segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Nação da pobreza: como os EUA criaram um pântano de baixos salários



Nação da pobreza: como os EUA criaram um pântano de baixos salários

Durante décadas, ambos os partidos norte-americanos suplantaram um impulso para salários mais elevados com auxílios públicos bem-intencionados. O resultado: calamidade.

A reportagem é de Joan Walsh, publicada na revista Salon, 15-12-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

2013 é o ano em que muitos norte-americanos descobriram a crise dos trabalhadores pobres. E essa também é a crise dos pobres que vivem de benefícios. Isso é difícil para nós: os norte-americanos notoriamente detestam assistencialismo, a menos que seja chamado de outra coisa e/ou nos beneficie pessoalmente. Nós achamos que isso é para os preguiçosos, vagabundos e para pessoas que não fazem a sua parte.
Portanto, não temos certeza de como lidar com o fato de que um quarto das pessoas que têm emprego hoje ganham tão pouco dinheiro que elas também recebem alguma forma de assistência pública, ou benefícios – uma proporção que é muito maior em alguns dos setores de maior crescimento da força de trabalho. Ou que 60% dos adultos beneficiários de auxilio alimentação estão empregados.
Um total de 52% das famílias dos trabalhadores de fast-food recebe assistência pública – a maior parte dela vem do Medicaid [1], vale-refeição e do crédito de imposto sobre rendimento (EITC) [2] – até a quantia de 7 bilhões de dólares anuais, de acordo com uma nova pesquisa do Centro de Pesquisa do Trabalho da Universidade da Califórnia-Berkeley e da Universidade de Illinois.
Segundo o estudo, somente os trabalhadores do McDonald's recebem 1,2 bilhão de dólares em ajuda pública. Essa é uma indústria, a propósito, que no ano passado faturou 7,44 bilhões de dólares em lucros, paga 52,7 milhões de dólares aos seus altos executivos e distribuiu 7,7 bilhões em dividendos e reaquisição de ações. Mesmo assim, “o recebimento de recursos públicos é a regra, e não a exceção, para essa força de trabalho", concluiu o estudo.
Depois, há o Wal-Mart, que, como Josh Eidelson, da Salon, informou recentemente, vangloriou-se numa conferência do Goldman Sachs que "mais de 475 mil" de s eus 1,3 milhão de trabalhadores ganham mais de 25.000 dólares por ano – o que nos permite inferir que quase 60% ganham menos.
Os democratas do Comitê de Educação e Força de Trabalho estimaram que as gigantescas cadeias de varejo de baixo custo beneficiam-se de muitos bilhões de dólares em financiamentos de assistência pública; um "hipermercado" do Wisconsin custa aos contribuintes pelo menos 1 milhão de dólares por ano em assistência pública para as famílias dos trabalhadores. Lembre-se, também, que seis membros da família Walton possuem a riqueza equivalente a de 48 milhões de norte-americanos juntos.
Mas não é só fast-food e Wal-Mart: um em cada três caixas de banco recebe assistência pública, revelou o Committee for Better Banks, na semana passada, a um custo de quase 1 bilhão de dólares por ano em ajuda federal, estadual e local. É isso mesmo: uma das indústrias mais rentáveis, privilegiadas e de alto prestígio do país, a do ramo bancário, paga a um setor de seus trabalhadores salários chocantemente baixos e depende dos contribuintes para tirá-los da pobreza. Só em Nova York, 40% dos caixas de banco e seus familiares recebem assistência pública, custando 112 milhões de dólares em benefícios estaduais e federais.
Os CEOs dos bancos ganham vários milhões de dólares em bônus quando os lucros aumentam, enquanto milhões de caixas são tão pobres que recebem assistência social. Há algo de errado nisso.
A repulsa pelas empresas rentáveis que pagam salários em nível de pobreza está ajudando a alimentar uma onda de organização há muito esperada e a protestar em nome dos trabalhadores com baixos salários, desde greves de trabalhadores de fast-food que varreram o país até protestos contra o Wal-Mart nessa temporada de férias. Os contribuintes recuam diante da ideia, mas também muitos trabalhadores. "Eu pensei que eu poderia me virar por conta própria. Isso não aconteceu”, disse a funcionária do Wal-Mart Aubretia Edick, aoHuffington Post, que ganha 11,70 dólares por hora e ainda recebe assistência pública. É por isso que ela se juntou a uma greve de um dia. "O Wal-Mart não paga o meu salário", disse. " Você paga o meu salário."

Os EUA agora tem a maior proporção de trabalhadores com baixos salários do mundo desenvolvido, de acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Um em cada quatro norte-americanos ganha menos de dois terços do salário médio, que é a mesma proporção que depende da ajuda pública. Está se tornando mais amplamente aceito que a disseminação e persistência de empregos de baixos salários esteja por trás do aumento da desigualdade de renda e redução da mobilidade social. O que é menos conhecido é o papel que os democratas têm desempenhado na criação dessa armadilha.
* * *
Em seu discurso amplamente admirado sobre a desigualdade de renda, do dia 4 de dezembro, o presidente Obama parecia compartilhar todas essas preocupações.
"Nós sabemos que há os trabalhadores do aeroporto, os trabalhadores de fast-food, os auxiliares de enfermagem e os vendedores do varejo que trabalham duro e ainda vivem na pobreza ou um pouco acima dela", disse ele.
