sexta-feira, 20 de junho de 2014

Bruno Latour: a modernidade é uma falácia

A modernidade é uma falácia, uma ficção inventada para organizar a vida intelectual. Os chamados “modernos” pregam a separação de ciência, política, natureza e cultura, numa teoria distante da realidade do mundo e inadaptada aos desafios impostos neste início de século, acusa o pensador francês Bruno Latour, de 66 anos. “Ecologizar” é verbo da vez, sustenta ele, mas num sentido bem mais amplo do que o espaço compreendido pela ecologia defendida por ativistas e partidos políticos.

— O desenvolvimento da frente de modernização, como se fala de uma frente pioneira na Amazônia, sempre foi, ao contrário, uma extensão de uma quantidade de associações, da marca dos humanos, da intimidade de conexões entre as coisas e as pessoas. A modernidade nunca existiu — dispara Latour.
A entrevista é de Fernando Eichenberg e publicada no jornal O Globo, 28-12-2013.
Na sua opinião, o Brasil, com todas as suas contradições, é fundamental na possibilidade de um futuro de inovações que gerem um novo tipo de “civilização ecológica”, numa nova “inteligência política e científica”.
Antropólogo, sociólogo e filósofo das ciências, Bruno Latour, que recebeu em maio passado o prestigiado prêmio Holberg de Ciências Humanas, é um dos intelectuais franceses contemporâneos mais traduzidos no exterior. Além de suas originais investigações teóricas, também se aventurou no terreno das artes (com as exposições “Iconoclash” e “Making things public”) e, em outubro, estreou a peça “Gaïa Global Circus”, uma “tragicomédia climática”, que ele espera um dia poder encenar no Jardim Botânico, no Rio. Professor do Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences-Po), lançou ainda este ano o ensaio “Enquête sur les modes d’existence — Une anthropologie des Modernes” (Investigação sobre os modos de existência – uma antropologia dos Modernos, ed. La Découverte).
Eis a entrevista.
Qual a diferença entre “ecologizar” e “modernizar”, segundo seu pensamento?
Modernizar é o argumento que diz que quanto mais nós separamos as questões de natureza e de política, melhor será. Ecologizar é dizer: já que, de fato, não separamos tudo isso, já que a História recente dos humanos na Terra foi o embaraçamento cada vez mais importante das questões de natureza e de sociedade, se é isso que fazemos na prática, então que construamos a política que lhe corresponda em vez de fazer de conta que há uma história subterrânea, aquela das associações, e uma história oficial, que é a de emancipação dos limites da natureza.
Ecologizar é um verbo como modernizar, exceto que se trata da prática e não somente da teoria. Mas pode-se dizer “modernidade reflexiva” ou utilizar outros termos. O importante é que haja uma alternativa a modernizar, que não seja arcaica, reacionária. Que seja progressista, mas de uma outra forma, não modernista.
Um problema complicado hoje, sobretudo no Brasil. Mas é complicado por todo o lado, na França também. Qualquer dúvida sobre a modernização, se diz que é preciso estancar a frente pioneira, decrescer, voltar ao passado. Isso é impossível. É preciso inovar, descobrir novas formas, e isso se parece com a modernização. Mas é uma modernização que aceita seu passado. E o passado foi uma mistura cada vez mais intensa entre os produtos químicos, as florestas, os peixes, etc. Isso é “ecologizar”. É a instituição da prática e não da teoria.
Qual é a situação e o papel do Brasil neste contexto?
Penso que deve haver uma verdadeira revolução ecológica, não somente no sentido de natureza, e o Brasil é um ator importante. A esperança do mundo repousa muito sobre o Brasil, país com uma enormidade de reservas e de recursos. Se fala muito do movimento da civilização na direção da Ásia, o que não faz muito sentido do ponto de vista ecológico, pois quando se vai a estes países se vê a devastação. Não se pode imaginar uma civilização ecológica vindo da Ásia.
No Brasil — e também na Índia — há um pensamento, não simplesmente a força nua, num país em que os problemas ecológicos são colocados em grande escala. Há um verdadeiro pensamento e uma verdadeira arte, o que é muito importante. Se fosse me aposentar, pensaria no Brasil.
Brasil e Índia são os dois países nos quais podemos imaginar verdadeiras inovações de civilização, e não simplesmente fazer desenvolvimento sustentável ou reciclagem de lixo. Podem mostrar ao resto do mundo o que a Europa acreditou por muito tempo poder fazer. A Europa ainda poderá colaborar com seu grão de areia, mas não poderá mais inovar muito em termos de construir um quadro de vida, porque em parte já o fez, com cidades ligadas por autoestradas, com belas paisagens e belos museus. Já está feito.
Mas numa perspectiva de inventar novas modas e novas formas de existência que nada têm a ver com a economia e a modernização, com a conservação, será preciso muita inteligência política e científica. Não há muitos países que possuem esses recursos. Os Estados Unidos poderiam, mas os perderam há muito tempo, saíram da História quando o presidente George W. Bush disse que o modo de vida dos americanos não era negociável. Brasil e Índia ainda têm essa chance. Mas este é o cenário otimista. O cenário pessimista talvez seja o mais provável.
Qual a hipótese pessimista?
Há os chineses que entram com força no Brasil, por exemplo. Meu amigo Clive Hamilton (pensador australiano) diz que, infelizmente, nada vai acontecer, que se vai fazer uma reengenharia, se vai modernizar numa outra escala e numa outra versão catastrófica. Provavelmente, é o que vai ocorrer, já que não conseguimos decidir nada, e que será preciso ainda assim tomar medidas. Uma hipótese é a de que se vai delegar a Estados ainda mais modernizadores no sentido tradicional e hegemônico a tarefa de reparar a situação por meio de medidas drásticas, sem nada mudar, portanto agravando-a. Mas meu dever é o de ser otimista. Em todo caso, é preciso inventar novas formas para pensar essas questões.
O senhor acompanhou as manifestações de rua no Brasil neste ano que passou?
É uma das razões pelas quais o Brasil é interessante, porque há ao mesmo tempo um dinamismo de invenção política, ligado a outros dinamismos relacionados às ciências, às artes. Há um potencial no Brasil. E há, hoje, uma riqueza. Não são temas que se pode abordar em uma situação de miséria. É preciso algo que se pareça ao bem-estar. Na Índia, se você tem um milhão de pessoas morrendo de fome não pode fazer muito. O Brasil é hoje muito importante para a civilização mundial.
Os partidos ecologistas, na sua opinião, não souberam assimilar estas questões?
Nenhum partido ecologista conseguiu manter uma prática. A ecologia se tornou um domínio, enquanto é uma outra forma de tudo fazer. A ecologia se viu encerrada em um tema, e não é vista como uma outra forma de fazer política. É uma posição bastante difícil. É preciso ao mesmo tempo uma posição revolucionária, pois significa modificar o conjunto dos elementos do sistema de produção. Mas é modificar no nível do detalhe de interconexão de redes técnico-sociais, para as quais não há tradição política.
Sabemos o que é imaginar a revolução sem fazê-la, administrar situações estabelecidas melhorando-as, modernizar livrando-se de coisas do passado, mas não sabemos o que é criar um novo sistema de produção inovador, que obriga a tudo mudar, como numa revolução, mas assimilando cada vez mais elementos que estão interconectados. Não há uma tradição política para isso. Não é o socialismo, o liberalismo. E é preciso reconhecer que os partidos verdes, seja na Alemanha, na França, nos EUA não fizeram o trabalho de reflexão intelectual necessária. Como os socialistas, no século XIX, refizeram toda a filosofia, seja marxista ou socialista tradicional, libertária, nas relações com a ciência, na reinvenção da economia.
Há uma espécie de ideia de que a questão ecológica era local, e que se podia servir do que chamamos de filosofia da ecologia, que é uma filosofia da natureza, muito impregnada do passado, da conservação. O que é completamente inadaptado a uma revolução desta grandeza. Não podemos criticá-los. Eles tentaram, mas não investiram intelectualmente na escala do problema. Não se deram conta do que quer dizer “ecologizar” em vez de “modernizar”. Imagine o pobre do infeliz responsável pelo transporte público de São Paulo ou de Los Angeles.
A França receberá em 2015 a Conferência Internacional sobre o Clima. Como o senhor avalia esses encontros?
Estamos muito mobilizados aqui na Sciences-Po, porque em 2015 ocorrerá em Paris, e trabalhamos bastante sobre o fracasso da conferência de Copenhague, em 2009. Estamos muito ativos, tanto aqui como no Palácio do Eliseu.
Na minha interpretação, o sistema de agregação por nação é demasiado convencional para identificar as verdadeiras linhas de clivagens sobre os combates e as oposições. Cada país é atravessado em seu interior por múltiplas facções, e o sistema de negociação pertence à geopolítica tradicional. E também ainda não admitimos de que se tratam de conflitos políticos importantes.
A França aceitou a conferência sem perceber realmente do que se tratava, como um tema político maior. Por quê? Porque ainda não estamos habituados a considerar — e aqui outra diferença entre “ecologizar” e “modernizar” — que as questões de meio ambiente e da natureza são questões de conflito, e não questões que vão nos colocar em acordo. Vocês têm isso no Brasil em relação à Floresta Amazônica. Não é porque se diz “vamos salvar a Floresta Amazônica” que todo mundo vai estar de acordo. Há muita discordância. E isso é muito complicado de entender na mentalidade do que é uma negociação.
Poderá haver avanços em 2015?
Uma das hipóteses que faço para 2015 é a de que é preciso acentuar o caráter conflituoso antes de entrar em negociações. Não começar pela repartição das tarefas, mas admitindo que se está em conflito nas questões da natureza. Os ecologistas têm um pouco a ideia de que no momento em que se fala de natureza e de fatos científicos as pessoas vão se alinhar. Acham que se falar que o atum está desaparecendo os pescadores vão começar a parar de matá-los. Sabe-se há muito tempo que é exatamente o contrário, eles vão rapidamente em busca do último atum.
A minha hipótese para 2015 é que se deve tornar visíveis estes conflitos. O que coloca vários problemas de teoria política, de ecologia, de representação, de geografia etc. Talvez 2015 já seja um fracasso como foi 2009. Mas é interessante tentar, talvez seja nossa última chance.
Tenho muitas ideias. Faremos um colóquio no Rio de Janeiro em setembro de 2014, organizado por Eduardo Viveiros de Castro, sobre isso. Depois faremos um outro, em Toulouse, para testar os modelos de negociação. Em 2015 faremos um outro aqui na Sciences-Po. A ideia é encontrar alternativas no debate sobre conflitos de mundo. Não é uma questão das pessoas que são a favor do carvão, os que são contra os “climacéticos” etc. Não é a mesma conexão, não é a mesma ciência, não é a mesma confiança na política. São conflitos antropocêntricos. Interessante que as pessoas que assistiram à minha peça de teatro ficaram contentes em ver os conflitos. Na ecologia se faz muita pedagogia, se diz como se deve fazer para salvar a Floresta Amazônica. Mas não se fala muito de conflitos.

