sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Brasil: uma farsa em Bali? Entrevista especial com Claudio Ângelo



11/1/2008









A Conferência de Bali trouxe algum resultado? O mapa do caminho será uma solução para as emissões de carbono no planeta ou terá o mesmo fim que o Protocolo de Kyoto? Para o jornalista Claudio Ângelo, que participou da cobertura do evento como correspondente da Folha de S. Paulo, o encontro pode ser considerado um sucesso e um fracasso. De positivo, Bali aprovou o mapa do caminho. Entretanto, faltou uma “resposta adequada à dimensão do problema do aquecimento global”, considerou.

Os integrantes do G-77 foram o grande destaque da Conferência, e estavam dispostos a contribuir para o novo texto, que substituirá Kyoto em 1012. O Brasil apresentou um plano de compensação voluntária. Entre tantas promessas e propostas, lembra o jornalista, o país ainda não fez efetivamente nada. Para ele, a falta de uma política nacional de mudanças climática revela o que país não “está nem um pouco preocupado com as emissões de gases das indústrias e do setor de combustíveis fósseis”.

Em entrevista concedida por telefone à IHU On-Line, o jornalista chama a atenção para a disputa interna existente dentro do governo. E dispara: “Tem uma esquizofrenia no setor ambiental brasileiro que é, de um lado, o Ministério do Meio Ambiente tentando fazer alguma coisa, e, de outro, o Ministério da Casa Civil tentando minar tudo que o Ministério do Meio Ambiente está fazendo”.

Claudio Ângelo é jornalista e editor de Ciência da Folha de S. Paulo.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Para você, que esteve em Bali, acompanhou as discussões e decisões, o que, de fato, a conferência deixa para o mundo?


Claudio Ângelo – Essa pergunta tem sido feita desde que a Conferência terminou. Bali foi um fracasso ou foi um sucesso? Considero mais justo dizer que foram as duas coisas. Primeiro, não é possível negar que a Conferência apresentou um resultado concreto. Até o último segundo, poucas pessoas esperavam que o mapa do caminho fosse aprovado. Os Estados Unidos tentaram armar um retrocesso gravíssimo na Conferência e, no final das contas, o mapa do caminho foi aprovado e até mesmo foi além do que muitos esperavam. Nesse ponto, a Conferência foi um sucesso. Agora, a ONU e a humanidade em geral não deram uma resposta adequada à dimensão do problema do aquecimento global, tal qual ela foi delineada pela ciência. O processo político continua muito aquém do que deveria ser feito para combater o problema. O nível de estabilização que os cientistas consideram que deve ser alcançado é de 450 watts por 1 milhão de dióxido de carbono na atmosfera. Entretanto, penso que esse percentual nunca será alcançado.

IHU On-Line – A partir de acontecimentos como o da pressão que os Estados Unidos fizeram sobre as decisões a serem tomadas em Bali, com apoio do Japão e Canadá inclusive, e o do importante assentimento que a União Européia deu ao mapa do caminho, junto aos países em desenvolvimento, como o senhor analisa a Conferência de Bali, em relação às discussões feitas há dez anos em Kyoto?


Claudio Ângelo – Por mais que pareça absurdo isso que eu vou dizer, considero necessário separar as posições dos países desenvolvidos. Japão, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Estados Unidos sempre, tradicionalmente, decidiram essas questões em bloco durante todo o processo de construção de Kyoto e da Convenção do Clima. Ocorre que esse grupo se rompeu. A Nova Zelândia se tornou um país totalmente favorável a medidas duras para combater o aquecimento global, sendo o primeiro país a sair do bloco. Hoje, eles estão dizendo que se transformarão num país neutro em carbono. Quer dizer, eles perceberam que essa nova posição é estratégica, até porque o país é pequeno, e com recursos escassos. O Japão tem um problema que é diferente dos Estados Unidos. Apesar de aderir à idéia de não aceitar nenhum tipo de mecanismo de punição para os países que não cumprirem suas metas, ele tem o problema da eficiência de energia. Os japoneses já cortaram muita coisa depois da crise do petróleo, e, hoje, dificilmente eles vão conseguir amenizar seus problemas com medidas domésticas de redução de emissões. Por isso, eles insistem em comprar créditos de carbono. Na semana passada, o Japão anunciou que vai fechar um acordo com a China, para comprar créditos de carbono dos chineses. Para os japoneses, soluções de mercado serão fundamentais.

Canadá e Estados Unidos têm posições diferentes. Na administração Bush, os estadunidenses não querem fazer nada. Eu conversei com um especialista dos Estados Unidos por conta da Conferência, e ele falou uma coisa engraçada e até meio óbvia. Ele disse que o governo estadunidense não nega mais que o problema do aquecimento global exista. O que ele nega agora é a solução do problema. Assim, o país continua insistindo na alternativa de medidas voluntárias. O Canadá, de certa forma, em Bali, tentou aderir à mesma posição dos estadunidenses, mas, no final, os Estados Unidos ficaram totalmente isolados.

IHU On-Line – Qual é a importância para o mapa do caminho, que está sendo traçado ainda, a participação do G-77 na conferência de Bali?


Claudio Ângelo – É fundamental, porque todo o impasse criado pelos estadunidenses estava justamente em torno do fato de que os países em desenvolvimento são desobrigados por Kyoto a aceitar metas de redução. Então, o argumento dos Estados Unidos e Canadá era: nós não vamos fazer exatamente nada enquanto grandes emissores do mundo em desenvolvimento, como China e Índia não adotarem a medidas.

Em 2007, a China sentiu a pressão e antes da reunião do G8 anunciou um grande plano de aumentar a eficiência energética no setor industrial, de economia, combustível, de fósseis. Quer dizer, a China já chegou a Bali preparada para discutir compromisso. O mesmo ocorreu com o Brasil e a África do Sul. O México já tem um plano pronto e detalhado de quanto eles podem cortar em cada setor da economia. Então, os grandes países do G-77 chegaram em Bali dispostos a discutir e firmes na decisão de não aceitar metas obrigatórias. As potências do G-77, excluindo a Índia, se uniram dispostas a fazer uma contribuição. Isso foi fundamental. A grande liderança nessa Conferência, e isso foi uma coisa que as ONGs disseram desde o início de Bali, estava, por incrível que pareça, no G-77.

IHU On-Line – O Protocolo de Kyoto levou quase dez anos sendo negociado. Enquanto os acordos eram realizados, o mundo emitia 24% a mais de gases de efeito estufa. Agora, temos até o próximo ano para escrever um novo texto para substituí-lo. Você, como jornalista que tem acompanhado todo esse processo, acredita que este mapa do caminho poderá ser mais ambicioso do que o protocolo de Kyoto? Por quê?


Claudio Ângelo – O novo texto não tem nenhuma opção que não seja ser mais ambicioso que o Protocolo de Kyoto. Isso está claro para todos. Nem a Arábia Saudita duvida que tenha que ser assim. Kyoto, na prática não serve para nada. Ele abriu caminho para uma solução multilateral, mas que se tornou muito distante da solução do problema.

Então, esse novo acordo promete ser mais ambicioso que Kyoto, mas se ele vai ser fechado em 2009, como serão os acordos, compromissos, ninguém sabe.

IHU On-Line – Os resultados apresentados pelo IPCC, no início do ano passado, alertaram não apenas os governos, mas a população mundial sobre o problema do aquecimento global. Que influência esse alerta terá sobre as políticas públicas relacionadas ao clima a partir de agora?


Claudio Ângelo – O Sérgio Besserman, ex-presidente do IBGE, disse que o século XXI começou no dia 2 de fevereiro de 2007, na divulgação da primeira parte do Quarto Relatório do IPCC. Eu concordo com tudo que ele disse, porque nesse dia, aparentemente “caiu a ficha” globalmente do tamanho do problema e do que significa para a humanidade falhar em resolver essas questões. Não é a toa que o aquecimento global virou prioridade número um das Nações Unidas, e até está decidindo eleição.

Ninguém poderia prever, ainda em 2005, que a missão na Austrália seria decidida pelo aquecimento global. Então, apesar do Relatório do IPCC não ter trazido a rigor nenhuma novidade, ele teve um impacto imenso na opinião pública. Se não fosse o IPCC, Bali teria sido um fracasso retumbante. E eu não tenho a menor dúvida disso. Depois do Relatório do IPCC, até o governo Bush perdeu a desculpa e sua linha de argumentação.

IHU On-Line – Como o senhor vê a posição do Brasil, que se prontificou a lançar metas nacionais para diminuir os efeitos do aquecimento global, mas que, ao mesmo tempo, dá andamentos, a partir de seu Plano de Aceleração do Crescimento, a projetos como a transposição do Rio São Francisco e as usinas do Rio Madeira?


Claudio Ângelo – Em primeiro lugar, o Brasil não se prontificou a adotar metas nacionais. O que o país fez foi apresentar um plano de compensação voluntária, com criação de um fundo, no qual seria posto dinheiro por quem quisesse.

Para captar esse dinheiro, é necessário estabelecer uma linha de base do quanto cada país vai reduzir seu desmatamento. O que o Brasil fez, foi tirar uma média dos últimos dez anos, uma média alta de aproximadamente 10 mil Km², e propô-la como linha de base. Essa seria a meta brasileira de reduções. Mas, concretamente, o país ainda não tem uma política nacional de mudança climática, não tem um plano de ação nacional de mudança climática e não está nem um pouco preocupado com as emissões das indústrias, com as emissões no setor de combustíveis fósseis e continua leiloando usina termoelétrica a carvão. Quer dizer, a rigor, o Brasil não fez muita coisa.

Para responder à sua pergunta, tem uma esquizofrenia no setor ambiental brasileiro que é, de um lado, o Ministério do Meio Ambiente tentando fazer alguma coisa, e, de outro, o Ministério da Casa Civil tentando minar tudo que o Ministério do Meio Ambiente está fazendo.

IHU On-Line – Como o senhor analisa o jornalismo focado na área do meio ambiente e saúde no país?


Claudio Ângelo – O jornalismo é muito melhor do que era há 10 anos. Não posso falar muito de saúde, mas existe uma demanda fortíssima dos leitores por reportagens nessa área. Saúde é um dos temas que mais interessa ao leitor. Uma pesquisa do Ministério de Ciências e Tecnologias, em 2006, revelou que os brasileiros apreciam mais as matérias de saúde do que de política, por exemplo. Isso bate com dados do perfil do leitor da Folha, em pesquisa realizada pelo Datafolha, no ano passado. Então, os jornais já estão dando um espaço e uma atenção maior para esse assunto, mas ainda existe uma demanda reprimida muito grande.

