terça-feira, 8 de abril de 2008

Monocultura da cana provoca genocídio indígena



O holocausto Guarani. 'Está em curso um processo de genocídio desse povo'. Entrevista especial com Egon Heck


No início, a proposta era outra. Os senhores do agronegócio pretendiam plantar cana-de-açúcar apenas nas terras degradas do Mato do Grosso do Sul. Mas, com uma perspectiva de lucro cada vez mais alto, eles mudaram de idéia e brigam agora pelas melhores terras da região, as áreas Guarani-Kaiowá. Nas localidades menos produtivas, explica Egon Heck, coordenador do Conselho Indigenista Missionário -Cimi - MS, “se consegue produzir de 70 a 80 toneladas de cana-de-açúcar por hectare. Já nas áreas Guarani-Kaiowá se produzem até 120 toneladas por hectare”. E é nessa região, enfatiza, que os fazendeiros e as multinacionais estão se instalando.

Enquanto isso, mais de 25 mil índios Guarani-Kaiowá vivem confinados em comunidades indígenas, no estado do Mato Grosso do Sul. Se não bastasse essa situação humilhante, ainda persiste o agravante de uma mentalidade adversa aos indígenas. A elite do agronegócio tem “verdadeiro ódio dos Guarani e, sem dúvida, a perspectiva dela é de que os índios não mais existissem”, revelou Heck, em entrevista, por telefone, à IHU On-Line.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual é a sua avaliação do estado do Mato Grosso do Sul, que está progredindo economicamente, através do plantio da monocultura de cana-de-açúcar, mas, ao mesmo tempo, tem sua população indígena morrendo de fome e desnutrição?

Egon Heck –
Essa situação é dramaticamente contrastante . De um lado, se tem um dos estados de economia mais florescentes do País, baseado na monocultura de milho, na criação de gado e, agora,a monocultura da cana-de-açúcar está entrando com muita força. E, por outro lado, há muitas populações expulsas do campo, dentre elas principalmente as indígenas. Essas são as mais afetadas, pelo fato de suas terras se situarem, em geral, nas áreas mais férteis que são as de mata Atlântica, no extremo sul do estado, as terras Guarani-Kaiowá. Hoje, na região, existem mais de 20 milhões de cabeça de gado que dispõem de 3 a 5 hectares de terra por cabeça, enquanto os índios Guarani-Kaiowá não chegam a ocupar um hectare por índio. Assim, com falta de terra, centenas de sem terras indígenas são obrigados a se deslocar para a beira das estradas. Essa é uma situação calamitosa para essas populações, além de gritante em termos de injustiça para com os povos indígenas e os trabalhadores sem-terras.

IHU On-Line – Com o destaque econômico do Mato Grosso do Sul e a construção de novas usinas de açúcar, o senhor acredita que os índices de opressão entre e contra os índios tendem a aumentar?

Egon Heck –
Sem dúvida, o plantio de cana-de-açúcar, que hoje está em torno de 150 mil hectares e em cinco anos chegará a 1 milhão de hectares, com a implantação de mais de 60 usinas de cana-de-açúcar, trará um agravamento muito grande para os índios Guarani-Kaiowá. Para se ter uma idéia da gravidade do que vem ocorrendo no Mato Grosso do Sul, apenas neste ano 50 índios foram assinados no Brasil. Desses, 40 moravam no estado. Então, mais de 60% dos assassinatos de índios no País acontece no Mato Grosso do Sul, e com os Guarani-Kaiowá. Esses dados têm aumentado. Os números de suicídios, por exemplo, ficam em torno de 50 a 60 por ano, e o número de crianças que morrem por desnutrição chegou a mais de 30, desde 2005.

Aldeias ou campos de concentração?

Em pequenas áreas indígenas como Dourados, quase 13 mil índios dividem 3,5 mil hectares de terra. Em Amambai, 1,6 mil hectares são utilizados por 6,5 mil índios. Em Caarapó (Tey Kue), aproximadamente cinco mil índios dividem 2,4 mil hectares, e, em Porto Lindo, outros 4 mil índios convivem em 2,5 mil hectares de terra. Com o exemplo dessas quatro comunidades, pode se ter uma idéia do confinamento em que eles são submetidos. Hoje, chamamos esses locais de campos de concentração, um holocausto Guarani, onde, de fato, está em curso um processo de genocídio desse povo.

Com o exemplo dessas comunidades, pode se ter uma idéia do confinamento em que eles são submetidos. Hoje, chamamos esses locais de campos de concentração, um holocausto Guarani, onde, de fato, está em curso um processo de genocídio desse povo.

Kaiowá-Guarani: a pedra no sapato do agronegócio

Se não bastasse essa situação de confinamento, ainda há o agravante de uma mentalidade extremamente adversa aos índios. A maioria da elite do campo e do agronegócio tem verdadeiro ódio dos Guarani e, sem dúvida, a perspectiva dela é de que os índios não mais existissem. Essa posição será agravada com o plantio intensivo da monocultura de cana-de-açúcar, nesses próximos anos. Aliás, esse processo já está aceleradamente em curso, o que faz com que os índios, em primeiro lugar, se tornem vítimas do próprio trabalho escravo da cana-de-açúcar. Multinacionais e grandes usineiros já declararam sua preferência pela mão-de-obra indígena, por ser ela mais submissa ao trabalho escravo e, ao mesmo tempo, mais empenhada na própria produção.

Hoje, para que uma pessoa que trabalha com cana-de-açúcar tenha uma renda razoável de R$ 500,00 por mês, ela precisa produzir, no mínimo, 12 toneladas de cana, por dia. Esse ritmo de trabalho garante uma vida útil de 12 a 13 anos, o que é inferior inclusive à época do início da escravidão, em que os índios também foram utilizados no trabalho de usinas. Naquela ocasião, eles viviam, no trabalho, em torno de 15 a 17 anos.

Em segundo lugar, com a plantação exacerbada de cana-de-açúcar, as terras ficarão mais valorizadas. Num dos debates que realizamos na região, eu lembro que um dos fazendeiros do agronegócio chamou a atenção para o fato de que a rentabilidade na cana-de-açúcar seria até 12 vezes mais do que, por exemplo, o mesmo número de hectares ocupados por gado. Hoje, os fazendeiros cobram o dobro no arrendamento de um hectare de terra utilizada para o plantio de cana-de-açúcar, referente ao mesmo espaço que arrendam para a plantação de soja. Realmente, isso desencadeia uma corrida frenética em direção às melhores terras. Quanto a isso, faço outra observação: falava-se muito que a cana-de-açúcar iria ocupar as áreas degradadas, no estado. Áreas degradadas nada! Nessas terras, se consegue produzir de 70 a 80 toneladas por hectare. Já nas áreas Guarani-Kaiowá, nas melhores terras, se produzem até 120 toneladas de cana-de-açúcar por hectare. E é nessa região que os fazendeiros, senhores do agronegócio e multinacionais vão se estabelecer, aliás, já estão se estabelecendo. Grandes grupos multinacionais, nesse aceno do lucro certo, estão comprando terras que lhes dão uma possibilidade de controle estratégico de uma das grandes riquezas da região, que é a água, tanto do Aqüífero guarani como de todas as bacias de água que existem na região.

IHU On-Line - Além da briga pela demarcação de terras, quais serão os próximos problemas a serem enfrentados pelas comunidades Guarani-Kaiowá?

Egon Heck –
A dificuldade deles com a terra é o problema da fome. O sistema da economia Guarani, que é uma economia de reciprocidade, voltada para a vida, é totalmente chancelado. Eles não têm, muitas vezes, nem um quintal para plantar um pé de mandioca. Dourados é hoje, praticamente uma favela indígena confinada. Essa realidade da fome tende a se agravar, porque a dependência deles vai ser cada vez maior. Atualmente, em torno de 90 a 95% das famílias Guarani-Kaiowá estão sujeitas à dependência de cestas básicas, distribuídas pelo governo. Se houver qualquer problema com a distribuição dessas cestas, eles passam fome. Por isso, resolver as questões da fome, da recuperação da terra, de políticas públicas integrais articuladas na parte da produção, da recuperação ambiental, pedem medidas urgentes. Os índios costumam dizer que tiveram suas terras com mata, animais, frutas roubadas, e ganharam de volta o capim, ou seja, terra morta. Essa terra terá que passar por um processo de tentativa de recuperação para que eles possam voltar a viver com o mínimo de dignidade.

IHU On-Line – Qual é a reação do governo perante a carta enviada pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI), que reivindica ações urgentes para a população indígena? Vocês já obtiveram alguma resposta?

Egon Heck –
A resposta mais imediata foi recebida no dia seguinte, quando a Polícia Federal foi em Ñande Ru Marangatu e fez apreensões de meia dúzia de armas de grosso calibre e fuzis, que são exclusivos das forças armadas, mas que estavam nas mãos dos pistoleiros, nas fazendas. Esse foi um primeiro momento, mas que não surtiu um efeito mais substancial, porque, nos dias seguintes, os pistoleiros continuaram dando tiros por cima das comunidades. Então, nosso apelo, com o envio da carta, foi no sentido de que haja um julgamento imediato da ação que paralisou a homologação das terras. O Lula aprovou a demarcação ainda em 2005, e, em março do mesmo ano, o então ministro do Supremo Tribunal Federal, Nelson Jobim, passou liminarmente a homologação. Esse processo, que se esperava que fosse julgado ainda em 2005, se arrasta até hoje. Ao mesmo tempo, esperamos ações eficazes da Funai e da Polícia Federal, no sentido de coibir essa brutal violência, que tem como intuito atemorizar os índios, para que eles não continuem na terra. Assim, julgamos fundamental a reversão desse quadro, para dar paz a essas comunidades que estão, desde a morte de Marçal, em 1983, até hoje, submetidas a uma permanente situação de fome, violência, despejos, mortes.

IHU On-Line – O povo Guarani-Kaiowá chegou a ocupar 3 milhões de hectares do atual território do Mato Grosso do Sul. Hoje, essa área se reduziu a 40 mil hectares. Quem é o maior oponente dos indígenas, e como a situação da terra chegou a tamanhas proporções?

Egon Heck –
Isso é fruto, em parte, do processo histórico da ocupação econômica dessas terras na região, e da própria mentalidade Guarani, para quem, de certa forma, não fazia sentido ser dono da terra. O povo Guarani-Kaiowá sempre entendeu que as terras foram feitas para se viver. As matas e os animais eram vistos como seus recursos naturais. Mas eles acabaram trabalhando na consolidação do sistema de fazendas e da erva mate. Nessa época, os índios ainda conseguiam viver na mata. Mas, com a chegada do agronegócio, tudo foi transformado em pasto e plantação de soja. Assim, os índios acabaram sendo carregados em caminhões, para esses confinamentos. Esse processo de ocupação histórica da região e a ocupação da terra fizeram com que eles efetivamente acabassem nessa situação de ficarem sem terras de não terem, hoje, condições objetivas de uma sobrevivência com dignidade.

IHU On-Line – Como está se dando a mobilização indígena para agilizar a demarcação das terras?

Egon Heck –
Os índios estão lutando pelo reconhecimento e pela retomada das terras tradicionais, onde moravam as comunidade que foram expulsas. Esse processo está em curso. Eles estão se mobilizando, e na semana passada estiveram em Brasília. Tem crescido também, entre os Guarani-Kaiowá, a realização de grandes assembléias para pensar estratégias de recuperação da terra. O problema é que esse processo é lento. Nesse ano, apenas uma terra foi retomada, em kurusu Amba, no mês de janeiro. Sem dúvida, o grande desejo dos Guarani-Kaiowá é voltar a viver o “nade reko”, ou seja, o jeito de viver guarani, que é profundamente espiritual, ligado à integralidade e à harmonia com a terra.

IHU On-Line – O senhor já presenciou algum ato de violência nessas comunidades, ou tem relatos das explorações que eles vêm sofrendo nas aldeias?

Egon Heck –
Sim, são vários. Essas situações de violência são quase que diárias. Eu acompanho mais de perto as ligações telefônicas do pessoal. Eles nos telefonam desesperados, da beira das estradas, e relatam principalmente as mortes de fome. Nós tentamos acionar algumas instâncias, como a assembléia legislativa, mas o atual governo suspendeu e destruiu as 11 mil cestas básicas no início do ano. Isso criou uma situação ainda mais caótica nas comunidades. Em janeiro e fevereiro desse ano, eles passaram fome.

Diretamente, nas comunidades, eu não tenho estado nos momentos em que ocorrem as agressões, mas, sempre que visitamos as aldeias, eles contam histórias de suicídio e de assassinatos. Em Dourados, por exemplo, ocorrem os maiores índices de violência, que são agravados pelo alcoolismo, pela droga e também pelo trabalho escravo, na plantação de cana-de-açúcar. Hoje, a gravidade maior está relacionada ao processo de desintegração social do povo Guarani-Kaiowá. Os homens, geralmente, vão para a usina e ficam lá até 70 dias, enquanto mulheres e crianças ficam nos barracos, se sustentando com R$100,00 de adiantamento que eles recebem pelo serviço.

IHU On-Line – Muitos jovens indígenas estão se suicidando. O que essa atitude significa para o senhor? Ela representa o ponto máximo de desespero das pessoas?

Egon Heck –
Os jovens são os que mais vivenciam esse drama, porque, por um lado, existe a perspectiva de futuro, mas ao mesmo tempo, a raiz do passado está bastante fragilizada pelo processo de relações, dos contatos, das necessidades geradas. Então, tudo isso faz com que os jovens Guarani-Kaiowá representem 80% das mortes, atualmente. Embora os jovens tenham um sistema educacional bem montado, entre eles, esses dados revelam a situação de desesperança no futuro, que retratam, por sua vez, uma situação de falta de identidade, que começa a tomar conta dessa juventude. Alguns professores Kaiowá-Guarani também se suicidam. Isso mostra que não basta ter um emprego público, como professor ou agente de saúde ou trabalhar na usina. Parece que o horizonte está se fechando perigosamente. Só será possível arejar essa perspectiva de futuro, na medida em que terra, identidade e condições dignas de vida possam ser recuperadas.

IHU On-Line – E como falar de direitos humanos nestas circunstâncias?

Egon Heck –
Isso é algo que nos questiona profundamente, enquanto sociedade. O Brasil não só tem dívida com esses povos, mas uma culpa muito grande, na medida em que estamos permitindo que se implante um tipo de sistema que nega e que fecha as portas para a realidade dos povos. Além disso, é um sistema que concentra tremendamente as riquezas e os bens nas mãos de uns poucos, enquanto os demais fiquem cerceados minimamente em suas condições de vida. Eu sempre digo que o nosso trabalho precisa ser mais eficaz, não só junto aos índios, mas junto à sociedade, na perspectiva de uma transformação e de uma ruptura mais profunda, em termos de modelo de direitos humanos.
A declaração universal dos direitos dos povos indígenas, que foi aprovada pela ONU, no dia 13 de setembro , caiu num certo vazio nessa região, e permanecerá assim enquanto não houver um esforço do estado brasileiro de reverter esse quadro.

