quinta-feira, 24 de julho de 2008

Feliz 1984


O fascismo avança sobre o nosso cotidiano.

Já tive oportunidade de comentar, em diversas postagens deste Blog, o fenômeno da "criminalização do cotidiano".
Essa criminalização é essencial à dinâmica de poder do atual sistema ideológico: o medo, disseminado entre os cidadãos comuns pela mídia e pelo Estado, constitui hoje um dos maiores motores da história.
Não me recordo qual dos filósofos da Escola de Frankfurt - se Adorno ou Horkheimer - que observou : não obstante serem o amor romântico e a família instituições burguesas, em tempos de avanço do totalitarismo, entretanto, constituem eles as mais poderosas fontes de resistência contra o fascismo.
Ora, sintomaticamente e talvez por essa mesma razão, o que temos observado é um desmedido ataque aos últimos bastiões que resguardam nossa intimidade e autonomia, desferido por meio da desproporcional divulgação de eventos em que justamente a família e as relações afetivas são colocadas em cheque, dando lugar à insegurança e ao medo com relação àqueles que se encontram mais próximos de nós (estou me referindo aqui ao destaque promovido pela mídia acerca dos crimes praticados por filhos contra os pais e vice-versa).
Qual a "leitura" do cidadão comum, geralmente "desavisado, em relação a isso ? Ora, de que o perigo se esconde em cada esquina e, mais do que isso, "estou morando e dormindo" com meu inimigo !
Não é de hoje, tão pouco, a demonização com que são retratados os adolescentes - justamente os jovens que, em qualquer sociedade menos "psiquica e culturalmente cindida", deveriam ser considerados a fonte de renovação e esperança para o grupo social !
Em qualquer conversa fica patente que o sentimento dos pais em relação aos filhos é de um temor subterrâneo (de que o filho se perca nas drogas, no crime, na delinquência, na devassidão ou promiscuidade etc etc). Os pais - e sobretudo a escola - se dedicam a uma permanente vigilância e disciplinamento de seus filhos. Ao invés de vê-los como seres que aspiram a uma legítima e plena libertação, a qual eles próprios, pais, não souberam conquistar, os adolescentes são percebidos como ameaças em potencial, espécie de "bombas relógios" comportamentais, podendo explodir a qualquer momento, até que atinjam uma "idade segura".
Por que não conceder voz à legítima revolta e rebeldia de seus filhos - canalizando-a criativamente? Por que se dedicar ao seu disciplinamento e ao massacre realizado nos verdadeiros campos de concentração em que se transformaram as escolas ?


(veja a esse propósito e apenas como exemplo: uma introdução às propostas de Maurício Tragtenberg - http://diacrianos.blogspot.com/2008/06/educao-e-anarquismo-em-maurcio.html - ou o "anti-modelo" de universidade de Onfray - em http://metamorficus.blogspot.com/2008/02/michel-onfray-o-filsofo-francs-que.html; ou ainda o diagnóstico de Dany-Robert Dufour em - http://metamorficus.blogspot.com/2008/01/rumo-ao-capitalismo-total.html)


O fascismo, entretanto, precisa avançar, sob pena de, não o fazendo, desmoronar.
Não é por outra razão que temos observado o avanço em nosso cotidiano de inúmeras medidas destinadas ao controle e manipulação de informações, à disseminação do medo e a redução ou eliminação de qualquer autonomia.
Abaixo, coletei apenas algumas dessas medidas que estão sendo implementadas bem perto de nós.
Trata-se da implantação de chips em veículos, cães e até em seres humanos - sistemas de controle "vendidos" pela mídia e pelosaparelhos de estado como avanços para a "proteção do cidadão" contra o terrorismo, a criminalidade, ou o próximo que está ao seu lado...


1)
Em julho de 2004, conforme anunciou o jornal El Universal, o Procurador-Geral da Republica e mais 160 funcionarios do Ministerio Publico do Mexico receberam implante de um biochip sob a pele:



2) Instalação de chip em veículos será gratuita para motorista de São Paulo
Por: Tabata Pitol Peres
11/04/08 - 18h50
InfoMoney
SÃO PAULO - O chip eletrônico que será implantado nos veículos em 2009 - com o objetivo de aumentar a segurança da população, otimizar a gestão do tráfego e melhorar a fiscalização do carro - não custará nada aos proprietários dos automóveis.O prefeito Gilberto Kassab assinou nesta sexta-feira (11) um decreto que criou o Fundo Municipal de Desenvolvimento do Trânsito para financiar programas e projetos que melhorem o trânsito da cidade, entre eles, a instalação do equipamento.
O Fundo obriga as administrações municipais a se adequarem ao Código Brasileiro de Trânsito, que estabelece o investimento de 95% da arrecadação de multas dos municípios em melhorias de trânsito. Os 5% restantes devem ser aplicados em educação do trânsito. Com a regulamentação, a aplicação dos recursos arrecadados com multas exclusivamente em programas voltados para melhorar as condições do trânsito fica determinado por lei.
Identificação Automática de Veículos
Com este decreto, será possível viabilizar a implementação do Sistema Nacional de Identificação Automática de Veículos. A Prefeitura e o Governo do Estado assinaram um convênio, em outubro de 2007, que fará de São Paulo o primeiro município do Brasil a adotar o novo sistema.O chip será fixado no pára-brisa dos veículos. Nele, ficará gravada a identificação do automóvel com informações como o número do Renavam (Registro Nacional de Veículos Automotores), placa e número do chassi.Na fase inicial de implantação do sistema, os custos de instalação ficarão por conta da empresa que irá operar a novidade. Os veículos novos já sairão das fábricas com o equipamento.
Sem que a maioria se dê conta, inúmeras medidas estão sendo adotadas bem perto de nós e que, pouco a pouco, vão afetando nosso cotidiano.

(Fonte: http://web.infomoney.com.br/templates/news/view.asp?codigo=1057360&path=/suasfinancas/carros/cotidiano/)



3) Nova regra em S.Paulo obriga colocar chip em cães e gatos


Publicado 14 Abril, 2008

A Prefeitura de São Paulo mudou, na sexta-feira, as regras para venda e adoção de animais domésticos na cidade. Entre elas estão a instalação de microchips em cães e gatos e a assinatura de um contrato no ato da adoção ou compra de um animal.
As medidas, publicadas no Diário Oficial na última sexta–feira, valem para novos animais e visam incentivar a posse responsável, evitando o abandono e as compras por impulso.
Os microchips, que devem ser implantados nos animais, vão conter todos os dados relativos aos animais, como espécie, sexo, cor do pêlo, idade e raça, e por meio destas informações, o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) vai ter mais controle sobre os animais.
Segundo Adriana Maria Lopes Vieira, gerente do CCZ, o microchip “é importante para a associação entre o animal e o responsável”. De acordo com ela, a ação não é uma ferramenta estritamente punitiva, “mas com ele se pode saber se o animal foi perdido ou submetido a maus-tratos”.
O abandono dos animais também deve ser prevenido por meio de um contrato que será firmado na hora da adoção. O documento vai definir as responsabilidades entre os novos donos e quem vende os bichos.

(Fonte: http://adestramento.wordpress.com/2008/04/14/nova-regra-em-sao-paulo-obriga-colocar-chip-em-caes-e-gatos-opine/)

4) A Prefeitura de Campo Grande, por meio do CCZ ? Centro de Controle de Zoonoses, está realizando a implantação de chip de identificação em cães. O trabalho iniciado nesta semana atende à lei 2.990/05, que sistematiza a posse responsável de cães e gatos no Estado, promulgada em novembro do ano passado.Segundo explicou a médica veterinária do CCZ, Iara Helena Domingos, os primeiros animais já foram identificados. A microchipagem tem o objetivo de registrar o animal e identificar o dono. O sistema já é comum em países da Europa e em algumas grandes cidades do país.

(Fonte: http://www.portalms.com.br/noticias/CCZ-comeca-a-implantar-chip-em-caes/Campo-Grande/Saude/11056.html)

5) A Prefeitura de Caraguatatuba, por meio do CCZ - Centro de Controle de Zoonoses, está realizando a implantação de chip de identificação em cães e gatos.O trabalho, que foi iniciado no começo de 2007, atende à lei 1.286/06 referente ao Programa de Registro e Identificação de Animais, pelo qual já foram identificados aproximadamente 300 animais na primeira fase.Segundo explicou o médico veterinário e chefe do CCZ, Guilherme Garrido, no processo de implantação do Programa, a primeira etapa, na qual os primeiros animais foram identificados, houve prioridade no critério de colocação dos chips. Assim, entre os eqüinos e bovinos, receberam chip os animais recolhidos e resgatados pelo proprietário, os leiloados e os doados. Os cães e gatos recolhidos e retirados pelo dono, e os adotados também receberam o sistema de identificação.A partir de janeiro de 2008 o Centro de Controle de Zoonoses está iniciando a segunda etapa do Programa de Identificação. Os proprietários de cães e gatos que queiram implantar o chip em seus animais devem comparecer ao CCZ e retirar a guia para recolhimento. O valor do chip é de 10 VRM para cães e gatos, e 20 VRM para bovinos e eqüinos, o que corresponde a R$ 18,41 e R$ 36,83, respectivamente.Conforme informou Garrido, o principal objetivo é identificar o maior número de animais, para inserir de forma concreta o conceito da "posse responsável".

(Fonte: http://www.jornalbaixadasantista.com.br/conteudo/zoonoses_chip_caes2007.asp)

Identificação em sere humanos - inclusive implante de microchips:

6)Na Holanda, o governo pretende abrir e manter um arquivo eletrônico para cada bebê nascido naquele país.

7) No México, para garantir segurança ao acesso ao escritório da advocacia da união do país, mais de 160 funcionários tiveram implantados em seus braços um chip para ter acesso às áreas seguras do escritório central.

8) Em Bruxelas, a comissão européia propôs uma lei que obriga todos os estados membros da Comunidade Econômica Européia a introduzir chips de identificação em seus passaportes emitidos para seus cidadãos contendo informações biométricas da face do proprietário e, possivelmente, sua impressão digital;

9) Nos Estados Unidos, um supermercado implantou um sistema de pagamento através da impressão digital armazenada em um banco de dados, permitindo que seus clientes paguem as compras sem a necessidade de levar dinheiro, passar o cartão de crédito ou débito.

10) Na Bélgica, um novo sistema via satélite de cobrança da taxa anual de veículos automotores funciona de forma que os carros são monitorados para saber o total de quilômetros percorridos individualmente podendo então cobrar as taxas aplicáveis de forma mais justa, acreditam as autoridades do país;

11)Na China, os 1,26 bilhões de habitantes terão suas carteiras de identidade trocadas por um novo modelo que virá com um chip contendo informações pessoais de cada pessoa, tendo como um de seus usos, fazer pedido de empréstimo bancário.