Em relação às matérias sobre meio ambiente ocorre a mesma coisa. Segundo essas pesquisas, questões ambientais também interessam mais ao leitor do que política. Embora exista demanda reprimida nessa área, os jornais ainda não estão atendendo esse novo nicho.

IHU On-Line – A cobertura sobre meio ambiente na imprensa brasileira tem crescido, pautada principalmente por temas polêmicos, como transgênicos, mudanças climáticas, biodiversidade e biopirataria. A imprensa brasileira cumpre seu devido papel ao tratar de tais temas?

Claudio Ângelo –
Eu não sei. Para isso, é preciso definir qual o papel da cobertura da imprensa. Se o papel da imprensa é ajudar no debate público, eu penso que ela cumpre e não cumpre seu papel.
Sobre o aquecimento global, por exemplo, vejo que as pessoas estão bem informadas quando lêem o jornal. Nessa questão dos transgênicos, ainda não foi realizado um bom trabalho. As ONGs, as indústrias e o governo fizeram um papelão. Por sua vez, a imprensa ficou refém das agendas de todos esses atores e acabou fazendo um papelão também. Assim, eu penso que o jornalista que cobrem transgênicos se dividiram num certo momento entre os militantes pró-transgênicos e os militantes anti-transgênicos, e isso obviamente prejudicou a cobertura.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Bali: Valeu a pena ?




10/1/2008

Fonte: http://www.unisinos.br/_ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=11608




A discussão em torno dos resultados obtidos na Conferência da ONU sobre Mudança Climática, que ocorreu na Ilha de Bali (Indonésia), continua em pauta. E assim deve permanecer até meados do próximo ano quando se pretende ter definido as metas do chamado “mapa do caminho”, um acordo que abre o processo de negociações em torno dos objetivos de redução das emissões de gases que causam o efeito estufa, o grande causador do aquecimento global, segundo o IPCC. O foco deveria mesmo ter sido este: discutir quem irá reduzir essa emissão para diminuir os efeitos do problema da mudança climática. O diálogo, no entanto, foi abalado quando os Estados Unidos, seguidos pelo Canadá e pelo Japão, se negaram a aderir qualquer objetivo específico em relação às reduções de emissões de poluentes. O bom exemplo foi dado pela União Européia e por países em desenvolvimento, como o Brasil, que acordaram em criar metas nacionais e internacionais de redução.

Grande parte das ONGs presentes na reunião saíram satisfeitas com o fato de pelo menos esse acordo ter sido feito, mas destacaram que as decisões são pequenas ainda para o grande problema que precisamos enfrentar. De acordo com Luis Piva, coordenador da campanha de clima do Greenpeace/Brasil, “o crescimento dessas emissões tem que acontecer até o ano de 2015” e, “a partir daí, nós teríamos que estabilizar essa curva e passar a reduzi-la imediatamente, porque caso contrário não conseguiremos, no ano de 2050, estabilizar a elevação da temperatura até os dois graus, que é considerado o ponto de colapso mesmo do sistema climático”. A IHU On-Line conversou com Piva, por telefone.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais são os principais pontos de destaque da Conferência de Bali?

Luis Piva – Para o Greenpeace, houve dois momentos importantes dentro da Conferência de Bali: um momento ruim e um momento bom. Isso faz crer que o balanço foi positivo, mas ainda temos muita coisa para discutir. Aquilo que foi bom diz respeito à inclusão da questão de florestas num segundo período de compromisso do Protocolo de Kyoto. Então, uma vez que a conferência passou a definir o tal “mapa do caminho” que irá gerar um mandato de Bali, a inclusão da questão das florestas foi um assunto bastante importante, até porque são mais de 20% a contribuição do desmatamento e da mudança de uso do solo para o aquecimento global. Outro ponto importante foi o da inclusão da questão da transferência de tecnologias entre países ricos e países pobres. O terceiro ponto, que também foi consensual durante a Conferência, foi o da criação de um fundo de adaptação. Nós costumamos dividir o tema de mudança climática, bem a grosso modo, entre questões de mitigação e adaptação. Ou seja, o que devemos fazer para nos adaptar a essa nova realidade já de uma mudança climática evidente e o que devemos fazer no futuro, que é justamente a mitigação, a fim de minimizar para termos os menores efeitos perversos das mudanças climáticas.




Então, incluir florestas, transferir tecnologias e a transferência de recursos emergenciais para países em desenvolvimento são assuntos muito importantes e relevantes. Para o Greepeace, o que a conferência deixou muito a desejar e de certa forma foi uma grande decepção foi o que se refere à questão das metas. Simplesmente porque, quando nós colocamos isso diante de um ponto de vista científico, o IPCC afirma que precisa haver esforços de redução de emissão de carbono a curto, médio e longo prazo. O crescimento dessas emissões deve acontecer até o ano de 2015. A partir daí, nós teríamos que estabilizar essa curva e passar a reduzi-la imediatamente, porque caso contrário não conseguiremos, no ano de 2050, estabilizar a elevação da temperatura até os dois graus, que é considerado o ponto de colapso mesmo do sistema climático. A partir de uma elevação de dois graus, ficará muito complicado para a humanidade se adaptar a essas alterações tão bruscas, acontecendo numa velocidade tão intensa. Então, se, por um lado, os Estados Unidos fazem uma espécie de chantagem, dizendo que não irão assinar o mapa do caminho porque não são a favor de metas, temos, por outro lado, a União Européia, atestando que se compromete e que gostaria que houvesse um compromisso entre 25 e 40% até o ano de 2020. Esse panorama gera um impasse.


IHU On-Line – E qual foi a resolução desse impasse?

Luis Piva – Foi quando os países em desenvolvimento, como o Brasil e a China, entraram na jogada e disseram: “Nós nos comprometemos com metas nacionais, e os Estados Unidos se comprometem com alguma forma de meta só que para o ano de 2050”. Foi uma negociação muito truncada, muito difícil. Inclusive, se precisou de mais um dia de conferência para que esse impasse fosse resolvido. Então, eu acredito que a questão das metas são primordiais, precisando acontecer num prazo menor do que 2050. Porque em 2050, segundo a ONU, nós já teremos que ter cortado 50% das emissões, em média, e os países desenvolvidos deverão ter cortado 80%. Então, para nós, o fato de não haver um compromisso expresso, explícito de metas para o ano de 2020, é algo muito sério e delicado. Nós reduzimos a possibilidade e aumentamos o risco de não reduzir as emissões em 2050.




IHU On-Line – Esse fundo que o Brasil pode receber para reduzir o desmatamento da Amazônia faz sentido quando sabemos que de julho até dezembro de 2007 8% da floresta foi desmatado?

Luis Piva – A questão de florestas é bastante delicada e complexa. Em minha opinião, deve acontecer esforços domésticos para redução do desmatamento até que seja possível zerar esse desmatamento. Esses esforços devem indicar ações de governança, fiscalização, pesquisas, aparelhamento. Enfim, trata-se de uma decisão de Estado. O Estado tem que agir para conter o avanço do desmatamento e, conseqüentemente, reduzir as emissões de gases de efeito estufa provenientes desta forma. Isso, inclusive, garante a soberania do país, que fará sua lição de casa desde que esteja convicto de que é isso que precisa ser feito, o que impõe uma decisão estratégica. Não quer dizer que os países detentores de florestas tropicais não possam receber apoio internacional em forma de cooperação internacional, de transferência de tecnologias, ou de transferência de recursos. O Brasil, inclusive, apresentou uma proposta de um fundo para redução do desmatamento, que contempla simplesmente ações de governo e não de mercado. O Greenpeace, por sua vez, apresentou uma proposta híbrida, que chama Mecanismo de Redução de Emissões Via Desmatamento de Florestas Tropicais.

Essa proposta é um mix entre ações de governo e ações de mercado, ou seja, países que fizerem a sua lição de casa terão a possibilidade de acessar um recurso internacional na forma de um fundo de recursos de países desenvolvidos. Só que, para nós não pervertermos o mercado, a proposta consiste justamente em acessar esses créditos dentro de um teto, dentro de um limite. Por exemplo, em 2008 o Brasil reduziu x% do desmatamento, o que equivale y em carbono e, portanto, equivale a um percentual em créditos de carbono. Com base nisso, os países desenvolvidos acessam essa informação e abatem suas emissões, fazendo a compensação dentro de um limite considerado adequado porque nós sabemos que o problema majoritário das emissões dos gases de efeito estufa é a queima de combustíveis fósseis, que representam 80%. Em suma, não é só quem tem floresta que precisa fazer a lição de casa. É necessário que quem possui obrigações dentro do Protocolo de Kyoto também cumpra suas obrigações. Só para você ter uma idéia: se nós conseguíssemos fixar esse teto em 3%, conseguiríamos fazer uma captação de recursos de aproximadamente 14 bilhões de dólares, o que contribuiria significativamente para a manutenção das florestas. Nós sabemos que os países detentores de florestas tropicais são menos favorecidos e têm que identificar uma oportunidade excelente de conservá-las, transformando-as numa forma de captar recursos para manter a governança desse lugar. No caso do Brasil, é importante que o país receba apoio, mas é mais importante ainda que identifique a Amazônia como algo estratégico, com investimentos estruturais, recursos canalizados, especialmente para a gestão adequada da floresta, para a criação de áreas protegidas etc. Ninguém está falando que é um problema fácil de ser resolvido, mas sabemos que, com vontade política, é possível evoluir bastante nessa discussão.

IHU On-Line – Como você analisa a posição do Brasil, como um dos países que mais emitem dióxido de carbono, em relação às suas metas?

