terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Sobre a música...


À medida em que apuramos nossa sensibilidade, parece ocorrer um fenômeno ímpar: não apenas ficamos mais à vontade com a diversidade, como também a percebemos em todos os lugares. É como se começássemos a enxergar beleza onde antes víamos o caos ou confusão. Ao sentirmos beleza e harmonia, por sua vez, abrimos as linhas de defesa, e tornamo-nos ainda mais receptivos, num ciclo virtuoso.
Esse processo atinge também nossos gostos: começamos a tomar contato com o diverso e também a apreciá-lo, não mais nos sentindo estranhos, entediados ou desconfortáveis, mas ficamos instigados e tocados diante dele. Esse fenômeno não é de maneira alguma trivial, mas produz um efeito profundo no nível inconsciente - e quiçá em outros niveis... - provocando uma verdadeira mudança de perspectiva acerca do mundo.
É sabido que nosso inconsciente é sensível não apenas ao discurso "manifesto" - aquele que o consciente racional identifica de maneira imediata - mas antes à forma como a mensagem é dita. Em outros termos, para o inconsciente, "a estrutura é a própria mensagem". Se, por exemplo, algém te diz "eu te amo" de maneira pouco sincera, é bem provável que no nível inconsciente você entenda: "esse sujeito é um mentiroso etc" e você ficará inseguro(a) na relação.
É como se estivéssemos diante de vários níveis de linguagem e de conexão com o mundo: 1) um nível mais grosseiro, consciente, "manifesto", racional, explícito. Esse é o nível do pensamento, onde as idéias são formadas de maneira aparentemente autônoma. É o nível lógico; 2) um nível já mais sutil de ser apreendido, que poderíamos chamar de linguagem emocional e que já finca raízes no inconsciente; 3) um nível ainda mais sutil, que poderia chamar "espiritual", onde apreendemos que a harmonia subjaz exatamente onde os níveis "racional-consciente" e "emocional" percebem apenas o tédio ou o caos (ou seja, onde esses níveis não atribuem significado algum). Aqui, eu situaria a compaixão, o respeito, a delicadeza...; 4) outros níveis, que, sinceramente, ainda não vivenciei...
Fiquemos, portanto apenas nos três primeiros níveis.
Esses níveis de linguagem e de apreensão-interpretação do mundo interagem entre si, de alguma forma produzindo a visão total pelo qual o indivíduo apreende o mundo e sente sua vida. Porém, conforme a "perspectiva" adotada pelo indivíduo, haverá uma cisão maior ou menor entre eles. Ou melhor, penso que a real ou mais significativa diferença entre os seres - a maneira pela qual eles apreendem o mundo e vivenciam suas existências - reside e resulta exatamente no/do grau de separação entre os níveis; e que se traduz no grau de liberdade e de felicidade com que cada um vivencia sua existencia. Em suma, não importa o grau de erudição, de riqueza etc., o que importa é: até que ponto sou um ser livre, até que ponto sou realmente feliz, mesmo que trancado sozinho em um quarto escuro ? A resposta a essas indagações encontram-se exatamente no grau de cisão psíquica, de separação entre os níveis acima.
É nesse sentido que gostaria de falar algo sobre a música pop.
Ainda que estejamos diante de uma música "discursivamente" contestadora (portanto, no nível "consciente"), parece-me que a estrutura musical (no nível "inconsciente") consiste em uma infindável repetição e, sobretudo, em previsibilidade (basta voce ouvir os primeiros segundos da música, que voce já sabe o que esperar do resto; e, o que é pior, uma música tanto fará mais sucesso quanto mais competente for no cumprimento dessa previsibilidade). É como se, para o inconsciente, a mensagem musical fosse: É ISSO, É ISSO, É ISSO, É ISSO... O que também significa dizer: ESPERE ISSO MESMO, É ISSO QUE VAI ACONTECER, ESPERE ISSO MESMO, É ISSO QUE VAI ACONTECER... etc. Independentemente do discurso adotado. Ou seja, um processo ideológico de reafirmação é produzido em consonância com (e por) um universo simbólico que busca suprimir o inesperado, o diverso, o singular. Uma ideologia que apenas reafirma o senso-comum e, mais ainda, busca convencer os indivíduos de que "fora do senso-comum, só há barbárie...".
Ora, aqui surge, em minha opinião, um diferencial importante em relação à música erudita. Esta expressa algo bem diverso daquela reafirmação, pois sua estrutura é infinitamente mais complexa, harmoniosa e, sobretudo, inesperada.

É normal, portanto, que no processo de sensibilização, o gosto musical se transfira para a música clássica, cuja linguagem é mais harmoniosa ao nível inconsciente para o indivíduo agora "mais desperto" para as singularidades.

Porém, mesmo no interior do campo da chamada "musica erudita", penso haver uma diferenciação nesse sentido. Pois se a música romântica tem um inegável apelo emocional, compositores como Bach, Vivaldi, Mozart inserem-se dentro de um campo de maior harmonia, mais sutil, diria mesmo "espiritual".

E é nessa mesma linha que avanço um pouco mais, ao propor que o mais harmonioso dos sons é o som produzido pelo próprio mundo, com sua infinita diversidade, imprevisibilidade e, por que não dizer, harmonia !


Vigiar para Controlar: mais um capítulo da domesticação de corpos e almas.



Um pedido de reconhecimento de patente, dentre os milhares avaliados diariamente nos Estados Unidos, tem despertado interesse e preocupação. Trata-se de um software desenvolvido pela Microsoft e que tem atributos de inteligência artificial capazes de monitorar a produtividade dos trabalhadores, seu bem-estar físico e comportamento. Este software consiste num sistema de computador que une os trabalhadores a computadores por sensores sem fios que medem seu metabolismo. E permitirá o monitoramento do desempenho individual, medindo a temperatura de corpo, movimentos, expressão facial e pressão sanguínea.

Pra quem já está familiarizado com a história do panóptico de Jeremy Bentham e seus desdobramentos, não há nenhuma novidade. Apenas mais um capítulo. A crítica foulcaudiana nos mostrou que sucesso do panopticismo estava na sua capacidade de transpor a simples domesticação dos corpos dóceis rumo à potencialização de sua produtividade. Em suma, não bastava tornar dóceis os cidadãos, no sentido de adequados ao status quo predominante, mas também produtivos em nome da saúde, bem-estar e proveito da população, da cidade e seu Estado. E nesse processo, Michel Foucault passou a se ocupar da genealogia da domesticação das almas, próximo passo do bem-sucedido projeto de colonização das esferas de subjetivação, da intimidade e individualidade. E a dupla acepção do termo "sujeito" denotaria, justamente, esta ambivalência: estar entre um estado do ser em que se pode ocupar a posição tanto de sujeito quanto de sujeição.

No livro Conversações, Gilles Deleuze procurou problematizar estas questões tendo em vista a escalada tecnológica que ampliava, vertiginosamente, o leque de possibilidades de controle e acesso aos sujeitos, mais sujeitados que nunca. Fico pensando se George Orwell realmente imaginou que tal cenário poderia vir a se concretizar em tão pouco tempo, sem maiores problemas e resistência, ou se somos nós que compreendemos esta marcha como um desfecho inelutável da nossa promessa moderna - tão bem analisada por Immanuel Kant - de sapere aude, isto é, ousar saber incessantemente e ampliar os horizontes de um sujeito moderno cada vez mais obstinado em controlar e vigiar. Mesmo que pra isso tenha que se sujeitar a uma devassa que o automatiza e destitui de qualquer espaço de individualidade, no sentido positivo que o termo poderia ainda resguardar.

por messias basques.

Links das matérias:
http://technology.timesonline.co.uk/tol/news/tech_and_web/article3193480.ece
http://www.engadget.com/2008/01/03/microsoft-patent-app-reveals-plans-for-monitoring-group-activiti/
http://research.microsoft.com/vibe/projects/bci.aspx?0sr=a
http://www.repubblica.it/2006/09/sezioni/scienza_e_tecnologia/microsoft4/big-brother/big-brother.html

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

O colapso do agronegócio e a agricultura do futuro




21/1/2008


Por: Gerson Teixeira

“A pequena produção agroecológica se credencia para dominar a paisagem agrária do futuro”, afirma Gerson Teixeira, coordenador geral da Associação Brasileira de Reforma Agrária - ABRA, no DF, em artigo publicado no jornal Valor, 21-01-2008. Segundo ele, “a pequena produção agroecológica se habilita para hegemonizar, no futuro, a paisagem agrária, principalmente em países como o Brasil”. Assim, ele defende que “mais do que nunca, reforma agrária, agricultura familiar e meio ambiente devem passar a ser pontos de convergência das agendas das lutas populares no campo. E cumpre que se perceba a necessidade de luta pela revisão do Pronaf à medida que, na concepção atual o programa nivela as formas de gestão e produção dos camponeses às bases de organização da agricultura produtivista. Isto não ajuda a construir o futuro!”

Eis o artigo.

A interação de dois fenômenos estruturais são preditivos de uma atividade agrícola no futuro, organizada sob bases incompatíveis com a manutenção do agronegócio nos termos atuais. O primeiro fenômeno, de ordem econômica, subproduto da modernização conservadora da agricultura, diz respeito à trajetória erosiva, no longo prazo, dos níveis de rentabilidade econômica da base primária da atividade, decorrente do gap continuado entre preços agrícolas e custos de produção. Esse descompasso teve início com a auto-suficiência alimentar da Europa no final da década de 1970. À título de exemplo, de acordo com a FAO, entre 1980 e 2005, os níveis reais dos preços do milho, arroz, trigo e algodão declinaram, respectivamente, 55%, 50%, 46%, 60% e 54%.

Interagem com esse fenômeno os ganhos de produtividade agrícola em escalas incapazes de convergir as curvas dos preços e custos. A este respeito, vale consultar na Central de Informações Agropecuárias da Conab (www.conab.gov.br) os dados sobre a evolução dessas variáveis, para várias culturas, no período de 1998 a 2007.

