quinta-feira, 22 de maio de 2014

Vigilância sobre o cidadão

Notícias censuradas, vigilância do cidadão: perspectiva histórica da vigilância massiva nos Estados Unidos e o papel do Facebook na rede da NSA

 

 

“Não há nada de novo na vigilância política”, escreveu Aryeh Neier no New York Review of Books após rastrear a espionagem política do governo federal dos Estados Unidos desde a criação da Agência Federal de Investigações(FBI), em 1908. Embora as revelações atuais sobre o alcance da espionagem de cidadãos da Agência Nacional de Segurança (NSA) difiram dos primeiros precursores, o importante “é reconhecer que persistem formas muito antigas de vigilância”.
A reportagem é de Ernesto Carmona e publicada no sítio argentino Argenpress, 13-05-2014. Ernesto Carmona é jornalista e escritor chileno, jurado internacional do Projeto Censurado. A tradução é de André Langer.
Claro que também há enormes inovações tecnológicas, como o programa secreto “Aprendizagem profunda” [Deep learning] de tecnologia de inteligência artificial (AI) desenvolvido pelo Facebook com a intenção de identificar melhor a informação segura sobre seus usuários. O projeto, supervisionado por um grupo de oito membros chamado “Equipe AI”, pretende prever futura atividade on-line dos usuários a partir da análise dos dados das contas já existentes.
O The Washington’s Blog garantiu que “a NSA repete o que o rei Jorge fez aos norte-americanos durante o tempo da colônia”. O artigo cita Randy Barnett, professor de direito constitucional de Georgetown, sobre como a Corte de Vigilância da Inteligência Estrangeira aparentemente “aprovou secretamente a apropriação exaustiva de informações sobre todos os estadunidenses para que este ‘metadados’ pudesse proporcionar, mais adiante, a causa provável para uma busca em particular. De acordo com Barnett, esta indiscriminada captura de dados é “semelhante aos mandados judiciais gerais expedidos pela Coroa para autorizar buscas de colonos norte-americanos”.
O artigo do The Washington’s Blog também cita um memorando de David Snyder, publicado pela Electronic Frontier Foundation, que reconhece que os pais fundadores reunidos em 1791 para adotar a Carta de Direitos poderiam ter se surpreendido com a tecnologia da NSA, mas sem dúvida estavam familiarizados com “a vigilância ao por atacado que o governo é acusado de fazer hoje”, na forma do “abuso expansivo do poder pelos reis Jorge II e III que invadiram a privacidade de comunicações dos colonos”.
Com a Quarta Emenda, os fundadores tomaram medidas enérgicas para acabar com a capacidade do governo de realizar uma vigilância maior de estadunidenses comuns. “A pergunta para nós hoje é se vamos renunciar a esse ideal americano, ou se vamos tomar as medidas necessárias para voltar a ele”.
Em um artigo publicado em junho de 2013 pelo Global Research, James Petras observou que a NSA espia milhões de cidadãos dos Estados Unidos, mas no exterior vai “muito além de meras ‘violações da privacidade’, como colocavam muitos especialistas legais”. Petras escreveu: “A pergunta fundamental é: que represálias e sanções derivam da ‘informação’ que se recolhe, classifica e converte em operacional nestas redes massivas de espionagem doméstica”? Devemos compreender – afirmou – as consequências políticas e econômicas da NSA como ‘estado espião’. “Quanto maior é a polícia secreta, maiores são suas operações. Quanto mais regressiva for a política econômica doméstica, maior é o medo e o ódio da elite política”.

Programa de Pesquisa em Inteligência Artificial do Facebook

Com um programa secreto de pesquisa, o monstro das redes sociais Facebook experimenta um programa de “aprendizagem profunda” [deep learning] de tecnologia de inteligência artificial com a intenção de identificar melhor a informação segura sobre seus usuários. O projeto de “aprendizagem profunda” da Artificial Intelligence (AI), supervisionado por um grupo de oito membros chamado “Equipe AI”, pretende concentrar-se na análise de dados das contas existentes para prever futuras atividades na rede dos usuários.
Segundo a MIT Technology Review (20-09-2013), “a ‘aprendizagem profunda’ mostrou o potencial de como a base do software poderia trabalhar as emoções ou os acontecimentos descritos no texto, embora não estejam identificados explicitamente, reconhecer objetos em fotos e fazer previsões sofisticadas sobre prováveis comportamentos futuros das pessoas”.
O Google já fez experiências bem sucedidas utilizando tecnologia de “aprendizagem profunda” para desenvolver um software capaz de reconhecer imagens específicas nos vídeos do YouTube. Quando atingir seu pleno funcionamento, é provável que a nova tecnologia permita ao Facebook analisar e classificar diversos interesses pessoais e afinidades sociais, não apenas a partir dos textos que qualquer um escrever no Facebook, mas também a partir das fotos postadas pelos usuários.
Potencialmente, o Facebook pode promover sua tecnologia de “aprendizagem profunda” para que seus anunciantes possam produzir publicidade e criar promoções para futuros usuários, que os críticos reconhecem como um aumento cada vez mais pesado dos problemas relacionados à privacidade. Como observa Madison Ruppert em End the Lie(21-09-2013), o Facebook já tem em andamento uma série de projetos de tecnologia, que inclui uma enorme base de dados de reconhecimento facial, e foi citado recentemente a um tribunal de violações de privacidade, além de ter um claro papel a serviço da espionagem da NSA, sobretudo na Europa. O ministro do Interior alemão, Hans-Peter Friedrich, no começo de julho de 2013 aconselhou que aqueles que têm medo de serem objeto de vigilância da NSAevitem os serviços oferecidos por gigantes estadunidenses da internet como o Google, Facebook, Microsoft e qualquer outro que tenha seus servidores nos Estados Unidos.