IHU On-Line – Como o senhor percebe os projetos de lei que tratam da exploração de recursos minerais em terras indígenas, principalmente na Amazônia?

Egon Heck –
Desastroso. Várias áreas na Amazônia estão loteadas pelas grandes mineradoras nacionais e multinacionais. Quando esses projetos forem aprovados, será uma desgraceira para esses povos. Na melhor das hipóteses, eles vão ficar com algumas migalhas, e a grande maioria dos índios será submetida a um açoite civilizatório de espoliação, de valores. O que os Guarani-Kaiowá vêm passando no Mato Grosso do Sul irá se repetir com vários povos da Amazônia, especialmente da calha norte, que é a região em que existem mais jazidas minerais. O grande problema é que lá as empresas pretendem fazer mineração dentro das terras indígenas. Mesmo nas terras demarcadas, serão regularizadas explorações.

IHU On-Line – A capacidade que os índios vêm buscando, através das universidades, garantirá um futuro diferente para eles e poderá mudar o histórico futuro dessas comunidades?

Egon Heck –
Essa é uma das ferramentas que os povos estão utilizando hoje. Eles costumam dizer que também estão combatendo os problemas com a caneta e, principalmente, com a sabedoria própria do povo, unindo a ciência e a técnica aprendida da sociedade não indígena. Assim, eles conseguem elaborar ferramentas eficazes de luta pelos seus direitos. Infelizmente, grande parte dos universitários indígenas talvez acabem sucumbindo a interesses individuais de conseguir um melhor estado de vida, se distanciando, muitas vezes, das comunidades de seu povo. Mas creio que, tendencialmente, o próprio movimento indígena consegue fazer com que seus estudantes tenham compromissos com suas comunidades, ao mesmo tempo que se adequem, cada vez mais, às próprias instâncias do conhecimento, como escolas e universidades indígenas, respeitando e valorizando o que é do próprio do seu povo. Isso tudo me parece ser um dos grandes acenos e contribuições da criação de novos modelos de sociedade, de novas perspectivas de países, que nós vemos, com bastante otimismo, na América do Sul.
Esse modelo indígena que passa pelo processo educacional tem contribuído no sentido de construir novas forças, elementos organizativos e perspectivas de administrar com autonomia seus territórios. No entanto, num processo mais amplo, é necessário revitalizar os valores, as religiões, as culturas desse povo.

IHU On-Line – O governo do estado tem discutido, junto ao Governo Federal, alternativas para resolver os problemas dos povos indígenas da região, tanto no que se refere à demarcação das terras, como às violências sofridas pelos índios?

Egon Heck –
Infelizmente, a impressão que se tem e o que nós temos visto por aqui é que esse é um diálogo meio de surdos, porque as coisas não se dão de uma maneira muito clara e eficaz como deveriam ser, para chegar a entendimentos e conclusões mais efetivas com relação a esses problemas. Por exemplo, existe, na questão da terra, uma responsabilidade do governo estadual com relação à desapropriação de áreas e à titulação de áreas que eram indígenas e que acabaram sendo transferidas para propriedades particulares, pelo governo do Mato Grosso, e depois pelo governo do Mato Grosso do Sul. Essa responsabilidade precisa ser assumida pelos governos e pela sociedade sul matogrossense, porque foram eles que de alguma maneira propiciaram essa espoliação das terras indígenas.

IHU On-Line – Qual é o maior desafio para os povos indígenas do Mato Grosso do Sul?

Egon Heck -
O grande desafio hoje é pensar a questão indígena, não como uma forma isolada, mas como um grande desafio nacional e do Mato Grosso do Sul, que conclama a todos nós a uma ação urgente e eficaz a curto prazo. A longo prazo, é necessária uma perspectiva sábia e inteligente, além de uma ação com justiça e equidade solidária para a reconstituição desses espaços de vida e felicidade do povo Kaiowá-Guarani em suas terras.

A articulação dessas instâncias fará com que nós tenhamos a coragem histórica de mudar as nossas mentalidades e as nossas estruturas sociopolíticas, econômicas. Assim, abriremos espaço de oxigenação para que esses povos possam respirar, e não só continuar as suas lutas, mas contribuir na construção de uma nova história, com justiça e solidariedade.




*********************************************************************







Os Guarani Kaiowá e Ñandeva



Parte do texto a seguir faz parte da pesquisa de Antonio Brand (BRAND, Antonio J. O impacto da perda da terra sobre na tradição kaiowá/guarani. Os difíceis caminhos da Palavra . Tese de doutorado, História, PUC/RS, 1998).


Os Guarani estão divididos em três parcialidades que vivem no Paraguai, na Argentina, no Uruguai e no Brasil: os Mbyá, com uma população estimada em 10 a 11 mil; os Avá-Chiripá, com cerca de 9 mil; e os Pài/Kaiowá, com 35 a 40 mil pessoas. A população Guarani que habita a região sul do estado de Mato Grosso do Sul é de cerca de 25 mil e, na sua grande maioria, corresponde à parcialidade Kaiowá e, em menor número, aos Ñandeva. Os Ñandeva se auto-denominam Guarani e, portanto serão tratados desta forma no presente texto. Embora em menor número, eles estão presentes em várias aldeias Kaiowá, por isso o uso da designação Kaiowá/Guarani para referir-se às duas parcialidades. "Há, contudo, entre os subgrupos Guarani-Ñandeva, Guarani-Kaiowa e Guarani-Mbya existentes no Brasil, diferenças nas formas lingüísticas, costumes, práticas rituais, organização política e social, orientação religiosa, assim como formas específicas de interpretar a realidade vivida e de interagir segundo as situações em sua história e em sua atualidade"(cf. http://www.isa.org.br/pib/epi/terena - Instituto Sócio Ambiental - Acessado em 31/01/06).




Os Kaiowá habitavam uma região de difícil acesso na serra de Amabai, atual fronteira entre Mato Grosso do Sul e Paraguai e, por isso, permaneceram praticamente isolados até meados do século XIX. Após a guerra do Paraguai, que teve como parte do cenário de batalha o território Kaiowá, estes passaram a ter cada vez mais contato com os não indígenas. O cultivo e extração da erva-mate, explorada em grande intensidade na região a partir da década de 1880, passou a incorporar significativo número de Kaiowá e Guarani como mão-de-obra.




LOCALIZAÇÃO DO TERRITÓRIO GUARANI / K AIOWÁ NO MS




Fonte: Geoprocessamento do Programa Kaiowá Guarani, NEPPI, UCDB (2005)




Em 1882, o Governo Federal arrendou a região para a Cia Matte Larangeiras, que iniciou a exploração da erva-mate em todo o território Kaiowá/Guarani. Ainda em pleno domínio desta Companhia, o SPI demarcou, em 1915, a primeira Reserva com 3.600 ha para usufruto dos Kaiowá. Até 1928 são demarcadas para os Kaiowá/Guarani, em toda a região Sul do Estado, um total de oito Reservas, totalizando 18.297 ha . Inicia-se então, com o apoio direto dos órgãos oficiais, um processo sistemático e relativamente violento de confinamento da população Guarani nestas Reservas.




Com o desmatamento da região e a implantação das fazendas de gado e das Colônias agrícolas, em especial a CAND - Colônia Agrícola Nacional de Dourados, a partir da década de 40, dezenas de aldeias Kaiowá/Guarani tiveram que ser abandonadas pelos índios, sendo suas terras incorporadas pela colonização. A população dessas aldeias foi aleatoriamente "descarregada" nas Reservas. Esse processo de redução e confinamento compulsório seguiu inexorável, à revelia de toda a legislação já existente e a favor da proteção dos direitos indígenas à terra, até o final da década de 70. É necessário ressaltar que entendemos por confinamento compulsório a transferência sistemática e forçada das diversas aldeias Kaiowá/Guarani para dentro das oito Reservas demarcadas pelo governo entre 1915 e 1928 (Brand, 1998).A partir de 1978, algumas comunidades, com o apoio de setores da sociedade civil e dispostas a não aceitarem perder suas terras tradicionais, iniciam, com êxito, a luta para interromper essa prática histórica, comum em toda a região, pois enquanto eram necessários como mão-de-obra nas fazendas, os Kaiowá/Guarani podiam permanecer em suas aldeias, porém, concluído o desmatamento, eram expulsos, cabendo, em muito casos, aos órgãos oficiais a tarefa de efetivar a transferência para as Reservas.




Áreas indígenas Kaiowá Guarani e Terena no Estado de Mato Grosso do Sul :





Fonte: Geoprocessamento do Programa Kaiowá/Guarani, NEPPI, UCDB (2005)



A transferência de inúmeras aldeias e famílias extensas para dentro das Reservas demarcadas entre os anos de 1915-1928, não significou apenas o deslocamento geográfico dessas aldeias e a correspondente perda das terras. A vida dentro das Reservas impõe aos Kaiowá/Guarani profundas transformações na relação com o território tradicional, pois, ao perder a sua aldeia, eles são obrigados a disputar um lote cada vez mais reduzido dentro das mesmas. A crescente imposição do trabalho assalariado surge como alternativa de subsistência, mas atinge as bases tradicionais de sua economia, reforça a exploração como mão-de-obra barata e desqualificada, obrigando os índios a passarem meses distantes de suas famílias. As oito usinas de álcool e açúcar em funcionamento no Estado, assinaram, no ano de 1999 e em fevereiro de 2000, o denominado "Pacto Social" (acordo firmado entre órgãos públicos e entidades não governamentais) que visa regularizar as relações de trabalho mediante o registro dos trabalhadores indígenas. Porém, com esta medida, oficializou-se a permanência dos índios fora de suas aldeias, em contratos sucessivos de 90 dias, durante seis a oito meses em cada ano.




Finalmente, temos as alterações no sistema de chefia, com a imposição (pelo SPI) da figura do capitão. Tudo isto vai se refletir na gradual inviabilização da religião tradicional, entendida aqui como as prática e crenças, por intermédio das quais expressam a sua relação com o sobrenatural, que, ao mesmo tempo, constituem-se em referenciais básicos indicativos de cultura. O impasse maior para a manutenção do modelo cultural Kaiowá/Guarani está, justamente, nas Reservas demarcadas até 1928. É nelas que se verificam, inclusive, significativos índices de suicídios.




A partir dos anos 1970, com a mecanização e a especialização em torno da soja e do gado de corte, a presença da mão-de-obra indígena deixou de ser indispensável e, em alguns casos indesejável. Por essa época as famílias que localizavam-se nas fazendas da região foram transferidas para oito reservas que haviam sido demarcadas entre as décadas de 1910 e 1940 pelo Serviço de Proteção ao Índio, próximas à cidades da região, como Caarapó, Amambaí e Dourados. A exigüidade das terras para o número total de indígenas tem sido um grave problema. Hoje, cerca de 30 mil Kaiowá e Guarani no estado ocupam um área de cerca de 40 mil hectares.




Segundo classificação do CIMI (Conselho Indigenista Missionário), a situação das terras indígenas em Mato Grosso do Sul é a seguinte: 17 registradas, 5 homologadas, 3 declaradas, 3 identificadas, 10 a identificar, 8 reservadas e 74 sem providências. A terra indígena mais recentemente demarcada é a Taquara, situada no município de Juti, onde os Kaiwá de Taquara passam a possuir 9.700 hectares reconhecidos pela legislação.

**********************************************************************


20/8/2007

O impacto do etanol sobre as populações indígenas.

Entrevista especial com Antonio Brand

Há uma semana, mais uma criança indígena morreu por desnutrição no Mato Grosso do Sul. Em 2005, na mesma reserva, mais de 20 crianças morreram por subnutrição. Enquanto isso, o governo ressalta que a taxa de mortalidade entre as crianças indígenas reduziu 82% de 2006 a 2007. “Efetivamente não interessa, não é um dado relevante que o governo consiga, momentaneamente, reduzir o índice de desnutrição. O que nos preocupa é que não há qualquer sinal de que se queira efetivamente encontrar uma solução para o problema”, afirmou o pesquisador Antonio Brand em entrevista, por telefone, à IHU On-Line.


Na conversa, Antonio fala da mortalidade infantil e do problema da fome que assola as comunidades indígenas do Mato Grosso do Sul. Fala também do problema da perda da autonomia dos índios e do evento que está organizando, intitulado Seminário Formação Jurídica e Povos Indígenas. “Com ele, pretendemos contribuir para que os índios possam ingressar, permanecer e concluir bem os cursos escolhidos dentro das universidades”, disse.


Antonio Brand é graduado em História pela Fundação Universidade Federal do Rio Grande. Tem mestrado e doutorado na mesma área pela PUCRS. É professor da Universidade Católica Dom Bosco, em Campo Grande, MS, onde desenvolve a pesquisa “Território e tradição nos processos históricos dos Kaiowá-Guarani no Mato Grosso do Sul”.


Confira a entrevista.


IHU On-Line – Como o senhor analisa as mortes das crianças indígenas que têm ocorrido por causa da fome?
Antonio Brand –
Aqui no estado, já estamos no quinto ano dessa política de fornecimento de cestas básicas como ação de combate à fome dos Kaiowá-Guarani. No entanto, como a ação do governo tem se restringido basicamente ao fornecimento de cestas básicas, a partir do momento em que há qualquer interrupção ou qualquer problema no fornecimento sistemático regular dessa política, você tem o retorno da fome. Esse é o problema. O que temos criticado e reivindicado muito é que outras ações seriam absolutamente necessárias para combater a fome. O fornecimento do programa é pensar uma política de segurança alimentar, assentada fundamentalmente no fornecimento de cestas básicas. Só que isso realmente é um absurdo quando estamos falando de povos indígenas.
Como o estado tem restringido muito o fornecimento dessas cestas básicas, temos um problema que não se resolve, ou seja, a fome irá retornar sempre, e de forma cada vez mais grave. Por essa razão, sempre temos acentuado de que sem a ampliação das terras e sem um programa de assistência técnica de oferecimento de apoio, no sentido de devolver a esses povos a sua capacidade de produzir o seu alimento, o problema da fome permanecerá. Essa, repito, é a questão. A tendência, atualmente, é que, de tempos em tempos, nós tenhamos que enfrentar essas crises que levam à morte de crianças e muito mais.