Luis Piva – Na verdade, não houve uma definição explicita de metas, quantativamente falando. Não há um número, indicando, por exemplo, que o Brasil tem reduzir x até tal ano. O que existe é o compromisso de o país em reduzir o desmatamento através da adoção de metas nacionais. Essa palavra nacional ou interna é muito significativa porque, por exemplo, a União Européia tem metas internacionais de redução. Ela faz parte do anexo 1 do Protocolo de Kyoto, estando, portanto, comprometida a reduzir as suas emissões de gases de efeito estufa. Nesse segundo momento, o que aconteceria? Os países do anexo 1 ampliariam o seu escopo de metas, que agora sabemos serem cinco por cem. Então, a nossa expectativa é de que países desenvolvidos aumentem as suas metas para podermos fazer essa redução adequadamente, enquanto países em desenvolvimento sejam beneficiados por outros mecanismos e também façam esse comprometimento interno. É claro que o Brasil não sofreria uma sanção internacional direta, caso não as cumprisse. No entanto, trata-se de um grande indicativo de que há uma vontade política para se reduzir. Da teoria à prática, sabemos que há um caminho muito complicado para seguir. Nós sabemos que toda a região amazônica corresponde a mais de 60% do território brasileiro. Não é fácil, mas nós sabemos que é perfeitamente viável e temos a consciência de que é perfeitamente possível zerar o desmatamento. Para isso, existe uma proposta do Greenpeace internacional, que é essa a qual eu me referi. O Greenpeace também participou do lançamento de uma proposta em nível nacional, chamada Pacto pela valorização da Floresta e pelo fim do desmatamento da Amazônia Brasileira, lançada em outubro. O que eu quero demonstrar com isso é que a sociedade está pronta para esse debate ou está se capacitando e aprimorando muito bem a sua capacidade de contribuir com isso. Nós precisamos que o governo abra mais os olhos e esteja mais atento às propostas e àquilo que nós temos colocado na mesa, porque o tempo é muito curto. Tudo se resume na falta de tempo para agir e nas evidências que a ciência tem colocado. Então, se a posição do Brasil foi conservadora ou não, eu não sei, mas é extremamente necessária. Além disso, nem sempre o conservadorismo é algo negativo, mesmo que nesse caso nossa atitude necessite ser mais agressiva, mais proativa e mais emergencial.

IHU On-Line – Como o senhor analisa o mercado de venda de crédito de carbono no país? E no mundo?

Luis Piva – Eu creio que o mercado de carbono no Brasil, hoje, só se dá através de MDL (Mecanismo de Desenvolvimento Limpo). O Brasil é o segundo país que mais comercializa créditos por esse mecanismo. Então, eu percebo que, como uma iniciativa de mercado, isso é legítimo. Só que nós sabemos que, no começo, o MDL era uma grande esperança para resolvermos os problemas das mudanças climáticas e hoje passou a ser uma ponta de um grande iceberg. Sabemos também que mecanismos de mercado e implementação de energias limpas são extremamente necessários, mas isso faz parte de um complexo conjunto de ações que precisam ser tomadas. Até onde eu sei, o MDL, no Brasil, representa uma fração pouco significativa de redução de emissão com relação ao total de emissões do Brasil. Se ele é efetivo ou não, essa questão precisa ser melhor esclarecida. Mas é preciso entender, definitivamente, que o MDL é um mecanismo de mercado que irá fomentar, gerar renda, um capital, embora seja apenas uma gota no oceano, sobretudo em comparação com aquilo que precisamos realizar se quisermos nos livrar desse grande problema.

IHU On-Line – Que tipo de soluções o “mapa do caminho” aponta?

Luis Piva – Ele é um conjunto de soluções capazes de nortear o segundo período do compromisso de Bali, que nós estamos chamando de Mandato de Bali. O “mapa do caminho” é ainda um embrião, um texto muito incipiente sobre os rumos do segundo período de compromisso do Protocolo de Kyoto. As negociações começaram em Bali, em 2007, e espera-se que terminem em 2009, quando poderemos ter esse “mapa do caminho” fechado. E aí entra um rol de assuntos relacionados que também farão fazer parte dessa definição para o segundo período de compromisso. Existem outras demandas, mas os pontos de destaques são esses: florestas, tecnologias e o fundo de adaptação.

IHU On-Line – O que falta para esse “mapa do caminho” levar o mundo realmente às soluções corretas para redução do aquecimento global?

Luis Piva – Faltou essa definição mais explicita de metas, que eu creio constituir o principal problema. Faltou porque nós não tivemos tempo de ficar em cima de discussões teóricas e superficiais. Nós já sabemos o que fazer e como atacar o problema e que o compromisso voluntário é ineficiente. Voluntariamente, eu não conseguir reduzir nada numa escala adequada. Então, para nós, a grande preocupação é a definição das metas.





IHU On-Line – Em sua opinião, por que o Japão, que sediou as reuniões que deram origem ao Protocolo de Kyoto, de certa forma, sabotou esta conferência?

Luis Piva –
Na verdade, quem sabotou mesmo foram os Estados Unidos, mas o Japão fez parte desse bloco. Eu acredito que o Japão seja um país com grande possibilidade de contribuir para a solução desse problema. É um país que precisa entender que a questão da sustentabilidade está, necessariamente, atrelada à questão do desenvolvimento.

IHU On-Line – O que se falou, durante a Conferência de Bali, sobre a adoção de energias renováveis?

Luis Piva – A questão das energias renováveis permeia as conferências desde seu início. Não só o IPCC observa que a adoção de energias renováveis tem grande potencial de mitigação para as mudanças climáticas, de aproximadamente 30 a 35% no ano de 2030, ou seja, a oferta de energia renovável no planeta atualmente está em torno de 16% e pode crescer em torno de 35%. Com base nisso, identifica-se um grande potencial nesse mercado. A segunda grande coisa é que nessas conferências, inclusive na abertura de Bali, todos os países, querendo demonstrar boa-fé, disseram que vão investir pesadamente em energias renováveis e, ao mesmo tempo, desestimular os combustíveis fósseis. No entanto, sabemos que passar do discurso para a prática é algo complicado. A questão das energias renováveis é o fator principal, a fim de que possamos reduzir as emissões via queima de combustíveis fosseis. Mas precisa ser uma coisa combinada, pois, ao mesmo tempo em que você estimula tecnologias renováveis, como a eólica e a solar, você também cria mecanismos para desestimular tecnologias provenientes da queima de combustível fóssil. Porque não dá para nós descarbonizarmos o planeta fazendo as duas coisas ao mesmo tempo. Uma precisa crescer ao mesmo tempo em que a outra precisa reduzir.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Horizontes imaginativos e o aquém e além





Vincent Crapanzano

Distinguished Professor of Anthropology and Comparative Literature at the Graduate Center of the City University of New York

RESUMO


O autor desenvolve as noções de horizontes imaginativos e de liminaridade, travessia, meio-termo, fundamentos de uma proposta de antropologia da imaginação. Lança seu olhar às dimensões ignoradas da experiência, embora considere imprecisão e obscuridade como componentes necessários a toda experiência, ao pensamento e à percepção. Indica as diferentes concepções do entre, pensando, por exemplo, os tempos e espaços intersticiais (ma) na estética tradicional japonesa ou o barzakh no misticismo sufi. Questiona os nossos pressupostos quanto à natureza das relações, mediante uma releitura da teoria da liminaridade de Victor Turner.


Palavras-chave: antropologia da imaginação, horizontes imaginativos, liminaridade, experiência, Victor Turner.


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Este artigo divide-se em duas partes principais.1 A primeira desenvolve a noção de horizontes imaginativos e o papel teórico que acredito deva desempenhar nas ciências humanas. A segunda examina o aquém e além,2 o liminar e as travessias que ocorrem nos ritos de passagem e em outros movimentos sociais. Mediante o exame do intersticial na estética japonesa e no misticismo sufi, ela chama atenção para alguns de nossos pressupostos quanto à natureza das relações. Discuto tais pressupostos como estão exemplificados na teoria da liminaridade de Victor Turner. Ao revelelar uma outra perspectiva, um outro horizonte possível de compreensão, a discussão reporta à primeira parte deste artigo.


Muito se tem escrito nos círculos acadêmicos em anos recentes sobre divisas, limites e fronteiras, sobre seu reforço, sua supressão, dissolução e porosidade, sobre idas e vindas através deles, sobre transmigração, tudo supostamente afetado e efetuado por conexões pela web, pelo transnacionalismo e pela globalização de nossa estipulada pós-modernidade. Embora reconheça a importância de divisas, limites e fronteiras geopolíticos, a violência que inspiram, as ciladas que produzem, o doloroso deslocamento que causam e os controles que provocam, não trato deles neste artigo. Não me ocuparei do movimento ou - não-movimento - de pessoas através de linhas constituídas legalmente ou em domínios de cultura, língua e poder institucionalizado nitidamente marcados. Antes, as fronteiras me interessam como horizontes que se ampliam da insistente realidade do aqui e agora para aquele espaço ou tempo optativos - o espaço-tempo - do imaginário. É esse âmbito que nos dá uma folga, às vezes dolorosa e angustiante, às vezes prazerosa e apaziguadora, do aqui e agora em toda sua viscosa imediação. Permite-nos escapar da insistente atração da realidade. Embora estar preso à realidade imediata seja associado às culturas primitivas em nossas mitologias etnocêntricas inteiramente questionáveis, que salientam a primazia da vida instintiva deles e a sublimação, de fato, a eterealização, de nossa condição civilizada, todos nós, em algum momento, fomos tão consumidos pela realidade a ponto de perdermos a paciência, a consciência de nós mesmos e de nossos limites. Supomos, acertadamente, creio, que a distância que nos define nasce de nossa habilidade de representar simbolicamente o mundo, inclusive nós mesmos. O que parece escapar a esse acento no simbólico é a relação deste com a possibilidade imaginativa - com a esperança, com o optativo, com os modos - como o subjuntivo, concebido por nossas gramáticas.


Ao contrário das divisas, que podem ser cruzadas (a menos que estejam fechadas), e dos limites, que podem ser transgredidos, as fronteiras, conforme estou empregando a palavra, não podem ser atravessadas. Elas marcam uma mudança de registro ontológico. Postulam um além que é, por sua natureza íntima, inacessível de fato e de representação. Interesso-me pelo papel do que está situado além do horizonte, pelas possibilidades que oferece, pelos desejos lícitos e ilícitos que desencadeia, pelos jogos de poder que sugere, pelo terror que pode causar - a incerteza, a sensação de contingência, de acaso -, pela exaltação, pelo frêmito com o desconhecido que pode provocar. Imaginado, sonhado, projetado, calculado, profetizado - logo, construído -, o além sempre depende de como o encaramos. Nossas imagens, sonhos, projeções, cálculos e profecias podem dar forma e substância ao além, mas, ao fazê-lo, destroem-no; pois, enquanto o constroem, garantem seu deslocamento. E esse deslocamento abala nossas premissas acerca da realidade, base sobre a qual nossas construções são feitas. Embora fundacional, não está imune a nossas imagens do além. Assim, estou particularmente interessado nas vias paradoxais pelas quais a irrealidade do imaginário imprime o real na realidade e por que o real da realidade compele a irrealidade do imaginário. Essas vias não podem ser separadas. São como amantes que, de tão emaranhados, tornam qualquer delimitação de um corpo- ou alma - singular quase arbitrária.


