, o que seja, social, o que seja. São filmes que se tiver 30, 50 mil espectadores já é extraordinário. No mundo todo o documentário é um lixo pequeno. Pensa que na França é diferente? Passou um filme que tem 100 mil espectadores e é extraordinário, é uma festa. Na França! Entende? As pessoas vão ao cinema para ver historias inventadas com atores. Baseadas em fatos reais ou não, mas simplesmente vão para o cinema sonhar. Sempre foi assim. E agora é sonhar em 3D. E aumentou até o nível de diferença de um cinema para o outro. Não dá pra competir com os filmes 3D americanos..não tem como o brasileiro fazer isso. Agora daí, de repente, pega essa esquema de novela e tal e faz o filme. São exceções. Mas o conjunto do cinema, o cinema brasileiro foi, é, e será sempre marginal. O próprio cinema vai passar a ocupar um lugar marginal. As pessoas vão ver filme aonde? Até em celular. Entendeu? Então o ato social de ver filme vai ficar menor, vai ficar como teatro. Ou então filmes que exigem telas gigantescas IMAX, sei lá. Os caras vão ver lá, vão ver esse tipo de cinema.
Cabra marcado para morrer, de 1984
Voltando ao Cabra. Você disse antes que você não tem uma intenção politica com seus filmes. Você diria que nesse filme você teve alguma intenção politica?
Não tem intenção política na medida que a palavra política é equivocada. Todo filme é político. Mas eu estou interessado no social, não no político. Como é que uma sociedade existe? Por que o Brasil é como é? Por que as pessoas são como são? Primeiro, você tem que saber como as coisas são para depois se quiser mudar. No Cabra, eu estava fazendo uma coisa que é diferente porque o Cabra tinha um ato político de fazer o filme, porque tinha história envolvida no filme. Isto é: minha vida parou com o filme. Esse é o fantasma. Como parou a vida dos camponeses. Então apresentou para mim uma dimensão psicológica, é realmente um filme de um caráter politico mas a partir de uma coisa pessoal também. Peões, não. Qualquer cara pode filmar a greve dos operários. Eu fui e fiz um filme lá, mas não tem nada ver com Cabra.
Por isso você quis que o enfoque do peões fossem nos metalúrgicos em vez de políticos?
Tem uma divisão né? Tem a história do Lula e o João [Moreira Salles] estava interessado e eu não, até pelo fato de que é o tipo de filme que tem que negociar cada dia o que filmar etc. Tinha que pedir ajuda ao sindicato foi muito trabalhoso, muito penoso. Cem mil sindicalistas. E eu tinha que achar gente que o sindicato queria e encontrar gente que dissesse coisas que não fossem evidentes. Então teve uma limitação. Não faço mais filme politico, histórico. Em princípio não faço mais.
Peões deve ter sido difícil porque você estava pegando uma região inteira não era como o Master que você ficou num prédio só…
Esse é o problema, ficou um negócio amplo demais. Só se eu ficasse um ano fazendo pesquisa que era impossível. A prisão espacial é essencial para mim. Eu preciso ter uma prisão espacial e naquela prisão eu sou inteiramente livre. Essa pobreza espacial é essencial pra eu não procurar ideologicamente aquele cara interessante. Não, nesse prédio eu tenho que achar um filme. Todos os filmes que eu filmo a regra é essa: num lugar tem que achar um filme. Até agora pelo menos tenho achado uns filmes que não são iguais. Mas são sempre num lugar só. Tirando Peões, todos os filmes que eu fiz recentemente são num lugar só. Numa vila que tem 80 famílias, num canto de lixo, num teatro de gente que responde a um anúncio. Se eu não pedir nada para a pessoa fazer e conversar meia hora com ela, ninguém mais controla se está filmando ou se não está. Não tem como conversar meia hora e a pessoa ficar engessada. Ou fica e sai do filme.
Igual àquele momento no Peões que o rapaz está falando e a esposa não quer participar, ela fala mas não quer aparecer.
Isso é extraordinário! Justamente houve uma briga porque o fotógrafo queria que minha assistente filmasse ela. Eu não quis e ela teve razão de não ter filmado porque o que me interessava era ela fora [de cena]. Ela sai da filmagem, portanto contra, daí ela às vezes dava palpite. Foi maravilhoso. Quem está no campo, quem está fora do campo isso é essencial. Ao lado estava o filho deles que é débil mental. Então tinha, a meio metro do quadro, no sofá, um filho de vinte anos completamente nervoso que gemia. Eu até perdi uma sequência interessante porque entrava o gemido do cara. Você filmando e tinha o cara aqui, a mulher aqui atrás e aqui do lado do sofá o filho gemendo. Não é que ele está com dor,  o cara tem problemas gravíssimos. E você filma e…pra eles é normal, eles vivem com aquele filho, então é normal pra mim, e vamos filmar.
A sua infância teve alguma coisa a ver com seu envolvimento no cinema mais tarde?
Não, eu era cinéfilo, uma pessoa que via filme. Ser cinéfilo é assistir três filmes por dia, anotar no caderno. Quando eu tinha dez anos eu fazia isso. Agora era impossível pensar no cinema brasileiro. Eu vi nove vezes uma chanchada, Carnaval no fogo. O que eu via de cinema brasileiro era chanchada, carnaval. Isso até 1951, 52. Fora isso eu via cinema americano, depois argentino, mexicano. Depois neorrealismo, até que eu fui estudar cinema e passei a me interessar. Mas isso de fazer cinema foi um passo gigantesco que só foi possível depois que eu voltei da Europa em 1960, 61 quando o Cinema Novo começou a nascer e se tornou possível fazer cinema no Brasil. De uma forma marginal, mas de qualquer maneira uma tentativa de ver o Brasil que não tinha aparecido no cinema brasileiro de antes. E fora da chanchada que realmente já não precisava mais porque com a chegada da televisão a chanchada não tinha mais mercado.
Se o Brasil não fosse não atrasado naquela época teria sido possível você entrar antes no ramo do cinema?
Isso não sei. Antes do Cabra, em que eu já tinha uns 40 anos, tudo que eu fizesse não tinha importância. Só quando eu fui filmar o Cabra que eu me libertei. Tudo que eu fiz antes não importa porque eu não sabia o que eu queria da vida. Quando eu fui fazer o Cabra, eu sabia o que queria fazer. Trabalhei cinco, seis anos, pesquisa, filmagem e fiz um filme à altura do que tinha sido a história. Depois fiquei 15 anos praticamente sem fazer filme até fazer o Santo Forte.
Se o Santo Forte não tivesse tido tanto êxito…
Se não fosse a produção do Santo Forte, eu tava morto. Se a repercussão crítica fosse ruim ou ninguém fosse ver, é possível que eu desistisse. Mas a verdade é que eu confiava, sempre confiei no filme falado que era como era e tal. Meus amigos diziam que era impossível, que ninguém ia aguentar. Todos os meus amigos, todos. Tirando uma pessoa da equipe, todos. “Não, é impossível, é uma tortura etc.” Mas foi gravado, foi aceito e foi maravilhoso. O documentário teve cinco prêmios e o público foi de 18 mil pessoas, o que até hoje é difícil fazer, e a crítica foi maravilhosa. Pensei “ Pô, achei, finalmente achei e eu quero continuar a fazer isso” e fiz e não parei de filmar de lá pra cá.
Tem documentário que mostra um caso isolado, por exemplo, de uma criança  pobre que trabalha nas minas da Bolívia e você como espectador se sente muito deprimido e culpado. Mas quando você sai dali você não sente continuidade…
Tem um monte de filmes que se aproximam do outro…Quem é o outro? O outro é o pobre miserável. O cara com defeito físico, o destituído tal, tal. E quem filma geralmente é uma pessoa de classe média, mesmo que com origem proletária. E tem a mania, americano adora isso, de tratar de forma paternalista. E daí o povo adora e chora e sente culpa. Isso é coisa que eu me recuso a fazer. Isso é uma coisa proibida em meu dicionário. Michael Moore, tem uma hora que ele abraça uma mulher lá que foi vítima, pra que ir lá e abraçar? Você tem que guardar distância da pessoa, não tem que consolar ninguém. Ou se consola, faz isso fora do filme. Então existe o “humanismo” entre aspas, que os americanos adoram, que é filmar o pobre. O cinema humanitário é o pior cinema do mundo. O humanitário ou de mensagem. Al Gore, ou então, mensagem. E a outra coisa de americano é essa: se é um filme sobre negra e lésbica tem que ser filmado por negra e lésbica. Sabe? Iguais filmam iguais. Quando a minha tese é outra: negro tem que filmar branco e camponês tem que filmar negro e tem que trocar. Índio tem que começar a filmar branco e branco…sabe? Nada impede que branco filme índio. Precisa dos dois lados, um do lado de dentro, um de fora. Não tem sentido que um filme sobre metalúrgico só pode ser feito por metalúrgico. Isso é uma tolice. O multiculturalismo que botou isso na cabeça. Então pra filmar uma lésbica eu tenho que ser lésbica? É o mesmo do mesmo, entende? Não há conflito. Não vou ao cinema para ser educado, pra aprender o bem. Odeio esse tipo de coisa tipicamente americana.
Eles colocam aquela narração em off que é uma voz assim divina falando…
Quando tem voz em off é pra tratar da pobre vítima da crueldade, os mineiros da Bolívia…e tratam de um jeito que é pra fazer o cara ter culpa, chorar.  Não estou fazendo filme pra ONG, pra arranjar dinheiro. Eu fiz o filme sobre o lixo, ninguém me deu dinheiro pra terminar. Pra começar sim, pra terminar foi difícil. Por que? Porque se eu dissesse que era pra promover um sindicato, eu ganhava. Se fosse catador que queria fazer um sindicato. Porque esses são os filmes que são politicamente corretos. Como meu filme não era, era o cotidiano dos catadores só, ninguém deu dinheiro.
De todos os seus filmes, qual abriu mais portas para você?
Eu me identifiquei com o Cabra. Se não fosse pelo Cabra estava na televisão, TV Globo até hoje, eu estava morto. Fora o Cabra, foi o Santo Forte. Agora, prazer tive em quase todos. Se eu não tivesse prazer eu não fazia. Não sou missionário.
Você acha que Cabra não seria um filme tão bom se não tivesse sido retomado anos depois?
Evidente. Teria sido um documento de época importante mas o filme é um filme com 70 camadas de sentido histórico. É uma revisão da história do Cinema Novo, do cinema brasileiro que inclui tudo: jornalismo, história, cinema, linguagem. Exatamente porque é um filme que conta a história do filme, cinema e história todo tempo, lado a lado. É extraordinário que eu consegui, porque eu soube fazer, tive um montador que me ajudou, tive um fotógrafo que me ajudou a fazer. Enfim, é um filme que aguenta até hoje porque ele não é um filme triunfalista. Ele lida com uma verdade do personagem e não com discurso. Os filmes em geral políticos são triunfalistas, tomamos o poder. Mentira. Jamais faria um filme assim. Quando se ganha se perde também porque dura dez anos. E esse é um filme muito chão, muito simples. Cabra tem dispositivos de montagem extraordinários, tem jornal, manchete, o filme antigo, o filme que eu filmei na UNE, filmes de outras pessoas. Tem filme americano que eu roubei pra usar a imagem, que não paguei, graças a Deus. E a aventura foi essa.
Por que você acha que mudou tanto sua visão entre o primeiro e o segundo filme?
Eu comecei a fazer documentário na TV Globo e eu comecei a descobrir que era aquilo que eu queria fazer. Aí foi uma escola pra fazer o Cabra porque a rapidez que se trabalha em televisão me ajudou a fazer isso depois de uma forma muito mais refinada. Então me ajudou, me educando e me deseducando. Cabra é um filme de suspense porque eu também não sabia o que eu ia encontrar. Quando fui filmar [pela segunda vez] eu não via a Elizabeth [personagem de Cabra] há 17 anos, exatamente o tanto de tempo quanto o espectador… Fui encontrar 17 anos depois, conhecer os filhos. Conheci eles quando filmei eles em 1962, 64 e fui lá ver eles 17, 18 anos depois como está no filme. Eu tinha que chegar filmando.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