Nos países ricos, o colapso da agricultura, por força desses fenômenos, tem sido evitado por políticas protecionistas vigorosas que incluem bilhões de dólares em ajuda aos agricultores.

No Brasil, a grande exploração agrícola tem resistido, com competitividade internacional, graças ao concurso de fatores como: a "cultura" da inadimplência no crédito rural, a precarização do trabalho, os baixos preços relativos da terra, o uso predatório dos recursos naturais e os incentivos da Lei Kandir.

Decorre das tendências acima, portanto, a rota desestruturante da base primária da agricultura empresarial, ao que tudo indica, inevitável, à medida que resultante de fatores dificilmente reversíveis, a exemplo do protecionismo agrícola, da imanência excedentária do modelo agrícola e dos processos de concentração e a centralização econômica dos capitais industrial, financeiro e comercial no entorno da atividade agrícola.

Poder-se-ia contra-argumentar que a economia dos agrocombustíveis imporá inflexão nessas tendências. Mas, o governo brasileiro, os agrosenhores e os seus agro-intelectuais garantem que não haverá competição com a produção de alimentos! Aliás, recomenda-se àqueles que ainda apostam na mega-economia dos agrocombustíveis, a interpretação política da lista de bens ambientais, sem o etanol, apresentada em Bali na COP 13, pelos EUA e Europa, em atropelo e desrespeito, como de praxe, às negociações entabuladas pelos mais de 150 membros do Comitê de Comércio e Meio Ambiente da OMC.

Esta ameaça à agricultura empresarial perde intensidade no caso da agricultura familiar e camponesa por conta dos valores e relações com a terra não restritos à lógica marginalista.

Com esta maior blindagem e levando em conta os efeitos do segundo fenômeno tratado na seqüência, a pequena produção agroecológica se habilita para hegemonizar, no futuro, a paisagem agrária, principalmente em países como o Brasil.

O segundo fenômeno deriva dos impactos na atividade agrícola das mudanças climáticas globais e, ao mesmo tempo, das contribuições da agricultura para o aquecimento global.

O mundo se depara com o grandioso (e ao que tudo indica, irrealizável) desafio de reduzir, entre 50% e 80% as emissões de gases de efeito-estufa, nos próximos 50 anos, para evitar que a temperatura global ultrapasse os 2 graus centígrados. E as medidas nesta direção devem ser implementadas, nas hipóteses mais otimistas, no prazo de até 15 anos.

A agricultura contribui de forma importante e será fortemente afetada por esse processo. Calcula-se que esta atividade seja responsável por 30% das emissões globais de gases geradores do efeito estufa. Afora as queimadas em países como o Brasil, o principal fator da contribuição da agricultura para o aquecimento global é o emprego intensivo de fertilizantes químicos. Daí decorre o seguinte dilema: sem a redução massiva da utilização dos agroquímicos não há possibilidade de redução do aquecimento global e, ao mesmo tempo, sem o uso crescente desses insumos a agricultura produtivista estará inviabilizada.

Neste quadro, no qual a grande exploração agrícola conspira contra a sua própria sobrevivência e a do planeta, os impactos do aquecimento global desestabilizadores da agricultura, previstos no último Relatório do IPCC, exigirão mudanças de profundidade na base técnica da agricultura sob pena de severas ameaças à segurança alimentar da população mundial.

É óbvio que os centros de pesquisa em todo o mundo já vêm se empenhando por soluções técnicas agronômicas para as situações de superstress que advirão do aquecimento global. Todavia, se, por exemplo, é possível a obtenção de variedades compatíveis com adversidades ambientais previstas, não parece razoável supor uma atividade agrícola no futuro ultra-intensiva em fertilizantes. A não ser que a opção seja pela destruição do planeta! Não sendo assim, é possível imaginar o atual modelo agrícola, sem os agroquímicos? Aí já seria um outro modelo agrícola!

Do mesmo modo, muitos cientistas asseguram que a agricultura com biodiversidade será essencial para a convivência com os desdobramentos dos mudanças climáticas. Como isto seria possível com um tipo de agricultura no qual a biodiversidade tem sido uma das suas principais vítimas? Além disso, sem monocultivos em escala não há possibilidade de viabilidade econômica para a base primária do agronegócio, nos termos atuais. De novo, agora por razões ambientais, a pequena produção agroecológica se credencia para dominar a paisagem agrária do futuro.

Em suma, se fatores desestabilizadores da natureza e da economia tendem a criar essa oportunidade de hegemonia para a agricultura familiar e camponesa, no futuro, resta que, na política, as suas organizações atuem para tal sob perspectiva estratégica.

Para tanto, mais do que nunca, reforma agrária, agricultura familiar e meio ambiente devem passar a ser pontos de convergência das agendas das lutas populares no campo. E cumpre que se perceba a necessidade de luta pela revisão do Pronaf à medida que, na concepção atual o programa nivela as formas de gestão e produção dos camponeses às bases de organização da agricultura produtivista. Isto não ajuda a construir o futuro!



Fonte: http://www.unisinos.br/_ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=11776

Jameson. Um pensamento crítico que acertou em cheio

Fredric Jameson


Por: Benedetto Vecchi



"Para Jameson, o desenvolvimento do capital mina, de fato, pela raiz o projeto do Moderno, radicalizando, todavia, algumas tendências já presentes na modernidade", comenta Benedetto Vecchi, em artigo publicado pelo jornal Il Manifesto, 29-12-2007. Segundo ele, "Pós-modernismo foi, de fato, uma obra seminal sem a qual teria sido impossível pensar um pensamento crítico na altura da grande mutação do capitalismo mundial".

Eis o artigo.

Estranho destino aquele do ‘Pós-modernismo’, o volume de Fredric Jameson que acaba de sair em italiano. Uma obra que assumira as orientações de alguns ensaios publicados na “New Left Review” quando o Muro de Berlim parecia uma presença destinada a durar ainda por séculos, mas que fora publicado nos anos em que as ruínas daquele muro eram vendidas como suvenir de uma era distante no tempo. Um punhado de anos, o tempo exato para inscrever Jameson entre as fileiras dos glorificadores da nova ordem mundial. Um verdadeiro e próprio escárnio para um estudioso que considerava o pós-moderno unicamente como a lógica cultural do capitalismo maduro. O ardil para desmontá-lo. Jameson não mostra realmente nenhuma indulgência com a retórica sobre o fim das grandes narrações que um filósofo francês seu contemporâneo, Jean-François Lyotard, distribuía a mãos cheias através dos seus ensaios.

Lyotard


O capitalismo maduro, argumentava Jameson, é uma totalidade que, no interior da oscilação entre homologação e diferença, prefere esta última para alimentar um pluralismo dos estilos de vida e a presença de identidades prêt-à-porter.

E, para melhor exemplificar sua reflexão, preferia seccionar manufaturas culturais entre si heterogêneas, obras arquitetônicas que devem ostentar o poder das multinacionais ou o aburguesamento das metrópoles americanas, aos romances de Thomas Pynchon, que desestruturam a progressão linear do tempo histórico. Para Jameson, o desenvolvimento do capital mina, de fato, pela raiz o projeto do Moderno, radicalizando, todavia, algumas tendências já presentes na modernidade. Uma mina de sugestões, a sua, que abriu filões de pesquisa até então desconhecidos, chegando a apresentar as obras do último Derrida ou de Michel Foucault não como testemunhos filosóficos, e sim como expressões, embora sofisticadas, de uma sociologia do capitalismo maduro.

A história seguiu depois o seu curso e as teses de Jameson foram liquidadas como um sofisticado exercício acadêmico. Em lugar da pílula pós-moderna se substituíram as fortes identidades baseadas na religião ou no sangue, um pensamento liberal-democrático que escolhe como sua raiz um iluminismo depurado de sua dialética e que aponta o indicador contra os postulados igualitários da democracia, enquanto a ressaca plúmbea do tsunami da globalização abriu caminho à guerra infinita ao terrorismo. Em suma, o pós-moderno de Jameson podia ser deixado à “crítica rotativa dos tópicos”. Mas, diversamente de quanto sustentam os críticos passados e atuais, era, sim, justo arquivar sua reflexão, mas somente porque havia acertado em cheio. Pós-modernismo foi, de fato, uma obra seminal sem a qual teria sido impossível pensar um pensamento crítico na altura da grande mutação do capitalismo mundial. O problema, se for o caso, é continuar sua exploração do presente, considerando a revitalização social-democrática ou as retóricas em torno das fortes identidades como variantes daquela condição pós-moderna que Jameson ensinou a encarar sem se ficar petrificado.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Cotidiano ?




Texto de Rudolf Steiner


Podemos habituar-nos a ser homens vigilantes. Então, muito se poderá observar. Se estivermos vigilantes, não passará um só dia sem que aconteça um milagre em nossa vida. Podemos inverter esta proposição, dizendo que, caso não nos aconteça um milagre em qualquer dia de nossa vida, será simplesmente porque o perdemos de vista. Tentem fazer à noite uma retrospectiva da vida: nela encontrarão um acontecimento pequeno, grande ou médio do qual poderão dizer que entrou e aconteceu em sua vida de maneira totalmente curiosa. Conseguimos perceber isso quando pensamos de forma suficientemente abrangente, quando compreendemos com a visão espiritual as circunstâncias da vida de maneira bastante ampla. No entanto, normalmente não procedemos assim, pois deixamos de indagar, por exemplo, que acontecimento pode ter sido impedido por um fato qualquer.
Em geral não nos preocupamos com os acontecimentos impedidos, os quais, se realizados teriam alterado profundamente nossa vida.Muito daquilo que nos torna vigilantes oculta-se atrás dessas coisas que, de uma maneira ou de outra, são eliminadas de nossa vida. Quantas coisas poderiam ter-me acontecido hoje? Se eu me fizer esta pergunta todas as noites, tendo em vista determinados fatos capazes de apontar esta ou aquela conseqüência, tal pergunta engendrará reflexões que introduzirão a vigilância na autodisciplina.
Isto pode constituir um começo que nos conduzirá cada vez mais longe, finalmente a não só investigar o que significa em nossa vida o fato de que, ao nos termos disposto a sair de casa às dez e meia da amanhã, no último momento um homem qualquer veio-nos reter; ficamos furiosos pelo atraso que causou, mas não indagamos: o que poderia ter acontecido se tivéssemos saído na hora planejada? O que mudou com isso?