Examinarei a imaginação por meio de um tropo - o do arrière-pays, do sertão, e de seus correlatos, o além e o alhures. Utilizo o termo arrière-pays para relembrar o trabalho do poeta e crítico francês Yves Bonnefoy, cujo livrinho L'arrière-pays (1982) é a inspiração para minhas reflexões de uma antropologia da imaginação. Para Bonnefoy, o sertão evoca as dimensões da experiência que se situam além da percepcão imediata de um objeto, de uma paisagem. Incluem a ansiedade que ele sente em uma travessia: "Lá, a dois passos do caminho que não trilhei e do qual já me distanciei, sim, é lá que se abre uma terra de essência mais elevada, onde poderia ter morado e que, desde então, perdi" (p. 9). É uma terra de pura possibilidade, de desejo e medo.


O além é como as trevas: não pode ser contido. Ele escapole - para aparecer de novo exatamente quando se pensava, para alívio ou desespero, que havia sido eliminado. Bonnefoy insiste que o arrière-pays é inacessível, inexistente como - todo objeto da imaginação, é ausente, inexistente, uma negação, um não-ser.


O que torna a inacessibilidade do sertão assustadora é menos a inacessibilidade que seu papel determinante em nossa percepção daquilo que, de modo ingênuo, tomamos por acessível - daquilo que efetivamente percebemos, vivenciamos, tocamos e sentimos. Imaginada - melhor ainda, imaginável -, ela permanece elusiva. Como nota o filósofo Edward Casey (1976, p. 7): "De fato, estritamente falando, não observamos o que imaginamos, pois não estamos em condições de submeter objetos e eventos imaginados ao exame minucioso que pode ser administrado àquilo que percebemos". É esse caráter elusivo, essa ausência determinante do acessível, que é assustadora: pois o que percebemos sempre é determinado - até certo ponto - pela ausência, aquela presença imaginada. O que nos amedronta é mais que a contingência. É o artifício de factualidade, de nosso empirismo, de nosso realismo, pelos quais nos cegamos a nós mesmos - muitas vezes, por meio de disparatadas metodologias da verdade e de ingênuas filosofias positivistas. Velhas conhecidas de todos nós.


Temos de perguntar, contudo, se há alguma razão para que nos assustemos com o sertão, com a possibilidade imaginativa que ele oferece e nega, com (a impossibilidade de) ir ao outro lado? Podemos não sentir prazer com sua irrealidade, com sua possibilidade, o jogo que propicia? Estamos cultural e historicamente vinculados ao medo e à ansiedade perante a possibilidade imaginativa? Perante a ausência - o não-ser - que atribuímos ao imaginário? Somos vítimas de uma epistemologia puritana da presença? Ou esses medos, essas angústias, são um componente essencial da condição humana? Eu não sei. Mas posso imaginar e, na verdade, conheço o prazer que a possibilidade oferece, a libertação, a fuga que proporciona. Incomoda-me a banalidade, o caráter repetitivo, de nossos enunciados sobre o sertão. Conforta-me seu contínuo deslocamento o domínio que recusa.


Reconhecendo os horizontes imaginativos e o sertão acolá, desejo oferecer uma crítica de alguns pressupostos empíricos comuns. Não estou descartando o empirismo de per si nem a ciência, a ciência antropológica, mas uma apropriação específica do empirismo (da realidade) que nega ou, ao menos, ignora uma importante dimensão da experiência humana - bem conhecida de todos nós. Não estou advogando uma veneração ao irracional, ao irreal, à imaginação. Meu objetivo é mais mundano. Como o filósofo William James, desejo atentar para aquela dimensão da experiência que, por resistir à enunciação - com efeito, desaparece ao ser enunciada -, tem sido ignorada de fato. Em seu apelo para reintegrar "o vago e inarticulado ao lugar que lhe cabe em nossa vida mental", James notou que "as imagens precisas da psicologia tradicional compõem apenas a menor parte de nossas mentes, enquanto estas realmente vivem" (1992, p. 164-65). Ele salientou que "o significado, o valor da imagem está todo neste halo ou penumbra que a rodeia ou acompanha - ou antes, que se lhe funde e torna-se sangue de seu sangue, carne de sua carne". O halo, a penumbra - prefiro a aura - que rodeia toda experiência, toda percepção e toda compreensão pode apenas ser evocado. Impreciso, obscuro, ele é um componente necessário, creio, de qualquer pensamento, percepção e experiência.


Fenomenólogos relacionariam o que chamo de horizonte imaginativo da percepção à periferia da consciência, aos limites externos de nossa atenção, como um pano de fundo. Insistiriam, entretanto, como faz Husserl, que a periferia é simplesmente uma extensão do mundo percebido - e não do imaginado. Os psicólogos também insistiriam no alargamento do campo de percepção. Entenderiam-lhe a qualidade antecipatória não como possibilidade imaginativa, mas como algo pré-lingüístico, pré-verbal, pré-cognitivo, pré-perceptivo. Os "pré", contudo, não eliminam o fato de o próprio horizonte pressupor língua, cognição e percepção. Ele é, nos termos de Jacques Lacan, um precipitado da ordem simbólica. Os "pré", apesar de alegarmos a imediação deles, indicam um adiamento em nossa percepção, nosso pensamento, nossa imaginação e experiência - um adiamento para o que compõe o sertão, não importa o que seja.


Pense em uma paisagem de montanha pintada pelo artista romântico alemão Caspar-David Friedrich.

Quadro de Caspar David Friedrich



Reisengenbirge, de Caspar David Friedrich



Muitas vezes, como em sua pintura do Reisengenbirge, nossos olhos são conduzidos do primeiro plano para o horizonte, neste caso, para as montanhas coroadas de neve e o céu claro, luminoso. Mesmo em suas paisagens montanhosas mais íntimas, o que vemos no primeiro plano é percebido em função do que está situado além das montanhas: outras montanhas, um vale, uma aldeia, um agricultor lavrando a terra, uma celebração de colheita, um cortejo fúnebre. Não sabemos. Só podemos imaginar. Quando olhamos para o primeiro plano do quadro, contudo, geralmente não imaginamos de um modo concreto o que se situa além das montanhas, mas nossa percepção está, como estava, impregnada de possibilidades imaginativas. Por mais numerosas que aparentem ser, essas possibilidades não são infinitas. A menos que eu esteja empenhado, digamos, em uma paródia pós-moderna consciente de si mesma, imaginando um mundo de carros a buzinar, camponeses a olhar fixamente para computadores, ou fábricas a expelir vapores nocivos, que impediriam qualquer apreciação da paisagem montanhosa nos próprios termos - nossos constructos imaginativos, por mais difusos que sejam, conforme delimitados pelas premissas românticas de Friedrich, por sua idealização da natureza, pelo sublime evocado por suas montanhas. A relação entre primeiro plano e sertão é, contudo, recíproca. Caso enunciássemos de fato o sertão como uma espécie de fantasmagoria pós-moderna, por certo veríamos a paisagem de Friedrich de um modo diferente.


Poderia dar muitos exemplos de tais horizontes. Nem sempre têm natureza pictórica -visual -, embora, ao menos na cultura euro-americana, o visual esteja intimamente ligado ao imaginário e à imaginação. Aqui, desejo salientar que o escopo dos horizontes imaginários não é limitado apenas por nossas capacidades psicológicas ou por nossas convenções estéticas, mas também por arranjos socioeconômicos, políticos e culturais. Embora relute em dar exemplos dessas influências, por serem altamente complexas e operarem tanto indireta como diretamente, darei dois breves exemplos de pesquisas de campo que conduzi entre fundamentalistas cristãos nos Estados Unidos3 e entre os Harki, aqueles argelinos que tomaram o partido dos franceses na guerra pela independência da Argélia. Desejo salientar aqui o estilo mais que a causa. Como é sabido, os fundamentalistas cristãos esposam uma forte hermenêutica literalista. Como cada palavra da Bíblia é inerrante, eles acreditam que devem ser o mais fiel possível ao sentido literal delas - ao sentido "próprio". Qualquer desvio desse sentido, ou seja, qualquer interpretação figurativa (a menos que a figuração, como tal, esteja marcada com clareza no texto) é perigosa, pois se corre o risco de sacrificar o sentido de Deus pelo de algum intérprete. Os fundamentalistas preocupam-se com o que chamam, à boa moda vitoriana, imaginação depravada. A hermenêutica, como a oração, o auto-exame e a aplicação da Bíblia à vida cotidiana, é uma disciplina criada, entre outras coisas, para controlar a imaginação e a propensão desta para a interpretação alegórica e figurativa. Como cada palavra na Bíblia, segundo a vêm, é inspirada por Deus e, por isso, ligada de modo indelével a todas as outras palavras, qualquer desvio do sentido - do sentido literal - da palavra arrisca pôr abaixo toda a compreensão fundamentalista das Escrituras. Seus horizontes estão contidos no interior desse rígido arcabouço hermenêutico. Como isso se relaciona à vida atual nos Estados Unidos, trata-se, claro, de especulação. Sem dúvida, é possível relacionar essa hermenêutica rígida a uma necessidade de estruturação em um mundo ameaçado pelas incertezas inerentes à sociedade capitalista e pela brutalidade relativa do cotidiano, mas, como sugeri, se este for realmente o caso, o nexo causal não é, de modo algum, direto. É mediado, por exemplo, por uma tradição religiosa duradoura que antecede o capitalismo como o conhecemos - uma tradição que enfatiza a salvação pessoal e uma intensa relação pessoal com Deus, ao menos com uma das manifestações Dele, Jesus. Pode-se relacioná-la também ao individualismo - ao individualismo muitas vezes aterrador e contestado promovido pelo capitalismo. Não sei. Prefiro reconhecer a impossibilidade de determinação sem explicitá-la com açodamento e concentrar-me no estilo.
Meu segundo exemplo se refere aos Harki, os argelinos que tomaram o partido dos franceses na guerra pela independência da Argélia. Quando se conquistou finalmente a independência, em 1962, entre 100 e 150 mil dos, no máximo, 250 mil Harki foram mutilados e massacrados pela população argelina em geral. Embora De Gaulle tenha feito de tudo para desencorajar a emigração dos Harki para a França, cerca de 20 mil famílias harki conseguiram fazê-lo e foram encarceradas em campos de prisioneiros por até 16 anos. Sem dúvida, ambivalentes quanto à posição política, traídos e abandonados, do ponto de vista deles, pelos franceses, incapazes de retornarem à Argélia, os Harki são uma população à part - agora, uma população espalhada pela França e estendendo-se pela terceira geração, unida por traumas coletivizados ao longo das gerações, que são reiterados em histórias ou reconhecidos silenciosamente. Esses traumas - esse trauma (pois, coletivizado, se tornou singular) - tornam-se um ponto de referência básico que, gostaria de indicar, restringe as possibilidades imaginativas dos Harki - uma restrição que, sem dúvida, se correlaciona com o status marginalizado deles na França. Cada adversidade é reportada aos maus-tratos que sofreram, que, por reais que tenham sido e sejam, não são, de modo algum, cabais.


