quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Reputação será moeda no mundo pós-financeiro




Joshua Klein, 39, se descreve como "hacker" de tudo.



Mestre em tecnologia interativa pela Universidade de Nova York, está lançando nos EUA"Reputation Economics" (economia da reputação, em tradução livre; Palgrave Macmillan), em que prenuncia a substituição das moedas por um comércio em plataformas com sistemas de troca que passam longe das finanças.




A entrevista é de Nelson de Sá, publicada no jornal Folha de S. Paulo, 02-12-2013.

Eis a entrevista.



O sr. diz que a privacidade não é mais um direito e que há formas de lucrar abrindo mão dela. Como vê as revelações do ex-técnico de segurança do governo americano Edward Snowden sobre vigilância governamental?



 É interessante ver a reação das pessoas ao volume de informações monitoradas. De muitas formas, o que o governo faz é uma extensão do que tínhamos permitido às empresas fazer.
Se você usa Gmail, já deu ao Google o direito de analisar todos os seus e-mails: com quem você fala, com que frequência, sobre o quê, que palavras usa, quantos pronomes ou adjetivos emprega, todos os documentos.
Todos os "serviços gratuitos" fazem isso - o Facebook faz, o Twitter, a Amazon - porque permite que vendam de forma mais eficaz. O problema é que as pessoas não são realmente conscientes de que fizeram esse acordo.

Há possibilidade de voltarmos ao tempo em que as pessoas ainda tinham privacidade?
Estamos num momento de virada como sociedade. Sabíamos que havia algo estranho nesse acordo: estávamos ganhando quantidades imensas de tecnologia de graça - ou que pensávamos ser de graça - em troca de nos dispormos a ver publicidade.
Mas esse não é o acordo de fato. O acordo é que as pessoas nos dão essas coisas e, em retribuição, temos que comprar outras. E essas empresas farão tudo para serem o mais eficazes possível e nos venderem o que puderem.
Acredito que as pessoas começaram a tomar consciência ao verem o governo fazê-lo, pois se ergueu o espectro do Grande Irmão. Vender é algo com contornos bem definidos. O problema é que esses dados podem ser usados para outras coisas.

Não há como mudar a forma de agir na internet?
Se as pessoas admitirem que fizeram um contrato faustiano e começarem a usar criptografia e forem mais cuidadosas com os contratos de licença que assinam... Se gente o bastante fizer isso, as empresas começarão a pensar: "Para termos acesso aos dados, temos que fazer um acordo aberto, mais claro".
Se isso acontecer, então, sim, vamos ver mudança. As empresas vão aceitar que os indivíduos tenham mais responsabilidade e controle sobre suas coisas. Mas acho que o mais provável é que uma minoria de pessoas faça isso - e elas terão acesso a menos serviços ou terão de pagar mais caro por eles.
E veremos mais abusos dos dados coletados.

Há uma frase de Andrew Lewis, no blog comunitário MetaFilter, sobre a internet: "Se você não está pagando pelo produto, você é o produto que está sendo vendido".



[Risos] Sim. O objetivo da grande maioria dos serviços on-line hoje não é fornecer algo divertido ou interessante. Isso é acessório. O objetivo real é vender de forma eficaz.

"Reputation Economics" também reflete isso?



Um dos pontos do livro é que estamos estabelecendo plataformas, hoje, que possibilitam sistemas de troca livre das finanças. Por outro lado, as empresas grandes são cada vez mais eficientes em ganhar nosso dinheiro.
Daí a precificação hiperdinâmica: você entra on-line para comprar queijo, a empresa que vende o queijo reconhece que você tem um blog sobre isso e dá um desconto de 30%, na esperança de que você compre e depois diga algo bom do queijo.
Os indivíduos precisam agora escolher: Querem só ficar com o que é dado? Ou querem ferramentas e tecnologias que permitem que gerenciem seu valor? Creio que veremos mais da última, mas não estou certo se ocorrerá.

A edição registra que você fez trabalhos para a comunidade de inteligência. O que foi?




Foi sobretudo pelo Escritório do Diretor de Inteligência Nacional, que fez um programa tipo "think tank" [centro de estudos] em que muitos colaboramos, num retiro de um mês. Foi interessante por permitir contato com algumas das mentes mais brilhantes da NSA [agência de segurança nacional], CIA [agência de inteligência dos EUA] e um "insight" sobre as capacidades que têm ou tinham.
Desde então, todos ganhamos uma consciência muito maior do que se trata [devido às revelações de Snowden].
O mais importante foi ver que aquilo tinha enorme potencial, não totalmente conhecido. Em relação ao trabalho de consultoria que presto para empresas, ficou claro que o mercado baseado em "big data" se tornaria cada vez maior. A questão já era, então, qual o efeito disso sobre o indivíduo.

O livro destaca que "quem você conhece" vale mais, hoje, do que "o que você possui".