Fontes de História de vigilância massiva:

— Aryeh Neier, “Spying on Americans: A Very Old Story,” New York Review of Books, June 18, 2013,http://www.nybooks.com/blogs/nyrblog/2013/jun/18/spying-americans-very-old-story/. 
— David Snyder, “The NSA’s ‘General Warrants’: How the Founding Fathers Fought an 18th Century Version of the President’s Illegal Domestic Spying,” Electronic Frontier Foundation, no date,
https://s.eff.org/files/filenode/att/generalwarrantsmemo.pdf. 
— James Petras, “The Deeper Meaning of Mass Spying in America: Political and Economic Consequences of ‘The Spy State’”, Global Research, June 16, 2013, 
http://www.globalresearch.ca/the-deeper-meaning-of-mass-spying-in-america-political-and-economic-consequences-of-the-spy-state/5339336. 
— “We’ve Know for Some Time that the NSA is Spying on Congress.” Washington’s Blog, January 8, 2014,
http://www.washingtonsblog.com/2014/01/spying-congress.html.
— “500 Years of History Shows that Mass Spying is Always Aimed at Crushing Dissent.” Washington’s Blog, January 9, 2014, 
http://www.washingtonsblog.com/2014/01/government-spying-citizens-always-focuses-crushing-dissent-keeping-us-safe.html.
— Projeto Censurado: 
http://www.projectcensored.org/us-mass-surveillance-historic-perspective/ 
Student Researcher: Rubi Vazquez (Sonoma State University) 
Faculty Evaluator: Peter Phillips (Sonoma State University)
Fontes Facebook:
— “Facebook Has Set Up a New Artificial Intelligence Group” InfoSecurity, September 23, 2013,http://www.infosecurity-magazine.com/view/34651/facebook-has-set-up-a-new-artificial-intelligence-group/.
— Tom Simonite, “Facebook Launches Advanced AI Effort to Find Meaning in Your Posts,” MIT Technology Review, September 20, 2013, http://www.technologyreview.com/news/519411/facebook-launches-advanced-ai-effort-to-find-meaning-in-your-posts/. 
— Madison Ruppert, “Facebook Wants to Use Artificial Intelligence to Better Understand What You Post, Predict Online Actions” End the Lie, September 21, 2013, http://endthelie.com/2013/09/21/facebook-wants-to-use-artificial-intelligence-to-better-understand-what-you-post-predict-online-actions/#axzz2l2dn664d.
— End de Lie 03-07-2014: http://endthelie.com/2013/07/03/german-interior-minister-dont-use-google-and-facebook-if-you-fear-nsa-surveillance/#FgLWjVDpbv63vFhk.99 
— Projeto Censurado: http: // www.projectcensored.org/facebooks-artificial-intelligence-research-program/ 
Student Researcher: Andrevious Shaw (Florida Atlantic University) 
Faculty Evaluator: James F. Tracy (Florida

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Livro de economia lidera lista de mais vendidos da Amazon


Desigualdade social em quase 700 páginas de um livro. O assunto, a princípio, pode não atrair a curiosidade de tantas pessoas, mas “Capital In The Twenty-First Century” (O Capital no Século XXI, em tradução livre), do economista francês Thomas Piketty, alcançou nesta semana o primeiro lugar na lista dos livros mais vendidos da Amazon, superando títulos como “Frozen” e “Game of Thrones”. Logo após o lançamento da edição em inglês, no mês passado, o livro já aparecia entre os entre os 100 mais vendidos da varejista on-line. Além disso, foi elogiado por críticos e economistas.
A reportagem é de Andrea Freitas, publicada pelo jornal O Globo, 27-04-2014.
Piketty, de 42 anos, é professor na Escola de Economia de Paris e seu livro trata da história e do futuro da desigualdade, a concentração de riqueza e as perspectivas de crescimento econômico. A tese central do livro — cujo título é uma alusão a “O Capital”, de Karl Marx — é que a desigualdade não é um acidente, mas uma característica do capitalismo e os excessos só podem ser alterados por meio da intervenção estatal. O trabalho argumenta que, a não ser que o capitalismo seja reformado, a ordem democrática será ameaçada.
O autor considera que o mundo está voltando a um “capitalismo patrimonial”, no qual boa parte da economia é dominada por uma riqueza herdada, que está crescendo, criando uma oligarquia. Como solução para uma desigualdade extrema, Piketty propõe uma taxação anual em todo globo sobre riqueza de até 2%, combinada com um imposto de renda progressivo que chega a 80%.
De acordo com o economista, o crescimento econômico moderno e a difusão do conhecimento permitiu evitar desigualdades em escala apocalíptica como previsto por Marx. O francês alerta, no entanto, que as estruturas profundas do capital não foram modificadas e a desigualdade não foi tão combatida como se imaginava nas otimistas décadas pós-Segunda Guerra Mundial (1939-1945). E o principal fator de desigualdade — a tendência de os lucros sobre o capital excederem a taxa de crescimento econômico — hoje ameaça gerar um abismo tão extremo que é capaz de gerar descontentamento e minar os valores democráticos. Para o economista, a ação política restringiu desigualdades perigosas no passado e pode fazê-lo novamente.
Nova agenda
“Respostas satisfatórias têm sido difíceis de serem encontradas por falta de informação adequada e de teorias claras”, afirma a apresentação do livro no site da Amazon. Reunidos ao longo de 15 anos, o autor analisa dados fiscais, desde o século XVIII, sobre 20 países, entre eles Estados Unidos, França, Alemanha, Reino Unido e Japão, como forma de desvendar os principais padrões econômicos e sociais. “Suas descobertas vão transformar o debate e estabelecer a agenda para a próxima geração de pensamento sobre riqueza e desigualdade”, afirma a Amazon.
E a obra de 685 páginas tem sido muito elogiada. “A principal razão é porque ele prova agora, de forma irrefutável e clara, o que todos nós, de alguma forma, já suspeitávamos: os ricos estão ficando mais ricos em comparação com os demais e sua riqueza não está indo para baixo, na verdade está indo para cima”, escreveu Rana Foroohar, da “Time”.
O economista vencedor Nobel de Economia de 2008, Paul Krugman, escreveu no “New York Times” que o trabalho de Picketty é o mais importante do ano em economia e talvez também seja o melhor da década. “Piketty, sem dúvida o maior especialista do mundo em renda e desigualdade de renda, faz mais do que documentar a crescente concentração nas mãos de uma pequena elite econômica. Ele também apresenta um argumento poderoso de que estamos no caminho de volta ao ‘capitalismo patrimonial’, no qual os altos comandos da economia não são dominados apenas pela riqueza, mas também pela riqueza herdada, na qual nascimento importa mais do que esforço e talento”, escreveu o americano.
Trabalho duro
Para a revista britânica “The Economist”, o livro tem como objetivo revolucionar a forma como as pessoas pensam sobre a história econômica dos últimos dois séculos e pode muito bem conseguir isso. “É, antes de tudo, um olhar muito detalhado de 200 anos de dados sobre a distribuição de renda e riqueza em todo o mundo desenvolvido”.
Jordan Weissman, da “Slate”, compara Piketty a um astro do rock e destaca o interesse que o economista francês despertou também em Washington: “Passando recentemente pela capital federal, ele teve um breve encontro com o secretário do Tesouro Jack Lew, o Conselho de Assessores Econômicos e o FMI”.
Em entrevista ao jornal francês “Le Monde”, Piketty reconhece que o sucesso superou o que ele esperava, mas afirma que o livro é resultado de muito tempo de trabalho sobre desigualdade. “A novidade é que é um trabalho mais abrangente, por isso é normal que ele chame mais atenção. Estou surpreso com o sucesso, mas ao mesmo tempo o objetivo era chegar a tantas pessoas.”
Na Amazon.com, a versão em capa dura sai a US$ 24,59, sem custos de envio. Na versão brasileira do site, a edição para Kindle pode ser obtida on-line a R$ 49,19.