IHU On-Line – Como o senhor analisa as políticas assistenciais do governo Lula em relação aos indígenas brasileiros? O “Bolsa Família” está chegando até essas famílias?
Antonio Brand –
Eu creio que todas as políticas assistenciais do governo são de caráter emergencial e sem qualquer perspectiva de se traduzirem em autonomia. São medidas que aumentam a dependência dessas populações. Nesse sentido, creio que elas não apresentam respostas ao problema. Insistentemente, os povos indígenas têm reivindicado de que, junto com as ações de emergência de combate à fome, é preciso retomar o processo de demarcação de território. E o governo Lula, infelizmente, não tem atendido a esse pedido. O governo Lula tem dado poder, respeitado e atendido às demandas das elites regionais que não querem a demarcação das terras indígenas. Então, o problema das políticas assistenciais vem apenas agravando a situação dos povos indígenas.


IHU On-Line – E, com isso, como o senhor recebe a afirmação de Lula, quando esteve em Campo Grande, dizendo que a imprensa não deve apenas denunciar, mas também destacar a taxa de 82% da redução da mortalidade das crianças guaranis?
Antonio Brand –
Os órgãos públicos têm insistido muito nesses dados estatísticos em que comparam a situação atual com o ano de 2005, quando morreram não sei quantas crianças. Agora, em 2006 e 2007, há efetivamente melhoras no que se refere à diminuição da desnutrição entre os índios. O problema é que no momento em que ocorre uma interrupção, como aconteceu no início deste ano, por problemas de divergências no governo ou questões administrativas, isso se traduz imediatamente em mortes por desnutrição. Efetivamente não interessa, não é um dado relevante que o governo consiga, momentaneamente, reduzir o índice de desnutrição. O que nos preocupa é que não há qualquer sinal de que se queira efetivamente encontrar uma solução para o problema. Parece que o governo está querendo manter essas práticas, tendo em vista a satisfação das necessidades dele de uma política assistencialista. Como o sujeito que recebe a cesta básica depende totalmente dela, temos indivíduos totalmente dependentes da boa vontade do governante de plantão.
Parece que é isso que está se pensando: ter um universo de pessoas que dependam absolutamente da boa vontade de um governante, seja ele quem for. Nesse sentido, a continuidade desse assistencialismo depende do voto, ou seja, é uma massa de manobra, tendo em vista as eleições, porque não há como explicar de outra maneira a atitude do governo. O dinheiro gasto nestas políticas é elevado: não são poucos os recursos que o Governo Federal vem investindo nas populações aqui no estado. Nós precisamos reconhecer que o volume de recursos vem aumentando, mas com essa característica da qual falei. Hoje, as populações Kaiowá-Guarani estão totalmente dependentes do fornecimento de cestas básicas e do salário que recebem das usinas das usinas de açúcar e álcool. Os indígenas formam um povo que não temos o direito de reduzir a pedinte.


IHU On-Line – Como o senhor analisa, então, a questão da autonomia dos índios quanto aos seus territórios?
Antonio Brand –
O grande problema, hoje, dos povos indígenas, especialmente aqui no estado de Mato Grosso do Sul, diz respeito à perda dos territórios. São povos que estão confinados. Eles têm áreas de terra absolutamente insuficientes para sua vida. Portanto, não há terra que garanta a autonomia econômica e a produção de alimentos. Há uma outra questão, muito mais grave, decorrente deste processo histórico de confinamento, que diz respeito à organização social dessas populações. Veja só: nos últimos anos, nós verificamos um aumento assustador da violência interna nessas comunidades. Levantamentos feitos pelo Cimi – Conselho Indigenista Missionário - sobre mortes violentas em comunidades indígenas dão conta de que, no Mato Grosso do Sul, a grande maioria delas decorrem de conflitos internos. Isso mostra um profundo mal-estar e, ainda, que os mecanismos internos da comunidade e sua organização social não conseguem mais dar respostas aos problemas que enfrentam.
Essa certamente é a conseqüência mais nefasta, mais grave desse processo de perda da terra, e diz respeito diretamente à questão da autonomia. Não podemos mais pensar nos povos indígenas como povos isolados. Eles são povos integrados, participam do cotidiano da sociedade, têm relações econômicas e tudo mais. O problema da autonomia econômica diz respeito fundamentalmente à possibilidade de eles decidirem seu destino e sua vida. Para isso, é fundamental a organização social de cada povo. É necessário que ele possa seguir se orientando e decidindo suas questões a partir de sua forma própria de organização social.
Nesse sentido, eu entendo que o radical confinamento a que os Kaiowá-Guarani estão submetidos hoje está inviabilizando a vida e a organização social dessas populações. O sintoma mais grave desse problema é o crescimento da violência, mas também o de outros problemas, como, por exemplo, o consumo de álcool, de drogas, os suicídios, entre outros. Então, todos esses problemas são muito mais graves do que a própria falta de alimentos e, por isso, gerou-se essa crítica ao governo, que só tem buscado atender a demanda por alimentos. A situação, no entanto, é muito mais complexa.


IHU On-Line - E o que o senhor pensa da política de demarcação de terras deste governo?
Antonio Brand –
Nós, na verdade, estamos mais preocupados porque o Mato Grosso do Sul tem se destacado como o estado que oferece, na opinião dos empresários e do governo, as melhores condições para a produção de álcool combustível. Então, nós já temos funcionando no estado 11 usinas de açúcar e álcool. Esse número deve saltar para algo em torno de 70 usinas em poucos anos. Em conseqüência disso, a terra, logicamente, está muito valorizada e, assim, a pressão contra a demarcação das terras indígenas tende a crescer bastante.
Então, nós, que trabalhamos com os povos indígenas, estamos profundamente preocupados com isso, pois o governo não só tem se omitido frente aos problemas, como tem sinalizado, e está oferecendo todo o apoio à indústria de açúcar e álcool, isso antes de definir a questão dos indígenas. A tendência é que esse problema se agrave. Enquanto isso, os povos indígenas estão se movimentando e pressionando cada vez mais. A esperança é que a indústria, a sociedade brasileira e setores do governo não queiram que, por muito tempo, siga uma situação que possa ser caracterizada em dois tipos de manchetes que nós encontramos hoje na imprensa regional, nacional e fora do país. Existe um tipo de manchete dando conta que o Mato Grosso do Sul é o melhor lugar para se investir na produção de açúcar, mas ao lado dela existe outra, dando conta de que os índios estão morrendo de fome.
Já há setores fora do país se movimentando, no sentido de exigir que o governo atenda minimamente às questões ligadas ao meio ambiente e aos povos indígenas. Há outros setores da sociedade civil, e até de fora do País, que certamente se sensibilizam com essas questões, diferentemente do Governo Federal. Eles vêm se posicionando favoravelmente às demandas indígenas, porque não podemos esquecer com quem estamos lidando, olhando o volume de terra e a riqueza que está sendo produzida. Se levarmos em conta os enormes investimentos que estão sendo feitos neste momento, tendo em vista a expansão sucroalcooleira e a regularização das terras indígenas, saberemos o quanto isso representa um quantidade de recursos mínima e que não há qualquer argumento razoável para que não se faça essa demarcação, essa ampliação territorial.
A reivindicação dos Kaiowá-Guarani é de pequenas parcelas de seu território original que, em absoluto, inviabilizam o desenvolvimento regional. Os tecnocratas do governo hoje parecem estar mais encantados com a possibilidade de exportar álcool e esquecem dos povos indígenas. Confesso que minha percepção, atualmente, não é tão otimista, embora os povos indígenas estejam se articulando um pouco melhor, especialmente aqui no estado. Nos últimos dois anos, os índios estão buscando se capacitar melhor, buscando acesso às universidades com muita determinação. Nós temos hoje, no estado, um número já bem elevado de acadêmicos índios e podemos destacar como esses acadêmicos já vêm com uma preocupação clara de retorno às suas comunidades. Há sinais, demandas, posicionamentos, por parte dos povos indígenas, que eu creio que sejam extremamente significativos e que sempre abrem um caminho em termos de soluções.


IHU On-Line – Um dilema que tem preocupado os indígenas são as coincidências entre terras indígenas e unidades de conservação...
Antonio Brand –
Mato Grosso do Sul tem uma área que está bastante preservada: a região do Pantanal. Os Kaiowá-Guarani ocupam a região sul do estado, que é a parte em que, desde o início da colonização, se estruturou a agricultura mais moderna. É uma região extremamente propícia à agricultura e onde os recursos naturais foram completamente destruídos. Nela, inclusive, não há unidades de conservação preservadas. Até hoje, isso é um dado muito interessante: as regiões onde ainda se conserva a maior biodiversidade são, efetivamente, aqueles que compreendem as terras indígenas. Mesmo que tenhamos hoje uma população intensa nesses espaços reservados aos povos indígenas, é neles que encontramos uma maior diversidade ambiental ainda. Novamente, vemos aí a necessidade de demarcação de terras, como uma estratégia de buscar preservar a biodiversidade. O fortalecimento das culturas em extinçao que temos no estado é um fator que favorece também a biodiversidade. Porque, sob a ótica do agronegócio, o meio ambiente está perdido, mas se hoje há restos ambientais, neles estão os povos indígenas.


IHU On-Line – E qual é a relação que você faz entre a produção de etanol e os povos indígenas?
Antonio Brand –
Poucas áreas têm espaço para plantar cana. Mas, certamente, essa será a proposta naquelas poucas áreas indígenas onde há certa disponibilidade de terras. É difícil você se posicionar contra isso, porque os povos indígenas estão numa situação em que não há qualquer alternativa. Então, o plantio de cana-de-açúcar, mesmo nos restos de suas terras, será algo bastante certo e difícil de ser questionado, no contexto em que as coisas estão agora. Porque, como já falei, a única sinalização que o governo tem dado aos povos indígenas, nos últimos anos, é no sentido de fornecer esse tipo de programa. Agora, ao introduzir nas aldeias o eventual plantio da cana-de-açúcar, já sabemos todos, inclusive o Governo Federal, que isso trará problemas, pois irá comprometer a biodiversidade dentro dessas áreas.

IHU On-Line – Já se descobriu os motivos pelos quais uma mulher e um líder indígena foram assassinados na região de Dourados neste anos? Qual é o significado dessas mortes para o povo indígena do Mato Grosso do Sul?
Antonio Brand –
A mulher morreu em janeiro e o homem mais recentemente. No Brasil, nós temos duas justiças: se o agressor é uma pessoa pobre, ele vai preso sob todos os rigores da lei; se o agressor é um não-índio, uma pessoa com poder, um grande proprietário, nada acontece. Então, nós tivemos alguns casos aqui onde os índios aparecem como agressores, e então os rigores da lei se fazem sentir de toda maneira. Por sua vez, nenhuma pessoa dita poderosa, pelo que sei, está presa. Os únicos que estão presos ainda são as lideranças indígenas da comunidade, acusadas de estarem roubando um trator. Mas os que mataram não estão presos. Normalmente, o que nós verificamos é que matar um índio ainda segue como um crime de menor importância.


IHU On-Line – A polícia em área indígena precisa de preparo diferenciado?

Antonio Brand – Teoricamente, é a Polícia Federal que deve dar conta das questões ligadas aos povos indígenas, segundo a Constituição. Mas, quando envolve os crimes comuns, a Polícia Civil não tem preparo nenhum. Então, há muitos problemas porque eles vêm marcados por um forte preconceito. O maior deles é que as relações entre os povos indígenas e não-indígenas nessa região são perpassadas historicamente pelo conflito da terra.


IHU On-Line – Como o senhor analisa os programas de permanência para os estudantes indígenas nas universidades?
Antonio Brand –
Nós estamos muito engajados em projetos dessa linha. Eu penso que é uma demanda das comunidades. Agora, de novo, só isso não será solução. Nós sabemos que hoje não basta a universidade garantir muita coisa em termos de “espaço ao sol”. Se o acesso à universidade significar que não se precisa demarcar terras, à medida que os índios vão disputar o mercado de trabalho, pouca coisa será alterada. O acesso deve significar a vontade de eles construírem melhores condições de vida e de recuperarem a sua autonomia.
Na prática, muitos projetos já se orientam nesse sentido. Outros não. Na nossa equipe, estamos muitos engajados em diversos projetos desse tipo. Essa é uma perspectiva importante enquanto estiver articulada com o esforço das populações indígenas. O acesso às universidades por parte dos indígenas não é um projeto individual de um ou outro deles em busca de um emprego.


IHU On-Line – O que se pretende com o Seminário Formação Jurídica e Povos Indígenas, que o senhor está coordenando?
Antonio Brand –
Esse curso tem a duração de um ano, com mais de 300 horas de atividade. O programa está dentro de um projeto mais amplo, que se denomina Rede de Saberes. O Rede de Saberes é um programa bastante amplo, desenvolvido com a Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, que tem como meta apoiar a permanência de indígenas nas universidades. Ele faz parte de um conjunto maior de ações direcionadas para os acadêmicos índios. Com ele, pretendemos contribuir para que os índios possam ingressar, permanecer e concluir bem os cursos escolhidos dentro das universidades.
Esse projeto específico de estudo do direito indigenista tem como objetivo oferecer aos acadêmicos índios que pretendem formar-se advogados nas diversas instituições de ensino superior do estado uma informação sobre uma área do direito que normalmente os cursos formais ignoram, que é o direito indígena. O evento também tem como objetivo suprir uma lacuna grave dos nossos cursos de direito. Ele pretende, ainda, contribuir para que esses estudantes se articulem e desenvolvam reflexões a partir da sua visão e das suas comunidades. Também para que, ao concluirem o curso superior, consigam fazer uma diferença enquanto grupo de advogados indígenas. Nós temos, no estado, 24 acadêmicos índios que estão fazendo direito. Nossa perspectiva é estender esse tipo de iniciativa para outros campos, para que eles possam retornar às suas comunidades e prestar um serviço eficaz.


IHU On-Line – O senhor tem noção de quantas lideranças indígenas são, hoje, pesquisadores e professores/as nas universidades brasileiras?
Antonio Brand –
Não. Esse dado geral eu não tenho como te dizer, mas eu sei que são muito poucos. Nós temos na pós-graduação aqui do estado um índio que é doutor em agronomia e que trabalha na Embrapa. No Brasil todo, não chega a dez o número de índios que estão cursando doutorado, mas já temos um número maior de mestrandos. Aqui, na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, há três índios que concluíram mestrado em desenvolvimento local e educação, além de outros três ou quatro que estão cursando nesse momento. Então, ainda o número é muito reduzido. Essa busca pela universidade é um fenômeno muito recente, mas ela tende a crescer. No entanto, inserir os índios nas universidades da forma como elas estão organizadas hoje traz alguns problemas, pois a questão não é só o acesso e a permanência. As universidades precisam saber lidar com as lógicas indígenas e as suas formas específicas de produção de conhecimento.