Passo agora à segunda parte deste artigo. Em certo sentido, ela decorre diretamente de meu interesse pelo horizonte imaginativo, pois é uma tentativa de inaugurar uma via para pensar sobre a contigüidade, a metonímia e a montagem. Interessa-me especialmente a montagem - conforme a entendo, a justaposição, às vezes arbitrária, às vezes inusual, de dois ou mais itens, elementos, imagens ou representações que chama atenção para aspectos desses itens que estavam escondidos ou eram ignorados. Montagens inusuais podem produzir surpresa ou choque, iluminações repentinas, epifanias ou insights e, por isso, podem ser retóricas, estéticas ou terapeuticamente efetivas. Podem ser transgressivas, inquietantes, perigosas e iconoclastas. O significado que atribuímos às justaposições, claro, é determinado, consciente ou inconscientemente, pelo discurso. Produzindo ansiedade interpretativa, as montagens exigem uma firmeza interpretativa -uma tradução, por exemplo, a um paradigma familiar que produza contentamento. Devo observar, entre parênteses, que a montagem é intrínseca à etnografia, pois o antropólogo conjuga elementos de duas culturas - a cultura em estudo e a cultura de referência. Assim, há uma dimensão iconoclasta importante para a etnografia que é (em meu ponto de vista, infelizmente) reduzida pela etnologia - pela descrição tornada convencional, pela interpretação autorizada, pela explicação científica. Não estou negando agora o valor da interpretação ou da explicação (embora questione o da descrição convencional). Desejo simplesmente indicar-lhes um efeito secundário inevitável, que exige reconhecimento crítico.


Agora, desejo demonstrar que, ao menos na cultura euro-americana, tendemos a enfatizar antes os elementos que compõem uma relação, incluindo a montagem, do que a própria relação - o aquém e além, o intersticial. É por demais óbvio que elementos compositivos e relações são mutuamente determinantes. E, decerto, não quero envolver-me em uma discussão do tipo quem-veio-primeiro-o-ovo-ou-a-galinha. O que desejo salientar é que em determinadas sociedades, ao menos em alguns de seus domínios, enfatiza-se a própria relação e o modo pelo qual esta formula e define os elementos que a compõem. Tal ênfase - chame-se estilo cognitivo ou perceptivo - afeta não apenas a estética e outras formulações teóricas, mas também é refletida e reflete outros elementos culturais e suas relações sintáticas. Que na cultura euro-americana ao entre preferimos os elementos que o balizam - à relação preferimos os termos que a constituem - pode relacionar-se, por exemplo, à prioridade que damos à palavra - o nome e - ao referente em nossa concepção (popular) de linguagem. Concentramo-nos em categorias e sistemas classificatórios baseados nessas categorias, em vez de em sistemas determinados pela relação e pela sintaxe. Acentuamos a coesão e moderamos a elipse, a interrupcão e a pausa. De modo geral, não lemos em função do silêncio e do não dito. Muitas vezes, choco meus alunos quando peço que considerem um romance como The Awakening [O despertar], de Kate Chopin, ou algum de Clarice Lispector, sob o aspecto das lacunas entre os capítulos, com efeito, entre os parágrafos e as frases.


Não creio que os japoneses ficassem tão chocados quanto meus alunos norte-americanos. A estética (tradicional) daqueles, profundamente enraizada em sua perspectiva religiosa, enfatiza o intervalo, a lacuna, o silêncio, o entre e o em meio a. No verso encadeado japonês (renga), por exemplo, o efeito estético resulta menos das cenas descritas que do espaço-tempo entre os versos encadeados (Ebersole, 1983, p. 55). "Concentre-se no que não é dito", disse Shinkei (1406-1475), o poeta (Kamparu, 1983, p. 74). Zeami Motokyio (1363-1443), o fundador do teatro nô, afirmou que "os momentos de inação" (sensu tokoro), ocorridos entre (himu), são os mais deliciosos do teatro nô (Pilgrim, 1995, p. 58). "O que o ator não faz tem interesse" (sennu tokoro ga omoshiroki) (Komparu, 1983, p. 73).


Os japoneses chamam esses espaços ou tempos intersticiais de ma. Diz-se que o ma vem do chinês, o caractere que mostra o sol no meio de portão aberto. Originalmente, era usado unicamente para referir-se a espaço mas passou a designar igualmente o tempo. Pode ser traduzido por "espaço, epaçamento, intervalo, lacuna, vão, lugar, interrupção, pausa, tempo, ocasião ou abertura" (Komparu, 1983, p. 70). Tem conotações tanto abstratas como concretas. Um lugar é ma porque é um espaço entre paredes; em música, uma pausa também é ma, porque ocorre entre duas notas (Pilgrim, 1995, p. 56). Roland Barthes (1982) tentou - de um modo por demais afetado e profundamente francês (e, por isso, etnocêntrico) - delinear o ma em sua interpretação pós-estruturalista do Japão. Ele utiliza expressões como "o nada pregnante", "uma reminiscência desmembrada, descentrada, deslocada", um "signo vazio remanescente da fissura do simbólico" para evocar algo que ele não nomeia. Artistas, acadêmicos e arquitetos japoneses defendem que o termo resiste à tradução. Salientam-lhe a ambigüidade, o fato de que, para ser compreendido, se deve levar em conta uma configuração de espaço e tempo, que não podem ser separados um do outro, unicamente japonesa e uma concepção de energia ou poder espiritual (ki_ ou chi) que ressoa no interior do espaço-tempo, entre e em meio a. Ele é um cronotopo negativo - um silêncio, um vazio -, não obstante fecundo, que antecipa (e é antecipado por) o espaço-tempo positivo da ação em, digamos, uma peça nô (Komparu, 1983). Ma refere-se, simultaneamente, a algo e a experiência desse algo. Não é objetivo nem subjetivo, mas uma coalescência dos dois, pois, visto que o ma desconstrói todos os limites, ele tem (suponho) de eliminar aqueles existentes entre o objetivo e o subjetivo.


Motokiyo observa que é o kokoro - a força espiritual subjacente do ator nô - que produz o deleite da platéia em "momentos de inação". O ator "não relaxa a tensão quando a dança ou o canto chegam ao fim ou em intervalos entre (hima) o diálogo e os diferentes tipos de mímica". Ele conserva sua "firme vontade interior (naishin)", mas não deve torná-la aparente, o que equivaleria a agir e, portanto, deixaria de ser inação (Pilgrim, 1995, p. 58-59). Quero destacar uma espécie de relação chame-se suspense ou tensão dramática - que não se presta a uma análise coloquial. Depende sobremaneira de pausas e silêncios; que fogem à mensuração. Há diferentes silêncios, diferentes pausas; diferentes atitudes em relação a eles. Têm valor qualitativo.


Embora voltadas para palavras, coisas e eventos, para notas musicais, nossas interpretações, seja de um ator representando o papel de Rei Lear ou de um pianista executando uma sonata de Haydn, necessariamente, devem considerar o espaço - o silêncio - entre palavras e notas. Permitimos que essas interpretações ficassem privadas de teorização, o que, em uma época excessivamente teorizada como a nossa, por certo, deve ser tomado como um sintoma de nossa perspectiva epistêmica e de seus efeitos sobre a atenção, ou mesmo sobre a percepção. Deixamos esse - silêncio , que pode ser de tamanha importância hermenêutica, à arte da interpretação. Reconhecemos, claro, a importância do silêncio na interlocução, que é interpretado primordialmente, creio, em termos psicológicos e, apenas de modo secundário, em termos estéticos (salvo quando tratamos de uma comunicação moldada para a apreciação estética, claro). Como o psicanalista, embora de modo menos consciente, observamos os silêncios, as pausas das pessoas com quem conversamos. Nós os lemos como sinais de estados interiores - medo, culpa, constrangimento, vergonha - e, com muita freqüência, como revelações involuntárias do que se procura ocultar. Em épocas de espírito mais retórico, como na Grécia e Roma antigas, o silêncio foi reconhecido e cultivado como uma figura retórica sob total controle do orador.


Lembro-me de passar horas com meu amigo e mentor marroquino Moulay Abedslem, um velho analfabeto de grande sabedoria espiritual que fazia mortalhas e lavava corpos, discutindo o barzakh - o que está situado entre as coisas, entre as bordas, as divisas e os eventos. Ele o equiparava ao silêncio entre as palavras e aos sonhos. "O sonho está entre a vigília e o sono", disse. Barzakhi é o âmago da filosofia do grande sufi andaluz Ibn al-'Arabi (1165-1240) (ver Chittick, 1989; Corbin, 1958). Moulay Abedslem ouvira falar dele, mas não tinha conhecimento preciso de seu pensamento e certamente não relacionava a própria compreensão do barzakhi à de al-'Arabi. Para este, a imaginação (al-khayal) é um termo intermediário que resiste à definição. Em alguns momentos, parece estar entre o mundo espiritual e o material; em outros, entre o ser e o nada, como algo equivalente à existência. O importante é que a imaginação é uma "realidade" intermediária, ambígüa por natureza e melhor descrita como "nem isso nem aquilo ou tanto isso quanto aquilo". É barzakh, que al-'Arabi descreve como:


Algo que separa [fâsil] duas outras coisas, sem nunca pender para um lado [mutatarrif], como, por exemplo, a linha que separa a sombra da luz do sol... O barzakhi é algo que separa o conhecido do desconhecido, o existente do inexistente, o negado do afirmado, o inteligível do ininteligível. (Chittick, 1989, p. 117-18)


Ele tem grande poder. É um termo inteligível, o filósofo sufi nos diz, mas é apenas imaginação. Ele insiste na transitoriedade - as mutações contínuas - da realidade mediadora da imaginação, ou seja, o que Vincent Crapanzano. Horizontes imaginativos e o aquém e além normalmente tomamos pela realidade cotidiana, o mundo como o conhecemos. Ibn al-'Arabi não desenvolve, contudo, uma estética fundada no entre, como os japoneses fizeram. Adotou uma atitude marota em relação ao barzakh, ao mesmo tempo, jocosa e imensamente séria, o que é inteiramente estranho à variante japonesa de ma. Essa atitute permitiu-lhe trazer à baila o artifício do mundo como o conhecia - presunção humana. Para o filósofo sufi, barzakhi, o jogo retórico que oferece, possibilitou-lhe insinuar outra realidade - outras realidades - a que, mediante disciplina mística ao menos, tem-se aceso.