O fim da Web ?



Os objetos inteligentes e o fim da internet como a conhecemos 

Gabriela Agustini empreendedora digital, em artigo publicado por Brasil Post,

29-01-2014.

O futuro da internet é móvel. E, além dos celulares e tablets, as conexões virão dos mais variados objetos. Geladeira, tênis, lâmpada, carro: em breve todos estarão conectados, emitindo e recebendo dados. Os chamados objetos inteligentes já são realidade e sua crescente popularização joga ainda mais lenha na discussão sobre neutralidade da internet, o princípio que garante o livre acesso a qualquer tipo de informação na rede.
Quando em 2010 Chris Anderson decretou na capa da Wired o fim da web, a interface gráfica que estamos acostumados a usar para acessar a internet, muita gente tomou um susto. Mais de três anos depois, a proliferação de smartphones, TVs com conexão e o mundo dos aplicativos mostram que os apps chegaram para ficar e que um possível fim da web pode estar mais próximo do que se imagina. Seria ok se o substituto não fosse um modelo centralizador, que coloca os interesses econômicos no centro do processo e pouco se importa com a pluralidade e diversidade de conteúdos.
A web nasce baseada na horizontalidade, tem natureza flexível, trabalha com os conceitos de relevância e abertura. Por isso, conseguimos acesso fácil a tanto conteúdo que as indústrias instituídas acham pouco relevante. É assim que um blog de um anônimo passa fácil a audiência de um canal de grande jornal.
No mundo dos aplicativos, a lógica é outra. Em vez de buscar conexões o usuário é incentivado a permanecer no feudo digital criado pela marca. Some isso à possibilidade de oferecer conteúdos com velocidades distintas que você tem uma noção do rumo que a internet está tomando.
E tem muito mais por vir. A indústria automobilística deve ser a primeira a incorporar as aplicações de maneira mais profunda. Sabe a relação que você tem com o seu celular? Então, é mais ou menos assim que serão os carros: cheio de aplicativos, com possibilidade de customização e sistema operacional. Prepara-se para ter que escolher entre um modelo Apple ou Google.
Parece uma maravilha, se não fosse a possibilidade de isso significar o consumidor como "refém" de uma única marca. Pensando nisso, algumas empresas já se uniram, atendendo um chamado da Fundação Linux, para criar um padrão aberto que interligue as conexões das diversas aplicações de IoT (Internet of Things, a Internet das Coisas), os tais objetos inteligentes. A AllSeen Alliance conta com empresas como Cisco, D-Link, Haier, LG Electronics, Qualcomm, Panasonic e Sharp e pretende criar protocolos e padrões abertos, garantindo a capacidade dos sistemas das empresas em se comunicar. Tem uma luz no fim do túnel!
Em tempo, no Brasil o princípio da neutralidade de rede está inserido no Marco Civil da Internet, projeto de lei construído de maneira colaborativa em 2009, que aguarda votação na Câmara dos Deputados.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

O que há de novo na "direita"?


 
"Há algo novo no ar; nos artigos de opinião, nas discussões políticas, no comentário econômico. Os observadores mais atentos, olhando de longe a movimentação que veio de fora dos meios esperados - a academia, a grande imprensa, a política, o meio artístico -, já têm um nome na ponta da língua: "nova direita" - nome dado, evidentemente, pela velha esquerda", escreve Joel Pinheiro, editor da revista "Dicta&Contradicta, em artigo publicado no jornal Valor, 31-01-2014.

Eis o artigo.