sábado, 14 de junho de 2014

O guardião da obra de Max Weber

Entrevista com Wolfgang Schluchter

 
 Wolfgang Schluchter, sociólogo alemão, responsável pela edição das obras completas deMax Weber, projeto que se iniciou em meados dos anos 1970 teve uma entrevista dele publicada no jornal Clarín, 11-11-06. Os colegas do CEPAT a traduziram.
Schluchter, professor de sociologia na Universidade de Heidelberg, desde 1976, concedeu uma entrevista à IHU On-Line que foi publicada nos Cadernos IHU em Formação, no. 3, 2005, cujo título é Max Weber . O espírito do capitalismo. A edição pode ser consultada nesta página.
Você nasceu em 1938. A Segunda Guerra Mundial influenciou a sua produção intelectual?
Na verdade, a República Federal da Alemanha (RFA) foi fundada em 1949 e desde o começo essa foi a ordem política com a qual identifiquei-me. O nacional-socialismo, como contra-modelo, se manteve para mim como algo muito abstrato à diferença do que ocorreu com a geração anterior que inclusive participou da guerra. Cresci em um contexto de uma abertura para o Ocidente da República alemã e isto influenciou momentos posteriores de minha carreira. Estive em universidades americanas (Pittsburgh, New School de Nova Iorque, Berkeley). A partir da reunificação alemã, minha relação começou a estreitar-se com a ex-República Democrática Alemã (RDA). Colaborei com a reestruturação da universidade em Leipzig, algo necessário em um ambiente altamente ideologizado com as ciências sociais. Na RDA não houve sociologia no sentido ocidental, havia apenas marxismo-leninismo e algumas experiências em pesquisas na área social empírica. Em Erfurt trabalhei na fundação de uma nova universidade. Depois estive em vários países da Ásia. Para um weberiano, estudioso das perspectivas comparadas da sociologia da religião, é muito interessante ir a China ou aos "tigres asiáticos’ e ver de que forma sobreviveu o confucionismo. Por isso vivi um ano em Singapura e ensinei em Hong Kong, Taiwan e Coréia do Sul.
Há diferentes acolhidas nacionais do pensamento de Weber. Como o meio local influencia essa recepção?
A recepção depende dos textos disponíveis e de boas traduções porque grande parte da recepção weberiana não se dá através dos textos originais. Isto supõe a necessidade de se ter conhecimento do alemão, ainda que isso não seja garantia de lê-los bem. Weber é um autor muito difícil e inclusive os alemães tem dificuldades de compreendê-lo. Por outro lado, a recepção weberiana depende muito das constelações políticas e científicas de cada país. Olhe-se a Índia. Weber escreveu um estudo sobre o hinduismo e o budismo. Não procurou analisar a história social da Índia, ainda que alguma coisa esteja presente. Seu trabalho é uma clara alternativa à interpretação da Índia de Marx. Mas, na Índia, a escola marxista sempre foi muito forte. Surpreendentemente, considerando que a perspectiva marxista não corresponde em absoluto com a autocompreensão da Índia, a perspectiva de Weber corresponde muito mais.
Os debates sobre Weber acontecem desde os anos 60, como se relaciona com o problema de sua recepção?
Certas coisas que foram debatidas no núcleo central dos estudos weberianos foram recebidas tardiamente em outros lugares. Em que pese a importância que o idioma tem, existe hoje um weberianismo em diferentes centros, mas que não fazem contato entre si. Todos os autores escrevem em uma língua e aqui está o nó da discussão. Porque não se pode afirmar que "tudo vale". É preciso ser cuidadoso com os textos, é preciso procurar reconstruir o que Weber tentou pensar e falar, porque ele foi muito cuidadoso em seus conceitos. Por isso, as traduções enfrentam problemas sérios. Em sua sociologia da dominação, por exemplo, há muitos conceitos que procedem da tradição jurídica, o que não tem nenhuma correspondência em outra língua ou tradições jurídicas. Por exemplo, Anstalt(instituto), um belo conceito. Talcott Parsons o traduziu para o inglês como organization: um erro. Outro exemplo é o famoso debate em Parsons e Reinhard Bendix, em torno da tradução de Herrschaft (dominação), que não existe em inglês. Como se decidir entrepowerdomination ou authority? Isso em inglês, agora imagine em japonês ou chinês, é de enlouquecer...
 O que acontece em outros campos culturais?
É um grande problema para os estudos comparativos. Vejamos o conceito de Weber acerca da religião. Tomado estritamente, o conceito não poderia ser utilizado para falar do confucionismo, porque não é uma religião. Mas Weber necessita dele para levar a cabo suas pesquisas comparadas. Assim, há muitos outros exemplos, como Pietät, que joga na China um papel importante e que Weber tomou do direito romano. Quando se realizam estudos comparados, já a partir da própria terminologia se dá um certo etnocentrismo que não se pode evitar. Weber tinha claro que os seus estudos eram eurocêntricos, mas o seu eurocentrismo não se concebe normativamente, como o de Marx que vaticinou que todas as economias asiáticas iriam sucumbir; Weber sempre explicitou que se tratava apenas de um ponto de vista.
Fora estes problemas de tradução, não há e não houve também na Alemanha diferentes formas de se ler Weber?
Correto. Meu interesse por sua obra surgiu tomando clara distância das posições marxistas que jogavam um crescente papel nas ciências sociais e nos movimentos estudantis e radicais da RFA dos anos 60 e 70. Iniciei minha carreira com um trabalho sobre um pensador político e social-democrata da época de WeimarHermann Heller, que se exilou em Madri, onde lamentavelmente morreu sem antes retornar. Se a posição política que ele defendeu tivesse sido partilhada, poderia ter impedido o surgimento do nacional-socialismo. Foi uma tremenda injustiça que não se estudasse a obra de Heller, mas sim de outros que tiveram posições democráticas pouco claras ou claras posições antidemocráticas, como Carl Schmitt. Não se deu a Heller o lugar que merece. Dirigi minhas perguntas para contextos mais amplos. Assim começa meu trabalho com Weber. Desde 1976 estou em Heidelberg. Pensei que era uma boa idéia mudar-me para o local onde Weber esteve para fazer sociologia no sentido de Weber.
