terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Introdução a Peter Sloterdijk

Peter Sloterdijk



I – Dados biográficos


Natural de Karlsruhe, Sloterdijk estudou Filosofia, Filologia Germânica e História em Munique e Hamburgo, tendo concluído tese de mestrado sobre O estruturalismo como hermenêutica política, em 1971. Cinco anos mais tarde, defenderia seu doutorado em Hamburgo, com uma dissertação sobre Literatura e organização sobre experiência de vida.

No fim dos anos 70, Sloterdijk passou dois anos na Índia. Um período de sua vida que deixou conseqüências "irreversíveis", segundo o próprio filósofo:

"Quem fez uma experiência como essa, se torna imune a quaisquer teorias, nas quais a depressão sempre vence".

É considerado um dos mais importantes renovadores do pensamento filosófico da atualidade pelo menos desde a publicação de Kritik der zynischen Vernunft (Crítica da razão cínica), que alcançou sucesso imediato, tornando-se o mais vendido livro de filosofia na Alemanha no último meio século.


Notabilizou-se por defender o retorno a um maior rigor filosófico e, em bom iconoclasta, posiciona-se contra os nivelamentos por baixo reinantes na academia e na vida pública.


Embora Peter Sloterdijk seja, desde 1999, reitor da Escola de Artes e Design de Karlsruhe (Staatliche Hochschule für Gestaltung Karlsruhe), o filósofo e teórico da cultura não é conhecido no país por sua produção acadêmica, mas, acima de tudo, pelas polêmicas desencadeadas por seu discurso político.


Com teses controversas sobre o terrorismo islâmico, "alertas" sobre a Constituição européia e ironia a respeito do "musical" apresentado pelos manifestantes antiglobalização durante o encontro do G8 na Alemanha, Sloterdijk está, com freqüência, presente na mídia de língua alemã.


Seu suposto protesto contra o cinismo, definido como "falsa consciência esclarecida", levou o autor a observações amargas acerca da sociedade de consumo e informação.

A disseminação do computador e a conseqüente dependência do homem deste é outro ponto tocado por Sloterdijk, para quem "comunicação é trabalho escravo".

Filosofia "sem dedo em riste"

O recurso à terminologia semelhante à do repertório nazista fez com que na trajetória do filósofo fosse apontada uma "guinada para a direita", o que em sua autodefesa foi chamado de "agitação da esquerda fascista".

Como se não bastasse, Sloterdijk declarou ainda na época "a morte da Escola de Frankfurt" e anunciou um "acerto de contas com a Teoria Crítica", com o qual Jürgen Habermas "teria se aposentado".

Poucos anos depois, em 2002, o filósofo estrearia em grande estilo um programa na televisão alemã. O Philosophisches Quartett (Quarteto Filosófico), com o qual pretendia supostamente levar adiante "uma filosofia sem dedo em riste".

II - Obras


Em 2004 encerrou sua trilogia Esferas (Sphären), cujos primeiros volumes haviam sido publicados em 1998 e 1999 e onde aborda a relação umbilical do homem com seu meio ambiente (ver comentário ao final desta postagem) e com a qual aspirava decifrar a "história da humanidade".

O primeiro volume Sphären I. Blasen (Esferas. Parte I: Bolhas) foi atacado pela crítica como um amontoado insano de pronunciamentos sobre terrorismo, manipulação genética e cultura pop.
Na seqüência, vieram outros volumes da trilogia, encerrada com Schäume (Espumas) – obra que sugere fundamentos para uma nova "antropologia filosófica".

O autor de "Esferas"




Em 2005, seria publicado Im Weltinnenraum des Kapitals: Für eine philosophische Theorie der Globalisierung (No Interior do Mundo do Capital: Por uma Teoria Filosófica da Globalização), em que o autor dá continuidade às teorias desenvolvidas na trilogia Esferas e disseca as dimensões do conceito de globalização.

Em Zorn und Zeit (Ira e Tempo), um tratado "político-psicológico", Sloterdijk analisa a cultura ocidental a partir da idéia da ira, considerada pelo autor "o motor real da história".

Iniciado com uma reflexão sobre a Ilíada, de Homero, epopéia constituída em função da ira de Aquiles, o volume se opõe à teoria psicanalítica, ao desconstruir a pulsão de morte, situando Eros no mesmo patamar de Thymos – para os gregos, responsável pelo arrebatamento da ira.

Paralelamente, vem estabelecendo uma nova correlação entre os pensamentos a priori quase antagônicos de Nietzsche e Heidegger.

Livros publicados em português

Regras para o parque humano:
Levanta o debate sobre o destino do ser humano na época da bioengenharia. O texto foi razão da eclosão de uma das maiores polêmicas político-filosóficas na Europa nos últimos anos (ver abaixo, nesta mesma postagem – A Polêmica)). O desenvolvimento a longo prazo conduzirá a uma reforma genética das características da espécie humana? Uma antropotecnologia futura avançará até um planejamento explícito de suas características?


Essas perguntas de respostas complexas estiveram no centro do já famoso discurso de Elmau: um debate sobre a evolução futura da espécie no contexto de "um humanismo que naufragou como escola da domesticação humana", e do qual ninguém poderá se furtar.

Trechos
"Com o estabelecimento midiático da cultura de massas no Primeiro Mundo em 1918 (radiodifusão) e depois de 1945 (televisão) e mais ainda pela atual revolução da Internet, a coexistência humana nas sociedades atuais foi retomada a partir de novas bases. Essas bases, como se pode mostrar sem esforço, são decididamente pós-literárias, pós-epistolares e, conse-qüentemente, pós-humanistas. Quem considera demasiado dramático o prefixo "pós-" nas formulações acima poderia substituí-lo pelo advérbio "marginalmente" — de forma que nossa tese diz: é apenas marginalmente que os meios literários, epis-tolares e humanistas servem às grandes sociedades modernas para a produção de suas sínteses políticas e culturais."


"O que ainda domestica o homem, se o humanismo naufragou como escola da domesticação humana? (...) O que domestica o homem, se em todas as experiências prévias com a educação do gênero humano permaneceu obscuro quem — ou o quê — educa os educadores, e para quê? Ou será que a questão sobre o cuidado e formação do ser humano não se deixa mais formular de modo pertinente no campo das meras teorias da domesticação e educação?"


"Se o desenvolvimento a longo prazo também conduzirá a uma reforma genética das características da espécie — se uma antropo-tecnologia futura avançará até um planejamento explícito de características, se o gênero humano poderá levar a cabo uma comutação do fatalismo do nascimento ao nascimento opcional e à seleção pré-natal — nestas perguntas, ainda que de maneira obscura e incerta, começa a abrir-se à nossa frente o horizonte evolutivo."

O Desprezo das massas:
O fenômeno "luta cultural" em si é o conflito no qual se depara a legitimidade e a origem das diferenças. Discute-se como a metafísica religiosa é intranqüilizada pela pergunta sobre de onde provém o Mal e, da mesma forma, como a sociedade secular se defronta com a questão de como deve alimentar suas diferenças (alteridade). Recorrendo a Nietzsche, Heidegger, Rorty, entre outros, Sloterdijk aborda uma relação problemática por excelência: os intelectuais e as massas.


O desprezo das massas é um ataque que o filósofo desfere contra o senso comum “ilustrado”, dada a asfixia do pensamento em exercícios diletantes das formas, amante de uma álgebra inútil. Partindo de um diálogo com Elias Canetti e seu diagnóstico acerca da agressividade da massa (essa heroína apressada de uma modernidade iludida) contra o talento e a diferença antropológica vertical, e estendendo esse diálogo a Heidegger, Nietzsche, Foucault, Rorty (criticando nesse sua aposta em uma estupidez democrática anti-filosófica), entre outros, Sloterdijk chega mesmo a buscar luzes em alguns momentos da teologia da graça, mais uma vez revelando sua qualidade de não dizer o que é normalmente considerado como de “bom tom” para as “posturas inteligentes modernas”. Aliás, essa tem sido sua tônica: dizer aquilo que a militância das “massas inteligentes” desprezam: “Por essa razão em todo mundo crescem como erva daninha aquelas comissões de ética que, como institutos da destroçada filosofia, querem substituir os sábios.” (p. 99).(comentários de Luiz Felipe Ponde - Departamento de Teologia - PUC-SP)

Trechos

“Só o fato de que a multidão moderna, ativada e subjetivada, passa a ser insistentemente chamada de massa pelos seus porta-vozes e pelos que a desprezam, já aponta para que a ascensão à soberania do maior número possa ser percebida como um processo inacabado, talvez inacabável.” (p. 12)


“A massa não reunida e não reunível na sociedade pós-moderna não possui mais, por essa razão, um sentimento de corpo e espaço próprios; ela não se vê mais confluir e agir, não sente mais sua natureza pulsante; não produz mais um grito conjunto. Distancia-se cada vez mais da possibilidade de passar de suas rotinas práticas e indolentes para um aguçamento revolucionário.” (p. 21)


“Necessariamente aparece duas vezes também o segundo desprezo, ou desprezo composto, uma vez de baixo, como desprezo ofensivo das elites por parte das novas massas flexibilizadas, que fazem de seu modo de vida a medida de todas as coisas e querem libertar-se de seu observador que as despreza; e como desprezo das massas e de seu amplo idioma por meio dos últimos elitistas, que sabem desprezados seus objetivos pela massa e pressentem que na cultura de massas em organização acabou de uma vez por todas aquilo com que se importam.” (p. 70)


“Essa primeira ciência humana engajada não esquece sua missão em tempo algum. Com seriedade metódica e fineza estratégica ela persegue seu objetivo pretendido: se for necessário suprimir a própria essência — por causa das diferenças essenciais a serem negadas —, ela também pagará esse preço.” (p. 87)

No mesmo barco:
Ensaio sobre os delírios da política, do paleolítico até hoje. Ao tratar de mais de 4 mil anos de História, Sloterdijk pode distanciar seu olhar à medida que mergulha nas grandes civilizações da antigüidade, o que lhe permite apreender alguns vícios fundamentais de nossa época. Peter Sloterdijk se insere no debate sobre a hiperpolítica, fulminando com seu estilo ímpar quatro mil anos de história. Ele distancia seu olhar, à medida que mergulha nas grandes civilizações da Antiguidade, o que lhe permite apreender alguns vícios fundamentais de nossa nossa época com extrema perspicácia.


A partir dessa combinação de flash backs e tempo real, Sloterdijk chega à tese de que os homens estão sentados sobre uma bomba-relógio lógica desde a invenção da roda - bomba armada pelo conceito de diversidade e pluralidade da espécie humana, cujo potencial explosivo engendrou nos últimos dois ou três séculos reações em cadeia: fenômeno aliás mais conhecido como "História universal". Apresentando o processo histórico como uma longa sucessão de convívios forçados, Sloterdijk enquadra-os em três etapas: mostra como a partir do pau torto das hordas pré-históricas primeiro foram talhados os antigos povos de caçadores e colhedoras; como depois na época agro-cultural foram empilhados impérios e reinos; e como finalmente na era industrializante uma sociedade tendendo ao tráfego universal elabora um difuso, por vezes desregulado, estado planetário pós-imperial.


O que o leva a refletir sobre a arte do possível em nossa época, que não se deixa mais definir como política, apenas como hiperpolítica - às hiper-hordas da atualidade corresponde apenas, quando muito, uma hiperpolítica. No entanto, esta padece ainda de duas falhas: todas as tentativas de transportar a cidade para o Grande, isto é, para uma sociedade universalizante, levam a totalitarismos e ao sacrifício das pequenas unidades empurradas para becos psicopatológicos. Portanto, qualquer política futura estará sujeita a uma situação onde não somente o Pequeno e o Grande devem ser novamente configurados, mas também o Velho e o Novo.

Se a Europa despertar:

Neste ensaio, Sloterdijk se pergunta se a Europa dilacerada de 1945 poderia ser vista como metáfora de um império moderno e esclarecido. Os desenvolvimentos políticos recentes, inclusive a derrapagem violenta da política externa norte-americana, já haviam sido previstas pelo filósofo alemão. A Europa foi libertada pelos aliados em 1945 da ditadura nazista — e ao mesmo tempo o velho “Império do Centro” foi agarrado pelas tenazes de novas potências mundiais a Oeste e a Leste. Nesta dupla experiência os europeus vivenciaram seu ano zero, até hoje motivo de uma longa e sofrida reflexão que se arrasta por duas gerações.