12) Na Finlândia, todo cidadão carrega uma identidade nacional, com um número identificador individual e todas as suas informações privadas e públicas estão armazenadas num gigantesco banco de dados no Governo, incluindo automóveis, empresas e todos os imóveis existentes no país. Toda esta parafernália de informações está disponível on-line.


13) Em setembro de 2004, a BBC informou que uma das boates mais badaladas das praias de Barcelona, a Baja Beach Club, estava implantando cartões de credito eletronicos debaixo da pele, para resolver o problema das pessoas que querem dançar, mas não querem carregar uma carteira: http://news.bbc.co.uk/2/hi/technology/3697940.stm

O sitio da boate confirma a informação: "Somos la primera discoteca del mundo en ofrecer el VIP VeriChip. Mediante un chip digital integrado, nuestros VIPs pueden identificarse como tal, así como pagar sus consumiciones sin la necesidad de aportar ningún tipo de documento." (http://www.baja-beachclub.com/bajaes/asp/zonavip.aspx).

14) A Motorola desenvolveu os biochipes BT952000, implantaveis em seres humanos, baseados na tecnologia medica e implantados por motivos clinicos, como o mal de Alzheimer, por exemplo. Esses biochipes transmitem permanentemente dados a satelites, através de impulsos curtos de altissima frequencia. O biochip da Motorola mede 7mm de comprimento e 0,75 mm de largura (mais ou menos o tamanho de um grão de arroz) e contém um transmissor-receptor e uma bateria de litio recarregavel. O carregamento da bateria faz-se através de um circuito de termopar com 250.000 componentes eletronicos que produz voltagem a partir das flutuações termicas do corpo. A bateria de litio mantém-se carregada durante a vida inteira através de uma variação maxima da temperatura corporal. A titulo de curiosidade, os pesquisadores gastaram 1,5 milhão de dolares para analisar as duas partes do corpo mais adequadas para receber o implante, com o proposito de tirar partido das variações maximas de temperatura. Após varios meses de estudo, concluiram que os dois melhores lugares eram, primeiro, a mão direita e, depois, a testa.

Mais noticias sobre o implante de chipes em seres humanos (em inglês):
http://www.guardian.co.uk/child/story/0,7369,785073,00.html
http://www.wnd.com/news/article.asp?ARTICLE_ID=17705
http://www.wnd.com/news/article.asp?ARTICLE_ID=23232
http://www.worldnetdaily.com/news/article.asp?ARTICLE_ID=26316


(Fonte - 13 e 14 : http://www.grupos.com.br/blog/oitocolunas/permalink/11027.html)


Conforme atcertadamente analisa o site "Oito Colunas":

"A imprensa frequentemente anuncia que a era do dinheiro de papel está chegando ao fim, para ser substituida pela do dinheiro eletronico, ou virtual. Cada vez mais as transações comerciais e financeiras são realizadas eletronicamente, através dos modernos cartões de credito e de debito. Estes cartões nos parecem muito uteis, pois nos poupam da necessidade de andar com dinheiro no bolso. Até porque o crescimento descontrolado da criminalidade faz do carregar dinheiro um comportamento bem pouco recomendavel. Uma das metas dos controladores globais é criar uma sociedade sem dinheiro vivo, em que todas as transações sejam efetuadas forçosamente através do sistema bancario. O dinheiro de papel nos garante privacidade e anonimato, ou seja, liberdade e independencia. Se todas as transações comerciais forem feitas eletronicamente, por meio do sistema bancario, poderão ser rastreadas todas as nossas compras e despesas.

"O controle sobre nossa vida ficará ainda mais completo se um mesmo instrumento permitir não sòmente o acompanhamento de nossas transações financeiras e comerciais, como também o reconhecimento dos nossos dados de identificação pessoal (nome completo, estado civil, profissão, endereço, RG, CPF, carteira de motorista, tipo sanguineo, impressão digital, nacionalidade, religião e opinião politica).

"Segundo um professor norte-americano de Ciencia Politica, citado por Daniel Estulin: "Primeiro o mundo será obrigado a usar um novo sistema de identificação internacional computadorizado, com dados pessoais digitalizados de acesso imediato, como informações bancarias, classificações de credito e situação profissional. Pouco depois, todos os documentos de identidade existentes, cartões de debito, cartas de motorista e cartões de credito serão consolidados num unico cartão inteligente multifuncional e tecnologicamente avançado, equipado com um chip de circuitos integrados que é capaz de armazenar tanto o dinheiro eletronico como os dados de identificação pessoal. Quase ao mesmo tempo, o mundo terá ficado sem dinheiro, e todas as moedas serão ilegalizadas para que sejamos obrigados a comprar tudo por via informatica" (In: ESTULIN, 2005:187-8).

"Essa invenção seria saudada como um habil meio de se facilitar a vida. Mas ainda apresentaria inconvenientes: por exemplo, todos esses dados seriam perdidos se ladrões nos levassem o cartão. Para esse e outros problemas seria oferecido como solução definitiva o implante, debaixo da pele das mãos, de um biochip identificador que substituiria todos os nossos cartões e documentos de identificação. Ninguém poderá comprar ou vender coisa alguma sem ele.

"Numa monografia elaborada pela advogada Elaine M. Ramesh para o Franklin Pierce Law Centre (uma faculdade norte-americana de Direito) lê-se: "Um sistema nacional de identificação atavés da implantação de microchips poderia ser implementado em duas fases: na fase de apresentação, como um sistema voluntario, já em curso no rastreio de animais, a implantação do microchip parecerá agradavel. Depois de se criar uma familiaridade com o processo e de se conhecer as suas vantagens, a implantação seria obrigatoria"
(o sublinhado é meu. Quem quiser consultar a integra da monografia da Dra. Ramesh, acessar: http://www.piercelaw.edu/risk/vol8/fall/ramesh.htm)."

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Pelo "re-encantamento" do mundo



A religião para conter o deserto?


“A extrapolação das tendências atuais na redução da biodiversidade implica um desfecho para a civilização dentro dos próximos cem anos.” E o único caminho para reverter esse quadro, propõe o biólogo Paul R. Ehrlich“talvez seja uma transformação quase religiosa, que leve à apreciação da diversidade por si própria, independentemente de seus benefícios diretos para a humanidade”. É o mesmo caminho proposto pelo coordenador da obra, o biólogo Edward O. Wilson", escreve Washington Novaes, jornalista, em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo, 18-07-2008.

Eis o artigo.


A recente divulgação de mais um relatório da Organização para a Alimentação e a Agricultura (FAO) da ONU, assim como novos congressos sobre desertificação no Brasil, trazem de volta o tema. O relatório da FAO, com um balanço dos últimos 20 anos, diz que a degradação do solo no mundo - medida pelo declínio nas funções e na produtividade de um ecossistema - já atinge mais de 20% das terras ocupadas pela agricultura, 10% das pastagens, 30% das áreas de floresta. E afeta 1,5 bilhão de pessoas, com insegurança alimentar, perdas agrícolas, perda da biodiversidade, necessidade de migrar. Também influi no clima, porque a perda de biomassa e de matéria orgânica no solo desprende carbono. E leva à redução do fluxo hidrológico, porque se reduz a capacidade de a terra desmatada reter água. A China está com 457 mil km2 afetados; a Índia, com 177 mil; a Indonésia, 86 mil; Bangladesh, 72 mil. Para o Brasil, o relatório aponta 46 mil km2, embora nossos relatórios nacionais mencionem 180 mil km2 em diferentes etapas do processo de desertificação, principalmente no Semi-Árido nordestino, mais Espírito Santo e Minas Gerais (11 Estados ao todo).

Os relatórios apontam situações difíceis em áreas que o mundo se habituou a considerar desenvolvidas e ausentes de questões dessa natureza. É o caso da Espanha, por exemplo, onde um terço do território é considerado como de “risco significativo” nessa área, principalmente por causa da escassez de água. Até o fim deste século, prevê-se que o fluxo hidrológico ali, especialmente no sul do país, diminua 22%. Barcelona, cidade admirada e invejada, enfrenta uma escassez inédita, que a leva a disputar com outras zonas as águas do Rio Ebro (que quer transpor e captar, para diminuir a crise). E até a proibir que se encham piscinas.

A Austrália é outra área com graves dificuldades, já que o fluxo das principais bacias hidrográficas caiu 41% - é o mais baixo em 117 anos, desde quando se têm registros - e afeta a produção de frutas, grãos e outros bens. Certamente é essa uma das razões que levaram o país (o maior exportador de carvão no mundo) a mudar sua posição e aderir ao Protocolo de Kyoto, sobre mudanças climáticas. As previsões dos cientistas para lá são de que as “ondas de calor” se tornarão muito mais freqüentes e afetarão ainda mais o fluxo dos rios (cada grau Celsius de alta na temperatura média pode reduzi-lo em 15%, dizem alguns cientistas).

O fato é que o drama da desertificação avança à razão de 60 mil km2 por ano no mundo. E seriam necessários, diz a ONU, pelo menos US$ 12 bilhões anuais para programas de informação, monitoramento e recuperação de áreas. Mas esses recursos não estão disponíveis, embora os prejuízos anuais sejam muito maiores que isso, sem falar no drama das migrações e conflitos que provocam. No Brasil mesmo, os R$ 500 mil anuais teoricamente disponíveis para o Fundo de Iniciativas Sociais no Semi-Árido têm sido reduzidos a ridículos R$ 25 mil/ano. Quando deveríamos ser muito mais cuidadosos. Além do Semi-Árido, as imagens de satélites mostram cada vez mais pontos problemáticos em todo o território nacional, da fronteira gaúcha ao sudoeste goiano. E já há alguns anos o Ministério do Meio Ambiente apontava uma perda de 90 milhões de toneladas anuais de solo fértil por ano no Cerrado, por causa de erosão; no Rio Grande do Sul, 80 milhões/ano; no País todo, 1 bilhão de toneladas anuais. É possível que o plantio direto nas lavouras de grãos tenha reduzido esses números, mas eles ainda são altos. E a área de pastagens degradadas é enorme: em Goiás, na última negociação com o Fundo do Centro-Oeste, foram apontados 70% das pastagens em algum estágio de degradação. No mundo, estima-se que a perda seja de 23 bilhões de toneladas anuais de solo. E leva 30 anos para o solo em descanso recompor uma polegada de terra fértil.