O que isso aponta é que, cada vez mais, as plataformas on-line estão permitindo obter informações de reputação sobre as pessoas. Se eu quiser descobrir se devo emprestar meu carro a você, posso dar um Google e ver se você é digno de confiança.
Esse tipo de informação de reputação levou ao surgimento de uma economia de reputação on-line, que está mudando como os indivíduos compartilham valor.
Ou seja, o compartilhamento não é mais só financeiro. A economia de reputação me permite descobrir a pessoa para quem a troca é útil. Esse tipo de situação agora está disponível por todas essas plataformas on-line.
Esse é um aspecto. Outro é que as pessoas têm cada vez menos capacidade de alavancar suas finanças. Os sistemas financeiros vêm com problemas há muito tempo, as maiores economias do mundo estão se debatendo, então as pessoas começam a perceber: "Ei, posso entrar no Skillshare, começar a ensinar as pessoas este hobby de mergulho e conseguir dinheiro".
Ou: "Só uso meu carro nos fins de semana, eu posso inscrevê-lo no [site] Rideshare e ter pessoas que me paguem para usá-lo na semana".

Você entende "hacking" como quebrar regras, em geral. O novo livro reflete essa ideia?



Sim e não. Uma das coisas que abordo é o "momento Napster" das finanças. Há um bocado de mudanças tecnológicas acontecendo agora, algumas beneficiam indivíduos, outras, empresas e outras concorrem entre si.
Onde entra a palavra "hacking"? Por exemplo, quando o Napster foi derrubado pela RIAA[Associação Americana da Indústria Fonográfica], a internet como um todo não se convenceu de uma hora para outra de que não podia mais baixar músicas de graça.
Em vez disso, foi inventado o protocolo BitTorrent [para transferência de grande volume de dados entre usuários].
Quando a RIAA começou a derrubar sites de BitTorrent, surgiram clubes de compartilhamento de arquivos e uma criptografia melhor. Essas são forças de "hacking" que sempre tivemos: as mudanças serão apoiadas e reforçadas pelas comunidades on-line, sejam ou não legais ou desejáveis pelo ambiente regulatório e financeiro.


Em "Hacking Work", de 2010, você apoia romper regras para alcançar resultados melhores nas empresas privadas.



Em todas as empresas às quais dei consultoria sobre inovação e como usar tecnologia de maneira mais eficaz e mudar modelos de negócio, via que implantar mudança ou evolução numa organização é quase impossível, porque a cultura é reativa.
Com o passar do tempo, a empresa vai ganhando uma série de regras que limitam as pessoas. Parte do que você encontra nas "start-ups" [empresas iniciantes] que as torna tão eficientes é não terem, ainda, regras. Elas fazem tudo o que for necessário para serem eficientes.
O livro não sugere jogar tudo que se sabe fora. Ele propõe encontrar instâncias específicas em que você está sendo impedido de ser mais efetivo e focar métodos alternativos para quebrar o molde e termais sucesso, ajudando a empresa e até sua carreira.

Sua série de TV para o National Geographic, "The Link", de 2012, é transmitida aqui. Ela explora conexões entre diferentes saltos tecnológicos pela história. Qual é o vínculo entre a série e o novo livro?


O programa influenciou o livro, no sentido de estarmos num momento incomum da história em que algumas mudanças terão efeitos enormes e inesperados. Estamos começando a desenvolver modelos pré-financeiros para comércio, como [a moeda virtual obtida com a cessão de poder de processamento do seu computador] Bitcoin ou o [site para aluguel e sublocação direta de apartamentos para temporadas] Airbnb.
Nos próximos 5 ou 20 anos, veremos boa parte dos dois terços da humanidade que ainda não estão na internet aparecerem on-line, e eles vão querer usar métodos mais flexíveis de comércio. Essas pessoas estão hoje em grande parte no chamado "mercado negro", que gira US$ 10 trilhões.
Nos próximos 20 anos, esse será o método majoritário de comércio do planeta.
O que acontece quando a economia do mundo é ocupada, de uma hora para outra, por uma população que não usa instrumentos financeiros tradicionais? Ela vai alavancar uma série de plataformas que, hoje, são bonitinhas e divertidas. Não sabemos como será, mas sabemos que pode ser muito desestabilizador

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

As fronteiras entre esquerda e direita na Europa


A esquerda europeia se dilui. A socialdemocracia do Velho Continente ziguezagueia entre suas propostas ideais e uma ação política hiper-realista que não se separa dos cânones liberais quando tem que governar. Consensual, tíbia, moralista, apegada as suas conquistas do século passado, incapaz de oferecer uma visão alternativa que mobilize a sociedade, a socialdemocracia está em crise. As esquerdas da Europa são uma sombra do que já representaram em décadas passadas. Alguns analistas atribuem a ela até uma espéci e de “prolofobia”.

Nos últimos 20 anos, a socialdemocracia europeia foi perdendo seus tradicionais bastiões operários e populares ao mesmo tempo em que ganhava o coração dos novos burgueses urbanos. Essa transformação da sociologia de seu eleitorado também transformou a esquerda e a relação de força dentro do jogo eleitoral: os operários e as classes populares votam à direita, os “novos modernos” na socialdemocracia.


O resultado é uma indiferenciação cada vez maior entre ambos os setores. A socialdemocracia pode ser tão adepta da globalização, dos ajustes fiscais e liberal como a direita. A ortodoxia financeira não lhe é indiferente. Em troca, as classes populares, ano após ano, abandonam suas fileiras.