Esforcei-me em descrever diferentes atitudes com respeito ao entre, pois, embora nossa perspectiva epistêmica peculiar tenda a ignorá-lo, ele é na realidade uma "arena" de singular importância social, cultural e psicológica. Ficamos ansiosos, como insistem os existencialistas, perante qualquer indício do não-ser. Podemos ignorá-lo; podemos evitá-lo; podemos ocultá-lo. Podemos enunciá-lo tangencialmente. Também podemos conceber o não-ser esteticamente, como os japoneses fazem com o ma, atribuindo-lhe, assim, valor positivo; ou podemos jogar com ele retoricamente, como Ibn al-'Arabi faz com o barzakh, para evocar a dimensão imaginária - sempre, de algum modo, uma negação - do que tomamos por realidade. Concentramo-nos, como insiste Heidegger (1979, p. 340), no que é, sem levar em conta o fato de o Nada ser um tipo de pano de fundo projetivo para o que é: "o Nada é o que torna possível a revelação de nossa existência humana como ela é". Não desejo, aqui, discutir a noção heideggeriana do Nada, apenas observar que o suspense - estar em suspensão, pender, flutuar, pairar, ascender, scwebwen - é um componente essencial do terror que revela o Nada. "Aterrorizados, ficamos em 'suspense' (wir schweben)" (Heidegger, 1979, p. 336). Quero salientar o suspense - o risco - da passagem. Desejo sugerir que em todas essas travessias há sempre um momento, assintótico, que está simultaneamente dentro e fora do tempo e do espaço, como normalmente os conhecemos. São fundamentais à vida social, aos seus procedimentos mais básicos: troca, passagem, reprodução e transformação.



Victor Turner

Estou interessado, portanto, nos perigos de atravessar o limiar - o limen - e, para utilizar as palavras do antropólogo Victor Turner (1969, 1974), os estados liminares que estão associados a essa travessia. Ibn al-'Arabi iria chamá-los de barzakh, mas daria ao termo um sentido epistêmico que Turner, dada sua epistemologia, não pode. O modelo de Turner é basicamente o modelo tripartite do rite de passage de Van Gennep (1960): separação, margem e incorporação. Ele e outros ampliaram o modelo dos ritos concernentes a crises na vida de um indivíduo para aqueles da sociedade como um todo. Estes incluiriam ritos preparatórios para a guerra, cerimônias de primeira frutificação, colheita e chuva, que marcam a passagem da escassez para a abundância, e rituais de posse, como coroações, que, embora centrados em um indivíduo, são eminentemente sociais na orientação e nos efeitos. Turner (1974, cap. 1) amplia mais ainda o modelo, aplicando-o a períodos de reparação de conflitos sociais, que chama de dramas sociais. O centro de sua atenção é a liminaridade - a margem - , que considera uma "situação interestrutural" e é entendida como processo e devir. Julga o aquecimento da água até a fervura, ou a modificação de uma pupa de lagarta em mariposa "analogias apropriadas" de transição e transformação. Não está particularmente interessado em pontuar o liminar - em suas disjunções internas - e em como este efetua e é afetado pelo momento final, definidor, da transição.4



Ao contrário de Turner, quero atentar nas disjunções rituais, sociais e culturais e no momento, que cada vez mais se reduz mas nunca desaparece por completo, da diferença que resiste à enunciação. Eles são apenas executados e geralmente ignorados, embora possam ser exibidos em rituais dilatados e repetitivos, no drama, na literatura e na música. São os momentos definidores dos ritos de passagem, das cerimônias de cura, das investiduras de poder e autoridade sagradas e seculares e transições corriqueiras de um registro experiencial, por exemplo, a vigília, a outro, por exemplo, o sonho, o transe ou o simples adormecer. São arriscados e, às vezes, perigosos, embora o perigo e o risco que acarretam sejam em regra limitados pela convenção, repetição e sanção. Podem marcar uma mudança de status dos participantes; muitas vezes, envolvem a troca de objetos, reais ou simbólicos, que pairam "despossuídos" por um instante. Com efeito, há, em qualquer troca, um momento disjuntivo no qual o objeto não é dado nem recebido e em que os participantes ainda não são doadores nem receptores. Há sempre o risco de desistência e a conseqüente ruptura da relação. E há momentos, os mais dramáticos de todos, em que os participantes são apanhados em um entre que não podem sequer definir - em que não há travessia.


Na maioria das vezes, os momentos que desafiam a enunciação permanecem um paradoxo: para cada travessia, há sempre um momento em que não se está num lado nem de outro, em que não se é o que era nem o que será; pois, uma vez que são discriminados, o contígüo nunca os atinge. Fica-se em suspensão - pairando eternamente de permeio. (Talvez por isso os japoneses imaginam a si mesmos como preenchidos de energia.) Tome-se o casamento, por exemplo. Há sempre o mais breve dos momentos, quando não se é mais solteiro e tampouco se é casado ainda. Um casal está diante do altar, um sacerdote está prestes a declará-los marido e mulher, mas ainda não o fez ou apenas proferiu as primeiras palavras da declaração. O casal ainda está solteiro? Embora, tecnicamente, não estejam casados, hesitaríamos em dizer que ainda são solteiros. De modo mais extremo, mais absurdo: o sacerdote declarou-os marido e mulher, mas eles (ou as testemunhas) ainda não ouviram - ou escutaram - as palavras. Ainda são solteiros? Casados? A mudança de status é instantânea; ou seja, ela ocorre em um instante e, nesse instante, sempre há um risco. Ainda que breve, sempre há a possibilidade de a noiva ou o noivo fugir; o sacerdote parar; uma testemunha morrer; um dos convidados levantar uma objeção. Essa é a substância do melodrama, mas ela reflete o suspense e o risco de qualquer transição social. (Descobri que a maioria das pessoas - incusive eu mesmo - não é capaz de recordar tais momentos.)


Turner (1967, p. 96) relaciona os símbolos de morte, decomposição e menstruação (muitas vezes, tida como a perda de um feto), que são com freqüência vinculados aos iniciados, ao fato de estes não serem mais classificados. Estruturalmente "mortos", podem ser tratados como cadáveres; denegridos; sepultados; obrigados a deitar, imóveis, na posição habitual dos defuntos, e forçados a viver "com mascarados monstruosos que representam, inter alia, os mortos, ou, pior ainda, os mortos-vivos". Por não estarem ainda classificados, associam-se os neófitos a símbolos de gestação e parto. Podem ser tratados como embriões, neonatos ou crianças de peito. Os dois conjuntos de símbolos, diria, são inextricáveis, ocultam ao revelar, revelam ao ocultar o momento de transição que resiste a ser enunciado. Paradoxalmente, é o simbolismo do nascimento e do renascimento que media a transição, na maioria das vezes, e encobre a disjunção, por sua vez, exposta pela imbricação do simbolismo da morte e do nascimento. Porquanto o nascimento media a oposição entre nascimento e morte, as cartas são sempre embaralhadas em favor dele - da afirmação do ser sobre a não-ser, da continuidade sobre a descontinuidade.


O que há de interessante nesses momentos de transição é que sua liminaridade de vida curta está muitas vezes encravada na liminaridade dilatada, em que a transição final é, como foi, ensaiada em uma série de minitransições: as provas, testes e provações das cerimônias de puberdade, por exemplo. Caracterizam-se por múltiplas repetições em vários registros. Turner descreveu essas longas passagens e, embora reconhecesse sua qualidade dramática, em meu juízo, não avaliou plenamente o modo como elas atingem o clímax, o momento da passagem que, em essência, não pode ser enunciado. Ele tendeu, em suas generalizações sobre a liminaridade, como antiestrutura e communitas, a achatá-lo. Freud, sem dúvida, teria visto essas travessias cada vez mais dramáticas como um modo de dominar a ansiedade. Lévi-Strauss talvez as visse como um modo de reduzir a lacuna entre os dois lados da travessia. Eu quero salientar o perigo, a ansiedade e o terror que evocam. Eles, de maneira inconsciente, chamaram atenção para o artifício de nossa compreensão social e cultural ao exporem esses momentos refratários, que escapam a - e correm o risco de destruir - aquela compreensão e suas exigências de coesão e continuidade. Podemos descrever tais momentos com a expressão horror vacui,5 com a qual Nietzsche (1967) caracterizou o momento dionisíaco da tragédia grega; ou "abismo" - l'abîme -, tão popular na poesia simbolista francesa; ou não-ser. Mas devemos fazê-lo com cuidado, pois elas refletem, como insiste Derrida, nossa insistente ontologia da presença - uma ontologia que, apesar de suas pretensões universalistas, de modo algum é compartilhada universalmente.
O liminar foi muitas vezes equiparado ao sonho - ao processo primário de pensamento. Ele sugere possibilidades imaginativas que, não necessariamente, estão ao nosso dispor no cotidiano. Por meio de paradoxo, ambigüidade, contradição; de símbolos incomuns, exagerados e, por vezes, grotescos - máscaras, indumentária, estatuetas -; e pela evocação de realidades transcendentes, do mistério e de poderes sobrenaturais, o liminar nos oferece uma visão do mundo, que normalmente não enxergamos, cegados pelas estruturas usuais da vida social e cultural. Turner cita o místico alemão Jakob Böhme: "Em incerteza todas as coisas consistem". Devemos citar igualmente al-'Arabi ou um sem-número de outros místicos que chamam atenção para os paradoxos de nossa compreensão. Turner escreve:


A liminaridade talvez possa ser considerada como o Não de todas as asserções estruturais positivas, mas, em certo sentido, a fonte de todas elas e, mais do que isso, como um reino de pura possibilidade, de onde novas configurações de idéias e relações podem surgir. (1967, p. 97)
Sim, queremos dizer - tamanho é o ethos de nossa criatividade -, mas devemos reconhecer que o liminar também impõe constrangimentos. Ele não é sem estrutura, como Turner algumas vezes afirma, mas, como sustenta em outras, é antiestrutural, ou seja, conforme entendo, sempre está em relação com a estrutura do cotidiano. O liminar pode estimular a invenção, mas, ainda que pela negação, também afirma a tradição.