Enquanto tudo isso acontece, ganha mais corpo uma discussão que ao longo das últimas décadas se desenvolveu timidamente, confinada quase apenas a áreas ditas “ambientalistas”. Um dos primeiros a expô-la foi o biólogo Paul R. Ehrlich, da Universidade de Stanford, na Califórnia - segundo quem o problema da relação do ser humano com seu meio físico e com as espécies das quais depende só terá encaminhamento com o que chama de “recuperação do sagrado”, quando nossa espécie reconhecer o direito à vida de todas as espécies, independentemente de sua utilidade para os humanos (como alimentos ou materiais). Diz ele (Biodiversidade, Editora Nova Fronteira, 1997) que “a causa básica da decomposição da diversidade orgânica não é a exploração ou a maldade humana, mas a destruição de hábitats que resulta da expansão das populações humanas e suas atividades”. Para ele, “muitos desses organismos que o Homo sapiens está destruindo são mais importantes para o futuro da humanidade do que a maioria das espécies sabidamente em perigo de extinção; as pessoas precisam mais de plantas e insetos do que precisam de leopardos e baleias (sem querer com isso menosprezar o valor dos dois últimos)”. Seu prognóstico: “A extrapolação das tendências atuais na redução da biodiversidade implica um desfecho para a civilização dentro dos próximos cem anos.” E o único caminho para reverter esse quadro “talvez seja uma transformação quase religiosa, que leve à apreciação da diversidade por si própria, independentemente de seus benefícios diretos para a humanidade”. É o mesmo caminho proposto pelo coordenador da obra, o biólogo Edward O. Wilson, em outro livro - A criação, Companhia das Letras, 2007) - já comentado neste espaço. Wilson acha que a única possibilidade de mudança rápida no padrão civilizatório, capaz de rever os rumos, está numa aliança entre a ciência e a religião.

Pois não é que o Equador está discutindo incluir em sua Constituição os “direitos da natureza”?

Extraído de: http://www.unisinos.br/_ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=15337

terça-feira, 22 de julho de 2008

Nazismo e contemporaneidade


A Revista IHU-On Line dedicou seu último numero (IHU-On Line, n. 265) à análise do Nazismo. Sob o título "Nazismo: a legitimação da irracionalidade e da barbárie", a revista traz uma série de entrevistas exclusivas com diversos intelecttuais brasileiros e estrangeiros, enfatizando a abordagem filosófica e psicanalítica do fascismo alemão.


Coletei alguns trechos - selecionando passagens das entrevistas concedidas por Ricardo Timm, Michel Stürmer, Vladimir Safatle, Saul Kirschbaum e Mário Fleig - sobretudo por trazerem à luz aspectos que se relacionam de perto com a realidade contemporânea (a aproximação da "esquerda" com a "extrema-direita", o discurso exclusivista e politicamente correto porém essencialmente intolerante etc).






I) Ricardo Timm (1)



IHU On-Line - Como a marca do ódio do homem contra o homem deixada pelo nazismo perpassa e inspira Lévinas a construir um sistema em que a Ética e alteridade são os pilares principais? Podemos falar numa ética da diferença? O que seria ela?

Ricardo Timm -
A Ética da Alteridade - que, em sentido lato, é uma ética das diferenças, assim mesmo, no plural - se constitui essencialmente em uma resposta à violência contra a vida e a Alteridade, o Outro, que não apenas o Nazismo significou de modo eminente, mas que todos os sistemas opressores da humanidade (e mesmo dos animais e da natureza em geral) vêm significando ao longo dos séculos. Consiste essencialmente em mostrar que a ética não é subsidiária de nenhum conhecimento ou saber prévio, mas condição vital-temporal de todo saber e conhecimento, ou seja, prima philosophia. Observe-se que Lévinas não “nega” o Ser; para Lévinas, o Ser é o lugar, o espaço onde o encontro com o Outro e a responsabilidade por ele se devem dar na construção do sentido humano-ecológico.

IHU On-Line - Filosoficamente, que outros autores, além de Lévinas, construíram respostas ao horror nazista?

Ricardo Timm -
É difícil conceber que algum filosófo que tenha vivenciado diretamente ou indiretamente o horror nazista não tenha sido influenciado por este acontecimento maior na história contemporânea, mas, se algum filósofo não o foi, eu duvido muito que permaneça merecendo essa designação de “filósofo”. Assim, a totalidade dos grandes pensadores que vivenciou o período foi obrigado a sobreviver a este trauma radical. Todavia, eu destacaria nesse universo um pensador em particular - Theodor W. Adorno - que elabora, a partir da crítica filosófica a um tal estado de coisas e em articulação com um diagnóstico interdisciplinar extremamente sofisticado da sociedade e cultura contemporâneas, um modelo de pensamento que propõe alternativas sólidas à violência que Auschwitz e tudo que se lhe assemelha significa. Temos em Adorno a fundamental reconfiguração do imperativo categórico da tradição: para ele, é imperativo “impedir que Auschwitz se repita”.


IHU On-Line - A Filosofia mudou depois de Auschwitz? Em que aspectos?


Ricardo Timm -
Definitivamente, se quiser merecer continuar sendo chamada de Filosofia. A Filosofia é obrigada, pelo horror e pelo imperativo de sua evitação, a se encontrar com seus fundamentos éticos de sentido. O problema não é mais questionar pelo Ser, mas questionar pelo sentido que o Ser deve assumir na construção de um mundo em que “Auschwitz” não tenha lugar.


IHU On-Line - Hitler dizia ter lido, entre outros, Hegel e Nietzsche, além de se declarar um wagneriano convicto. Em que medida Hitler compreendeu e distorceu o pensamento desses filósofos e compositor?

Ricardo Timm -
Nem Hegel, nem Nietzsche, nem mesmo o polêmico Wagner permitiriam, apenas pela leitura de suas obras ou de parte delas, inferências tão baixas que sustentassem uma doutrina do teor do nazismo. Outra questão é saber se nesses pensadores - Wagner incluído - não se encontram elementos da grande tradição logocêntrica ocidental que permitiram, por alguma metamorfose doentia, alguns aspectos daquilo que se pode ler como uma certa base “filosófica” de aspectos da doutrina nazista.


IHU On-Line - De que forma o agir político de Hitler se entrelaçou com a filosofia de pensadores como Heidegger e Carl Schmitt ?

Ricardo Timm -
Carl Schmitt é um pensador singular, essencial para a compreensão da filosofia política contemporânea independentemente de seu viés político explícito. Todavia, ao meu ver, permanece, apesar de tudo, um pensador, ou seja, alguém capaz de dialogar até mesmo com um Walter Benjamin. Há que saber distinguir o que, de Schmitt, nos dá hoje o que pensar. Já o caso de Heidegger me parece bem mais complicado; não é segredo para ninguém que ele, durante certo período crítico, abraçou o nacional-socialismo, havendo perdido posteriormente várias chances de se retratar. De qualquer forma, é possível - e tem sido realizada, especialmente na Alemanha, mas não apenas lá - uma exegese de seus textos que indiciam que sua proximidade com o referido ideário era mais intenso, até mesmo visceral, em relação ao que se depreende apenas, por exemplo, da leitura do “Discurso do reitorado”.

IHU On-Line - Como podemos entender que, em pleno século XX, e com amplo apoio da população alemã e de outras partes do mundo, se chegou ao terror nazista?

Ricardo Timm -
Através de uma rigorosa arqueologia da razão ocidental. Pensadores como os filósofos da Escola de Frankfurt, Derrida e Lévinas, entre outros, nos mostram que estranho seria se o caminho que vai “da funda à bomba atômica”, no dizer dos frankfurtianos, não fosse trilhado, uma vez que a obsessão pelo ser e o desprezo pela temporalidade confluem necessariamente em um delírio ontológico-instrumental no qual a ética como realidade propriamente dita não tem, ou apenas tem dificilmente lugar.

IHU On-Line - Na Alemanha e no mundo atual, há espaço para esse tipo de político ditador? As pessoas, em pleno século XXI, apoiariam uma política como aquela?

Ricardo Timm -
As condições permanecem. Devemos perder a ingenuidade e entender que a crença em uma idéia linear de “progresso moral” não se justifica nem historicamente, nem filosófica, política ou sociologicamente. Enquanto a racionalidade instrumental permanecer ditando as regras maiores do mundo, como hoje o faz sob a forma capitalista, na transformação da qualidade em quantidade pela anulação das diferenças, da Alteridade, nada nos garante que as massas não venham a aderir ao suicídio coletivo que significam doutrinas aberrantes em relação à vitalidade e à saúde dos seres humanos individuais, das comunidades e dos ecossistemas.


II) Michel Stürmer (2)



IHU On-Line – Qual era a situação dos partidos de direita e esquerda no período entre as guerras? De que modo esta situação política contribuiu para o advento do nacional-socialismo?

Michael Stürmer -
A República de Weimar foi uma civitas sitiada, desde o início, de ambos os lados: a guerra civil da esquerda, que no início foi forte, e a da direita, que no final venceu. Mas o nacional-socialismo é ambas as coisas: direita e esquerda – isto não se pode esquecer, caso se queira explicar o seu êxito.


IHU On-Line –Quais foram as influências intelectuais de Hitler? Até que ponto ele realmente entendeu os autores que ele afirma ter lido? Na mesma entrevista ao La Repubblica, o senhor considera que “o completo niilismo de sua vontade de poder não foi levado a sério”.

Michael Stürmer -
Hitler foi leitor compulsivo e autodidata. Mas, sobretudo um possuído pelo poder. Somente uma edição crítica de seu Mein kampf poderá dar informação mais exata a essa pergunta.


IHU On-Line – Alguns autores afirmam que o fenômeno do nazismo não seria uma anomalia social ou uma patologia cultural, mas uma síntese do pensamento reacionário europeu. Qual é seu ponto de vista?

Michael Stürmer -
Sobre isto, dou duas respostas. Quem se prepara para a guerra de ontem, vencerá a de amanhã. Mas a radical combinação de esquerda-direita, impulsionada pela crise social e de recursos, pode retornar e já é observável em alguns lugares. Os humanos aprendem pouco.

IHU On-Line – Na Alemanha e no mundo atual, ainda há lugar para tal tipo de ditador político? As pessoas que vivem em pleno século XXI ainda apoiariam tal política?

Michael Stürmer -
Não. As tentações são sempre diferentes, sempre novas. O estado do bem-estar torna todos nós imaturos. A história é mais rica em suas variações do que em deixar-se influenciar por pura repetição. Hoje em dia, as tiranias chegam via Tecnologia de Informação, via estado do bem-estar, estado econômico etc. Como poderia você acreditar que o nível de moral ou de sabedoria seria hoje mais alto do que nos anos 1970, 1980?

IHU On-Line – Que razões explicam a maciça adesão da juventude à proposta de Hitler?

Michael Stürmer - Juventude é embriaguez sem vinho. A capacidade de sedução é enorme. O desejo do parricídio também.

IHU On-Line –
Após 75 anos desde a ascensão de Hitler ao poder, como os alemães lidam com o passado?

Michael Stürmer - Sempre falar disso, jamais pensar nisso.