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Vidas revolucionárias: Leon Tolstoi



Todos nós sabemos quem é Leon Tolstoi, autor de obras conhecidas (talvez não tão lidas) como A morte de Ivan Ilitich, Anna Karenina e Guerra e paz. Mas o que quero ressaltar aqui não é o gênio literário, pra que chover no molhado. Meu interesse é pelos rumos que Tolstoi tomou em sua vida, principalmente em sua fase final, colocando em prática, vivendo, tudo aquilo que escreveu.

Tolstoi nasceu em berço nobre, numa família de proprietários de terra, em 1828. Cresceu nesse meio aristocrático, mas já na juventude começou a mostrar-se preocupado com temas como a justiça e a liberdade e com as conseqüências do estilo de vida burguês, materialista, utilitarista e egocêntrico. Essa preocupação agravou-se após as viagens pela Europa que realizou no começo da década de 1850 e novamente no começo da década de 1860.
Suas primeiras obras lhe renderam fama junto à boemia literária russa, mas Tolstoi era avesso à badalação e ao assédio. Apesar da influência do agito social de São Petersburgo na sua trajetória intelectual, Tolstoi preferiu recolher-se em sua propriedade na província de Tula.
Preocupado com a precariedade da educação no meio rural fundou, no final da década de 1850, uma escola para camponeses cujas concepções já antecipavam ideais da educação progressiva moderna como os de Summerhill school. Movido por esse novo interesse, publicou, em 1862, uma revista pedagógica na qual afirmava que os intelectuais deveriam aprender com os camponeses, e não o contrário.
Tolstoi atormentava-se com questões sobre o sentido da vida e, após desistir de encontrar respostas na filosofia, na teologia e na ciência, deixou-se guiar pelo exemplo dos camponeses, que lhe diziam que o homem deve servir a Deus e não viver para si mesmo. Convencido de que uma força inerente ao homem lhe permite discernir o bem, formulou os princípios que doravante norteariam sua vida.
Recusou a autoridade de qualquer governo organizado e da Igreja Ortodoxa russa (que o excomungaria em 1901), o direito à propriedade privada e, inclusive, no terreno teológico, a imortalidade da alma. Para difundir suas idéias dedicou-se, em panfletos, ensaios e peças teatrais, a criticar a sociedade e o intelectualismo estéril.
A crônica autobiográfica Uma confissão, de 1882, descreve seus tormentos naqueles anos e como os superou mediante um cristianismo evangélico e peculiar. A negação de toda autoridade e do Estado o aproximou dos anarquistas, embora não concordasse com aqueles que pregavam o uso da força para transformar a sociedade. O reino de Deus está em ti, de 1891, expõe sua crença na não-resistência ao mal e de não-violência. Esse texto seminal influenciou homens como Martin Luther King e Mahatma Gandhi, com quem trocou correspondências nos seus últimos anos de vida (1908 a 1910). Nesse texto afirma que os governos existem para o bem dos ricos e poderosos, que, pela força, exploram a humanidade e a matam em guerras.
Tolstoi dedicou-se a uma vida de comunhão com a natureza. Deixou de beber e fumar, tornou-se vegetariano e passou a vestir-se como camponês. Convencido de que ninguém deve depender do trabalho alheio, buscou a auto-suficiência e passou a limpar seus aposentos, lavrar o campo e produzir as próprias roupas e botas.
No final da vida quis doar todos seus bens e propriedades, mas foi impedido pela família. Num rasgo final de independência, aos 82 anos de idade, Tolstoi abandonou a casa em busca de um lugar onde pudesse sentir-se mais próximo de Deus. Dias depois, em 20 de novembro de 1910, morreu devido a uma pneumonia na estação ferroviária de Astapovo, província de Riazan.

Filme: Zeitgeist, o Filme



(*) Agradeço a Luís Barreiros por ter-me apresentado/recomendado o filme



Trata-se de um documentário produzidos nos EUA em 2007, sem fins lucrativos, podendo inclusive ser ("oficialmente") assistido pela Internet, por meio do YouTube, por exemplo.


O link do filme com legendas em português segue abaixo:






(Fazendo um pequeno parênteses, trata-se aqui de mais um exemplo da face "Janus" do atual sistema, (majoritariamente) fascista e, ao mesmo tempo, (minoritariamente) anárquico. No caso, aproveita-se a inserção criada pelo próprio "sistema" hegemônico - a Internet e suas funcionalidades - para uma finalidade "contestatória-anárquica").

Introduzo a apresentação do filme com esse pequeno texto extraído da Wikipedia, para, ao final, tecer alguns comentários pessoais:

"Zeitgeist, the Movie é um filme estadunidense de 2007 sem fins lucrativos produzido por Peter Joseph que pretende, segundo o autor, inspirar as pessoas a investigarem o mundo de uma perspectiva diferente.


O filme é dividido em três seções:

Primeira parte: "The Greatest Story Ever Told" ("A maior história já contada")
Segunda parte: "All The World's A Stage" ("O mundo inteiro é um palco")
Terceira parte: "Don't Mind The Men Behind The Curtain" ("Não se preocupe com os homens atrás da cortina")
Uma versão deste filme foi apresentada no 4th Annual Artivist Film Festival & Artivist Awards.[1]

Desde que a versão online deste filme foi lançada ao público em Junho de 2007, este filme já foi visto mais de seis milhões de vezes, contando somente a versão integral em inglês disponível em Google Vídeo. Na realidade esse número de telespectadores é referente ao final do mês de novembro, quando a contagem de visualizações fora misteriosamente suprimida do site. Especula-se que esse número já tenha superado largamente os dez milhões, visto que "Zeitgeist, the movie" tem sido, dia após dia, desde o mês de outubro, o vídeo on-line mais assistido em todo o mundo.[2]

Estrutura do filme

Primeira Parte: The Greatest Story Ever Told
A primeira parte do filme é uma avaliação crítica do cristianismo. O filme opina que Jesus é um híbrido literário e astrológico e que a bíblia se trata de uma miscelânea de histórias baseadas em princípios astrológicos pertencentes a civilizações antigas. A atenção do filme foca-se inicialmente no movimento do Sol e das estrelas, fato este que é uma das características das religiões pré-cristãs.

Segunda Parte: All The World's a Stage
A segunda parte do filme foca-se nos ataques de 11 de setembro de 2001. O filme opina que governo dos Estados Unidos tinha conhecimento destes ataques e que a queda do World Trade Center foi uma demolição controlada. O filme assegura que a NORAD, entidade responsável da defesa aérea dos Estados Unidos, tinha sido propositadamente baralhada no dia dos ataques com exercício simulado em que os Estados Unidos estavam a ser atacados por aviões seqüestrados.

Terceira Parte: Don't Mind The Men Behind The Curtain
A terceira parte do filme defende que o sistema bancário mundial tem estado a conspirar para obter uma dominação mundial total. O filme opina que a Reserva Federal dos Estados Unidos da América foi criada para roubar a riqueza dos Estados Unidos. O filme demonstra, como exemplo, o lucro que foi obtido pelos bancos durante a Primeira Guerra Mundial, Segunda Guerra Mundial, Guerra do Vietname, Iraque, Afeganistão, e a futura invasão à Venezuela para obtenção de petróleo. O filme descreve a conspiração destes banqueiros, argumentando que o objetivo deles é o controle sobre toda a raça humana. Criando um só governo, uma só moeda.

O filme também aborda, a sociedade humana sendo microchipada. Para transações bancárias, passe de identidade, localização, sem alusão a ficção.

Referências
↑ News Blaze (November 10, 2007) 4th Annual Artivist Film Festival & Artivist Awards "Merging Art & Activism: Saturday Night Film "Zeitgeist"
↑ Google Video ZEITGEIST, The Movie - Official Release - Full Film

Ligações externas
Zeitgeistmovie.com website oficial
Zeitgeist - Legendado em Português
Obtido em http://pt.wikipedia.org/wiki/Zeitgeist,_o_Filme "




Meus comentários




Inicialmente, devo dizer que não obtive maiores informações sobre o filme além daquelas expostas acima e daquelas disponíveis no excelente site oficial. De fato, nada mais detalhado pude encontrar acerca do suposto produtor do filme, Peter Joseph, o que é no mínimo curioso, pois estamos aqui tratando de um filme extremamente bem realizado e que deve ter contado com uma equipe técnica e de pesquisa razoavelmente bem estruturada. Em alguns sites sobre teorias conspiratórias traçam-se ligações com os Iluminati etc. De qualquer forma, este Blog está devendo a seus leitores informações detalhadas e confiáveis. Espero poder complementá-las em breve.


Além disso, o filme é, por si só, um dos maiores fenômenos de "mídia independente" que se tem notícia, suspeitando-se que se trate do vídeo mais assistido na Internet, não obstante ter menos de 1 ano. (Digo "suspeitando-se" porque, mesmo em relação a esse aspecto, encontramos informações difusas, pois parece que o YouTube suprimiu inexplicavelmente o contador de acessos quando o filme já se encontrava na marca de 6 milhões).


Em relação ao conteúdo propriamente dito, achei as duas partes finais mais interessantes que a primeira, que trata da "desmistificação" do cristianismo, mais especificamente do texto bíblico.


De fato, a impressão das cenas iniciais é de que iria se tratar de mais um panfleto "cientificista" e anti-religião, como uma espécie de libelo positivista. Se era essa a intenção, não creio que tenha funcionado, pois, para aqueles que já entendiam a Bíblia cristã dentro de uma linguagem metafórica, as "revelações" do filme não apenas não abalam suas crenças, como as instigam ainda mais...