Piketty, um problema para a direita

"Todo mundo certamente discorda de 10% a 20% da argumentação de Piketty e todo mundo têm dúvidas sobre talvez outros 10% a 20%. Mas, em ambos os casos, cada leitor tem seus próprios 10% a 20% pessoais. Em outras palavras, há um consenso majoritário de que cada parte do livro é, de modo geral, correta, o que significa haver um quase consenso de que a argumentação geral do livro é, grosso modo, correta", escreve J. Bradford DeLong, ex-vice-secretário assistente do Tesouro dos EUA, professor de Economia na Universidade da Califórnia em Berkeley e pesquisador associado ao Birô Nacional de Pesquisa Econômica, em artigo publicado pelo jornal Valor, 02-05-2014.
Eis o artigo.
No periódico online "The Baffler"Kathleen Geier tentou recentemente fazer um apanhado geral da crítica conservadora ao novo livro "Capital in the Twenty-First Century", deThomas Piketty. O espantoso, para mim, é como revela-se fraca a abordagem da direita contra os argumentos de Piketty.
A argumentação do autor é detalhada e complicada. Mas cinco pontos parecem particularmente relevantes:
1- a riqueza de uma sociedade em relação à sua renda anual cresce (ou diminui) até um nível igual à sua taxa de poupança líquida dividida por sua taxa de crescimento.
2- a passagem do tempo e o acaso resultam inevitavelmente em concentração da riqueza nas mãos de um grupo relativamente pequeno - podemos designá-los como "os ricos".
3 - a taxa de crescimento da economia diminui enquanto os frutos da industrialização mais ao alcance da mão são colhidos; ao mesmo tempo, a taxa de poupança líquida cresce devido a uma reversão da tributação progressiva, ao fim da caótica destruição na primeira metade doSéculo XX e à ausência de razões sociológicas convincentes para que os ricos gastem os suas rendas ou sua riqueza, em vez de poupá-la.
4- uma sociedade em que os ricos têm um grau elevado de influência econômica, política e sociocultural é uma sociedade, sob diversos aspectos, desagradável.
5 - uma sociedade onde a relação riqueza sobre renda anual é um múltiplo muito grande da taxa de crescimento é um ambiente onde o controle sobre a riqueza passa a herdeiros - o que Geier apelidou de "herdeirocracia"; esse tipo de sociedade é sob muitos aspectos ainda mais desagradável do que uma dominada por uma elite rica meritocrática e empreendedora.
Bem, mesmo em forma sintética, esse é um argumento complicado. Por isso, seria de esperar que provocasse o surgimento de um grande volume de material com críticas substanciais. E, de fato, Matt Rognlie atacou o ponto 4, argumentando que o retorno sobre a riqueza varia inversamente em relação à riqueza sobre a renda anual tão fortemente que, paradoxalmente, quanto mais riqueza detêm os ricos, menor sua participação na renda total. Assim, a influência econômica, política e sociocultural dos ricos é também mais fraca.
Tyler Cowen, da George Mason University, em linha com o pensamento de Friedrich von Hayek, argumentou contra os pontos 4 e 5. Os "ricos ociosos", de acordo com Cowen, são um recurso cultural valioso precisamente porque constituem uma aristocracia ociosa. É apenas porque eles não estão vinculados à roda cármica de trabalhar para ganhar seu sustento, comprar suas coisas e gastar para satisfazer suas necessidades e conveniências que eles podem assumir a visão dilatada e/ou heterodoxa sobre as coisas e criar, por exemplo, grande arte.
Outros, ainda, agitavam as mãos e torciam por uma nova revolução industrial que venha a criar mais frutos fáceis de colher e seja acompanhada por uma renovada onda de destruição criativa. Se isso acontecer, será possível mais mobilidade ascendente, negando, assim, os pontos 2 e 3.
Porém o mais extraordinário na crítica conservadora ao livro de Thomas Piketty é quão pouco ela desenvolveu algum desses argumentos e quanto é dedicada a uma furiosa denúncia da capacidade analítica, da motivação e até mesmo da nacionalidade de seu autor.
Clive Crook, por exemplo, argumenta que "os limites dos dados que [ Piketty ] apresenta e a grandiosidade das conclusões que ele tira... beiram a esquizofrenia", produzindo conclusões que são "desprovidas de sustentação ou contraditadas por [seus] próprios dados e análises". E é o "horror de Piketty diante do aumento da desigualdade", especula Crook, que induziu a erro.
James Pethokoukis, por seu turno, julga que a obra de Piketty pode ser reduzida a um tweet: "Karl Marx não estava errado, apenas prematuro. É isso aí. Desculpe, capitalismo. #desigualdadeprasempre".
E há então a pueril acusação de Allan Meltzer, de excessiva "francesidade". Piketty, fique sabendo o leitor, foi colega de seu compatriota francês Emmanuel Saez "no MIT, onde...Olivier Blanchard [do Fundo Monetário Internacional], foi professor. Também este é francês. A França, há muitos anos, implementa políticas destrutivas de redistribuição de renda".
Combinando essas vertentes da crítica conservadora, o verdadeiro problema do livro de Piketty fica claro: o seu autor é um comunista estrangeiro mentalmente instável. Essa é uma velha tática usada pela direita americana, que destruiu milhares de vidas e carreiras durante a era McCarthy. Mas a caracterização de ideias como sendo de alguma forma antiamericanas tem sido sempre um epíteto, e não um argumento.
Por outro lado, nas comunidades americanas de centro-esquerda, como Berkeley, Califórnia, onde moro e trabalho, o livro de Piketty foi recebido com louvor beirando a reverência. Estamos impressionados com o volume de trabalho que ele e seus colegas aplicaram na coleta, compilação e limpeza dos dados; a inteligência e a habilidade com que ele construiu e apresentou seus argumentos; e quanto sangue Arthur Goldhammer suou no trabalho de tradução.
Todo mundo certamente discorda de 10% a 20% da argumentação de Piketty e todo mundo têm dúvidas sobre talvez outros 10% a 20%. Mas, em ambos os casos, cada leitor tem seus próprios 10% a 20% pessoais. Em outras palavras, há um consenso majoritário de que cada parte do livro é, de modo geral, correta, o que significa haver um quase consenso de que a argumentação geral do livro é, grosso modo, correta.
A menos que os críticos de direita contrários a Piketty melhorem o nível de sua crítica e realmente apresentem alguns pontos válidos, essa será a avaliação cristalizada sobre o livro de Piketty. Nenhuma quantidade de "anticomunismo" ou "antifrancesismo" fará diferença.