III) Vladimir Safatle (3)

IHU On-Line -
Nesse aspecto, o Iluminismo seria a exacerbação do logos e o ocaso definitivo de nossos aspectos dionisíacos, nietzschianamente falando? O homem se transformou num ressentido, num rato de subsolo (como dizia Dostoiévski ) que se compraz em arquitetar o mal, deixando de lado sua “crueldade inocente”?

Vladimir Safatle - Na verdade, tenho uma certa dificuldade em entender o que pode significar “o mal” neste contexto. Não creio que ele seja realmente um conceito ou um princípio que funda uma certa lógica própria da ação. Normalmente, dizemos que o mal está vinculado ao prazer de fazer o outro sofrer e de destruí-lo. Não seria difícil mostrar que este não é um prazer que funda um modo de conduta, mas é uma espécie de prazer derivado da hipóstase de princípios de auto-conservação. Mais aterrador não é o prazer de destruir o outro, mas a destruição do outro sem prazer, feita a partir de um formalismo levado às últimas conseqüências, um pouco como aquela máquina de “Na colônia penal”, de Kafka, que de tanto escrever a Lei no corpo dos condenados acaba por mutilá-los “em nome da Lei”.

IHU On-Line - O homem contemporâneo é suscetível de se deixar levar por outros ditadores como Hitler?

Vladimir Safatle -
Há um aspecto do fascismo que acabamos por esquecer. No entanto, ele é para mim o mais aterrador. Tendemos a acreditar que o fascismo era uma ditadura no velho estilo Law and Order. No entanto, ele era uma situação social onde, no fundo, ninguém acreditava na ideologia bricolada e inconsistente dos líderes. Na verdade, encenava-se a crença, agia-se como se todos acreditavam. Esta era a única maneira do sistema funcionar.
Pensando nisto, peguem alguém como Silvio Berlusconi. Trata-se de um caso extremamente interessante. Primeiro porque, do ponto de vista econômico, a Itália votou contra seus próprios interesses. Desde que Berlusconi subiu ao poder, a Itália estagnou. Meios de comunicação conservadores como The Economist e Financial Times fizeram campanha contra ele devido a sua mais completa inépcia econômica. No entanto, ele ganhou pela terceira vez, mas agora com um discurso francamente racista e xenófobo.

O que é interessante em seu caso é como sua figura de fora-da-lei notório, misto de malandro boa praça e mafioso empresarial, acaba por encarnar o desconforto e a ira da maioria contra uma Lei que, até agora, foi apenas a vontade do mais forte. Berlusconi representa a revolta contra a Lei social. No entanto, esta revolta está agora associada a demandas de “segurança”, que a suspensão pura e simples da Lei não traria. Por isto, pedimos ao fora-da-lei que, ao mesmo tempo, suspendam e cumpram a Lei com dureza. Cumpram não contra nós, mas contra os outros, contra estes invasores, parasitas, estes que não gozam como nós, sejam eles os judeus de ontem ou os árabes de hoje. Tanto faz quem ocupa o lugar dos que representam a insegurança contra o Todo social.
Berlusconi é a melhor figura do totalitarismo: alguém que mistura, de um lado, o sorriso maroto da criança que não quer se submeter à Lei e que, com isto, ganha a simpatia destes para quem a Lei tem gosto de opressão e que traz na sua mão o porrete implacável da polícia que não se deixa enganar pela ingenuidade destes que são complacentes com a insegurança e com os que burlam a lei de imigração. Um criminoso duro contra o crime. Alguém que não pede para acreditarmos nele, mas para apenas fingir que acreditemos nele.

IV) Saul Kirschbaum (4)

IHU On-Line - Em Mein kampf, Hitler afirma ter lido Hegel e Nietzsche, além de se declarar um admirador de Wagner. Em que medida Hitler compreendeu e distorceu o pensamento desses filósofos e compositor?

Saul Kirschbaum -
A idéia de “distorcer” conota uma intencionalidade perversa. Por outro lado, qualquer texto é suscetível de múltiplas leituras, dependendo da ótica do leitor. Certamente, não se pode afirmar que Hegel e Nietzsche tenham sido nazistas, ou proto-nazistas, ou mesmo simpatizantes do nazismo (ao contrário de Wagner, cuja recuperação e interpretação dos mitos germânicos foi instrumental para a elaboração do ideário nazista, e por quem a admiração de Hitler era notória). Mas, se o nazismo, o totalitarismo, a barbárie, são possibilidades concretas, apesar de extremas, da Civilização Ocidental, então deve ser possível encontrar aspectos que corroborem essas possibilidades em muitos pensadores. Neste sentido, talvez Hitler não tenha, propriamente, distorcido o pensamento dos filósofos, mas apenas compreendido em uma dimensão que nos aterroriza; para nos tranqüilizarmos, precisamos pensar que ele distorceu.

IHU On-Line - Além do extermínio físico, os nazistas promoveram um verdadeiro extermínio moral por onde passaram. De que forma a mentalidade nazista pôde ser aceita numa Europa evoluída? Por que as pessoas não se levantaram contra esse totalitarismo?

Saul Kirschbaum -
O extermínio físico somente foi possível por ter sido precedido pelo extermínio moral. Os judeus, ciganos, homossexuais, foram primeiro desumanizados, desindividualizados, rebaixados a números, condenados à exclusão pelo fato mesmo de pertencerem a um determinado grupo. O regime, totalitário, se encarregou de criar uma imensa burocracia, recrutada e treinada para suprimir quaisquer considerações éticas a respeito das tarefas recebidas. Uma gigantesca máquina de propaganda recebeu a atribuição de convencer a população de que as dificuldades vividas pela Alemanha eram conseqüência da presença maléfica dos grupos que estavam sendo excluídos, pois impediam a caminhada da Alemanha rumo ao seu futuro glorioso, de outra forma garantido pela supremacia racial dos alemães; ao mesmo tempo, a prática da brutalidade contra os adversários do regime, do fato consumado, espalhou o terror, impedindo que as pessoas se levantassem. Muitos intelectuais, reduzidos à impotência, optaram por emigrar.

IHU On-Line - O nazismo é uma expressão da pós-modernidade ou é sua própria essência, representando a falência de valores e o niilismo moral?

Saul Kirschbaum -
É necessário um consenso prévio sobre o significado da expressão “pós-modernidade”. Se a entendermos como a constatação do fracasso dos “ismos” do século XIX (comunismo, socialismo, liberalismo, positivismo), que prometiam um futuro jubiloso de progresso material permanente e a conseqüente melhoria moral da humanidade, então, sim, o nazismo é a própria essência da pós-modernidade, é a expressão máxima dessa aterradora e sempre presente possibilidade da Civilização Ocidental, a irrupção da barbárie; é a possibilidade do Campo de Concentração em escala internacional.

IHU On-Line - Como a marca do ódio do homem contra o homem deixada pelo nazismo perpassa e inspira Lévinas a construir um sistema em que a Ética e alteridade são os pilares principais?

Saul Kirschbaum -
O ponto de partida da reflexão levinasiana é que a primazia da liberdade do sujeito, constitutiva da ontologia ocidental, serve de suporte para a postulação da plena realização do Eu. O Outro se apresenta, então, como um obstáculo ao desenvolvimento do Eu em todo o seu potencial, e deve, por isso, ser suprimido. A liberdade é assassina, e a relação entre os homens é marcada pelo ódio. Esta reflexão inspira Lévinas a propor “a ética como filosofia primeira”, e a infinita responsabilidade pelo Outro em lugar da primazia do Eu.

IHU On-Line - Em que aspectos o pensamento de Lévinas é uma resposta e uma contraposição à filosofia nazista? A dominação do Ser na filosofia ocidental cede espaço ao Outro na filosofia Lévinasiana?

Saul Kirschbaum -
Lévinas já havia percebido, em seu ensaio de 1934, “Quelques réflexions sur la philosophie de l’hitlérisme”, que “a filosofia do hitlerismo [...] põe em questão os próprios princípios de uma civilização”. Como assinalou Miguel Abensour, no ensaio que acompanha aquela obra, “[t]rata-se de uma civilização, ou antes de uma anti-civilização instalada na brutalidade do fato de ser, na brutalidade do fato consumado. [...] Daí a advertência final de Lévinas em De l’évasion: ‘Toda civilização que aceita o ser, o desespero trágico que ele comporta e os crimes que ele justifica, merece o nome de bárbara’” [traduções minhas]. A grande lição do nazismo, a barreira moral até então intransponível que ele derruba para a Civilização Ocidental, é a demonstração prática de que é possível matar milhões de pessoas, bastando, para isso, que elas sejam previamente desumanizadas, privadas de seus direitos mais elementares. A constatação de que essas possibilidades extremas residem na aceitação do Ser (e, conseqüentemente, na desumanização do Outro, reduzido a corpo “matável”) tem como decorrência, para Lévinas, que somente uma filosofia baseada na infinita responsabilidade pelo Outro, no pleno reconhecimento de sua alteridade, será capaz de se opor à barbárie.

V) Mário Fleig (5)

IHU On-Line - É possível afirmarmos que no nazismo a perversidade se converteu na norma?

Mário Fleig -
A norma no nazismo estaria, penso eu, na negação de qualquer diferença, a começar pela afirmação de uma única raça pura, e a proposta de um único Reich para toda a humanidade. A norma, nesse caso, é a afirmação constante de apenas e somente um Um. Isso que significa o sistema exacerbado, que tem a pretensão de conter tudo, inclusive a si mesmo. É a imanência plena e completa. Por isso é que a dimensão da alteridade não tem lugar em tal sistema e, em decorrência, desaparece o pensamento, se o considerarmos como a operação da diferença ou da polêmica, como já propunha Heráclito , por meio do polemos.

IHU On-Line - Como podemos entender que, enquanto algumas pessoas pensam no mal e não o executam, outras o concretizam em campos de extermínio, por exemplo? Somos todos um pouco perversos?

Mário Fleig -
Quando não conseguimos ver claramente um fato social, talvez seja porque, de algum modo, fazemos parte dele. Parece que assim se passa com a perversão, pois temos indícios de que o funcionamento social hoje certamente é muito mais regido pela perversão, isto é, a recusa em fazer da subjetividade daquele com quem lidamos o menor entrave ao exercício de um poder ou de um gozo, não importando o fato de que ele exista. O que importa é que ele realize sua tarefa e isso sem nenhum limite, sem nenhuma barreira, sem nenhuma fronteira. Esse tipo de dispositivo parece fazer parte de nossa organização social, ao ponto de que não sabemos muito bem de que modo estamos imerso na perversão. Ou seja, os funcionamentos perversos tende a passar por normais e o questionamento que alguém possa levantar é visto como inconveniente. O império do politicamente correto, que estaria dentro da lógica da perversão comum que perpassa nossa cultura, determina que qualquer discordância àquilo que é suposto aprovado pelo consenso seja mal visto e reprovado.
Querer fazer o mal parece algo inerente à condição humana. Precisaríamos nos perguntar o que produz o ódio ao outro e qual é o futuro de nosso futuro do ódio. A partir disso, por que os modos de recalcamento do ódio têm sido tão ineficientes na contemporaneidade?