Baseado em grande parte naquele discurso e em alguns sussurros vindos da Ala Oeste daCasa Branca, a revista Politico anunciou na sexta-feira "O presidente Obama volta-se para a esquerda". Mas, à parte de dizer mais uma vez que é hora de aumentar o salári o mínimo, o presidente ainda não colocou muita força em uma agenda de “esquerda” para os trabalhadores com baixos salários.
Também seria bom que Obama reconhecesse: o fato de que tantos norte-americanos "trabalham duro e ainda estão vivendo na pobreza ou um pouco acima dela" e que recebem assistência pública não é apenas um acidente infeliz. É o resultado de uma política pública apoiada por muitos democratas – e ele não tem feito muito para mudá-la ou desafiá-la. Na verdade, o presidente do Conselho de Assessores Econômicos de Obama fez a sua defesa mais vigorosa.
A verdade é que um consenso bipartidário que surgiu na década de 1990 dizia que um emprego, praticamente qualquer emprego, era melhor do que a assistência pública a longo prazo para os chamados adultos "capacitados fisicamente", incluindo as mães com crianças pequenas. Isso levou à controversa reforma da legislação da previdência, que teve ramificações muito além do domínio dos benefícios sociais.
Os republicanos exigiam trabalho de beneficiários da previdência social, a maioria dos democratas concordou, mas exigiu um novo suporte para trabalhadores de baixa renda: uma expansão do EITC, Medicaid e elegibilidade do vale-refeição mais amplos, novos (embora não suficientes) subsídios para cuidados infantis. (Como senador do estado de Illinois,Obama era crítico da ideia, mas, mais tarde, aprovou o acordo.) Os no vos programas de apoio também ajudaram milhões de trabalhadores de baixa renda, que nunca tinham necessitado de benefícios; enquanto os salários continuaram estagnando e até mesmo diminuindo, mais pessoas passaram a ser elegíveis.
Mas quando os defensores trabalhistas começaram a perceber e protestar que os empregadores estavam contando com os contribuintes para apoiar a sua força de trabalho há uma década atrás, alguns liberais lhes disseram para não se preocuparem com isso. Respondendo a uma onda anterior de organização contra as práticas trabalhistas do Wal-Mart, o presidente do Conselho de Assessores Econômicos (CEA, na sigla em inglês) do presidente Obama, Jason Furman, escreveu um artigo muito influente em 2005 intitulado "Wal-Mart: uma historia de sucesso progressista" (Oito anos depois, isso soa como se ele estivesse debochando de nós.) O ex-conselheiro econômico de Clinton argumentou que os preços baixos das grandes redes ajudaram os pobres, e que a dependência de seus funcionários à assistência pública não foi um erro, mas uma característica da política social progressista.
Furman reconheceu o presidente Clinton como aquele que presidiu "a transformação da nossa rede de segurança social de um suporte para os indigentes para um sistema que faz o trabalho pagar (…) expansões em apoio aos trabalhadores de baixa renda, incluindo um crédito de imposto sobre rendimento (EITC) mais generoso e esforços para garantir que as crianç as não perdessem o seu Medicaid se seus pais conseguissem um emprego de baixa remuneração". Essencialmente, a dependência dos empregados do Wal-Mart em tais programas representou uma boa política social-democrata, Furman argumentou. E em uma troca memorável com Barbara Ehrenreich no site Slate, ele repreendeu os críticos progressistas do Wal-Mart p or "brincar com os instintos primitivos antibenefício, antigoverno, anti-imposto de alguns conservadores". (Deixe para um democrata da era Clinton culpar os progressistas pelos bem estabelecidos "instintos primitivos antibenefícios" da direita.)
Embora o artigo de Furman sobre o Wal-Mart seja de oito anos atrás, ele foi amplamente citado como uma razão para os progressistas para questionar a sua nomeação como presidente do CEA no início deste ano (embora economistas progressistas desde Jared Bernstein a Paul Krugman endossaram a sua seleção). Apenas alguns meses atrás, quando a câmara municipal de Washington aprovou uma lei exigindo que grandes varejistas não-sindicalizados pagassem um salário mínimo de 12,50 dólares por hora, o Wal-Mart enviou aos repórteres o artigo de Furman na defesa.
Curiosamente, eu nunca vi Furman defender ou qualificar ou atualizar o artigo, mesmo em face de uma nova onda de movimentos anti-Wal-Mart. Eu não estava completamente confortável em usar um documento de oito anos de idade para defender seus pontos de vista, então pedi aos funcionários de comunicação da Casa Branca se ele falaria comigo sobre isso. Eu não obtive resposta.
Como social-democrata, eu não acho que Furman esteja errado em defender o papel dos programas sociais em melhorar a vida dos trabalhadores de baixa renda. Muitos progressistas acreditam que devemos separar o plano de saúde do emprego por completo, por exemplo, e torná-lo um benefício universal pago por impostos corporativos e impostos de valores máximos, mais as contribuições individuais de escala móvel. Em todo o mundo desenvolvido, os trabalhadores de quase todos os níveis podem contar com planos de saúde, puericultura, formação profissional e de treinamento, e até mesmo (em níveis salariais mais baixos) suplementos salariais financiados pelo governo.< /span>
Mas não é calvinismo punitivo ou vergonha dos benefícios em questionar até que ponto que agora é certo que trabalhadores de baixa renda tenham que contar com o vale-refeição e outras intervenções públicas, muitas vezes por um longo tempo, talvez permanentemente. Por não exigirem também aumentos regulares do salário mínimo ou colocar mais força na organização sindical, os democratas ajudaram a criar um vasto conjunto de empregos de baixos salários que paira um pouco acima da linha de pobreza, e às vezes ainda abaixo dela, graças à assistência pública, e não tem a força econômica e política para melhorar os salários e as condições de trabalho. Isso não pode ser bom para ninguém.