Peter Sloterdijk avança a tese de que não haverá como pensar a nova Europa dessa virada de milênio se os europeus não voltarem a seus fundamentos histórico-filosóficos e buscarem uma orientação programática assentada numa “mitomotricidade” imperial portadora de mitos fundadores que resultaram nos esplendores culturais, filosóficos e políticos de que a Europa contemporânea se quer herdeira. Nesse sentido, poderá a noção de Nietzsche de “obrigatoriedade da grande política” ser preenchida de um novo conteúdo contemporâneo, após o fim do vácuo no qual a tragou sua trágica safra de totalitarismos e guerras mundiais?


Na edição em português, há uma entrevista de Sloterdijk onde este revê, à luz do 11 de setembro norte-americano e de neo-imperialismos unilaterais, alguns embates expostos no texto original, redigido sob influência das alterações inter-imperiais após o 1989 soviético / europeu.

Ira e tempo:
O autor reinterpreta o conceito de ira à luz do pensamento ocidental do século XXI. Para Sloterdijk, no lugar de válvula de escape para desejos não realizados, a ira passa a ter valor histórico, sobretudo na construção de um equilíbrio político. No caminho percorrido pelo filósofo conclui-se que é preciso exercitar este equilíbrio sem se esquivar das lutas necessárias e, ao mesmo tempo, não provocar nenhuma luta supérflua. Entre outras coisas, Sloterdijk mostra que reprimir a ira dita produtiva pode gerar efeitos paralisantes.

Crítica da razão cínica: escrita em 1983;

Outras obras:

Der Denker auf der Bühne – Nietzsches Materialismus [O pensador no palco – O materialismo de Nietzsche], 1986;

Weltfremdheit [Desassossego do mundo], 1993;

Der starke Grund, zusammen zu sein. Erinnerungen an die Erfindung des Volkes [O grande motivo de estarmos juntos: anotações sobre a descoberta do povo], 1998;


Luftbeben: An den Quellen des Terrors, [Aeromotos: Nas fontes do terror], 2002.





III - A polêmica de 1999

Em julho de 1999 eclodiu uma polêmica num pitoresco castelo da Baviera como há muito já não se via nestes tempos de horizontes tranqüilos e conflitos pasteurizados. Uma palestra refinada e aparentemente despretensiosa — tomando como ponto de partida o diagnóstico heideggeriano da crise do humanismo e prosseguindo retroativamente pela denúncia nietzscheana da domesticação apequenadora do homem pelo homem até as acintosas recomendações de Platão sobre a arte de pastorear seres humanos — se transformaria no maior debate político-filosófico dos últimos anos a varrer uma Europa em confronto com um fim-de-século tão cheio de indagações e inseguranças quanto o foi seu início.

Para onde nos levará o perigoso fim do humanismo literário enquanto utopia da formação humana? Como nos posicionar frente ao homem re-desenhado, frente às manipulações genéticas que sabemos serão feitas quer se queira ou não? A discussão é fundamental e apenas ensaia seus primeiros passos. Ingressamos no terreno movediço da antropotécnica, como diria Sloterdijk. Uma leitura atenta deste texto tão recente e já célebre — e ele mesmo um revelador exemplo de uma descontextualização simplificadora por uma parte da crítica — nos mostra o autor advogando a necessidade de se definir regras éticas e controles sociais para as aplicações tecnológicas já ao alcance dos grandes conglomerados da bioengenharia e, em especial, para as assustadoras possibi-lidades, já fartamente disponíveis, de seleção pré-natal dos próprios seres humanos.

No texto rebuscado, onde é afirmada a inevitabilidade da manipulação genética, o uso de conceitos como "seleção" e "cultivo" despertou na crítica analogias imediatas com a ideologia nazista, o que fez com que o "discurso de Elmau" (nome do castelo na Baviera, onde o ensaio foi lido por Sloterdijk pela primeira vez) passasse meses a fio sendo debatido tanto na imprensa quanto no meio acadêmico alemão.

Repercussões sobre discurso:

Alguns comentários sobre o discurso de Sloterdijk (ver ainda a postagem intitulada “O Homem Neoliberal: da redução das cabeças à mudança dos corpos", de autoria de Dany-Robert Dufour, neste Blog):


Bruno Latour



"Acusa-se Peter Sloterdijk de brincar com a eugenia ignorando todo e qualquer perigo, ao passo que ele toma a pluma para impedir seus adversários de minimizá-lo! Belo exemplo de incompreensão... Qual é afinal este perigo? O de não ver que uma guerra mundial começou 'a respeito das variantes da criação do homem'." (Bruno Latour, Le Monde des Débats, novembro de 99)

"Peter Sloterdijk, autor do cultuado Crítica da razão cínica, símbolo de uma geração herdeira da Teoria Crítica, é o pivô de um escândalo que está dividindo a intelectualidade européia (...). Sloterdijk propõe um Conselho de cientistas e filósofos para criar um discutível Parque Genético Humano (Menschenpark), como reservatório para 'salvar e aprimorar a espécie da imbecilidade e brutalização induzida pelos mídias'. Ato contínuo, Jurgen Habermas abriu fogo contra Sloterdijk e a confusão, que promete abalar os alicerces de toda uma área do pensamento, já está na mídia européia." (Jornal do Brasil, Idéias/Livros, 25/9/99)

"Para Sloterdijk, a reação 'horrorizada' de parte da 'boa consciência' humanista contra a engenharia genética não passaria de uma tentativa de silenciar sobre a técnica seletiva, a fim de poder realizá-la exatamente em silêncio: o horror na verdade é cinismo, diz ele, evocando seu livro Critica da razão cínica (1983)." (Luiz Felipe Pondé, Folha de S. Paulo, Mais!, 10/10/99)

"Essa proposta (de uma Assembléia Geral das Ciências do Homem para discutir os limites da biotecnologia e a formulação de um código de conduta) não é tão absurda quanto pretendem os inimigos do filósofo. Ao contrário: são os postulados iniciais de Sloterdijk que podem causar preocupação: morte do humanismo, decisão de se permitir pensar no fim total dos tabus, na exigência de uma plena liberdade, ao contrário da Alemanha da culpabilidade. É nesse sentido que Sloterdijk constitui uma ruptura franca com a filosofia alemã do pós-guerra." (Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo, Cad. 2/Cultura, 17/10/99)

"(O texto) provocou uma verdadeira tempestade pública na Alemanha... Sujeito: o futuro do humanismo e o devir da civilização européia. Perspectivas: nada menos do que o título anuncia: "regras para o parque humano" na época da "antropotecnologia". O Monde des Débats toma portanto a iniciativa de publicar a integralidade de um texto filosófico tão longo quanto árduo, e considerado por seus adversários como explosivo, senão perigoso: é o preço por vezes a se pagar para a honestidade dos debates e das polêmicas." (Le Monde des Débats, outubro de 99)

"Não importa o que tenha acontecido com esta polêmica toda, o importante para mim é que a discussão sobre a antropotecnologia finalmente tenha acontecido." (Depoimento ao editor, Frankfurt, outubro de 99)

IV - A Participação de Sloterdijk no ZKM - Centro de Arte e Tecnologia de Mídia, de Karlsruhe

Peter Sloterdijk esboçou um produto instantâneo ideal para propagar a cultura política do Ocidente em todo o mundo: um Parlamento inflável que pode ser lançado via aérea, a fim de instaurar a democracia com a maior rapidez possível nos "Estados delinqüentes" que tenham acabado de ser subjugados.

O Parlamento com capacidade para 160 deputados pode ser transportado num único contêiner, oferecendo todas as condições necessárias para o processo democrático dentro de apenas 24 horas, excluindo o tempo de vôo. No entanto, sem um empurrãozinho das Forças Aéreas norte-americanas, o sucesso do empreendimento seria impensável. Afinal, ironiza Sloterdijk, os americanos já mostraram "grande êxito no emprego da democracia via aérea".


Bruno Latour




O interesse dos curadores Bruno Latour e Peter Weibel era justamente "encontrar novos caminhos para se refletir sobre política e desenvolver procedimentos que possam levar a uma nova forma de trabalho entre artistas e teóricos".

Em sua contribuição à mostra, Sloterdijk, atribui uma dimensão bélica ao missionarismo ocidental e sua meta de democratizar o mundo. Do ponto de vista do Ocidente, a democracia é algo bom a ser imitado. "E como contaminação funciona bem num mundo denso, a democratização poderia dar certo através de uma infecção mimética", explica Sloterdijk em entrevista ao diário Die Welt.

Porém, a contaminação democrática tem fronteiras e não funciona em todas as partes do mundo, segundo ressalva o filósofo. "O mundo árabe ainda não atingiu o grau de densidade que caracteriza o mundo ocidental. Falta de densidade também é o maior déficit estrutural da África; em conseqüência disso, bons exemplos não se propagam com tanta rapidez, só a Aids mesmo é que galopa."

O gueto do capital

Embora a globalização pareça dar margem à transferência ilimitada de modelos de um espaço cultural para o outro e pareça apontar para a abolição das fronteiras, o que ocorre – segundo Sloterdijk – é justamente o contrário:

"Minha teoria descreve a globalização como um fenômeno de exclusão sem precedentes. O mundo do bem-estar tende a criar um espaço interior bastante hermético, sem levar em conta qualquer homogeneidade regional ou nacional. Eu denomino isso o 'interior do mundo do capital'".

Em seu livro Im Weltinnenraum des Kapitals: Für eine philosophische Theorie der Globalisierung (No Interior do Mundo do Capital: Por uma Teoria Filosófica da Globalização), Sloterdijk descreve a criação de um complexo de conforto, um espaço interior com fronteiras invisíveis, mas intransponíveis para quem está de fora. Ou seja: uma ilha habitada por um bilhão e meio de pessoas, flutuando num mar povoado por uma população três vezes maior.

Nem as nações mais jovens escapam deste modelo: "Hoje a Índia deve ser uma zona de prosperidade com 200 milhões de pessoa, flutuando num oceano gigantesco onde grassa a miséria de mundo agrário arcaico. Na China, a reforma capitalista do comunismo deve ter beneficiado 400 milhões de pessoas, deixando 800 ou 900 milhões na mais absoluta falta de perspectiva", ressalta Sloterdijk ao Die Welt.

Mas o prognóstico de Sloterdijk para as ilhas de prosperidade do Ocidente também não é dos mais otimistas: "A era dos grandes alívios está acabando. Por um bom tempo se misturou o gás do riso da segurança social à atmosfera da Europa Ocidental. Hoje ainda continuamos a respirar ares de consumismo, sem os quais dificilmente se poderia impulsionar uma conjuntura. Remuneração sem empenho e segurança sem luta foram os ingredientes existenciais da Europa durante meio século. Foi isso que ajudou a determinar o clima. Mas agora as pessoas vão ter que sofrer para aprender que as coisas vão ter que funcionar com mais empenho próprio e menos gás do riso".

V - Sobre a trilogia Esferas

(texto extraído do Blog: http://brigadasinternacionais.blogspot.com/2007/09/peter-sloterdijksem-domcilio-fixo.html ):




O que Peter Sloterdijk pretende não é nem condenar, nem idolatrar, mas propor-nos um reconhecimento do monstruoso como monstruoso e uma capacidade para o pensarmos.Parece que Peter Sloterdijk está destinado à provocação. De certo modo, se o não fizer, desilude os seus ouvintes e leitores. É por isso que a sua comunicação na Baviera, num colóquio consagrado a Heidegger, em Julho de 1999, foi mais uma vez objecto de reacções violentas e debates apaixonados.