IHU On-Line - Como caracterizaria o tipo psicológico de Hitler?

Mário Fleig -
Não creio que seja algo produtivo fazer a psicologia de figuras públicas, ainda menos de Hitler. Penso que seja mais produtivo prestar atenção ao que se manifesta no discurso. Ressalto um elemento no caso de Hitler, que contraria a hipótese de se tratar alguém situado na perversão: a insistência em ocupar o lugar de exceção em nome próprio. Sabemos que o perverso tende a agir sempre fazendo uso do outro, especialmente de seu nome. O célebre “Burlador de Sevilha”, de Tirso de Molina, o Don Juan, costumava realizar suas conquista se apresentando no lugar e em nome de outro. Não é o caso deste senhor que exigia que todos declarassem incessantemente: Heil Hitler.

IHU On-Line - Como é possível compreender a adesão dos intelectuais ao nacional-socialismo? Nesse contexto, como se situa Heidegger e sua filosofia?

Mário Fleig -
Acredito que uma posição intelectual não implica necessariamente uma proteção contra o totalitarismo, a segregação e a maldade. Os intelectuais estão tão sujeitos a serem seduzidos pelas promessas perversas e paranóicas quanto o homem comum. Heidegger certamente não soube identificar os sinais de maldade que já se descortinava na proposta política nazista. Por que não conseguiu ou por que caiu na sedução que lhe prometia uma radical renovação da universidade? É uma pergunta que teria de buscar respostas dentro do pensamento do filósofo, assim como examinar a oposição à ideologia nazista posterior à renúncia ao posto de reitor da Universidade de Freiburg. Poderíamos levantar a hipótese de que o pensamento veiculado em sua obra principal Ser e tempo (1927) estava excessivamente centrado na perspectiva da subjetividade, sem suporte para a crítica dos fenômenos sociais. É após sua renúncia ao lugar político dentro da administração nazista que Heidegger inicia a elaboração dos fundamentos da crítica ao império da técnica e ao discurso objetivante calcado na raça. Não concordo com seus críticos que fazem uma equiparação injustificada entre sua filosofia e o nazismo. Bem pelo contrário, se Heidegger tivesse se ancorado de modo mais firme do que já fizera em seu antecessor, Kierkegaard, propulsor incansável do valor do indivíduo contra o sistema, talvez não tivesse se enleado tão desastrosamente na teia paranóica nazista. Sugiro, para esse debate atual, a lúcida discussão de vários colegas franceses em Heidegger, à plus forte raison (Paris: Fayard, 2007).


Notas

(1)
Timm é graduado em Instrumentos, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Estudos Sociais e Filosofia, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Também cursou o mestrado em Filosofia, pela mesma universidade, e doutorado em Filosofia, pela Universität Freiburg (Albert-Ludwigs) com a tese Wenn das Unendliche in die Welt des Subjekts und der Geschichte einfällt - Ein metaphänomenologischer Versuch über das ethische Unendliche bei Emmanuel Lévinas. Escreveu inúmeros livros, entre eles, Sujeito, Ética e História - Lévinas, o traumatismo infinito e a crítica da filosofia ocidental (Porto Alegre: EDIPUCRS, 1999), A condição humana no pensamento filosófico contemporâneo (Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004) e Em torno à diferença - Aventuras da alteridade na complexidade da cultura contemporânea (Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2007). É também um dos organizadores de Alteridade e Ética - Obra comemorativa dos 100 anos do nascimento de Emmanuel Lévinas (Porto Alegre: EDIPUCRS, 2008).


(2)
Desde 1973, Stürmer é professor adjunto de estudos europeus e professor emérito de história medieval e moderna da Universidade Friedrich-Alexander, Erlangen-Nürnberg. Estudou História, Filosofia e Línguas na London School of Economics e Ciências Políticas na Universidade Livre de Berlim e na Universidade de Marburg. Foi conselheiro político do chanceler Helmut Kohl nos anos 1980. Desde 1989, é diretor de redação do jornal alemão Die Welt. Escreveu, entre outros, Bismarck und die preussisch-deutsche Politik, 1871-1890 (München: Deutscher Taschenbuch-Verlag, 1970), Die Reichsgründung: deutscher Nationalstaat und europäisches Gleichgewicht im Zeitalter Bismarcks (München: Deutscher Taschenbuch Verlag, 1984) e The German Empire, 1870-1918 (New York : Random House, 2000).


(3)
Graduado em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP) e em Comunicação Social, pela Escola Superior de Propaganda e Marketing, Vladimir Safatle é mestre em Filosofia, pela Universidade de São Paulo, e doutor em Lieux et transformations de la philosophie, pela Université de Paris VIII, com a tese La passion du négatif: modes de subjectivation et dialectique dans la clinique lacanienne. Professor da USP, atualmente desenvolve pesquisas nas áreas de epistemologia da psicanálise, desdobramentos da tradição dialética hegeliana na Filosofia do século XX e Filosofia da Música. É um dos coordenadores da International Society of Psychoanalysis and Philosophy.


(4)
Kirschbaum é graduado em Engenharia Elétrica, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), especialista em Administração, pela Fundação Getúlio Vargas São Paulo (FGV-SP), e mestre e doutor em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaica, pela Universidade de São Paulo. Sua tese intitulou-se Ética e literatura na obra de Samuel Rawet. Autor de inúmeros artigos e capítulos de livros é um dos organizadores de Dez Ensaios para Samuel Rawet (Brasília: LGE Editora, 2007


(5)
O psicanalista e filósofo Mário Fleig é professor do curso de pós-graduação em Filosofia da Unisinos e membro da Associação Lacaniana Internacional. Graduado em Psicologia pela Unisinos e em Filosofia pela Faculdade de Filosofia Nossa Senhora Medianeira, é mestre em Filosofia, pela UFRGS, doutor em Filosofia, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), e pós-doutor em Ética e Psicanálise, pela Université de Paris XIII (Paris-Nord), França.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Site: Polar Inertia


Um site bem interessante. É uma espécie de guia visual das manifestações residuais que a vanguarda pós-moderna deixou para trás em todo o mundo. Sem descuidar do texto, essa revista fotográfica contem matérias sobre diferentes "zonas de fronteiras", liminaridades coletivas. Há, por exemplo, matérias sobre uma "cidade nômade" espanhola, ou sobre bases secretas norte-americanas, sobre grafites em zonas de guerra, bunkers abandonados e reaproveitados e diversas outras instalações e manifestações urbanas, antigas ou ultra-modernas.
Uma espécie de coleção fotográfica do delírio paraníoco-consumista pós-moderno.


Merece uma visita o Arquivo da Revista em: http://www.polarinertia.com/archives.htm.



Endereço do site: http://www.polarinertia.com/

Burocratização, neo-fascismo e estado policial no Brasil



Fascismo. Moralismo faz a política ficar de fora da discussão.


Entrevista especial com Luiz Werneck Vianna






Ao analisar os recentes episódios de corrupção no Brasil, a partir da prisão (ou da tentativa de) do banqueiro Daniel Dantas, o professor Luiz Werneck Vianna, do Iuperj, em entrevista concedida por telefone à IHU On-Line, identifica apenas “o capitalismo operando”. Para ele, o mal não está em figuras como a de Dantas ou de Eike Batista, “como se a sociedade fosse melhorar se nos livrássemos delas”. Ele garante: “Não vai melhorar. A sociedade vai melhorar se organizando em torno das suas questões centrais”, que são, na sua opinião, o crescimento econômico, a reforma agrária e a democratização da propriedade. O pesquisador acredita que “os piores instintos da sociedade estão sendo suscitados com tudo isso”. E que a solução virá “com mais política”. “O que constatamos, ao longo desse episódio, é que a política recua. Não há política. Está faltando sociedade organizada, reflexiva. A política está reduzida ao noticiário policial”, explica.

Werneck Vianna é professor pesquisador do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo, é autor de, entre outros, A revolução passiva: iberismo e americanismo no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1997), A judicialização da política e das relações sociais no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1999) e Democracia e os três poderes no Brasil (Belo Horizonte: UFMG, 2002).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Personagens como Daniel Dantas e Eike Batista avançaram sobre nacos importantes do patrimônio do Estado brasileiro. Quais foram as condições políticas e econômicas que permitiram o surgimento desses personagens?

Luiz Werneck Vianna –
O Brasil é um país capitalista. E esses são empresários audaciosos, jovens, e têm encontrado um terreno favorável a tratativas com o executivo no sentido de fazer negócios de interesse comum. E nisso ambos parecem que têm se complicado muito. No entanto, há uma zona de sombra que ainda precisa ser esclarecida. Meu problema em relação a tudo é essa sucessão de intervenções espetaculosas da Polícia Federal, a mobilização da mídia, do Ministério Público, do Judiciário e da opinião pública para esses fatos. As questões centrais não são essas. Com essa cortina espetacular, o mundo continua como dantes. Nada muda no que se refere à questão agrária, às políticas sociais. A população anda desanimada, desencantada. Além disso, o que aparece aqui, que é muito perigoso, é um espírito salvacionista. Há um “Batman institucional” atuando sobre a nossa realidade. Esse “Batman” é a Polícia Federal associada ao Ministério Público. Há elementos muito perigosos aí, de índole messiânica, salvacionista, apolítica, que podem indicar a emergência de uma cultura política fascista entre nós. Todos esses escândalos e espetáculos atraem a opinião pública como se dependesse da salvação de todos apurar os negócios do Eike Batista e do Daniel Dantas. Não depende, isso é mentira! Com isso, se mobiliza a classe média para um moralismo que não pára de se manifestar. A política cai fora do espaço de discussão. Enquanto isso, aparecem dois personagens institucionais, ambos vinculados ao Estado: o Ministério Público e a Polícia Federal. Este caminho é perigoso, e a sociedade não reage a ele faz tempo. A cultura do fascismo pode se manifestar com traços mais bem definidos, a partir da idéia de que nosso inimigo é a corrupção, especialmente aquela praticada pelas elites. Então, a sociedade acha que se resolve esse problema colocando a elite branca na cadeia. Desse modo, o país viveria numa sociedade justa. Não vai, mentira!

IHU On-Line – O que o senhor considera como as questões centrais na sociedade brasileira, que devem ser discutidas com mais ênfase?

Luiz Werneck Vianna –
O tema do crescimento econômico, da reforma agrária, da democratização da propriedade. Para isso ninguém mobiliza ninguém.