“Mas o povo existe!”, diz o sociólogo e cientista político francês Gaël Brustier (foto) em seu livro “Busca-se o povo desesperadamente”. Esse analista político escreveu vários livros sobre as transformações políticas atuais, especialmente sobre o futuro incerto da esquerda e a direitização das sociedades europeias. Em um de seus últimos livros, “La gue rre culturelle aura bien lieu” (A guerra cultural vai acontecer), Brustier define o combate que a esquerda deve travar para mudar esse imaginário coletivo onde a direita se instalou comodamente na Europa hoje em dia.
Sua análise sobre o presente das esquerdas europeias não faz concessões. As reflexões deGaël Brustier se inspiram muito nas do filósofo italiano Antonio Gramsci. Este pensador imperdível da esquerda foi um dos fundadores do Partido Comunista italiano. Gramsci foi preso pelo ditador fascista Benito Mussolini e morreu em 1937 quando saiu da cadeia. Nesta entrevista à Carta Maior, Gaël Brustie r analisa a crise da socialdemocracia europeia, sua penosa falta de iniciativas e sua indefinição.
A entrevista é de Eduardo Febbro, publicada por Carta Maior, 29-11-2013. A tradução é deMarco Aurélio Weissheimer.
Eis a entrevista.
A divisão histórica entre a esquerda e a direita, herdada da Revolução Francesa de 1789, parece estar chegando ao fim de um ciclo na Europa.
Com efeito. Essa divisão está sendo reconfigurada e reformada mediante outras diferenças. O conteúdo da esquerda de 2013 não é o mesmo do da esquerda de 1981, nem do de 1936. A direita também evoluiu. As diferenças entre esquerda e direita estão então em plena evolução, determinadas por sua vez pelas evoluções econômicas, pela desindustrialização e pela ruptura do esquema de classes sociais que atinge uma grande parte da população.
O Partido Socialista francês é hoje um partido de gente que vive nas grandes metrópoles, favoráveis à globalização. A direita, junto com a extrema direita, conseguiu conquistar os setores operários que durante muito tempo foram eleitores cativos da esquerda. Nos anos 80 ocorreram dois fenômenos: a ruptura do laço entre o voto classista, o voto operário, em favor da esquerda; e, paralelamente, a adesão de certa tecnoestrutura da esquerda às receitas liberais, à liberalização dos mercados internacionais. Esse setor da esquerda está convencido qu e é preciso desregulamentar e conduzir a França para o combate daglobalização liberal. Estes dois fenômenos  conjugados definem a situação atual.
Se tivéssemos que tornar visível a linha que separa hoje a esquerda da direita, por onde ela passa?
É muito complicado. Mas podemos dizer que a linha de fratura passa pela sociologia dos dois campos. Certa burguesia de negócios permaneceu à direita enquanto que muitos operários e empregados passaram da esquerda para a direita. Por outro lado, muitos jovens com diplomas, que trabalham no mundo das ideias, na imprensa, na comunicação, que estão conectados com a mundialização, toda essa gente conforma a sociologia da esquerda. A fratura entre esquerda e direita já não passa tanto pelas questões econômicas. Hoje, fundamentalmente, no que diz respeito às questões econômicas, as políticas que a socialdemocracia aplica na Europa não são tão diferentes das políticas aplicadas pelo bloco conservador. No parlamento europeu, por exempl o, os blocos da direita, o PPE, e da socialdemocracia, PSE, estão ligados pelo consenso europeu.
Por acaso, a Europa matou a esquerda, então?
O problema da esquerda europeia reside em que sempre se remeteu a um plano ideal para justificar a Europa real. Quando se construiu o mercado único, a esquerda disse: “na próxima etapa vamos construir a Europa social”. Mas essa Europa social nunca se tornou realidade. A esquerda disse também que as instituições europeias eram bastante oligárquicas e prometeu que, no futuro, construiria uma Europa democrática. Isso tampouco virou realidade. Em suma, a vocação de uma Europa ideal sempre serviu para justificar a existência da Europa real. Hoje chegamos ao fim dessa contradição.
A socialdemocracia pretende mudar a Europa ao mesmo tempo em que adere ao marco consensual europeu. Observemos o que ocorreu com o presidente francês François Hollande. Antes de ser eleito, Hollande prometeu que iria renegociar o famoso pacto fiscal europeu firmado pelo ex-presidente Nicolas Sarkozy e pela chanceler alemã Angela Merkel, pacto conhecido como Merkozy. Mas ele não cumpriu sua promessa impedindo que a política econômica europeia tomasse outra direção. Em resumo, as esquerdas europeias perderam a batalha ideológica. A Europa funcionou durante muito tempo como um mito de substituição.
Esta situação deixa um esquema muito claro: se usam os ideais para ganhar uma eleição, mas se governa exclusivamente com as realidades financeiras. Isso faz parte do consenso europeu.
O problema reside em saber quem é capaz de romper esse consenso. O Partido Socialista francês é, por exemplo, o mais poderoso da Europa: tem a presidência, as regiões mais importantes, as duas câmaras do Parlamento. Mas isso não ocorre com os demais partidos socialdemocratas da Europa. Por isso, não podem nem aceitar, nem aplicar um projeto socialdemocrata alternativo. A esquerda europeia poderia começar a propor um plano radicalmente distinto ao da direita. Mas não faz isso.
A esquerda europeia dá todos os sinais de estar no patíbulo: é incapaz de operar uma verdadeira mutação e também de propor uma alternativa.
A esquerda não morreu, ela é um gigante ferido. Até os sindicatos, que sempre foram o sustentáculo da esquerda, estão debilitados. Depois de um século de socialismo a esquerda se tornou incapaz de imprimir na sociedade uma verdadeira visão mobilizadora, um projeto claramente identificável. A socialdemocracia está em crise. A esquerda radical também está em crise porque nem substitui a socialdemocracia nem consegue desempenhar um papel de contraponto eficaz aos desvios dos socialdemocratas. Por paradoxal que seja, hoje é muito mais simples ser de direita que de esquerda. A direita navega sobre as ondas do pânico moral, sobre o medo da decadência. É muito simples. Mas é óbvio também que, à esquerda, não houve um trabalho crític o sobre a ideologia dominante.
É preciso não se enganar mais: a esquerda faz parte hoje da ideologia dominante e não consegue transmitir um imaginário alternativo. Essa é sua grande dificuldade. Se observamos o que ocorre na França, os protestos mais fortes não vêm das esquerdas, mas sim da direita.
Esta crise e estas novas fronteiras que você descreve são próprias da esquerda europeia. Elas não se aplicam tanto às esquerdas latino-americanas.