De perto ela é mais complexa. A tal "nova direita" é no mínimo duas coisas bem distintas. E, dessas duas, uma nem é direita, embora seja nova. Nesse mesmo balaio estão dois grupos: conservadores e libertários. Eles têm algo em comum: a insatisfação com o estado do Brasil e a descrença nas opções políticas disponíveis ou mesmo na política como um todo. Não pertencem à direita tradicional e, obviamente, se opõem ao governo do PT. O que não quer dizer que aceitem de bom grado o rótulo de direita.
Bem, os conservadores aceitam. Sua marca distintiva é justamente o ódio a tudo o que vem da esquerda. Consideram-se desprovidos de ideologia. Não querem grandes revoluções ou mudanças bruscas e populistas. Veem no PT não apenas um partido de esquerda e, sim, a peça de um movimento político corrupto, revolucionário e destrutivo que põe o país em risco.
Nesse ódio ao esquerdismo entram articulistas como Reinaldo Azevedo no campo da política e, no da cultura, o filósofo Luiz Felipe Pondé. Para além deles, aparece aqui e ali uma série de jornalistas, comentadores sociais e mesmo artistas, cada um com seu público fiel: Rachel Sheherazade (SBT Brasil), Paulo Eduardo Martins, Lobão.
Por trás de todos está um mentor em comum: Olavo de Carvalho, jornalista e filósofo que vive nos Estados Unidos, de onde escreve artigos e dá cursos on-line. Rodrigo Constantino, Rachel Sheherazade, Lobão e Reinaldo Azevedo são leitores seus. Felipe Moura Brasil, novo blogueiro da "Veja", é o organizador de seu livro mais popular - "O Mínimo Que Você Precisa Saber para não Ser um Idiota", coletânea de artigos que resume seu pensamento.
De acordo com Olavo de Carvalho, o esquerdismo vai muito além da política. Toda a cultura está tomada pelo marxismo cultural e a inversão de valores por ele efetuada. O pensamento e os slogans da esquerda são hegemônicos e constituem, assim como o PT, parte de um processo para implantar o comunismo na América Latina via o Foro de São Paulo, organização que reúne os principais partidos e movimentos de esquerda no continente.
O conservador vê sua luta antes de tudo como uma guerra cultural. Por isso, a preocupação especificamente política, quando vai além da mera oposição ao PT, se foca em questões pontuais: aborto, casamento gay, drogas, armas, defesa da família e da religião. Isso acaba dando ao movimento o aspecto de reacionarismo ideológico que ele tanto quer evitar.
A outra metade da "nova direita", a ala liberal ou libertária, também luta contra uma imagem negativa. O pouco de liberalismo que o Brasil conheceu foi sempre visto como uma agenda tecnocrática de economistas, gente que transita entre a teoria econômica pura e o mercado financeiro. Justa ou injustamente, é tachado de pensamento da elite. Além disso, sempre conviveu com o conservadorismo cultural. Essa associação ainda é comum, como no caso de Rodrigo Constantino, que iniciou sua carreira como liberal radical e vem cada vez mais adotando o discurso conservador. O liberalismo brasileiro clássico é, assim, facilmente classificável como direita.
Os libertários, ala mais radical do liberalismo, querem enterrar essa associação. Parte dos membros se coloca mesmo como "esquerda libertária", posição até então desconhecida no Brasil. Seu foco é na erradicação da pobreza, nos custos que as regulamentações estatais impõem às camadas mais baixas e aos microempreendedores e em causas progressistas como casamento gay e liberação das drogas. Uma boa leitura nesse sentido é o blog Capitalismo para os Pobres, de Diogo Costa, professor do Ibmec-MG. É um liberalismo que não se opõe ao Bolsa Família, mas combate veementemente o BNDES, grande concentrador de capital e poder nas mãos de políticos e megaempresários.
Outra iniciativa que chama a atenção é o Estudantes Pela Liberdade, com membros em universidades de todas as regiões do Brasil, que organizam grupos de estudo, palestras, promovem debates, militância, etc. Tudo isso num tom de diálogo com a esquerda universitária.
Se os conservadores têm conquistado mais espaços nas mídias tradicionais (TV, jornais e revistas), os libertários têm crescido principalmente na internet. O Instituto Mises Brasil tem o site de economia mais acessado do país, com análises pautadas pela escola austríaca de economia, conhecida pelo radicalismo de seus membros. Já o site do Instituto Ordem Livre, que adota uma abordagem mais plural, hospeda colunas sobre combate à pobreza, urbanismo, ética e política.
Falando em política, tem outra novidade na área.
O Partido Novo, que está em processo de formalização, tem algo que ninguém mais tem: dinheiro. Talvez por isso encarne a esperança de todos. Inicialmente, parece defender uma agenda liberal mais tradicional, que pede privatizações, eficiência na gestão e corte de impostos. Mas pode também dar uma guinada libertária, defendendo desregulamentações e fim de transferências de renda regressivas.
Conservadores olham para o passado: querem conservar os valores da civilização ocidental e as instituições vistas como suas principais representantes - a igreja, a família, o Estado democrático de direito, os direitos naturais. Podem ser até liberais em economia, mas seu coração não está na liberdade enquanto tal. Já libertários olham para o futuro sem medo de criar utopias e apostar nas mudanças revolucionárias que sua proposta trará. O Estado é visto ou como uma barreira à criação do novo ou como um definidor de caminhos fixos para a mudança, proibindo e barrando caminhos alternativos.
De princípios humildes, a "nova direita" vem causando desconfortos e sendo bem recebida por muitos. De direita ou não, o fato é que ela traz novidades.

Gestão e sustentabilidade emulados no espaço urbano

Cidades como Objeto de Desejo: gestão e sustentabilidade emulados no espaço urbano
 
 
"Quando se discute o tema das cidades sustentáveis, há várias noções e abordagens em disputa. Fenômeno típico de um campo marcado pela polissemia e pelas controvérsias em torno de visões de mundo concorrentes, a sustentabilidade no espaço urbano remete necessariamente à busca pelo bem viver", escreve Armindo dos Santos de Sousa Teodósio, em artigo publicado na revista Plurale, 13-01-2014.
 
Eis o artigo.
 