Penso então que essa primeira parte tem um "alvo certo": o público protestante norte-americano acostumado às interpretações literais do texto bíblico e, ainda, o fundamentalismo neo-con norte-americano que pretende, inclusive, ressuscitar o criacionismo. Mesmo assim, a primeira parte traz inúmeras informações sobre as origens egípcias e astrológicas de passagens fundamentais da Bíblia.


Na minha opinião, o filme melhora a partir de segunda parte, atingindo seu climax ao final da terceira parte, quando trata do neo-fascismo, assunto inteiramente pertinente a este Blog.



Por fim, peço que quem tiver informações mais aprofundadas acerca dos produtores do filme, poste seus comentários.



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Comentários de u.s.w., 19/01/2008 – 16h49


Comecemos pelo banal: adorei Zeitgeist, the movie! Por vários motivos, mas o principal, ele é provocador. Acho que a frase que melhor descreve o espírito do filme está no final da declaração no suposto site oficial do filme (notem que grifei a palavra suposto): “...It is my hope that people will not take what is said in the film as the truth, but find out for themselves, for truth is not told, it is realized”. Mas prefiro falar disso mais adiante. Primeiro gostaria de comentar duas colocações do Zé.

“De fato, a impressão das cenas iniciais é de que iria se tratar de mais um panfleto ‘cientificista’ e anti-religião, como uma espécie de libelo positivista”.
Eu não tive essa impressão, mesmo porque existe a abertura do filme, que evoca a existência de algo “divino”. O processo na primeira parte do filme não foi de “desmistificação” mas ao contrário, de “mitificação”, não só do cristianismo, mais de toda tradição judaico-cristã. Acredito que o objetivo era “universalizar” a verdade, religando os mitos à tradição pagã, mas não para no fim “desbancar” toda tradição mítica, mas sim para resgatar as tradições pagãs que conectavam os homens ao mundo (ou à natureza) e entre si e criticar a apropriação política desses mitos com o objetivo de dominação. É por isso que o filme “para aqueles que já entendiam a Bíblia cristã dentro de uma linguagem metafórica, ... não apenas não abala suas crenças, como as instigam ainda mais...”.

“Na minha opinião, o filme melhora a partir de segunda parte, atingindo seu clímax ao final da terceira parte, quando trata do neo-fascismo, assunto inteiramente pertinente a este Blog”.
De fato o filme vai num crescendo vertiginoso de revelações. Mas não acho que mostre um “neo-fascismo”, na verdade afirma que o mundo vem sendo fascista desde muito, e que a lógica foi, tem sido e continuará sendo a mesma se nada fizermos.

Volto agora ao que coloquei no início desse comentário. O filme é provocador. Digo isso porque, por um lado, devemos imaginar quão chocante e desestabilizador deve ser para um americano médio, ou mesmo para qualquer cidadão médio no mundo, ver, de forma que parece absolutamente convincente, que o governo americano matou 3000 de seus cidadãos e que os governos, no mundo, vêm usando tal lógica genocida há muito tempo. Por outro lado, para aqueles que adoram uma teoria da conspiração, pouca coisa no filme será novidade. Entretanto, para esses últimos, o suposto produtor afirma: “espero que as pessoas não tomem o que é dito no filme como verdade”.
Isso porque não é intenção do filme não falar de crença ou de verdade, mas de liberdade. O que importa não é se tudo o que foi dito é a mais absoluta verdade, mas que ao assistir tais “revelações” despertamos de um sono e voltamos a sentir aquele descontentamento que fazemos questão de deixar encoberto pelo nosso cotidiano. O que importa é que tais “revelações” desconcertam, trazem desconforto, desacostumam.
Não estou dizendo que não acredito nas revelações do filme, assino em baixo de todas elas. Mas não é preciso acreditar exatamente no que nos diz o filme para sentir sua verdade, a perda de liberdade. Daí vem o desconforto, pois se olharmos com cuidado poderemos ver que o mundo caminha inexoravelmente para o controle “consentido” pelo medo.
Nesse sentido, acho cruciais os minutos finais do filme, que terei a paciência de transcrever quase que inteiramente.


1:49:39 – O aspecto mais impressionante de todos: esses elementos totalitários não serão impostos sobre as pessoas, as pessoas irão desejá-los. Pois a força da manipulação da sociedade durante gerações, através do medo e da divisão desligou completamente os homens de seus sentimentos de poder e realidade. Um processo que vem agindo por séculos, senão milênios: religião, patriotismo, raça, riqueza, classe, e todas as outras formas arbitrárias de identificação separatista até agora concebidas têm servido para criar uma população controlada, totalmente manipulável nas mãos de alguns. “Dividir e conquistar” é o modelo. E enquanto as pessoas continuarem a se verem separadas de todo o resto, viverão na escravidão. Os homens por trás da cortina sabem disso. E eles também sabem que se as pessoas descobrirem a verdade de sua relação com a natureza e a verdade de seu poder pessoal, o Zeitgeist por eles maquinado cairá como um castelo de cartas.

1:50:54 – O sistema todo em que vivemos nos levam a crer que somos impotentes, fracos, que nossa sociedade é má, que é cheia de crimes etc. Tudo é uma grande e gorda mentira. Somos poderosos, belos, extraordinários. Não há razão para não entendermos que realmente somos, para onde estamos indo. Não há razão para que o indivíduo médio não seja forte. Somos seres incrivelmente poderosos.

1:51:25 – E pensar que eu gastei 30 anos da minha vida, os primeiros 30, tentando me tornar alguma coisa. Eu queria me tornar bom nas coisas, eu queria jogar bem tênis, ir bem na escola. E tudo que eu conseguia vislumbrar dessa perspectiva é que eu não estava bem com o que eu era, mas se eu fosse bom nas coisas... Mas percebi que eu tinha entendido errado o jogo, que o jogo era descobrir que eu realmente era.

1:52:09 – Na nossa cultura fomos treinados para que nossas individualidades se destacassem. Olhamos para outra pessoa imediatamente como mais esperta, mais burra, mais jovem, mais velha, mais rica, e fazemos todas essas distinções, colocamo-na em categorias e a tratamos dessa forma. E chegamos ao ponto em que vemos os outros como separados de nós mesmos. E uma das experiências mais dramáticas e repara em uma pessoa aquilo na qual ela se assemelha a você e não naquilo que a faz diferente. A experiência de que aquilo que é essência em você e essência em mim é uma coisa só, compreender que não há outro. Tudo é um.

1:53:13 – Citação de Jimi Hendrix “Quando o poder do amor superar o amor pelo poder o mundo conhecerá a paz”.


E as maravilhosas palavras finais, que sucedem imagens de “vidas revolucionárias” (Gandhi, Martin Luther King, Lennon): “... olha minhas preocupações, minha grande conta bancária, minha família, isto tem que ser real... é só uma viagem... não importa, porque é só uma viagem. E podemos mudá-la no momento em que quisermos. É so uma escolha, sem esforço, sem trabalho, sem poupança. Só uma escolha agora mesmo. Entre o medo e o amor.


O filme acaba com as palavras:
“The revolution is now”.
O que imediatamente me remeteu a letra de Guerilla radio, de Rage against the machine:
“It has to start somewhere,
It has to start sometime
(…)
It starts right here
Right now!”.

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Comentário de u.s.w. , 20/01/2008 - 19:02


O que vou colocar aqui deve estar longe de representar o gosto de todos aqui do Blog, mas desde que vi o final deste filme, Zeitgeist, não consigo parar de ouvir Guerilla radio, de cantá-la.

Segue a letra e o link para o vídeo, se quiserem ouvir o barulho (http://br.youtube.com/watch?v=bv3xM3v4-rI&feature=related)


Transmission third world war third round
A decade of the weapon of sound above ground
No shelter if you're lookin' for shade
I lick shots at the brutal charade
As the polls close like a casket
On truth devoured
A Silent play in the shadow of power
A spectacle monopolized
The camera's eyes on choice disguised
Was it cast for the mass who burn and toil?
Or for the vultures who thirst for blood and oil?
Yes a spectacle monopolized
They hold the reins and stole your eyes
Or the fistagons
The bullets and bombs
Who stuff the banks
Who staff the party ranks
More for Gore or the son of a drug lord
None of the above fuck it cut the cord
Lights out
Guerrilla Radio
Turn that shit up
Contact
I highjacked the frequencies
Blockin' the beltway
Move on D.C.
Way past the days of
Bombin' M.C.'s
Sound off Mumia guan be free
Who gottem yo check the federal file
All you pen devils know the trial was vile
An army of pigs try to silence my style
Off 'em all out that box
It's my radio dial
Lights out
Guerrilla Radio
Turn that shit up
It has to start somewhere
It has to start sometime
What better place than here, what better time than now?
All hell can't stop us now


quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

O Círculo Max Weber de Heidelberg (1)

Parte I : O "Círculo" como principal núcleo anticapitalista da Alemanha


Max Weber: um proeminente círculo
de pensadores neo-românticos
e anti-capitalistas


O principal centro de pensamento sociológico na Alemanha do início do século XX era Heidelberg, onde se reunia em torno de Max Weber uma plêiade brilhante de intelectuais e universitários.
Entre os participantes regulares ou episódicos deste famoso “Círculo Weber de Heidelberg” encontram-se, de 1906 a 1918: os sociólogos Ferdinand Tönnies, Werner Sombart, Georg Simmel, Alfred Weber (o sociólogo da cultura, irmão de Max), Arthur Salz (membro do Verein für Sozialpolitik dos “socialistas de cátedra”), Robert Michels (nesta época, “sindicalista revolucionário”), Ernst Troeltsch (sociólogo das religiões, de orientação “social-cristã”), Paul Honigsheim (então jovem estudante); os filósofos neokantianos Wilhelm Windelband, Hugo Münsterberg e Emil Lask, os neo-hegelianos Ehrenberg (judeu tornado místico-cristão) e Rosenzweig; o jurista George Jellinek; o esteta Friedrich Gundolf (amigo do poeta Stephan George); o poeta pacifista Ernst Toller; o psiquiatra e futuro filósofo kierkegaardiano Jaspers; o especialista em Dostoievsky Nikolai von Bubnov; e dois dostoievskyanos escatológicos: Ernst Bloch e György von Lukács...

