segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

As fronteiras entre esquerda e direita na Europa


A esquerda europeia se dilui. A socialdemocracia do Velho Continente ziguezagueia entre suas propostas ideais e uma ação política hiper-realista que não se separa dos cânones liberais quando tem que governar. Consensual, tíbia, moralista, apegada as suas conquistas do século passado, incapaz de oferecer uma visão alternativa que mobilize a sociedade, a socialdemocracia está em crise. As esquerdas da Europa são uma sombra do que já representaram em décadas passadas. Alguns analistas atribuem a ela até uma espéci e de “prolofobia”.

Nos últimos 20 anos, a socialdemocracia europeia foi perdendo seus tradicionais bastiões operários e populares ao mesmo tempo em que ganhava o coração dos novos burgueses urbanos. Essa transformação da sociologia de seu eleitorado também transformou a esquerda e a relação de força dentro do jogo eleitoral: os operários e as classes populares votam à direita, os “novos modernos” na socialdemocracia.


O resultado é uma indiferenciação cada vez maior entre ambos os setores. A socialdemocracia pode ser tão adepta da globalização, dos ajustes fiscais e liberal como a direita. A ortodoxia financeira não lhe é indiferente. Em troca, as classes populares, ano após ano, abandonam suas fileiras.


“Mas o povo existe!”, diz o sociólogo e cientista político francês Gaël Brustier (foto) em seu livro “Busca-se o povo desesperadamente”. Esse analista político escreveu vários livros sobre as transformações políticas atuais, especialmente sobre o futuro incerto da esquerda e a direitização das sociedades europeias. Em um de seus últimos livros, “La gue rre culturelle aura bien lieu” (A guerra cultural vai acontecer), Brustier define o combate que a esquerda deve travar para mudar esse imaginário coletivo onde a direita se instalou comodamente na Europa hoje em dia.
Sua análise sobre o presente das esquerdas europeias não faz concessões. As reflexões deGaël Brustier se inspiram muito nas do filósofo italiano Antonio Gramsci. Este pensador imperdível da esquerda foi um dos fundadores do Partido Comunista italiano. Gramsci foi preso pelo ditador fascista Benito Mussolini e morreu em 1937 quando saiu da cadeia. Nesta entrevista à Carta Maior, Gaël Brustie r analisa a crise da socialdemocracia europeia, sua penosa falta de iniciativas e sua indefinição.
A entrevista é de Eduardo Febbro, publicada por Carta Maior, 29-11-2013. A tradução é deMarco Aurélio Weissheimer.
Eis a entrevista.
A divisão histórica entre a esquerda e a direita, herdada da Revolução Francesa de 1789, parece estar chegando ao fim de um ciclo na Europa.
Com efeito. Essa divisão está sendo reconfigurada e reformada mediante outras diferenças. O conteúdo da esquerda de 2013 não é o mesmo do da esquerda de 1981, nem do de 1936. A direita também evoluiu. As diferenças entre esquerda e direita estão então em plena evolução, determinadas por sua vez pelas evoluções econômicas, pela desindustrialização e pela ruptura do esquema de classes sociais que atinge uma grande parte da população.
O Partido Socialista francês é hoje um partido de gente que vive nas grandes metrópoles, favoráveis à globalização. A direita, junto com a extrema direita, conseguiu conquistar os setores operários que durante muito tempo foram eleitores cativos da esquerda. Nos anos 80 ocorreram dois fenômenos: a ruptura do laço entre o voto classista, o voto operário, em favor da esquerda; e, paralelamente, a adesão de certa tecnoestrutura da esquerda às receitas liberais, à liberalização dos mercados internacionais. Esse setor da esquerda está convencido qu e é preciso desregulamentar e conduzir a França para o combate daglobalização liberal. Estes dois fenômenos  conjugados definem a situação atual.
Se tivéssemos que tornar visível a linha que separa hoje a esquerda da direita, por onde ela passa?
É muito complicado. Mas podemos dizer que a linha de fratura passa pela sociologia dos dois campos. Certa burguesia de negócios permaneceu à direita enquanto que muitos operários e empregados passaram da esquerda para a direita. Por outro lado, muitos jovens com diplomas, que trabalham no mundo das ideias, na imprensa, na comunicação, que estão conectados com a mundialização, toda essa gente conforma a sociologia da esquerda. A fratura entre esquerda e direita já não passa tanto pelas questões econômicas. Hoje, fundamentalmente, no que diz respeito às questões econômicas, as políticas que a socialdemocracia aplica na Europa não são tão diferentes das políticas aplicadas pelo bloco conservador. No parlamento europeu, por exempl o, os blocos da direita, o PPE, e da socialdemocracia, PSE, estão ligados pelo consenso europeu.
Por acaso, a Europa matou a esquerda, então?
O problema da esquerda europeia reside em que sempre se remeteu a um plano ideal para justificar a Europa real. Quando se construiu o mercado único, a esquerda disse: “na próxima etapa vamos construir a Europa social”. Mas essa Europa social nunca se tornou realidade. A esquerda disse também que as instituições europeias eram bastante oligárquicas e prometeu que, no futuro, construiria uma Europa democrática. Isso tampouco virou realidade. Em suma, a vocação de uma Europa ideal sempre serviu para justificar a existência da Europa real. Hoje chegamos ao fim dessa contradição.
A socialdemocracia pretende mudar a Europa ao mesmo tempo em que adere ao marco consensual europeu. Observemos o que ocorreu com o presidente francês François Hollande. Antes de ser eleito, Hollande prometeu que iria renegociar o famoso pacto fiscal europeu firmado pelo ex-presidente Nicolas Sarkozy e pela chanceler alemã Angela Merkel, pacto conhecido como Merkozy. Mas ele não cumpriu sua promessa impedindo que a política econômica europeia tomasse outra direção. Em resumo, as esquerdas europeias perderam a batalha ideológica. A Europa funcionou durante muito tempo como um mito de substituição.
Esta situação deixa um esquema muito claro: se usam os ideais para ganhar uma eleição, mas se governa exclusivamente com as realidades financeiras. Isso faz parte do consenso europeu.
O problema reside em saber quem é capaz de romper esse consenso. O Partido Socialista francês é, por exemplo, o mais poderoso da Europa: tem a presidência, as regiões mais importantes, as duas câmaras do Parlamento. Mas isso não ocorre com os demais partidos socialdemocratas da Europa. Por isso, não podem nem aceitar, nem aplicar um projeto socialdemocrata alternativo. A esquerda europeia poderia começar a propor um plano radicalmente distinto ao da direita. Mas não faz isso.
A esquerda europeia dá todos os sinais de estar no patíbulo: é incapaz de operar uma verdadeira mutação e também de propor uma alternativa.
A esquerda não morreu, ela é um gigante ferido. Até os sindicatos, que sempre foram o sustentáculo da esquerda, estão debilitados. Depois de um século de socialismo a esquerda se tornou incapaz de imprimir na sociedade uma verdadeira visão mobilizadora, um projeto claramente identificável. A socialdemocracia está em crise. A esquerda radical também está em crise porque nem substitui a socialdemocracia nem consegue desempenhar um papel de contraponto eficaz aos desvios dos socialdemocratas. Por paradoxal que seja, hoje é muito mais simples ser de direita que de esquerda. A direita navega sobre as ondas do pânico moral, sobre o medo da decadência. É muito simples. Mas é óbvio também que, à esquerda, não houve um trabalho crític o sobre a ideologia dominante.
É preciso não se enganar mais: a esquerda faz parte hoje da ideologia dominante e não consegue transmitir um imaginário alternativo. Essa é sua grande dificuldade. Se observamos o que ocorre na França, os protestos mais fortes não vêm das esquerdas, mas sim da direita.
Esta crise e estas novas fronteiras que você descreve são próprias da esquerda europeia. Elas não se aplicam tanto às esquerdas latino-americanas.