Certamente. As esquerdas latino-americanas são muito diferentes das esquerdas europeias. Em primeiro lugar, as esquerdas da América Latina assumiram e formaram um projeto geopolítico. Há 15 anos, ninguém pensaria que a América Latina teria a autonomia que alcançou hoje. É uma grande conquista. Os Estados Unidos já não podem dar ordens com tanta facilidade como antes, nem tampouco considerar que a América Latina é seu quintal.Kirchner na Argentina, Chávez na Venezuela, Correa no Equador, Morales na Bolívia ouLula no Brasil ganharam espaços enormes, imprimiram a afirmação de uma autonomia enorme em relação aos Estados Unidos. Esses presidentes tiveram uma visão geopolítica e um programa de ação social.
A situação das esquerdas europeias não é comparável com isso. As esquerdas latino-americanas impuseram suas agendas, conquistaram eleitores, desenvolveram sua visão de mundo. Esse esquema funciona porque essa esquerda é capaz de mobilizar a sociedade. Comparadas com as da Europa, as esquerdas latino-americanas são muito mais dinâmicas

sábado, 14 de dezembro de 2013

O fluxo de informações é uma questão política

                                 
O fluxo de informações é uma questão política
 
 
Para Laymert Garcia dos Santos o conflito de classes, em escala global, começa a acontecer no meio digital. E parte da esquerda ainda não percebeu o potencial politizador que se encontra ali.
 
 Segundo Laymert Garcia, “o caso Snowden é o último elo de uma cadeia que vem vindo de várias outras que já entenderam o enorme potencial das redes, de politizar as questões simplesmente pela circulação dos fluxos de informação. Por quê? Porque se o Estado e o mercado podem saber tudo sobre a população, explorando isso do ponto de vista do controle, por outro lado os movimentos também podem.” A ponderação é de Laymert Garcia dos Santos, doutor em Ciências da Informação pela Universidade de Paris VII e professor titular do Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, e remete à importância de se debater o funcionamento das redes e sua relação com as ruas, algo que veio à tona com as manifestações de junho no Brasil.
 
A entrevista é de Glauco Faria e Igor Carvalho e publicada pela Revista Fórum, 26-11-2013. 
 
Para Laymert, o advento do Wikileaks fez com que se prestasse mais atenção sobre quais informações as elites gostariam que não fossem reveladas. “O conflito de classes, em escala global, começa a acontecer nas redes, porque existe uma política de controle e hierarquização da informação nas redes, e, do outro lado, há gente trabalhando para a desobstrução dos canais”, afirma. “E isso é democracia, porque se você começ a a fazer todo o fluxo de informação passar, as pessoas ficam sabendo o que os de cima não querem que elas saibam.”
 
Eis trechos da entrevista. 
 
 
Como o senhor enxergou as manifestações de junho, principalmente o envolvimento delas com as novas tecnologias?
(...)
À medida que o tempo foi passando, como todo mundo, fui tentando entender o que estava acontecendo, mas sobretudo buscando compreender o papel das redes sociais. Comecei a achar que havia uma certa esquizofrenia no movimento, e essa esquizofrenia aparecia da seguinte maneira: eram reivindicações que, em geral, pertencem ao campo da esquerda, por mais democracia e direitos, portanto, no campo da esquerda, mas que quando chegava na hora das manifestações, as reivindicações eram verbalizadas com um tom que, no meu entender, era pautado pela mídia, em especial a questão da corrupção do modo como a mídia tinha trabalhado em demasia nos últimos anos.
Chamei de esquizofrênico por isso. De um lado, você tem as reivindicações de esquerda, por direitos, mas ao mesmo tempo com uma linguagem mista e que permitiu, inclusive, uma tentativa de recuperação das jornadas pela direita. Para mim, essa esquizofrenia se duplicava na relação entre novas tecnologias e velhas mídias, porque mostrava a permeabilidade dos jovens à mídia tradicional e à oposição programática que essa mídia tradicional tem com relação aos governos de esquerda. Ela [mídia tradicional] é francamente reacionária e francamente conservadora, considero que se trata praticamente um partido organizado. Por outro lado, há uma utilização das novas tecnologias de uma maneira muito contemporânea e de certo modo bem generosa, de esquerda, mas também mistu rada com essa coisa de redes sociais. Apesar de saber utilizar muito bem essa mídia para se mobilizar, a juventude não a usava para se informar.
(...)
 