Na verdade, a noção de que tantos milhões de pessoas trabalham tão duro e ainda são pobres o suficiente para receber ajuda pública está aumentando: ela ajuda a mostrar que os salários baixos, não a falta de esforço ou "dependência", são, em parte, aquilo que está fazendo encolher a classe média. Não apenas os contribuintes, mas também os trabalhadores de baixa renda acham que sair da pobreza, com a ajuda de vale-refeição,Medicaid e o EITC, deve ser apenas uma vitória temporária a caminho de um lugar sólido no mercado de trabalho onde o trabalho é devidamente remunera do.
Eu certamente não estou demonizando a assistência pública. Nós ainda gastamos uma ninharia para ajudar os trabalhadores de baixos salários em comparação com o apoio social desfrutado por seus pares em outras nações prósperas. Os progressistas certamente estão orgulhosos de um estudo recente que mostrou que os programas de combate à pobreza, de fato, tiram as pessoas da pobreza – cerca de um quarto dos americanos viveriam abaixo da linha da pobreza se não fosse pelo apoio social, em oposição a um triste 16 por cento hoje. Isso deve obliterar a história infundada de Reagan de que "nós lutamos uma guerra contra a pobreza, e a pobreza venceu".
Mas a cada dólar que o contribuinte paga para subsidiar as empresas que pagam salários de miséria é um dólar não gasto em programas de primeira infância, na construção de universidades ou no financiamento da educação universitária. Sim, precisamos de redes de segurança, mas também precisamos de escadas de oportunidade. O gasto do governo que construiu a classe média depois da Segunda Guerra Mundial foi em educação e pesquisa, e foi apoiado pela mais eficaz iniciativa antipobreza do New Deal: a  Lei Wagner, que facilitou a organização sindical.
Hoje, temos uma rede de segurança puída, mas essas escadas de oportunidade são ainda mais frágeis e pouco confiáveis. Nós simplesmente não estamos construindo-as – e é por isso que nós estamos enfrentando uma crise de desigualdade de renda e uma estagnação da mobilidade social, que costumava ser o coração do sonho americano.
* * *
O presidente Obama pareceu reconhecer ao menos alguma conexão entre a proliferação de empregos de baixos salários e a crise de desigualdade de renda em seu discurso marcante de 4 de dezembro. Condenando o aumento do número de postos de trabalho que pagam salários a nível de pobreza, ele declarou que "já está mais do que na hora de aumentar o salário mínimo que, em termos reais, agora está abaixo de onde estava quando Harry Truman estava no governo", e acrescentou que "está em tempo de gara ntir que as nossas leis coletivas de negociação funcionem como deveriam, e assim os sindicatos terão condições de concorrência equitativas para organizar um acordo melhor para os trabalhadores e melhores salários para a classe média". Ele também se comprometeu a reconstruir as "escadas de oportunidade" que fizeram a sua família e milhões de outras, incluindo a minha, subir da classe trabalhadora para a classe média. Dado o balanço de extrema-direita do Partido Republicano, no entanto, não é provável que ele seja capaz de fazer muito disso acontecer.
O que me leva ao outro problema dos trabalhadores de baixa renda que estão sendo obrigados a depender da assistência pública: eles são, infelizmente, vulneráveis a serem bode expiatório político e política baixa. O deputado Paul Ryan chama a rede de segurança de "rede de praia", o que é horrível quando sabemos que muitas pessoas tem pelo menos um, e talvez dois, empregos e ainda permanecem pobres. Mitt Romney investiu contra os 47% dos norte-americanos que não pagam imposto de renda federal , o que inclui milhões de trabalhadores de baixa renda que recebem o crédito fiscal dos rendimentos auferidos (EITC), mesmo que esse tenha sido uma ideia republicana, assinada em lei pelo presidente Gerald Ford e expandida por ambos os presidentes Bush.
Mas os republicanos não estão fazendo pressão para aumentar o salário mínimo ou tornar mais fácil para os trabalhadores de baixa renda organizar sindicatos. A resposta deles é retirar a rede de segurança dos trabalhadores sem a construção de escadas que os fariam subir. E com cortes do vale-refeição, eles estão conseguindo o que eles querem.
Neste momento, a melhor resposta é um movimento operário revigorado em nome dos trabalhadores com baixos salários, e é revitalizando vê-lo se desenvolver. Em um nível, é surpreendente que tenha levado tanto tempo. Muitos empregos de baixos salários têm a vantagem de serem de base territorial, eles não podem se mudar para países em desenvolvimento. Os drones não vão entregar o seu hambúrguer do McDonald's num futuro próximo, e o Wal-Mart não pode vender tudo online, senão ele iria. Os caixas de banco já foram dizimados por caixa s eletrônicos e pelos serviços bancários online; aqueles que ainda têm emprego os têm porque são necessários.