Certamente. As esquerdas latino-americanas são muito diferentes das esquerdas europeias. Em primeiro lugar, as esquerdas da América Latina assumiram e formaram um projeto geopolítico. Há 15 anos, ninguém pensaria que a América Latina teria a autonomia que alcançou hoje. É uma grande conquista. Os Estados Unidos já não podem dar ordens com tanta facilidade como antes, nem tampouco considerar que a América Latina é seu quintal.Kirchner na Argentina, Chávez na Venezuela, Correa no Equador, Morales na Bolívia ouLula no Brasil ganharam espaços enormes, imprimiram a afirmação de uma autonomia enorme em relação aos Estados Unidos. Esses presidentes tiveram uma visão geopolítica e um programa de ação social.
A situação das esquerdas europeias não é comparável com isso. As esquerdas latino-americanas impuseram suas agendas, conquistaram eleitores, desenvolveram sua visão de mundo. Esse esquema funciona porque essa esquerda é capaz de mobilizar a sociedade. Comparadas com as da Europa, as esquerdas latino-americanas são muito mais dinâmicas

sábado, 14 de dezembro de 2013

O fluxo de informações é uma questão política

                                 
O fluxo de informações é uma questão política
 
 
Para Laymert Garcia dos Santos o conflito de classes, em escala global, começa a acontecer no meio digital. E parte da esquerda ainda não percebeu o potencial politizador que se encontra ali.
 
 Segundo Laymert Garcia, “o caso Snowden é o último elo de uma cadeia que vem vindo de várias outras que já entenderam o enorme potencial das redes, de politizar as questões simplesmente pela circulação dos fluxos de informação. Por quê? Porque se o Estado e o mercado podem saber tudo sobre a população, explorando isso do ponto de vista do controle, por outro lado os movimentos também podem.” A ponderação é de Laymert Garcia dos Santos, doutor em Ciências da Informação pela Universidade de Paris VII e professor titular do Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, e remete à importância de se debater o funcionamento das redes e sua relação com as ruas, algo que veio à tona com as manifestações de junho no Brasil.
 
A entrevista é de Glauco Faria e Igor Carvalho e publicada pela Revista Fórum, 26-11-2013. 
 
Para Laymert, o advento do Wikileaks fez com que se prestasse mais atenção sobre quais informações as elites gostariam que não fossem reveladas. “O conflito de classes, em escala global, começa a acontecer nas redes, porque existe uma política de controle e hierarquização da informação nas redes, e, do outro lado, há gente trabalhando para a desobstrução dos canais”, afirma. “E isso é democracia, porque se você começ a a fazer todo o fluxo de informação passar, as pessoas ficam sabendo o que os de cima não querem que elas saibam.”
 
Eis trechos da entrevista. 
 
 
Como o senhor enxergou as manifestações de junho, principalmente o envolvimento delas com as novas tecnologias?
(...)
À medida que o tempo foi passando, como todo mundo, fui tentando entender o que estava acontecendo, mas sobretudo buscando compreender o papel das redes sociais. Comecei a achar que havia uma certa esquizofrenia no movimento, e essa esquizofrenia aparecia da seguinte maneira: eram reivindicações que, em geral, pertencem ao campo da esquerda, por mais democracia e direitos, portanto, no campo da esquerda, mas que quando chegava na hora das manifestações, as reivindicações eram verbalizadas com um tom que, no meu entender, era pautado pela mídia, em especial a questão da corrupção do modo como a mídia tinha trabalhado em demasia nos últimos anos.
Chamei de esquizofrênico por isso. De um lado, você tem as reivindicações de esquerda, por direitos, mas ao mesmo tempo com uma linguagem mista e que permitiu, inclusive, uma tentativa de recuperação das jornadas pela direita. Para mim, essa esquizofrenia se duplicava na relação entre novas tecnologias e velhas mídias, porque mostrava a permeabilidade dos jovens à mídia tradicional e à oposição programática que essa mídia tradicional tem com relação aos governos de esquerda. Ela [mídia tradicional] é francamente reacionária e francamente conservadora, considero que se trata praticamente um partido organizado. Por outro lado, há uma utilização das novas tecnologias de uma maneira muito contemporânea e de certo modo bem generosa, de esquerda, mas também mistu rada com essa coisa de redes sociais. Apesar de saber utilizar muito bem essa mídia para se mobilizar, a juventude não a usava para se informar.
(...)
 