Fontes:

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Existe marxismo nos EUA ?







Dois dos mais influentes sociólogos marxistas da atualidade falam à CULT com exclusividade

Por Ruy Braga e Alvaro Bianchi

CULT - Gostaríamos de começar com um questão proposta recentemente por Seymour Lipset: por que não houve um movimento socialista forte nos Estados Unidos? É possível explicar isso - como faz o autor - por um suposto "excepcionalismo norte-americano"?
MICHAEL BURAWOY e ERIK OLIN WRIGHT -
Essa questão tem um caráter muito diferente se ela fizer referência apenas ao passado - por que não houve um movimento socialista forte - ou se fizer referência à trajetória das lutas de classe e às políticas nos países capitalistas desenvolvidos. Nesse segundo caso, o fator principal é que em nenhum país capitalista desenvolvido de hoje existe um "movimento socialista forte". Os Estados Unidos, a Inglaterra, os países do norte da Europa e da Europa continental - em nenhum desses lugares há algo que possa ser chamado de um forte partido político ou movimento social anti-capitalista. Dada a presente realidade, a questão em relação ao passado assume um caráter diferente. É certo que houve condições históricas especiais nos Estados Unidos - agrupadas como "excepcionalismo norte-americano" - que explicam porque um capitalismo hegemônico se consolidou aqui antes e de tal modo que os movimentos anti-capitalistas perderam força. Mas talvez a melhor forma de propor o problema seja "por que houve tanto atraso nesse processo na Europa?", e não "por que não houve socialismo nos Estados Unidos?". Sem dúvida, uma resposta completa para essa questão seria muito complexa, mas incluiria o fato de que, desde o início, o desenvolvimento capitalista nos Estados Unidos não foi limitado pela persistência das estruturas econômicas pré-capitalistas (com a exceção óbvia da escravidão), e isso permitiu que uma forma mais dinâmica e hegemônica de capitalismo se desenvolvesse rapidamente. Então, para responder à pergunta: hoje, os Estados Unidos não deveriam ser considerados exceção e, sim, a norma à qual aspiram tantas burguesias nacionais - pense na competição entre a Índia e a China para emular o livre mercado controlado pelos Estados Unidos, na adoção entusiástica dos princípios de mercado por toda a antiga União Soviética e seus países satélites. Até na África e no mundo árabe, a hostilidade aos Estados Unidos não implica a rejeição do mercado capitalista. Vamos deixar nossos leitores decidirem se a América Latina, seja o Brasil, a Bolívia ou a Venezuela, oferecem alternativas genuínas para o modelo americano. Talvez a grande ironia esteja no fato de que os Estados Unidos, de várias maneiras, são uma das mais conhecidas exceções à sua própria celebração dos livres mercados, da democracia liberal e dos direitos humanos.

CULT - Apesar da inexistência de um Partido Socialista forte, é possível afirmar que um tipo de pensamento radical sempre esteve presente nos Estados Unidos durante o século 20?
M.B. e E.W. -
Como o pensamento radical nos Estados Unidos nunca foi representado por um partido político estável e de massa, é fácil pensar que ele está perpetuamente à margem da vida intelectual e cultural, com pouca continuidade e impacto. Isso é um erro. Sempre houve diversas correntes de pensamento radical dentro dos Estados Unidos, mas essas correntes não se cristalizaram em torno de um programa unificador, como acontece quando um forte partido político de esquerda está presente. Assim, nos últimos 50 anos, nos Estados Unidos, idéias radicais e críticas contemplaram principalmente questões vinculadas à raça, aos gêneros, ao meio-ambiente e à sexualidade, e não à classe e ao trabalho - embora existam algumas exceções recentes, como veremos. Algumas dessas correntes de pensamento radical são vibrantes, criativas e contribuíram muito para discussões globais. O melhor trabalho do feminismo e do ambientalismo norte-americanos, por exemplo, certamente influenciou a discussão dessas questões ao redor do mundo. Mas essas discussões geralmente estiveram desconectadas da crítica do capitalismo e da política de classe. Além disso, a ausência de um partido de massa com tendência esquerdista ou social-democrata, e, ao mesmo tempo, de um movimento trabalhador institucionalizado diminuiu a durabilidade e a continuidade de uma política oposicionista. Lutas de classe vieram em ondas, mas existem poucas instituições para manter vivas as lembranças coletivas dessas lutas, de modo que cada época de movimentos precisa começar do zero. Não existe um legado oposicionista como nos países europeus - embora mesmo lá essas memórias nacionais estejam ficando cada vez mais anacrônicas no mundo globalizado.

CULT - Perry Anderson afirma que, na década de 1970, um forte movimento intelectual marxista - ou pelo menos influenciado pelo marxismo - surgiu nos Estados Unidos, restabelecendo temas clássicos como a análise dos processos de trabalho e as teorias de classe e exploração. Como você avalia o florescimento do marxismo teórico nos Estados Unidos, depois de 1968?
M.B. e E.W. -
De fato, houve um certo florescimento do marxismo, especialmente nos anos 1970 até os 1980, mas há um pouco de exagero nisso, já que esse florescimento se limitou ao mundo acadêmico, sem muita articulação com movimentos sociais fora da universidade, mais sensível ao marxismo. Hoje o marxismo, na prática, quase desapareceu da academia, embora deva ser dito que alguns dos temas centrais do marxismo foram absorvidos pelas principais correntes de algumas disciplinas, especialmente a sociologia. Os estudantes de sociologia continuam atraídos por perspectivas críticas, incluindo o feminismo, a análise crítica de raça e os estudos culturais, e muitos dos estudantes de graduação ainda querem fazer pesquisa sobre questões ligadas à justiça e mudança sociais. Mas o marxismo como sistema abrangente para a análise social já não está no centro desses esforços. Ironicamente, conforme o poder do capital se consolida local, nacional ou globalmente, a capacidade explicativa do marxismo aumenta, mas, ao mesmo tempo, o marxismo como ideologia - no melhor sentido da palavra: idéias tornando-se uma força material - se enfraquece. A renovação do marxismo acompanha a expansão dos movimentos sociais, a efervescência da sociedade civil e as ofensivas trabalhistas. Hoje, isso é encontrado fora dos Estados Unidos, talvez na América Latina.

CULT - Ainda é possível observar a vitalidade deste movimento intelectual hoje?
M.B. e E.W. -
Se existe vitalidade no pensamento radical ou crítico, hoje, ela vem principalmente das disciplinas híbridas que emergiram em resposta aos movimentos sociais dos anos 1960 e que criaram novos departamentos dentro das universidades, como o de Estudos Afro-Americanos, Estudo Étnicos, Estudos Nativo-Americanos, Estudos Femininos. Eles ainda abrigam uma forte tendência oposicionista. Em disciplinas mais tradicionais, perspectivas críticas continuam presentes, especialmente, de novo, na sociologia. Vale lembrar, por exemplo, que em anos recentes vários presidentes da Associação Americana de Sociologia foram imediatamente identificados com a esquerda - Frances Fox Piven (2007), Troy Duster (2005), Michael Burawoy (2004) e Joe R. Feagin (2000). No interior da sociologia, ainda há claramente uma forte propensão a perspectivas críticas, oposicionistas. O recente interesse pela sociologia pública, tanto nos Estados Unidos quanto no exterior, comprova um desejo latente de retorno às raízes da sociologia de transformação social. Se o impulso marxista dos anos 1970 fez com que os movimentos sociais construíssem uma nova sociologia contra as teorias esclerosadas da modernização e do triunfo americano, o impulso crítico do novo século se virou para fora, tomando o desafio de compreender o disaster capitalism e, ao fazê-lo, precisou sacrificar a pureza teórica em nome do engajamento prático.

CULT - Recentemente, duas questões políticas e sociais chamaram atenção nos Estados Unidos: a Guerra no Iraque e os direitos dos imigrantes. Aconteceram mobilizações importantes. Como os intelectuais radicais se posicionaram em relação a esses movimentos?
M.B. e E.W. -
Os intelectuais nos Estados Unidos protestaram contra a Guerra do Iraque porque ela é inumana, irracional. A quantidade de protestos no início da Guerra do Iraque - em número maior do que aqueles contra a Guerra do Vietnã - não conseguiu reverter a política militarista do Estado, mantida por uma visão estreita e inconseqüente. Mais bem sucedidos têm sido os inesperados e intensos protestos em defesa dos direitos dos imigrantes, que possuem os piores empregos do setor de serviços. Imigrantes latinos - documentados ou não - estão na vanguarda dos movimentos sociais quando manifestam suas exigências, em uma linguagem compreensível a todos - os direitos humanos. A grande mudança veio em 2000, quando a AFL-CIO (União dos Sindicatos dos Estados Unidos) mudou sua posição em relação aos imigrantes e, em vez de colocarem barreiras para sua entrada, escolheu se aliar com eles, já que eles provaram ser os mais militantes entre os trabalhadores. Em pouco tempo, de imigrantes desmobilizados transformaram-se nos trabalhadores mais suscetíveis à organização. Essa transformação é parte de uma série de mudanças na estratégia trabalhista que aconteceu nos últimos dez anos, uma passagem do sindicalismo de negócios, focado no que era uma aristocracia trabalhista de operários industriais, para o sindicalismo de um movimento de trabalhadores marginalizados do setor de serviços. Aqui, intelectuais radicais ficaram divididos - alguns se opuseram a qualquer separação do movimento trabalhista, que já era fraco, enquanto outros viam a necessidade de abandonar as estratégias trabalhistas antigas em favor das novas.

CULT - Muitos autores, como David Harvey, renovaram o conceito de Imperialismo para explicar a posição atual dos Estados Unidos no cenário internacional. A teoria marxista de Imperialismo ainda faz sentido?
M.B. e E.W. -
Existe, é claro, uma grande variedade de teorias "marxistas" de "Imperialismo". Algumas enfatizam a centralidade da competição militar em padrões globais de expansão econômica; outras usam o termo para designar relações de dominação política entre Estados centrais e periféricos do sistema global; outras ainda usam o temo principalmente para designar o caráter global de acumulação do capital e do desenvolvimento desigual. Todas essas idéias são relevantes para a atual situação de uma forma ou de outra. Portanto, as discussões marxistas sobre o imperialismo ainda são úteis. Outra coisa é imaginar que, considerando o atual estágio do capitalismo, de interdependência global, ainda seja plausível pensar em imperialismo no sentido de um projeto de hegemonia global baseado na manutenção de uma superpotência militar. Essa é uma especulação política condenada ao fracasso. Os neo-conservadores nos Estados Unidos anunciaram a ambição de estabelecer uma ordem imperial militarizada em um famoso documento escrito no final dos anos 1990, The project for a new american century. A guerra ao terror deu abertura política para a realização agressiva dessa visão. O desastre no Iraque com certeza dificultou esse plano, mas não o destruiu. Em todo caso, parece pouco provável que uma revisão dos detalhes estratégicos de um plano imperial teria permitido que ele fosse bem-sucedido, dada a estrutura desenvolvida do capitalismo global e a notória transferência do locus dinâmico de acumulação para a Ásia Oriental.

CULT - Durante a crise do mercado de ações em 1997, a revista New Yorker publicou um artigo de John Cassidy na qual ele notava a importância de Marx para entender o capitalismo do presente. Nesse momento os Estados Unidos passam por uma nova crise econômica. Como o marxismo poderia explicá-la?
M.B. e E.W. -
O marxismo nunca teve muita dificuldade para explicar as crises do capitalismo. No centro da atual crise econômica dos Estados Unidos está o efeito acumulativo da trajetória de políticas vinculadas ao neoliberalismo: o desenrolar de um boom especulativo no mercado imobiliário causado pela desregulamentação do mercado de crédito, o desequilíbrio comercial a longo prazo ligado ao processo de desindustrialização, a enorme dívida pública gerada pelos gastos militares, combinada com uma progressiva redução nos impostos. Esses processos são familiares aos marxistas, mas é claro que também são familiares aos não-marxistas que são críticos do neoliberalismo. O diferencial da visão marxista é encarar esses tipos de fenômenos como intimamente ligados às estruturas centrais e às instituições do capitalismo, apoiados pelas configurações das forças de classe. O marxismo pode ser bom no diagnóstico das crises e das contradições capitalistas, mas falhou na antecipação de algo novo. Por muito tempo, o marxismo dependeu de teorias da história problemáticas e de equívocos na compreensão da dinâmica dos sistemas econômicos. A aspiração do marxismo foi imaginar o futuro socialista como conseqüência imanente dessa mesma dinâmica. Nós já não temos essa muleta, e se quisermos nos manter críticos radicais do capitalismo, precisamos refletir mais seriamente a respeito das alternativas do capitalismo. Precisamos explorá-las onde quer que elas apareçam, pensar sobre suas condições de existência e de difusão. Precisamos manter viva a imaginação de utopias alternativas, que não sejam fantasias, mas utopias concretas, criadas nas frestas do capitalismo. Ao mantê-las vivas, criaremos forças tanto para a melhoria das condições dentro do capitalismo quanto para a possibilidade de algo novo.

CULT - O que pode mudar na política externa americana depois das eleições?
M.B. e E.W. -
As eleições podem viabilizar a chance para corrigir os erros da política externa, como a Guerra do Iraque. Elas raramente dão oportunidade para mudanças cruciais na política externa, porque isso é moldado pela nova ordem global em que vivemos. À exceção do libertário meio louco, Rob Paul, do Partido Republicano (que promete desmilitarizar completamente a política externa norte-americana, fechando todas as bases do país no exterior e reduzindo o orçamento militar em cerca de 70%), nenhum dos candidatos à presidência renunciou ao uso da força militar como importante instrumento de política externa - embora a opinião pública tenha se voltado contra a guerra. Todos os candidatos afirmam basicamente a mesma coisa em relação aos principais focos de tensão da política externa: inequívoco apoio a Israel, hostilidade estridente ao Irã, comprometimento com a guerra ao terrorismo, preocupação com a elevação da China à potência econômica. Todos estão comprometidos em manter a supremacia militar norte-americana, afirmando que o princípio de intervenção militar dos Estados Unidos é uma legítima ferramenta de política externa, e não está sujeita a restrições formais por órgãos internacionais. Esse tipo de militarismo está no centro da política externa por mais de meio século, apoiada tanto pelo Partido Democrata quanto pelo Republicano. Nada disso tende a mudar, independente de quem seja eleito. Há mais incerteza em relação às perspectivas de qualquer mudança substancial na repressão interna contra minorias raciais, obviamente medida pelos crescentes índices de prisões de afro-americanos, e tornada ainda mais evidente ao mundo inteiro no caso do abandono e posterior expulsão dos afro-americanos de New Orleans depois do Furacão Katrina. Por um lado, há importantes segmentos da base eleitoral do Partido Democrata que estão profundamente preocupados com a pobreza, a marginalização e o racismo. Eles reconhecem a enorme injustiça e o custo humano das políticas socioeconômicas dos últimos 25 anos, e se irritam principalmente com a indiferença da administração Bush pelas políticas de bem-estar social. Os principais candidatos democratas manifestaram estas preocupações pelo menos simbolicamente. Por outro lado, o desmantelamento do já mínimo Welfare State americano e a impregnante desregulamentação da economia do país foram apoiados pelos líderes do Partido Democrata, e há poucos motivos para acreditarmos que qualquer candidato presidencial, que recebe sólido apoio de grandes corporações e instituições financeiras, iria reverter isso. É pouco provável que qualquer presidente americano tenha um projeto político sério para reduzir a desigualdade econômica e a marginalização, sem movimentos enérgicos e vibrantes por justiça social.