Sendo assim, é matéria por definição política, tanto em sua referência às formas de se viver junto na pólis, na cidade, quanto à própria essência da visão de mundo e das ideologias que ensejam. Ao contrário do que as visões tecnicista e gerencialista sobre o espaço urbano defendem, infelizmente também presentes nas disputas pelo significado da sustentabilidade, não se trata apenas de um agrupamento de melhores práticas, estratégias e recursos de gestão empregados em prol da preservação do meio ambiente nas cidades.
Nesse emaranhado de visões, debates e embates, a inexistência de uma concepção monolítica e fechada sobre o que vêm a ser as cidades sustentáveis, ao contrário do que muitos ativistas socioambientais podem imaginar, não é problema ou uma suposta etapa de uma trajetória ainda inicial de uma visão de mundo que uma dia se tornará precisa, delimitada, hegemônica e definitiva. Pelo contrário, a riqueza de opiniões e opções é fruto de um dos componentes mais importantes do desenvolvimento sustentável, que muitas vezes passa despercebido para aqueles que focalizam suas lentes sobre a natureza e se esquecem que a preservação ambiental é sempre um assunto do encontro entre “bichos, plantas e gentes”, o componente das liberdades democráticas e da construção do interesse público. Portanto, os caminhos do desenvolvimento sustentável nas cidades são muitos e levam a muitas “Romas”, a muitas cidades.
A cidade sustentável se sustenta em cima de alguns pilares. O primeiro deles é a crença de que a noção de desenvolvimento sustentável é melhor do que a de sustentabilidade, pois indica que é processo contínuo e se conecta a outras discussões sobre desenvolvimentoque marcaram e marcam os debates em sociedade sobre o bem viver e o interesse público, presentes na também rica polissemia de adjetivos para o desenvolvimento: econômico, local, urbano, comunitário…
Ao se trabalhar com a noção de desenvolvimento sustentável como guia para a compreensão da realidade e a intervenção social continua-se na mesma trilha da discussão sobre desenvolvimento e não se perde os avanços que o adjetivo sustentável tem conseguido arregimentar, apesar de sofrer com os duros golpes de incompreensão, pouca criatividade, covardia e interesses escusos que teimam em se aproveitar dele.
Além disso, cabe notar que sustentabilidade, por mais em voga que esteja, não é atributo de cidades. Não existem cidades sustentáveis! Existem cidades que desenvolvem dinâmicas favoráveis, mas que precisam ser sempre contínuas e refeitas, além de aprimoradas, em direção ao desenvolvimento sustentável. Não adianta sustentar o meio ambiente de uma cidade e o entorno ser degradado. Aliás, isso nem é passível de ocorrer.
Da mesma forma, ao contrário do que o discurso da moda adora defender, não existem empresas sustentáveis, lideranças sustentáveis, práticas sustentáveis, existem sim organizações, pessoas, posturas e ações que contribuem para o processo de desenvolvimento sustentável e aquelas contribuem muito pouco ou nada e ainda aquelas que se opõem a isso.
O desenvolvimento sustentável não se constitui em etapa final de uma longa jornada de uma cidade, uma empresa, uma liderança, na qual se atinge a sustentabilidade, mas sim na própria caminhada ad infinitum, sempre caminhada, sempre esforço, sempre mais exigente e sempre diante de novos desafios para toda a sociedade, até mesmo porque a natureza e as comunidades estão constante mutação, em direção ao bem viver e deixar outros seres e coisas bem viver e existir.
Cabe destacar também que a ideia de sustentabilidade nunca foi apenas preservar o meio ambiente, desde que Ignacy Sachs ajudou a formular a noção de ecodesenvolvimento, que depois se transformou, para pior, convenhamos, em desenvolvimento sustentável.
Usando as ideias de Ignacy Sachs, pode-se compreender que o desenvolvimento sustentável é sempre em um território e, portanto, varia de um local para outro, não existindo o desenvolvimento sustentável, mas os processos de desenvolvimento sustentável em diferentes cidades. E para que ele se efetive, Sachs defende que a participação popular é essencial, visto que a defesa do meio ambiente não se mantém em contextos de baixa participação popular, restrição de liberdades democráticas, limitação autocrática da atuação da imprensa, reduzida transparência e controle social frágil.
Esse pesquisador também defende que o desenvolvimento sustentável precisa se fundar na redução das desigualdades sociais e da pobreza, visto que populações em situação de vulnerabilidade estão mais sujeitas a se vitimarem com as tragédias ambientais e a darem vazão a processos de degradação ambiental para garantirem sua sobrevivência, ao passo que grupos que detém renda muito elevada em relação à média da sociedade podem desenvolver um estilo de vida baseado em consumo exagerado e desnecessário, que se torna referência para outros segmentos sociais, disseminando modos de vida pouco ou nada compatíveis com o desenvolvimento sustentável.
Em suma, o desenvolvimento sustentável tem estreita conexão com o modo de vida das comunidades, sendo assim também uma expressão cultural dos diferentes grupos sociais que compõem as cidades. Por fim, ele opera dentro da chamada economia verde e inclusiva, aquela que se desenvolve em bases que protegem o meio ambiente e ajudam a mitigar desigualdades econômicas, sociais, políticas e no acesso ao meio ambiente.
Vários campos de conhecimento, como já é amplamente sabido, se cruzam na construção dos saberes ambientais, como defende Enrique Leff. No campo das chamadas ciências sociais e humanas, as tradições de estudo do Urbanismo, Economia, Direito, Gestão Pública, Ciências Sociais, Antropologia, Ciências Políticas e Administração se embaralham oferecendo múltiplas abordagens e perspectivas que devem ser resgatadas e postas em ação e diálogo para a promoção do desenvolvimento sustentável nas cidades.
Nesse caldeirão, devem estar presentes o planejamento regional e urbano, o estudo dos modos de vida e sociabilidade urbanos, a análise de políticas públicas, a discussão sobre a ampliação da cidadania e as dinâmicas de democracia participativa, o direito à moradia, à mobilidade e à regularização fundiária nos espaços urbanos e uma série de outros temas, abordagens e tradições de estudos que têm como objeto de análise e de desejo as cidades.
Numa época em que as cidades também recebem inúmeros adjetivos que vão desde as cidades competitivas, cujo um dos casos emblemáticos é Barcelona, passando pelas cidades inteligentes, digitais, democráticas, inovadoras até chegar nas cidades resilientes, as cidades sustentáveis podem se transformar apenas em mais uma meta bem abstrata em um oceano repleto de possibilidades, com muitos riscos de inanição diante de tantos focos de ação, dispersando esforços e lutas.
A arte e a maestria por detrás da construção dos processos de desenvolvimento sustentável nas cidades reside em se alcançar o difícil, mas necessário equilíbrio entre pluralidade de caminhos e frentes de ação e a convergência de esforços, energias e avanços nas formas de vida e convivência urbanas.
Ainda assim, nessa multiplicidade de estudos, abordagens, ferramentas de trabalho e possibilidades de ação, algumas referências são essenciais. Mesmo correndo-se o risco de deixar de lado algumas obras e pesquisadores seminais, pode-se dizer que sem algumas discussões e análises dificilmente se consegue alcançar uma compreensão mais robusta e capaz de suportar mais e melhores estratégias, políticas, programas e instrumentos deintervenção socioambiental nas cidades.
São elas geradas por Pedro Jacobi e seus estudos sobre participação e meio ambiente, movimentos sociais ambientais e construção da consciência ambiental no ambiente urbano;Ricardo Abramovay e sua compreensão sobre as estreitas conexões entre mercados e realidades sociais e culturais, oferecendo inovadoras análises sobre formas híbridas de construção de dinâmicas econômicas capazes de preservar o meio ambiente e mitigar desigualdades sociais; José Eli da Veiga e a sua compreensão dos limites das dinâmicas econômicas tradicionais e os mitos da difusão da chamada “economia verde”, capaz de tudo, menos de efetivamente esverdear as cidades; Saskia Sassen, uma das maiores estudiosas das cidades, e sua discussão sobre espaço urbano, globalização, gentrificação e resistência espacial; Ladislau Dowbor e os aparatos teóricos que mobiliza para discutir desenvolvimento local de forma a valorizar, respeitar e ajudar a promover os saberes locais na construção das bases da chamada economia inclusiva e criativa; Richard Sennett e sua trajetória de estudos sobre as cidades, demonstrando como podem ser um espaço privilegiado de construção da cooperação, mas também locais repletos de contradições e ambiguidades na construção das chamadas cidades inteligentes e inovadoras; David Harvey, outro pesquisador essencial, e sua visão sobre a dinâmica econômica das cidades, sua inserção no circuito global de transações mercantis e o curto-circuito da economia capitalista nos tempos atuais; Jeremy Rifkin e sua discussão sobre economia de baixo carbono, do acesso e do compartilhamento; Mike Davis, autor de Planeta Favela, obra essencial para o entendimento da “morte e vida severina” nas cidades pelo mundo afora e seus estudos sobre a crescente urbanização, degradação do meio ambiente nas cidades, desigualdade e exclusão; Andrea Zhouri e suas análises sobre os avanços, dificuldades e ambiguidades da construção de políticas públicas ambientais e de uma governança urbana mais compartilhada na gestão do meio ambiente; Henri Acselrad e suas investigações baseadas nas noções de justiça ambiental e racismo ambiental, que oferecem um olhar essencial sobre as contradições ambientais bem escondidas no ambiente urbano; Raquel Rolnik e suas análises sempre contundentes sobre as cidades que excluem e desrespeitam direitos das populações em situação de risco e vulnerabilidade, colocando-as em maior e mais incisiva degradação através de políticas públicas higienistas, sobretudo em tempos de megaeventos esportivos; e enfim, mas não em último lugar, Yves Cabannes e seus estudos sobre a apropriação coletiva do espaço urbano, construindo dinâmicas compartilhadas e democráticas de governança dos bens públicos urbanos tanto em cidades ricas quanto em espaços urbanos de países pobres e em desenvolvimento.
Mas como sempre perdura a pergunta, principalmente por parte do leitor ávido por se envolver nas batalhas socioambientais urbanas, de como promover efetivamente essa utopia tão necessária, urgente e possível de ser conquistada, mesmo que a duras penas, a difusão mais robusta do desenvolvimento sustentável em sua cidade, cabe listar algumas frentes de ação principais. O desenvolvimento sustentável nas cidades brasileiras opera necessariamente pela:
a) ampliação dos espaços de participação popular na discussão sobre caminhos para o desenvolvimento e por parcerias intersetoriais, ou seja, entre governos, organizações da sociedade civil e empresas que não sejam capturadas pelos parceiros mais fortes e por interesses privados travestidos de públicos;
b) dinâmica econômica que permita que pequenos empreendimentos inovadores em termos sociais ambientais floresçam com crédito justo e que geram trabalho, renda e condições de trabalho justas, mitigando a pobreza e reduzindo as diferenças de renda dentro do espaço urbano;
c) promoção de políticas públicas que contribuam para o transporte coletivo em detrimento do individual;
d) ampliação do acesso a parques, jardins e natureza não apenas para quem tem renda, status e poder nas cidades;
e) política de tratamento adequado da água capaz de efetivamente mitigar problemas de enchentes ou de escassez para os pobres; e) redução dos níveis de poluição atmosférica;
f) difusão de uma educação ambiental capaz não apenas de informar e conscientizar sobre os problemas ambientais urbanos, mas de mudar atitudes e posturas no dia-a-dia da realidade das cidades;
g) ampliação do saneamento urbano para todos, principalmente para as comunidades periféricas;
h) promoção do encontro e da vida compartilhada entre diferentes grupos que compõem o espaço urbano, fazendo florescer a diversidade em suas diferentes dimensões na concretude de um mesmo local, ao contrário de segregá-las em bairros populares, periferias e guetos;
i) difusão da expressão cultural das populações periféricas, combatendo o “racismo ambiental”;
j) promoção de formas compartilhadas de acesso e gerenciamento da habitação popular em oposição ao lobby dos interesses imobiliários urbanos;
l) ampliação da cultura de transparência, prestação de contas e controle social;
m) implantação da Política Nacional de Resíduos Sólidos, sem que nenhuma concessão seja feita para dinâmicas empresariais ávidas por excluir os recicladores da riqueza gerada pelo lixo atualmente e por difundir tecnologias de incineração, comprovadamente desfavoráveis ao meio ambiente e a saúde humana.
Como vários caminhos levam ao desenvolvimento sustentável e como isso é quase que mudar tudo ao mesmo tempo agora e promover na Terra a “Cidade de Deus” de Santo Agostinho, pode-se começar com um passo de cada vez. Para tanto, é preciso que floresçam nas cidades não apenas o belo e contagiante espírito de indignação contra as mazelas das políticas públicas e da política no Brasil, mas também uma multiplicidade de organizações da sociedade civil, atuando nos múltiplos campos de promoção do desenvolvimento sustentável no espaço urbano, movidas por uma indignação que resulta em obras, ações, maiores e melhores debates, maiores e melhores dúvidas e controvérsias, que semeadas em solo democrático, podem levar a melhores formas de se bem viver nas cidades desde que sejam sempre regadas pelo compromisso com o interesse público.
 