George Simmel, um dos integrantes do Círculo de Heidelberg...

...juntamente com Jaspers, dentre outros.


Evidentemente, não se pode falar de uma ideologia comum a este conjunto heterogêneo e disparatado, mas nele se encontra indiscutivelmente uma potente corrente anticapitalista romântica; segundo o testemunho muito esclarecedor de Paul Honisgsheim,

“mesmo antes da guerra, havia em vários meios uma tendência a se distanciar do modo burguês de vida, da cultura da cidade, a racionalidade instrumental, a quantificação, a especialização científica, e todos os outros elementos considerados então como repugnantes...Lukács e Bloch, Ehrenberg e Rosenzweig eram partidários desta tendência. Este neo-romantismo, se assim se pode chamá-lo, estava ligado ao velho romantismo por múltiplas, ainda que ocultas, pequenas correntes de influência; podemos dar alguns exemplos: Schopenhauer, Nietzsche, o velho Schelling, Constantin Franz...o movimento de Juventude...O neo-romantismo sob suas diversas formas estava representado em Heidelberg...e seus adeptos sabiam a qual porta bater: a porta de Max Weber.”

Uma das manifestações deste estado de espírito era um estranho renascimento da religiosidade, como forma de rejeição radical do racionalismo burguês; segundo Paul Honisgsheim “era uma época em que a religião começava a estar na moda – nos salões e nos cafés – em que se liam naturalmente os místicos e se simpatizava espontaneamente com o catolicismo, uma época em que era de bom-tom lançar um olhar de desprezo sobre o século XVIII...para poder em seguida invectivar de coração aberto contra o liberalismo”. Esta tendência também se manifestava no círculo de Max Weber, entre outros, em Bloch e Lukács, que gostavam de fazer, então, “louvações extasiadas ao catolicismo”.

Entretanto, mais que a Igreja Católica, era a música e a literatura russa que faziam a unanimidade do círculo de Heidelberg; era ainda um modo de recusar a civilização ocidental capitalista. Graças a esta eslavofilia – estimulada pela participação nas reuniões de domingo (com Weber) de Nikolai von Bubnov, professos de História do Misticismo em Heidelberg, autor de publicações diversas sobre filosofia religiosa russa, em geral, e sobre Dostoievsky, em particular, e pela presença do escritor Feodor Stepum, que introduz no público alemão a obra do teórico do misticismo russo Vladimir Soloviev. A obra de Tolstoi e Dostoievsky encontrava-se no centro dos debates do círculo de Max Weber, particularmente no contexto da contradição entre a ética absoluta colocada pelos escritores russos (radical e sem concessões) e a ética da responsabilidade, implicando que se tomasse sobre si o fardo do pecado, como em “O Grande Inquisidor” de Dostoievsky...Esta problemática obcecava ainda Max Weber em 1919: no seu célebre discurso aos estudantes sobre a vocação política, ele menciona explicitamente o “Grande Inquisidor” de Dostoievsky como a apresentação mais notável desta contradição.

Veremos que os dilemas ético-políticos de Lukács em 1918-1919 apresentam uma similitude espantosa com a perspectiva de Weber, partindo das mesmas fontes: Dostoievsky e Tolstoi.

Lukács em 1919

O círculo de Max Weber tinha certas relações com outro grupo de Heidelberg, muito mais esotérico e fechado: o círculo de Stephan George, que reunia os amigos e admiradores quase religiosos em torno do célebre poeta.

O poeta místico Stephan George



Ao menos um membro deste grupo, o crítico de arte Friedrich Gundolf, participava dos dois círculos,e o próprio Weber lia com interesse os poemas de George. Lukács dedica em 1918 um ensaio a Stephan George (publicado em seguida A Alma e as Formas) em que sublinha o caráter “profundamente aristocrático” de seu lirismo que “mantém longe de si toda escandalosa banalidade, todos os suspiros fáceis e as moções baratas do coração”. Entretanto, o ensaio não agradou aos iniciados do círculo místico dos adoradores do poeta, porque não reconhecia os pretensos dons proféticos sobrenaturais de George. Alguns anos mais tarde (1946), Lukács retorna sobre a significação da obra de Stephan George; sublinha a “não-fraternidade aristocrático-estética de sua visão de mundo” e acrescenta:


“George recusa apaixonadamente a vida social de sua época. Não vê nela senão a prosa mortífera para a alma, a perdição encarnada...São claras as conseqüências do matiz alemão do anticapitalismo romântico. É do ódio contra este mundo, o mundo do capitalismo e da democracia, que nasceu o ‘profetismo’ de George...”.

Lukacs insistirá, em seu livro Brève histoire de la littérature allemande, nas implicações políticas desse "profetismo", por meio do qual George

"converte-se no chefe espiritual da reação que avança. Mão se contenta em formular apaixonadas acusações contra o mundo contemporâneo; anuncia também, com virulência crescente, sua queda necessária e o advento de um mundo novo, de um novo "Reich", que salvará da maldade e da fealdade... Fundando-se em tais poemas o fascismo o reclama para si. [Mas] não estava inteiramente justificado no que concerne ao poeta. George não quis saber nada do hitlerismo: morreu em exílio voluntário...Não existem laços essenciais ao menos objetivamente." (Lukacs, Brève histoire de la littérature allemande, 1949)

São visíveis as afinidades possíveis com a corrente neo-romântica do círculo de Max Weber.

Na realidade o próprio Max Weber não pode ser classificado como um neo-romântico. Aliás, é muito difícil definir sua posição político-ideológica: é um “liberal”, como pretende Merlau-Ponty, um “representante ativo da política do capital monopolista”, como pensava a Academia de Ciências da URSS, ou um aristocrata nietzscheano como sugere Jean-Marie Vincent ? Ele era contrário ou favorável à democracia parlamentar, ao militarismo, à social-democracia ? Sem querer, de forma alguma, truncar o debate, desejamos somente chamar a atenção sobre certa “afinidade eletiva”, malgrado diferenças significativas, entre a sociologia de Weber e o anticapitalismo romântico. Jean-Marie Vincent caracteriza com razão a ideologia weberiana como “uma espécie de humanismo precário, estranho às tendências fundamentais do desenvolvimento social (burocratização, desencantamento)”, um pessimismo que recusa com obstinação alguns aspectos da evolução do mundo moderno. Desse ponto de vista, ele foi, sem dúvida, profundamente influenciado por Tönnies, do qual retoma freqüentemente as categorias de análise, tentando superá-las em direção a uma visão mais objetiva da realidade sócio-econômica moderna.

(...)

“...é horrível pensar que um dia o mundo será ocupado somente por estas pequenas peças, por pequenos homens que se agarram a pequenos empregos e procuram obter outros maiores – uma situação que...tem um papel crescente no espírito de nosso sistema administrativo presente...Esta paixão pela burocracia é suficiente para pôr-nos em desespero...A grande questão não é saber como promover e estimular esta evolução, mas como se opor a esta máquina para manter uma parte da humanidade livre desse desmembramento da alma, desta suprema dominação do modo burocrático de vida.”
(Max Weber, Gesammelte Aufsätze zur Soziologie und Sozialpolitik)

(...)

Sem esta dimensão anticapitalista – que seguramente não é senão um aspecto de um sistema teórico complexo, matizado e às vezes contraditório – é difícil de compreender alguns fenômenos como a simpatia de Weber pelos sindicatos operários:

Eles são os únicos no interior do Partido Social-Democrata que...não se rebaixaram, e que mantiveram o idealismo em face da mediocridade do Partido...O único refúgio do trabalho idealista no seio do Partido Social-Democrata são e serão, em nossas condições alemãs, os sindicatos.

(...)

Segundo Eduard Baumgarten, para Weber, os sindicatos constituem precisamente um contrapeso ao aburguesamento e à burocratização do Partido, ponto de vista que aproxima o eminente sociólogo de Heidelberg de seu discípulo “sindicalista revolucionário” Robert Michels. O próprio Michels sublinha em outro lugar o interesse de Weber por suas idéias e a abertura das páginas do Archi für Sozialwissenschaft para a corrente sindicalista, com a publicação de artigos de Hubert Lagardelle, Arturo Labriola, Enrico Leone etc. Enfim, segundo o testemunho sempre revelador e penetrante de Paul Honisgsheim, a Weltanschauung de Weber transporta-o para a “vizinhança dos anarquistas e, sobretudo, dos sindicalistas bergsonianos”.

Lukács na maturidade

É somente dentro deste contexto que se pode compreender o comentário surpreendente que fez Lukács a seus amigos de Heidelberg:

“Max Weber é o homem que poderá arrancar o socialismo do miserável relativismo produzido pela ação de Frank (um dirigente social-democrata revisionista e direitista) e seus asseclas” (...).




(Texto extraído de: "Para uma Sociologia dos Intelectuais Revolucionários", Michel Löwy, pags.28 e segs)

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Introdução a Peter Sloterdijk

Peter Sloterdijk



I – Dados biográficos


Natural de Karlsruhe, Sloterdijk estudou Filosofia, Filologia Germânica e História em Munique e Hamburgo, tendo concluído tese de mestrado sobre O estruturalismo como hermenêutica política, em 1971. Cinco anos mais tarde, defenderia seu doutorado em Hamburgo, com uma dissertação sobre Literatura e organização sobre experiência de vida.

No fim dos anos 70, Sloterdijk passou dois anos na Índia. Um período de sua vida que deixou conseqüências "irreversíveis", segundo o próprio filósofo:

"Quem fez uma experiência como essa, se torna imune a quaisquer teorias, nas quais a depressão sempre vence".