Mas o próprio texto já o tinha programado. O autor começa logo de entrada por observar que grande parte do modernismo estético e filosófico até aos anos 60 (dos expressionistas de 1920 aos existencialistas de 1950 - e poderíamos falar nos bataillianos e blanchotianos dos anos 60 e nos revolucionários de 68) se definiu por um acentuado desprezo pelas situações médias. Não foi o historiador britânico Eric Hobsbawm que definiu parte do século como uma "idade dos extremos"? Os extremos têm um pensador privilegiado: Nietzsche. Ora é curiosamente esse mesmo Nietzsche que faz a transição entre um modernismo dos extremos e um espírito pós-moderno que se situa claramente no campo oposto. Como escreve de um modo muito pertinente Peter Sloterdijk, "as premissas históricas do pensamento no fim do século XX recomeçaram a transformar-se de um modo fundamental. Sob o nome de código de 'pós-modernidade', instalou-se, pelo menos desde há duas décadas, um estado de consciência pós-extremista, no qual reaparece um pensamento das situações médias. (...) O resultado destas reflexões pós-radicais, pós-marxistas, pós-apocalípticas, neo-cépticas, neo-morais, etc., desemboca no presente numa situação social cada vez mais impregnada pelos mitos e rituais da comunicação, do consumo, da rentabilidade acrescida, e da mobilidade - um novo Eldorado das situações médias. Neste clima neo-medíocre, a propensão e a capacidade para nos reapropriarmos dos fragmentos do extremismo declinam de novo - em regra geral, hoje, é preciso fazer o desvio pela biografia ou por outros modos derivativos da escrita se queremos entender alguma coisa destes radicalismos fracassados." Mas se esta "miniaturização deve ser entendida como um tributo quase natural à normalização" ("a democracia implica por si mesma um triunfo das situações médias"), este pensamento "não está em sintonia com os acontecimentos maiores da nossa época, e perde a capacidade para apreender as realidades imensas do processo de civilização".





Eis a questão central: quais são os acontecimentos fundamentais da nossa época? E, face a eles, como conseguir, segundo a lição de Heidegger, resistir à "banalização do monstruoso"?É aqui que surge a palavra-chave: o homem é um produto; e só pode ser compreendido a partir do seu modo de produção. É aqui portanto que começa o escândalo Sloterdijk. Porque ele vai saltar a pés juntos sobre a perspectiva humanista (o homem como sujeito de si próprio) para estabelecer uma relação entre o homem no seu confronto com o "divino", e, depois, numa progressiva viragem ateológica, entre o homem no seu confronto com o "monstruoso" - porque, nos nossos dias, "o monstruoso instalou-se no lugar do divino".


O que nos coloca face a uma "antropotécnica", e perante a seguinte perspectiva: "uma parte do género humano actual, sob a direcção da fracção euro-americana, tentou, com a sua entrada numa era altamente tecnológica, um procedimento sobre si mesmo e contra si mesmo cujo móbil é uma nova definição do ser humano", o que faz que "as condições de produção do ser humano começam hoje a constituir-se de uma maneira mais formal, mais técnica e mais explícita do que nunca". Se em 1945, com Hiroshima, tivemos um apocalipse físico, em 1997, tivemos, com a divulgação pública das experiências de clonagem, um apocalipse biológico. Mas a nossa época é de tal modo tentada pelas situações médias que "o apocalipse do homem tornou-se algo de quotidiano".


O que Sloterdijk pretende não é nem condenar, nem idolatrar, mas propor-nos um reconhecimento do monstruoso como monstruoso e uma capacidade para o pensarmos. Para isso precisamos de aceitar duas coisas: primeira, que o homem é um produto, e um produto em aberto; segunda, que o produtor desse produto não é nem Deus, nem o próprio homem (nem teologia, nem humanismo). Então quem produz? Há nesta pergunta um pressuposto que convém pôr em relevo: pressupõe-se que o produtor está acima do produzido. Ora (e esta proposta teórica de Sloterdijk aproxima-o de Negri e Hardt) o que devemos dizer é que o produtor é imanente ao próprio produzido, que "o homem é o produto de uma produção que ela própria não é o homem, que não é conduzida pelo homem de um modo intencional, e o que não será já o-que-viria-a-ser antes de o vir a ser. Trata-se portanto de descrever um mecanismo antropogenético, e explicar, a partir dele, que ele procede de um modo decididamente pré-humano e não-humano, e que em nenhuma circunstância pode ser confundido com a acção de um sujeito produtor, seja divino, seja humano".





Isto implica uma nova problemática do Ser e do espaço, a afirmação de um conceito a que Sloterdijk chama de "dimensional" e a análise de uma condição tensiva do dimensional. Agora a tensão faz-se entre a relação-com-o-mais-longínquo, isto é, a clareira e o êxtase, e um-ser-cada-vez-mais-junto-de si, isto é , a ideia da casa do Ser. A esta nova noção do espaço (que se sobrepõe à temporalidade) Sloterdijk chama "esferas", definindo-as como "entre-mundos": nem um enclausuramento no cárcere ambiental, nem o terror de uma permanente abertura ao Exterior, mas uma situação de suspensão tensiva entre mundos e entre aberturas. E no processo de formação das esferas será possível encontrar quatro tipos de mecanismos: a insulação; a supressão dos corpos, a neotenia e a transposição (como é óbvio, ditos assim , estes termos valem o que valem: o que interessa são as longas análises do modo como tais mecanismos funcionam).


Numa perspectiva histórica, o homem deve tornar-se totalmente doméstico antes de iniciar o processo de se tornar totalmente extático. É aqui que se pode falar em "domesticação do Ser" a partir das antropotécnicas primárias: técnicas de educação, linguagens, códigos, rituais, regras de parentesco, normas de casamento, etc.. Só que a biotecnologia contemporânea cria antropotécnicas secundárias e é aqui que a casa do Ser começa a soterrar-se sob o peso dos seus próprios andaimes: "A palavra e a escrita, na era dos códigos digitais e das transcrições genéticas, já não têm um sentido que seja de um modo ou de outro doméstico. As composições da técnica desenvolvem-se fora de qualquer hipótese de transposição e não suscitam nem aclimatações nem efeitos de domínio da exterioridade. Pelo contrário, aumentam o volume do exterior e do nunca assimilável". O homem parece cada vez mais condenado à errância - como um ser sem domicílio fixo.

Fontes:

http://brigadasinternacionais.blogspot.com/2007/09/peter-sloterdijksem-domcilio-fixo.html


http://www.estacaoliberdade.com.br/autores/sloter.htm


http://pt.wikipedia.org/wiki/Peter_Sloterdijk

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Rumo ao "Capitalismo total" ?



Um novo tipo de ensino, desprovido de senso crítico, forma indivíduos inconstantes e indecisos, receptivos a quaisquer pressões de consumo. Os professores dessa escola deverão ser reeducados sob o comando de especialistas em pedagogia

Por: Dany-Robert Dufour

O neoliberalismo não visa apenas à destruição das instâncias coletivas construídas ao longo do tempo (família, sindicatos, partidos e, de uma maneira mais geral, a cultura), mas também à da forma indivíduo-sujeito surgida durante o período moderno(1).
A fábrica do novo sujeito “pós-moderno”, não-crítico e “psicotizante”, resulta de um projeto perigosamente eficiente, no centro do qual se encontram duas importantes instituições que se dedicam devotadamente à sua execução: a televisão e uma nova escola, sensivelmente alterada por trinta anos das chamadas reformas “democráticas” – que sempre operaram no sentido de enfraquecer a função crítica.
O embrutecimento das crianças pela televisão começa muito cedo. Quando chegam à escola, já vêm empanturradas da telinha desde a mais tenra idade. O fato de se verem diante de um televisor antes de falarem é novo, do ponto de vista antropológico. O consumo de imagens chega a cinco horas por dia, nos Estados Unidos.


O colapso do universo simbólico


A inundação do espaço familiar por essa torneira permanentemente aberta, de onde escorre um fluxo ininterrupto de imagens, tem efeitos consideráveis na formação do futuro sujeito. É comum questionar-se o conteúdo mesmo das imagens, denunciando, por exemplo, a sua violência, sem se ter consciência de que o próprio veículo pode ser perigoso, transmita ele o que transmitir. Aliás, entre os contos infantis contados pelas vovós de antigamente havia inúmeros
ogros devoradores de criancinhas que nada deixam a desejar às imagens gore atualmente transmitidas. Mas não se pode deixar de levar em consideração a diferença entre o universo nitidamente imaginário do ogro do conto – obrigando a criança a pensá-lo como outro mundo (o da ficção) – e o universo muito realista dos seriados com violência, estupro e assassinato, sem se distanciar do mundo real. É claro que a televisão, pelo lugar preponderante ocupado por uma
publicidade onipresente e agressiva, constitui uma autêntica submissão precoce ao consumo. Mas, voltando à mesma tecla: a questão não está somente no conteúdo das imagens, mas também na própria forma.
Em primeiro lugar, com a televisão, é a família – enquanto meio de transmissão entre gerações e cultural – que é reduzida a sua mínima expressão. O termo “filhos da televisão”, tomado ao pé da letra, revela que a televisão efetivamente seqüestrou a função educativa dos pais junto aos filhos. Essa redução de tempo para a transmissão entre gerações produz efeitos bastante nítidos, podendo chegar ao colapso do universo simbólico e psíquico.


O acesso à função simbólica


O universo simbólico refere-se à capacidade essencial que distingue o homem dos animais: a de falar, identificando-se a si próprio como sujeito falante e dirigindo-se a seus semelhantes a partir dessa referência, enviando-lhes sinais que supostamente representam alguma coisa. Para ter acesso à função simbólica, basta fazer seu, integrando-o, um sistema onde o “eu” (presente) fala a “você” (co-presente) sobre “ele” (o ausente, ou seja, alguém ou alguma coisa que se trata de re-presentar) (2). Essas referências simbólicas fundamentais permitem as distinções básicas entre o eu e o outro, o aqui e o ali, o antes e o depois, a presença e a ausência.
Ao garantir o acesso à função simbólica e a uma certa integridade psíquica, esse sistema transmite-se essencialmente por intermédio do discurso: os pais falando à criança. Falar significa transmitir relatos, crenças, nomes próprios, genealogias, ritos, obrigações, saberes, relações sociais... mas, antes de tudo, a própria palavra. Significa transmitir de uma geração à outra a aptidão humana de falar, de forma a que a pessoa a quem se fala possa, por sua vez, identificar-se no tempo (agora), no espaço (aqui), como si (eu) e, a partir dessas referências, convocar em seu discurso o resto do mundo. O discurso oral frente-a-frente institui a faculdade de falar em registro duplo: o discurso é sonoro ou gestual e transporta imagens mentais – quando o outro me fala, vejo o que ele quer dizer. É essa transmissão entre gerações do discurso que a televisão pode ameaçar.


Confundindo o universo simbólico


Caso as referências simbólicas de tempo, de espaço e de pessoa não estejam bem fixas, a imagem externa torna-se uma espécie de conexão mais ou menos ligada às imagens internas – ou fantasmas – que assombram o aparelho psíquico e cuja chave é desconhecida, inclusive, de quem a tem em seu poder.
As imagens podem, portanto, agredir quem as vê, sem se fixar nem se encadear, num processo cumulativo controlável, colocando o sujeito sob sua dependência.
Nesse caso, o uso da televisão ameaça afastar ainda mais o sujeito do controle das categorias simbólicas de espaço, tempo e pessoa. Ela mistura sua percepção, aumenta a confusão simbólica e fúrias fantasmagóricas. É, então, a capacidade discursiva do sujeito que é questionada.
Não somente o uso da televisão é incapaz de suprir as insuficiências na simbolização, o que se poderia ingenuamente ser levado a crer, como pode confundir ainda mais os acessos a ela(3). Esta observação é válida para qualquer prótese sensorial: não apenas para a tele-visão, mas qualquer outra forma de tele-mática que envolva a tele-presença, ou seja, tudo o que transporte um “aqui” para “lá” e um “lá” para “aqui”: vídeo games, telefones celulares – que as
pessoas passaram a usar 24 horas por dia –, Internet... Percebem-se, por toda parte, os riscos de decuplicar as competências de umas pessoas e de aumentar a confusão de outras. Alguns sujeitos chegam a tornar-se seres quase emancipados das obrigações espaço-temporais, enquanto outros perdem a noção de viver em qualquer espaço-tempo.