Ruy Braga é professor do Departamento de Sociologia da USP
Alvaro Bianchi é professor do Departamento de Ciência Política da Unicamp


quarta-feira, 2 de abril de 2008

O Sacrifício da Terra





Ajude a Destruir o Planeta



Nesse texto polêmico e poderoso, Otávio Leal aponta a ferida causada no planeta por quem é carnívoro. Reflita e passe adiante (ainda é tempo).

Você que está lendo este artigo deve ver com indignação todas as atrocidades e falta de respeito com que alguns pseudos seres humanos tratam o planeta e a natureza.
A destruição da Amazônia, as queimadas, a total incompetência dos chamados dirigentes ou políticos.

Centenas de árvores estão sendo destruídas nesse exato momento e como todos sabem, as árvores são responsáveis pelo oxigênio do planeta e sem elas não poderíamos viver. Quando destruímos as árvores estamos também matando os animais que vivem nelas e liberando o dióxido de carbono, acelerando o efeito estufa e conseqüentemente destruindo nosso futuro.

Porque destruímos tanto as árvores? É para criar mais moradias? Não. É para criar pastos para a criação de gado. Todas as florestas estão sendo destruídas no ritmo de meio hectare a cada 5 segundos, para que muitos comam cadáveres (carne de gado).

Quando alguém come um hambúrguer é responsável pela destruição de 5 metros quadrados de floresta tropical. As pessoas que vêem as florestas sendo destruídas e comem carne, também são responsáveis por isso, além disso todos sabemos que a falta de água será um problema tão grande que poderá haver guerras por água e também, por isso é que hoje milhares de pessoas morrem. Por falta d’água.

Você sabe quanto de água é necessário para se criar um único bezerro? O suficiente para fazer flutuar um navio médio. Uma vaca, num gole bebe até 2 litros de água. Num dia, bebe 100 litros. Para produzir 1 Quilo de carne, gastam-se 43.000 litros de água. 1 kg de tomate com 200 litros de água.

Pode se pensar no incompetente "Governo" que te diz para não lavar o carro ou não tomar banho - Isso também é importante mas para você poupar realmente água, NÃO coma bicho morto (carne). Você sabia também que a indústria que mais consome energia elétrica é a do gado?
Você se preocupa com a fome no planeta? Se preocupa que hoje 980 milhões de pessoas vivem num estado de miséria absoluta, que 70 milhões de pessoas morreram no ano passado por inanição e que isso deve piorar se não mudarmos nossos hábitos?

O mesmo acre que produz 120 quilos de carne de boi pode produzir 20.000 quilos de batata; meio quilo de carne produziria 8 quilos de cereais. Isso é a diferença entre alimentar 1 pessoa e 160 pessoas.
Um acre pode alimentar vinte vezes mais pessoas se todas fossem vegetarianas. Cerca de 70 crianças morrem de fome todos os dias e nós temos condições de mudar isso se os comedores de putrefatos (carne) diminuíssem em 10% sua dieta assassina. Isso seria suficiente para alimentar crianças, homens e mulheres que no momento em que você lê esse artigo estão morrendo de fome com dores terríveis.

Sabia ainda que a quantidade de solo arável está diminuindo numa velocidade assustadora, devido a produção de carne e isso pode até acabar com a nossa capacidade de vivermos no planeta?

Se você vai naquela coisa nojenta chamada açougue, saiba que por trás do que se compra lá, está escondida a destruição de florestas, o alimento e a água dos nossos filhos e a extinção de várias espécies.
Não pense que sua decisão não fará diferença - fará muito - as pequenas mudanças no planeta hoje, tem conseqüências gigantes a longo prazo. Divulgue esse texto. Coloque-o na Internet. Faça algo.
Pense ainda nos animais. Será justo de nossa parte dar morte violenta e cruel a animais pacíficos?

Se você acredita que eles não tem morte violenta não leia mais este artigo pois você não tem cultura para entender nada do que estou escrevendo. Vá ler a revista Caras ou assistir ao Big Brother. Se você acredita que os animais são inferiores a nós deve acreditar também que a Terra não é redonda.

Os porcos são, por exemplo, criados em total confinamento, no meio do lixo, presos, sem higiene e engordados artificialmente, inclusive recebendo hormônios e antibióticos. Quanto ao gado eles são mantidos em jaulas, sem liberdade. Mais de 80% dos abates ocorrem sem nenhum tipo de fiscalização sanitária; há pouco tempo no Rio Grande do Sul descobriu-se patas e rabos de rato em lingüiças.

Olhe nos olhos dos animais quando eles são assassinados, marretados nos abatedouros que são do 50% no Brasil ( os outros são sangrados vivos) por "homens covardes" e veja um raio de luz através do qual a vida deles olha para fora e para cima, em direção ao grande poder do nosso domínio sobre eles, e pede por amizade.

Como você pode aceitar colocar dentro de você um animal que viajou centenas de quilômetros a pé ou apertado na carreta de um caminhão (dirigido por um "homem") , sem água ou qualquer alimento. Ao chegar no local do abate ficam de 2 a 4 dias no pátio do matadouro, recebendo apenas água e sofrendo por antever o futuro...

Na hora do sacrifício, os animais são empurrados por um longo corredor apertado e ficam desesperados, horrorizados, tentam fugir, tentam lutar pela própria vida, mas no final do corredor lhe espera um "homem" que lhe golpeia com uma marreta na cabeça ou um disparo na testa com um pistola de ar comprimido o animal fica fraco, tonto, cai com os olhos abertos, mas logo é suspenso por um guindaste enquanto ele ainda se debate por liberdade saem lágrimas nos olhos quando é finalmente degolado vivo. Seus olhos ficam vazios.

Nesse ponto os "homens" usam as facas e o animal deixa de existir, para que poucos comam sua carne e para as fezes e o sangue poluírem os rios.Visite um matadouro. Pense que se os animais falassem, diriam:
- Deixem-me vivo. Parem de me matar. Olhem nos meus olhos.
Você quer então ajudar a salvar o planeta? Não quer se sentir responsável pela morte de crianças? Quer preservar as árvores e o solo?
Então mude sua alimentação. O seu poder de fazer a diferença está em suas mãos quando for no supermercado, restaurantes ou na sua cozinha. Você não precisa sair por ai e salvar a vida de alguém. Você pode fazer isso somente alterando sua alimentação e é claro tendo muito mais saúde e disposição. Quanto aos benefícios de uma dieta sem carniça (carne vermelha), leia a respeito mais já saiba de antemão que cientistas confirmam ser a carne responsável por doenças do coração, câncer no intestino, diminuição do apetite sexual e muito mais.

Obs: A Argentina ERA o maior consumidora de carne do planeta, hoje muitos não tem o que comer. O Brasil é o 4º consumidor e tem 172 milhões de cabeças de gado bovino.

http://www.salveaterra.com.br/ajudeaacabar.htm

sábado, 29 de março de 2008

Internet tem maior participação no aquecimento global que o tráfego aéreo


29/03/2008

(Fonte: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/derspiegel/2008/03/29/ult2682u740.jhtm)




Internet tem maior participação no aquecimento global que o tráfego aéreo
Os centros de computação consomem quantidades imensas de energia e o uso deles está crescendo astronomicamente. Soluções criativas estão sendo procuradas -e encontradas

Manfred Dworschak

Quando o professor Heinz-Gerd Hegering encomenda um novo supercomputador, ele primeiro alerta a companhia elétrica. As linhas de força nos arredores do centro, no interior da Baviera, precisam ser capazes de suportar a carga adicional. "É o suficiente para os engenheiros começarem a suar", disse Hegering.

O novo computador gigante de Hegering, que ele planeja instalar em 2011, não será exatamente eficiente em energia. Na verdade, ele usa tanta energia da rede quanto a necessária para que um trem de alta velocidade de 400 toneladas, plenamente carregado, acelere de zero a 300 km/h.

Hegering dirige o Centro Leibniz de Computação, construído para as universidades de Munique, na cidade vizinha de Garching. O centro já conta com um dos supercomputadores mais poderosos do mundo. O computador fica abrigado em um cubo cintilante da altura de um prédio de 10 andares. Os pesquisadores no centro realizam simulações do nascimento de galáxias ou da expansão de ondas sísmicas. Tamanha computação gera muito calor.

Tubos de metal tão grossos quanto troncos de árvores estão suspensos do teto, constantemente sugando para fora o calor gerado nos gabinetes do computador. Sem eles, os professores que trabalham lá derreteriam. Bombas poderosas injetam rajadas de ar frio pelo piso. Os visitantes, com seus cabelos movimentados pelo ar e cercados pelo barulho do sistema de ar condicionado, experimentam qual seria a sensação da transformação de quantidades assustadoras de dados se transformando em uma força física. A conta de luz mensal do centro é de 120 mil euros (US$ 185 mil).

Em vários andares do prédio semelhante a um cubo estão centrais de força e equipamentos de refrigeração que mantêm os computadores funcionando. As máquinas mais barulhentas são aquelas com volantes pesados, que produzem um alto chiado com sua rotação incessante. Em caso de falta de energia elétrica, as máquinas entram em ação como um raio, alimentando a rede elétrica do prédio. Elas fornecem energia suficiente nestes primeiros segundos críticos para proteger os computadores antes que o sistema de backup e os geradores a diesel entrem em operação.

Impacto em números


Apesar dos dispositivos computadorizados continuarem encolhendo, o maquinário auxiliar ao redor deles está constantemente crescendo. O Centro Leibniz de Computação, inaugurado há apenas dois anos, já é pequeno demais. O próximo computador conterá cerca de 100 mil processadores -em comparação aos 9.728 da atual versão -na mesma quantidade de espaço. Mas o uso de eletricidade e refrigeração, assim como a necessidade de fornecer e extrair energia, aumentará substancialmente, de forma que o centro de computação terá que ser ampliado. A atual estrutura semelhante a um cubo será transformada em um bloco retangular alongado, o espaço nos andares aumentará em mais 50% e o consumo de energia subirá de dois para quase oito megawatts.

"Os custos operacionais não eram tão importantes no passado", disse Hegering. "Atualmente é um fator crítico."

Esta mudança não se limita ao mundo exclusivo dos supercomputadores. Na verdade, ela é muito mais significativa entre os PCs comuns, à medida que o número deles cresce tão rapidamente. A Internet, em particular, é responsável pelo consumo de uma crescente proporção da produção global de energia elétrica. Os centros de computação dos provedores de Internet freqüentemente contêm milhares de PCs usados como servidores. Segundo levantamentos realizados pela firma de pesquisa de mercado IDC, entre 2000 e 2005, o consumo de energia dos computadores de rede dobrou em todo o mundo.

Os PCs, que são ridicularizados nos círculos profissionais como "sopradores de calor", dificilmente podem operar em um modo que economize energia, em parte porque é impossível utilizar milhares de computadores individuais em um centro de computação no mesmo nível. Na verdade, a maioria deles é cronicamente subutilizado.

Por anos, ninguém se importou. No frenesi do boom de Internet, as empresas continuavam adicionando novos computadores, e quando as coisas esquentavam demais em suas salas de computadores, eles simplesmente encomendavam máquinas de refrigeração adicionais. Mas agora que os preços da eletricidade subiram acentuadamente, este consumo de energia se tornou dolorosamente notado. "Atualmente há 50 centavos de custo de eletricidade para cada euro no preço de um servidor. Será 70 centavos até 2009", disse Thomas Meyer, um especialista do IDC.

O setor responde


Não é coincidência que a Google, a gigante dos mecanismos de busca, está construindo seu mais novo centro de computação perto da barragem de Dalles, uma imensa usina hidrelétrica no Oregon. Comprar eletricidade diretamente da usina custa um quinto do que a Google pagaria na Califórnia. Além disso, o rio Columbia oferece água barata para operar as oito torres de refrigeração de vários andares, projetadas para lidar com o calor das dezenas de milhares de computadores.

Os usuários estão acostumados aos resultados de suas buscas aparecerem na tela de seus computadores quase que magicamente. Cálculos estão sendo realizados para determinar quanto consumo de energia está envolvido em uma simples busca no Google. Dependendo do dado inicial, uma busca no Google consome eletricidade suficiente para acender uma lâmpada econômica de 11 watts por 15 minutos a uma hora.

Enquanto a Google se recusar a divulgar os números, estes cálculos permanecerão apenas um jogo de adivinhação. Mas uma coisa é certa: em 2006, segundo um estudo encomendado pelo Ministério do Meio Ambiente alemão, os cerca de 50 mil centros de computação da Alemanha consumiram tanta eletricidade quanto uma usina nuclear era capaz de produzir no mesmo intervalo de tempo.

Esta sede por energia também afeta o clima. Economistas da Gartner, uma firma de pesquisa de tecnologia da informação com sede nos Estados Unidos, estimam que a tecnologia de informática (incluindo telefones, redes sem fio e impressoras) atualmente é responsável por 2% de todas as emissões de dióxido de carbono -ou, em outras palavras, tanto quanto todo o tráfego aéreo.

Estes números revelam que a leveza desincorporada do mundo dos dados é apenas uma ilusão. Na verdade, é um mundo construído em um mundo real de fábricas de processamento de dados que, quando se trata de consumo de energia, lembram os primórdios da industrialização. A computação com elétrons é tão física quanto o derretimento do aço ou a produção de chapas de metal. Em ambos os casos, ninguém se importava muito com o consumo de recursos durante suas fases iniciais.