É considerado um dos mais importantes renovadores do pensamento filosófico da atualidade pelo menos desde a publicação de Kritik der zynischen Vernunft (Crítica da razão cínica), que alcançou sucesso imediato, tornando-se o mais vendido livro de filosofia na Alemanha no último meio século.


Notabilizou-se por defender o retorno a um maior rigor filosófico e, em bom iconoclasta, posiciona-se contra os nivelamentos por baixo reinantes na academia e na vida pública.


Embora Peter Sloterdijk seja, desde 1999, reitor da Escola de Artes e Design de Karlsruhe (Staatliche Hochschule für Gestaltung Karlsruhe), o filósofo e teórico da cultura não é conhecido no país por sua produção acadêmica, mas, acima de tudo, pelas polêmicas desencadeadas por seu discurso político.


Com teses controversas sobre o terrorismo islâmico, "alertas" sobre a Constituição européia e ironia a respeito do "musical" apresentado pelos manifestantes antiglobalização durante o encontro do G8 na Alemanha, Sloterdijk está, com freqüência, presente na mídia de língua alemã.


Seu suposto protesto contra o cinismo, definido como "falsa consciência esclarecida", levou o autor a observações amargas acerca da sociedade de consumo e informação.

A disseminação do computador e a conseqüente dependência do homem deste é outro ponto tocado por Sloterdijk, para quem "comunicação é trabalho escravo".

Filosofia "sem dedo em riste"

O recurso à terminologia semelhante à do repertório nazista fez com que na trajetória do filósofo fosse apontada uma "guinada para a direita", o que em sua autodefesa foi chamado de "agitação da esquerda fascista".

Como se não bastasse, Sloterdijk declarou ainda na época "a morte da Escola de Frankfurt" e anunciou um "acerto de contas com a Teoria Crítica", com o qual Jürgen Habermas "teria se aposentado".

Poucos anos depois, em 2002, o filósofo estrearia em grande estilo um programa na televisão alemã. O Philosophisches Quartett (Quarteto Filosófico), com o qual pretendia supostamente levar adiante "uma filosofia sem dedo em riste".

II - Obras


Em 2004 encerrou sua trilogia Esferas (Sphären), cujos primeiros volumes haviam sido publicados em 1998 e 1999 e onde aborda a relação umbilical do homem com seu meio ambiente (ver comentário ao final desta postagem) e com a qual aspirava decifrar a "história da humanidade".

O primeiro volume Sphären I. Blasen (Esferas. Parte I: Bolhas) foi atacado pela crítica como um amontoado insano de pronunciamentos sobre terrorismo, manipulação genética e cultura pop.
Na seqüência, vieram outros volumes da trilogia, encerrada com Schäume (Espumas) – obra que sugere fundamentos para uma nova "antropologia filosófica".

O autor de "Esferas"




Em 2005, seria publicado Im Weltinnenraum des Kapitals: Für eine philosophische Theorie der Globalisierung (No Interior do Mundo do Capital: Por uma Teoria Filosófica da Globalização), em que o autor dá continuidade às teorias desenvolvidas na trilogia Esferas e disseca as dimensões do conceito de globalização.

Em Zorn und Zeit (Ira e Tempo), um tratado "político-psicológico", Sloterdijk analisa a cultura ocidental a partir da idéia da ira, considerada pelo autor "o motor real da história".

Iniciado com uma reflexão sobre a Ilíada, de Homero, epopéia constituída em função da ira de Aquiles, o volume se opõe à teoria psicanalítica, ao desconstruir a pulsão de morte, situando Eros no mesmo patamar de Thymos – para os gregos, responsável pelo arrebatamento da ira.

Paralelamente, vem estabelecendo uma nova correlação entre os pensamentos a priori quase antagônicos de Nietzsche e Heidegger.

Livros publicados em português

Regras para o parque humano:
Levanta o debate sobre o destino do ser humano na época da bioengenharia. O texto foi razão da eclosão de uma das maiores polêmicas político-filosóficas na Europa nos últimos anos (ver abaixo, nesta mesma postagem – A Polêmica)). O desenvolvimento a longo prazo conduzirá a uma reforma genética das características da espécie humana? Uma antropotecnologia futura avançará até um planejamento explícito de suas características?


Essas perguntas de respostas complexas estiveram no centro do já famoso discurso de Elmau: um debate sobre a evolução futura da espécie no contexto de "um humanismo que naufragou como escola da domesticação humana", e do qual ninguém poderá se furtar.

Trechos
"Com o estabelecimento midiático da cultura de massas no Primeiro Mundo em 1918 (radiodifusão) e depois de 1945 (televisão) e mais ainda pela atual revolução da Internet, a coexistência humana nas sociedades atuais foi retomada a partir de novas bases. Essas bases, como se pode mostrar sem esforço, são decididamente pós-literárias, pós-epistolares e, conse-qüentemente, pós-humanistas. Quem considera demasiado dramático o prefixo "pós-" nas formulações acima poderia substituí-lo pelo advérbio "marginalmente" — de forma que nossa tese diz: é apenas marginalmente que os meios literários, epis-tolares e humanistas servem às grandes sociedades modernas para a produção de suas sínteses políticas e culturais."


"O que ainda domestica o homem, se o humanismo naufragou como escola da domesticação humana? (...) O que domestica o homem, se em todas as experiências prévias com a educação do gênero humano permaneceu obscuro quem — ou o quê — educa os educadores, e para quê? Ou será que a questão sobre o cuidado e formação do ser humano não se deixa mais formular de modo pertinente no campo das meras teorias da domesticação e educação?"


"Se o desenvolvimento a longo prazo também conduzirá a uma reforma genética das características da espécie — se uma antropo-tecnologia futura avançará até um planejamento explícito de características, se o gênero humano poderá levar a cabo uma comutação do fatalismo do nascimento ao nascimento opcional e à seleção pré-natal — nestas perguntas, ainda que de maneira obscura e incerta, começa a abrir-se à nossa frente o horizonte evolutivo."

O Desprezo das massas:
O fenômeno "luta cultural" em si é o conflito no qual se depara a legitimidade e a origem das diferenças. Discute-se como a metafísica religiosa é intranqüilizada pela pergunta sobre de onde provém o Mal e, da mesma forma, como a sociedade secular se defronta com a questão de como deve alimentar suas diferenças (alteridade). Recorrendo a Nietzsche, Heidegger, Rorty, entre outros, Sloterdijk aborda uma relação problemática por excelência: os intelectuais e as massas.


O desprezo das massas é um ataque que o filósofo desfere contra o senso comum “ilustrado”, dada a asfixia do pensamento em exercícios diletantes das formas, amante de uma álgebra inútil. Partindo de um diálogo com Elias Canetti e seu diagnóstico acerca da agressividade da massa (essa heroína apressada de uma modernidade iludida) contra o talento e a diferença antropológica vertical, e estendendo esse diálogo a Heidegger, Nietzsche, Foucault, Rorty (criticando nesse sua aposta em uma estupidez democrática anti-filosófica), entre outros, Sloterdijk chega mesmo a buscar luzes em alguns momentos da teologia da graça, mais uma vez revelando sua qualidade de não dizer o que é normalmente considerado como de “bom tom” para as “posturas inteligentes modernas”. Aliás, essa tem sido sua tônica: dizer aquilo que a militância das “massas inteligentes” desprezam: “Por essa razão em todo mundo crescem como erva daninha aquelas comissões de ética que, como institutos da destroçada filosofia, querem substituir os sábios.” (p. 99).(comentários de Luiz Felipe Ponde - Departamento de Teologia - PUC-SP)

Trechos

“Só o fato de que a multidão moderna, ativada e subjetivada, passa a ser insistentemente chamada de massa pelos seus porta-vozes e pelos que a desprezam, já aponta para que a ascensão à soberania do maior número possa ser percebida como um processo inacabado, talvez inacabável.” (p. 12)


“A massa não reunida e não reunível na sociedade pós-moderna não possui mais, por essa razão, um sentimento de corpo e espaço próprios; ela não se vê mais confluir e agir, não sente mais sua natureza pulsante; não produz mais um grito conjunto. Distancia-se cada vez mais da possibilidade de passar de suas rotinas práticas e indolentes para um aguçamento revolucionário.” (p. 21)


“Necessariamente aparece duas vezes também o segundo desprezo, ou desprezo composto, uma vez de baixo, como desprezo ofensivo das elites por parte das novas massas flexibilizadas, que fazem de seu modo de vida a medida de todas as coisas e querem libertar-se de seu observador que as despreza; e como desprezo das massas e de seu amplo idioma por meio dos últimos elitistas, que sabem desprezados seus objetivos pela massa e pressentem que na cultura de massas em organização acabou de uma vez por todas aquilo com que se importam.” (p. 70)


“Essa primeira ciência humana engajada não esquece sua missão em tempo algum. Com seriedade metódica e fineza estratégica ela persegue seu objetivo pretendido: se for necessário suprimir a própria essência — por causa das diferenças essenciais a serem negadas —, ela também pagará esse preço.” (p. 87)

No mesmo barco:
Ensaio sobre os delírios da política, do paleolítico até hoje. Ao tratar de mais de 4 mil anos de História, Sloterdijk pode distanciar seu olhar à medida que mergulha nas grandes civilizações da antigüidade, o que lhe permite apreender alguns vícios fundamentais de nossa época. Peter Sloterdijk se insere no debate sobre a hiperpolítica, fulminando com seu estilo ímpar quatro mil anos de história. Ele distancia seu olhar, à medida que mergulha nas grandes civilizações da Antiguidade, o que lhe permite apreender alguns vícios fundamentais de nossa nossa época com extrema perspicácia.