O ensino, uma “tendência arcaica”


São basicamente os “filhos da televisão” que se encontram hoje na escola. É fácil, portanto, compreender a razão pela qual inúmeros professores são levados à amarga constatação de que as crianças que ali estão “já não são alunos”, “já não ouvem (4)”. E, provavelmente, já não falam. Não porque se tenham tornado mudos, muito pelo contrário: mas enfrentam uma enorme dificuldade em se integrar à seqüência do discurso que distribui, de forma alternada, cada um a
seu lugar: aquele que fala, aquele que escuta. Não conseguem penetrar no discurso que, na escola, permite a uma pessoa (o professor) propor questões baseadas na razão (ou seja, num saber múltiplo, acumulado ao longo das gerações anteriores e permanentemente reatualizado), e à outra pessoa (o aluno) discuti-las da forma que lhe aprouver.
É evidente que um bom número de professores não poupa esforços e se desgasta, às vezes de maneira excessiva(5), para tentar fazer com que os jovens entrem em sua posição de aluno, de forma a que, também eles, possam desempenhar seu ofício de professor. E eis aí a novidade: como os alunos foram impedidos de se tornarem alunos, os professores são, cada vez mais, impedidos de exercer a sua profissão. Após trinta anos das chamadas reformas “democráticas”, dirigentes políticos e especialistas em pedagogia não se cansam de lhes dizer que deveriam desistir de sua pretensão arcaica de ensinar. Claude Allègre, por exemplo, ex-ministro da Educação, advertia os professores, dizendo-lhes que deveriam desistir de sua “tendência arcaica” e dar-lhe ouvidos: “Basta ouvirem o que eu digo. Eu sei do que falo.” E, no lugar do termo “aluno”, introduzia uma nova categoria, “os jovens”, dos quais dizia: “O que os jovens
querem é inter-reagir(6).”


A violência na escola


Em nome da democracia na escola, ratifica-se, dessa forma, o fato de que já não existem alunos. Para que serviriam, então, os professores? Nos discursos dos dirigentes e dos especialistas em pedagogia, o modelo educacional que prevalece, em oposição a esse suposto “arcaísmo”, acaba sendo o do talk show televisivo, em que cada participante pode, “democraticamente”, opinar. Tudo se torna, portanto, uma coisa intersubjetiva. Acaba-se o esforço crítico necessário à reversão do próprio ponto de vista, para ter acesso a outras questões, um pouco menos estreitas, menos falaciosas e melhor construídas. O que se tornou intolerável é o fato de que o professor é que conduz, que empurra constantemente os alunos na direção da função crítica. É ele que deve ser abatido, pois ele não respeita a opinião do “jovem”. Vários especialistas em pedagogia “explicam” a violência na escola de seguinte forma: os “jovens” estariam reagindo à autoridade indevida dos professores.
Se são obrigados a recorrer à violência e submetidos a uma relação de força, isso é porque não lhes foi possível qualquer outra alternativa: foram produzidos para escapar à relação de sentido e a paciente elaboração discursiva e crítica. Nesse sentido, não é difícil prever – inversamente ao processo pedagogista que acusa o professor de violência – que quanto menos participarem da relação professor-aluno, mais os alunos estarão sujeitos à violência.


Fabricando imbecis e trapaceiros?


Com o abandono da relação de sentido e a eclosão da relação de força, o que acaba prevalecendo é, nada mais, nada menos que a “escola do capitalismo total”, segundo Jean-Claude Michéa(7). Ou seja: uma escola que, desprovida de senso crítico, forme indivíduos inconstantes e indecisos, receptivos a quaisquer pressões de consumo. Nessa escola de massa “a ignorância será ensinada de todas as maneiras concebíveis”. Os professores deverão, pois, ser reeducados sob o comando dos especialistas em pedagogia, que lhes mostrarão a desnecessidade de ensinar para passar a confiar exclusivamente nos sentimentos do momento e em sua vitoriosa gestão. Trata-se, portanto, de impor as condições, segundo Michéa, de uma “dissolução da lógica”: deixar de distinguir o importante do secundário, aceitar de forma impassível uma coisa e o seu oposto...
Na própria universidade, por exemplo, há uma corrente pedagógica que se insurge, recusando-se a pedir aos “jovens” que pensem. Seria o caso de distrai-los, diverti-los, deixá-los à vontade, brincando “democraticamente” com seus controles remotos segundo a vontade de suas inter-ações, fazê-los contarem suas vidas, mostrar-lhes que os conhecimentos da lógica não passam de abusos de poder. Trata-se, principalmente, de demonstrar que não há o que pensar, que não há objeto de reflexão: tudo se resumiria à afirmação de si e a uma gestão relacional da afirmação de si que conviria saber defender, como sabe fazer qualquer consumidor que se preze. Será que se trataria de fabricar imbecis trapaceiros, adaptados ao consumo?


A exceção das elites


É provável que os pedagogos não queiram isso: só querem adaptar-se ao estado em que encontram os “jovens” na escola. Ao fazê-lo, em nome da compaixão, contribuem para agravar a situação e para destruir ainda mais a escola. Esse uso dos serviços dos pedagogos fornece mais um exemplo da forma pela qual o neoliberalismo soube aproveitar-se, em seu favor, dos esquemas libertários da década de 60(8).
As instituições de ensino, inclusive a universidade, passam, portanto, a receber populações hesitantes, cuja relação com o saber se tornou uma preocupação bastante acessória. Um novo tipo de instituição, fluida – cuja pós-modernidade detém o segredo, a meio-caminho entre casa da juventude e da cultura, entre hospital e abrigo social, semelhante a esses parques de interesse escolar – está em vias de surgir. Não exclui certas zonas residuais de produção e reprodução do saber, onde novas tecnologias são chamadas para os papéis principais (“As tarefas repetitivas do professor serão todas gravadas e arquivadas”, prometia alegremente o ex-ministro na entrevista já citada). No meio tempo, a formação e reprodução das elites (outra função primordial da “escola do capitalismo total”) serão, cada vez mais, exclusivamente garantidas pelas “Grandes Escolas” e similares, ou, de preferência, pelas melhores escolas e universidades privadas norte-americanas (com despesas de escolaridade que chegam a 30 mil dólares por ano). Essas instituições, que continuam funcionando segundo um rigoroso modelo crítico, não são de forma alguma objeto do questionamento dos pedagogos, o qual se destina às massas. A fábrica de indivíduos desprovidos da função crítica e passíveis de uma identidade inconstante e hesitante não é, portanto, obra do acaso: ela é perfeitamente assumida pela televisão e pelas escolas atuais. O sonho do capitalismo não é apenas o de levar o território da mercadoria aos confins do mundo (o que já ocorre, sob o nome de globalização) – transformando tudo em objeto de comércio (direitos sobre a água, o genoma, as espécies vivas, a compra e venda de crianças, de órgãos...) – mas também o de trazer os velhos assuntos privados, que até agora eram da alçada individual (subjetivação, sexuação...) para o âmbito da mercadoria. Desse ponto de vista, vivemos hoje um momento crucial, pois se a forma sujeito for atingida, já não serão somente as instituições que temos em comum que estarão ameaçadas, mas também, e principalmente, o que nós somos. E então, nada mais conseguirá conter um capitalismo total em que tudo, sem exceção, fará parte do universo mercantil: a natureza, os seres vivos e o imaginário.


(Trad.: Jô Amado)


1 - Ler, de Dany-Robert Dufour, “As angústias do indivíduo-sujeito”, Le Monde diplomatique, fevereiro de 2001. A modernidade, segundo o grande historiador Fernand Braudel, nasce “em algum lugar, entre 1400 e 1800”: é, portanto, contemporânea do capitalismo.


2 - Ler, de Dany-Robert Dufour, Les mystères de la trinité, ed. Gallimard, Paris, 1990.


3 - Um filme de 1993, Benny’s vídeo, de Michale Haneke, dá uma idéia, bastante eloqüente e assustadora, do que poderia ser essa confusão. Trata-se de um adolescente que mantém com seus pais relações estritamente funcionais e que se relaciona com o mundo exclusivamente por meio das telas de vídeo. Quando uma pequena parte desse mundo surge diante de si (uma garota), ele reage de uma forma completamente escabrosa (um crime, no caso).


4 - Ler, de Adrien Barrot, L’enseignement mis à mort, ed. Librio, Paris, 2000.


5 - Exemplo disso são os inúmeros casos de “depressão pelo ensino”, que o ex-ministro Claude Allègre dizia tratarem-se de um abuso de licenças médicas.


6 - Le Monde, 24 de novembro de 1999.


7 - Ler, de Jean-Claude Michéa, L’Enseignement de l’ignorance, ed. Climats, Castelnau, 1999.


8 - Sobre a integração da contestação anarquista ao neoliberalismo, ler, de Luc Boltanski e Eve Chiapello, Le Nouvel esprit du capitalisme, ed. Gallimard, Paris, 1999. Ler também, de Serge Halimi, “A nossa utopia e a deles”, Le Monde diplomatique, abril de 2001.


Fonte: http://www.ensp.fiocruz.br/informe/anexos/Dufour_03.pdf

O simbolismo em Cornelius Castoriadis


"Por mais que encontremos na história uma autonomização do simbolismo, esta não é um fato último, e não se explica por si própria. Existe um utilização imediata do simbólico, onde o sujeito pode se deixar dominar por este, mas existe também uma utilização lúcida ou refletida. Mesmo se esta última nunca pode ser garantida a priori (não se pode construir uma linguagem, nem mesmo um algorítmo, no interior do qual o erro seja "mecanicamente" impossível), ela se realiza, mostrando assim a via e a possibilidade de uma outra relação onde o simbólico não é mais autonomizado e pode adequar-se ao conteúdo. Uma coisa é dizer que não podemos escolher uma linguagem em uma liberdade absoluta, e que cada linguagem se apodera do que "deve ser dito". Outra coisa é acreditar que somos fatalmente dominados pela linguagem e que só podemos dizer o que ela nos leva a dizer. Não podemos jamais sair da linguagem, mas nossa mobilidade na linguagem não tem limites e nos permite tudo questionar, inclusive a própria linguagem e nossa relação com ela. O mesmo ocorre em relação ao simbolismo institucional - exceto evidentemente que o grau de complexidade é neste caso incomparavelmente mais elevado. Nada do que pertence propriamente ao simbólico impõe fatalmente o domínio de um simbolismo autonomizado das instituições sobre a vida social; nada, no próprio simbolismo institucional, exclui seu uso lúcido pela sociedade - sendo também neste caso evidente que não é possível conceber instituições que impeçam "por construção", "mecanicamente" a sujeição da sociedade ao seu simbolismo."
(In, A Instituição Imaginária da Sociedade, pags.152/153)

A Internet está cada vez mais centralizada



(reportagem de Pedro Doria e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 14-01-2007.)


O discurso é estupendo - mas a realidade o derruba.

Basta ver alguns dos números levantados por Nicholas Carr, escritor especializado em tecnologia e 'crítico cultural' destes nossos tempos digitais. O número de websites no mundo dobrou entre 2002 e 2006 - e tende mesmo a continuar aumentando bastante. Mas só porque há mais sites na web para visitar, não quer dizer que mais sites sejam visitados.

Em 2002, 31% do tráfego de dados em toda web era dominado pelos 10 sites mais populares da rede. Em 2006, os dez sites mais populares atraíam 40% do tráfego. Não é pouco, então não custa frisar: 40% de todo acesso à web está voltado para apenas dez sites.

Um destes sites, evidentemente, é o Google, sistema de buscas que todos usamos. Em 2006, 58% de todas as pesquisas feitas na web foram via Google. Agora em novembro passado, o Google abocanhava 65% de todas as pesquisas.

Se alguém me perguntasse quantas pesquisas faço diariamente usando o Google, não saberia responder. O meu não é um exemplo único - é típico. Todos que acessam diária e continuamente o Google conhecem já os vícios do site. Como, por exemplo, o hábito de listar ali dentre as primeiras respostas algum verbete da Wikipédia.

A tese de Carr é esta: a web está ficando centralizada. E, sim, o Google é um dos responsáveis.

Talvez seja mesmo inevitável. Como o critério usado pelo Google para decidir a relevância de um site é o número de visitas, quanto mais visitado, mais acima na lista de respostas ele aparece. Quanto mais acima ele aparecer, mais clicado ele será e, portanto, mais visitado. Forma-se um ciclo vicioso.

Outro dos motivos da centralização é o modelo econômico de micropagamentos que começa a imperar na rede. Se um anúncio paga pelo número de vezes que ele é exibido, a maneira de apresentar muitos anúncios a muita gente é concentrar muito conteúdo. Daí que grandes portais compram muitos sites: seu objetivo é atrair o maior número possível de visitantes. Evidente. Mas o resultado é um novo ciclo vicioso no qual quem mais acumula dinheiro na rede é quem tem mais conteúdo para exibir e que, portanto, mais dinheiro para investir em novos sites terá.