Mas também seria importante para mais pessoas – mais democratas – reconhecer o papel que a política tem desempenhado na criação desse pântano de empregos de baixos salários que tem sido um pouco menos miserável devido aos subsídios públicos. Como a desigualdade de renda aumentou, a mobilidade social, marca registrada dos EUA, diminuiu. A crise dos empregos de baixos salários é cada vez mais reconhecida como parte daquilo que está ampliando a desigualdade e retardando a mobilidade social. No quinto ano de sua presidência, Obama está ficando melhor em descrever o problema, mas ele precisa fazer mais para apoiar os trabalhadores que estão tentando pressionar por soluções.

Notas:

1. Medicaid: programa de assistência médica dos EUA para famílias e indivíduos de baixa renda.
2.Earned Income Tax Credit: crédito recebido através do imposto de renda federal dado para trabalhadores ou casais – principalmente aqueles com filhos menores de idade.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Hoje existem dois EUA. É um show de horrores

 
“Em meu país estamos vendo um show de horrores. Estamos vendo uma retração em termos de renda familiar, o abandono de serviços básicos como a educação pública, a educação pública funcional”. O comentário é do escritor e jornalista norte-americano David Simon em palestra no Festival of Dangerous Ideas em Sydney.
Segundo ele, “o capitalismo perdeu a visão de seu pacto social”. A palestra de David Simonfoi publicara pelo The Observer, traduzida por Luiz Roberto Mendes Gonçalves e reproduzida por Carta Capital, 12-12-2013.
Eis o texto.
Os Estados Unidos são hoje um país totalmente dividido no que se refere a sociedade, economia, política. Existem definitivamente dois EUA. Eu vivo em um, em uma quadra de Baltimore, no estado de Maryland, que faz parte da versão viável dos EUA, a parte dos EUA conectada com a sua própria economia, onde existe um futuro plausível para as pessoas ali nascidas. A cerca de 20 quarteirões de distância existe outro país totalmente diferente. É incrível como temos pouco a ver uns com os outros, e, no entanto, vivemos em grande proximidade.
Não há arame farpado ao redor de Baltimore Oeste ou de Baltimore Leste, ao redor de Pimlico, áreas de minha cidade que foram totalmente divorciadas da experiência americana que conheço. Mas poderia haver. De certa forma nós conseguimos caminhar para dois futuros diferentes, e creio que estamos vendo cada vez mais disso no Ocidente. Não acho que seja exclusivo dos EUA.
Creio que nos aperfeiçoamos muito na tragédia e estamos chegando lá mais depressa que muitos outros lugares talvez ainda um pouco mais racionais. Mas minha ideia perigosa envolve um homem que foi deixado de lado no século XX e quase parecia ser o final da piada do século XX: um homem chamado Karl Marx.
Não sou marxista no sentido de que não acredito em uma resposta clínica muito específica do marxismo para nossos problemas econômicos. Marx era muito melhor ao fazer diagnósticos do que como clínico. Ele era bom em descobrir os erros ou o que poderia estar errado com o capitalismo se não cuidassem dele, e muito menos verossímil no aspecto de como se poderia solucionar isso.
Se você leu O Capital, ou tem as Cliff Notes, sabe que suas imagens de como o marxismo clássico – de como sua lógica funcionaria quando aplicada – mais ou menos evoluem para absurdos tais como o encolhimento do Estado e platitudes semelhantes. Mas ele foi realmente arguto sobre o que dá errado quando o capital vence de maneira inequívoca, quando ele consegue tudo o que quer.
Essa talvez seja a tragédia definitiva do capitalismo em nossa era, que ele alcançou a predominância sem consideração pelo pacto social, sem estar conectado a qualquer outra métrica de progresso humano.
Nós entendemos o lucro. Em meu país, medimos as coisas pelo lucro. Escutamos os analistas de Wall Street. Eles nos dizem o que devemos fazer a cada trimestre. O relatório trimestral é Deus. Vire-se de frente para Deus. Vire-se de frente para Meca, você sabe. Você atingiu seu número? Você não atingiu seu número? Você quer seu bônus? Você não quer seu bônus? E essa ideia de que o capital é a métrica, de que o lucro é a métrica pela qual mediremos a saúde de nossa sociedade, é um dos enganos fundamentais dos últimos 30 anos. Eu a dataria em meu país exatamente em 1980, e ela venceu.
O capitalismo arrasou com o marxismo no final do século XX e predominou em todos os sentidos. Mas a grande ironia disso é que a única coisa que realmente funciona não é ideológica, é impura, tem elementos dos dois argumentos e na verdade nunca alcança algum tipo de perfeição partidária ou filosófica.
É pragmática, inclui os melhores aspectos do pensamento socialista e do capitalismo de livre mercado. E funciona porque não deixamos que ela funcione totalmente. E essa é uma ideia dura de pensar – que não existe uma mágica que nos tire da confusão na qual nos metemos. Mas que confusão!
Depois da Segunda Guerra Mundial, o Ocidente emergiu com a economia norte-americana saindo de sua extravagância do tempo de guerra, surgindo como o melhor produto. Era o melhor produto. Funcionava melhor. Estava demonstrando seu poder não apenas em termos do que fez durante a guerra, mas em termos de como era fácil criar riqueza em massa.