Um servidor próprio


A provedora de Internet 1&1 opera um de seus três centros de computação alemães na cidade de Karlsruhe. O prédio foi construído com a aparência de um depósito, aparentemente para impedir que alguém tenha a idéia nefasta de romper uma das artérias vitais da sociedade informatizada. O centro de computação é um dos 10 maiores consumidores de eletricidade de Karlsruhe.

A 1&1 vende hospedagem de páginas para seus clientes e conexões de banda larga. Como a empresa, uma provedora de baixo custo, precisou manter seus custos baixos desde o início, ela usa um software desenvolvido por ela mesma para armazenar centenas de páginas em um único computador de rede. Mas 30 mil dos computadores no prédio da 1&1 em Karlsruhe operam ininterruptamente para clientes individuais, como se fossem pequenas empresas, que pagam uma taxa adicional por este serviço exclusivo. Estes servidores privados freqüentemente usam apenas 10% da capacidade, enquanto alguns permanecem quase que sempre ociosos. Mesmo assim, eles ainda consomem metade da eletricidade que um computador em pleno uso.

Alguns clientes precisam da segurança de ter seu próprio PC dedicado. Mas outros provavelmente estão mais interessados no privilégio de dispor de algo semelhante a uma casa de férias própria no mundo digital. A taxa mensal de 69 euros (cerca de R$ 210) não os assusta e a demanda pelo serviço está crescendo.

Poupando mais que o meio ambiente


As grandes empresas, por outro lado, são bem mais sensíveis às pressões de custo. Muitas já começaram a reunir sua tecnologia de informática dispersa em menos endereços, para que o equipamento possa ser usado de forma mais eficiente. O Citigroup, por exemplo, está construindo um megacentro de informática e mais econômico no consumo de eletricidade em Frankfurt, para seus ativos europeus e africanos, que o banco enaltece como uma contribuição para a proteção do clima. O novo centro permitirá que o Citigroup feche muitas centrais de dados menores.

A fabricante de computadores IBM, que antes operava 160 centros de computação em todo o mundo, está especialmente determinada a centralizar suas operações. Hoje, a IBM conta com apenas sete centros de computação e espera desenvolver um novo setor baseado na crescente conscientização da energia. A empresa anunciou sua iniciativa "Big Green", na qual planeja dedicar US$ 1 bilhão por ano para o desenvolvimento de tecnologia de informática "verde", que proteja o clima.

O esforço da IBM se concentra no computador mainframe. Tecnologia complexa permite que estes computadores operem como uma amálgama de PCs individuais e, conseqüentemente, possam substituir centenas de computadores individuais a uma fração de seu custo operacional combinado. Isto porque é alocado aos computadores paralelos individuais apenas a potência de computação do mainframe que de fato precisam. A tecnologia, conhecida no setor como "virtualização", utiliza o hardware de forma bem mais eficiente em todos os aspectos. "Nós economizamos até 80% em consumo de energia fornecendo o mesmo poder de computação", disse Thomas Tauer, o especialista da IBM.

A empresa agora sonha em um retorno dos computadores mainframe, que já dominaram o mundo da informática. Ironicamente, a marcha para a vitória do PC barato transformou esta espécie em uma curiosidade do passado. Com a exceção de grandes bancos e seguradoras, ninguém mais parecia precisar dos gigantes caros e volumosos. Mas agora os dinossauros estão de volta e a IBM informa um aumento da demanda.

Poder nos números


Todavia, poucas empresas têm necessidade de um mainframe próprio. O futuro destes gigantes está no aluguel, em vez da venda, de seu poder de computação. "Nem toda empresa de pequeno e médio porte precisa de seu próprio centro de computação", disse Heinz-Hubert Weusthof, um especialista da IBM. "Pelo menos parte do trabalho poderá ser terceirizado."

Empresas como a IBM e a HP já oferecem mainframes centrais para serviços que podem ser alugados por meio de conexões de dados de alta velocidade, seja para contabilidade da folha de pagamento de uma fornecedora de autopeças ao controle de estoques de uma rede de varejo. Para os clientes, isto é como dispor de processamento eletrônico de dados direto da tomada.

Este tipo de centralização, que está em andamento há algum tempo, agora é anunciado como bom para o meio ambiente. A IBM, por exemplo, visa dobrar o desempenho de seus próprios centros de computação nos próximos anos sem aumentar o consumo de energia.

Lidando com o calor


O fator mais importante na economia de energia é a dissipação do calor. Até agora, o hábito no setor era resfriar todo o centro de computação como refrigeradores. Mas agora soluções mais inteligentes estão surgindo, como soprar ar frio diretamente nos processadores quentes e sugar o ar aquecido antes que se misture ao caro ar resfriado.

É claro, isto não muda o fato de mais e mais calor estar escapando sem uso para a atmosfera. Cada watt de eletricidade usado para rodar um computador precisa ser eliminado na forma de calor. Por que não usar o calor gerado como fonte de aquecimento do prédio? Uma empresa com um centro de computação no porão não poderia eliminar seu sistema de aquecimento?

Na maioria dos casos, preocupações de segurança impediam este uso. Bancos e seguradoras, por exemplo, dependem de centros de computação com múltiplas salvaguardas contra falhas. Como regra, eles possuem duas linhas principais independentes para o transformador da companhia elétrica. Além disso, os centros de computação precisam ficar abrigados em prédios isolados, para que incidentes -como vazamentos de água ou incêndios- não possam colocar em risco operações sensíveis. Por este motivo, a maioria das centrais de dados fica localizada em áreas industriais ou no campo.

O professor Hegering não está sujeito a estes procedimentos rigorosos em seu centro em Garching. Apesar de seu supercomputador contar com o nome impressionante de "Computador Federal de Máxima Performance" (o que significa que todas as universidades alemãs têm acesso a ele), uma falta de energia elétrica ocasional não é um problema tão sério no mundo da computação acadêmica. "Quando isto acontece, nós apenas retomamos do ponto onde paramos", disse Hegering.

Isto permite que o Centro Leibniz de Computação conduza o calor gerado pelos processadores por canos de água até uma ala administrativa adjacente do prédio. No inverno, o supercomputador aquece os escritórios dos 140 funcionários. O administrador Herbert Huber está satisfeito com o grau de conforto nos escritórios. "Nós dispomos de um sistema convencional de aquecimento, mas apenas como apoio", disse Huber. "Eu nunca tive que usá-lo."

Tradução: George El Khouri Andolfato

terça-feira, 25 de março de 2008

Você tem que encontrar o que você ama

Steve Jobs





Veja a íntegra do discurso de Steve Jobs, o criador da Apple, para os formandos de Stanford (2005) :




Estou honrado de estar aqui, na formatura de uma das melhores universidades do mundo. Eu nunca me formei na universidade. Que a verdade seja seja dita, isso é o mais perto que eu já cheguei de uma cerimônia de formatura. Hoje, eu gostaria de contar a vocês três histórias da minha vida. E é isso. Nada demais. Apenas três histórias.



A primeira história é sobre ligar os pontos


Eu abandonei o Reed College depois de seis meses, mas fiquei enrolando por mais dezoito meses antes de realmente abandonar a escola. E por que eu a abandonei? Tudo começou antes de eu nascer. Minha mãe biológica era uma jovem universitária solteira que decidiu me dar para a adoção. Ela queria muito que eu fosse adotado por pessoas com curso superior. Tudo estava armado para que eu fosse adotado no nascimento por um advogado e sua esposa. Mas, quando eu apareci, eles decidiram que queriam mesmo uma menina. Então meus pais, que estavam em uma lista de espera, receberam uma ligação no meio da noite com uma pergunta: 'Apareceu um garoto. Vocês o querem?' Eles disseram: 'É claro.' Minha mãe biológica descobriu mais tarde que a minha mãe nunca tinha se formado na faculdade e que o meu pai nunca tinha completado o ensino médio. Ela se recusou a assinar os papéis da adoção. Ela só aceitou meses mais tarde quando os meus pais prometeram que algum dia eu iria para a faculdade. E, 17 anos mais tarde, eu fui para a faculdade. Mas, inocentemente escolhi uma faculdade que era quase tão cara quanto Stanford. E todas as economias dos meus pais, que eram da classe trabalhadora, estavam sendo usados para pagar as mensalidades. Depois de 6 meses, eu não podia ver valor naquilo. Eu não tinha idéia do que queria fazer na minha vida e menos idéia ainda de como a universidade poderia me ajudar naquela escolha. E lá estava eu gastando todo o dinheiro que meus pais tinham juntado durante toda a vida. E então decidi largar e acreditar que tudo ficaria OK. Foi muito assustador naquela época, mas olhando para trás foi uma das melhores decisões que já fiz. No minuto em que larguei, eu pude parar de assistir às matérias obrigatórias que não me interessavam e comecei a frequentar aquelas que pareciam interessantes. Não foi tudo assim romântico. Eu não tinha um quarto no dormitório e por isso eu dormia no chão do quarto de amigos. Eu recolhia garrafas de Coca-Cola para ganhar 5 centavos, com os quais eu comprava comida. Eu andava 11 quilômetros pela cidade todo domingo à noite para ter uma boa refeição no templo hare-krishna. Eu amava aquilo. Muito do que descobri naquele época, guiado pela minha curiosidade e intuição, mostrou-se mais tarde ser de uma importância sem preço.Vou dar um exemplo: o Reed College oferecia naquela época a melhor formação de caligrafia do país. Em todo o campus, cada poster e cada etiqueta de gaveta eram escritas com uma bela letra de mão. Como eu tinha largado o curso e não precisava frequentar as aulas normais, decidi assistir as aulas de caligrafia. Aprendi sobre fontes com serifa e sem serifa, sobre variar a quantidade de espaço entre diferentes combinações de letras, sobre o que torna uma tipografia boa. Aquilo era bonito, histórico e artisticamente sutil de uma maneira que a ciência não pode entender. E eu achei aquilo tudo fascinante. Nada daquilo tinha qualquer aplicação prática para a minha vida. Mas 10 anos mais tarde, quando estávamos criando o primeiro computador Macintosh, tudo voltou. E nós colocamos tudo aquilo no Mac. Foi o primeiro computador com tipografia bonita. Se eu nunca tivesse deixado aquele curso na faculdade, o Mac nunca teria tido as fontes múltiplas ou proporcionalmente espaçadas. E considerando que o Windows simplesmente copiou o Mac, é bem provável que nenhum computador as tivesse. Se eu nunca tivesse largado o curso, nunca teria frequentado essas aulas de caligrafia e os computadores poderiam não ter a maravilhosa caligrafia que eles têm. É claro que era impossível conectar esses fatos olhando para a frente quando eu estava na faculdade. Mas aquilo ficou muito, muito claro olhando para trás 10 anos depois.
De novo, você não consegue conectar os fatos olhando para frente. Você só os conecta quando olha para trás. Então tem que acreditar que, de alguma forma, eles vão se conectar no futuro. Você tem que acreditar em alguma coisa - sua garra, destino, vida, karma ou o que quer que seja. Essa maneira de encarar a vida nunca me decepcionou e tem feito toda a diferença para mim.



Minha segunda história é sobre amor e perda.

Eu tive sorte porque descobri bem cedo o que queria fazer na minha vida. Woz e eu começamos a Apple na garagem dos meus pais quando eu tinha 20 anos. Trabalhamos duro e, em 10 anos, a Apple se transformou em uma empresa de 2 bilhões de dólares e mais de 4 mil empregados. Um ano antes, tínhamos acabado de lançar nossa maior criação - o Macintosh - e eu tinha 30 anos. E aí fui demitido. Como é possível ser demitido da empresa que você criou? Bem, quando a Apple cresceu, contratamos alguém para dirigir a companhia. No primeiro ano, tudo deu certo, mas com o tempo nossas visões de futuro começaram a divergir. Quando isso aconteceu, o conselho de diretores ficou do lado dele. O que tinha sido o foco de toda a minha vida adulta tinha ido embora e isso foi devastador. Fiquei sem saber o que fazer por alguns meses. Senti que tinha decepcionado a geração anterior de empreendedores. Que tinha deixado cair o bastão no momento em que ele estava sendo passado para mim. Eu encontrei David Peckard e Bob Noyce e tentei me desculpar por ter estragado tudo daquela maneira. Foi um fracasso público e eu até mesmo pensei em deixar o Vale [do Silício]. Mas, lentamente, eu comecei a me dar conta de que eu ainda amava o que fazia. Foi quando decidi começar de novo. Não enxerguei isso na época, mas ser demitido da Apple foi a melhor coisa que podia ter acontecido para mim. O peso de ser bem sucedido foi substituído pela leveza de ser de novo um iniciante, com menos certezas sobre tudo. Isso me deu liberdade para começar um dos períodos mais criativos da minha vida. Durante os cinco anos seguintes, criei uma companhia chamada NeXT, outra companhia chamada Pixar e me apaixonei por uma mulher maravilhosa que se tornou minha esposa. Pixar fez o primeiro filme animado por computador, Toy Story, e é o estúdio de animação mais bem sucedido do mundo. Em uma inacreditável guinada de eventos, a Apple comprou a NeXT, eu voltei para a empresa e a tecnologia que desenvolvemos nela está no coração do atual renascimento da Apple. E Lorene e eu temos uma família maravilhosa.
Tenho certeza de que nada disso teria acontecido se eu não tivesse sido demitido da Apple. Foi um remédio horrível, mas eu entendo que o paciente precisava. Às vezes, a vida bate com um tijolo na sua cabeça. Não perca a fé. Estou convencido de que a única coisa que me permitiu seguir adiante foi o meu amor pelo que fazia. Você tem que descobrir o que você ama. Isso é verdadeiro tanto para o seu trabalho quanto para com as pessoas que você ama. Seu trabalho vai preencher uma parte grande da sua vida, e a única maneira de ficar realmente satisfeito é fazer o que você acredita ser um ótimo trabalho. E a única maneira de fazer um excelente trabalho é amar o que você faz. Se você ainda não encontrou o que é, continue procurando. Não sossegue. Assim como todos os assuntos do coração, você saberá quando encontrar. E, como em qualquer grande relacionamento, só fica melhor e melhor à medida que os anos passam. Então continue procurando até você achar. Não sossegue.



Minha terceira história é sobre morte.