Um outro aspecto importante diz respeito ao envelhecimento do discurso politico tradicional e da própria mídia, apesar do efeito que causou sobre os manifestantes, em lidar com o assunto. O caráter jurássico da televisão e dos jornais para lidar e cobrir os assuntos ficou evidente. Isso foi um dos efeitos positivos dessa história, por exemplo, se a Globo tem que pedir desculpas, não importa se é hipócrita ou não, é porque alguma coisa aconteceu e arranhou a imagem dela.
 
Se a Globo começa a pensar que ela precisa ter o Fernando Meirelles para diretor-geral, é porque eles sentiram, com as jornadas de junho, que de repente a linguagem, o modo de abordar ficaram visivelmente superados, e para mim o ponto onde isso apareceu com mais vigor foi na incapacidade de sequer entender o que aqueles meninos do Mídia Ninja queriam dizer. Tentaram criminalizá-los, dizer que era uma mídia chapa-branca, que recebia verbas públicas… O que aconteceu de fato ali, que foi bem importante, é que as repostas deixavam claro que tinha uma outra lógica funcionando, inclusive de trabalho em rede, de cooperação e de colaboração, que escapava do esquema empresarial.
 
Um dos fatores importantes das jornadas é que houve um update da juventude em relação a uma série de questões, entre elas a redescoberta da rua, que depois vai aparecer nessa espécie de fragmentação de manifestações e reivindicações. Fragmentação que não acho ruim, pois é interessante que as pessoas saibam que elas podem – já podiam, mas não sabiam que podiam – se mobilizar. A questão da rua mudou, mas houve uma politização que começa a acontecer em relação aos próprios meios digitais. Se a passagem do Fora do Eixo para a Mídia Ninja acontece nesse momento não é por acaso; o que antes era uma prática cultural passa a ser uma prática cultural e política ao mesmo tempo, porque abrange uma compreensão sobre fazer política de um outro modo.
 
Essa questão não está ligada justamente a esse caráter esquizofrênico? Às vezes as pessoas foram lá pautadas pela mídia tradicional mesmo sem saber, e, quando aparece um microfone da Globo, rejeitam essa mesma mídia tradicional. Hoje, observamos que as coberturas ao vivo das manifestações são feitas de cima, de prédios ou helicópteros ou de jornalistas sem identificação, enquanto outras mídias estão no chão, em meio à multidão…
 
Por isso disse que era esquizofrênico. Por um lado, aquilo que era reivindicado era uma pauta de esquerda, mas a linguagem ainda estava ligada a uma cabeça permeável a essa mídia, e uma das coisas boas que aconteceu é que houve uma politização aí, com relação à própria mídia, e uma distância desse discurso que era um modo de expressão dominante, sobretudo da classe média. Tem várias nuances, quando falo das manifestações, me refiro às grandes que aconteceram nas cidades maiores, que pegavam uma faixa grande de classe média. Porque, desde o começo, se você observava o que se dizia na periferia é “aqui a bala não é de borracha”. Essa foi uma das primeiras coisas que apareceu em relação à repressão policial no centro, a crítica sobre o papel da políc ia, o quanto a PM é uma herança da ditadura e a necessidade de se discutir essa questão e modificar a forma como é pensada a segurança…
(...)
 
A questão do patrimônio… Lembro que um dos grandes “escândalos” em uma das primeiras manifestações foi o ataque a uma agência de automóveis, no mesmo dia em que houve uma intervenção militar na Maré, em que morreram nove pessoas. E o escarcéu foi em torno da agência de automóveis. Se tem, por um lado, uma espécie de violência seletiva, por outro tem de ser sempre lembrado que a questão do patrimônio é mais sacrossanta na visão da mídia tradicional e dos conservadores, e a vida das pessoas, não. Na Maré, ninguém levantou o dedo para apontar que havia ocorrido um verdadeiro massacre.
(...)
 
Os manifestantes não aceitam, por exemplo, a Rede Globo nas manifestações, mas os marcos regulatórios das comunicações e da internet ainda não se tornaram bandeiras ativas nas ruas.
 
Quando comecei a ver algumas manifestações de “Fora Globo” e depois, ainda, manifestações na frente da emissora, paralelamente corria o caso do [Edward] Snowden. No início as questões estavam totalmente dissociadas e depois se juntaram, comecei a prestar mais atenção nele do que no outro pedaço, porque percebi que aquilo era histórico. Quando começaram as manifestações na porta da Globo, comentei aqui em casa: Será que não era mais importante haver manifestações pelo marco regulatório? Será que é mais importante atacar a mídia velha ou já assumir a discussão da regulação das novas míd ias, porque é com elas que está o futuro, não está com a imprensa escrita e nem mesmo com a televisão. Será que não é na questão das redes que estaria a questão principal e a briga do marco regulatório? Até porque existem setores do governo que são bastante permeáveis aos interesses das teles, da televisão tradicional, que estão, inclusive, emperrando no Congresso a votação dessa lei.
 