A partir dessa combinação de flash backs e tempo real, Sloterdijk chega à tese de que os homens estão sentados sobre uma bomba-relógio lógica desde a invenção da roda - bomba armada pelo conceito de diversidade e pluralidade da espécie humana, cujo potencial explosivo engendrou nos últimos dois ou três séculos reações em cadeia: fenômeno aliás mais conhecido como "História universal". Apresentando o processo histórico como uma longa sucessão de convívios forçados, Sloterdijk enquadra-os em três etapas: mostra como a partir do pau torto das hordas pré-históricas primeiro foram talhados os antigos povos de caçadores e colhedoras; como depois na época agro-cultural foram empilhados impérios e reinos; e como finalmente na era industrializante uma sociedade tendendo ao tráfego universal elabora um difuso, por vezes desregulado, estado planetário pós-imperial.


O que o leva a refletir sobre a arte do possível em nossa época, que não se deixa mais definir como política, apenas como hiperpolítica - às hiper-hordas da atualidade corresponde apenas, quando muito, uma hiperpolítica. No entanto, esta padece ainda de duas falhas: todas as tentativas de transportar a cidade para o Grande, isto é, para uma sociedade universalizante, levam a totalitarismos e ao sacrifício das pequenas unidades empurradas para becos psicopatológicos. Portanto, qualquer política futura estará sujeita a uma situação onde não somente o Pequeno e o Grande devem ser novamente configurados, mas também o Velho e o Novo.

Se a Europa despertar:

Neste ensaio, Sloterdijk se pergunta se a Europa dilacerada de 1945 poderia ser vista como metáfora de um império moderno e esclarecido. Os desenvolvimentos políticos recentes, inclusive a derrapagem violenta da política externa norte-americana, já haviam sido previstas pelo filósofo alemão. A Europa foi libertada pelos aliados em 1945 da ditadura nazista — e ao mesmo tempo o velho “Império do Centro” foi agarrado pelas tenazes de novas potências mundiais a Oeste e a Leste. Nesta dupla experiência os europeus vivenciaram seu ano zero, até hoje motivo de uma longa e sofrida reflexão que se arrasta por duas gerações.


Peter Sloterdijk avança a tese de que não haverá como pensar a nova Europa dessa virada de milênio se os europeus não voltarem a seus fundamentos histórico-filosóficos e buscarem uma orientação programática assentada numa “mitomotricidade” imperial portadora de mitos fundadores que resultaram nos esplendores culturais, filosóficos e políticos de que a Europa contemporânea se quer herdeira. Nesse sentido, poderá a noção de Nietzsche de “obrigatoriedade da grande política” ser preenchida de um novo conteúdo contemporâneo, após o fim do vácuo no qual a tragou sua trágica safra de totalitarismos e guerras mundiais?


Na edição em português, há uma entrevista de Sloterdijk onde este revê, à luz do 11 de setembro norte-americano e de neo-imperialismos unilaterais, alguns embates expostos no texto original, redigido sob influência das alterações inter-imperiais após o 1989 soviético / europeu.

Ira e tempo:
O autor reinterpreta o conceito de ira à luz do pensamento ocidental do século XXI. Para Sloterdijk, no lugar de válvula de escape para desejos não realizados, a ira passa a ter valor histórico, sobretudo na construção de um equilíbrio político. No caminho percorrido pelo filósofo conclui-se que é preciso exercitar este equilíbrio sem se esquivar das lutas necessárias e, ao mesmo tempo, não provocar nenhuma luta supérflua. Entre outras coisas, Sloterdijk mostra que reprimir a ira dita produtiva pode gerar efeitos paralisantes.

Crítica da razão cínica: escrita em 1983;

Outras obras:

Der Denker auf der Bühne – Nietzsches Materialismus [O pensador no palco – O materialismo de Nietzsche], 1986;

Weltfremdheit [Desassossego do mundo], 1993;

Der starke Grund, zusammen zu sein. Erinnerungen an die Erfindung des Volkes [O grande motivo de estarmos juntos: anotações sobre a descoberta do povo], 1998;


Luftbeben: An den Quellen des Terrors, [Aeromotos: Nas fontes do terror], 2002.





III - A polêmica de 1999

Em julho de 1999 eclodiu uma polêmica num pitoresco castelo da Baviera como há muito já não se via nestes tempos de horizontes tranqüilos e conflitos pasteurizados. Uma palestra refinada e aparentemente despretensiosa — tomando como ponto de partida o diagnóstico heideggeriano da crise do humanismo e prosseguindo retroativamente pela denúncia nietzscheana da domesticação apequenadora do homem pelo homem até as acintosas recomendações de Platão sobre a arte de pastorear seres humanos — se transformaria no maior debate político-filosófico dos últimos anos a varrer uma Europa em confronto com um fim-de-século tão cheio de indagações e inseguranças quanto o foi seu início.

Para onde nos levará o perigoso fim do humanismo literário enquanto utopia da formação humana? Como nos posicionar frente ao homem re-desenhado, frente às manipulações genéticas que sabemos serão feitas quer se queira ou não? A discussão é fundamental e apenas ensaia seus primeiros passos. Ingressamos no terreno movediço da antropotécnica, como diria Sloterdijk. Uma leitura atenta deste texto tão recente e já célebre — e ele mesmo um revelador exemplo de uma descontextualização simplificadora por uma parte da crítica — nos mostra o autor advogando a necessidade de se definir regras éticas e controles sociais para as aplicações tecnológicas já ao alcance dos grandes conglomerados da bioengenharia e, em especial, para as assustadoras possibi-lidades, já fartamente disponíveis, de seleção pré-natal dos próprios seres humanos.

No texto rebuscado, onde é afirmada a inevitabilidade da manipulação genética, o uso de conceitos como "seleção" e "cultivo" despertou na crítica analogias imediatas com a ideologia nazista, o que fez com que o "discurso de Elmau" (nome do castelo na Baviera, onde o ensaio foi lido por Sloterdijk pela primeira vez) passasse meses a fio sendo debatido tanto na imprensa quanto no meio acadêmico alemão.

Repercussões sobre discurso:

Alguns comentários sobre o discurso de Sloterdijk (ver ainda a postagem intitulada “O Homem Neoliberal: da redução das cabeças à mudança dos corpos", de autoria de Dany-Robert Dufour, neste Blog):


Bruno Latour



"Acusa-se Peter Sloterdijk de brincar com a eugenia ignorando todo e qualquer perigo, ao passo que ele toma a pluma para impedir seus adversários de minimizá-lo! Belo exemplo de incompreensão... Qual é afinal este perigo? O de não ver que uma guerra mundial começou 'a respeito das variantes da criação do homem'." (Bruno Latour, Le Monde des Débats, novembro de 99)

"Peter Sloterdijk, autor do cultuado Crítica da razão cínica, símbolo de uma geração herdeira da Teoria Crítica, é o pivô de um escândalo que está dividindo a intelectualidade européia (...). Sloterdijk propõe um Conselho de cientistas e filósofos para criar um discutível Parque Genético Humano (Menschenpark), como reservatório para 'salvar e aprimorar a espécie da imbecilidade e brutalização induzida pelos mídias'. Ato contínuo, Jurgen Habermas abriu fogo contra Sloterdijk e a confusão, que promete abalar os alicerces de toda uma área do pensamento, já está na mídia européia." (Jornal do Brasil, Idéias/Livros, 25/9/99)

"Para Sloterdijk, a reação 'horrorizada' de parte da 'boa consciência' humanista contra a engenharia genética não passaria de uma tentativa de silenciar sobre a técnica seletiva, a fim de poder realizá-la exatamente em silêncio: o horror na verdade é cinismo, diz ele, evocando seu livro Critica da razão cínica (1983)." (Luiz Felipe Pondé, Folha de S. Paulo, Mais!, 10/10/99)

"Essa proposta (de uma Assembléia Geral das Ciências do Homem para discutir os limites da biotecnologia e a formulação de um código de conduta) não é tão absurda quanto pretendem os inimigos do filósofo. Ao contrário: são os postulados iniciais de Sloterdijk que podem causar preocupação: morte do humanismo, decisão de se permitir pensar no fim total dos tabus, na exigência de uma plena liberdade, ao contrário da Alemanha da culpabilidade. É nesse sentido que Sloterdijk constitui uma ruptura franca com a filosofia alemã do pós-guerra." (Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo, Cad. 2/Cultura, 17/10/99)

"(O texto) provocou uma verdadeira tempestade pública na Alemanha... Sujeito: o futuro do humanismo e o devir da civilização européia. Perspectivas: nada menos do que o título anuncia: "regras para o parque humano" na época da "antropotecnologia". O Monde des Débats toma portanto a iniciativa de publicar a integralidade de um texto filosófico tão longo quanto árduo, e considerado por seus adversários como explosivo, senão perigoso: é o preço por vezes a se pagar para a honestidade dos debates e das polêmicas." (Le Monde des Débats, outubro de 99)

"Não importa o que tenha acontecido com esta polêmica toda, o importante para mim é que a discussão sobre a antropotecnologia finalmente tenha acontecido." (Depoimento ao editor, Frankfurt, outubro de 99)

IV - A Participação de Sloterdijk no ZKM - Centro de Arte e Tecnologia de Mídia, de Karlsruhe

Peter Sloterdijk esboçou um produto instantâneo ideal para propagar a cultura política do Ocidente em todo o mundo: um Parlamento inflável que pode ser lançado via aérea, a fim de instaurar a democracia com a maior rapidez possível nos "Estados delinqüentes" que tenham acabado de ser subjugados.

O Parlamento com capacidade para 160 deputados pode ser transportado num único contêiner, oferecendo todas as condições necessárias para o processo democrático dentro de apenas 24 horas, excluindo o tempo de vôo. No entanto, sem um empurrãozinho das Forças Aéreas norte-americanas, o sucesso do empreendimento seria impensável. Afinal, ironiza Sloterdijk, os americanos já mostraram "grande êxito no emprego da democracia via aérea".


Bruno Latour




O interesse dos curadores Bruno Latour e Peter Weibel era justamente "encontrar novos caminhos para se refletir sobre política e desenvolver procedimentos que possam levar a uma nova forma de trabalho entre artistas e teóricos".