“O Capital” de Thomas Piketty: tudo o que você 

precisa saber sobre o surpreendente best-seller

Que o capitalismo é injusto já foi dito antes. Mas é a forma como Thomas Piketty o diz – sutilmente mas com uma lógica implacável – o que levou os economistas da direita a um frenezi, tanto aqui [na Inglaterra] quanto nos Estados Unidos.
O comentário é de Paul Mason, editor cultural e digital do Channel 4 News, em artigo publicado pelo The Guardian, 28-04-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.
O seu livro – intitulado “Capital in the Twenty-First Century” [O capital no século XXI] – disparou na lista entre os mais vendidos no site Amazon. Tê-lo consigo, em alguns ambientes de Manhattan, se tornou a mais nova ferramenta para se conectar socialmente com jovens progressistas. Ao mesmo tempo, seu autor vem sendo condenado como neomarxista por comentaristas de direita. Afinal, qual a causa de tudo isso?
argumento de Piketty é que, numa economia onde a taxa de rendimento sobre o capital supera a taxa de crescimento, a riqueza herdada sempre crescerá mais rapidamente do que a riqueza conquistada. Assim, o fato de que filhos ricos podem passar de um ano sabático sem rumo a um emprego no banco, na rede de televisão, etc., do pai – enquanto os filhos pobres continuam transpirando dentro de seus uniformes – não é acidental: é o sistema funcionando normalmente.
Se se tem um crescimento lento junto de rendimentos financeiros melhores, então a riqueza herdada irá, na média, “superar a riqueza acumulada de uma vida toda de trabalho por uma ampla margem”, diz Piketty. A riqueza irá se concentrar em níveis incompatíveis com a democracia, irá abandonar a justiça social. Em suma, o capitalismo cria automaticamente níveis de desigualdade que são insustentáveis. A crescente riqueza daquele 1% não é um episódio isolado nem mera retórica.
Para entender por que o sistema dominante acha esta proposição um tanto desagradável, é preciso compreender que se pensava ser o assunto “distribuição” – termo bonito para se referir à desigualdade – um tema acabado. Simon Kuznets, o bielorrusso emigrado que se tornou uma figura importante da economia americana, fez uso das informações disponíveis à época para mostrar que, embora as sociedades se tornassem mais desiguais nos primeiros estágios da industrialização, esta desigualdade diminuiria na medida em que elas alcançassem a maturidade. Tal “curva de Kuznets” fora aceita pela maioria dos profissionais de economia até Piketty e seus colaboradores produzirem as provas para mostrar que isso era falso.
Na verdade, a curva vai exatamente na direção oposta: o capitalismo começou desigual, achatou a desigualdade durante grande parte do século XX, mas atualmente está voltando em direção aos níveis dickensianos de desigualdade no mundo.
Piketty aceita a ideia de que os frutos da maturidade econômica – aptidões, formação e educação da força de trabalho – promovem, de fato, uma maior igualdade. Mas eles podem ser neutralizados por uma tendência mais fundamental no sentido da desigualdade, que é desencadeada onde quer que a demografia, a baixa taxação ou a fraca organização trabalhista permita. Grande parte das 700 páginas do livro são gastas mobilizando as provas de que o capitalismo do século XXI percorre um trajeto só de ida em direção à desigualdade – a menos que façamos alguma coisa.
Se Piketty estiver certo, haverá enormes implicações políticas, e a beleza do livro é que ele nunca se abstém de apontá-las. O pedido feito por Piketty de um imposto global “confiscatório” sobre a riqueza herdada faz outros economistas, em princípio radicais, parecerem familiares. Ele propõe um imposto de 80% sobre os rendimentos acima de 500 mil dólares ao ano nos EUA, assegurando a seus leitores que não haveria nem uma fuga de grandes executivos para o Canadá tampouco uma desaceleração do crescimento, uma vez que o resultado seria simplesmente suprimir tais rendimentos.
Embora supere a agenda macroeconômica, os golpes colaterais do livro contra a moda microeconômica, muitas vezes trazidas em notas de rodapé, parecem uma piada interna contra a geração para a qual todos os problemas pareciam resolvidos, com exceção dos preços da cocaína vendida nas ruas de Georgetown.
Além disso, o livro hipnotizou os profissionais da economia por causa da forma como Pikettycria teoricamente o seu próprio mundo. Ele define as duas categorias básicas, riqueza e renda, de forma ampla e assertiva como ninguém antes tinha se preocupado em fazer. Os termos e as explicações da obra são extremamente simples; com uma infinidade de dados históricos, Piketty reduz a história do capitalismo a um claro arco narrativo. Para se desafiar a sua argumentação, é preciso rejeitar suas premissas e não sua elaboração.