Existe em vários setores do governo…
 
Claro. Mas parecia que ainda não era pauta, e de certo modo ainda não se tornou uma pauta política dos jovens, e aquele momento era muito importante para se tornar uma pauta dos jovens, porque juntou tudo quando as revelações do Snowden chegaram aqui, e principalmente quando a presidenta da República tem sua comunicação espionada. Não dá mais para invocar a explicação que eles deram, de que o motivo da bisbilhotagem era só por razões de terrorismo. Torna-se absolutamente necessário um marco que regule a internet, que seja pela proteção da privacidade e que possa se estabelecer uma política digita l, necessária até por questões de soberania.
Por outro lado, é preciso que haja uma pressão da sociedade civil e sobretudo dos jovens no sentindo de entender que a questão da defesa da privacidade é política, e é extremamente importante não para você colocar sua fofoca em dia pelo Facebook, o que precisa se defender é uma outra lógica de operação em rede. Essa lógica, de certa maneira, já vem sendo trabalhada no Brasil desde o começo do governo Lula, o Ministério da Cultura do Gil tin ha uma estratégia em relação a isso, unir diversidade cultural e cultura digital. Por que isso?
Justamente por ser potência com potência. Potência das novas tecnologias com uma potência de uma cultura popular forte que existe no Brasil, mas que não encontra canal, porque os canais estão estrangulados e dominados por uma produção cultural que não é feita para a população. Ou ela é feita para a elite ou é feita com o objetivo de massa e de indústria cultural, de exploração comercial. Mas a riqueza da cultura popular não é engatada positivamente de tal maneira que possa se desenvolver e criar condições não só para a ampliação, inclusão cultural, mas para que esses jovens possam encontrar uma inserção social através da produção de cultura. O Gil viu isso muito claramente e fez disso uma estratégia, reconhecida internacionalmente, porque nós éra mos um dos países que estavam na ponta na relação entre cultura e tecnologia, e na ponta do entendimento da possibilidade que o digital traz, inclusive na política, trabalhando na lógica cooperativa, daquilo que escapa da propriedade intelectual, do software livre, do Commons.
Não é por acaso que o sujeito que inventou o “www” [Tim Berners-Lee] disse que o marco regulatório brasileiro, se aprovado, será o mais avançado do mundo na questão da proteção das liberdades individuais. Por que ele é o mais avançado? Justamente porque já tem um caldo cultural, conversei com alguns desses grandes advogados americanos que trabalham na questão do Creative Commons, do software livre, e eles achavam que tem uma política de ponta no Brasil, uma elaboração feita… Depois que entrou o governo Dilma, isso deu uma arrefecida, veio a Ana de Hollanda [ex-ministra da Cultura], que foi um retrocesso e ainda estamos em processo de retomada. Dá para entender o que eu digo?
Agora, com o fato de os americanos terem feito o que fizeram [espionagem na NSA], temos uma oportunidade de ter uma política de Estado que é crucial, porque é o futuro. A questão do digital é o futuro, não tem volta. Se não estivermos preparados para isso, não estamos preparados para essa autonomia que estamos começando a desenhar, que começou há dez anos, em 2003, e é nessa autonomia relativa que temos de navegar. E pude perceber porque acompanhei de perto, nas ações do Ministério da Cultura, que existia uma sintonia forte entre a nova diplomacia brasileira e o que era a visão estratégica de cult ura do Gil. Um entendimento forte em relação a qual era o papel do Brasil na América Latina, seu papel no mundo, que diferença poderíamos fazer, já existe um pensamento no Brasil, uma prática e um conhecimento acumulado que permite que isso tenha vazão, e essa luta da cultura e da tecnologia precisa ser reconhecida como pauta mesmo.
 
Dentro dessa sua ideia de entender o digital como o futuro e remetendo um pouco às manifestações. Nós tínhamos esse setor do Gil, com o Juca Ferreira, no governo Lula, que tinha esse entendimento muito claro do papel da tecnologia aliada à cultura. Mas as manifestações também não mostraram para certos setores que estão analógicos demais? Ou seja, nossos partidos de esquerda, muitos sindicatos e movimentos sociais não tratam desse tema ainda.
 
Concordo plenamente com a análise que você faz, tem uma questão que para mim é complicada, a incapacidade que governos do PT tiveram em lidar com a questão da mídia. De certo modo, ela permaneceu intocada, até quando houve momentos em que alguma coisa de mais forte poderia ter sido feito, quando a Globo fez uma aposta errada no mercado financeiro e entrou em uma situação de crise. Ali havia um flanco aberto, mas o governo Lula foi lá e bancou, sem colocar condições.
Isso continua até hoje. Em parte, isso se deve ao fato de a esquerda brasileira nunca ter feito a crítica de fundo da mídia. E nem da tecnologia. A posição de esquerda de partidos, sindicatos etc. é de que os meios são neutros e tudo depende de quem se apropria dessa técnica e, portanto, quando chegar o momento de a esquerda estar no poder, se faz uma inversão de signos. Isso é o máximo que a esquerda pensou sobre essa questão, e há muitos anos venho pensando e batalhando por um outro entendimento, porque não é possível você considerar a tecnologia como algo meramente instrumental, quando ela modifica completamente todos os tipos de relação. A tecnologia, sobretudo depois da virada cibernética, mudou a vida, o trabalho e a linguagem. Ou seja, mudaram as relaçõe s. Nessas condições, se você não fizer uma crítica de fundo, vai acabar fazendo aquilo que critica em seu adversário, vai fazer isso achando que colocou um conteúdo de esquerda, mas as práticas serão as mesmas. Assim, vai ser tão manipulatório e antidemocrático quanto antes e, de certo modo, desconhecendo o próprio potencial que a tecnologia traz.
(...)
 