PARA LER MAIS:
 
02/08/2012 - O que pode levar a uma cidade sustentável?
25/11/2013 - Sustentabilidade, muito além da questão ambiental, artigo de Gelma Reis
01/11/2013 - “Estado do Mundo 2013” pergunta: a sustentabilidade ainda é possível?
17/08/2011 - Para além do "desenvolvimento sustentável"
 
VEJA TAMBÉM:
 
Desenvolvimento sustentável: fundamentação teórico-prática. Revista IHU On-Line, Edição nº 203
A política na condução do desenvolvimento sustentável. Revista IHU On-Line, Edição nº 358
A incompatibilidade entre sustentabilidade, pobreza e miséria. Revista IHU On-Line, Edição nº 384
Rio+20: centrada no equilíbrio entre a sustentabilidade e a equidade. Revista IHU On-Line, Edição nº 384
Vale do Sinos inova em tecnologia e sustentabilidade. Revista IHU On-Line, Edição nº 328
 

domingo, 9 de fevereiro de 2014

O tormento climático


José Eli da Veiga, professor sênior doInstituto de Energia e Ambiente da USP, em artigo publicado pelo jornal Valor, 28-01-2014.

Têm sido inócuos os arranjos globais para manejo da mudança climática. Pior: não há sinal de que a rota venha a ser alterada. Mesmo na mais otimista das apostas - que um dia todas as nações responsáveis por significativa parte do dano venham a ter metas legalmente obrigatórias para contenção de suas emissões de gases de efeito estufa - ela será perdedora sem prévia formação de um preço mundial do carbono, algo incompatível com oProtocolo de Kyoto, cuja resiliência constitui o cerne do tormento.
Nas negociações desse protocolo, entre 1993 e 1997, venceu a tese de que a melhor maneira de se atingir tal preço seria o comércio de emissões ("cap-and-trade"), contra o historicamente comprovado recurso à tributação. Em consequência, meros 7% das emissões globais de carbono são hoje afetados pelos dois mecanismos de formação de preço: "esquemas para comércio de emissões" (ETS, em inglês) e alguns poucos tributos unilaterais em sociedades mais conscientes de que só com mercados jamais cumpririam suas metas.
Embora nos últimos nove anos tenham surgido uma dúzia de ETS, o único relevante é o EU-ETS, que envolve as 11.500 empresas responsáveis por 40% das emissões da União Europeia. Foi inevitável, portanto, que fortes compromissos políticos com a sustentabilidade tenham levado sete países dessa região à decisão de também tributarem de forma explícita outra parte de suas emissões. Há taxas-carbono na Dinamarca, na Finlândia, na Irlanda, naSuécia e agora no Reino Unido, assim como na Noruega e na Suíça, que preveem vínculos com o EU-ETS por acordos bilaterais.
No entanto, foi do outro lado do Atlântico, na província canadense da Colúmbia Britânica, que pintou o melhor dos impostos climáticos em vigor. Uma taxa-carbono que incide há cinco anos sobre a queima de todos os combustíveis fósseis, sem aumento de carga tributária. Para evitar que o desembolso de pouco mais de US$ 20 por tonelada de carbono emitido (trinta desde 2012) prejudique os negócios, a alíquota do imposto de renda das pessoas jurídicas foi reduzida de 12% para 10%. Esse é o máximo que pode ser feito sem perda de competitividade enquanto o exemplo não for seguido ao menos por outras das nove províncias e estados dos EUA.
Prova dos nove do alerta feito pelos melhores estudos científicos sobre o tema: a única maneira eficaz de se administrar a mudança climática é a adoção de uma taxa mundial, mas incidente sobre o consumo, de modo que o preço de qualquer mercadoria também reflita seu correspondente teor de carbono. Não há melhor maneira de se catalisar inovações e investimentos pró-mitigação.
O principal problema prático desse projeto é a inviabilidade de se usar a convencional análise de custo-benefício no cálculo de qual deveria ser o valor da taxa, dada a impossibilidade de se estimar o custo social do carbono em âmbito global. Além disso, é óbvio que ela seria politicamente desastrosa se viesse a causar séria carestia.
Por isso, a saída seria que o preço mundial do carbono começasse bem baixo, mas com patente perspectiva de alta. E que os aumentos ficassem na dependência da avaliação do impacto obtido com o baixo preço inicial, em procedimento conhecido como "a learning-by-taxing process". A organização encarregada de administrar essa dinâmica estabeleceria o preço do carbono assim como um banco central faz com a taxa de juros básica.
Infelizmente esse caminho mais racional para uma gestão da mudança climática foi interditado pela vitória de Pirro obtida pelo fundamentalismo de mercado nas negociações do Protocolo de Kyoto.
Mais: em vez de esgotamento de sua inércia institucional, há temerária teimosia, além de muita criatividade, na proliferação de malabarismos aprovados em conferências das partes da Convenção (CoPs da UNFCCC). Espécie de obsessão em se preservar o legado, apesar de sua evidente impotência.
Esse contexto sugere a possibilidade de duas mudanças objetivas extremas que forçosamente exigiriam e induziriam correção de rumo. A pior seria que a atual marcha da insensatez fosse bruscamente interrompida por alguma séria catástrofe ecológica que provocasse atribulada e radical revisão da própria convenção. A melhor seria que bem antes disso despontasse uma revolução tecnológica capaz de antecipar a aposentadoria das energias fósseis, tornando quase supérflua a parafernália já montada para se chegar a uma governança global da mudança climática.
O cenário mais provável, porém, é que gradualmente se combinem esses dois vetores polares. Por isso, para uma sociedade como a brasileira - que desfruta de imensas vantagens comparativas ecológicas e geográficas, mas que ainda nem sequer engatinha na direção das socioculturais vantagens competitivas - romper com o marasmo é assumir o duplo desafio de investir muito mais do que hoje na busca de inovações energéticas e simultaneamente abrir um sério e sistemático debate público sobre o sentido e a orientação de sua ação diplomática no âmbito do regime climático.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

85 pessoas mais ricas do planeta ganham o equivalente às 3,5 bilhões

Dá para reverter a desigualdade social mundial?