O que significa "fazer sociologia no sentido de Weber"?
No sentido de Weber, significa levar adiante uma pesquisa cultural-comparativa fundada em uma teoria da ação na qual as constelações institucionais desempenham um papel importante. O debate alemão dos 60 e 70 foi ideologicamente muito carregado, com um renascimento de posições marxistas acadêmicas e não acadêmicas, os continuadores daEscola de Frankfurt, os primeiros ensaios de uma teoria de sistemas de Nicklas Luhmann. Nesse contexto, a pesquisa sobre Weber ficou resumida à "palestra", justamente na Alemanha onde sempre se procuraram realizar pesquisas de caráter universal, histórica e comparativas, tradição de MarxWeber e em certo sentido de Nobert Elias.
Qual foi o impacto da reunificação alemã?
A reunificação pôs em questão a "naturalidade" de pertença da Alemanha ao Ocidente. Minha inserção nas universidades da ex-RDA é parte de um compromisso político. Tínhamos o dever de intervir. Resta ainda avaliar se nos saímos bem ou mal, mas o fizemos.
Em que situação se encontra a edição das obras completas de Weber?
O projeto surgiu em meados dos anos 1970. Dirk Käsler sustenta que este era um contraponto às obras completas de Marx e Engels e isso me pareceu um pouco trivial. Esse projeto foi uma iniciativa de Johannes Winckelmann e eu tive a responsabilidade de formular as regras básicas para a edição. Tomei em conta a edição das obras de Marx eEngels, e de outros autores, simplesmente para ver como foram feitas. O produto terminou sendo muito ambicioso. Se conseguirmos terminar (ri), as obras completas compreenderão uns 40 volumes. Até o momento temos algo com um pouco mais da metade. Compreende três secções: a primeira, e mais importante, é a dos escritos e dos discursos; a segunda são as cartas, a terceira compreende os conceitos. Quando pronto, teremos a primeira série de conceitos que Weber deu ao final do século XIX sobre a teoria geral da economia nacional. São chaves, porque permitem ver como Weber se posicionou fortemente na "disputa pelo método" e trabalhou temas retomados após o seu colapso nervoso. Dessa forma pode-se contrapor a hipótese de "quebra" da produção em função desse problema de sua saúde.
Que conseqüências terão a publicação de "Economia e Sociedade" nas obras completas?
Vai transformar a recepção ou deveria fazê-lo. Na versão existente até hoje (a de Marianne Weber e as reedições de Winckelmann) esta obra se divide em duas partes e isso é totalmente insustentável. Economia e Sociedade é um projeto que transcorreu em diferentes fases. A primeira transcorreu entre 1910 e 1912, quando Weber começou a recolher o material. A partir de 1913, tem lugar a segunda fase que se corta abruptamente com a Primeira Guerra Mundial. Os manuscritos ficaram como estavam, sem ordem coerente. Em 1919 retoma seriamente o trabalho e se serve dos velhos manuscritos para escrever os novos. Em suma, não é uma obra dividida em duas partes, mas sim distintas etapas de um mesmo projeto. O correto seria ler Economia e Sociedade de trás para frente.
E as cartas?
É um volume realmente importante porque revelam sobre as redes pessoais de Weber. Há ali muitos comentários riquíssimos sobre os livros que lia, sobre como pretendia que se entendessem suas próprias posições.
Como caracterizaria o debate sociológico atual na Alemanha?
Foi fundamental que Habermas retomasse a discussão weberiana dos anos 1970 em suaTeoria da Ação Comunicativa. Graças a ele, o discurso de Frankfurt se transformou em comparação com Adorno e Horkheimer, que tinham uma compreensão bastante rudimentar de Weber. Entre aqueles que trabalham sobre Weber também há grandes controvérsias.Wolgfang Mommsen e eu temos discutido muitíssimo ao redor de certas interpretações. Alguns se ignoram entre si. Quiçá isto tenha a ver com esta obra que impacta existencialmente sobre todos que se dedicam a estudá-la. Por um lado, essa visão aberta do mundo que tinha Weber e por outro lado, a sua compreensão profunda sobre a conflitividade da vida social e sobre a dificuldade para conduzir a própria vida.
Creio que estas controvérsias estejam vinculadas ao fato de as interpretações de Weber pertencerem a âmbitos mais amplos de discussão cultural. Os luhmannianos apenas discutem entre si, e os "outsideres" não têm idéia do que acontece ali dentro.
Sim, de acordo. Além disso, creio que a teoria de sistemas de Luhmann causou um grande estrago. Desde um ponto de vista histórico universal, em comparação com Weber, sua teoria é incrivelmente simples e primitiva: uma reflexão conceitual que se aplica sobre si mesma, uma escola fechada com importantes efeitos, isso sim, sobre outras disciplinas. Definitivamente essa teoria vai em uma direção equivocada. Vamos ver se aparecem desenvolvimentos posteriores e se não serão apenas repetição do já disse Luhmann, porque os discípulos não têm estatura do mestre, que escreveu de maneira brilhante.
Luhmann não pertence também à tradição alemã?
Sim, também pertence à tradição alemã. Não o quero expatriar... (ri). Bem, esta é uma das linhas no debate alemão. A segunda linha é versão muito elaborada do rational choice (o autor mais importante é Harmut Esser). A terceira linha seria a weberiana que tem diferentes facetas. Finalmente, a teoria da ação comunicativa: Habermas e o que produziu. A divisória de águas se dá então entre teoria de sistemas e teoria da ação.
Chama a atenção que não mencione Ulrich Beck?
Não creio que seja um sociólogo que deva ser levado a sério.
Imaginava que ia dizer isto. Mas é muito famoso. E escreveu com outros importantes sociólogos, como Giddens...
É famoso, é verdade. Mas não conheço ninguém que o leve a sério.
Para você o conceito da "sociedade de risco" de Beck não diz nada?