Em sua contribuição à mostra, Sloterdijk, atribui uma dimensão bélica ao missionarismo ocidental e sua meta de democratizar o mundo. Do ponto de vista do Ocidente, a democracia é algo bom a ser imitado. "E como contaminação funciona bem num mundo denso, a democratização poderia dar certo através de uma infecção mimética", explica Sloterdijk em entrevista ao diário Die Welt.

Porém, a contaminação democrática tem fronteiras e não funciona em todas as partes do mundo, segundo ressalva o filósofo. "O mundo árabe ainda não atingiu o grau de densidade que caracteriza o mundo ocidental. Falta de densidade também é o maior déficit estrutural da África; em conseqüência disso, bons exemplos não se propagam com tanta rapidez, só a Aids mesmo é que galopa."

O gueto do capital

Embora a globalização pareça dar margem à transferência ilimitada de modelos de um espaço cultural para o outro e pareça apontar para a abolição das fronteiras, o que ocorre – segundo Sloterdijk – é justamente o contrário:

"Minha teoria descreve a globalização como um fenômeno de exclusão sem precedentes. O mundo do bem-estar tende a criar um espaço interior bastante hermético, sem levar em conta qualquer homogeneidade regional ou nacional. Eu denomino isso o 'interior do mundo do capital'".

Em seu livro Im Weltinnenraum des Kapitals: Für eine philosophische Theorie der Globalisierung (No Interior do Mundo do Capital: Por uma Teoria Filosófica da Globalização), Sloterdijk descreve a criação de um complexo de conforto, um espaço interior com fronteiras invisíveis, mas intransponíveis para quem está de fora. Ou seja: uma ilha habitada por um bilhão e meio de pessoas, flutuando num mar povoado por uma população três vezes maior.

Nem as nações mais jovens escapam deste modelo: "Hoje a Índia deve ser uma zona de prosperidade com 200 milhões de pessoa, flutuando num oceano gigantesco onde grassa a miséria de mundo agrário arcaico. Na China, a reforma capitalista do comunismo deve ter beneficiado 400 milhões de pessoas, deixando 800 ou 900 milhões na mais absoluta falta de perspectiva", ressalta Sloterdijk ao Die Welt.

Mas o prognóstico de Sloterdijk para as ilhas de prosperidade do Ocidente também não é dos mais otimistas: "A era dos grandes alívios está acabando. Por um bom tempo se misturou o gás do riso da segurança social à atmosfera da Europa Ocidental. Hoje ainda continuamos a respirar ares de consumismo, sem os quais dificilmente se poderia impulsionar uma conjuntura. Remuneração sem empenho e segurança sem luta foram os ingredientes existenciais da Europa durante meio século. Foi isso que ajudou a determinar o clima. Mas agora as pessoas vão ter que sofrer para aprender que as coisas vão ter que funcionar com mais empenho próprio e menos gás do riso".

V - Sobre a trilogia Esferas

(texto extraído do Blog: http://brigadasinternacionais.blogspot.com/2007/09/peter-sloterdijksem-domcilio-fixo.html ):




O que Peter Sloterdijk pretende não é nem condenar, nem idolatrar, mas propor-nos um reconhecimento do monstruoso como monstruoso e uma capacidade para o pensarmos.Parece que Peter Sloterdijk está destinado à provocação. De certo modo, se o não fizer, desilude os seus ouvintes e leitores. É por isso que a sua comunicação na Baviera, num colóquio consagrado a Heidegger, em Julho de 1999, foi mais uma vez objecto de reacções violentas e debates apaixonados.

Mas o próprio texto já o tinha programado. O autor começa logo de entrada por observar que grande parte do modernismo estético e filosófico até aos anos 60 (dos expressionistas de 1920 aos existencialistas de 1950 - e poderíamos falar nos bataillianos e blanchotianos dos anos 60 e nos revolucionários de 68) se definiu por um acentuado desprezo pelas situações médias. Não foi o historiador britânico Eric Hobsbawm que definiu parte do século como uma "idade dos extremos"? Os extremos têm um pensador privilegiado: Nietzsche. Ora é curiosamente esse mesmo Nietzsche que faz a transição entre um modernismo dos extremos e um espírito pós-moderno que se situa claramente no campo oposto. Como escreve de um modo muito pertinente Peter Sloterdijk, "as premissas históricas do pensamento no fim do século XX recomeçaram a transformar-se de um modo fundamental. Sob o nome de código de 'pós-modernidade', instalou-se, pelo menos desde há duas décadas, um estado de consciência pós-extremista, no qual reaparece um pensamento das situações médias. (...) O resultado destas reflexões pós-radicais, pós-marxistas, pós-apocalípticas, neo-cépticas, neo-morais, etc., desemboca no presente numa situação social cada vez mais impregnada pelos mitos e rituais da comunicação, do consumo, da rentabilidade acrescida, e da mobilidade - um novo Eldorado das situações médias. Neste clima neo-medíocre, a propensão e a capacidade para nos reapropriarmos dos fragmentos do extremismo declinam de novo - em regra geral, hoje, é preciso fazer o desvio pela biografia ou por outros modos derivativos da escrita se queremos entender alguma coisa destes radicalismos fracassados." Mas se esta "miniaturização deve ser entendida como um tributo quase natural à normalização" ("a democracia implica por si mesma um triunfo das situações médias"), este pensamento "não está em sintonia com os acontecimentos maiores da nossa época, e perde a capacidade para apreender as realidades imensas do processo de civilização".





Eis a questão central: quais são os acontecimentos fundamentais da nossa época? E, face a eles, como conseguir, segundo a lição de Heidegger, resistir à "banalização do monstruoso"?É aqui que surge a palavra-chave: o homem é um produto; e só pode ser compreendido a partir do seu modo de produção. É aqui portanto que começa o escândalo Sloterdijk. Porque ele vai saltar a pés juntos sobre a perspectiva humanista (o homem como sujeito de si próprio) para estabelecer uma relação entre o homem no seu confronto com o "divino", e, depois, numa progressiva viragem ateológica, entre o homem no seu confronto com o "monstruoso" - porque, nos nossos dias, "o monstruoso instalou-se no lugar do divino".


O que nos coloca face a uma "antropotécnica", e perante a seguinte perspectiva: "uma parte do género humano actual, sob a direcção da fracção euro-americana, tentou, com a sua entrada numa era altamente tecnológica, um procedimento sobre si mesmo e contra si mesmo cujo móbil é uma nova definição do ser humano", o que faz que "as condições de produção do ser humano começam hoje a constituir-se de uma maneira mais formal, mais técnica e mais explícita do que nunca". Se em 1945, com Hiroshima, tivemos um apocalipse físico, em 1997, tivemos, com a divulgação pública das experiências de clonagem, um apocalipse biológico. Mas a nossa época é de tal modo tentada pelas situações médias que "o apocalipse do homem tornou-se algo de quotidiano".


O que Sloterdijk pretende não é nem condenar, nem idolatrar, mas propor-nos um reconhecimento do monstruoso como monstruoso e uma capacidade para o pensarmos. Para isso precisamos de aceitar duas coisas: primeira, que o homem é um produto, e um produto em aberto; segunda, que o produtor desse produto não é nem Deus, nem o próprio homem (nem teologia, nem humanismo). Então quem produz? Há nesta pergunta um pressuposto que convém pôr em relevo: pressupõe-se que o produtor está acima do produzido. Ora (e esta proposta teórica de Sloterdijk aproxima-o de Negri e Hardt) o que devemos dizer é que o produtor é imanente ao próprio produzido, que "o homem é o produto de uma produção que ela própria não é o homem, que não é conduzida pelo homem de um modo intencional, e o que não será já o-que-viria-a-ser antes de o vir a ser. Trata-se portanto de descrever um mecanismo antropogenético, e explicar, a partir dele, que ele procede de um modo decididamente pré-humano e não-humano, e que em nenhuma circunstância pode ser confundido com a acção de um sujeito produtor, seja divino, seja humano".





Isto implica uma nova problemática do Ser e do espaço, a afirmação de um conceito a que Sloterdijk chama de "dimensional" e a análise de uma condição tensiva do dimensional. Agora a tensão faz-se entre a relação-com-o-mais-longínquo, isto é, a clareira e o êxtase, e um-ser-cada-vez-mais-junto-de si, isto é , a ideia da casa do Ser. A esta nova noção do espaço (que se sobrepõe à temporalidade) Sloterdijk chama "esferas", definindo-as como "entre-mundos": nem um enclausuramento no cárcere ambiental, nem o terror de uma permanente abertura ao Exterior, mas uma situação de suspensão tensiva entre mundos e entre aberturas. E no processo de formação das esferas será possível encontrar quatro tipos de mecanismos: a insulação; a supressão dos corpos, a neotenia e a transposição (como é óbvio, ditos assim , estes termos valem o que valem: o que interessa são as longas análises do modo como tais mecanismos funcionam).


Numa perspectiva histórica, o homem deve tornar-se totalmente doméstico antes de iniciar o processo de se tornar totalmente extático. É aqui que se pode falar em "domesticação do Ser" a partir das antropotécnicas primárias: técnicas de educação, linguagens, códigos, rituais, regras de parentesco, normas de casamento, etc.. Só que a biotecnologia contemporânea cria antropotécnicas secundárias e é aqui que a casa do Ser começa a soterrar-se sob o peso dos seus próprios andaimes: "A palavra e a escrita, na era dos códigos digitais e das transcrições genéticas, já não têm um sentido que seja de um modo ou de outro doméstico. As composições da técnica desenvolvem-se fora de qualquer hipótese de transposição e não suscitam nem aclimatações nem efeitos de domínio da exterioridade. Pelo contrário, aumentam o volume do exterior e do nunca assimilável". O homem parece cada vez mais condenado à errância - como um ser sem domicílio fixo.

Fontes:

http://brigadasinternacionais.blogspot.com/2007/09/peter-sloterdijksem-domcilio-fixo.html


http://www.estacaoliberdade.com.br/autores/sloter.htm


http://pt.wikipedia.org/wiki/Peter_Sloterdijk