Um relatório da ONG Oxfam, publicado na segunda-feira, estima que as 85 pessoas mais ricas do planeta ganham o equivalente às 3,5 bilhões mais pobres.
A reportagem é de Marcelo Justo, publicada pela BBC Brasil, 23-01-2014.
No Fórum Econômico Mundial de Davos - que nesta semana congrega políticos, empresários e personalidades com um volume de negócios equivalente a quase a metade do PIB americano -, a desigualdade foi identificada como uma das principais ameaças à economia mundial.
Mas, ainda que todos concordem com a gravidade do problema, haverá esforços para solucioná-lo?
Nos últimos 30 anos, segundo a Oxfam, o 1% mais rico da população passou a abocanhar renda ainda maior, em 24 dos 26 países que forneceram dados sobre o período. O Brasil é citado como um dos poucos países onde a desigualdade está diminuindo.
Nos EUA, em 1978, um salário anual médio equivalia a US$ 48 mil (em valores atuais), e 1% da população ganhava US$ 390 mil. Em 2010, o salário médio caiu para US$ 33 mil, enquanto 1% da população ganhava mais de US$ 1 milhão.
O período coincide com a hegemonia da crença neoliberal promovida entre os anos 70 e 80 por políticos comoAugusto Pinochet, no Chile, Ronald Reagan, nos EUA, Margaret Thatcher, no Reino Unido.
A ideologia, que emergiu triunfante com a queda do Muro de Berlim, prega regulação mínima do Estado sobre a atividade econômica, liberdade absoluta ao mercado e redução dos impostos aos mais ricos, a fim de promover o crescimento econômico.
Oxfam defende iniciativas que vão na direção oposta: "É preciso um combate global à evasão a paraísos fiscais. Um sistema de impostos progressivo. Um salário digno", disse à BBC Mundo Ricardo Fuentes-Nieva, chefe de pesquisas do órgão.
Estados costumam ser as únicas entidades capazes de intervir significativamente na redução da desigualdade em nível nacional, mas, para tal, necessita de dinheiro para financiar investimentos em saúde, emprego, educação ou previdência social.
Distorções
Nas últimas décadas, a elite mundial contribuiu decisivamente para o "desfinanciamento" estatal: segundo o Tax Policy Center, dos EUA, desde a década de 1970, a carga de impostos caiu para os mais ricos em 29 dos 30 países nos quais há dados disponíveis.
No mesmo período, o número de paraísos fiscais alcançou 50 a 60 jurisdições, que, segundo cálculo da revista The Economist, são o destino do equivalente a quase o dobro do PIB dos EUA.
O diretor da ONG Tax Justice InternacionalJohn Christensen, ilustra o impacto dos paraísos fiscais.
"No âmbito de indivíduos, a perda em receita fiscal é de cerca de US$ 225 bilhões. Em âmbito corporativo, ocorre uma distorção de preços. (Multinacionais) pagam pouco ou nada (para manter o dinheiro) no paraíso fiscal e, no país de origem, pagam menos do que deveriam porque seus ganhos ficam muito abaixo da realidade", afirmou à BBC Mundo.
Isso provoca distorções tragicômicas. Um único edifício nas ilhas Cayman, chamado de Ugland House, é a sede oficial de 18 mil empresas.
Nos Estados Unidos, Delaware, cuja população não chega a 1 milhão de pessoas, existem 945 mil empresas, mas de uma por cabeça.
E o Google faturou US$ 5 bilhões no Reino Unido em 2012, mas praticamente não pagou impostos por isso.
Políticas
A globalização financeira, a desregulação e a capacidade de mover a produção de um país a outro converteram esse poder econômico em uma força capaz de dobrar governos.
"A elite mundial está impondo políticas de Estado que lhes favoreçam", opinou Ricardo Fuentes-Nieva. "Isso produz uma 'deslegitimação' da democracia e do Estado."
O relatório da Oxfam diz que, em pesquisas conduzidas em seis países - Brasil, Espanha, Índia, África do Sul, Reino Unido e EUA -, a maioria dos entrevistados opinou que as leis tendem a favorecer os mais ricos.
ONG fez um chamado por mais responsabilidade à elite global - chamado que, segundo Fontes-Nieva, pode ter mais apelo por conta da profundidade e da extensão de potenciais turbulências globais.
"Estamos ante um perigo de ruptura do contrato social. Desta vez, o conjunto da sociedade, inclusive a classe média, se vê afetada. Precisamos lembrar que tratam-se de políticas públicas que podem ser mudadas. Se não forem, o impacto prejudicará as próprias elites, porque a crescente exclusão de consumidores pode acabar produzindo uma sociedade economicamente doente."
Sinais de debilidade não faltam: segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o desemprego mundial será de 6,1% neste ano, em comparação com 5,5% em 2008. Entre os jovens, a taxa será de 13,1%.
A íntegra do relatório, em espanhol, pode ser lida aqui.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

O Acordo Comercial Transpacífico – TPP


 
 entrevista de Noam Chomsky ao HuffPost Live .
 
A tradução é de Isaque Gomes Correa.
 
O governo Obama vem negociando o Acordo Comercial Transpacífico – TPP com 11 países do Pacífico durante anos. Embora o acordo não tenha sido finalizado e muito dele venha sendo mantido sob sigilo, grupos americanos corporativos de interesse – incluindo a Câmara do Comércio dos EUA – já manifestaram forte apoio, descrevendo-o como um acordo de livre comércio que irá encorajar o crescimento econômico.
 
O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos também defendeu as negociações, dizendo que o acordo irá incluir proteções regulatórias robustas. Porém, os sindicatos e uma série de grupos tradicionalmente progressistas de interesse – incluindo ambientalistas e defensores da saúde pública – criticaram duramente o acordo.
 
Chomsky sustenta que grande parte das negociações dizem respeito a questões alheias em relação ao que muitos consideram um acordo, e diz que elas estão focadas, isto sim, em limitar as atividades que os governos podem regular, impondo novos padrões de propriedade intelectual no exterior e aumentando o poder político corporativo.
 
“É chamado de livre comércio, porém não passa de uma piada”, disse Chomsky. “Estas são medidas altamente protecionistas projetadas para minar a liberdade de comércio. Na verdade, grande parte do que vazou sobre o Acordo Comercial Transpacífico – TPPindica que não se trata absolutamente de acordos comerciais, mas sim dos direitos dos investidores”.
 
O governo Obama está tratando os termos do acordo como informações confidenciais. Ele vem impedindo muitos funcionários do Congresso de ver os textos da negociação e limitando a informação disponíveis aos próprios congressistas. Os únicos documentos da negociação disponíveis publicamente vieram à luz através de arquivos vazados. Documentos recentes foram publicados no WikiLeaks e no HuffPost.
 
De acordo com os documentos que vazaram, o TPP irá empoderar as empresas para alterar diretamente as leis e regulamentações dispostas por países estrangeiros perante um tribunal internacional. Ao tribunal seria dado a autoridade não só para anular as normas legais dos países como também impor penalidades econômicas a eles. Sob os tratados da Organização Mundial do Comércio – OMC, as empresas devem convencer um país soberano a trazer casos comerciais diante de uma corte internacional. Chomsky disse que o acordo é uma escalada para os objetivos políticos neoliberais anteriormente dispostos pela OMC e pelo Acordo de Livre Comércio da América do Norte.
 