Por favor! Besteiras! Veja: sou um dos co-editores da Kölner Zeitschrif für Soziologie un Sozialpsychologie, uma das revistas sociológicas alemãs mais importante. Beck sempre quis publicar ali. Nós definimos que publicaremos algo sempre e quando o manuscrito que enviem nos convença. Mas tudo o que temos recebido dele é tão incrivelmente ruim que não conseguimos publicar nada, e da mesma opinião são os avaliadores externos consultados. São textos de Feuilleton. Aqui também sem grande impacto.
Uma interface entre a ciências sociais e o jornalismo?
Sim, algo assim. Também creio que é muito importante intervir neste espaço. Na Alemanha temos muitas figuras com este estilo. Ralf Dahrendorf, por exemplo, sempre tem desempenhado um papel público. Mas no seu caso ao menos há uma sustentação teórica.Habermas tem muita consciência dessas duas facetas. Suas publicações estão orientadas para realizar a transferência da ciência até o amplo debate da opinião pública.
A sociologia alemã é uma empresa enorme e diversificada. Poucos trabalham no campo da teoria, a maioria faz pesquisa empírica.
Há um grupo pequeno, pessoas maiores que se ocupam de questões teóricas, mas o sociólogo ou a socióloga normal, jovem com aspirações, realiza pesquisa empírica. Há uma crescente tendência de retrocesso de todo o debate teórico, também nos planos de estudo.
Pode falar ainda da sociologia como disciplina com limites mais ou menos definidas?
É muito difícil. Também no sentido institucional, a disciplina tende a desagregar-se. Discute-se muito na Europa acerca da reestruturação das carreiras universitárias: primeiro haveria um Baccalauréat, na seqüência magistério e finalmente doutorado. Também se propõe mudar a primeira fase de estudos em sistema de créditos, na qual a sociologia se combina com economia, antropologia ou ao que lhe ocorra... Quem sabe em uns 10 anos já não haja um certificado final de estudos intitulado "sociologia".
Neste contexto, que papel joga Weber? Quando cheguei à Alemanha em 1991, encontrei graduados em sociologia que haviam lido pouco ou quase nada de Weber. Parecia-me estranhíssimo vindo da UBA, onde Weber aparecia como a primeira matéria.
É certo. Mas em Heidelberg não, e vamos ver quanto tempo podemos resistir. As universidades na Alemanha estão em forte transformação. A chamada "Reforma" é muito mais radical do que supomos. A massa de recursos se destina a outros setores como as ciências naturais e medicina. Carreiras como sociologia e economia irão ter que lutar para sobreviver. Estas novas concepções pretendem adaptar as universidades às empresas, tem que competir entre si, vender os seus produtos no mercado e se não funcionam, fecham. A comercialização do ambiente acadêmico. Busca-se formar estudantes com capacidade que possa ser rapidamente utilizada pelo mercado de trabalho. Com isto se perde algo que era essencial para a universidade alemã: a idéia de que estudar era uma tarefa em si mesma. O "saber pelo saber mesmo" está em retrocesso. Hoje se oferecem habilidades extracurriculares, capacidade de trabalhar em equipe, retórica... Quem sabe Weber fique apenas na pós-graduação. Não sei. Agora, é um fato que as carreiras tem que ser "creditadas", há "agências de creditação", procedimentos de avaliação, tudo deve ser avaliado... Uma espécie da "avaliação reflexiva" (risos).
Weber é um clássico indiscutível da sociologia. O que aconteceu com outros autores que poderiam ter sido e não foram? Ferdinand Tönnies, Werner Sombart. Foi uma causalidade?
Sombart é um bom exemplo. Simmel também, que hoje é um certo boom, mas que não creio que irá se sustentar... Seguramente foi decisivo quem se encarregou da recepção dos autores. Mas tem que haver algo na coisa mesma que o justifique. Estou trabalhando em um livro sistemático de história da teoria com uma ampla reflexão sobre porque e como se deram essas aparições na sociologia. Há quem opine, como Luhmann que a história da sociologia se acabou e já é passado e é preciso que diga algo de novo.
O mesmo pensava Robert Merton: a história e a sistemática na sociologia deveriam manter-se separadas...
A construção da teoria se vê como independente da história da disciplina, como na física, onde se acredita que o conhecimento é uma continua acumulação. A outra posição é a da "história da sociologia", habitualmente sustentada por historiados que apenas descrevem uma certa fase de desenvolvimento. Apresentam-se diversos autores, diversos aportes teóricos, contexto histórico, intervenções políticas...
Os livros de texto...
Sim. E aí vem alguém e diz, "vou tomar MarxTönniesSimmel e Weber". E vem outro e diz, "vou tomar apenas Marx". Mas não aparece nenhum critério de seleção. Assim fez Dirl Käsler (ri) em um livro para suas aulas. Há ali 30 autores e um capítulo sobre cada autor. Mas isto é insatisfatório, como a outra posição que mencionei antes. A terceira posição é a que fez Parsons na A estrutura da ação socialHabermas em sua Teoria da ação comunicativa e o que sempre fiz eu: uma história da teoria sistemática, com um critério de seleção de autores porque escolhi e os coloco em relação ainda que sejam enfoques distintos.
 Especificando os critérios...
O critério é: que a posição possa fundamentar um "programa de pesquisa", que tenha um núcleo metafísico, que heuristicamente mostre como se chega a obter novos conhecimentos, que tenha uma metodologia; uma teoria sobre a relação entre ação, ordem e cultura e que mostre casos empíricos (como se pode aplicar todo o modelo).
Sobram poucos autores.
Sim muito poucos: MarxDurkheimWeber. O Marx do 18 Brumario. Em Durkheim,Física dos costumes e o Direito. Em Weber, naturalmente, A ética protestante e os trabalhos de ética das religiões universais.
E Parsons?
Sim, inclusive Parsons, que abriu a "roda sistêmica" na qual prosseguiu Luhmann. EGeorge H. Mead, que abriu a "roda lingüística", na qual se meteu Habermas. Fecho o livro com esta confrontação "teoria da ação - teoria de sistemas" que, como dizia, é a divisória de águas do debate sociológico atual