Um outro aspecto importante diz respeito ao envelhecimento do discurso politico tradicional e da própria mídia, apesar do efeito que causou sobre os manifestantes, em lidar com o assunto. O caráter jurássico da televisão e dos jornais para lidar e cobrir os assuntos ficou evidente. Isso foi um dos efeitos positivos dessa história, por exemplo, se a Globo tem que pedir desculpas, não importa se é hipócrita ou não, é porque alguma coisa aconteceu e arranhou a imagem dela.
 
Se a Globo começa a pensar que ela precisa ter o Fernando Meirelles para diretor-geral, é porque eles sentiram, com as jornadas de junho, que de repente a linguagem, o modo de abordar ficaram visivelmente superados, e para mim o ponto onde isso apareceu com mais vigor foi na incapacidade de sequer entender o que aqueles meninos do Mídia Ninja queriam dizer. Tentaram criminalizá-los, dizer que era uma mídia chapa-branca, que recebia verbas públicas… O que aconteceu de fato ali, que foi bem importante, é que as repostas deixavam claro que tinha uma outra lógica funcionando, inclusive de trabalho em rede, de cooperação e de colaboração, que escapava do esquema empresarial.
 
Um dos fatores importantes das jornadas é que houve um update da juventude em relação a uma série de questões, entre elas a redescoberta da rua, que depois vai aparecer nessa espécie de fragmentação de manifestações e reivindicações. Fragmentação que não acho ruim, pois é interessante que as pessoas saibam que elas podem – já podiam, mas não sabiam que podiam – se mobilizar. A questão da rua mudou, mas houve uma politização que começa a acontecer em relação aos próprios meios digitais. Se a passagem do Fora do Eixo para a Mídia Ninja acontece nesse momento não é por acaso; o que antes era uma prática cultural passa a ser uma prática cultural e política ao mesmo tempo, porque abrange uma compreensão sobre fazer política de um outro modo.
 
Essa questão não está ligada justamente a esse caráter esquizofrênico? Às vezes as pessoas foram lá pautadas pela mídia tradicional mesmo sem saber, e, quando aparece um microfone da Globo, rejeitam essa mesma mídia tradicional. Hoje, observamos que as coberturas ao vivo das manifestações são feitas de cima, de prédios ou helicópteros ou de jornalistas sem identificação, enquanto outras mídias estão no chão, em meio à multidão…
 
Por isso disse que era esquizofrênico. Por um lado, aquilo que era reivindicado era uma pauta de esquerda, mas a linguagem ainda estava ligada a uma cabeça permeável a essa mídia, e uma das coisas boas que aconteceu é que houve uma politização aí, com relação à própria mídia, e uma distância desse discurso que era um modo de expressão dominante, sobretudo da classe média. Tem várias nuances, quando falo das manifestações, me refiro às grandes que aconteceram nas cidades maiores, que pegavam uma faixa grande de classe média. Porque, desde o começo, se você observava o que se dizia na periferia é “aqui a bala não é de borracha”. Essa foi uma das primeiras coisas que apareceu em relação à repressão policial no centro, a crítica sobre o papel da políc ia, o quanto a PM é uma herança da ditadura e a necessidade de se discutir essa questão e modificar a forma como é pensada a segurança…
(...)
 
A questão do patrimônio… Lembro que um dos grandes “escândalos” em uma das primeiras manifestações foi o ataque a uma agência de automóveis, no mesmo dia em que houve uma intervenção militar na Maré, em que morreram nove pessoas. E o escarcéu foi em torno da agência de automóveis. Se tem, por um lado, uma espécie de violência seletiva, por outro tem de ser sempre lembrado que a questão do patrimônio é mais sacrossanta na visão da mídia tradicional e dos conservadores, e a vida das pessoas, não. Na Maré, ninguém levantou o dedo para apontar que havia ocorrido um verdadeiro massacre.
(...)
 
Os manifestantes não aceitam, por exemplo, a Rede Globo nas manifestações, mas os marcos regulatórios das comunicações e da internet ainda não se tornaram bandeiras ativas nas ruas.
 