“É muito difícil fazer qualquer coisa do TPP porque ele vem sendo mantido em segredo”, contou Chomsky ao HuffPost Live. “Eu diria: um segredo pela metade. Não é segredo algum para as centenas de advogados e lobistas das empresas que estão escrevendo a legislação. Para eles é perfeitamente público este acordo. Na verdade, eles estão o escrevendo. O acordo está sendo mantido em segredo para a população, a qual, é claro, levanta perguntas e dúvidas obviamente.
 
Vários membros do Congresso, incluindo companheiros democratas de Barack Obama, atacaram o sigilo intenso em torno das negociações. Mas outros querem dar ao TPP o caminho mais curto para sua aprovação.
 
Os senadores Max Baucus (Democrata, do estado de Montana) e Orrin Hatch (Republicano, do estado de Utah) introduziram uma lei, na terça-feira, que impedirá membros do Congresso de apresentar alterações ao acordo comercial de Obama, qualquer que ele venha ser.
 
Porém, o movimento para acelerar o Acordo Comercial Transatlântico – TPP encontrou ventos contrários na Casa Branca, onde nenhum democrata concordou em apoiar a legislação. O porta-voz John Boehner (Republicano, do estado de Ohio) disse que o projeto não passa sem o apoio dos democratas.
 
Noam Chomsky brincou dizendo que é claro que o governo e os legisladores irão querer acelerar um acordo comercial como este, que pode estar mais ao lado dos interesses das empresas do que ao lado dos interesses da população.
“É muito compreensível que ele seja mantido em segredo”, disse Chomsky. “Por que as pessoas deveriam saber do que acontece com elas?”
 
 

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Cientistas do clima exigem mudança radical

 

 

 

Os novos revolucionários: Cientistas do clima exigem mudança radical

 

"Para evitar uma mudança climática catastrófica, os maiores especialistas da Grã-Bretanha pedem cortes de emissões que exigem 'mudança revolucionária na hegemonia política e econômica'", escreve Renfrey Clarke, jornalista e editor, em artigo publicado na revista online Climate and Capitalism e reproduzido peloEcoDebate, 29-01-2014. A tradução é de Alexandre Costa.

Eis o artigo.