terça-feira, 10 de junho de 2014

Thomas Piketty, a nova estrela da economia mundial

Thomas Piketty, a nova estrela da economia mundial
 
 
 
Elogiado pelos prêmios Nobel de Economia, Paul Krugman e Joseph Stiglitz, ressaltado pelo influente editor do jornal Financial Times, Martin Wolf, e analisado em profundidade pelo semanário The Economist. “Capital in the 21st Century” [O capital no século XXI], do economista francês Thomas Piketty (foto), contém um duro ataque ao capitalismo e um traço que considera inerente ao seu funcionamento: uma crescente desigualdade que, cedo ou tarde, será “intolerável”.
 
 
 
A reportagem é de Marcelo Justo, publicada por BBC Mundo, 07-05-2014. A tradução é do Cepat.
 
A mensagem recorda (assim como o título da obra) as predições de Karl Marx sobre o inevitável antagonismo entre uma minoria cada vez mais rica e uma maioria cada vez mais relegada.
Não em vão, The Economist chamou Piketty como “o moderno Marx”, mas entre as surpresas deste suposto herdeiro do autor de “O Capital” e do “Manifesto Comunista” está o fato de que foi recebido, simultaneamente, pela Casa Branca e o Fundo Monetário Internacional para que explicasse as suas teses.
Em sua resenha para The New York Review, Paul Krugman procurou sintetizar o interesse que o livro desperta.
“Apresenta um novo modelo que integra o conceito de crescimento econômico com o de distribuição de ingressos salariais e riqueza. Mudará o modo como pensamos sobre a sociedade e a economia”, escreveu Krugman.
 
R contra G
 
Piketty não é o primeiro a falar de crescimento da desigualdade. O tema foi tratado por diversos autores, desde Joseph Stiglitz até o coreano Ha-Joon Chang, e mencionado como um dos grandes desafios de nossa época por dirigentes políticos mundiais, começando pelo próprio Barack Obama.
A diferença é que Piketty revoluciona a análise histórica com uma comparação que abarca desde inícios da revolução industrial, no século 18, até nossos dias. Segundo Piketty, o crescimento da desigualdade é inerente ao capitalismo porque a taxa de retorno ou rendimento do capital (R: rate of capital return) é superior à taxa de crescimento econômico (G: rate of economic growth), relação resumida na versão em inglês do livro como “R>G” (R maior que G).
Piketty analisou a evolução de 30 países, durante 300 anos, como explicou ao The New York Times.
“Caso se analise o período de 1700 até 2012, percebe-se que a produção anual cresceu em média 1,6%. Ao contrário, o rendimento do capital foi de 4 a 5%”, destacou Piketty ao jornal.
A consequência deste processo é que, a longo prazo, o próprio crescimento econômico se vê afetado. Em outras palavras, Piketty ataca de frente a ideia de que a distribuição da riqueza econômica é secundária à criação da mesma.
 