Desde a primeira página ele, ilustra com observações viscerais, o mundo injusto no qual vivemos: começa com o massacre de Marikana e não esmorece. Ele apresenta não só os índices de juros do século XVIII como provas, mas também as obras de Jane Austen eHonoré de Balzac. Usa estes dois escritores para ilustrar como, no início do século XIX, era lógico desdenhar o trabalho a favor do casamento pela riqueza. Isso se tornou tão presente que fortaleceu o mito central do capitalismo e sua justificativa moral: aquela de que a riqueza é gerada pelo esforço, pela criatividade, pelo trabalho, pelo investimento correto, pelo risco assumido, etc.
Para Piketty, o período de meados do século XX marcado pelo aumento da igualdade foi um pontinho produzido pelas exigências da guerra, do poder do trabalho organizado, da necessidade de uma tributação alta, por fatores demográficos e pela inovação técnica.
Dito de forma direta, se o crescimento for alto e o rendimento do capital for suprimido, poder-se-á ter um capitalismo mais igualitário. Mas, diz Piketty, uma repetição da era keynesiana é improvável: o trabalho está enfraquecido, a inovação tecnológica está demasiado lenta, o poder global do capital está demasiado forte. Além disso, a legitimidade deste sistema desigual é alta, isso porque ele encontrou formas de estender a riqueza à classe empresarial de uma forma que não se conseguiu fazer no século XIX.
Se o autor estiver certo, as implicações para o capitalismo são bastante negativas: estamos diante de um capitalismo com baixo crescimento, combinado com altos níveis de desigualdade e baixos níveis de mobilidade social. Se o sujeito não nascer na riqueza, será bastante difícil enriquecer.
Seria Piketty o novo Karl Marx? Qualquer um que tenha lido este último saberá que ele não o é. A crítica de Marx ao capitalismo não era sobre a distribuição, mas sobre a produção: para Marx não seria o aumento da desigualdade, mas sim uma ruptura no mecanismo de lucro o que levaria o sistema a seu fim.
Onde Marx via relações sociais – entre trabalhadores e gerentes, proprietários de fábricas e a aristocracia rural –, Piketty vê apenas categorias sociais: riqueza e renda. A economia marxista vive num mundo onde as tendências interiores do capitalismo são contrariadas por sua experiência de superfície. O mundo de Piketty é feito somente de dados históricos concretos. Então, as acusações de um marxismo suave estão completamente equivocadas.
Mais precisamente, Piketty colocou uma bomba não detonada dentro da economia clássica, dominante. Se a causa subjacente da catástrofe bancária de 2008 foi a queda na renda ao lado de uma crescente riqueza financeira, então – diz Piketty – estas coisas não foram por acaso: não foram produtos de uma regulação frouxa ou de uma ganância simples. A crise é o produto do sistema funcionando normalmente, e devemos esperar mais.
Um dos capítulos mais interessantes é o debate proposto por Piketty do aumento quase universal daquilo que ele chama de “Estado social”. O crescimento contínuo na proporção da renda nacional consumida pelo Estado, gasto nos serviços universais, em pensões e benefícios, sustenta o autor, é uma característica irreversível do capitalismo moderno. Ele observa que tal distribuição se tornou uma questão de “direito” às coisas – de saúde e pensões – em lugar de simplesmente ser um problema dos índices de tributação. A sua solução é uma taxa específica, progressiva, sobre a riqueza privada: um imposto excepcional sobre o capital, possivelmente combinado com o utilização ostensiva da inflação.
A lógica política para a esquerda está clara. Durante grande parte do século XX a redistribuição fora feita através de imposto sobre os rendimentos. No século XXI, qualquer partido que queira redistribuir precisará confiscar a riqueza, e não somente a renda.
O poder da obra de Piketty é que ela também desafia a narrativa de centro-esquerda da globalização, que acreditava que a requalificação da força de trabalho, combinada com uma redistribuição amena, iria promover a justiça social. Isso, demonstra Piketty, é um engano. Tudo o que a social-democracia e o liberalismo podem produzir, com suas atuais políticas, é o iate do oligarca coexistindo com o banco de alimentos para todo o sempre.
A obra de Piketty“Capital in the Twenty-First Century” (diferentemente de “O Capital”, de Marx) contém soluções no próprio terreno do capitalismo: os 15% de impostos sobre o capital, os 80% de impostos sobre os altos rendimentos, uma transparência obrigatória em todas as transações bancárias, uma utilização ostensiva da inflação para a redistribuição da riqueza. Ele considera algumas destas soluções “utópicas”, e está certo nisso. É mais fácil imaginar um colapso do capitalismo do que uma elite consentir com estas ideias.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Isso sim que é ser rico. Artigo de Paul Krugman


"A próxima vez que ouvirem alguém fazer um discurso sobre como é cruel perseguir os ricos, pensem nos tipos de fundos de compensação e se perguntem se realmente seria tão terrível que pagassem mais impostos", escreve Paul Krugman, professor de Economia de Princeton e prêmio Nobel de 2008, em artigo publicado pelo jornal El País10-05-2014.

Eis o artigo.