“Hoje, após duas décadas de blefes e mentiras, o restante do balanço [de carbono] para 2°C restante exige mudança revolucionária na hegemonia política e econômica.” Isso foi publicado em uma postagem de blog no ano passado porKevin Anderson, professor de Energia e Mudanças Climáticas da Universidade de Manchester. Um dos cientistas do clima mais eminentes da Grã-Bretanha, Anderson também é vice-diretor do Centro Tyndall para Pesquisas sobre Mudanças Climáticas. Ou, podemos passar esta mensagem direta, a partir de uma entrevista em novembro:
Precisamos de ação de baixo para cima e de cima para baixo. Precisamos de mudança em todos os níveis.” Proferiu essas palavras a pesquisador sênior do Centro Tyndall e professora da Universidade de Manchester Alice Bows-Larkin. Anderson e Bows-Larkin são especialistas líderes mundiais sobre os desafios da mitigação das mudanças climáticas.
Em dezembro, os dois foram atores centrais da “Conferência de Redução Radical de Emissões”, promovida pelo Centro Tyndall e realizada nas instalações de Londres da instituição científica de maior prestígio da Grã-Bretanha, a Royal Society. O “radicalismo” do título da conferência se refere a uma chamada pelos organizadores para cortes de emissões anuais na Grã-Bretanha de pelo menos 8 por cento – o dobro da taxa comumente citada como possível dentro das estruturas econômicas e políticas de hoje.
A conferência chamou atenção e recebeu ampla cobertura. Em Sydney, o Daily Telegraph, de propriedade dos Murdoch, descreveu os participantes como “desequilibrados” e ” eco-idiotas”, passando a citar um “conselheiro de mudanças climáticas sênior” para a Shell, dizendo: “Essa era uma sala cheia de catastrofistas (referindo-se a ‘aquecimento global catastrófico’), com a visão predominante… de que o problema só poderia ser resolvido pela completa transformação dos sistemas de energia e político globais… uma conferência de ideologia política.”
De fato. A postura de “reticência”, tradicional dos cientistas, que, no passado, visavam principalmente ater-se às suas especialidades e evitar comentários sobre as implicações sociais e políticas de seu trabalho, não é mais como era.
Irritados
Os cientistas do clima têm ficado particularmente irritados com a recusa dos governos de agir, mesmo com as repetidas advertências sobre os perigos da mudança climática. Para aumentar a amargura dos pesquisadores, em mais do que em casos isolados, foram colocadas demandas sobre eles para aliviar suas conclusões, de modo a evitar mostrá-las a governantes e decisores políticos. As pressões para que se evite levantar “questões fundamentais e desconfortáveis” podem ser fortes, explicou Anderson em uma entrevista em junho passado.
“Os cientistas estão sendo persuadidos a desenvolver conjuntos cada vez mais bizarros de cenários … que ssejam capazes de entregar mensagens politicamente palatáveis. Tais cenários subestimam a taxa de crescimento das emissões atual, assumem picos ridiculamente precoces nas emissões e trocam os compromissos para ficar abaixo [de um aquecimento] de 2°C por uma porcentagem de chance de 60 a 70 de exceder esses 2°C”.
Anderson e Bows-Larkin têm sido capazes de desafiar tais pressões ao ponto de terem sido coautores de dois artigos notáveis e relacionados entre si, publicados pela Royal Society em 2008 e 2011.
No segundo delas, os autores fazem uma distinção entre países ricos e pobres (tecnicamente, nas categorias do anexo 1 e não-Anexo 1 da ONU), ao calcularem as taxas de redução de emissões em cada conjunto, que seriam necessárias para manter a temperatura média global a não mais que 2 graus dos níveis pré-industriais.
A notícia embaraçosa para os governos é que os países ricos do Anexo 1 precisam começar imediatamente a cortar suas emissões com taxas de cerca de 11 por cento ao ano. Isso permitiria que os países fora do Anexo 1 atrasem seu “pico de emissões” até 2020, permitindo o desenvolvimento de suas economias e a elevação dos padrões de vida de seus habitantes.
Mas os países pobres também teriam, então, de começar a cortar suas próprias emissões a níveis sem precedentes – e as chances de aquecimento superior a 2 graus de aquecimento ainda seriam em torno de 36 por cento. Mesmo para uma chance de 50 por cento de aquecimento superior a 2 graus, os países ricos teriam de cortar suas emissões a cada ano a uma taxa de 8-10 por cento.
Como Anderson aponta, é praticamente impossível encontrar um economista mainstream que veja reduções anuais de emissões de mais de 3-4 por cento como compatíveis com qualquer coisa, exceto recessão severa, com uma economia constituída nos atuais termos.
Quatro graus?
E se o mundo mantiver suas economias baseadas no mercado e, depois de um pico em 2020, começar a reduzir suas emissões com base nestes 3-4 por cento ”permitidos”? Em seu artigo de 2008, Anderson e Bows-Larkinapresentam números que sugerem um possível nível de dióxido de carbono na atmosfera equivalente de 600-650 partes por milhão como resultado. O climatologista Malte Meinshausen estima que 650 ppm daria uma probabilidade de 40 por cento de exceder não apenas dois graus, mas quatro!
Anderson, no passado, já se pronunciou sobre o que podemos esperar de um “mundo de quatro graus”. Em uma palestra pública em outubro de 2011 ele descreveu como “incompatível com uma comunidade global organizada”, “provável que esteja além da adaptação” e”devastador para a maioria dos ecossistemas”. Além disso, um clima quatro graus mais quente teria “uma alta probabilidade de não ser estável”. Isto é, quatro graus seria uma temperatura intermediária, rumo a um nível de equilíbrio muito mais quente.
Conforme relatado no jornal The Scotsman, em 2009, ele se concentrou no elemento humano: “Eu acho que é extremamente improvável que nós não tenhamos morte em massa a 4°C [de aquecimento global]. Se tivermos uma população de nove bilhões até 2050 e chegarmos a 4°C, 5°C ou 6°C, pode-se ter meio bilhão de pessoas sobrevivendo”.
Não admira que essas pessoas bem informadas estejam se revoltando.
Métodos de mercado?
Anderson também emergiu como um poderoso crítico da ortodoxia de que a redução das emissões deve ser baseada em métodos de mercado, se se deseja que ela funcione. Seus pontos de vista sobre este ponto foram trazidos para o foco em outubro passado, em uma resposta afiada para o chefe das Nações Unidas sobre mudanças climáticas – e entusiasta do mercado – Rajendra Pachauri:
“Eu discordo do otimismo do Dr. Pachauri que mercados e preços possam garantir compromissos da comunidade internacional em limitar o aquecimento a 2°C”, como publicado no jornal britânico Independent, citando Anderson. “Eu sustento que tal abordagem baseada no mercado está condenada ao fracasso e é uma distração perigosa de um quadro regulatório padronizado e abrangente”.
Crítico dos esquemas de redução baseados no mercado, Anderson centra sua conclusão em que o limite de dois graus “não é mais possível por meio de mitigação gradual, mas apenas através de cortes profundos nas emissões, ou seja, reduções não-marginais no nível de mudança qualitativa.
“Uma premissa fundamental da economia neo-clássica contemporânea é que os mercados (incluindo os mercados de carbono) só são eficientes na alocação de recursos escassos, quando as mudanças que estão sendo considerados são muito pequenas – ou seja, marginais.
“Para termos uma boa chance de ficar abaixo de dois graus Celsius”, Anderson observa, “as emissões futuras do sistema energético da União Européia … necessitam de redução a taxas de cerca de 10 por cento ao ano – uma mitigação para colocá-las muito abaixo do que a redução marginal que os mercados são capazes de nos oferecer.”
Se forem feitas tentativas de assegurar essas reduções por meio de métodos de cap-and-trade, argumenta, “o preço do carbono será quase certamente muito além de tudo do que possa ser descrito como marginal (provavelmente muitas centenas de euros por tonelada) – daí os argumentos de ‘eficiência’ e os ‘benefícios de menor custo’alegados pelos que defendem o mercado já não se aplicam.”
Ao mesmo tempo, as implicações do ponto de vista da equidade e justiça social seriam devastadoras. Andersonressalta:
“O preço do carbono poderá ser sempre pago pelos ricos. Podemos comprar um 4WD/SUV ligeiramente mais eficiente , reduzir um pouco nossos voos frequentes, considerar ter uma casa de veraneio menor, mas no geral nós continuar com nossas vidas como de costume. Enquanto isso, as camadas mais pobres da nossa sociedade … teriam que fazer ainda mais cortes no aquecimento e na energia em suas moradias alugadas, inadequadamente isoladas termicamente e mal projetadas”.
A agenda da energia
No curto prazo, Anderson argumenta, uma “agenda de energia para dois graus” requer “reduções rápidas e profundas na demanda de energia, com início imediato e continuação por pelo menos duas décadas”. Isto permite ganhar tempo enquanto um sistema de abastecimento de energia de baixo carbono é construído. Um “plano radical” para redução de emissões, ele indica, está entre os projetos em curso no âmbito do Centro Tyndall.
O custo dos cortes de emissões, insiste, precisa recair “naquelas pessoas principais responsáveis pelas emissões”. Como citado pela escritora Naomi Klein, Anderson estima que 1-5 por cento da população é responsável por 40-60 por cento das emissões de carbono.
Embora não rejeitando mecanismos de preços num papel de apoio, Anderson argumenta que o volume necessário de cortes de emissões só pode ser alcançado através de regulamentos rigorosos e cada vez mais exigentes. Sua “lista provisória e parcial” inclui o seguinte:
• Padrões de energia/emissões estritos para os eletrodomésticos, automóveis, etc., com uma sinalização clara para o mercado de que tais normas irão apertar anualmente, por exemplo começando com restrição de 100gCO2/km para todos os carros novos a partir de 2015, reduzindo em 10 por cento a cada ano até 2030.
• Normas de fornecimento de energia estritas, por exemplo, para 350gCO2/kWh na geração de eletricidade como o nível de emissões médio da carteira de um fornecedor de centrais elétricas; com redução em torno de 10 por cento ao ano.
• Um programa de implantação de normas de energia/emissão rigorosas para equipamentos da indústria.
• Padrões de eficiência mínima rigorosos para todas as propriedades para venda ou aluguel.
• Um padrão mundiais de baixa energia para todas as casas novas construções, escritórios, etc.
Fazer valer esses padrões radicais, argumenta ele, “pode ser alcançado, pelo menos inicialmente, com as tecnologias existentes e com pouco ou nenhum custo adicional”.
Crescimento econômico
Para se ter uma chance razoável de manter o aquecimento abaixo de 2 graus, Anderson defende, os países ricos teriam de abrir mão de crescimento econômico por pelo menos dez a vinte anos. Aqui, ele se baseia na sabedoria convencional de “modeladores de avaliação integrada” – e pode estar bastante errado. O americano Joseph Romm, blogueiro líder em clima, no ano passado, chegou a conclusões bastante diferentes:
“A última revisão do IPCC da literatura econômica dominante mostra que mesmo para a estabilização em níveis de CO2 tão baixos quanto 350 ppm, os custos médios macroeconômicos globais em 2050 correspondem a uma desaceleração do crescimento médio anual do PIB mundial em menos de 0,12 ponto percentual. Deveria ser óbvio que o custo líquido é baixo. O consumo de energia é responsável pela esmagadora maioria das emissões e os custos de energia são tipicamente cerca de 10 por cento do PIB”.
Numa conjuntura em que não faltam trabalhadores desempregados e grande parte da capacidade industrial mantém-se não utilizada, mobilizar recursos e mão de obra para substituir equipamentos poluentes poderia aumentar drasticamente o Produto Interno Bruto. Além disso, essas contas precisam considerar os absurdos do próprio PIBcomo uma ferramenta de medição, já que conta a construção de presídios e o desenvolvimento de sistemas de armas como atividades produtivas. Anderson destaca algumas dessas contradições, quando afirma:
“As taxas de mitigação bem acima dos 3 a 4 por cento ao ano dos economistas ainda podem revelar-se compatíveis com alguma forma de prosperidade econômica.”
Na verdade, reconstruir nosso sistema industrial ineficiente e poluente poderia permitir que a grande maioria de nós pudesse levar uma vida mais rica e mais gratificante.
Represálias
Onde Anderson não está errado é em antecipar, em vários momentos, no seu blog e em entrevistas, que qualquer movimento sério para reduzir as emissões com as taxas exigidas irá encontrar resistência feroz. Ativos industriais principalmente gigantescas usinas movidas a combustível fóssil, ficariam “encalhados”. Reservas já comprovadas de carvão, petróleo e gás terão de ser deixadas no chão.
Como os cientistas acusados em 2009 no caso espúrio do “Climategate”, as pessoas que falaram na Conferência de Redução de Emissões Radical agora esperam sentir as queimaduras do maçarico das represálias conservadoras.
Junto com Anderson e Bows-Larkin, é provável que um alvo em particular seja o diretor do Centro Tyndall, ProfessorCorinne Le Quéré, que apresentou o caso científico para a redução de emissões rápidas. Quatro acadêmicos australianos que contribuíram via rede, inclusive o cientista do clima Mark Diesendorf, já estão sob ataque pessoal venenoso por parte do Daily Telegraph.
O “crime” cometido pelos pesquisadores do Centro Tyndall é muito maior do que os e-mails vagamente formuladas que foram apreendidos em como pretexto para “Climategate”. Com outros membros da comunidade científica do clima, essas pessoas corajosas têm desafiado a ideia de que corporações poluidoras e os governos que as apoiam dão a mínima para a preservação da natureza, da civilização e da vida humana.