Em relação às novas tecnologias, para o PT, para os sindicatos e movimentos sociais, ainda não caiu a ficha da sua importância e que isso pode ser trabalhado de uma outra lógica, colocando em xeque políticas de controle global. O caso Snowden é o último elo de uma cadeia que vem vindo de várias outras que já entenderam o enorme potencial das redes, de politizar as questões simplesmente pela circulação dos fluxos de informação. Por q uê? Porque se o Estado e o mercado podem saber tudo sobre a população, explorando isso do ponto de vista do controle, por outro lado os movimentos também podem, e isso o Wikileaks começou a fazer, a prestar atenção sobre quais informações os super-ricos querem suprimir.
O conflito de classes, em escala global, começa a acontecer nas redes, porque existe uma política de controle e hierarquização da informação nas redes, e, do outro lado, há gente trabalhando para a desobstrução dos canais. E isso é democracia, porque se você começa a fazer todo o fluxo de informação passar, as pessoas ficam sabendo o que os de cima não querem que elas saibam. É o que está acontecendo com o Snowden de novo. Isso a própria tecnologia permite como a lógica de funcionamento em rede auxilia na distribuição da informação. O que as pessoas não entendem de jeito nenhum é que a informação é a diferença que faz a diferença, e também é o valor do capitalismo contemporâneo.
Quando a informação se tornou valor, e isso começou na década de 1970, a questão se colocou: “Como ganhar dinheiro com a informação?”. Porque a informação não tinha preço. Foi reelaborada e inventada uma coisa que se chama direito de propriedade intelectual, que não é só uma extensão do direito autoral e do direito de invenção da propriedade industrial, é muito mais do que isso. É o que alguns especialistas chamam de “a última enclosure”, o último cercado que começou na Inglaterra com o começo do capitalismo, quando se cercou a terra.
Agora vamos criar um que vai cercar essa unidade mínima que é a diferença que faz a diferença, para garantir a exploração desse valor como unidade mínima, e, ao mesmo tempo, com um alcance global. A lógica das redes, de seu funcionamento e aperfeiçoamento, é colaborativa, e, sendo colaborativa, ela escapa, é da sua própria lógica que as informações circulem. Se não circulam é porque começam a colocar gargalos para cercar e fazer a captura dentro do sistema que permite que isso vire uma propriedade. A esquerda ainda não entendeu o alcance que isso tem como luta política. Se pegarmos, por exemplo, esse sistema anglo-americano de espionagem, porque são americanos, mas os ingleses estão acoplados, como eles chamam as primeiras operações por meio desses sistemas? Vão dar os nomes das primeiras batalhas imperialistas, tanto dos EUA quanto da Inglaterra. Por quê? Porque começou, em outro plano, um outro tipo de imperialismo, e se você não estiver preparado para lutar neste outro plano, como vai perceber o que está em jogo? Existe uma guerra, hoje, no mundo digital, mas é real também porque a dimensão virtual da realidade é tão real quanto a física. Mas a ficha ainda não caiu que esse conflito está lá, e é claro que isso precisa ser entendido, se tornar uma questão política de ponta. Ainda não vi as pessoas se mobilizando para defender o marco regulatório da internet; inclusive, se a gente fizer isso, ou vier a fazer num futuro próximo, vamos ser modelo para outros países que estão com o mesmo problema. Mas precisamos fazer.
Não se faz democracia sem informação, e a maneira de fazer democracia atualmente é expondo, para os ricos, aquilo que eles fazem para o resto da população. Se eles podem fazer tudo e levantar tudo sobre a população, e estão o tempo inteiro se protegendo e protegendo essa informação, sobretudo para destruir aquilo que não deve ser conhecido, os caras que aparecem, de certa maneira, e levantam esse movimento, mostram como essa lógica de captura funciona, estão trabalhando para uma desobstrução de canais, algo absolutamente fundamental. Só pela desobstrução de canais e por uma luta entendendo o que é a propriedade intelectual e o que é fechar a informação para uma apropriação é que você vai poder lutar no futuro, porque não se pode mais voltar para trás. Qu ando se observa a geração de agora, de 20 anos, eles não conseguem nem lembrar, aliás, nem conseguem saber o que é o mundo sem internet. Nós também não. Algum de nós consegue viver sem internet? Claro que não.
Esse campo, esse fluxo das redes, já se constituiu num campo de batalha para as grandes potências, para o grande capital também, mas muita gente, inclusive da esquerda, ainda não captou isso. A gente pode dizer hoje que as redes e as novas tecnologias são essa nova expressão da luta de classes, só que ninguém enxergou ainda?
Não é que há um determinismo tecnológico, não é essa a questão, se essas máquinas existem é porque as forças produtivas se desenvolveram a ponto de criar essas máquinas. Mas elas colocam a luta política em outro patamar, e esse outro patamar não pode mais deixar de ser levado em conta porque a luta vai se passar lá. Não só lá, mas não é possível entender as ruas hoje, no Brasil e em outros países, sem entender o binômio redes e ruas, com suas especificidades. O modo como o movimento se dá nas redes não é exatamente o mesmo que se dá nas ruas, a relação rede-rua é que tem de ser pensada junto, na sua articulação, e isso é política. Chamo isso de tecnopolítica porque não é mais possível pensar a política sem a tecnologia junto. Estamos vendo agora na política internacional, em que se discute aquilo que se passa nas redes.
Mas ela ainda é excludente…
Claro que é excludente, e se você quiser expandir a democracia política no país, tem de ter banda larga pra todo mundo e com preço acessível, mas tem de ser uma política de Estado. Já devia haver uma diretriz nesse sentido, porque o acesso às comunicações no Brasil é muito caro, não só a banda larga como a telefonia celular é extremamente cara para uma qualidade ruim, a relação qualidade-preço é absurda, e isso revela que existe muito caminho para ser trilhado aqui. É preciso garantir o acesso para a população, mas também trabalhar a educação digital dessas pessoas, e acho que foi isso que o Gil sacou, que podia fazer uma relação entre riqueza cultural e um povo sem acesso. O mais importante é abrir canais novos, e o potencial que a pessoa tem na periferi a encontra uma maneira de realizar aquilo, não se torna só um consumidor de uma cultura que vem de cima para baixo. É uma diferença enorme. E até a dependência em relação à mídia velha vai sendo cada vez menor.
Em relação à educação, existe também a questão do trabalho imaterial, que começa a ganhar importância; não sei se é possível isolar, mas como isso modifica a luta dos trabalhadores, dos sindicatos e como entra a questão educacional nesse sentido?
A virada cibernética começou nos anos 1950 nos laboratórios, e nos anos 1970, as máquinas inteligentes começaram a entrar, com os computadores pessoais, em todos os setores, na vida social, na produção, em tudo. Houve uma alteração que é crescente, e cada vez mais profunda, da vida e do trabalho das pessoas, afetou o modo como se trabalhava, instaurando o que muitos chamam, inclusive, de crise da sociedade de trabalho. Porque as máquinas começaram a substituir não só a força física, como era no século XIX, com as máquinas a vapor substituindo quem fazia a força motora, mas passou a fazer todo tipo de trabalho que não é o de invenção, que a máquina não é capaz de criar ela própria. Fora esse trabalho, a substituição do trabalhador pela máquina é cada ve z maior, tanto que vemos, desde que isso começou, um paradoxo enorme no qual todos os governos do mundo dizem que precisam aumentar o nível de emprego, e fomentam políticas que substituem os humanos pelas máquinas. Você diz o tempo todo que vai lutar pelo aumento do emprego e, ao mesmo tempo, implanta uma política que elimina o trabalhador e põe uma máquina no lugar dele.
Claro que não é culpa das máquinas, e sim das relações sociais, pois se elas ocupam o lugar dos humanos, eles poderiam ser liberados e preparados para fazer o trabalho que elas não podem fazer. Mas esse desenvolvimento é usado contra o trabalhador, fazendo com que antes ele fizesse uma greve por melhores condições de trabalho e depois da era cibernética, que ele pedisse pelo amor de Deus pra trabalhar. Essa mudança é o que os especialistas chamam de crise da sociedade do trabalho. Hoje a precarização é tal que você luta para manter o seu trabalho. Ao mesmo tempo, essa nova situação cria condições para que outro tipo de trabalho possa acontecer, de caráter colaborativo, escapando dessa lógica.
É necessário que os sindicatos, os trabalhadores discutam isso, quais são as positividades que podem ajudar para não transformar isso em um ludismo, uma briga contra a máquina. Por outro lado, tem de haver uma educação que já integre essa frente de transformação digital porque o mundo se transformou em algo no qual a dimensão digital é incontornável, e é preciso que a população seja educada pra isso. Qual o problema principal depois que você consegue o acesso? É que é necessário ter uma educação para que, dentro daquele fluxo gigantesco de informações, você possa ter parâmetros para discriminar a informação que vai ser boa para você. Não é só o acesso físico, se não tiver critério para se politizar dentro disso, por exemplo, você vai usar a máquina como uma televisão. Usa 1% dela, e no que ela tem de pior.
     