À guisa de conclusão, quero destacar um paradoxo no modo como compreendemos o liminar, quanto à imaginação. Se tomamos a imaginação, como fazem Sartre e, à sua maneira, Ibn al-'Arab, como algo que apresenta o que está ausente ou é inexistente, somos obrigados a concluir que expomos essas lacunas, esses momentos disjuntivos do não-ser, que pontuam nossa vida social e cultural, por meio de um atividade que permanece no não-ser de seu objeto - a imagem. A imaginação também nos fornece o brilho, os dispositivos retóricos, as manobras narrativas e as estratégias rituais que ocultam essas lacunas. Expomos o não-ser, como era, por meio de um ato que postula o não-ser, assim como ocultamos esse não-ser por um não-ser que declaramos, ao menos no ritual, ter completude - plenitude. Que é mais "real" que os objetos rituais? Turner poderia chamá-los sacerrima. É a esse paradoxo que se deve a contínua (ainda que repetitiva) elaboração, no ritual e no drama, na literatura e na arte, especialmente e do modo mais puro, na música, do momento assintótico de passagem, que torna as fronteiras imaginativas tão ameaçadoras quanto fascinantes e encantadoras para nós? Tal subterfúgio, se pode ser chamado assim, é uma fonte de nossa inegável criatividade social e cultural - ou de sua extinção - por meio da repetição e de sua proclamação como verdade última.

Notas


1 Este artigo, em boa medida, baseia-se nos dois primeiros capítulos de meu novo livro, Imaginative Horizons: An Essay in Literary-Philosophical Anthropology (2004).


2 N. do T.: O autor emprega a expressão betwixt and between - traduzida geralmente por "nem uma coisa nem outra" e que denota estado ou natureza ambígua, indeterminada -, em referência ao ensaio de Victor Turner "Betwixt and Between: The Liminal Period in rites de passage" (in Turner, 1967). Este a utiliza para caracterizar a condição dos indivíduos que, nos ritos de passagem, encontram-se no "estado de transição" ou liminaridade: "Entidades liminares não estão cá nem lá; estão aquém e além [betwixt and between] das posições designadas e dispostas por lei, costume, convenção e cerimonial" (Turner, 1969, p. 95). O tradutor valeu-se de leitura e comentários dos professores Rose Satiko Hikiji e John Dawsey, a quem agradece.


3 Ver Crapanzano (2000) para uma discussão pormenorizada da hermenêutica do fundamentalismo cristão.


4 Ver Crapanzano (1992, p. 260-80) para uma discussão das disjunções intra e extra-ritual. Ver também Taussig (1987, p. 441 ss).


5 N. do T.: Literalmente, horror ao vácuo.



Bibliografia



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_____________2000 Serving the word: literalism in America from the Pulpit to the Bench, New York, New Press.


_____________2004 Imaginative horizons: an essay in literary-philosophical antropology, Chicago, Chicago of University Press.


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VAN GENNEP, A. 1960 The rites of passage. London, Routledge, Kegan Paul.



(Tradução de André Pinto Pacheco)

ABSTRACT


In this paper, the author develops the notions of imaginative horizons as well as of betwixt and between, liminality and crossing; grounded on them, he propounds an anthropology of the imagination. Despite considering fuzziness, shadowiness as a necessary component of all experience, thought and perception, he focuses on ignored dimensions of reality. Examining the interstitial spaces and times (ma) in traditional Japanese aesthetics or the notion of barzakh in Sufi mysticism, the author stresses different conceptions of the between. Finally, through a rereading of Victor Turner's theorization of the liminal, he calls in question our presuppositions about the nature of relations.
Key-words: Anthropology of the imagination, imaginative horizons, liminality, experience, Victor Turner.
(Fonte: Rev. Antropol. v.48 n.1 São Paulo jan./jun. 2005)
________________________________________
Comentário de u.s.w. (12/01/2008)
Viver é muito perigoso”.
Por que? Por que em toda sua matutice Riobaldo afirma que viver é perigoso?
Se o mundo é o sertão e viver é fazer a travessia de suas veredas. Se o sertão é a fronteira do imaginário; “terra de pura possibilidade, de desejo e medo”. Então viver é sempre perigoso.
Mas o sertão não é o não-ser, o sertão é o mundo antes que eu comece a lhe dar nomes. O sertão é o laranja e o azul que sinto entrar pela minha janela toda manhã de sol, antes de chamá-lo azul e laranja, antes de sabê-lo que não são azul e laranja, mas céu e concreto, que sequer o laranja existe, mas só o concreto cinza, antes de saber que o laranja é só o reflexo do sol se levantando. Esse mundo fugaz em que nada tem nome é um mundo de possibilidades infinitas, só aí pode nascer o amor. Só o sertão pode me fazer amar Diadorim, que não sei o que é, não sei chamar, só sei sentir. Todo amor se instala aí, no sertão. Quando aprendermos, como Riobaldo (que foi capaz de amar Diadorim sem sabê-lo ou dizê-lo), que o sertão é o mundo, e que portanto no mundo é que se instala o amor, então poderemos viver, no perigo, mas viver.


terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Produto Imaterial Bruto e "cultura" digital


'Uma internet sem espírito gera apenas um monte de 'macacos' jogando videogame'. Entrevista especial com Gilson Schwartz

(Fonte: http://www.unisinos.br/_ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=11519)


O Brasil está dividido entre entre o anseio de se transformar um país desenvolvido e as dificuldades que o fazem permanecer no grupo dos sonhadores subdesenvolvidos. Apostar em tecnologias e, mais especificamente, na produção digital direcionada para o mercado online seria uma possibilidade para o país engatinhar rumo ao desenvolvimento. Com o avanço da produção social na internet, parece que Brasil “vai entrar no mundo desenvolvido em alguns instantes, mas falta muito, muito para chegar lá”, lamenta o professor Gilson Schwartz, da Universidade de São Paulo (USP). Em entrevista por telefone à IHU On-Line, o pesquisador disse que a produção social realizada pelos brasileiros, ainda é baixa e que neste quesito o país “está atrasado”.

Para crescer no mercado imaterial, “sem dúvida a economia precisa crescer, necessita emprego, ou seja, precisamos das condições básicas, mas sem criatividade e inovação, continuaremos a consumir bovinamente o óbvio”, alerta o pesquisador.

Gilson Schwartz é graduado em Economia e em Ciências Sociais, pela Universidade de São Paulo (USP), e mestre e doutor em Ciência Econômica, pela Universidade Estadual de Campinas. Desde 2005, é professor do Departamento de Cinema, Rádio e TV da Escola de Comunicações e Artes da USP. Atua desde 1994 como consultor de instituições financeiras como BankBoston (como economista-chefe). É também assessor da Presidência no BNDES e consultor do BNB, CEF e Banco do Brasil. Ele concedeu outra entrevista à IHU On-Line, na edição 226, de 02-07-2007, intitulada Second Life: uma fábrica de sonhos e desejos.

IHU On-Line - Qual é a sua análise econômica sobre a produção social atual no Brasil?
Gilson Schwartz - Em termos mais gerais, levando em consideração os indicadores internacionais, nossa posição na internet é equivalente às que exibimos em outras áreas. O Brasil é um país de tamanho médio, encontrando-se na fronteira superior do mundo em desenvolvimento. Parece que irá entrar no mundo desenvolvido em alguns instantes, mas falta muito, muito mesmo para chegar lá, como atestam os indicadores educacionais. A nossa produção social na rede teria um destaque maior se a distribuição de renda fosse melhor.

IHU On-Line - Quais são as principais conseqüências dessa produção social para a justiça social, visto que já há casos de bloqueios de alguns portais por determinações da justiça, como aconteceu recentemente com o youtube?
Gilson Schwartz - A principal conseqüência é que a produção social (a chamada "wikinomia") pode gerar novos tipos de problemas, além de aumentar o espaço para antigos problemas. Um exemplo desses novos problemas está relacionado a essa questão do You Tube, em que um vídeo sem a autorização da pessoa vai para a rede. Hoje em dia, ficou muito fácil capturar material e distribuir sem maior responsabilidade. Então, essa é uma conseqüência que pode criar situações, que, do ponto de vista da justiça, são claramente ofensivas aos direitos das pessoas.

IHU On-Line - No Ciclo produzido pelo Instituto de Estudos Avançados da USP, sobre o livro A riqueza das redes, discutiu-se a inserção da produção social na cultura brasileira. Como essa inserção vem acontecendo?
Gilson Schwartz - O Brasil tem uma população urbana muito grande, mas, por enquanto, a chamada produção social (que muitos traduzem como "web 2.0") não tem grande destaque no país. Se formos observar o que tem acontecido de mais criativo em termos de uso social da rede, a chamada produção social, o Brasil está atrasado, como são atrasadíssimos todos os indicadores sociais do país. Mas, aos poucos, estão surgindo projetos inovadores. Falam muito do gosto do brasileiro por mídia, mas esquecem de dizer que a massa de usuários da web é "formada" por décadas de Xuxas, Trapalhões, sensacionalismo barato e até de cunho religioso, entre outras práticas de baixo impacto criativo.

Perspectivas

A produção social é fruto de duas determinações. Uma é o PIB (Produto Interno Bruto), com o crescimento econômico, desenvolvimento econômico, o que ajuda a aperfeiçoar a nossa capacidade criativa. O outro PIB, que se escreve do mesmo jeito, mas que tem um significado oposto, podemos chamar de "Produto Intangível", ou "Imaterial". Ele diz respeito não à economia, tal como conhecemos, mas a uma nova visão que é a da "iconomia", a economia dos intangíveis, dos imateriais, dos ícones. Claro que a expansão criativa da iconomia depende basicamente de educação e renda. Para crescer nesse mercado intangível, sem dúvida a economia precisa crescer, necessita emprego, ou seja, precisamos das condições básicas, mas, sem criatividade e inovação, continuaremos a consumir bovinamente o óbvio. Uma internet sem espírito gera apenas um monte de "macacos" jogando videogame.