A concentração é também física. Grandes grupos como Yahoo!, Microsoft e o próprio Google, por atraírem uma quantidade desproporcional de usuários, precisam de conexões à rede extremamente poderosas e grandes parques de servidores que ninguém mais tem.

Aquele modelo inicial de internet no qual cada ponto da rede seria tão importante quanto qualquer outro se foi no mundo prático. Até fisicamente a internet é centralizada.

Carr é um crítico ácido da utopia eletrônica. Em 2006, ele apostou com o israelense Yochai Benkler a respeito de como será a internet em 2010. Para Benkler, esta centralização pode estar acontecendo, mas os dez sites mais visitados da rede serão colaborativos. Quer dizer: Wikipédias, Blogspots da vida, grandes portais onde todo o publicado virá pelas mãos do grande público anônimo que povoa o mundo digital.

Carr não tem dúvidas de que o mundo da internet será centralizado e que os dez mais lidos serão sites tradicionais, talvez de grandes empresas de mídia, mas sempre com gente paga para produzir conteúdo.

Esta é, afinal de contas, a grande aposta em curso na internet.
_____________________________________________________
Comentário de jholland, 14/01/2008, 23h03
Ontem tive uma segunda conversa com o Guilherme sobre um assunto correlato: o "sistema" está mais (ou menos) fascista ? É muito mais fácil e evidente demonstrar o caráter de fechamento ideológico.Está na tradição da nossa filosofia, é quase um senso-comum etc. Entretanto, tenho-me dedicado a visualizar o "outro lado", mais anárquico, digamos, do mesmo sistema, do mesmíssimo cotidiano. De uma certa forma, é como se a ideologia e o sistema simbólico fossem uma espécie de "Janus": de uma lado, fascista, e assim se apresenta para a maioria das pessoas; mas, de outro, para aqueles que conseguiram se "despregar" (ou desapegar), esse mesmo sistema apresenta inúmeras e variadas possibilidades, oferecendo sua face anárquica. É nesse sentido que apresentei o texto do Castoriadis, acima...
______________________________________________________
Comentário de u.s.w, 15/01/2008, 06h51
São alguns os pontos que gostaria de destacar.
De fato, cada vez mais acredito que o mundo, com seus sistemas (econômicos, simbólicos etc.), seja Janus. Quero dizer com isso que vemos e sentimos o mundo de acordo com a postura que assumimos perante ele. Numa conversa com um professor da UFRJ cujo o tema de trabalho é o papel das mídias na construção de estados mentais "felizes" e cujos os pés estão imersos no hinduismo, dei o seguinte exemplo: "sinto como se o mundo como está hoje fosse esse copo de cerveja abandonado na mesa; existe uma imensidão para fora dele, mas estamos todos presos dentro desse líquido já fétido e quente". Ao que ele me respondeu: "Isso porque tudo que você consegue ver é esse copo de cerveja. Mas pelo menos já desconfia da existência dessa imensidão".
Assim, voltamos ao ponto no qual você, e todos que se inspiram nas filosofias orientais, insiste: não pode haver ação transformadora no mundo se não nos transformarmos junto.
Às vezes, em momentos de extremo delírio, chego a pensar que talvez o mundo tenha sempre sido o mesmo, que ele é belo, ou melhor dizer sublime, exatamente como é; que devem existir inúmeras almas felizes que já habitam esse mundo e que a passagem para ele é somente aprender a olhar.
Isso remete ao comentário que fiz no texto sobre antropologia da imaginação: amar o mundo é viver em perigo, mas viver.
Mas deixando o delírio de lado. Mesmo presos dentro do copo de cerveja é preciso buscar uma saída, e apenas criticar a face sisuda de Janus só nos faz mergulhar mais ainda nesse líquido viscoso. É preciso lembrar que se trata de cerveja, podemos bebê-la até que não nos prenda mais, até que todas as faces sejam Baco: gaiatas, rosadas e felizes.
Falei de fim de delírio mas continuei nele... talvez a hora...
Voltando, então, ao centro desta postagem, a internet. Como o que disse do mundo, tudo é uma questão de postura. Minha crítica, no entanto, não é do veículo em si, mas das expectativas exageradas que colocam sobre ele. Como um deus ex machina a internet surge agora como o bote salva-vidas da modernidade e da alienação. Só acho que é preciso lembrar, como já coloquei em outra postagem, que se trata de mais um veículo, tão bom e tão sujeito a alienação e apropriação pela face fascista do sistema quanto qualquer outro.
______________________________________________________
Comentário de JHolland, em 15/01/2008, às 09:56 hs
Muito belo o seu texto. Sempre admiro como vc coloca suas idéias, de uma forma simples, poética. Isso é muito importante. Revela intuição, que é essencial para o "despertar" disso que estamos falando.
É nesse sentido mesmo que considero o "cotidiano" a maior de todas as escolas - percebo que um dia começa a ser completamente diferente do outro, o mesmo acontecendo até mesmo com a noite ! Lembro de uma frase do Raoul Vaneigem: "Existem mais verdades em 24 horas da vida de um ser humano do que em todas as filosofias." Ao percebermos isso é como se mudássemos para um outro planeta ! No Budismo, diz-se que podemos ter a abordagem "mal humorada" e a "bem humorada" da Sansara.

sábado, 12 de janeiro de 2008

Auto-Observação...(2)


Eu estava, certa vez, ao longo da Liteiny, em direção à Nevsky, e, apesar de todos os meus esforços, não conseguia manter minha atenção na lembrança de si. O barulho, o movimento, tudo me distraía. A cada minuto perdia o fio da atenção, encontrava-o de novo e tornava a perdê-lo. Por fim, senti uma espécie de irritação ridícula comigo mesmo, e dobrei a esquina, à esquerda, decidido a manter a atenção no fato de que haveria de me lembrar de mim mesmo pelo menos por algum tempo, pelo menos até alcançar a próxima rua. Cheguei à Nadejdinskaya sem perder o fio da atenção, exceto talvez por breves momentos. Depois, retornei à Nevsky ainda me lembrando de mim mesmo, e já começava a experimentar o estranho estado emocional de paz e confiança interiores que surge depois de muitos esforços desse tipo. Bem na esquina, em Nevsky, havia uma charutaria onde eram fabricados os meus cigarros. Ainda lembrando-me de mim, pensei em entrar e encomendar alguns.
"Duas horas depois, acordei na Tavricheskaya, isto é, bem longe de lá. Eu ia de carro até a editora. A sensação de acordar era extremamente viva. Posso quase dizer que voltei a mim. Lembrei-me imediatamente de tudo. De como tinha estado a andar pela Nadejdinskaya, de como me lembrava de mim mesmo, de como pensara nos cigarros e de como, ao pensar nisso, parece que caí, desaparecendo em um sono profundo.
Ao mesmo tempo, enquanto imerso neste sono, continuara a realizar ações coerentes e expedientes. Saí da tabacaria, voltei ao meu apartamento na Leiteiny, telefonei à editora...No caminho, de carro, ao longo da Tavricheskaya, comecei a sentir um desconforto estranho, como se tivesse me esquecido de alguma coisa. E, de repente, me lembrei que tinha me esquecido de lembrar de mim." (Ouspensky, In Search of the Miraculous, p. 120)

In: O Outsider, Colin Wilson, pag.269)

Auto-Observação





...."TUDO QUE AS MINHAS TENTATIVAS DE LEMBRANÇA DE SI ME MOSTRARAM, ME CONVENCEU BEM CEDO DE QUE EU ESTAVA DIANTE DE UM PROBLEMA NOVO COM QUE A CIÊNCIA E A FILOSOFIA NÃO TINHAM, ATÉ ENTÃO, SE DEPARADO"... P.D Ouspensky - Livro (Consciência) Editora Martins Fontes.




Todo o trabalho deriva do homem que começa a observar-se. A auto-observação é que nos permite mudar interiormente.Não devemos confundir o observar com o conhecer. Falando superficialmente, podemos dizer que alguém sabe, por exemplo, que está sentado em uma cadeira, mas isto não quer dizer que a está observando. Falando mais profundamente, talvez uma pessoa saiba que está em um estado negativo, mas isto não quer dizer que o está observando.
A auto-observação é um ato de atenção dirigida para dentro, para o que está acontecendo na pessoa. A atenção deve ser ativa, isto é, dirigida. No caso, por exemplo, de uma pessoa a quem se tem antipatia, é possível notar os pensamentos que se acumulam na mente, o coro de vozes que falam dentro de nós, o que estão dizendo, as emoções desagradáveis que surgem, etc. Também notamos que estamos tratando interiormente muito mal à pessoa a quem temos antipatia. Para ver tudo isso é necessária uma atenção dirigida.
A atenção vem do lado observante, os pensamentos as emoções e os movimento pertencem ao lado observado, isto é, há que dividir-nos em dois, observador e observado. O lado do observador é interior ao lado observado, ou está por cima dele; mas seu poder de consciência independente varia, porque a qualquer momento poderá ficar submerso. Nesse caso ficará completamente identificado com o estado negativo. Aí a pessoa não observa o estado, porque ela mesma é o estado. Cabe dizer que o fato de ser negativo é conhecido, mas não é observado.
Muitas vezes também se confunde o pensar com o observar. Pensar e observar são bem diferentes. Um homem pode pensar todo dia a respeito de sua pessoa e não auto-observar-se sequer por um momento. Observar nossos pensamentos não é a mesma coisa que pensar. O 4c ensina que o homem deve observar tudo nele, sempre como se não fosse ele, mas sim outro. Isto significa que ele deve chegar a dizer: "o que está fazendo esse eu?" E não "o que eu estou fazendo?" Então vê os pensamentos que se sucedem, as emoções, as comédias privadas, os dramas pessoais, as elaboradas mentiras, as desculpas e justificativas, os discursos, que passam sucessivamente. No instante seguinte, cai outra vez no sono e desempenha seu papel em todos eles, isto é, atua na comédia que compôs e crê que é verdadeira.
É preciso que um homem seja capaz de dizer: "isto não sou eu", a todas as peças e canções estabelecidas, a todas as representações que se sucedem nele, a todas as vozes que toma pela sua. Sabe-se que, às vezes, antes de dormir, ouvimos fortes vozes na cabeça. São os eus que estão falando. Durante o dia, passam o tempo todo falando, só que os tomamos por Eu, por nós mesmos.
Quando você encontra-se em um estado desagradável e auto-observa-se durante alguns minutos, notará grupos diferentes de eus desagradáveis que tentam, um após o outro, ocupar-se da situação e tirar proveito dela. Isto se deve a que os eus negativos vivem sendo negativos. Sua vida consiste em pensar negativamente ou sentir negativamente, isto é, em proporcionar-lhe pensamentos negativos e sentimentos negativos. Deleitam-se em fazê-lo porque para eles assim é a vida.
No trabalho sobre si, é preciso observar sinceramente quando se goza dos estados negativos, em especial quando se goza secretamente deles. Se um homem sente prazer sendo negativo, sejam quais forem as formas de ser negativo, e são muitas, não poderá separar-se delas. Não é possível separar-se de algo pelo qual sente-se um afeto secreto Em realidade, o que ocorre é que a pessoa identifica-se com os eus negativos por meio de um afeto secreto e assim sente seu gozo, porque seja qual for a coisa com a qual uma pessoa identifique-se, converte-se nela.
É preciso observar a fala interior (VERBALIZAÇÃO) e o lugar de onde provém. A fala interior automática é a semente de muitos estados desagradáveis futuros e também da fala exterior equivocada.
Existe a prática do Silêncio Interior. Não se trata de impedir que algo penetre na mente, mas pratica-se o silêncio interior com relação a algo que já está na mente e do qual deve-se ter percepção, mas é preciso não tocá-lo com a língua interior, com o discurso interior, ou seja não usar a verbalização. A fala interior sempre se ocupa dos estados negativos e forja muitas frases desagradáveis que, de súbito, acham expressão na fala exterior, talvez muito tempo depois.
A fala interior mecânica produz confusão interior, é feita de diferentes formas de mentiras, de meias verdades ou de verdades que se relacionam entre si de modo incorreto, com algo que se agregou ou se omitiu. Em outras palavras, é mentir para si mesmo.
Tudo isso pertence à purificação da vida emocional. Mecanicamente, só simpatizamos com nós mesmos e temos antipatia ou ódio daqueles que não simpatizam conosco. Não é possível o desenvolvimento interior, a menos que as emoções deixem de fundamentar-se unicamente na auto-simpatia (AUTO IDENTIFICAÇÃO). Talvez uma pessoa se dê conta que diz coisas que, se as recebesse, não as toleraria. Dentro de nós mesmos, todos os outros são impotentes. Podemos arrastar uma pessoa para nossa caverna secreta e fazer com ela o que quisermos. Podemos ser naturalmente corteses mas, neste trabalho, cujo propósito é purificar e organizar a vida interior, isto não basta. O que realmente conta é a maneira como os homens se comportam interna e invisivelmente uns com os outros.
Todo ensinamento esotérico, desde a mais remota Antigüidade, refere-se ao conhecimento de si. O trabalho psicológico aplica-se à nossa realidade invisível, na qual moramos psicologicamente; refere-se à conquista de si, ao domínio de si. Mas uma das maiores dificuldades é justamente, imaginarmos que nos vemos e nos conhecemos integralmente, e isto nos impede de compreender o que significa verdadeiramente a auto-observação e o que quer dizer começar a conhecer-se a si mesmo.
Só quem compreende plenamente a dificuldade de despertar pode compreender a necessidade de um prolongado e árduo trabalho sobre si, com o fim de despertar. VEJAMOS BEM, PROLONGADO TRABALHO SOBRE SI.
Neste trabalho, é preciso dissolver a fantasia e a imaginação negativa. A fantasia pode satisfazer todos os centros, de modo que o homem fica satisfeito com o imaginário em lugar do real. O poder da fantasia mantém os homens hipnotizados, porque o homem sonha que está desperto ou a ponto de despertar. Contudo, geralmente passa-se muito tempo neste trabalho antes que uma pessoa comece a observar sua fantasia. E é difícil observá-la, porque quando a observamos, ela se detém, isto é, tão logo chega a atenção dirigida, a fantasia cessa.Nosso estado de hipnose impede toda observação real e direta. Imaginamos que somos pessoas respeitáveis e agradáveis, e não podemos ver através da bruma de nossa fantasia que não o somos em absoluto.
Por isso é imperativo conhecer o modo correto para trabalhar o que se observa, por enquanto estamos apenas estudando o básico do sistema, e comprovando em nós que assim é, mas muito cuidado para não cair na armadilha de acharmos que podemos realizar um trabalho de auto-observação correta para alcançar a consciência de SI sem ajuda e sem preparo. Já foi dito aqui nesta lista que neste caminho sem vontade é impossível evoluir e que sem ajuda é igualmente impossível evoluir.Será que tem alguém aqui que pode dizer que desenvolveu a vontade plenamente? Vamos então criar as condições para que a vontade se desenvolva em nós, ainda é muito cedo para tentar saltos maiores que as pernas, é bem melhor um passo seguro de cada vez que dar um salto para o desconhecido e bater com a cara no muro. temos muita coisa para conversar sobre o sistema, oportunamente veremos as técnicas para criarmos um observador eficiente. Por hora é solicitado a auto-observação como forma de constatar em si a veracidade do que dizemos aqui sobre os muitos "eus", centros, funções,estados de presença, consciência, compartimentos, amortecedores, emoções negativas, sono, vigília, observação de si, consideração interior, identificação, 4c , Gurdjieff, evolução possível, abordagem do sistema, contexto, aqui agora etc, para que possamos partir para algo mais profundo se realmente a nossa vontade para isso se prestar.