A mais recente “lista dos mais ricos” do Institutional Investor, uma compilação dos 25 gestores de fundos de cobertura melhor remunerados, foi publicada na revista Alpha; e esses caras ganham um monte de dinheiro. Surpresa!
Mas, antes de descartar o estudo por não apresentar nada de novo, pensemos qual é o significado destes 25 homens ganharem (sim, todos são homens) um total de 21 bilhões de dólares (46,6 bilhões de reais) em 2013. Especificamente, consideremos a maneira em que sua boa fortuna desmonta vários mitos populares sobre a desigualdade de renda nos Estados Unidos.
Em primeiro lugar, a desigualdade atual não tem nada a ver com os graduados. Tem a ver com os oligarcas. Aqueles que fazem apologia da desigualdade crescente quase sempre tentam disfarçar as enormes rendas dos verdadeiramente ricos misturando-os com os meramente acomodados. Em vez de falar do 1% ou do 0,1% mais endinheirados, falam do aumento da renda dos diplomados, ou talvez dos 5% com rendimentos mais elevados. O objetivo dessa distorção é suavizar a imagem para que pareça que estamos falando de profissionais altamente qualificados que saem na dianteira graças à formação e ao trabalho duro.
Mas muitos norte-americanos têm uma boa formação e trabalham duro. Por exemplo, os professores. No entanto, não ganham uma fortuna. No ano passado, esses 25 gestores de fundos de compensação ganharam mais do que o dobro de todos os professores de educação infantil dos Estados Unidos juntos. E não, nem sempre foi assim: a enorme distância que separa agora a classe média alta dos verdadeiramente ricos não apareceu até a era Reagan.
Em segundo lugar, não liguem para a retórica sobre os “criadores de emprego” e tudo isso. Os conservadores querem fazer vocês acreditarem que os grandes salários dos Estados Unidos moderno vai para os inovadores e os empreendedores que criam empresas e fazem a tecnologia avançar. Mas isso não é o que os gestores de fundos de compensação fazem para ganhar a vida; o negócio deles é a especulação financeira, o que John Maynard Keynes definiu como “prever o que a opinião média espera que seja a opinião média”. Ou, já que grande parte das suas receitas vem das comissões, na verdade o seu negócio é convencer os outros de que podem prever a opinião média sobre a opinião média.
Houve um tempo em que alguém podia argumentar, sem rir, que todos estes acontecimentos eram produtivos, e que, de fato, a elite financeira oferecia à sociedade um serviço de acordo com a remuneração recebida. Mas, a esta altura, as evidências indicam que os fundos de compensação são um mau negócio para qualquer pessoa, exceto para os seus administradores; não oferecem um rendimento alto o suficiente para justificar essas comissões enormes e são uma importante fonte de instabilidade econômica.
Em linhas gerais, continuamos vivendo à sombra de uma crise provocada por um setor financeiro sem controle. A catástrofe total foi evitada quando os bancos foram salvos à custa dos contribuintes, mas ainda estamos longe de ter recuperado os milhões de postos de trabalho perdidos e bilhões de prejuízos econômicos. Com esse pano de fundo, será que estão mesmo dispostos a afirmar que aqueles que mais ganham dinheiro nos Estados Unidos – que são basicamente diretores financeiros ou executivos de grandes corporações – são heróis econômicos?
Finalmente, uma análise detalhada da lista dos ricos apoia a tese que Thomas Piketty tornou famosa em seu livro Le Capital au XXIe siècle [O capital no século XXI], ou seja, que estamos nos movendo em direção a uma sociedade dominada pela riqueza, em grande parte herdada, e não pelo trabalho.
À primeira vista, pode ser que isso não seja tão óbvio. No final, aqueles que integram a lista dos ricos são homens autofabricados. Mas na sua grande maioria fizeram a si mesmos há muito tempo. Como observado por Matt Levine, da Bloomberg View, na atualidade, muitos dos rendimentos dos executivos financeiros seniores não vêm do investimento do dinheiro de outros, mas dos rendimentos obtidos do dinheiro que eles mesmos acumularam (ou seja, a razão pela qual ganham tanto é porque eles já são muito ricos).
E isso é, se pararem para pensar, uma consequência inevitável. Com o tempo, a desigualdade de renda extrema leva a uma desigualdade de riqueza extrema; de fato, a porcentagem de riqueza dos 0,1% daqueles que mais ganham nos EUA voltou aos níveis da era dourada do fim do século XIX. Isso significa que os altos rendimentos proveem cada vez mais das rendas de investimento, e não dos salários. E é apenas uma questão de tempo que as heranças se tornarão a maior fonte de grande riqueza.
Mas por que tudo isso é importante? Essencialmente, por causa dos impostos. Os Estados Unidos têm uma longa tradição de cobrar impostos elevados sobre os altos rendimentos e grandes fortunas com a ideia de limitar a concentração do poder econômico e, além disso, arrecadar dinheiro. Hoje em dia, no entanto, a mera insinuação de que essa tradição seja recuperada esbarra em afirmações austeras de que taxar os ricos é destrutivo e imoral (destrutivo porque desencoraja os criadores de emprego a se dedicarem aos seus negócios e imoral porque as pessoas têm o direito de ficarem com o que ganham).
Porém, essas afirmações se apoiam basicamente em mitos relacionados àqueles que são, na realidade, os ricos e como acumularam as suas fortunas. A próxima vez que ouvirem alguém fazer um discurso sobre como é cruel perseguir os ricos, pensem nos tipos de fundos de compensação e se perguntem se realmente seria tão terrível que pagassem mais impostos.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Internet, poder e democracia