Quando eu tinha 17 anos, li uma frase que era algo assim: 'Se você viver cada dia como se fosse o último, um dia ele realmente será o último'. Aquilo me impressionou, e desde então, nos últimos 33 anos, eu olho para mim mesmo no espelho toda manhã e pergunto: 'Se hoje fosse o meu último dia, eu gostaria de fazer o que farei hoje?' E se a resposta é 'não' por muitos dias seguidos, sei que preciso mudar alguma coisa.
Lembrar que estarei morto em breve é a ferramenta mais importante que já encontrei para me ajudar a tomar grandes decisões. Porque quase tudo - expectativas externas, orgulho, medo de passar vergonha ou falhar - caem diante da morte, deixando apenas o que é apenas importante. Não há razão para não seguir o seu coração. Lembrar que você vai morrer é a melhor maneira que eu conheço para evitar a armadilha de pensar que você tem algo a perder. Você já está nu. Não há razão para não seguir seu coração.
Há um ano, eu fui diagnosticado com câncer. Era 7h30 da manhã e eu tinha uma imagem que mostrava claramente um tumor no pâncreas. Eu nem sabia o que era um pâncreas. Os médicos me disseram que aquilo era certamente um tipo de câncer incurável, e que eu não deveria esperar viver mais de 3 a 6 semanas. Meu médico me aconselhou a ir para casa e arrumar minhas coisas - que é o código dos médicos para 'preparar para morrer'. Significa tentar dizer às suas crianças em alguns meses tudo aquilo que você pensou ter os próximos 10 anos para dizer. Significa dizer seu adeus. Eu vivi com aquele diagnóstico o dia inteiro. Depois, à tarde, eu fiz uma biópsia, em que eles enfiaram um endoscópio pela minha garganta abaixo, através do meu estômago e pelos intestinos. Colocaram uma agulha no meu pâncreas e tiraram algumas células do tumor. Eu estava sedado, mas minha mulher, que estava lá, contou que quando os médicos viram as células em um microscópio, começaram a chorar. Era uma forma muito rara de câncer pancreático que podia ser curada com cirurgia. Eu operei e estou bem. Isso foi o mais perto que eu estive de encarar a morte e eu espero que seja o mais perto que vou ficar pelas próximas décadas. Tendo passado por isso, posso agora dizer a vocês, com um pouco mais de certeza do que quando a morte era um conceito apenas abstrato: ninguém quer morrer. Até mesmo as pessoas que querem ir para o céu não querem morrer para chegar lá. Ainda assim, a morte é o destino que todos nós compartilhamos. Ninguém nunca conseguiu escapar. E assim é como deve ser, porque a morte é muito provavelmente a principal invenção da vida. É o agente de mudança da vida. Ela limpa o velho para abrir caminho para o novo. Nesse momento, o novo é você. Mas algum dia, não muito distante, você gradualmente se tornará um velho e será varrido. Desculpa ser tão dramático, mas isso é a verdade.O seu tempo é limitado, então não o gaste vivendo a vida de um outro alguém. Não fique preso pelos dogmas, que é viver com os resultados da vida de outras pessoas. Não deixe que o barulho da opinião dos outros cale a sua própria voz interior. E o mais importante: tenha coragem de seguir o seu próprio coração e a sua intuição. Eles de alguma maneira já sabem o que você realmente quer se tornar. Todo o resto é secundário. Quando eu era pequeno, uma das bíblias da minha geração era o Whole Earth Catalog. Foi criado por um sujeito chamado Stewart Brand em Menlo Park, não muito longe daqui. Ele o trouxe à vida com seu toque poético. Isso foi no final dos anos 60, antes dos computadores e dos programas de paginação. Então tudo era feito com máquinas de escrever, tesouras e câmeras Polaroid. Era como o Google em forma de livro, 35 anos antes do Google aparecer. Era idealista e cheio de boas ferramentas e noções. Stewart e sua equipe publicaram várias edições de The Whole Earth Catalog e, quando ele já tinha cumprido sua missão, eles lançaram uma edição final. Isso foi em meados de 70 e eu tinha a idade de vocês. Na contracapa havia uma fotografia de uma estrada de interior ensolarada, daquele tipo onde você poderia se achar pedindo carona se fosse aventureiro. Abaixo, estavam as palavras: 'Continue com fome, continue tolo'. Foi a mensagem de despedida deles. Continue com fome. Continue tolo. E eu sempre desejei isso para mim mesmo. E agora, quando vocês se formam e começam de novo, eu desejo isso para vocês. Continuem com fome. Continuem tolos. Obrigado.


(Extraído de: http://blogdochorik.blogspot.com/)


domingo, 23 de março de 2008

Abaixo , resenha do livro da Dra. Vandana Shiva, física nuclear e ativista ambiental. Dra. Shiva é uma das entrevistadas no documentário THE CORPORATION.

FONTE: www.comciencia.br/resenhas/transgenicos


Biopirataria - a pilhagem da natureza e do conhecimento. Vandana Shiva. Ed. Vozes, 2001.

por Marta Kanashiro

A mercantilização da semente e os efeitos perversos dos transgênicos

O leitor desavisado pode imaginar que Vandana Shiva, a autora de Biopirataria, a pilhagem da natureza e do conhecimento é apenas "mais uma" ativista, seja por sua liderança em protestos contra a Monsanto - que envolveram a queima de colheitas - sua dedicação às causas feminista e ecológica, por sua identificação com os agricultores sem terra da Índia, pela participação no Fórum Social Mundial ou pela radicalidade de suas opiniões contra a agrobiotecnologia, os transgênicos, a Revolução Verde, os direitos de propriedade intelectual e as patentes.

Certamente, a atuação política de Shiva colabora para que ela seja considerada, na atualidade, uma das principais expoentes do mundo na defesa do conhecimento tradicional e na crítica aos efeitos perversos dos transgênicos e da propriedade intelectual. Mas ela também se destaca pelo embasamento de suas críticas no campo da filosofia da ciência, que cursou em Londres após distanciar-se da física de partículas, sua área de formação. Essa mistura entre suas polêmicas posições políticas e sua atuação como intelectual é análoga à mescla semelhante feita pelo sociólogo Pierre Bourdieu, no período em que este atuou no movimento antiglobalização. Em ambos, a imagem de militante acabou, em determinada fase de suas carreiras, misturando-se ou sobrepondo-se à figura de intelctual. Atualmente, a ativista e filósofa indiana dirige a Research Foundation for Science, Technlogy and Ecology, em Nova Délhi, e é membro da Third World Network .

Em Biopirataria, Shiva analisa o processo de mercantilização da semente, que passa de recurso regenerativo, parte de ecossistemas sustentáveis, a mercadoria. Esse processo envolve os modelos tecnológicos da agricultura, seja os da Revolução Verde ou dos transgênicos e o processo de globalização neoliberal que os envolve, a ciência reducionista que os informa, e os direitos de propriedade intelectual e sistemas de patentes que legitimam apenas esse tipo de conhecimento como válido.

Logo na introdução das 152 páginas do livro, o primeiro da autora publicado no Brasil, Shiva compara já no título "Pirataria através das patentes, a segunda chegada de Colombo", as patentes à pirataria e aos processos de colonização praticados nos séculos XV e XVI e afirma:"Noções eurocêntricas de propriedade e pirataria são as bases sobre as quais as leis de Direitos de Propriedade Intelectual do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (Gatt) e da Organização Mundial do Comércio (OMC) foram formuladas ... Parece que os poderes ocidentais ainda são acionados pelo impulso colonizador de descobrir, conquistar, deter e possuir tudo, todas as sociedades, todas culturas. As colônias foram agora estendidas para os espaços interiores, os códigos genéticos dos seres vivos, desde micróbios e plantas, até animais, incluindo seres humanos".

Para a autora, a posição e a lógica dos europeus de que deveriam civilizar os primitivos é retomada na medida em que os países detentores de tecnologia apropriam-se da biodiversidade do terceiro mundo, do conhecimentos tradicional e médico e do uso de plantas medicinais, porque acreditam que esses sistemas de conhecimento são primitivos e que podem ser melhorados através de suas ferramentas de engenharia genética. "No coração da descoberta de Colombo estava o tratamento da pirataria como um direito natural do colonizador, necessário para a salvação do colonizado. No coração do GATT e suas leis de patentes está o tratamento da biopirataria como um direito natural das grandes empresas ocidentais, necessário para o desenvolvimento das comunidades do Terceiro Mundo. A biopirataria é a descoberta de Colombo 500 anos depois de Colombo. As patentes ainda são o meio de proteger essa pirataria da riqueza dos povos não ocidentais como um direito das potências ocidentais".

Segundo Hugh Lacey (veja artigo na ComCiência – fazer link) e Marcos Barbosa de Oliveira, que fizeram o prefácio do livro, Vandana Shiva reconhece que a Revolução Verde (RV) aumentou a produtividade, mas também causou uma série de consequências drásticas: extinção da agricultura tradicional de pequena escala, perda do conhecimento que a informa, deslocamentos sociais que deram origem a fome e a violência entre comunidades, degradação do meio ambiente, perda da biodiversidade e crescimento da dependência em relação ao capital internacional. Para Shiva, as culturas transgênicas vão aprofundar e exacerbar estas consequências.

Por outro lado, o mesmo aumento da produtividade proporcionado pela RV poderia ter sido realizado através de métodos tradicionais de agricultura. Além disso, para Vandana a defesa dos transgênicos como solução para a fome e desnutrição insere-se não só no contexto de uma nova colonização como não são válidos, na medida em que a produtividade também foi o mote da RV e, apesar de ter ocorrido, não solucionou o problema. Nesse sentido, ela argumenta que o problema da fome não está na produção, mas na distribuição igualitária de alimentos.

A autora defende que a aplicação dos diferentes métodos agrícolas que se abrigam sob o nome de agroecologia são capazes de preservar o conhecimento tradicional sem desprezar as possíveis contribuições da ciência reducionista. Paralelamente, esses métodos associam à semente a idéia de recurso renovável ou regenerativo, algo que o processo de mercantilização minou através de insumos químicos, entre outros. É também nesse sentido que a semente é para Shiva um símbolo das lutas contemporâneas.

As sementes segundo ela, possuem diferentes facetas, sendo simultaneamente entidade biológica, parte de sistemas ecológicos e produto de desenvolvimento humano e, neste último sentido, compatíveis com valores culturais e organização social locais. A mercantilização da semente quebra a articulação entre esses itens. Hugh Lacey e Marcos Barbosa de Oliveira afirmam "A mercantilização baseia-se assim na quebra da unidade da semente, de um lado como geradora de uma colheita, de outro como reprodutura de si mesma. Liga-se dialeticamente com a transformação das relações sociais na agricultura na direção de um crescente domínio do agribusiness e da agricultura em grande escala voltada para a exportação e, num certo nível de análise, está inequivocamente a serviço dos interesses das multinacionais."

É por tudo isso que a semente é símbolo. Como mercadoria ela simboliza poder de mercado, como recurso renovável representa possibilidade de fortalecimento local, auto gestão, alimentação para todos, preservação da diversidade cultural e biológica, promoção da sustentabilidade ecológica e coloca alternativas à uniformidade das instituições neoliberais. Vandana conclui a dimensão simbólica no final de seu livro, num desfecho apaixonado, demonstrando sua vivência como ativista aliada ao universo intectual de uma ciência nada reducionista: "A semente tornou-se o lugar e o símbolo da liberdade nessa época de manipulação e monopólio de sua diversidade. Ela faz o papel da roda de fiar de Gandhi no período da recolonização pelo livre comércio. A roda de fiar tornou-se um importante símbolo de liberdade não por ser grande e poderosa, mas por ser pequena; ela podia adquirir vida como sinal de resistência e criatividade nas menores cabanas e nas mais humildes famílias. Seu poder reside na sua pequenez. A semente também é pequena. Ela incorpora a diversidade e a liberdade de continuarmos vivos ... Na semente a diversidade cultural converge com a biológica. Questões ecológicas combinam-se com a justiça social, a paz e a democracia".

quinta-feira, 20 de março de 2008

20 mil escravos por ano !


'Vivemos em uma ditadura cultural muito forte'. Entrevista especial com Alexandre Rampazzo

O documentário Nas terras do bem-virá trata do trabalho escravo na Amazônia, mais especificamente no Pará e no Mato Grosso, e revela como é realizado anualmente o aliciamento de mais de 20 mil trabalhadores nordestinos, especialmente nos estados de Maranhão e Piauí, para servirem como mão-de-obra escrava para a agropecuária e extração madeireira naquelas terras. O resultado é a edição de mais de 200 horas de depoimentos e cenas de arquivo, que acabam por abranger também a questão do conflito agrário no norte do Brasil. E quem fala sobre o tema, em entrevista concedida por telefone para a IHU On-Line, é o próprio diretor desse documentário, Alexandre Rampazzo.

Segundo ele, vivemos dentro de uma grande "ditadura da informação", em que fatos como a escravidão contemporânea são encobertos. E completa: "É estranho falar nisso quando estamos na era da informação, mas, se você olhar direito, perceberá que são meia dúzia de grandes famílias que detêm muitos meios de comunicação. Quando saímos dos grandes centros urbanos, esses donos são políticos, como, por exemplo, no Maranhão em que a família Sarney é dona de tudo, ou na Bahia, em que há o domínio da família Magalhães".

Mestre pela Universidade Federal Fluminense, Rampazzo é pós-graduado em Marketing, pela ESPM/SP, e graduado em Comunicação Social com ênfase em Propaganda e Marketing, pela ESPM/SP. Nas terras do bem-virá será apresentado no dia 15-05-2008 na Casa do Trabalhador, em Curitiba. Para maiores informações, clique aqui.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como surgiu a idéia de filmar o documentário Nas terras do bem-virá?

Alexandre Rampazzo
– A idéia surgiu depois realizamos o primeiro trabalho, Ato de fé, que conta a história de um grupo de religiosos que, no período da ditadura militar, apoiou a Ação Libertadora Nacional. Este documentário traz a história do Frei Betto e o martírio do Frei Tito, entre outros. Tivemos uma relação muito boa com um grupo de dominicanos e alguns viraram nossos amigos. Entre eles, um contou que havia outro grupo de dominicanos, atualmente, que lutava contra o trabalho escravo. Eu fiquei surpreso e me perguntava: “Espera aí, como assim trabalho escravo? Estamos no século XXI”. Eu fiquei espantado e, então, fomos pesquisar a fundo. Um dominicano nos indicou alguns pontos a serem estudados, e passei um ano fazendo pesquisas prévias, três meses gravando e mais um ano realizando a edição. Nós captamos mais de 200 horas de imagem. Chegando ao final da edição, nós concluímos que a única instituição que se faz presente na vida desses agricultores e camponeses é uma pequena parcela da Igreja Católica (porque o Estado não é). Foi a partir desse contato que começamos o filme. Nele, aparecem alguns dominicanos, como o Frei Henri des Rosiers e Frei Xavier Plassat.

IHU On-Line – Que repercussões o filme tem surtido?