Quando comecei a ver algumas manifestações de “Fora Globo” e depois, ainda, manifestações na frente da emissora, paralelamente corria o caso do [Edward] Snowden. No início as questões estavam totalmente dissociadas e depois se juntaram, comecei a prestar mais atenção nele do que no outro pedaço, porque percebi que aquilo era histórico. Quando começaram as manifestações na porta da Globo, comentei aqui em casa: Será que não era mais importante haver manifestações pelo marco regulatório? Será que é mais importante atacar a mídia velha ou já assumir a discussão da regulação das novas míd ias, porque é com elas que está o futuro, não está com a imprensa escrita e nem mesmo com a televisão. Será que não é na questão das redes que estaria a questão principal e a briga do marco regulatório? Até porque existem setores do governo que são bastante permeáveis aos interesses das teles, da televisão tradicional, que estão, inclusive, emperrando no Congresso a votação dessa lei.
 
Existe em vários setores do governo…
 
Claro. Mas parecia que ainda não era pauta, e de certo modo ainda não se tornou uma pauta política dos jovens, e aquele momento era muito importante para se tornar uma pauta dos jovens, porque juntou tudo quando as revelações do Snowden chegaram aqui, e principalmente quando a presidenta da República tem sua comunicação espionada. Não dá mais para invocar a explicação que eles deram, de que o motivo da bisbilhotagem era só por razões de terrorismo. Torna-se absolutamente necessário um marco que regule a internet, que seja pela proteção da privacidade e que possa se estabelecer uma política digita l, necessária até por questões de soberania.
Por outro lado, é preciso que haja uma pressão da sociedade civil e sobretudo dos jovens no sentindo de entender que a questão da defesa da privacidade é política, e é extremamente importante não para você colocar sua fofoca em dia pelo Facebook, o que precisa se defender é uma outra lógica de operação em rede. Essa lógica, de certa maneira, já vem sendo trabalhada no Brasil desde o começo do governo Lula, o Ministério da Cultura do Gil tin ha uma estratégia em relação a isso, unir diversidade cultural e cultura digital. Por que isso?
Justamente por ser potência com potência. Potência das novas tecnologias com uma potência de uma cultura popular forte que existe no Brasil, mas que não encontra canal, porque os canais estão estrangulados e dominados por uma produção cultural que não é feita para a população. Ou ela é feita para a elite ou é feita com o objetivo de massa e de indústria cultural, de exploração comercial. Mas a riqueza da cultura popular não é engatada positivamente de tal maneira que possa se desenvolver e criar condições não só para a ampliação, inclusão cultural, mas para que esses jovens possam encontrar uma inserção social através da produção de cultura. O Gil viu isso muito claramente e fez disso uma estratégia, reconhecida internacionalmente, porque nós éra mos um dos países que estavam na ponta na relação entre cultura e tecnologia, e na ponta do entendimento da possibilidade que o digital traz, inclusive na política, trabalhando na lógica cooperativa, daquilo que escapa da propriedade intelectual, do software livre, do Commons.
Não é por acaso que o sujeito que inventou o “www” [Tim Berners-Lee] disse que o marco regulatório brasileiro, se aprovado, será o mais avançado do mundo na questão da proteção das liberdades individuais. Por que ele é o mais avançado? Justamente porque já tem um caldo cultural, conversei com alguns desses grandes advogados americanos que trabalham na questão do Creative Commons, do software livre, e eles achavam que tem uma política de ponta no Brasil, uma elaboração feita… Depois que entrou o governo Dilma, isso deu uma arrefecida, veio a Ana de Hollanda [ex-ministra da Cultura], que foi um retrocesso e ainda estamos em processo de retomada. Dá para entender o que eu digo?
Agora, com o fato de os americanos terem feito o que fizeram [espionagem na NSA], temos uma oportunidade de ter uma política de Estado que é crucial, porque é o futuro. A questão do digital é o futuro, não tem volta. Se não estivermos preparados para isso, não estamos preparados para essa autonomia que estamos começando a desenhar, que começou há dez anos, em 2003, e é nessa autonomia relativa que temos de navegar. E pude perceber porque acompanhei de perto, nas ações do Ministério da Cultura, que existia uma sintonia forte entre a nova diplomacia brasileira e o que era a visão estratégica de cult ura do Gil. Um entendimento forte em relação a qual era o papel do Brasil na América Latina, seu papel no mundo, que diferença poderíamos fazer, já existe um pensamento no Brasil, uma prática e um conhecimento acumulado que permite que isso tenha vazão, e essa luta da cultura e da tecnologia precisa ser reconhecida como pauta mesmo.
 
Dentro dessa sua ideia de entender o digital como o futuro e remetendo um pouco às manifestações. Nós tínhamos esse setor do Gil, com o Juca Ferreira, no governo Lula, que tinha esse entendimento muito claro do papel da tecnologia aliada à cultura. Mas as manifestações também não mostraram para certos setores que estão analógicos demais? Ou seja, nossos partidos de esquerda, muitos sindicatos e movimentos sociais não tratam desse tema ainda.
 