      

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

O Capitalismo como religião

                                                                                 

Protesto da juventude é desespero transformado em indignação, diz Michael Löwy

 
Um dos maiores pensadores da atualidade, Michael Löwy esteve no Brasil para divulgar seu novo livro, “O Capitalismo como Religião” (Boitempo Editorial). Para o filósofo, um traço comum entre os protestos de junho no Brasil, a Primavera Árabe e as manifestações dos últimos anos na Europa é a transformação do desespero em raiva, da raiva em cólera e da cólera em indignação.
A entrevista é publicada por Opera Mundi, 10-11-2013.
Em entrevista a Opera Mundi, Löwy discute o conceito de revolução e qual a melhor forma de aplicá-lo na fase atual do capitalismo. “O primeiro ato da revolução seria parar o trem suicida da civilização da capitalista”, que nos levará a um desastre ambiental sem precedentes.
Na nova obra, o filósofo, ícone da Escola de Frankfurt, reúne textos de Walter Benjamin(1892-1940). “É evidente que Benjamin está em busca de uma saída do capitalismo.”
Eis a entrevista.
O ensaio que dá titulo ao seu novo livro é “Capitalismo como religião global”. Quais os princípios religiosos do capitalismo?
O livro “Capitalismo como religião global” é resultado de uma seleção de cinco ensaios escritos por Walter Benjamim, os quais têm como elemento comum uma crítica da civilização capitalista. O primeiro ensaio é muito instigante e por isso dá título à obra. Ele é um texto curto, de poucas páginas, escrito em 1921 e muito difícil de ser interpretado, até porque não foi escrito para ser publicado.
Nesse ensaio, Benjamim avança com a ideia de que o capitalismo funcionaria como uma religião cultual. Onde o mais importante não é a teologia, a espiritualidade, e sim o ritual do culto. Para ele, todo o comportamento dos capitalistas é esse ritual religioso do culto. Culto a quê? Ele não desenvolve, mas dá alguns exemplos: o dinheiro, o ouro, o ‘mamon’. Há uma adoração, o culto religioso do dinheiro, como uma divindade. Ele vê no comportamento capitalista essa adoração religiosa ao dinheiro.
Depois ele diz que a religião capitalista é sem trégua e piedade. Isso quer dizer que é um culto permanente: dia e noite, sol e chuva, primavera e verão, ele nunca para. Sem piedade porque não admite compaixão, capitalismo piedoso não existe, não funciona.
No coração dessa religião capitalista, haveria um conceito que, traduzido do alemão, significa, ao mesmo tempo, dívida e culpa. Benjamin disse que é uma ambivalência diabólica nesse termo, eu acho isso muito atual. Por exemplo, hoje, na Europa, os países quê estão endividados são tratados como países culpados. Portugal, Itália, Grécia e Espanha são chamados pela sigla PIGS (em inglês: porcos). Moralmente eles seriam inferiores porque são sujos, preguiçosos, esbanjadores e culpados. Eles deveriam ser sacrificados por essa culpa, pagando a dívida. Um discurso puramente religioso. Essa ideia de Benjamin, de relação de culpa e dívida, é incrivelmente atual.
Por último, Benjamin disse que a religião capitalista leva a humanidade ao desespero, ela transforma o desespero em condição religiosa universal, o que também é uma ideia muito interessante e tem muito haver com o nosso tempo, porque a crise econômica atual aumentou o desemprego, as pessoas perderam suas casas, algumas chegaram ao ponto de cometer suicídio. Então estamos vendo, também, de maneira muito flagrante, esse caráter desesperador da religião capitalista.
Para Benjamin seria possível uma vida fora dessa religião?
Esse texto é muito pessimista, mas não é resignado. Benjamin não aceita a religião capitalista, o desespero, como uma fatalidade. Ele se coloca a pergunta: como sair, como romper com essa religião? A partir disso, o ensaio enumera várias hipóteses e segue afastando as que ele acha que não funcionariam. A primeira a ser descartada é a que aponta o cristianismo como alternativa, pois, para ele, o cristianismo está comprometido com o capitalismo. Outra alternativa analisada são os monges, os quais pretendem escapar do capitalismo, indo viver no monastério, Benjamin diz que isso é uma ilusão, pois não é uma verdadeira saída e, ademais, ignora o restante da humanidad e. A ideia de reformar o capitalismo também é descartada, visto que o capitalismo é um sistema que não admite reforma.
Como ainda não era marxista, ele também rejeita Marx. - Benjamin só se torna marxista em 1923, após ler História e consciência de classe, de Antonio Gramsci - Por fim, cita favoravelmente um autor anarquista chamado Gustav Landauer, o qual defende a ideia de que se sairá do capitalismo indo criar espécie de assentamentos rurais, vivendo no campo, por meio de uma vida cooperativista. O interessante é que esse mesmo Landauer fez parte dos conselhos operários que, em 1919, tomaram o poder na Baviera, e preparou uma reforma da educação, mas acabou assassinado, com o fim da revolução que durou três semanas. Não fica claro, portanto, se a referência a Landauer tem haver com a proposta dos assentamentos ou essa ideia revolucionária.
É evidente que Benjamin está em busca de uma saída do capitalismo. Aí está a diferença dele com Max Weber, que aparece muito nesse ensaio. Ele vai além de Weber, que diz que a origem do capitalismo está na religião protestante. Benjamin diz que o próprio capitalismo é uma religião. Embora Weber tenha uma crítica ao capitalismo, ele é resignado, não vê saídas, essa é uma importante diferença entre os dois au tores.