Além disso, oferecia muito mais liberdade e fazia a única coisa que garantia que o século XX seria – e perdoem o tom chauvinista disto – o século norte-americano.
Ele pegou uma classe trabalhadora que não tinha uma renda perceptível no início do século, que trabalhava por salários de subsistência. E a transformou em uma classe de consumidores que não apenas tinha dinheiro para comprar todas as coisas de que precisavam para viver, como o suficiente para comprar um monte de porcarias que eles queriam mas de que não precisavam. Essa foi a máquina que nos conduziu.
Não era apenas que podíamos fornecer coisas, ou que tivéssemos as fábricas, o know-how ou o capital. Nós criávamos nossa própria demanda, e começamos a exportar essa demanda por todo o Ocidente. E o padrão de vida possibilitou fabricar coisas em um ritmo incrível e vendê-las.
E como fizemos isso? Fizemos não cedendo a qualquer lado. Esse foi o novo acordo. Essa foi a grande sociedade. Essa foi toda a discussão sobre negociação coletiva e dissídios, e foi uma discussão que significava o seguinte: nenhum lado pode vencer.
Os trabalhadores não conseguem vencer todos os seus argumentos, nem o capital. Mas é na tensão, é na verdadeira luta entre os dois, que o capitalismo realmente se torna funcional, que ele se torna algo em que toda camada da sociedade tem um interesse, que todas compartilham.
Os sindicatos foram realmente importantes. Os sindicatos faziam parte da equação. Não importava se eles vencessem o tempo todo, não importava se eles perdessem o tempo todo, apenas importava que eles tinham de vencer algumas vezes. Mais: eles tinham de armar uma briga e tinham de discutir pela demanda e a equação e pela ideia de que os trabalhadores não valiam menos, eles valiam mais.
Afinal, abandonamos isso e acreditamos na ideia da transmissão gradual da riqueza e na ideia da economia de mercado. Em suma, o mercado sabe melhor, a um ponto em que hoje o libertarismo em meu país está realmente sendo levado a sério como uma forma inteligente de pensamento político. Isso me surpreende. Mas é assim. As pessoas estão dizendo que não preciso de nada além de minha capacidade de lucrar. Não estou conectado à sociedade. Não me importa como a estrada foi construída, não me importa de onde vem o bombeiro, não me importa quem educa as crianças que não são meus filhos. Eu sou eu. É a vitória do ego. Eu sou eu, ouçam-me rugir.
Surpreende-me que tenhamos chegado a este ponto, porque basicamente, ao vencer sua vitória, ao ver aquele Muro cair e ver a viagem do antigo Estado stalinista em direção ao nosso modo de pensar em termos de mercados ou de ser vulnerável, você teria pensado que tivéssemos aprendido o que funciona. Em vez disso, decaímos ao que só pode ser descrito como ganância. Isto é apenas ganância. É uma incapacidade de ver que todos estamos conectados, que a ideia de dois Estados Unidos é implausível, assim como de duas Austrálias, duas Espanhas ou duas Franças.
As sociedades são exatamente o que elas parecem. Se todo mundo estiver empenhado e se todo mundo apenas acreditar que tem "uma parte", não quer dizer que todos vão receber a mesma quantia. Não significa que não haverá pessoas que são os capitalistas de risco que pretendem ganhar mais. Não é cada um segundo suas necessidades ou algo que seja puramente marxista, mas que todo mundo sinta que "se a sociedade tiver êxito, eu terei êxito, não ficarei para trás". E não existe uma sociedade no Ocidente hoje, neste momento, que seja capaz de sustentar isso para toda a sua população.
Assim, em meu país estamos vendo um show de horrores. Estamos vendo uma retração em termos de renda familiar, o abandono de serviços básicos como a educação pública, a educação pública funcional. Vemos a subclasse caçada por meio de uma suposta guerra às drogas perigosas que é na verdade apenas uma guerra contra os pobres e nos transformou no Estado mais encarcerante da história da humanidade. Falo em termos dos simples números de pessoas que colocamos nas prisões norte-americanas e da porcentagem de norte-americanos que colocamos nas prisões. Nenhum outro país na face da Terra prende pessoas no número e no ritmo em que o fazemos.
Tornamo-nos algo diferente do que reivindicamos no sonho americano, e tudo por causa de nossa incapacidade básica de compartilhar, de sequer considerar um impulso socialista. "Socialismo" é um palavrão em meu país. Tenho de fazer essa ressalva no início de cada palestra: "Oh, aliás, não sou marxista, vocês sabem". Vivi ao longo do século XX. Não acredito que uma economia dirigida pelo Estado possa ser tão viável quanto o capitalismo de mercado para produzir riqueza em massa. Não acredito.
Estou totalmente comprometido com a ideia de que o capitalismo tem de ser o modo como geraremos riqueza em massa no próximo século. Essa discussão terminou. Mas a ideia de que não estará casado com um pacto social, de que a distribuição dos benefícios do capitalismo não incluirá todo mundo da sociedade em medida razoável, isso é incrível para mim.
E assim o capitalismo está prestes a arrancar a derrota das presas da vitória com sua própria mão. Esse é o fim surpreendente desta história, a menos que revertamos o rumo. A menos que levemos em consideração, senão os remédios de Marx, pelo menos o diagnóstico. Ele viu o que aconteceria se o capital triunfasse de modo inequívoco, se conseguisse tudo o que queria.