“O que não estão tão claro é se o resultado de alguma maneira contribui para o interesse público mais geral, ou promove a internet para o bem comum, ou qualquer coisa que vá além de um conjunto de regras e práticas concebidas para promover os interesses e os benefícios de quem já goza dos maiores rendimentos graças ao seu atual ‘interesse’ na internet. O que parece claro, entretanto, é que o modelo MS que estão apresentando é de fato a transformação do modelo econômico neoliberal, que provocou graves estragos e tragédias humanas em todo o mundo, em uma nova forma de governabilidade ‘pós-democrática’”.
A análise é de Michael Gustein, em artigo publicado no sítio da Alainet, 17-04-2014. Michael Gustein, canadense, é diretor-executivo do Centre for Community Informatics Research, Development and Training. A tradução é de André Langer.
Eis o artigo.
Um dos recentes fenômenos que chama a atenção no âmbito da internet, a partir da perspectiva da sociedade civil, é o repentino surgimento do “modelo multistakeholderism” – MS – (modelo de múltiplas partes interessadas ou modelo multissetorial) e sua inserção, nos últimos dois ou três anos [1], nos debates sobre a governança da internet. O termo, evidentemente, é anterior e inclusive foi utilizado em relação à internet para descrever (de forma mais ou menos adequada) os processos de tomada de decisões de vários dos seus órgãos técnicos (IETF, IAB, ICANN). [2]
Associado a este fato está o novo e insólito esforço do governo dos Estados Unidos – em todas as frentes e junto com seus aliados e acólitos empresariais, técnicos e segmentos da sociedade civil que participam das discussões da governança da internet –, para estender o uso das versões do modelo MS. Ou seja, a partir de quem em âmbitos locais e técnicos circunscritos obteve um grau considerável de sucesso, aponta-se que se converta na base fundamental, e praticamente única, sobre a qual se deve canalizar o tratamento deste tipo de debate sobre a governança da internet (de acordo com o que estabelece o pronunciamento do governo dos Estados Unidos sobre a transferência da função da gestão do sistema de nomes de domínio – DNS). [3]
Cabe assinalar também que o termo “multissetorial” parece ter substituído a “liberdade na internet”, como o meme [4] mobilizador de preferência em relação à internet. (Haja visto que a “liberdade na internet” viu-se desacreditada após as revelações de Snowden [5], ao ser associada à “liberdade” do governo dos Estados Unidos de “vigiar”, “sabotar” e “subverter” pela internet.)
Em meio a estes acontecimentos produziu-se um deslocamento sutil na apresentação do modelo multissetorial: se antes era feito como marco para os processos de consulta da governança da internet, agora aparece como modelo necessário para a tomada de decisões para a governança da internet. Por outro lado, dá-se por entendido que esta tomada de decisões teria lugar não apenas dentro das áreas relativamente circunscritas da gestão técnica das funções da internet, mas também nas áreas mais amplas do impacto da internet e das políticas públicas associadas, onde a importância da internet é ao mesmo tempo mundial e está em rápida expansão.
O mais chamativo é que o multissetorialismo é apresentado como o modelo que substituiria os processos “antiquados” da tomada de decisões democráticas nestas esferas; o que, segundo alguns de seus defensores, proporcionaria um modelo “pós-democrático melhorado” para a definição de políticas mundiais em matéria de internet.
O que é exatamente o “multistakeholderism”?
Isto não está completamente claro e ninguém ainda (muito menos o Departamento de Estado dos Estados Unidos, que invoca o modelo 12 vezes em sua apresentação de uma página para a reunião NetMundial no Brasil [6] proporcionou algo mais que referências em manchetes ao “modelo MS” ou exemplos do que poderia ser.
Seja como for, um elemento chave é que as políticas (e outros aspectos) serão decididas por e com a inclusão de todas as “partes interessadas”. Elas, evidentemente, incluirão, por exemplo, as principais corporações empresariais da internet que poderão assim promover seus “interesses” e formular as políticas da internet através de algum processo de consenso onde todos os participantes estarão em “igualdade” de condições, e onde as normas que regem, por exemplo, os procedimentos operacionais, conflitos de interesse, os modos e estruturas de governança interna, regras de participação, etc. etc. parecem inventar-se ao longo da caminhada.
É evidente que as grandes corporações da internet, o governo dos Estados Unidos e seus aliados nas comunidades técnicas e na sociedade civil estão muito entusiasmados; elaborar conjuntamente questões como os marcos relacionados com a internet, os princípios e normas (ou não) para a privacidade e a segurança, os impostos, os direitos autorais, etc., é bastante sedutor. O que não estão tão claro é se o resultado de alguma maneira contribui para o interesse público mais geral, ou promove a internet para o bem comum, ou qualquer coisa que vá além de um conjunto de regras e práticas concebidas para promover os interesses e os benefícios de quem já goza dos maiores rendimentos graças ao seu atual “interesse” na internet.
O que parece claro, entretanto, é que o modelo MS que estão apresentando é de fato a transformação do modelo econômico neoliberal, que provocou graves estragos e tragédias humanas em todo o mundo, em uma nova forma de governabilidade “pós-democrática”. [Esta conexão entre o modelo econômico neoliberal e a governança de múltipas partes interessadas apresenta-se mais claramente em um documento publicado pelo Aspen Institute, com numerosos coautores e colaboradores, estrelas da internet: “Toward A Single Global Digital Economy” (Para uma economia global digital única) [7]. O documento defende, esboça e celebra o domínio dos Estados Unidos, das corporações estadunidenses e seus aliados da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico OCDE – sobre a economia da internet e proporciona um plano de ação para a implementação do modelo MS como a estrutura de governança de apoio.]
Assim, por exemplo, embora existam oportunidades claras e bem vistas para a participação das partes interessadas do setor privado, do setor técnico e de atores da sociedade civil nos fóruns sobre políticas da internet (o mercado) não há ninguém no processo (nenhuma “parte interessada”) com a tarefa de representar o “interesse público”. Portanto, ninguém tem a responsabilidade de assegurar que os processos de tomada de decisões sejam justos e não contaminados e que a gama de participantes seja o suficientemente includentes para garantir um resultado legítimo e socialmente equitativo. No modelo de múltiplas partes, como no modelo econômico neoliberal, também não existe um marco regulatório externo para proteger o interesse geral ou público no meio dos resultados derivados das interações entre os interesses setoriais particulares.
E o interesse público?