escrito por Flávio, praticante do 4º Caminho, membro do Instituto Gurdjieff



(Fonte: www.holosgaia.blogspot.com )

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

O poder tem medo da Internet - entrevista com Manuel Castells

Manuel Castells

11/1/2008



Se alguém estudou o que é, por dentro, a sociedade da informação, é o sociólogo Manuel Castells. A sua trilogia A era da informação foi traduzida para 23 línguas. Ele voltou para a Espanha em 2001 e dirige a pesquisa na Universitat Oberta de Catalunya, , depois de ter lecionado, durante 24 anos, na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Uma das pesquisas mais recentes é o Projeto Internet Cataluña, em que durante seis anos analisou, com 15 mil entrevistas pessoais e 40 mil pela internet, as mudanças que a Internet introduz na cultura e na organização social. Ele acaba de publicar com Marina Subirats, Mujeres y hombres, ¿un amor imposible? (Alianza Editorial), onde aborda estas mudanças. A reportagem e a entrevista é de Milagros Pérez Oliva e publicada pelo jornal El País, 6-01-2008.


Eis a entrevista.


Esta pesquisa mostra que a Internet não favorece o isolamento, como muitos acreditam, mas que as pessoas que mais usam o chat são as mais sociais.


Sim. Para nós não é nenhuma surpresa. A surpresa é que esse resultado tenho sido uma surpresa. Há pelo menos 15 estudos importantes no mundo que dão esse mesmo resultado.
Por que acredita que a idéia contrária se estendeu com tanto sucesso?
Os meios de comunicação tem muito a ver. Todos sabermos que as más notícias são mais notícia. Você utiliza a Internet e seus filhos, também. Mas é mais interessante acreditar que ela está cheia de terroristas, de pornografia... Pensar que é um fator de alienação é mais interessante do que dizer: A Internet é a extensão da sua vida. Se você é sociável, será mais sociável; se não é, a Internet lhe ajudará um pouquinho, mas não muito. Os meios são um certo modo de expressão do que pensa a sociedade: a questão é por que a sociedade pensa isso.


Porque tem medo do novo?


Exatamente. Mas medo de quem? A velha sociedade tem medo da nova, os pais dos seus filhos, as pessoas que têm o poder ancorado num mundo tecnológico, social e culturalmente antigo do poder que lhes abalroa, que não entendem nem controlam e que percebem como um perigo. E no fundo é mesmo um perigo. Porque a Internete é um instrumento de liberdade e de autonomia, quando o poder sempre foi baseado no controle das pessoas por meio do controle da informação e da comunicação. Mas isto acaba. Porque a Internet não pode ser controlada.


Vivemos numa sociedade onde a gestão da visibilidade na esfera pública midiática, como a define John J. Thompson, se converteu na principal preocupação de qualquer instituição, empresa ou organismo. Mas o controle da imagem pública requer meios que sejam controláveis, e se a Internet não é ...


Nao é, e isso explica porque os poderes tem medo da Internet. Estive em várias comissões de assessoria de governos e instituições internacionais nos últimos 15 anos, e a primeira pergunta que os governos sempre fazem é: como podemos controlar a Internet? A resposta é sempre a mesma: não se pode. Pode se vigiar, mas não controlar.


Se a Internet é tão determinante da vida social e econômica, seu acesso pode ser o principal fator de exclusão?


Não. O mais importante segue sendo o acesso ao trabalho e à carreira profissional e, ainda anteriormente, ao nível educativo, porque sem educação, a tecnologia não serve para nada. Na Espanha, a chamada exclusão digital é por questão de idade. Os dados estão muito claros: entre os maiores de 55 anos, somente 9% são usuários da Internete, mas entre os menores de 25 anos, são 90%.


É, portanto, uma questão de tempo?


Quando minha geração desaparecer, não haverá mais esta exclusão digital no que diz respeito ao acesso. Mas na sociedade da Internet, o complicado não é saber navegar, mas saber onde ir, onde buscar o que se quer encontrar e o que fazer com o que se encontra. Isso requer educação. Na realidade, a Internet amplifica a velha exclusão social da história, que é o nível de educação. O fato de que 555 dos adultos não tenha completado, na Espanha, a educação secundária, essa é a verdadeira exclusão digital.


Nesta sociedade que tende a ser tão líquida, na expressão de Zygmunt Bauman, em que tudo muda constantemente e que é cada vez mais globalizada, aumenta a sensação de insegurança, de que o mundo se move debaixo dos nossos pés?


Há uma nova sociedade que eu busquei definir teoricamente com o conceito de sociedade-rede e que não está distante da que define Bauman. Eu creio que, mais que líquida, é uma sociedade em que tudo está articulado de forma transversal e onde menos controle das instituições tradicionais.


Em que sentido?


Estende-se a idéia de que as instituições centrais da sociedade, o Estado e a família tradicional, já não funcionam. Então, o chão se move sob os nossos pés. Primeiro, as pessoas pensam que seus governos não as representam e que não são confiáveis. Começamos mal. Segundo, elas pensam que o mercado é bom para os que ganham e mau para os que perdem. Como a maioria perde, há uma desconfiança para o que a lógica pura e dura do mercado pode proporcionar às pessoas. Terceiro, estamos globalizados; isso significa que nosso dinheiro está no fluxo global que não controlamos, que a população está submetida ás pressões migratórias muito fortes, de modo que cada vez mais é difícil encerrar as pessoas numa cultura ou nas fronteiras nacionais.


Qual é o papel da Inernet neste processo?


Por um lado, ao nos permitir aceder à toda informação, aumenta a incerteza, mas ao mesmo tempo é um instrumento chave para a autonomia das pessoas, e isto é algo que demonstramos pela primeira vez na nossa pesquisa. Quanto mais autônoma é uma pessoa, mas ela utiliza a Internet. Em nosso trabalho definimos seis dimensões da autonomia e comprovamos que quando uma pessoa tem um forte projeto de autonomia, em qualquer uma dessas dimensões, ela utiliza Internet com muito mais freqüência e intensidade. E o uso da Internet reforça, por sua vez, a sua autonomia. Mas, claro, quanto mais uma pessoa controla a sua vida, menos ela se fia das instituições.


E maior pode ser sua frustração pela distância que há entre as possibilidades teóricas de participação e as que exerce na prática, que se limitam a votar a cada quatro anos?


Sim, há um descompasso entre a capacidade tecnológica e a cultura política. Muitos municípios colocaram Wi-Fi de acesso, mas se ao mesmo não são capazes de articular um sistema de participação, servem para que as pessoas organizem melhor as suas próprias redes, mas não para participar na vida política. O problema é que o sistema político não está aberto à participação, ao diálogo constante com os cidadãos, à cultura da autonomia e, portanto, estas tecnologias contribuem para distanciar ainda mais a política da cidadania.

Brasil: uma farsa em Bali? Entrevista especial com Claudio Ângelo



11/1/2008









A Conferência de Bali trouxe algum resultado? O mapa do caminho será uma solução para as emissões de carbono no planeta ou terá o mesmo fim que o Protocolo de Kyoto? Para o jornalista Claudio Ângelo, que participou da cobertura do evento como correspondente da Folha de S. Paulo, o encontro pode ser considerado um sucesso e um fracasso. De positivo, Bali aprovou o mapa do caminho. Entretanto, faltou uma “resposta adequada à dimensão do problema do aquecimento global”, considerou.

Os integrantes do G-77 foram o grande destaque da Conferência, e estavam dispostos a contribuir para o novo texto, que substituirá Kyoto em 1012. O Brasil apresentou um plano de compensação voluntária. Entre tantas promessas e propostas, lembra o jornalista, o país ainda não fez efetivamente nada. Para ele, a falta de uma política nacional de mudanças climática revela o que país não “está nem um pouco preocupado com as emissões de gases das indústrias e do setor de combustíveis fósseis”.

Em entrevista concedida por telefone à IHU On-Line, o jornalista chama a atenção para a disputa interna existente dentro do governo. E dispara: “Tem uma esquizofrenia no setor ambiental brasileiro que é, de um lado, o Ministério do Meio Ambiente tentando fazer alguma coisa, e, de outro, o Ministério da Casa Civil tentando minar tudo que o Ministério do Meio Ambiente está fazendo”.

Claudio Ângelo é jornalista e editor de Ciência da Folha de S. Paulo.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Para você, que esteve em Bali, acompanhou as discussões e decisões, o que, de fato, a conferência deixa para o mundo?