IHU On-Line - Pode-se afirmar que os anos dourados do neoliberalismo brasileiro produziram uma nova burguesia nacional da qual Daniel Dantas e Eike Batista são hoje personagens centrais? O que distingue essa nova burguesia da “velha burguesia nacional” do período desenvolvimentista?

Luiz Werneck Vianna –
Eike Batista não é um homem das finanças, e sim um homem da produção. O Daniel Dantas, não. Ele é um homem do setor financeiro. Este setor apresentou enormes possibilidades. Esses executivos do setor financeiro não têm 40 anos. Se examinarmos os currículos deles, veremos que são formados por boas universidades, com doutorado no exterior. Apareceu um novo mundo para esses setores médios e educados da população, especialmente os economistas. Se passa da posição de economista para a posição de banqueiro hoje muito facilmente.

IHU On-Line - Como o senhor interpreta essas relações aparentemente ambíguas que o banqueiro Dantas tinha, ao mesmo tempo, com o mercado financeiro internacional e os fundos de pensão do Estado do qual fazem parte sindicalistas? Acabou-se a velha contradição capital - trabalho?

Luiz Werneck Vianna –
Essa questão dos fundos previdenciários existe em toda a parte, não apenas no Brasil. E o controle disso tem sido em boa parte corporativo. Quem mexeu com a questão e falou no surgimento de uma nova classe foi o Francisco de Oliveira. Não sei se devemos concordar inteiramente com o que ele diz, mas, pelo menos, é uma alusão importante. O capital hoje tem uma outra forma de circular, e isso não ajuda o mundo sindical a se reorganizar. O que vemos é um sindicalismo inteiramente cooptado pelo Estado. Dantas jogou com as oportunidades que viu. Até agora, as únicas coisas concretas pelas quais ele pode ser pego são o suborno ao policial e seu problema com o Imposto de Renda. Esse é o capitalismo operando. Daqui a pouco vão querer “prender” o capitalismo. E não creio que isso esteja na intenção da Polícia Federal. O mal não está nessas figuras, como se a sociedade fosse melhorar se nos livrássemos delas. Não vai melhorar. A sociedade vai melhorar se organizando em torno das suas questões centrais.

IHU On-Line - O banqueiro Dantas estabeleceu uma rede de conexões políticas tecida ao longo de três governos – Collor, FHC e Lula. Como entender o poder de Daniel Dantas, sua capacidade de manipulação e envolvimento de tantas pessoas, de diferentes governos, nessa malha de corrupção?

Luiz Werneck Vianna –
Era necessário que nessa rede público-privada aparecessem personagens. Essa rede não podia se montar sem pessoas concretas. Dantas foi uma. O ponto da privatização estabeleceu um caminho para que esses homens encontrassem a sua oportunidade.

IHU On-Line - O senhor considera que o caso Dantas ameaça o conceito de República, ou se pode afirmar que efetivamente o Brasil nunca desfrutou do status de República?

Luiz Werneck Vianna –
Não ameaça nada. Esse é um affaire midiático, com cortinas de fumaça. Os piores instintos da sociedade estão sendo suscitados com tudo isso. Vejo as primeiras fumacinhas de uma síndrome fascista entre nós. E isso deve ser denunciado, combatido, e com política, com mais política. O que constatamos, ao longo desse episódio, é que a política recua. Está faltando sociedade organizada, reflexiva, e a política está reduzida ao noticiário policial.

IHU On-Line - Como o senhor analisa a postura do Supremo Tribunal Federal nesse caso? Como interpreta o comportamento do ministro Gilmar Mendes?

Luiz Werneck Vianna –
Interpreto bem. O papel da Suprema Corte é defender a Constituição, as liberdades individuais, e também não deixa de incorporar essa preocupação com o testemunho do espetacular que essas operações policiais manifestam. Uma outra questão vinculada a isso é a escuta telefônica. Estamos indo para um estado policial? E a sociedade aprende a apontar como culpado o “malvado” lá da ponta, responsável por todos os males, que, caso preso e execrado, vai fazer com que a sociedade melhore. Num ano eleitoral, tudo se discute, menos a política. Não podemos defender a idéia de que um grande inquérito, um grande processo pode resolver as máculas da nossa história, criar um novo tipo de um encaminhamento feliz para nós (e isso é feito pela polícia, pelos grampos telefônicos, pela repressão!). Isso não lembra a linguagem do regime militar, quando ele se impôs? De que o grande inimigo é a corrupção? Só que agora tudo está sendo feito numa escala nova, imensa, com um domínio total dos meios de comunicação. O próprio Congresso se tornou uma ampla comissão parlamentar de inquérito, apurando, investigando e não discutindo políticas e soluções para os problemas. Além do mais, temos um grupamento novo na sociedade: a Polícia Federal é nova. Ela foi extraída da classe média. Seu pessoal é concursado, bem formado, com curso superior. Seus integrantes estão autonomizados a ir para as ruas com esse sentimento messiânico, que aparece no relatório do delegado Protógenes, de que a Polícia pode salvar o mundo.

IHU On-Line - Qual é a sua opinião sobre o combate à corrupção no Brasil? Este episódio recente abre a possibilidade de mudanças?

Luiz Werneck Vianna –
Nesse processo, a ordem racional legal avança, se aprimora, se aperfeiçoa. No entanto, o que tento combater é uma visão salvadora, justiceira, messiânica do papel policial para a erradicação dos nossos males, como se não devesse haver nenhum impedimento entre a ação da polícia e a sociedade, como se não devêssemos ter habeas corpus, como se as pessoas pudessem ser presas, retiradas das suas casas nas primeiras horas da manhã, algemadas, e tudo isso passando por câmeras de televisão... Não creio que isso seja um indicador de democracia.

IHU On-Line - Que tipo de sentimento esse episódio provoca na população brasileira? Revolta, descrédito nas instituições?

Luiz Werneck Vianna –
Descrédito. E também aprofunda o fosso entre a sociedade e a política, mantém a sociedade fragmentada, isolada, esperando que a ação desses novos homens, dessas corporações novas, nos livre do mal. Talvez eu tenha dado muita ênfase à dimensão negativa de tudo isso, mas também vejo que esse processo pode ser corrigido se a ordem racional legal for defendida por recursos democráticos, sem violência, com respeito às leis, à dignidade da pessoa humana. É possível se avançar na ordem racional legal, investigando a corrupção, prendendo seus responsáveis, mas sem que isso assuma o caráter de escândalo, de espetáculo, no qual parece que temos um agente de salvação em defesa da sociedade. Isso sim é perigoso.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Blog Subtopia

Trata-se de um Blog pesado, com conteúdo forte. Um guia-denúncia sobre as diversas co-ações, de caráter fascista, que vêm sendo perpetradas ao redor do mundo.


Por ele, ficamos sabendo, por exemplo, que a Austrália transformou as Ilha Natal (Christmas Island) em uma mega-prisão destinada a encarcerar eventuais imigrantes oriundos principalmente da Indonésia. E, não apenas isso, que supostos agentes australianos invadem o território indonésio para praticar ações de sabotagem contra embarcações que possam ser eventualmente utilizadas para esse fim.


A esse respeito, segue abaixo um pequeno trecho dessa matéria (tradução livre):

"Enquanto a mídia e os céticos ficam dando voltas em torno do novo documentário de James Cameron sobre a possível descoberta do túmulo de Jesus de Nazaré, fui dar uma olhada em uma instalação de detenção maciça que está sendo erguida na Ilha Natal, bem na costa da Austrália.

(...)


"Desde 2005, o Departamento de Imigração da Austrália vem construindo um “Centro de Recepção e Processamento de Imigração”.

"2.400 KM de Perth, 360 KM de Jakarta e apenas 2000 KM de Darwin, este complexo prisional fica na extremidade da ilha, que é uma estreita faixa de 24 KM de comprimento por 7 KM de largura.

"Tenha em mente que “sob as leis Australianas, é possível internar pessoas extra-judicialmente (sem julgamento ou condenação) e, desde 2004, fazê-lo indefinidamente.

"Detenção por imigração é, assim, uma questão meramente administrativa. Então, o que exatamente eles estão construindo ali ? (...) Trata-se de uma prisão “paraíso-tropical” de $ 396 milhões. Isso mesmo. Para aquilo que, segundo o governo, se destina a deter a imigração ilegal, é um complexo prisional “state of the art” de 800 lugares, com cercas elétricas, detectores de movimento, centenas de câmeras de vigilância e microfones ocultos nas árvores.

Ilha Natal / Christmas Island - vista por satélite


"O campo na Ilha Natal possui um sistema de TV a cabo ligado a uma sala de controle remoto para que os guardas em Canberra possam assistir aos detentos 24 hs. por dia. “Os detentos vestirão ID eletrônicos ou cartões, identificando-os onde quer que eles estejam.(...)"
"Além disso, para desenvolver esta ilha offshore-barreira contra a imigração, o governo australiano lançou seu navio de patrulha costeira, o Triton, apelidado de navio-prisão por seus críticos. Este "trimaran" de 98 metros tem a reputação de ser capaz de deter 30 pessoas por mais de um mês a bordo e é armado com duas metralhadoras."

Navio Triton


(Fonte e texto original completo em inglês em: http://subtopia.blogspot.com/2007/02/doing-time-on-christmas-island.html)

No Blog, há ainda interessantíssimas postagens acerca das muralhas que vêm sendo erguidas ao longo de diversas fronteiras ao redor do mundo - uma espécie de "Nova Idade Média" sem os laços de proteção religiosos e tradicionais daquele período - além, é claro, de instrutivas matérias sobre o exército privado que vem "administrando" o Iraque ocupado ("Blakwater"), como protótipo do novo modelo de guerra privada do século XXI.

Endereço do Blog: http://subtopia.blogspot.com/ (também ascessível pelo link "Sites Recomendados" ao lado).



quinta-feira, 3 de julho de 2008

Baixar arquivo na internet pode virar crime


Mais um capítulo da série: "Criminalizando o cotidiano"

Projeto de lei sobre crimes eletrônicos, ou cibercrimes, em tramitação adiantada no Senado, pode levar à criminalização em massa de usuários de internet que baixam e trocam arquivos (músicas, textos e vídeos) sem autorização do titular. A reportagem é de Elvira Lobato e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 03-07-2008.

Esse é o entendimento de seis professores da Escola de Direito da Fundação Getulio Vargas, em parecer conjunto divulgado no Rio. Segundo eles, as conseqüências iriam além do âmbito da internet. Pela amplitude da redação, poderia haver conseqüências até para donos de celulares que desbloqueiam seus aparelhos. O Brasil tem 130 milhões de celulares.

Assinam o parecer os advogados Ronaldo Lemos, Carlos Affonso Pereira de Souza, Pedro Nicoletti Miozukami, Sérgio Branco, Pedro Paranaguá e Bruno Magrani, fundadores do Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da FGV.