Enquanto em um processo democrático normal (ou um mercado não “liberalizado”) o marco e as expectativas de participação subjacentes seriam que os atores persigam o “interesse público” (com diferentes interpretações do que isso poderia significar, evidentemente) e que existiria algum tipo de contrato social básico para proporcionar uma “rede de segurança social” para todos os indivíduos e grupos, e em particular os menos capazes de defender seus próprios interesses, no modelo MS não há a promoção do interesse público. De alguma maneira o interesse público seria o resultado ou efeito colateral (mágico) dos processos de confluência (ou consenso) de cada parte individual agindo em busca de seu interesse particular. Os governos podem ou não ser uma parte (igual) interessada deste modelo, mas de todos os modos, a intenção geral é, na medida do possível, descartar por completo o governo (inclusive no seu papel de protetor dos direitos e fiador de processos e resultados equitativos).
Sem dúvida, isto representa uma “privatização” total da governança, quando, por exemplo, as grandes empresas da internet têm igualdade de direitos na determinação de assuntos de governança da internet em áreas como a regulação (quando tal coisa se permitir), junto com as outras partes interessadas. Neste modelo, não existe um espaço para a internet como um bem comum, nem como um espaço ou recurso disponível de forma igual para todos e todas como ferramenta para o melhoramento econômico e social geral (por exemplo, para os marginalizados, os pobres, a população dos países em desenvolvimento e inclusive aqueles que não são atualmente “usuários/as” da internet). As “partes interessadas” podem inventar e inclusive fazer cumprir as normas, e qualquer um que não é ou não pode ser uma “parte interessada” – bem, azar.
Da mesma forma, há uma recusa em aceitar inclusive a possibilidade de um marco regulatório para a internet (foi o argumento expresso com maior veemência no transcurso da campanha Liberdade na Internet), ou de admitir que a internet teria tal importância como plataforma fundamental para a ação humana no presente, que já não pode ser vista como um domínio de ação e controle unicamente privatizado.
Os efeitos danosos do neoliberalismo são muito bem conhecidos. Estes se tornaram evidentes através do seu impulso à privatização de serviços públicos como a educação e os cuidados da saúde nos países em desenvolvimento (e desenvolvidos), com os consequentes aumentos significativos na não escolarização e na deterioração da saúde entre a população pobre, marginalizada e rural; no enfraquecimento do contrato social e das redes de proteção social nos países desenvolvidos, com os aumentos associados da pobreza infantil, da falta de moradia e da fome; no “Consenso de Washington” e os regimes de austeridade impostos do exterior, dos quais muitos países em todo o mundo estão apenas agora se recuperando (e que o próprio Fundo Monetário Internacional– FMI – reconheceu como um grave erro e altamente destrutivo); nas ações do FMI e do Banco Mundial para insistir na privatização e na desregulação e assim dizimar numerosas empresas locais a favor das multinacionais; e em geral, ao dar o impulso (e modelo) ideológico para um ataque social e econômico significativo em nível mundial contra os setores empobrecidos e vulneráveis.
Este é o modo de governança que através do modelo MS (sua contrapartida na governança mundial da internet e além) está destinado a ser o modelo básico de governo para a internet, promovido – nada surpreendentemente – pelo setor empresarial e pelo governo dos Estados Unidos, mas também – e isso é assustador – por amplos elementos da sociedade civil, como também da comunidade técnica.
O verdadeiro significado e o objetivo final desta neoliberalização da governança não diz respeito, evidentemente, às questões técnicas circunscritas da governança da internet, mas antes a questões como a fiscalização do comércio habilitado pela internet e em última instância, a necessidade de compartilhar as rendas provenientes da atividade econômica relacionada com a internet, em um mundo onde a desigualdade de renda está crescendo a um ritmo sem precedentes na plataforma da internet e da digitalização global.
Em desigualdade de condições
O contexto atual, onde os gigantes mundiais da internet como o Google ou o Amazon têm total liberdade para transferir/alocar rendas e custos a qualquer lugar que escolherem dentro dos seus impérios multinacionais, com a finalidade de reduzir ao mínimo as cargas fiscais, está chegando rapidamente a um ponto crítico, no qual algum tipo de intervenção é provável. Em um horizonte mais distante, a importância da polarização de rendas em escala nacional e internacional – em grande parte veiculada de alguma maneira com a tecnologia digital e internet – necessitará em algum momento de intervenção e reequilíbrio, caso se queira evitar os protestos sociais.
Podemos supor que, em um regime de governança de múltiplas partes interessadas, os gigantes da internet como oGoogle ou o Amazon serão sócios (partes interessadas) iguais na determinação de assuntos de regulação da internet, impostos e a possível alocação/realocação de benefícios gerais, ou seja, aqueles aspectos que sejam de preocupação financeira direta para eles e seus acionistas/proprietários. E estas resoluções terão lugar em contextos políticos onde não houver defensores/partes interessadas evidentes que representem o interesse público geral global. Obviamente, não é coincidência que tal arranjo favoreça diretamente os Estados Unidos e outros países desenvolvidos interessados e os interesses das empresas dominantes da internet, isto é, aqueles que fazem lobbymais ativamente a favor do modelo de múltiplas partes interessadas.
Igualmente, está claro que os países em desenvolvimento estarão em clara desvantagem. Seus governos carecem dos conhecimentos e, muitas vezes, dos recursos para agir como partes interessadas eficazes nos processos deMS. Suas empresas nacionais de internet ou são subunidades das corporações globais ou são muito fracas para ser eficazes neste tipo de ambiente; mais, muitas das suas organizações da sociedade civil foram cooptadas por meio de dádivas, como viagens internacionais, a bajulação da “participação” em discussões com estrelas da internet, juntamente com as migalhas dos benefícios organizacionais locais. Os cidadãos destes países (junto com as populações despossuídas nos países desenvolvidos) estarão completamente à mercê das elites dos países desenvolvidos e aquelas desses pequenos segmentos de seus próprios países que já alcançaram o sucesso no âmbito mundial da internet, podendo beneficiar-se enormemente em termos de prestígio e de outras maneiras, mediante o domínio sobre os processos de governança de múltiplas partes interessadas.
Notas:
[2] IETF: Grupo de trabalho de engenharia em Internet. IAB: Conselho de Arquitetura da Internet. ICANN: Corporação da Internet para Atribuição de Nomes e Números. (Todas siglas em inglês.)
[4] NdE: Um meme de internet (o mem) é, nas teorias sobre a difusão cultural, a unidade teórica de informação cultural transmissível de um indivíduo a outro, ou de uma mente a outra, ou de uma geração à seguinte. (Wikipedia)
 <!--[endif