Claudio Ângelo – Essa pergunta tem sido feita desde que a Conferência terminou. Bali foi um fracasso ou foi um sucesso? Considero mais justo dizer que foram as duas coisas. Primeiro, não é possível negar que a Conferência apresentou um resultado concreto. Até o último segundo, poucas pessoas esperavam que o mapa do caminho fosse aprovado. Os Estados Unidos tentaram armar um retrocesso gravíssimo na Conferência e, no final das contas, o mapa do caminho foi aprovado e até mesmo foi além do que muitos esperavam. Nesse ponto, a Conferência foi um sucesso. Agora, a ONU e a humanidade em geral não deram uma resposta adequada à dimensão do problema do aquecimento global, tal qual ela foi delineada pela ciência. O processo político continua muito aquém do que deveria ser feito para combater o problema. O nível de estabilização que os cientistas consideram que deve ser alcançado é de 450 watts por 1 milhão de dióxido de carbono na atmosfera. Entretanto, penso que esse percentual nunca será alcançado.

IHU On-Line – A partir de acontecimentos como o da pressão que os Estados Unidos fizeram sobre as decisões a serem tomadas em Bali, com apoio do Japão e Canadá inclusive, e o do importante assentimento que a União Européia deu ao mapa do caminho, junto aos países em desenvolvimento, como o senhor analisa a Conferência de Bali, em relação às discussões feitas há dez anos em Kyoto?


Claudio Ângelo – Por mais que pareça absurdo isso que eu vou dizer, considero necessário separar as posições dos países desenvolvidos. Japão, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Estados Unidos sempre, tradicionalmente, decidiram essas questões em bloco durante todo o processo de construção de Kyoto e da Convenção do Clima. Ocorre que esse grupo se rompeu. A Nova Zelândia se tornou um país totalmente favorável a medidas duras para combater o aquecimento global, sendo o primeiro país a sair do bloco. Hoje, eles estão dizendo que se transformarão num país neutro em carbono. Quer dizer, eles perceberam que essa nova posição é estratégica, até porque o país é pequeno, e com recursos escassos. O Japão tem um problema que é diferente dos Estados Unidos. Apesar de aderir à idéia de não aceitar nenhum tipo de mecanismo de punição para os países que não cumprirem suas metas, ele tem o problema da eficiência de energia. Os japoneses já cortaram muita coisa depois da crise do petróleo, e, hoje, dificilmente eles vão conseguir amenizar seus problemas com medidas domésticas de redução de emissões. Por isso, eles insistem em comprar créditos de carbono. Na semana passada, o Japão anunciou que vai fechar um acordo com a China, para comprar créditos de carbono dos chineses. Para os japoneses, soluções de mercado serão fundamentais.

Canadá e Estados Unidos têm posições diferentes. Na administração Bush, os estadunidenses não querem fazer nada. Eu conversei com um especialista dos Estados Unidos por conta da Conferência, e ele falou uma coisa engraçada e até meio óbvia. Ele disse que o governo estadunidense não nega mais que o problema do aquecimento global exista. O que ele nega agora é a solução do problema. Assim, o país continua insistindo na alternativa de medidas voluntárias. O Canadá, de certa forma, em Bali, tentou aderir à mesma posição dos estadunidenses, mas, no final, os Estados Unidos ficaram totalmente isolados.

IHU On-Line – Qual é a importância para o mapa do caminho, que está sendo traçado ainda, a participação do G-77 na conferência de Bali?


Claudio Ângelo – É fundamental, porque todo o impasse criado pelos estadunidenses estava justamente em torno do fato de que os países em desenvolvimento são desobrigados por Kyoto a aceitar metas de redução. Então, o argumento dos Estados Unidos e Canadá era: nós não vamos fazer exatamente nada enquanto grandes emissores do mundo em desenvolvimento, como China e Índia não adotarem a medidas.

Em 2007, a China sentiu a pressão e antes da reunião do G8 anunciou um grande plano de aumentar a eficiência energética no setor industrial, de economia, combustível, de fósseis. Quer dizer, a China já chegou a Bali preparada para discutir compromisso. O mesmo ocorreu com o Brasil e a África do Sul. O México já tem um plano pronto e detalhado de quanto eles podem cortar em cada setor da economia. Então, os grandes países do G-77 chegaram em Bali dispostos a discutir e firmes na decisão de não aceitar metas obrigatórias. As potências do G-77, excluindo a Índia, se uniram dispostas a fazer uma contribuição. Isso foi fundamental. A grande liderança nessa Conferência, e isso foi uma coisa que as ONGs disseram desde o início de Bali, estava, por incrível que pareça, no G-77.

IHU On-Line – O Protocolo de Kyoto levou quase dez anos sendo negociado. Enquanto os acordos eram realizados, o mundo emitia 24% a mais de gases de efeito estufa. Agora, temos até o próximo ano para escrever um novo texto para substituí-lo. Você, como jornalista que tem acompanhado todo esse processo, acredita que este mapa do caminho poderá ser mais ambicioso do que o protocolo de Kyoto? Por quê?


Claudio Ângelo – O novo texto não tem nenhuma opção que não seja ser mais ambicioso que o Protocolo de Kyoto. Isso está claro para todos. Nem a Arábia Saudita duvida que tenha que ser assim. Kyoto, na prática não serve para nada. Ele abriu caminho para uma solução multilateral, mas que se tornou muito distante da solução do problema.

Então, esse novo acordo promete ser mais ambicioso que Kyoto, mas se ele vai ser fechado em 2009, como serão os acordos, compromissos, ninguém sabe.

IHU On-Line – Os resultados apresentados pelo IPCC, no início do ano passado, alertaram não apenas os governos, mas a população mundial sobre o problema do aquecimento global. Que influência esse alerta terá sobre as políticas públicas relacionadas ao clima a partir de agora?


Claudio Ângelo – O Sérgio Besserman, ex-presidente do IBGE, disse que o século XXI começou no dia 2 de fevereiro de 2007, na divulgação da primeira parte do Quarto Relatório do IPCC. Eu concordo com tudo que ele disse, porque nesse dia, aparentemente “caiu a ficha” globalmente do tamanho do problema e do que significa para a humanidade falhar em resolver essas questões. Não é a toa que o aquecimento global virou prioridade número um das Nações Unidas, e até está decidindo eleição.

Ninguém poderia prever, ainda em 2005, que a missão na Austrália seria decidida pelo aquecimento global. Então, apesar do Relatório do IPCC não ter trazido a rigor nenhuma novidade, ele teve um impacto imenso na opinião pública. Se não fosse o IPCC, Bali teria sido um fracasso retumbante. E eu não tenho a menor dúvida disso. Depois do Relatório do IPCC, até o governo Bush perdeu a desculpa e sua linha de argumentação.

IHU On-Line – Como o senhor vê a posição do Brasil, que se prontificou a lançar metas nacionais para diminuir os efeitos do aquecimento global, mas que, ao mesmo tempo, dá andamentos, a partir de seu Plano de Aceleração do Crescimento, a projetos como a transposição do Rio São Francisco e as usinas do Rio Madeira?


Claudio Ângelo – Em primeiro lugar, o Brasil não se prontificou a adotar metas nacionais. O que o país fez foi apresentar um plano de compensação voluntária, com criação de um fundo, no qual seria posto dinheiro por quem quisesse.

Para captar esse dinheiro, é necessário estabelecer uma linha de base do quanto cada país vai reduzir seu desmatamento. O que o Brasil fez, foi tirar uma média dos últimos dez anos, uma média alta de aproximadamente 10 mil Km², e propô-la como linha de base. Essa seria a meta brasileira de reduções. Mas, concretamente, o país ainda não tem uma política nacional de mudança climática, não tem um plano de ação nacional de mudança climática e não está nem um pouco preocupado com as emissões das indústrias, com as emissões no setor de combustíveis fósseis e continua leiloando usina termoelétrica a carvão. Quer dizer, a rigor, o Brasil não fez muita coisa.

Para responder à sua pergunta, tem uma esquizofrenia no setor ambiental brasileiro que é, de um lado, o Ministério do Meio Ambiente tentando fazer alguma coisa, e, de outro, o Ministério da Casa Civil tentando minar tudo que o Ministério do Meio Ambiente está fazendo.

IHU On-Line – Como o senhor analisa o jornalismo focado na área do meio ambiente e saúde no país?


Claudio Ângelo – O jornalismo é muito melhor do que era há 10 anos. Não posso falar muito de saúde, mas existe uma demanda fortíssima dos leitores por reportagens nessa área. Saúde é um dos temas que mais interessa ao leitor. Uma pesquisa do Ministério de Ciências e Tecnologias, em 2006, revelou que os brasileiros apreciam mais as matérias de saúde do que de política, por exemplo. Isso bate com dados do perfil do leitor da Folha, em pesquisa realizada pelo Datafolha, no ano passado. Então, os jornais já estão dando um espaço e uma atenção maior para esse assunto, mas ainda existe uma demanda reprimida muito grande.

Em relação às matérias sobre meio ambiente ocorre a mesma coisa. Segundo essas pesquisas, questões ambientais também interessam mais ao leitor do que política. Embora exista demanda reprimida nessa área, os jornais ainda não estão atendendo esse novo nicho.

IHU On-Line – A cobertura sobre meio ambiente na imprensa brasileira tem crescido, pautada principalmente por temas polêmicos, como transgênicos, mudanças climáticas, biodiversidade e biopirataria. A imprensa brasileira cumpre seu devido papel ao tratar de tais temas?

Claudio Ângelo –
Eu não sei. Para isso, é preciso definir qual o papel da cobertura da imprensa. Se o papel da imprensa é ajudar no debate público, eu penso que ela cumpre e não cumpre seu papel.
Sobre o aquecimento global, por exemplo, vejo que as pessoas estão bem informadas quando lêem o jornal. Nessa questão dos transgênicos, ainda não foi realizado um bom trabalho. As ONGs, as indústrias e o governo fizeram um papelão. Por sua vez, a imprensa ficou refém das agendas de todos esses atores e acabou fazendo um papelão também. Assim, eu penso que o jornalista que cobrem transgênicos se dividiram num certo momento entre os militantes pró-transgênicos e os militantes anti-transgênicos, e isso obviamente prejudicou a cobertura.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Bali: Valeu a pena ?




10/1/2008

Fonte: http://www.unisinos.br/_ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=11608




A discussão em torno dos resultados obtidos na Conferência da ONU sobre Mudança Climática, que ocorreu na Ilha de Bali (Indonésia), continua em pauta. E assim deve permanecer até meados do próximo ano quando se pretende ter definido as metas do chamado “mapa do caminho”, um acordo que abre o processo de negociações em torno dos objetivos de redução das emissões de gases que causam o efeito estufa, o grande causador do aquecimento global, segundo o IPCC. O foco deveria mesmo ter sido este: discutir quem irá reduzir essa emissão para diminuir os efeitos do problema da mudança climática. O diálogo, no entanto, foi abalado quando os Estados Unidos, seguidos pelo Canadá e pelo Japão, se negaram a aderir qualquer objetivo específico em relação às reduções de emissões de poluentes. O bom exemplo foi dado pela União Européia e por países em desenvolvimento, como o Brasil, que acordaram em criar metas nacionais e internacionais de redução.

Grande parte das ONGs presentes na reunião saíram satisfeitas com o fato de pelo menos esse acordo ter sido feito, mas destacaram que as decisões são pequenas ainda para o grande problema que precisamos enfrentar. De acordo com Luis Piva, coordenador da campanha de clima do Greenpeace/Brasil, “o crescimento dessas emissões tem que acontecer até o ano de 2015” e, “a partir daí, nós teríamos que estabilizar essa curva e passar a reduzi-la imediatamente, porque caso contrário não conseguiremos, no ano de 2050, estabilizar a elevação da temperatura até os dois graus, que é considerado o ponto de colapso mesmo do sistema climático”. A IHU On-Line conversou com Piva, por telefone.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais são os principais pontos de destaque da Conferência de Bali?

Luis Piva – Para o Greenpeace, houve dois momentos importantes dentro da Conferência de Bali: um momento ruim e um momento bom. Isso faz crer que o balanço foi positivo, mas ainda temos muita coisa para discutir. Aquilo que foi bom diz respeito à inclusão da questão de florestas num segundo período de compromisso do Protocolo de Kyoto. Então, uma vez que a conferência passou a definir o tal “mapa do caminho” que irá gerar um mandato de Bali, a inclusão da questão das florestas foi um assunto bastante importante, até porque são mais de 20% a contribuição do desmatamento e da mudança de uso do solo para o aquecimento global. Outro ponto importante foi o da inclusão da questão da transferência de tecnologias entre países ricos e países pobres. O terceiro ponto, que também foi consensual durante a Conferência, foi o da criação de um fundo de adaptação. Nós costumamos dividir o tema de mudança climática, bem a grosso modo, entre questões de mitigação e adaptação. Ou seja, o que devemos fazer para nos adaptar a essa nova realidade já de uma mudança climática evidente e o que devemos fazer no futuro, que é justamente a mitigação, a fim de minimizar para termos os menores efeitos perversos das mudanças climáticas.