Alexandre Rampazzo
– Para aquela pessoa mais distraída, porque vivemos numa espécie de ditadura cultural muito forte, o filme brasileiro já não tem muito público, e o de não-ficção menos ainda. Se formos ver, os filmes de não-ficção passam exclusivamente em festivais ou em salas alternativas que geralmente ficam em grandes centros urbanos, como São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Curitiba. Os filmes de não-ficção formam uma espécie de gueto, mas este vem crescendo muito. Poucas produções, no entanto, conseguem passar essa barreira do filme alternativo e ir para o circuito comercial. Aquele público mais desatento certamente se surpreenderá com a temática do trabalho escravo na modernidade, do conflito agrário. Houve gente que falou para mim: “Eu olhava aqueles camponeses sem terras como vagabundos, baderneiros e, depois de assistir ao documentário, eu percebi que não é bem assim, que eles estão lutando por algo justo”. Isso é muito interessante porque, dentro dessa grande ditadura cultural, há uma ditadura da informação. É estranho falar nisso quando estamos na era da informação, mas, se você olhar direito, perceberá que são meia dúzia de grandes famílias que detêm muitos meios de comunicação. Quando saímos dos grandes centros urbanos, esses donos são políticos, como, por exemplo, no Maranhão em que a família Sarney é dona de tudo, ou na Bahia, em que há o domínio da família Magalhães. E esses grandes magnatas também são fazendeiros, o que acaba criando uma rede muito grande que segura a informação. Então, sempre quando passa uma reportagem sobre o MST na mídia, a imagem mostrada é a de que o movimento é baderneiro e só sabe fazer invasões. As pessoas, vendo essas informações diariamente, acabam reproduzindo essa idéia de que seus componentes são bandidos, vagabundos, enfim.

Gosto de abordar a dificuldade de se produzir alguma coisa como esse conteúdo do filme. Existem hoje no país as tais de leis de incentivo à cultura, o que é uma verdadeira farsa. Sempre deram e continuarão dando dinheiro a quem sempre produziu no país. Hoje, quem manda no que será produzido são os empresários. Quem manda no cinema é quem trabalha no departamento de marketing das grandes empresas. Que empresa irá querer seu nome associado a esses temas mais polêmicos e controversos? Infelizmente, vivemos, como já disse, numa ditadura cultural muito forte. Mas precisamos tentar quebrar esse monopólio e mostrar que um outro mundo, de fato, é possível.

IHU On-Line – E o que principalmente seu documentário apresenta?

Alexandre Rampazzo
– Acredito que o Nas terras do bem-virá mostra que existe um outro lado, que a história pode ser contado sob um outro ponto de vista. O que eu mais gostei no trabalho foi exatamente isso: o de mostrar o outro lado para algumas pessoas que não têm acesso a tais informações. Mas, enfim, é só um filme: os problemas persistem, as pessoas continuam escravizadas, as lideranças são assassinadas e vivem ameaçadas de morte. Além disso, percebemos que o Brasil é mais desigual ainda do que pensamos. O espanto de quem vive nas grandes cidades é exatamente esse. O sujeito passa a entender que o país é de uma determinada maneira porque a grande maioria das pessoas é desse jeito. A verdade é que as pessoas não têm acesso a condições dignas de trabalho, nem terras nem saúde.

IHU On-Line – Como o ciclo do trabalho escravo é abordado no documentário?

Alexandre Rampazzo
– O título do filme, Nas terras do bem-virá, é, de certa forma, um termo bíblico, porque, desde a Bíblia da antiguidade as pessoas migram, vão em busca da terra prometida. A pessoa só sai da sua terra, do seu vínculo familiar quando em busca de melhores condições de vida. Ninguém sai da sua terra natal porque quer; cada um busca sua terra prometida. Com toda essa esperança, as pessoas partem em busca da terra prometida e acabam caindo num ciclo do trabalho escravo. Surge, então, o aliciador, que deixa uma pequena quantidade de dinheiro em forma de empréstimo. A pessoa o utiliza para comprar comida e já faz, antes de sair da sua terra, a primeira dívida desse ciclo. Em seguida, ela pega o ônibus. para ir às fazendas. Desse modo, passa a dever o valor do transporte. Às vezes, durante a viagem, essa pessoa come e bebe, passando a dever por isso também. E, ao chegar à fazenda, acontece a mesma coisa: não há moradia, é preciso montar acampamento, que também é cobrado. Enfim, todo o seu trabalho é para pagar uma dívida que se acumula o tempo todo. Até suas ferramentas de trabalho são pagas. Ou seja, nem no capitalismo nós estamos, porque o próprio trabalhador terá de comprar os meios de produção que teoricamente o capitalista precisaria entregar. Com isso, o trabalhador está preso e geralmente só irá sair da fazenda quando terminar o serviço. Além disso, eles precisam agüentar pressões psicológicas de pistoleiros armados que fazem a “segurança” da fazenda. Eles são ameaçados 24 horas por dia. Só fogem quando estão realmente esgotados e não agüentam mais. A fuga de um trabalhador é uma medida extrema de exaustão. O engraçado é que não é só na Amazônia. Numa das regiões mais ricas de São Paulo, Ribeirão Preto, encontraram trabalhadores escravos em exaustão nas lavouras de cana-de-açúcar. Ou seja, trata-se de um problema existente em todos os lugares. Há também muito trabalho escravo entre imigrantes bolivianos na própria cidade de São Paulo. Eles trabalham em oficinas de confecção de roupas. Desse modo, estamos falando de trabalho escravo em São Paulo, na maior capital da América Latina e uma das maiores do mundo.

IHU On-Line – E qual é a importância de relembrar o massacre de Eldorado do Carajás e o assassinato da irmã Dorothy Stang?

Alexandre Rampazzo
– Eu vejo um ciclo. As pessoas ficam presas no trabalho escravo. Quando alguém foge, é para buscar ajuda para os demais colegas que ficaram ainda presos. Ou procuram sindicatos e a Pastoral da Terra, que entram em contato com o Ministério do Trabalho. Este, por sua vez, tem um grupo móvel de fiscalização, que vai até a fazenda apurar a denúncia. São apenas sete grupos que se revezam para um enorme contingente no país. É necessário mudar a lógica de tudo. Qual é o limite do desmatamento da Amazônia? Isso não terá fim na lógica em que vivemos. E aqui todos nós estamos envolvidos. Não são apenas o fazendeiro ou o madeireiro os malvados. Temos a nossa parcela de culpa. Principalmente nós, que vivemos nos grandes centros urbanos, queremos as coisas cada vez mais baratas. Não importa como elas chegaram ou quem as fabricou. Essa lógica do lucro fácil, do consumo desenfreado, nos acompanha: somos levados insistemente a consumir.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Onde está a guerra do Iraque na campanha presidencial americana?






Por: Noam Chomsky


The New York Times




O Iraque continua sendo motivo de preocupação para a população americana, mas isso é uma questão de momento em uma democracia moderna.

Há não muito tempo, era considerado certo que a guerra no Iraque seria o tema central da campanha presidencial, como foi nas eleições de 2006. Mas ela virtualmente desapareceu, provocando certa perplexidade. Não deveria.

O "Wall Street Journal" chegou perto do motivo em um artigo de primeira página na Super-Terça, o dia de muitas primárias: "Temas perdem espaço na campanha de 2008 enquanto eleitores se concentram no caráter".

Para colocar de forma mais precisa, os temas perdem espaço à medida que candidatos, líderes de partido e suas agências de relações públicas se concentram no caráter. Como de costume. E por um forte motivo. Fora a irrelevância da população, eles podem ser perigosos.

A teoria democrática progressista considera que a população -"forasteiros ignorantes e intrometidos"- deve ser "espectadora", não "participante" da ação, como escreveu Walter Lippmann.

Os participantes na ação estão certamente cientes que em vários dos principais temas, ambos os partidos políticos estão mais à direita do que a população em geral, e que a opinião pública é bastante consistente ao longo do tempo, um assunto analisado em um estudo útil, "A Desconexão em Política Externa", de autoria de Benjamin Page e Marshall Bouton. É importante, então, que a atenção das pessoas seja desviada para outro lugar.

O verdadeiro trabalho no mundo é de domínio da liderança esclarecida. O entendimento comum é revelado mais na prática do que em palavras, apesar de alguns as articularem: o presidente Woodrow Wilson, por exemplo, considerava que uma elite de cavalheiros com "ideais elevados" deve ser mantida no poder para preservar a "estabilidade e a retidão", basicamente o ponto de vista dos Pais Fundadores. Mais recentemente, os cavalheiros foram transmutados na "elite tecnocrata" e nos "intelectuais de ação" de Camelot, os neoconservadores "straussianos" de Bush 2º ou outras configurações.

Para a vanguarda que mantinha os ideais elevados e encarregada de administrar a sociedade e o mundo, os motivos para o sumiço do Iraque da tela de radar não deveriam ser obscuros. Eles foram explicados de forma convincente pelo notável historiador Arthur M. Schlesinger, articulando a posição dos "pombos" (moderados) há 40 anos, quando a invasão americana ao sul do Vietnã estava em seu quarto ano e Washington estava preparado para enviar 100 mil soldados para se juntarem aos 175 mil que já faziam o país asiático em pedaços.

Àquela altura, a invasão lançada pelo presidente Kennedy enfrentava dificuldades e impunha custos difíceis aos Estados Unidos. Schlesinger e outros liberais de Kennedy relutavam em iniciar a transferência dos "falcões" (linhas-duras) para os "pombos".

Em 1966, Schlesinger escreveu que, é claro, "todos nós rezamos" para que os falcões estejam certos em pensar que o aumento de tropas do momento será capaz de "suprimir a resistência", e se conseguir, "nós poderemos todos saudar a sabedoria e a qualidade de estadista do governo americano" na conquista da vitória, deixando "o trágico país eviscerado e devastado por bombas, queimado por napalm, transformado em um deserto de desfolhação química, uma terra de ruína e escombros", com seu "tecido político e institucional" pulverizado. Mas a escalada provavelmente não terá sucesso, provavelmente será cara demais para nós, de forma que talvez a estratégia devesse ser repensada.

Á medida que os custos para nós começaram a crescer, logo todo mundo se transformou em um forte oponente da guerra desde o início (em profundo silêncio).

O raciocínio da elite, e as posturas que o acompanham, pode ser transferido com pouca mudança ao comentário atual em relação à invasão americana ao Iraque. E apesar das críticas à guerra no Iraque serem bem maiores e mais amplas do que no caso do Vietnã em qualquer estágio comparável, os princípios que Schlesinger articulou permanecem vigentes na mídia e nos comentários.

É interessante notar que o próprio Schlesinger adotou uma posição muito diferente em relação à invasão ao Iraque, virtualmente única em seus círculos. Quando as bombas começaram a cair em Bagdá, ele escreveu que as políticas de Bush eram "alarmantemente semelhantes à política empregada pelo Japão imperial em Pearl Harbor, em uma data que, como um presidente americano anterior disse, viveria na infâmia. Franklin D. Roosevelt estava certo, mas hoje são os americanos que vivem na infâmia".

Que o Iraque é "uma terra de ruína e escombros" não se questiona. Recentemente a empresa de pesquisa britânica Oxford Research Business atualizou sua estimativa de mortes adicionais resultantes da guerra para 1,03 milhão -excluindo as províncias de Karbala e Anbar, duas das piores regiões. Independente desta estimativa estar correta, ou muito exagerada, não há dúvida de que o custo é horrendo. Há vários milhões de refugiados. Graças à generosidade da Jordânia e da Síria, a multidão que escapa da destruição do Iraque não foi simplesmente eliminada.

Mas essa receptividade está desaparecendo, pelo fato de a Jordânia e a Síria não receberem nenhum apoio significativo por parte dos perpetradores dos crimes em Washington e Londres; a idéia de que possam receber estas vítimas é absurda demais para considerar.

A guerra sectária devastou o Iraque. Bagdá e outras áreas ficaram sujeitas a uma limpeza étnica brutal e deixadas aos cuidados de senhores da guerra e milícias, a base da atual estratégia de contra-insurreição desenvolvida pelo general Petraeus, que conquistou sua fama ao pacificar Mosul, atualmente cenário de violência extrema.

Um dos jornalistas mais dedicados e informados que mergulharam na tragédia chocante, Nir Rosen, recentemente publicou um epitáfio, "A Morte do Iraque" na "Current History".

"O Iraque foi assassinado, para nunca mais se levantar", escreveu Rosen. "A ocupação americana foi mais desastrosa do que a dos mongóis, que saquearam Bagdá no século 13" -uma percepção também compartilhada pelos iraquianos. "Apenas tolos falam em 'soluções' agora. Não há solução. A única esperança é de que talvez os danos possam ser contidos."

Mas apesar da catástrofe, o Iraque permanece sendo um tema marginal na campanha presidencial. Isto é natural, dada a opinião da elite de falcões e pombos. Os pombos liberais aderem ao seu raciocínio e posturas tradicionais, rezando para que os falcões estejam certos e que os Estados Unidos conquistarão uma vitória na terra da ruína e escombros, estabelecendo "estabilidade", uma palavra em código para subordinação à vontade de Washington. Os falcões são encorajados e os pombos são silenciados pelos relatos otimistas após o aumento de tropas de redução do número de baixas.

Em dezembro, o Pentágono divulgou "boas notícias" do Iraque, um estudo envolvendo grupos focais de todo o país que apontou que os iraquianos possuem "crenças compartilhadas", de forma que a reconciliação deve ser possível, diferente das alegações dos críticos à invasão. As crenças compartilhadas eram duas. A primeira, a invasão americana é a causa da violência sectária que fez o Iraque em pedaços. A segunda, os invasores deviam se retirar e deixar o Iraque e seu povo.

Poucas semanas após o relatório do Pentágono, o especialista em forças armadas e Iraque do "New York Times", Michael R. Gordon, escreveu um análise equilibrada e abrangente das opções em relação ao Iraque diante dos candidatos presidenciais. Uma voz está faltando no debate: a dos iraquianos. A preferência deles não é rejeitada. Em vez disso, ele nem é digna de menção. E parece que ninguém nota o fato. Isto faz sentido na suposição tácita habitual ligada a quase todo discurso sobre assuntos internacionais: nós somos donos do mundo, então o que importa o que os outros pensam? Eles são "unpeople" (não-pessoas), para usar o termo empregado pelo historiador diplomático britânico Mark Curtis em sua obra sobre os crimes do império britânico.

Rotineiramente, os americanos se juntam aos iraquianos na condição de não-pessoas. Suas preferências também não dão opções.

(O livro mais recente de Noam Chomsky é "What We Say Goes: Conversations on U.S. Power in a Changing World". Chomsky é professor emérito de lingüística e filosofia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, em Cambridge.)

Tradução: George El Khouri Andolfato