Concordo plenamente com a análise que você faz, tem uma questão que para mim é complicada, a incapacidade que governos do PT tiveram em lidar com a questão da mídia. De certo modo, ela permaneceu intocada, até quando houve momentos em que alguma coisa de mais forte poderia ter sido feito, quando a Globo fez uma aposta errada no mercado financeiro e entrou em uma situação de crise. Ali havia um flanco aberto, mas o governo Lula foi lá e bancou, sem colocar condições.
Isso continua até hoje. Em parte, isso se deve ao fato de a esquerda brasileira nunca ter feito a crítica de fundo da mídia. E nem da tecnologia. A posição de esquerda de partidos, sindicatos etc. é de que os meios são neutros e tudo depende de quem se apropria dessa técnica e, portanto, quando chegar o momento de a esquerda estar no poder, se faz uma inversão de signos. Isso é o máximo que a esquerda pensou sobre essa questão, e há muitos anos venho pensando e batalhando por um outro entendimento, porque não é possível você considerar a tecnologia como algo meramente instrumental, quando ela modifica completamente todos os tipos de relação. A tecnologia, sobretudo depois da virada cibernética, mudou a vida, o trabalho e a linguagem. Ou seja, mudaram as relaçõe s. Nessas condições, se você não fizer uma crítica de fundo, vai acabar fazendo aquilo que critica em seu adversário, vai fazer isso achando que colocou um conteúdo de esquerda, mas as práticas serão as mesmas. Assim, vai ser tão manipulatório e antidemocrático quanto antes e, de certo modo, desconhecendo o próprio potencial que a tecnologia traz.
(...)
 