Os 25 anos dourados
 
Esta tese bate de frente com a premissa da economia neoclássica (baseada em Adam Smith e David Ricardo) que considera que a distribuição da riqueza é um tema secundário do crescimento e que em “economias maduras” (desenvolvidas) a desigualdade se reduz naturalmente.
Esta tese se baseava na chamada curva de Kuznets, que postulava que embora as economias fossem muito desiguais na primeira etapa da industrialização, tornar-se-iam mais igualitárias com o tempo, em virtude de um processo de amadurecimento intrínseco, resultado do crescimento.
Kuznets desenvolveu esta hipótese nos anos 1950 e 1960, no mesmo período em que o capitalismo gozou de seus “25 anos dourados” (1947-1973), em que o crescimento chegou a 4,5% anualmente.
Segundo Piketty este período é uma exceção em razão de fatores históricos aleatórios e institucionais.
“A grande crise de 1914-1945, com a destruição de capital pela inflação, as duas guerras mundiais e a Grande Depressão, somado a mudanças institucionais, como a criação do Estado de Bem-Estar, reverteram um pouco o processo de crescente desigualdade que víamos desde a revolução industrial”, destacou ao jornal The New York Times.
Em outras palavras, com o laissez faire a tendência natural é a desigualdade. Por outro lado, a intervenção da história, que afeta o rendimento do capital e seu investimento (guerras mundiais), e a do estado (redistribuição) podem alterar esta tendência.
Em sua “História do século XX”, o recentemente falecido historiador Eric Hobsbawmapresenta outro ângulo que leva a mesma conclusão: “Uma das ironias do século XX foi que a Revolução de Outubro, que tinha como objetivo a eliminação do capitalismo, acabou lhe salvando ao obrigá-lo a se reformar e planificar sua economia com políticas redistributivas como o New Deal, escrevia o historiador britânico em princípios dos anos 1990. Com a queda do Muro de Berlim, o capitalismo voltou a suas velhas raízes do laissez faire, hoje rebatizadas como neoliberalismo.
 
Críticas
 
O livro de Piketty foi criticado a partir de duas perspectivas.
A direita reconheceu a “extraordinária magnitude dos dados reunidos e comparados”, mas discordou da tese principal e da “pobreza” das soluções propostas.
O semanário The Economist sintetizou em sua última edição as críticas.
“Muitos pensam que Piketty se equivoca ao acreditar que o futuro será como o passado, o século XXI como o XVIII e XIX. Outros acrescentam que, na realidade, é cada vez mais difícil obter uma boa rentabilidade do capital investido. E, além disso, a maioria dos super-ricos de hoje conseguiu sua riqueza graças ao seu esforço e não por herança”, destaca o semanário.
A partir de uma perspectiva de centro-esquerda, Piketty também foi criticado porque sua tese se encontraria dentro dos limites da economia “neoclássica”.
O autor de “Post Keynesian Economics: Debt, Distribution and the Macro Economy”, o acadêmico estadunidense Thomas I. Palley, destaca que esta limitação torna possível “mudar algo para que não mude nada”, velha técnica do leopardismo.
“Piketty fornece uma explicação da crescente desigualdade no marco neoclássico e centra o problema na diferença entre a rentabilidade do capital e o crescimento. Este esquema neoclássico o faz enfocar o tema tributário como o remédio, sem prestar atenção às estruturas do poder econômico”, destaca Palley.
 
Há alternativas?
 
Em uma coisa todos concordam: a desigualdade cresceu nas últimas três décadas.
Segundo The Economist, hoje 1% da população tem 43% dos ativos do mundo. Os 10% mais ricos detém 83%.
A mensagem de Piketty é que esta situação irá continuar, a não ser que se adote uma série de medidas progressistas globais, como um imposto de 80% sobre a riqueza (não apenas sobre a renda).
Para além da questão se este remédio faz parte do esquema neoclássico, como criticaPalley, dado o poder de lobby dos grandes capitais e, em muitos casos, sua direta manipulação da coisa pública (a política econômica de Barack Obama tem estado nas mãos de ex-banqueiros de Wall Street), é bastante improvável que se possa ir adiante. O próprio Piketty não é particularmente otimista.
“Hoje, os níveis de desigualdade nos Estados Unidos são semelhantes aos que existiam na Europa em inícios do século XX. A história nos ensina que este nível de desigualdade não é positivo para o crescimento econômico ou a democracia. Os sistemas democráticos não puderam responder de maneira pacífica e a situação apenas foi solucionada após duas guerras mundiais e violentos conflitos sociais. Vamos esperar que desta vez seja diferente”, destaca Piketty.

sábado, 7 de junho de 2014

Avanço tecnológico desafia capitalismo

 
 