E uma das coisas que o capital queria inequivocamente e com certeza é a diminuição da mão-de-obra. Eles queriam que a mão-de-obra fosse diminuída porque a mão-de-obra é um custo. E se a mão-de-obra for diminuída, vamos traduzir: em termos humanos, significa que os seres humanos valem menos.
A partir desse momento, a menos que revertamos o rumo, o ser humano médio vale menos no planeta Terra. A menos que levemos em conta o fato de que talvez o socialismo e o impulso socialista deva ser novamente abordado; ele tem de ser casado como era casado nos anos 1930, 40 e até nos 50, com a máquina que é o capitalismo.
Confundir o capitalismo com uma planta detalhada para se construir uma sociedade me parece uma ideia realmente perigosa, de uma maneira ruim. O capitalismo é uma máquina notável para produzir riqueza. É uma grande ferramenta para se ter na caixa de ferramentas se você estiver tentando construir uma sociedade e quiser que essa sociedade progrida. Você não desejaria avançar neste ponto sem ela. Mas não é uma planta para se construir a sociedade justa. Existem outras métricas além do relatório trimestral de lucros.
A ideia de que o mercado solucionará as coisas como preocupações ambientais, como nossas divisões raciais, nossas distinções de classe, nossos problemas com a educação e inclusão de uma geração de trabalhadores na economia depois de outra quando essa economia está mudando; a ideia de que o mercado vá atender a todas as preocupações humanas e ainda maximizar os lucros é juvenil. É uma ideia juvenil e está sendo defendida em meu país apaixonadamente e estamos descendo pelo ralo. E isso me aterroriza porque fico incrédulo ao ver como ficamos à vontade ao nos absolvermos do que é basicamente uma opção moral. Estamos todos juntos nisto ou não?
Se você visse o fracasso que foi, e é, a luta sobre algo tão básico quanto a política de saúde pública em meu país nos últimos anos, imagine a ineficácia que os norte-americanos vão oferecer ao mundo sobre algo realmente complexo como o aquecimento global. Não podemos nem conseguir atendimento de saúde para nossos cidadãos em um nível básico. E o argumento se resume a: "Maldito presidente socialista. Ele pensa que vou pagar para manter outras pessoas saudáveis? Isso é socialismo, filho da mãe".
O que você pensa que é o seguro-saúde em grupo? Você sabe que pergunta a esses sujeitos: "Você tem seguro-saúde em grupo onde você...?" "Oh, sim, tenho..." você sabe, "minha firma de advocacia..." Assim, quando você fica doente você pode pagar pelo tratamento.
O tratamento vem porque você tem pessoas suficientes em sua firma de advocacia, de modo que você pode ter seguro-saúde suficiente para elas se manterem saudáveis. Assim as tabelas de prêmios e riscos funcionam, e vocês todos, quando ficam doentes, podem ter os recursos para sarar porque contam com a ideia do grupo. Sim. E eles balançam as cabeças, e você diz: "Irmão, isso é socialismo. Você sabe que é".
E... você sabe quando você diz: "Está bem, vamos fazer o mesmo que fazemos para sua firma de advocacia, mas vamos fazer para 300 milhões de norte-americanos e vamos torná-lo acessível a todo mundo dessa maneira. E sim, isso significa que você estará pagando para os outros caras da sociedade, da mesma maneira que você paga para os outros caras da firma... Os olhos deles brilham. Você vê que eles não querem ouvir isso. É demais. Demais contemplar a ideia de que todo o país poderia na verdade estar conectado.
Por isso fico surpreso de que ainda hoje eu esteja aqui de pé dizendo que talvez queiramos recuperar esse sujeito Marx do qual estávamos rindo, senão por suas prescrições, pelo menos pelo retrato que ele fez do que é possível se você não mitigar a autoridade do capitalismo, se você não abraçar alguns outros valores de esforço humano.
E é basicamente disso que se tratava The Wire, a série de TV. Era sobre pessoas que valiam menos e não eram mais necessárias, como talvez 10 ou 15% do meu país não são mais necessários para a operação da economia. Era sobre eles tentando resolver, por falta de um termo melhor, uma crise existencial. Em sua irrelevância, sua irrelevância econômica, eles continuavam não obstante em campo, ocupando este lugar chamado Baltimore, e eles tinham de sobreviver de alguma forma.
Esse é o grande show de horrores. O que vamos fazer com todas essas pessoas que conseguimos marginalizar? Era mais ou menos interessante quando se tratava apenas de raça, quando você podia fazer isso com base nos temores raciais das pessoas, e eram apenas os negros e pardos nas cidades norte-americanas que tinham os índices mais altos de desemprego e de dependência de drogas, eram marginalizados e tinham sistemas escolares péssimos e falta de oportunidades.
E é interessante nesta última recessão ver a economia encolher e começar a atirar as pessoas brancas de classe média no mesmo barco, de modo que elas se tornaram vulneráveis à guerra das drogas, por exemplo com a metanfetamina, ou se tornaram incapazes de qualificar-se para empréstimos para a universidade. E de repente a fé na máquina econômica, na autoridade econômica de Wall Street e na lógica do mercado começou a se distanciar das pessoas. E elas perceberam que não se trata apenas de raça, trata-se de algo ainda mais aterrorizante. Trata-se de classe. Você está no topo da onda ou está embaixo?