Qual o sentido da metáfora feita por Benjamin ao dizer que a revolução seria uma “puxada de freio” no trem da história?
Ele escreve isso em 1940, nas Teses sobre o Conselho da História. Embora, já fosse marxista, essa frase contém uma crítica a Marx, que dizia que as revoluções seriam a locomotiva da história. Para Benjamin, as coisas seriam um pouco diferente. Talvez as revoluções fossem a humanidade puxando os freios de emergência para o trem. Essa é uma ideia muito atual e também muito original porque, na época de Benjamin, o trem da civilização da humanidade estava indo para uma catástrofe que era a Segunda Guerra MundialAuschwitz e Hiroshima. Ele dizia que devíamos para esse trem e não conseguimos.
Hoje em dia o perigo é outro, o trema da civilização capitalista está indo, a uma rapidez crescente, para um abismo que se chama catástrofe ecológica. O aquecimento global e as mudanças climáticas são uma ameaça sem precedentes na história da humanidade, colocando em xeque nossa própria sobrevivência. Esse trem avança a uma velocidade crescente e o único jeito de pará-lo é uma revolução, é puxar os freios. Esse é o desafio da nossa época.
Então a revolução não seria a mudança, e sim um processo que impede uma catastrófica tragédia?
O primeiro ato da revolução seria parar o trem suicida da civilização da capitalista. A partir daí, você pensa como continuar, ou você muda o trem de direção, muda do trem para um cavalo. Enfim, são várias propostas, mas a primeira é parar essa corrida suicida para o abismo, acho essa ideia muito justa.
Uma ideia de Benjamin bastante lembrada é do alerta para os “perigos” do progresso e do avanço tecnológico...
O sentido comum do pensamento na época de Benjamin e, até hoje é assim, tanto na direita como na esquerda, é que a tecnologia é fator de progresso. Ele não nega totalmente essa ideia. Em certos aspectos, concorda com ela, mas rejeita categoricamente a ideia de que a tecnologia, por si mesmo, já está nos levando ao bem, à democracia, à liberdade. A tecnologia seria uma faca de muitos gumes, ela pode tanto estar a serviço da libertação, como a serviço da opressão, pois tem potencial profundamente mortífero. No ensaio de onde saiu essa declaração, “As armas de amanhã”, ele chama a atenção para a utilização das armas químicas modernas e de gases tóxicos nas futuras guerras. Não seriam eliminados só os soldados, mas toda a população ci vil. Acho que ele teve uma intuição muito forte e pessimista, decretando que a tecnologia poderia nos levar ao desastre. Mas mesmo sendo o mais pessimista de todos os pensadores, não poderia prever, por exemplo, a guerra atômica. Ele parou nos gases, os quais haviam sido utilizados na primeira guerra mundial.Benjamin não poderia imaginar que haveria uma arma um milhão de vezes pior do que os gases, mas teve essa intuição da tecnologia a serviço da guerra, foi um dos poucos, o que ressalta a importância desse texto.
Sobre as revoltas dos jovens na Europa, o senhor deu declarações identificando nesses movimentos um profundo sentimento de cólera. As chamadas “jornadas de junho” colocam o Brasil nesse mesmo cenário?
Vamos partir outra vez de Benjamin, que dizia que a religião capitalista leva a humanidade para a casa do desespero. Em certas circunstâncias, o desespero se transforma em raiva. Aliás, Benjamin disse, em “Teses sobre o conselho de história”, que sem raiva não há luta de classes. Então o desespero se transforma em raiva, a qual se transforma em cólera, e a cólera em indignação, que é um sentimento mais avançado. Penso que é isso que temos assistido nos últimos anos em escala internacional, desde a praça Tahir, no Egito, à praça Syntagma, na Grécia, até as jornadas de junho, no Brasil. São processos muito diferentes, mas que têm em comum essa juventude i ndignada. É um fenômeno muito interessante. É muito importante sair do desespero e passar a indignação.
Quem previu isso foi um pensador francês chamado Stéphane Hessel, amigo na juventude de Benjamin. Um dos heróis da resistência da França e um dos autores da Declaração Internacional dos Direitos Humanos. Em 2010, publicou uma brochurinha chamada “Indignai-vos!”, um apelo à juventude e às pessoas em geral, a se indignarem com a inj ustiça, com o absurdo do mundo em que vivemos etc. Esse livro teve um sucesso enorme, traduzido em diversas línguas e vendendo milhões de exemplares. Daí esses movimento ter usado esse título “indignados”. Ele capturou o “zeigets”, o espírito da época.
Algumas das características comuns desses novos movimentos é a reivindicação da democracia direta, com novas formas de se fazer política. Esses ideais dialogam com o marxismo?
Bem, depende. O marxismo é uma galáxia, com muitos sistemas, muito planetas. Dentro dessa galáxia há correntes mais tradicionais, mais autoritárias, mais centralistas e ortodoxas, que esse discurso da horizontalidade, de democracia direta, das assembleias, não passa muito bem. Mas há outras vertentes dentro do marxismo, que são mais abertas a essa sensibilidade, que eu diria, libertária, dentro do anarquismo, dos movimentos libertários, é que se tem insistido mais nisso, na horizontalidade, democracia direta. Esses setores domarxismo têm mais afinidade e diálogo com esses movimentos , com essa nova cultura política. Aí há um encontro, o qual não impede que haja divergências, polêmicas, mas há um espaço de diálogo. Agora o encontro desses movimentos com o pensamento marxista se dá, também, em cima da crítica anti-sistêmica, a crítica do neoliberalismo, do capitalismo.
     