"Entramos em um mundo parcialmente fora dos mercados, onde estamos aprendendo a viver numa comunidade cada vez mais interdependente, cooperativa e global", escreve Jeremy Rifkin, em artigo publicado no jornal The New York Times, e reproduzido pelo jornal O Estado de S. Paulo, 24-03-2014.
Eis o artigo.
Estamos começando a testemunhar um paradoxo no coração do capitalismo. O dinamismo inerente de mercados competidores está baixando de tal forma os custos que muitos bens e serviços estão se tornando quase gratuitos, abundantes, e não mais sujeitos às forças do mercado. A revolução tecnológica está trazendo esses custos a quase zero.
Os primeiros indícios do paradoxo surgiram em 1999 quando o Napster desenvolveu uma rede permitindo que milhões de pessoas compartilhassem música de graça, causando estragos na indústria musical. Fenômenos parecidos abalaram seriamente as indústrias de publicação de jornais e livros.
A enorme redução dos custos marginais abalou esses setores e agora está começando a remodelar o setor de energia, a indústria de transformação e a educação. Apesar de os custos fixos da tecnologia de energia solar e eólica serem um tanto salgados, o custo de capturar cada unidade de energia depois de instalada é baixo. Este fenômeno penetrou até no setor manufatureiro. Milhares de amadores estão fazendo seus próprios produtos com impressoras de 3-D, software aberto e plástico reciclado como matéria-prima a um custo quase zero.
Por sua vez, mais de 6 milhões de estudantes estão matriculados em cursos online cujo conteúdo é distribuído a um custo marginal quase zero.
Observadores do setor reconhecem a realidade assustadora de uma economia com custo marginal quase zero, mas argumentam que produtos e serviços gratuitos atrairão um número suficiente de consumidores para comprar bens e serviços mais sofisticados, assegurando margens de lucros suficientes. Mas o número de pessoas dispostas a pagar pelos bens e serviços especiais é limitado.
Internet das coisas
Agora, o fenômeno está prestes a afetar a economia como um todo. Uma formidável nova infraestrutura de tecnologia - a internet das coisas - está surgindo com o potencial de empurrar boa parte da vida econômica para um custo marginal quase zero nas próximas duas décadas. Esta nova plataforma tecnológica está começando a conectar tudo e todos. Hoje, mais de 11 bilhões de sensores estão afixado em recursos naturais, linhas de produção, a rede elétrica, redes logísticas e fluxos de reciclagem, e implantados em casas, escritórios, lojas e veículos, alimentando uma enormidade de dados na internet de coisas. Em 2020, segundo projeções, seriam pelos menos 50 bilhões os sensores a ela conectados.
A questão não resolvida é como esta economia do futuro funcionará quando milhões de pessoas puderem fazer e compartilhar bens e serviços quase de graça? A resposta está na sociedade civil, que consiste de organizações sem fins lucrativos que atendem às coisas na vida que fazemos e compartilhamos como comunidade. Em termos monetários, são uma força poderosa. As receitas dessas organizações cresceram sólidos 41% de 2000 a 2010, mais que o dobro do crescimento do Produto Interno Bruto, que cresceu 16,4% no mesmo período. Em 2012, o setor sem fins lucrativos nos Estados Unidos respondeu por 5,5% do PIB.
Inclusão
O que torna a comunidade social mais relevante hoje é que estamos construindo uma infraestrutura de internet das coisas que aprimora colaboração e acesso universal, cruciais para a criação de capital social e marcar o início de uma economia solidária.
Esta abordagem colaborativa em vez de capitalista diz respeito mais ao acesso compartilhado que à propriedade privada. Por exemplo, 1,7 milhão de pessoas em todo o mundo integram serviços de compartilhamento de carros. Uma pesquisa recente revelou que o número de veículos possuídos por participantes desse sistema caiu pela metade após sua adesão o serviço, pois os membros preferiram acesso em vez de propriedade. Milhões de pessoas estão usando sites de mídias sociais, redes de redistribuição, aluguéis e cooperativas para compartilhar não somente carros, mas também casas, roupas, ferramentas, brinquedos e outros itens, a um custo marginal baixo ou quase nulo. A economia solidária teve receitas projetadas de US$ 3,5 bilhões em 2013.
O fenômeno do custo marginal nulo é particularmente impactante no mercado de trabalho, onde fábricas e escritórios sem trabalhadores, varejo virtual e redes automatizadas de logística e transporte estão prevalecendo. Não surpreende que as novas oportunidades de emprego estejam na comunidade cooperativa em campos que tendem a ser não lucrativos e fortalecem a infraestrutura social - educação, saúde, ajuda aos pobres, recuperação ambiental, atendimento infantil e atendimento a idosos, promoção das artes e recreação.
Nos Estados Unidos, o número de organizações sem fins lucrativos cresceu aproximadamente 25% entre 2001 e 2011, de 1,3 milhão para 1,6 milhão, enquanto as empresas com fins lucrativos cresceram apenas 0,5%. Nos EUA , Canadá e Grã-Bretanha, o emprego no setor sem fins lucrativos excede 10% da força de trabalho.
O sistema capitalista deve permanecer entre nós por muito tempo, ainda que com um papel mais delimitado, principalmente como agregador de serviços e soluções de rede e prosperando como um poderoso operador de nicho. Entramos em um mundo parcialmente fora dos mercados, onde estamos aprendendo a viver numa comunidade cada vez mais interdependente, cooperativa e global.



quinta-feira, 5 de junho de 2014

Quando ter trabalho não signica sair da pobreza

As cloacas do capitalismo: quando ter trabalho não significa sair da pobreza

 
A pobreza costuma estar associada ao desemprego, mais ainda em um país como a Espanha, com a quarta parte de sua força de trabalho desempregada. É o que reflete o VIII Relatório do Observatório da Realidade Social da Cáritas. No entanto, existe algo não tão óbvio assim: 13% dos trabalhadores estão na linha da pobreza (8,9% no conjunto daUnião Europeia). Um salário ao final do mês já não é garantia de uma vida digna.
A reportagem é de Luis Matías López, publica por Público.es, 02-05-2014. A tradução é do Cepat.