O projeto de lei foi aprovado pelas comissões de Assuntos Econômicos e de Constituição e Justiça do Senado, no mês passado, e está em fase de recebimento de proposta para votação em plenário.

O mesmo projeto já causara polêmica em 2006, quando especialistas e provedores de acesso à web reagiram contra a obrigatoriedade de identificação prévia dos internautas nas operações com interatividade, como envio de e-mails, que burocratizaria a rede.

O texto foi modificado, mas novos questionamentos estão sendo feitos. O parecer dos professores da FGV sustenta que os artigos 285-A e 285-B do projeto, que tratam dos crimes contra a segurança de sistemas informatizados, atingem ações triviais, praticadas por milhares de pessoas, na internet, e criam um instrumento de ""criminalização de massas".

O artigo 285 - A qualifica como crime - com pena de reclusão de 1 a 3 meses e multa- ""acessar rede de computadores, dispositivo de comunicação ou sistema informatizado sem autorização do legítimo titular, quando exigida".

Segundo o professor Ronaldo Lemos, diretor do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV, as pessoas poderiam ser condenadas por desobedecer a termos de uso criados por particulares.

"Cada "legítimo titular" decide quais são os termos de autorização e passa a ser dele o papel de preencher o conteúdo da lei penal. A violação passa a ocorrer de acordo com condições subjetivas e com interesses específicos, dando margem para abusos de direito", afirma o parecer dos professores.

MP3

Segundo Ronaldo Lemos, ao se referir a "rede de computadores", "dispositivos de comunicação " e ""sistema informatizado", o projeto engloba não só computadores mas reprodutores de MP3, aparelhos celulares, tocadores de DVD, sistemas de software e até conversores de TV digital, além de websites. Nessa linha, segundo ele, o projeto alcançaria até o desbloqueio de celular.

Os professores alegam que nenhum país criminaliza o acesso a informações na internet de forma tão ampla. "A legislação mais próxima ao que se propõe foi adotada nos EUA, que criminalizaram o ato de quebrar ou contornar medidas de proteção tecnológica. Mas nenhuma criminalizou o próprio acesso", diz o parecer.

O artigo 285-B qualifica como crime, também sujeito a reclusão de um a três anos, e multa "obter ou transferir dado ou informação" sem autorização do legítimo titular.

Os professores da FGV propõem a exclusão ou a mudança do texto dos dois artigos. Querem que só sejam considerados crime o acesso e a transferência de informações na internet se feito por meio fraudulento e com a finalidade de obter vantagem para si ou para outrem.

Vigilância

Um terceiro artigo do projeto de lei - o artigo 22 - também está sendo questionado tanto pelos provedores de acesso à internet quanto pelos professores da Escola de Direito da FGV do Rio de Janeiro. Ele cria a obrigação para os provedores de informar, sigilosamente, às autoridades indícios de prática de crime de que tenham tomado conhecimento.

Para os professores da FGV, o artigo cria um sistema de delação e de vigilância privada sobre os internautas, na medida em que os provedores estariam obrigados a informar os casos em que -de acordo com suas próprias convicções- haveria indício de crimes.


Extraído de: http://www.unisinos.br/_ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=15059

Ser homem ou mulher


Por: CONTARDO CALLIGARIS


A anatomia é o destino? Talvez, mas há lugares em que a mulher pode escolher ser homem

NOS ANOS 1960, "descobrimos" que a identidade de cada gênero, masculino, feminino ou outro (há outros, sim), era construída e imposta pela cultura em que vivíamos. Ou seja, nosso sentimento íntimo de ser homem ou mulher dependia dos valores que nos eram transmitidos: "alguém" nos oferecera bonecas ou soldados e nos propusera futebol ou costura.
A descoberta encorajou a militância igualitária, os papéis sociais de homens e mulheres se aproximaram e, enfim, tornou-se possível sentir-se homem e cuidar das crianças ou fazer bordado, e sentir-se mulher e pensar na vida profissional ou entrar no exército. Isso, sem que ninguém se atormentasse com dúvidas excessivas sobre sua identidade viril ou feminina.
Nas últimas décadas, houve um refluxo: hoje, sentir-se homem ou mulher nos parece ser, antes de mais nada, um efeito da diferença biológica entre os sexos.
Talvez seja por causa das próprias mudanças que mencionei acima: as diferenças culturais entre gêneros se tornaram menos relevantes e procuramos outras, mais "sólidas".
Mas muitos dirão que aconteceu o seguinte: os avanços da ciência mostraram que, na constituição das identidades de gênero, hormônios, genes etc. contam mais do que as palavras e os comportamentos. Ou seja, pouco importa que eu vista você de renda ou de farda, você será ou se sentirá homem ou mulher como mandam a química e a física de seu corpo.
Paradoxalmente, essa posição, que pretende ser materialista, parece apostar na separação de corpo e mente, como se um mundo "real" de genes e hormônios existisse separado do da fala e dos atos da gente (que, cá entre nós, não é menos real). Acho mais provável que haja um mundo só, em que interagem fenômenos descritos de jeitos diversos, mas que pertencem a uma única realidade, a nossa, feita de descargas hormonais, obrigações indumentárias e comportamentais, genes, xingões, chapoletadas, neurotransmissores, conselhos, amores e carícias.
Além disso, é bom não esquecer que a primazia atual das explicações "anatômicas" é, por sua vez, um fato cultural. Ela é a evolução esperada da cultura ocidental moderna, que promove, dessa forma, sua melhor idéia: a de uma humanidade comum a todos, além das diferenças culturais. Por exemplo, para justificar a existência de direitos humanos universais, nada melhor do que uma definição da espécie a partir da biologia comum e não das culturas, que divergem.
Seja como for, o clima de hoje sugere que a anatomia seja o destino. Nesse quadro, é bom meditar sobre um extraordinário artigo de Dan Bilefsky, no "New York Times" de 25 de junho (em www.nytimes.com, procurar "Woman as Family Man"). Bilefsky viajou pelas montanhas do norte da Albânia, onde sobrevivem os restos de uma cultura tradicional, regida por um cânon rigoroso que, entre outras coisas, prescreve a vendeta entre famílias, de geração em geração: vocês matam um dos nossos, nós mataremos um dos seus -sendo que só podem matar e ser mortos os homens das respectivas famílias. "Abril Despedaçado", de Ismail Kadaré (Companhia das Letras), dá uma boa idéia do clima local. Quem não leu pode assistir ao filme homônimo, de Walter Salles, que transpôs o romance de Kadaré para o norte do Brasil no começo do século 20.
Pergunta: o que acontecia, numa cultura como essa, quando só sobravam as mulheres de uma família? Pois é, no caso, encorajada pelo fato de que, nessa cultura, ser mulher era especialmente chato, uma virgem, livremente, podia decidir ser homem. Ela cortava o cabelo, vestia-se de homem, carregava faca e arma, sentava-se com os homens e com eles rezava na mesquita, matava e era morta nas vendetas e tornava-se patriarca da família.
Belefsky encontrou e fotografou várias mulheres-homens, na faixa dos 80 anos, mulheres que, 60 anos atrás, virgens, renunciaram à vida sexual e decidiram ser homens. E, de fato, sentiram-se e foram homens. Na verdade, ainda são: no pleno exercício de seu patriarcado.
O que assombra nessa história, aliás, não é só a construção cultural do gênero, mas a incrível liberdade que se revelava possível numa sociedade estritamente tradicional (a gente pensa, em geral, que a liberdade de escolha seja coisa exclusivamente nossa).
Queria prestar homenagem a Ruth Cardoso. O jeito foi escrever sobre algo que, onde quer que ela esteja hoje, talvez a interesse.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Filme: Investigação Sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita



Abolicionismo penal, anarquismo e cinema

(Indagine Su Un Cittadino Al Di Sopra Di Ogni Sospetto)




País: Itália, 1970, 112 min


Direção: Elio PetriRoteiro: Elio Petri, Ugo Pirro


Fotografia: Luigi Kuveiller


Elenco: Gian Maria Volontè, Florinda Bolkan, Gianni Santuccio, Orazio Orlando




Um homem degola sua amante (Florinda Bolkan) com uma lâmina de barbear. Em seguida, espalha pelo cenário do crime diversas evidências apontando sua autoria: coloca um fio de sua gravata na unha da vítima, suja a sola de seu sapato no sangue dela e deixa impressões digitais num copo e no telefone. Este homem é o respeitado e eficiente chefe do Setor de Homicídios, que acabou de ser promovido ao Departamento de Informações Políticas. Qual o significado dessa autoridade querer se incriminar? Ele quer provar para si mesmo (devido ao poder conferido por seu cargo) que é intocável, ou melhor, "acima de qualquer suspeita". Ao mesmo tempo, ele tenta incriminar o outro amante da vítima, um universitário anarquista.
Para ele, crime e subversão são indistinguíveis; o preso comum e o preso político se assemelham e se apartam, segundo as conveniências do Estado e da polícia. Com sua conduta de assassino esperando pela denúncia, este fascista pretende fortalecer as hierarquias repressivas. Entretanto, não contava com o anarquista individualista, o único que sabia do crime e que podia livremente denunciá-lo. O jovem estudante, preso nos porões da democracia italiana, mesmo sob a ameaça da tortura e delatado por um companheiro supliciado, dá-lhe as costas informando que não o denunciará. Ao chefe de polícia resta confessar aos pares, as demais autoridades do Estado. Sem a denúncia do exterior que aciona o tribunal penal ele precisa apelar à confissão aos superiores. Mas esta é a zona restrita das medidas administrativas e que não abalam a eficácia da instituição.

O cidadão, a investigação, a tortura, o tribunal,... permanecem acima de qualquer suspeita!



Drama político ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e do Prêmio Especial do Júri do Festival de Cannes, também indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original, escrito e dirigido por Elio Petri (um dos mais importantes realizadores do cinema italiano nos anos 70 e responsável por filmes como "A Décima Vítima", "Condenado pela Máfia", "Um Lugar Tranqüilo no Campo", "Sacco e Vanzetti", "A Classe Operária Vai ao Paraíso" e "O Caso Mattei") e estrelado por Gian Maria Volonté (de "Condenado pela Máfia" e "A Classe Operária..."), Florinda Bolkan (de "Os Deuses Malditos", "Amargo Despertar" e "Bela Donna"), Gianni Santuccio, Orazio Orlando (de "As Bonecas") e Arturo Dominci.