 




segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

O mapeamento dos conflitos ambientais no Brasil

“Os inventários e mapas de injustiças ambientais são instrumentos de luta contra a injustiça e o racismo, tiram da invisibilidade a população cuja própria vida está ameaçada”. O comentário é de Joan Martinez-Alier, economista ecológico professor da Universidade Autônoma de Barcelona, em artigo publicado pela CartaCapital, 27-11-2013.
Eis o artigo.
No dia 22 de dezembro de 2013, completam-se 25 anos do assassinato de Chico Mendes (1944-1988), morto emXapuri, no estado do Acre, por defender a Amazônia contra o desmatamento. Chico Mendes era um seringueiro, e foi um sindicalista que defendia os seringueiros contra os poderosos fazendeiros que queimavam a floresta. Ele havia aprendido a ler, ainda menino, com um velho comunista que vivia escondido nessa fronteira entre o Brasil e a Bolívia, um sobrevivente da Coluna Prestes.
Desde então, longe de diminuir, os conflitos decorrentes do desmatamento e da expansão da fronteira agropecuária continuam crescendo por toda a Amazônia. Repetidas vezes, são produzidas mortes por causa dessa expansão. Mas também há outros conflitos que decorrem de injustiças ambientais, além do desmatamento e da fronteira agropecuária, como pela expansão da mineração, por infraestrutura (estradas, grandes usinas) e por contaminação de agrotóxicos.
Já faz dez anos que se formou no Brasil uma Rede de Justiça Ambiental. Os ativistas receberam a visita de Robert Bullard, que nos Estados Unidos levava décadas de luta contra o "racismo ambiental", quer dizer, lutando contra a contaminação em bairros onde vive gente de cor e gente pobre. Isso deu impulso para a Rede Brasileira de Justiça Ambiental. Para dar mais visibilidade a tantos casos de injustiças e conflitos abertos, ocorreram várias tentativas, em nível estadual (como Rio de Janeiro e Minas Gerais) de fazer um inventário e mapear tais conflitos.
Esses esforços culminaram na publicação online de um inventário e um mapa geral dos conflitos ambientais no Brasil, e também em um livro, lançado em novembro de 2013, compilado por Marcelo Firpo Porto, Tania Pacheco eJean Pierre Leroy com o título Injustiça ambiental e saúde no Brasil: O mapa de conflitos. Trata-se de um trabalho pioneiro no mundo, com 400 casos inventariados, cada qual com uma descriç ão de dois ou três páginas que incluem suas características principais. Por exemplo: se é um conflito por mineração ou por petróleo, por resíduos nucleares, por grilagem de terra, por asbesto ou por amianto? Quais são os principais atores envolvidos? Quais foram os resultados?
Na Colômbia já existe um mapa parecido (em colaboração com o projeto EJOLT), mas com apenas 70 casos. O mesmo na Turquia, e também no México, há diversas iniciativas nesse sentido. O Observatorio de Conflictos Mineros de América latina (OCMAL) é uma rede que publica inventários e mapas. O tema está crescendo tanto na prática e na pesquisa acadêmica que se anuncia e se prepara um primeiro Congresso Latino-americano de Conflitos Ambientais, a ser realizado na Universidad Nacional General Sarmiento, em Buenos Aires, em outubro de 2014. Não para resolver os conflitos em benefício das empresas, mas para estudá-los, para difundi-los, e para dar-lhes um sentido histórico.
Qual é então o propósito destes inventários e mapas, além do avanço científico da ecologia política? Trata-se de mostrar as causas estruturais de tantos e tantos conflitos, ou seja, como nascem do aumento do  metabolismo da economia mundial e da exportação crescente de matérias primas... Não são casos NIMBY (not in my backyard, "não no meu quintal"), mas sintomas do grande movimento mundial por justiça ambiental. Por exemplo, no Brasil surgiu um movimento que se chama Justiça nos Trilhos, em protesto contra os acidentes nas vias férreas que transportam matérias primas aos p ortos de exportação, pelo impacto da grande mineração em Carajás e a Estrada de Ferro Carajás, com impacto principalmente no MaranhãoPará e Tocantins. Há protestos semelhantes em outros lugares do mundo. Ainda no Brasil, existe o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), que são afetados por represas e usinas, o mesmo que acontece no México com o MAPDER.
Trata-se de dar visibilidade às populações afetadas, de colocar na mesa as suas demandas, suas estratégias de resistência e as alternativas que pleiteiam.
Em muitos conflitos aparecem incertezas científicas (quão prejudicial pode ser o uso de cianeto na mineração de ouro a céu aberto?) Como o glifosato utilizado no cultivo de soja transgênica afeta às populações?), e por isso o debate deve ser aberto para as populações locais pobres que conhecem melhor do que as distantes autoridades sanitárias oficiais o que está acontecendo. Os conhecimentos adquiridos em um caso de conflito servem também para outros casos.
O objetivo não é simplesmente oferecer uma lista de impactos ou de riscos ambientais que afetam distintos grupos locais de população (camponeses, indígenas, quilombolas...) mas, além disso, ver tais populações como portadoras de direitos, que suas vozes sejam ouvidas (seus relatos orais, muitas vezes também com vídeos), vozes silenciadas pelas empresas, pelo Estado, pelos meios de comunicação, vozes que clamam por justiça social e ambiental.
Os inventários e mapas de injustiças ambientais são instrumentos de luta contra a injustiça e o racismo, tiram da invisibilidade a população cuja própria vida está ameaçada. O mapa, dizem os pesquisadores brasileiros, não é apenas uma tribuna, um alto-falante, mas serve também, de certa maneira, como um escudo protetor. Claro, na medida em que isso seja possível no contexto permeado de violência contra os mais pobres