Esse assunto aparece no livro de Barbara Ehrenreich, publicado pela primeira vez em 2001, nos Estados Unidos, e que, traduzido por Carmen Aguilar, é publicado por Capitán Swing: “Por cuatro duros. Como (no) apañárselas en Estados Unidos”. Esta ensaísta e jornalista, dirigente do Partido Social-Democrata norte-americano, protagonizou, durante três meses, uma experiência sociológica destinada a mudar as mentes daqueles que, a partir de posições de privilégio, acreditam que no país das oportunidades só é pobre quem não luta para deixar de sê-lo.
Na atual situação da Espanha, pode parecer supérfluo – se não exótico – tratar da exploração de uma boa parte da força de trabalho nos Estados Unidos, mas há ocasiões em que um espelho exterior reflete a própria imagem. Além disso, fica evidente a basbaquice a respeito do idealizado modelo proveniente do “império”.
Ehrenreich, pertencente a esta casta minoritária de elevados ingressos e trabalho espiritualmente enriquecedor que pode ter caprichos, viajar ao estrangeiro, ter uma moradia confortável, comer em bons restaurantes, poupar para a aposentadoria e cuidar de seu físico em uma academia, adentrou-se no mundo dos trabalhadores não qualificados. Deparou-se com salários miseráveis de 6 a 7 dólares a hora (ou de apenas 2,5 a mais de gorjetas, em muitos restaurantes), condições de trabalho leoninas, chefes insensíveis, precariedade, exigências humilhantes (como testes prévios com perguntas sobre crenças e vida particular ou análises antidrogas) e falta de assistência médica adequada, de maneira que cair enfermo ou sofrer um acidente resulta econômica e mentalmente inadmissível. Foi uma viagem às cloacas do capitalismo no país em que este, mais do que uma ideologia, é uma religião.
A repercussão do livro “Por cuatro duros” foi notável, embora não suficiente para mudar uma situação vergonhosa que, desde então, não fez mais do que piorar. Constituiu um êxito instantâneo, um feito que levou sua autora a ditar conferências por todo o país, recebendo críticas muito favoráveis, que a converteu em alvo de acusações de propagandista do comunismo, por setores mais direitistas e conservadores. O texto se tornou, inclusive, leitura obrigatória em várias universidades, não sem campanhas de protesto e boicotes em algumas delas.
Ehrenreich não descobriu nada que não estivesse à vista de qualquer pessoa que se preocupe em olhar ao redor. Não se tratava de um fenômeno marginal, mas, sim, de algo que atinge um setor significativo da população. Não dizia respeito a um método novo de refletir a injustiça e a desigualdade, em um país em que estas são marcas da casa. Nada que não estivesse refletido na autobiografia de Woody Guthrie ou em “Las uvas de la ira”, de Steinbeck.
No entanto, a paisagem não era, como nesses dois casos, o de uma grande depressão, mas o de “uma época de prosperidade aparentemente ilimitada”. Porque a imersão de Ehrenreich nesse submundo ocorreu em fins do século XX, quando se forjavam fortunas fabulosas sobre bolhas especulativas, arrogava-se o pleno emprego e eram os empresários os que precisavam com urgência de trabalhadores. E, no entanto, precisamente lá onde se rege a suprema lei da oferta e da demanda, isso não se traduziu em uma melhora substancial de salários e de condições trabalhistas e sociais entre os trabalhadores não qualificados.
Se fosse para pensar em uma época semelhante na Espanha, seria a dos anos prévios à atual recessão, 2006 ou 2007, quando o desemprego era relativamente baixo (em torno de 8%), o que facilitava a acolhida massiva de milhões de imigrantes que dominavam o serviço doméstico e os trabalhos mais duros na construção. Aqui, alimentados pelas máfias e a cobiça empresarial, também germinaram os abusos e a exploração. E o pior estava por vir.
A principal conclusão de “Por cuatro duros” é que, nessas condições, a sobrevivência digna era quase impossível. Simplesmente, as contas não fechavam. Como camareira em Flórida, faxineira e cuidadora em uma residência para enfermos de Alzheimer em Maine, ou empregada do Walmart em Minesota, Ehrenreich, já perto dos 60 anos, empenhava-se para dar validade ao seu experimento em viver de seu trabalho e compartilhar com seus companheiros as dificuldades para sobreviver, em estado permanente de angústia.
Nem sequer um segundo trabalho, em tempo parcial, permitia-lhe algo parecido a uma vida sem angústias, que fosse para além de chegar ao final do mês com a língua de fora. O aluguel costumava atingir 50% de sua renda, e isso vivendo em alojamentos, apartamentos e lugares fedorentos, inóspitos e afastados, em busca da moradia mais barata possível, com a dificuldade acrescida pela ausência de transporte público decente, o que a obrigava a utilizar um automóvel e a assumir os gastos que isso acarretava.
A precariedade, a pobreza, a frustração, as más condições de trabalho, o pluriemprego e a alimentação inadequada acabavam sendo a realidade, anulando inclusive a capacidade de se rebelar. Em certas ocasiões, Ehrenreich tentava fazer seus companheiros (mulheres em sua maioria) reagirem, mas não podia ir muito longe. A sua experiência era para escrever um livro, um intervalo antes de voltar para a sua vida confortável de antes. Ela podia se permitir assumir riscos impunemente, enquanto que para eles era a única vida que tinham, e ainda temiam que fosse pior.
Estavam indefesos diante de empresas que, cheias de hipocrisia, fomentavam a falta de solidariedade, já a partir da fase de seleção, com perguntas como: ‘Você entregaria um companheiro que perceba que está fazendo algo inadequado?’ Ou seja: ‘Denunciar-lhe-ia, caso gaste o tempo conversando, coma coisas da cozinha do restaurante ou furte algumas meias? E se a resposta era não, já podiam ir buscar emprego em outro lugar.
A militância nos sindicatos era desestimulada de forma grosseira. Na fase de treinamento e doutrinamento, explicava-se aos novos trabalhadores que os sindicatos já não tinham nada para lhes oferecer. “O Walmart está em alta, os sindicatos em decadência. Avaliem vocês próprios (...) Pensem no que perderiam em um sindicato. Em primeiro lugar, o seu dinheiro, em razão das contribuições. Em segundo, sua voz. Por último, salários e benefícios, que estariam em jogo na mesa de negociação”. Desta maneira, era melhor que deixassem de bagunça, que desfrutassem do fato de terem conseguido “um grandioso posto de trabalho” na maior vendedora varejista do globo, e que praticassem o “patriotismo de empresa”, inclusive com catárticos vivas ao chefe! Isso, sim, com um trabalho penoso, esgotador, alienante, estressante e por 7 miseráveis dólares por hora. Um passaporte para a pobreza e a marginalidade, em concorrência com o trabalho quase escravo em países do Terceiro Mundo, em que se fabrica a maior parte dos objetos que depois se vendem a preços acessíveis, mas regados com muito suor e exploração.
“As nações civilizadas”, destaca Ehrenreich, “compensavam a falta de salários justos proporcionando serviços públicos relativamente generosos como o seguro de saúde, creches gratuitas, ou subvencionadas, alojamentos subvencionados e transporte público eficiente. Porém, os Estados Unidos, com toda a sua riqueza, deixam os cidadãos a mercê de si mesmo”, o que no caso dos trabalhadores não qualificados significa, com frequência, lançá-los na pobreza e na marginalidade.
Contudo, caso se ascenda dos 20% mais baixo para os 20% mais alto, “entra-se em um mundo mágico, onde as necessidades estão satisfeitas e os problemas resolvidos quase sem esforço”. Nessa faixa estavam (e aí continuam), diz a autora, advogados, executivos, juízes, escritores, editores e, claro, os políticos responsáveis pelas decisões que atingem a vida dos mais pobres – desde a cobertura de saúde até o salário mínimo -, e nem sequer são capazes de ver as excrescências incompatíveis com o mito do “american way of life”.
Esses trabalhadores pobres “são de fato os grandes filantropos da sociedade norte-americana. Deixam de cuidar de seus filhos para que os filhos de outros estejam bem cuidados, vivem em alojamentos abaixo da habitabilidade para que outras casas estejam reluzentes e perfeitas. Passam privações para que a inflação se mantenha baixa e o preço das ações em alta (...). Ser membro da classe trabalhadora pobre é ser um doador anônimo, um benfeitor de nome desconhecido para todos os demais”.
A realidade que “Por cuatro duros” demonstra é a dos Estados Unidos no final do século XX. Desde então, as coisas não melhoraram por lá. Pelo contrário: o Estado cada vez mais abandonou os que menos têm. Contudo, agora, olhem para os arredores, neste outro lado do Atlântico. Aqui o panorama é tão diferente? Com seis milhões de desempregados, uma profunda desvalorização salarial e os contratos degradantes convertidos em norma, a precariedade que é a antessala da pobreza se estende sem parar. Não apenas entre os trabalhadores não qualificados, mas também entre os que têm um curso universitário, porque isso já não é garantia suficiente de que não cairá no buraco. E, enquanto isso, a desigualdade dispara: um recente relatório da OCDE destaca que a distância entre ricos e pobres se ampliou de forma espetacular na Espanha em razão do impacto da crise. Entre 2007 e 2010, a renda dos 10% mais ricos diminuiu em menos de 1% ao ano, ao passo que entre os 10% mais pobres, a queda foi de 14% ao ano.
Neste país, a vergonha e injustiça estão tão à vista que não é necessário que alguém como Ehrenreich se infiltre no reino do abuso, da exploração e da precariedade para descobrirmos o aspecto mais sinistro de um capitalismo que atua descaradamente.