Fontes: http://64.233.169.104/search?q=cache:01jaTnWE4fEJ:www.nu-sol.org/hypomnemata/boletim.php%3Fidhypom%3D92+%22investiga%C3%A7%C3%A3o+sobre+um+cidad%C3%A3o+acima+de+qualquer+suspeita%22&hl=pt-BR&ct=clnk&cd=19&gl=br

e

http://64.233.169.104/search?q=cache:dxSK5PxKXPAJ:www1.folha.uol.com.br/folha/especial/2006/30mostradecinema/sinopses-i.shtml+%22investiga%C3%A7%C3%A3o+sobre+um+homem+acima+de+qualquer+suspeita%22&hl=pt-BR&ct=clnk&cd=3&gl=br


quarta-feira, 25 de junho de 2008

O vagar voluntário


(OU DESCOBRIR A MEDITAÇÃO NATURAL EM SUA PRÓPRIA VIDA)

Lama Surya Das


Extrato do livro: ÉVEILLEZ VOTRE SPIRITUALITÉ
As sabedorias orientais do cotidiano
[págs 370-373]
Tradução ao português: Karma Tenpa Dhargye




A mente natural ou inteligência primordial instrui-nos nos instantes em que somos sinceros conosco. De tais ocorrências aparecem instantes que chamaremos de "vagar consciente". Esses vagares dão-nos uma percepção de nosso estado idílico natural, estado que existe agora em nós, e não que deva ser insuflado do exterior.

Eis um exemplo de vagar consciente: a contemplação de um lago, do mar, de um rio, de uma floresta, de um jardim ou do oceano. Alguns se dirão surpresos se digo ter um pendor por uma aspiração natural e instintiva à paz, ao espaço, à solidão e à uma forma natural de suavidade contemplativa. Um matemático, amigo de meu irmão, aficionado por passar longas horas, à noite, na sua banheira compulsando folhas cobertas de equações, empilhadas sobre uma estante articulada. Indo ao correio, me acontece freqüentemente aperceber-me de uma mulher passeando um enorme cão. Um e outro parecem igualmente felizes. O vagar consciente não se parece em nada com uma fuga diante de suas responsabilidades ou de suas preocupações. Seria antes o inverso. O símbolo escolhido por Thich Nhat Hanh para sua ermida no sul da França é uma rede, a qual, melhor que qualquer outra coisa, ilustra a palavra "vagar".

Podemos vagar sós ou acompanhados. "Vamos fazer um passeio", dizemos a um amigo. Depois partimos, sem destino preciso. "Creio que há um concerto no parque. Proponho irmos escutar um pouco de música, a menos que prefiras um passeio de bicicleta". Vagar, é deixar-se levar pela corrente dos acontecimentos, é autorizar-se à vagabundagem espiritual, sentar-se numa espreguiçadeira e olhar o desfile das nuvens. O segredo inerente a uma tal prática caracteriza-se por um renunciar, um abandono à sua natureza confiante. Não é uma grande ocupação, pois que tudo irá bem.

Em que o vagar consciente é uma prática espiritual? Perguntariam vocês. Ela é o que favorece o contato com nossa natureza profunda, com o caractere inato de nossa existência. Permanecer um só minuto sem querer fazer o menor gesto, sem ter o menor pensamento, eis o que substitui a disciplina espiritual. Isso nos impregna da mente do momento, expressão espontânea de nossa unicidade. Estamos no lugar certo e no momento certo, sem que nada seja requerido de nossa pessoa.

Para um Ocidental, isso seria um grande salto para frente ao ver em uma tal espontaneidade um instante de espiritualidade, uma união com o sagrado. Sobre a veracidade de que essa mente natural seja a mente búdhica, o mestre Dzogchen Kongtrul Rinpoche declara: "Isso parece muito bom para ser verdadeiro, também recusamos acreditar. O fenômeno parece-nos tão familiar que nós o ignoramos, tão evidente que nem o notamos. Paradoxalmente, não podemos acessá-lo, porque somos aí como estrangeiros".

Esses mestres Dzogchen afirmam também que esse truísmo ilustra a maneira mais pessoal de nos reaproximar de nossa verdadeira natureza e da perfeição. Entretanto, convém para cada um descobrir por nós mesmos os vagares conscientes que nos sejam próprios. É a maneira natural de reencontrar nosso Budha interior.

Ao final de um retiro Dzogchen, em Santa Rosa, uma praticante trouxe um poema sobre a busca de seu modo de meditação natural. Achei que é um eloqüente reflexo da sabedoria inata, quanto à maneira de ser durante as meditações naturais.



eu Nunca não soube

Põe tua mochila às costas.

Alonga-te na relva verde

Puxa para ti a abóbada celeste.

Entrega-te ao repouso.

Tantos anos do dharma a prática,

As costas retas, aplicada, voltada para a iluminação

Hoje, nada além do flanco da colina.

Alonga-te na relva verde,

Deixa a terra te levar,

Pegadas de gamos, bosta de cavalo,

E o olho no interior do olho móvel e luminoso.

Eu nunca não soube.

Não me disseram nunca?

Lembro-me de meu mestre zen, na sala de entrevistas:

"Tenha fé em ti, disse-me. Seja somente você mesma".

Ele queria sem dúvida me dizer:

Põe tua mochila às costas,

Deita-te na relva verde,

Deixa o céu te levar.

Entrega-te ao repouso.

Respira o espaço do espaço no espaço.

Eu jamais conheci tão grande luminosidade.


Extraído de: http://www.nossacasa.net/SHUNYA/default.asp?menu=1167

terça-feira, 24 de junho de 2008

O novo e viciado plano de energia de Bush


24/06/2008


De Thomas L. Friedman
Colunista do The New York Times

Há dois anos, o presidente Bush declarou que os Estados Unidos estavam "viciados em petróleo" e que faria algo a respeito. Bem, agora ele fez. Agora nós temos o novo plano de energia de Bush: "Fiquem mais viciados em petróleo".

Na verdade, é mais sofisticado que isso: faça com que a Arábia Saudita, nosso principal "traficante" de petróleo, aumente nossa dose por algum tempo e reduza o preço do petróleo apenas o suficiente para que alternativas de energia renovável não possam decolar totalmente. Então tente forçar o Congresso a suspender a proibição de explorar petróleo em alto-mar e no Refúgio Nacional da Vida Selvagem do Ártico.

É como se nosso viciado-em-chefe estivesse nos dizendo: Qualé, pessoal, vocês sabem que querem um pouco mais da coisa boa. Mais uma dose, garota. Só mais uma tragada. Eu prometo que no próximo ano, nós todos estaremos limpos. Eu até mesmo colocarei uma turbina eólica na minha biblioteca presidencial. Mas por ora, me dê esse barato mais uma vez. Apenas mais uma transfusão daquele óleo cru do alto-mar."

É difícil encontrar palavras pra expressar que desculpa patética, imensa e fraudulenta esta política energética é. Mas fica melhor. O presidente de fato teve a ousadia de estabelecer um prazo para este vício:

"Eu sei que os líderes democratas se opuseram a algumas destas políticas no passado", disse Bush. "Agora que a oposição deles ajudou a elevar os preços da gasolina a níveis recordes, eu peço para que reconsiderem suas posições. Se os líderes do Congresso saírem para o recesso de 4 de Julho sem agir, eles precisarão explicar por que uma gasolina a US$ 4 o galão não é um incentivo suficiente para agirem."

Isto vindo de um presidente que por seis anos resistiu a qualquer pressão sobre Detroit para que melhorasse seriamente os padrões de desempenho de seus beberrões de gasolina; isto vindo de um presidente que não fez nada para encorajar a economia de energia; isto vindo de um presidente que neutralizou tanto a Agência de Proteção Ambiental que o chefe desta atualmente parece estar em um programa de proteção de testemunhas. Eu aposto que não há 12 leitores deste jornal que sejam capazes de dizer qual é o seu nome ou identificá-lo em uma fila de reconhecimento policial.

Mas, acima de tudo, este prazo é dado por um presidente que não levantou um dedo para mediar a aprovação de uma legislação que está parada no Congresso há um ano, que poderia de fato ter um impacto imediato no perfil energético americano -diferente do petróleo em alto-mar que leva anos para ser extraído- além de criar bons empregos técnicos.

O projeto é o HR 6049 -"A Lei de Energia Renovável e Criação de Empregos de 2008", que estende por mais oito anos o incentivo fiscal de investimento para instalação de energia solar, estende por um ano o incentivo fiscal para produção de energia eólica e por três anos os créditos para geotérmica, energia das ondas e outras renováveis.

Estes incentivos fiscais críticos para energia renováveis vão expirar no fim deste ano fiscal e, se isso acontecer, significará milhares de empregos perdidos e bilhões de dólares em investimento não feitos. "Projetos de energia limpa nos Estados Unidos já estão sendo colocados em espera", disse Rhone Resch, presidente da Associação de Indústrias de Energia Solar.

As pessoas esquecem que a energia eólica e solar estão aqui, que elas funcionam, que podem ser instaladas no seu telhado amanhã. O que elas precisam agora é de um grande mercado americano, onde muitos fabricantes tenham o incentivo de instalar painéis solares e turbinas eólicas -porque quanto mais o fizerem, mais estas tecnologias avançarão na curva de aprendizado, se tornando mais baratas e capazes de competir diretamente com o carvão, petróleo e energia nuclear, sem subsídios.

Isto parece ser exatamente o que o Partido Republicano está tentando bloquear, já que os republicanos do Senado -lamento dizer, com a ajuda de John McCain- conseguiram derrotar a renovação destes incentivos fiscais por seis vezes diferentes.

É claro, nós vamos precisar de petróleo ainda por muitos anos. Sendo este o caso, eu preferiria -por motivos geopolíticos- ter o máximo possível de poços domésticos. Mas nosso futuro não está no petróleo, e um presidente de fato não estaria intimidando o Congresso a respeito de exploração em alto-mar. Ele estaria dizendo ao país uma verdade muito maior:

"O petróleo está envenenando nosso clima e nossa geopolítica, e aqui está como vamos nos livrar de nosso vício: nós vamos estabelecer um preço mínimo de US$ 4,50 o galão de gasolina e US$ 100 o barril de petróleo. E este preço mínimo estimulará fortes investimentos em energia renovável -particularmente eólica, painéis solares e termo-solar. E também promoveremos um programa intensivo para aumentar nossa eficiência em energia, para elevar a conservação de energia a um patamar totalmente novo e ampliar a energia nuclear. E quero que todo democrata e todo republicano se junte a mim neste empreendimento."

Isto é o que um presidente real faria. Ele nos daria um grande plano estratégico para colocar um fim ao nosso vício em petróleo e formar uma coalizão bipartidária para realizá-lo. Ele certamente não usaria seus últimos dias no cargo para ameaçar os congressistas democratas que, caso não aprovarem a exploração em alto-mar antes do recesso de 4 de Julho, eles serão culpados pela gasolina a US$ 4 o galão. Isso é ridículo. Esta é uma política energética indigna de nosso Dia da Independência.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Fonte: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/nytimes/2008/06/24/ult574u8594.jhtm