Então, incluir florestas, transferir tecnologias e a transferência de recursos emergenciais para países em desenvolvimento são assuntos muito importantes e relevantes. Para o Greepeace, o que a conferência deixou muito a desejar e de certa forma foi uma grande decepção foi o que se refere à questão das metas. Simplesmente porque, quando nós colocamos isso diante de um ponto de vista científico, o IPCC afirma que precisa haver esforços de redução de emissão de carbono a curto, médio e longo prazo. O crescimento dessas emissões deve acontecer até o ano de 2015. A partir daí, nós teríamos que estabilizar essa curva e passar a reduzi-la imediatamente, porque caso contrário não conseguiremos, no ano de 2050, estabilizar a elevação da temperatura até os dois graus, que é considerado o ponto de colapso mesmo do sistema climático. A partir de uma elevação de dois graus, ficará muito complicado para a humanidade se adaptar a essas alterações tão bruscas, acontecendo numa velocidade tão intensa. Então, se, por um lado, os Estados Unidos fazem uma espécie de chantagem, dizendo que não irão assinar o mapa do caminho porque não são a favor de metas, temos, por outro lado, a União Européia, atestando que se compromete e que gostaria que houvesse um compromisso entre 25 e 40% até o ano de 2020. Esse panorama gera um impasse.


IHU On-Line – E qual foi a resolução desse impasse?

Luis Piva – Foi quando os países em desenvolvimento, como o Brasil e a China, entraram na jogada e disseram: “Nós nos comprometemos com metas nacionais, e os Estados Unidos se comprometem com alguma forma de meta só que para o ano de 2050”. Foi uma negociação muito truncada, muito difícil. Inclusive, se precisou de mais um dia de conferência para que esse impasse fosse resolvido. Então, eu acredito que a questão das metas são primordiais, precisando acontecer num prazo menor do que 2050. Porque em 2050, segundo a ONU, nós já teremos que ter cortado 50% das emissões, em média, e os países desenvolvidos deverão ter cortado 80%. Então, para nós, o fato de não haver um compromisso expresso, explícito de metas para o ano de 2020, é algo muito sério e delicado. Nós reduzimos a possibilidade e aumentamos o risco de não reduzir as emissões em 2050.




IHU On-Line – Esse fundo que o Brasil pode receber para reduzir o desmatamento da Amazônia faz sentido quando sabemos que de julho até dezembro de 2007 8% da floresta foi desmatado?

Luis Piva – A questão de florestas é bastante delicada e complexa. Em minha opinião, deve acontecer esforços domésticos para redução do desmatamento até que seja possível zerar esse desmatamento. Esses esforços devem indicar ações de governança, fiscalização, pesquisas, aparelhamento. Enfim, trata-se de uma decisão de Estado. O Estado tem que agir para conter o avanço do desmatamento e, conseqüentemente, reduzir as emissões de gases de efeito estufa provenientes desta forma. Isso, inclusive, garante a soberania do país, que fará sua lição de casa desde que esteja convicto de que é isso que precisa ser feito, o que impõe uma decisão estratégica. Não quer dizer que os países detentores de florestas tropicais não possam receber apoio internacional em forma de cooperação internacional, de transferência de tecnologias, ou de transferência de recursos. O Brasil, inclusive, apresentou uma proposta de um fundo para redução do desmatamento, que contempla simplesmente ações de governo e não de mercado. O Greenpeace, por sua vez, apresentou uma proposta híbrida, que chama Mecanismo de Redução de Emissões Via Desmatamento de Florestas Tropicais.

Essa proposta é um mix entre ações de governo e ações de mercado, ou seja, países que fizerem a sua lição de casa terão a possibilidade de acessar um recurso internacional na forma de um fundo de recursos de países desenvolvidos. Só que, para nós não pervertermos o mercado, a proposta consiste justamente em acessar esses créditos dentro de um teto, dentro de um limite. Por exemplo, em 2008 o Brasil reduziu x% do desmatamento, o que equivale y em carbono e, portanto, equivale a um percentual em créditos de carbono. Com base nisso, os países desenvolvidos acessam essa informação e abatem suas emissões, fazendo a compensação dentro de um limite considerado adequado porque nós sabemos que o problema majoritário das emissões dos gases de efeito estufa é a queima de combustíveis fósseis, que representam 80%. Em suma, não é só quem tem floresta que precisa fazer a lição de casa. É necessário que quem possui obrigações dentro do Protocolo de Kyoto também cumpra suas obrigações. Só para você ter uma idéia: se nós conseguíssemos fixar esse teto em 3%, conseguiríamos fazer uma captação de recursos de aproximadamente 14 bilhões de dólares, o que contribuiria significativamente para a manutenção das florestas. Nós sabemos que os países detentores de florestas tropicais são menos favorecidos e têm que identificar uma oportunidade excelente de conservá-las, transformando-as numa forma de captar recursos para manter a governança desse lugar. No caso do Brasil, é importante que o país receba apoio, mas é mais importante ainda que identifique a Amazônia como algo estratégico, com investimentos estruturais, recursos canalizados, especialmente para a gestão adequada da floresta, para a criação de áreas protegidas etc. Ninguém está falando que é um problema fácil de ser resolvido, mas sabemos que, com vontade política, é possível evoluir bastante nessa discussão.

IHU On-Line – Como você analisa a posição do Brasil, como um dos países que mais emitem dióxido de carbono, em relação às suas metas?

Luis Piva – Na verdade, não houve uma definição explicita de metas, quantativamente falando. Não há um número, indicando, por exemplo, que o Brasil tem reduzir x até tal ano. O que existe é o compromisso de o país em reduzir o desmatamento através da adoção de metas nacionais. Essa palavra nacional ou interna é muito significativa porque, por exemplo, a União Européia tem metas internacionais de redução. Ela faz parte do anexo 1 do Protocolo de Kyoto, estando, portanto, comprometida a reduzir as suas emissões de gases de efeito estufa. Nesse segundo momento, o que aconteceria? Os países do anexo 1 ampliariam o seu escopo de metas, que agora sabemos serem cinco por cem. Então, a nossa expectativa é de que países desenvolvidos aumentem as suas metas para podermos fazer essa redução adequadamente, enquanto países em desenvolvimento sejam beneficiados por outros mecanismos e também façam esse comprometimento interno. É claro que o Brasil não sofreria uma sanção internacional direta, caso não as cumprisse. No entanto, trata-se de um grande indicativo de que há uma vontade política para se reduzir. Da teoria à prática, sabemos que há um caminho muito complicado para seguir. Nós sabemos que toda a região amazônica corresponde a mais de 60% do território brasileiro. Não é fácil, mas nós sabemos que é perfeitamente viável e temos a consciência de que é perfeitamente possível zerar o desmatamento. Para isso, existe uma proposta do Greenpeace internacional, que é essa a qual eu me referi. O Greenpeace também participou do lançamento de uma proposta em nível nacional, chamada Pacto pela valorização da Floresta e pelo fim do desmatamento da Amazônia Brasileira, lançada em outubro. O que eu quero demonstrar com isso é que a sociedade está pronta para esse debate ou está se capacitando e aprimorando muito bem a sua capacidade de contribuir com isso. Nós precisamos que o governo abra mais os olhos e esteja mais atento às propostas e àquilo que nós temos colocado na mesa, porque o tempo é muito curto. Tudo se resume na falta de tempo para agir e nas evidências que a ciência tem colocado. Então, se a posição do Brasil foi conservadora ou não, eu não sei, mas é extremamente necessária. Além disso, nem sempre o conservadorismo é algo negativo, mesmo que nesse caso nossa atitude necessite ser mais agressiva, mais proativa e mais emergencial.

IHU On-Line – Como o senhor analisa o mercado de venda de crédito de carbono no país? E no mundo?

Luis Piva – Eu creio que o mercado de carbono no Brasil, hoje, só se dá através de MDL (Mecanismo de Desenvolvimento Limpo). O Brasil é o segundo país que mais comercializa créditos por esse mecanismo. Então, eu percebo que, como uma iniciativa de mercado, isso é legítimo. Só que nós sabemos que, no começo, o MDL era uma grande esperança para resolvermos os problemas das mudanças climáticas e hoje passou a ser uma ponta de um grande iceberg. Sabemos também que mecanismos de mercado e implementação de energias limpas são extremamente necessários, mas isso faz parte de um complexo conjunto de ações que precisam ser tomadas. Até onde eu sei, o MDL, no Brasil, representa uma fração pouco significativa de redução de emissão com relação ao total de emissões do Brasil. Se ele é efetivo ou não, essa questão precisa ser melhor esclarecida. Mas é preciso entender, definitivamente, que o MDL é um mecanismo de mercado que irá fomentar, gerar renda, um capital, embora seja apenas uma gota no oceano, sobretudo em comparação com aquilo que precisamos realizar se quisermos nos livrar desse grande problema.

IHU On-Line – Que tipo de soluções o “mapa do caminho” aponta?

Luis Piva – Ele é um conjunto de soluções capazes de nortear o segundo período do compromisso de Bali, que nós estamos chamando de Mandato de Bali. O “mapa do caminho” é ainda um embrião, um texto muito incipiente sobre os rumos do segundo período de compromisso do Protocolo de Kyoto. As negociações começaram em Bali, em 2007, e espera-se que terminem em 2009, quando poderemos ter esse “mapa do caminho” fechado. E aí entra um rol de assuntos relacionados que também farão fazer parte dessa definição para o segundo período de compromisso. Existem outras demandas, mas os pontos de destaques são esses: florestas, tecnologias e o fundo de adaptação.

IHU On-Line – O que falta para esse “mapa do caminho” levar o mundo realmente às soluções corretas para redução do aquecimento global?

Luis Piva – Faltou essa definição mais explicita de metas, que eu creio constituir o principal problema. Faltou porque nós não tivemos tempo de ficar em cima de discussões teóricas e superficiais. Nós já sabemos o que fazer e como atacar o problema e que o compromisso voluntário é ineficiente. Voluntariamente, eu não conseguir reduzir nada numa escala adequada. Então, para nós, a grande preocupação é a definição das metas.





IHU On-Line – Em sua opinião, por que o Japão, que sediou as reuniões que deram origem ao Protocolo de Kyoto, de certa forma, sabotou esta conferência?

Luis Piva –
Na verdade, quem sabotou mesmo foram os Estados Unidos, mas o Japão fez parte desse bloco. Eu acredito que o Japão seja um país com grande possibilidade de contribuir para a solução desse problema. É um país que precisa entender que a questão da sustentabilidade está, necessariamente, atrelada à questão do desenvolvimento.

IHU On-Line – O que se falou, durante a Conferência de Bali, sobre a adoção de energias renováveis?

Luis Piva – A questão das energias renováveis permeia as conferências desde seu início. Não só o IPCC observa que a adoção de energias renováveis tem grande potencial de mitigação para as mudanças climáticas, de aproximadamente 30 a 35% no ano de 2030, ou seja, a oferta de energia renovável no planeta atualmente está em torno de 16% e pode crescer em torno de 35%. Com base nisso, identifica-se um grande potencial nesse mercado. A segunda grande coisa é que nessas conferências, inclusive na abertura de Bali, todos os países, querendo demonstrar boa-fé, disseram que vão investir pesadamente em energias renováveis e, ao mesmo tempo, desestimular os combustíveis fósseis. No entanto, sabemos que passar do discurso para a prática é algo complicado. A questão das energias renováveis é o fator principal, a fim de que possamos reduzir as emissões via queima de combustíveis fosseis. Mas precisa ser uma coisa combinada, pois, ao mesmo tempo em que você estimula tecnologias renováveis, como a eólica e a solar, você também cria mecanismos para desestimular tecnologias provenientes da queima de combustível fóssil. Porque não dá para nós descarbonizarmos o planeta fazendo as duas coisas ao mesmo tempo. Uma precisa crescer ao mesmo tempo em que a outra precisa reduzir.