Então, como isso pode melhorar? Em 1932, melhorou porque eles distribuíram as cartas de novo e houve uma lógica comunitária para estabelecer que ninguém seria deixado para trás. Vamos resolver isto. Vamos abrir os bancos. Das profundezas daquela depressão, um pacto social foi feito entre trabalhador, entre mão-de-obra e capital que na verdade permitiu que as pessoas tivessem alguma esperança.
Ou vamos fazer isso de alguma maneira prática quando as coisas ficarem suficientemente ruins, ou vamos continuar fazendo como estamos fazendo. E nesse ponto haverá tantas pessoas paradas do lado de fora desta confusão que alguém vai pegar um tijolo, porque você sabe que quando as pessoas chegam ao fim sempre há o tijolo. Espero que escolhamos a primeira opção, mas estou perdendo a fé.
Outra coisa que havia em 1932 e que não existe hoje é que algum elemento da vontade popular podia ser expresso por meio do processo eleitoral em meu país.
O último trabalho do capitalismo – tendo ganhado todas as batalhas contra a mão-de-obra, tendo adquirido a autoridade máxima, quase a autoridade moral máxima do que é uma boa ideia ou não, ou do que é valorizado e o que não é –, a última viagem do capital em meu país foi comprar o processo eleitoral, a única via para reformas que os norte-americanos ainda tinham.
Neste momento o capital efetivamente comprou o governo, e você testemunhou isso novamente com a derrocada do sistema de saúde em termos dos 450 milhões de dólares que foram depositados sobre o Congresso, a parte mais danificada do meu governo, para que a vontade popular nunca emergisse de fato naquele processo legislativo.
Por isso não sei o que faremos se não pudermos realmente controlar o governo representativo que, nós alegamos, manifestará a vontade popular. Mesmo que todos começássemos a ter os mesmos sentimentos que estou defendendo agora, não tenho certeza se ainda poderemos efetivá-los, da mesma maneira que pudemos no auge da Grande Depressão, por isso talvez seja mesmo o tijolo. Mas espero que não.





quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Amazônia, uma história de destruição



No último sábado (14), a Pública lançou seu primeiro livro-reportagem, Amazônia Pública, com um debate aberto naPraça Roosevelt, em São Paulo.
A reportagem foi publicada pela Agência Pública, 17-12-2013.
Debaixo da lona montada especialmente para levar a Amazônia à praça pública, em São Paulo, especialistas em Amazônia nas áreas de energia, ambiente, comunicação, além de representantes de movimentos e ONGs que atuam na região debateram os dilemas que vive a região – entre a necessidade de preservação, essencial também para a qualidade de vida da população da região, e a pressão pelo desenvolvimento. Um público de cerca de 100 pessoas compareceu ao debate – e todo mundo que passou por lá recebeu um exemplar do livro Amazônia Pública. O livro reúne três séries de reportagens sobre os impactos de grandes empreendimentos na Floresta Nacional de Carajás e no rio Tapajós, no Pará, e no rio Madeira, em Rondônia. Toda a apuração foi feita em campo por seis repórteres.


Antes do debate foram exibidos três vídeos, realizados pelas equipes de reportagem. Depoimentos de pessoas que nasceram ou atuam na Amazônia – como o escritor Milton Hatoum e o cineasta Aurélio Michelis – ambos de Manaus, que falaram sobre sua relação com a cidade e a floresta e expuseram suas expectativas para a região.
Questão energética
O debate começou com a pergunta que se faz desde que os brasileiros tomaram conhecimento da construção da hidrelétrica de Belo Monte – que obteve grande repercussão pelos protestos de ribeirinhos e indígenas do Xingu: Afinal, vale a pena construir hidr elétricas na Amazônia? Quem se beneficia dessa energia não apenas do Xingu, mas do rio Madeira (com as hidrelétricas Jirau e Santo Antônio) e as planejadas no projeto de hidrelétricas do Tapajós, o lindo rio azul de ribeirinhos e mundurukus no Oeste do Pará.
O professor Célio Bermann, do Instituto de Energia e Ambiente da USP (IEE/USP), foi taxativo: “É mentira a necessidade de energia elétrica para o desenvolvimento”, disse, acrescentando que não é a pressão pelo consumo das novas classes médias que está pressionando a demanda. Segundo o professor, 30% da energia gerada no país é consumida inteiramente por seis setores da indústria: a siderurgia, a indústria de metais não ferrosos, de ferro-ligas, petroquímica, papel e celulose e cimento. “Nós estamos vivendo no país uma autocracia energética”, disse, referindo-se à prioridade dada a produção de energia em detrimento da preservação de recursos naturais.
Bermann, que há 20 anos trabalha com questões energéticas na Amazônia, apontou alternativas trazidas em um estudo do IEE/USP, que mostra a possibilidade de suprir a demanda da população brasileira por 10 anos com a construção de 66 usinas eólicas de 30 megawatts de potência, bem mais limpa e menos impactante, do ponto de vista do território, do que as hidrelétricas. Além disso, explicou o professor, essas usinas poderiam se localizar próximas às cidades para evitar a per da de potência no transporte da energia por linhas de transmissão.