Em relação às novas tecnologias, para o PT, para os sindicatos e movimentos sociais, ainda não caiu a ficha da sua importância e que isso pode ser trabalhado de uma outra lógica, colocando em xeque políticas de controle global. O caso Snowden é o último elo de uma cadeia que vem vindo de várias outras que já entenderam o enorme potencial das redes, de politizar as questões simplesmente pela circulação dos fluxos de informação. Por q uê? Porque se o Estado e o mercado podem saber tudo sobre a população, explorando isso do ponto de vista do controle, por outro lado os movimentos também podem, e isso o Wikileaks começou a fazer, a prestar atenção sobre quais informações os super-ricos querem suprimir.
O conflito de classes, em escala global, começa a acontecer nas redes, porque existe uma política de controle e hierarquização da informação nas redes, e, do outro lado, há gente trabalhando para a desobstrução dos canais. E isso é democracia, porque se você começa a fazer todo o fluxo de informação passar, as pessoas ficam sabendo o que os de cima não querem que elas saibam. É o que está acontecendo com o Snowden de novo. Isso a própria tecnologia permite como a lógica de funcionamento em rede auxilia na distribuição da informação. O que as pessoas não entendem de jeito nenhum é que a informação é a diferença que faz a diferença, e também é o valor do capitalismo contemporâneo.
Quando a informação se tornou valor, e isso começou na década de 1970, a questão se colocou: “Como ganhar dinheiro com a informação?”. Porque a informação não tinha preço. Foi reelaborada e inventada uma coisa que se chama direito de propriedade intelectual, que não é só uma extensão do direito autoral e do direito de invenção da propriedade industrial, é muito mais do que isso. É o que alguns especialistas chamam de “a última enclosure”, o último cercado que começou na Inglaterra com o começo do capitalismo, quando se cercou a terra.
Agora vamos criar um que vai cercar essa unidade mínima que é a diferença que faz a diferença, para garantir a exploração desse valor como unidade mínima, e, ao mesmo tempo, com um alcance global. A lógica das redes, de seu funcionamento e aperfeiçoamento, é colaborativa, e, sendo colaborativa, ela escapa, é da sua própria lógica que as informações circulem. Se não circulam é porque começam a colocar gargalos para cercar e fazer a captura dentro do sistema que permite que isso vire uma propriedade. A esquerda ainda não entendeu o alcance que isso tem como luta política. Se pegarmos, por exemplo, esse sistema anglo-americano de espionagem, porque são americanos, mas os ingleses estão acoplados, como eles chamam as primeiras operações por meio desses sistemas? Vão dar os nomes das primeiras batalhas imperialistas, tanto dos EUA quanto da Inglaterra. Por quê? Porque começou, em outro plano, um outro tipo de imperialismo, e se você não estiver preparado para lutar neste outro plano, como vai perceber o que está em jogo? Existe uma guerra, hoje, no mundo digital, mas é real também porque a dimensão virtual da realidade é tão real quanto a física. Mas a ficha ainda não caiu que esse conflito está lá, e é claro que isso precisa ser entendido, se tornar uma questão política de ponta. Ainda não vi as pessoas se mobilizando para defender o marco regulatório da internet; inclusive, se a gente fizer isso, ou vier a fazer num futuro próximo, vamos ser modelo para outros países que estão com o mesmo problema. Mas precisamos fazer.
Não se faz democracia sem informação, e a maneira de fazer democracia atualmente é expondo, para os ricos, aquilo que eles fazem para o resto da população. Se eles podem fazer tudo e levantar tudo sobre a população, e estão o tempo inteiro se protegendo e protegendo essa informação, sobretudo para destruir aquilo que não deve ser conhecido, os caras que aparecem, de certa maneira, e levantam esse movimento, mostram como essa lógica de captura funciona, estão trabalhando para uma desobstrução de canais, algo absolutamente fundamental. Só pela desobstrução de canais e por uma luta entendendo o que é a propriedade intelectual e o que é fechar a informação para uma apropriação é que você vai poder lutar no futuro, porque não se pode mais voltar para trás. Qu ando se observa a geração de agora, de 20 anos, eles não conseguem nem lembrar, aliás, nem conseguem saber o que é o mundo sem internet. Nós também não. Algum de nós consegue viver sem internet? Claro que não.
Esse campo, esse fluxo das redes, já se constituiu num campo de batalha para as grandes potências, para o grande capital também, mas muita gente, inclusive da esquerda, ainda não captou isso. A gente pode dizer hoje que as redes e as novas tecnologias são essa nova expressão da luta de classes, só que ninguém enxergou ainda?
Não é que há um determinismo tecnológico, não é essa a questão, se essas máquinas existem é porque as forças produtivas se desenvolveram a ponto de criar essas máquinas. Mas elas colocam a luta política em outro patamar, e esse outro patamar não pode mais deixar de ser levado em conta porque a luta vai se passar lá. Não só lá, mas não é possível entender as ruas hoje, no Brasil e em outros países, sem entender o binômio redes e ruas, com suas especificidades. O modo como o movimento se dá nas redes não é exatamente o mesmo que se dá nas ruas, a relação rede-rua é que tem de ser pensada junto, na sua articulação, e isso é política. Chamo isso de tecnopolítica porque não é mais possível pensar a política sem a tecnologia junto. Estamos vendo agora na política internacional, em que se discute aquilo que se passa nas redes.
Mas ela ainda é excludente…
Claro que é excludente, e se você quiser expandir a democracia política no país, tem de ter banda larga pra todo mundo e com preço acessível, mas tem de ser uma política de Estado. Já devia haver uma diretriz nesse sentido, porque o acesso às comunicações no Brasil é muito caro, não só a banda larga como a telefonia celular é extremamente cara para uma qualidade ruim, a relação qualidade-preço é absurda, e isso revela que existe muito caminho para ser trilhado aqui. É preciso garantir o acesso para a população, mas também trabalhar a educação digital dessas pessoas, e acho que foi isso que o Gil sacou, que podia fazer uma relação entre riqueza cultural e um povo sem acesso. O mais importante é abrir canais novos, e o potencial que a pessoa tem na periferi a encontra uma maneira de realizar aquilo, não se torna só um consumidor de uma cultura que vem de cima para baixo. É uma diferença enorme. E até a dependência em relação à mídia velha vai sendo cada vez menor.
Em relação à educação, existe também a questão do trabalho imaterial, que começa a ganhar importância; não sei se é possível isolar, mas como isso modifica a luta dos trabalhadores, dos sindicatos e como entra a questão educacional nesse sentido?
A virada cibernética começou nos anos 1950 nos laboratórios, e nos anos 1970, as máquinas inteligentes começaram a entrar, com os computadores pessoais, em todos os setores, na vida social, na produção, em tudo. Houve uma alteração que é crescente, e cada vez mais profunda, da vida e do trabalho das pessoas, afetou o modo como se trabalhava, instaurando o que muitos chamam, inclusive, de crise da sociedade de trabalho. Porque as máquinas começaram a substituir não só a força física, como era no século XIX, com as máquinas a vapor substituindo quem fazia a força motora, mas passou a fazer todo tipo de trabalho que não é o de invenção, que a máquina não é capaz de criar ela própria. Fora esse trabalho, a substituição do trabalhador pela máquina é cada ve z maior, tanto que vemos, desde que isso começou, um paradoxo enorme no qual todos os governos do mundo dizem que precisam aumentar o nível de emprego, e fomentam políticas que substituem os humanos pelas máquinas. Você diz o tempo todo que vai lutar pelo aumento do emprego e, ao mesmo tempo, implanta uma política que elimina o trabalhador e põe uma máquina no lugar dele.
Claro que não é culpa das máquinas, e sim das relações sociais, pois se elas ocupam o lugar dos humanos, eles poderiam ser liberados e preparados para fazer o trabalho que elas não podem fazer. Mas esse desenvolvimento é usado contra o trabalhador, fazendo com que antes ele fizesse uma greve por melhores condições de trabalho e depois da era cibernética, que ele pedisse pelo amor de Deus pra trabalhar. Essa mudança é o que os especialistas chamam de crise da sociedade do trabalho. Hoje a precarização é tal que você luta para manter o seu trabalho. Ao mesmo tempo, essa nova situação cria condições para que outro tipo de trabalho possa acontecer, de caráter colaborativo, escapando dessa lógica.
É necessário que os sindicatos, os trabalhadores discutam isso, quais são as positividades que podem ajudar para não transformar isso em um ludismo, uma briga contra a máquina. Por outro lado, tem de haver uma educação que já integre essa frente de transformação digital porque o mundo se transformou em algo no qual a dimensão digital é incontornável, e é preciso que a população seja educada pra isso. Qual o problema principal depois que você consegue o acesso? É que é necessário ter uma educação para que, dentro daquele fluxo gigantesco de informações, você possa ter parâmetros para discriminar a informação que vai ser boa para você. Não é só o acesso físico, se não tiver critério para se politizar dentro disso, por exemplo, você vai usar a máquina como uma televisão. Usa 1% dela, e no que ela tem de pior.