“[A usina hidrelétrica de] Belo Monte não está sendo construída para gerar energia elétrica. Está sendo construída porque em cinco anos as empresas que hoje dominam o governo vão embolsar R$ 17 bilhões”, disse, referindo-se ao fato de as empreiteiras serem as grandes beneficiárias das obras e grandes doadoras eleitoras. O professor criticou ainda a ausência de consulta preliminar por parte do governo e das empresas à academia – para discutir a necessidade e a melhor maneira de realizar as obras – e às comunidades tradicionais e indígenas, que embora sejam as mais afetadas ainda não têm seu direito de veto assegurado nas discussões sobre estes megaempreendimentos. “As consequências sociais e ambientais são irreversíveis. Mitigação é um belo nome para dizer nada”, afirmou.
Marcelo Salazar, do Instituto Socioambiental (ISA) de Altamira, onde fica a usina de Belo Monte – para ele, “o maior símbolo de “inadimplência socioambiental” – relatou o que está acontecendo na região, onde vive desde 2007. “O que estou vivenciando em Altamira é um verdadeiro rolo compressor. A pressão social parece não ter força”, disse.
Salazar explicou que além dos impactos às comunidades próximas às obras da hidrelétrica, o empreendimento gera conflitos que reverberam por uma área bem maior do que a da usina, propriamente dita. Ele destacou o aumento de extração ilegal de madeira na região e, do lado urbano, o encarecimento do custo de vida e o alarmante crescimento da violência na cidade. “Uma em cada três pessoas tem um parente ou conhecido que foi assassinado”, revelou.
Salazar também criticou a postura do governo em relação às comunidades indígenas. “O governo não aplica recursos para a Funai e usa a Eletrobrás e a Eletronorte para fazer a política indigenista na região”, disse, referindo-se às compensações financeiras que as empresas devem pagar pelos impactos causados à população indígena e que deveriam ser mediadas pelo órgão encarregado de protegê-la.
Mineiração no sul do Pará
Danilo Chammas, advogado da Rede Justiça nos Trilhos, lembrou os impactos que mega empreendimentos causam a comunidades tradicionais e quilombolas. É o caso do projeto de Carajás, da mineradora Vale, no sudeste do Pará e oeste do Maranhão. Segundo ele, “uma pessoa morre por mês atropelada nos trilhos da Estrada de Ferro Carajás”. A ferrovia leva o minério de ferro extraído nas minas em Carajás ao porto de São Luís e daí à exportação, em grande parte direcionada para a China, e está sendo duplicada para escoar o aumento da produção de minério da floresta: a companhia pretende dobrar a extração quando o projeto – em implantação – estiver concluído. A obra tem financiamento do BNDES que liberou a primeira parcela do investimento mesmo quando a obra foi embargada na Justiça pelos movimentos sociais de direitos humanos, CIMI e Fundação Palmares.
De acordo com Chammas, Carajás é uma região em permanente conflito há pelo menos 30 anos – justamente por abrigar o maior empreendimento de minério de ferro do mundo. “Isso dentro de uma floresta nacional. O que é uma contradição”, falou.
“É realmente um negócio da China. O custo da tonelada [de minério de ferro] é de US$ 22 até o porto e dali, US$ 100, sem contar com o custo da transporte”, explicou, reafirmando que o minério de ferro extraído em Carajás é o mais barato do mundo. Chammas destacou que os problemas sociais permanecem sem solução na região, por falta de empenho da companhia Vale e do governo. Também lembrou a atuação agressiva da Vale, que chegou a infiltrar e espionar lideranças dos movimentos sociais que exigem responsabilidade social e ambiental por parte da companhia. “Somos os mais espionados”, disse Danilo.
Como a imprensa cobre a Amazônia?
A jornalista Elaize Farias, de Manaus, co-fundadora do portal Amazônia Real, falou sobre a cobertura da Amazônia pela mídia, não raro vista como “exótica” e deslocada do resto do país. “É preciso fazer a conexão da Amazônia com outras regiões. Estados como Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro não sabem da relação da Amazônia com outras regiões. Não se sabe, por exemplo, que a madeira extraída ilegalmente vem para os pólos moveleiros de São Paulo e de Minas Gerais ”, destacou.
Nilo D’Ávila, do Greenpeace, que falou das políticas públicas em vigor para a Amazônia, também reforçou a importância de analisar os projetos e políticas para a região levando em conta não apenas o contexto nacional, mas continental da floresta, que se expande pelos territórios do Peru, Equador, Bolívia. O ativista também criticou o debate pouco transparente do Código da Mineiração, colocado para votação em regime de urgência, sem a participação da população, embora fundamental para decidir o futuro dos nossos recursos naturais do ponto de vista econômico, ambiental e social, especialmente por envolver projetos de mineração de em terras indígenas.
Entre pessimistas e otimistas, os debatedores vêem 2014 como um ano decisivo para a reação popular a megaempreendimentos na região. É o ano em que deve sair, por exemplo, a licença de operação para a usina deBelo Monte e a de instalação duas hidrelétricas do Tapajós. Para Marcelo Salazar, do ISA, “precisamos nos inspirar nesses movimentos de ruas e reinventar as formas de manifestação”. E, como observou o professor Célio Bermann, disseminar info rmação de qualidade para disseminar o debate.