IHU On-Line - Com a produção social surge uma nova economia, a economia imaterial (iconomia)?
Gilson Schwartz - A visão de uma produção social engloba tanto o mercado como aquilo que vai além do mercado. Em última análise, ela também é fundamental para regular e controlar o mercado. A rede digital, em contraposição ao mercado, onde aparece apenas o preço, coloca em evidência na rede digital uma inteligência coletiva que pode levar até mesmo a uma nova consciência de que é necessário salvar o planeta.

IHU On-Line - O senhor pode falar um pouco mais da influência que a obra de Benkler tem tido sobre as pesquisas relacionadas à produção social?

Gilson Schwartz - Sobre as pesquisas, o Benkler (1) é menos um influenciador, e mais um sistematizador. O livro dele tem o mérito de sistematizar uma visão hacker-liberal da sociedade em rede, que é muito forte nos Estados Unidos.

Yochai Benkler




IHU On-Line - Que tipo de grupamentos sociais influenciaram na formação da cultura da internet?
Gilson Schwartz - Não existe a cultura "da" internet. A rede é mais um meio de comunicação que possibilita a criação cultural. Considero exagerado transformar a cultura da internet num ícone, como se ela tivesse que ser exportada para todos os lugares do mundo. Se fosse assim, todos nós deveríamos nos tornar hackers para integrar essa nova sociedade. Esse talvez seja um dos limites da obra do próprio Benkler, que afirma a existência de uma cultura "da" internet. Obviamente, é possível associar formas e culturas às tecnologias que as pessoas utilizam para viver, como o automóvel, ou os garfos e as roupas.

Não vamos negar que existe um aspecto importante na cultura material e na maneira como se usa a tecnologia. Mas é reducionista pensar que a cultura da internet é, sobretudo, a cultura que a própria internet produz. Quer dizer, o que define a cultura é um conjunto de elementos que não se limita a uma tecnologia. Não é a tecnologia que determina a evolução da cultura, embora, sem dúvida alguma, ela é um dos fatores fundamentais que moldam a nossa vida.

A tecnologia não funciona como uma matriz geradora de cultura, pois é parte da nossa cultura material. Essa seria a minha crítica ao próprio Benkler e a maneira como ele encaminha a discussão sobre produção social, promovendo uma espécie de hipertrofia da cultura da internet, que não corresponde à realidade das sociedades nem dos mercados.

Notas:

(1) Yochai Benkler: docente da Faculdade de Direito da Yale Universit, Estados Unidos. Ele é autor de algumas obras que vislumbram o potencial das novas práticas de compartilhamento através da internet, como o Software Livre e a Wikipedia. Entre seus livros, destacamos The wealth of Networks: How Social Production Transforms Markets and Freedom (Neu Haven: Yale University Press, 2007) (A Riqueza das Redes - Como a Produção Social Transforma Mercados e a Liberdade).

Gelo da Groenlândia agita debate sobre nível dos oceanos

Fendas de água começam a aparecer na Groenlândia


08/01/2008


Por: Andrew C. Revkin



A antiga cúpula congelada que cobre a Groenlândia é tão vasta que pilotos já se chocaram com aquilo que pensavam ser uma formação de nuvens se estendendo ao longo do horizonte. Ao voar sobre ela, mal dá para imaginar que este gelo pudesse se derreter com rapidez suficiente para tão cedo elevar perigosamente o nível dos oceanos.

Entretanto, ao longo dos seus flancos, na primavera e no verão, o quadro é muito diferente. Durante uma série cada vez mais extensa de anos quentes, uma série de lagos azuis e riachos de gelo derretido tem se espalhado cada vez mais sobre a camada de gelo. A superfície que se derrete escurece-se, absorvendo até quatro vezes mais energia solar que a neve não derretida, que reflete a luz do sol. Cavidades naturais de drenagem, as chamadas moulins, conduzem a água da superfície para as profundezas, fazendo com que em alguns locais ela atinja o fundo de pedra. De forma discreta, mas mensurável, o processo lubrifica as superfícies e acelera a movimentação do gelo rumo ao mar.

E, segundo os glaciologistas, o mais importante é a ruptura de grandes pedaços semi-submersos de gelo onde enormes geleiras da Groenlândia, especialmente na costa oeste, se espremem pelos fiordes ao se encontrarem com o oceano em processo de aquecimento. Conforme essas passagens foram se abrindo, acelerou-se o fluxo de diversos desses rios congelados e rugosos.


"Todas essas mudanças fazem com que atualmente diversos glaciologistas estejam nervosos - para não dizer chocados", afirma Ted Scambos, que é o cientista chefe do Centro Nacional de Dados Sobre Neve e Gelo, em Boulder, no Colorado, e um veterano dos estudos sobre a Groenlândia e a Antártica.

Alguns temem que a elevação do nível dos mares em um mundo em processo de aquecimento possa ser maior do que a estimativa mais pessimista de cerca de 60 centímetros neste século, feita no ano passado pelo Painel Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas (os mares subiram menos do que 30 centímetros no século 20). A avaliação do painel não incluiu fatores conhecidos por contribuir para os fluxos de gelo, mas que não são compreendidos de forma suficiente para que se possa fazer com confiança estimativas baseadas neles. Tudo o que o painel pôde dizer foi: "Valores maiores não podem ser excluídos".

Está em andamento um esforço científico para determinar se a erosão das mais vulneráveis camadas de gelo do mundo, na Groenlândia e na Antártica Ocidental, pode continuar acelerando-se. Esse esforço envolve pesquisas de campo e análises de dados obtidos por satélites, bem como a busca de pistas baseadas em períodos quentes ocorridos no passado, incluindo o último intervalo entre eras glaciais, que chegou ao seu apogeu cerca de 125 mil anos atrás, e fez com que os oceanos atingissem um nível de 3,7 a 4,9 metros superior ao atual.

O Conselho Ártico, representando os países do território ártico, encomendou um relatório sobre as tendências ambientais na Groenlândia, para ser concluído antes das negociações sobre um tratado climático que deverão ocorrer em 2009, em Copenhague. As nações do mundo se comprometeram a criar durante essas negociações um plano de longo prazo para limitar o aquecimento global causado pelos seres humanos.

Konrad Steffem, um glaciologista da Universidade do Colorado que acampa sobre a camada de gelo da Groenlândia todos os anos desde 1990, é o autor do capítulo no relatório sobre o clima da região. Em agosto do ano passado, ele e uma equipe de cientistas que estudam as maneiras como o gelo derretido poderia afetar o movimento do gelo baixaram uma câmera a uma profundidade de 100 metros em uma moulin cheia de água para determinar se esse sistema de drenagem poderia ser mapeado.

A câmera sendo baixada no moulin



Pesquisas feitas nas geleiras alpinas demonstram que à medida que mais água flui por tais fendas, mais rapidamente o gelo se desloca. Mas em determinado momento formam-se canais maiores, que limitam o efeito lubrificante. A experiência com a câmera foi apenas um teste inicial.

Alberto Behar, um engenheiro da Nasa que projetou a câmera, diz que alguns métodos não convencionais foram cogitados para mapear o fluxo dessas águas. "Tivemos idéias como o lançamento de patinhos de borracha pelas fendas para verificar se eles apareceriam no mar", diz Behar. "Dentro dos patinhos haveria um bilhete dizendo algo como: 'Por favor, se você me encontrar, ligue para o número tal'".

As mudanças presenciadas na Groenlândia podem acabar revelando-se auto-limitantes no curto prazo; por exemplo, geleiras onduladas podem sofrer achatamento e ter sua velocidade reduzida. Ou elas podem ser um sinal de que o gelo da ilha - que contém aproximadamente a mesma quantidade de água que o Golfo do México - está prestes a sofrer um rápido despregamento. Os cientistas estão divididos quanto a essa questão, e também quanto ao risco de curto prazo referente a uma porção da cobertura de gelo da Antártica do tamanho do Texas, que também está dando sinais de instabilidade. Essa divisão coloca de um lado aqueles que antevêem um aumento do nível do mar de cerca 60 centímetros neste século, causado pelo derretimento do gelo da Groenlândia, do oeste da Antártica e de geleiras nas montanhas e, do outro lado os que acreditam que nesse período a elevação dos mares será de uns dois metros.

Entre os que têm uma visão mais conservadora em relação ao destino da Groenlândia no curto prazo está Richard Alley, da Universidade do Estado da Pensilvânia, que observou que amostras de gelo e testes com materiais orgânicos colhidos abaixo do gelo indicam que a principal massa de gelo da Groenlândia suportou milhares de anos de aquecimento no passado sem desaparecer.

"Aquilo é basicamente um grande pedaço de gelo sobre uma camada de rocha", diz Alley, ao descrever o comportamento da Groenlândia em condições mais quentes. "O que ele tenta fazer é formar mais neve no meio e derreter mais nas bordas. Se ele retrair as sua bordas, haverá menos área para derreter, e isso o ajuda a sobreviver. É por isso que é possível existir uma cobertura estável de gelo em um clima mais quente".

Mas não existe mais nenhuma polêmica significativa quanto ao cenário de longo prazo. Caso o aumento das emissões de gases causadores do efeito estufa continue seguindo uma tendência próxima à atual, o aquecimento e a perda de gelo resultantes nas duas extremidades do planeta fariam com que as regiões costeiras retrocedessem durante séculos. Embora tenha se mostrado circunspecto em relação às mudanças de curto prazo, o painel intergovernamental manifestou-se com confiança a respeito das mudanças de longo prazo.

A perspectiva de não se contar com uma linha costeira "normal" no futuro não muito distante faz com que muitos cientistas fiquem profundamente preocupados.

"O que está em jogo é a estabilidade que nós sempre consideramos como um fato imutável, tanto no que diz respeito às costas como ao próprio clima", afirma Jason E. Box, professor de geografia da Universidade do Estado de Ohio. Box apresentou descobertas recentes na reunião da União Geofísica Norte-Americana no mês passado, revelando que várias geleiras da Groenlândia tiveram a sua movimentação drasticamente acelerada em uma resposta direta ao aquecimento, tanto durante uma onda de calor que teve início na década de 1920 quanto agora.

Eric Rignot, que há muito tempo estuda as coberturas de gelo em ambos os pólos para o Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, diz que espera que a população e os elaboradores de políticas não vejam na incerteza das previsões do século 21 motivo para complacência quanto à necessidade de limitar os riscos por meio da redução das emissões.

Recentemente Rignot propôs que o aquecimento ininterrupto poderia resultar em uma aumento do nível dos mares globais composto por três fatores básicos: 90 centímetros devido ao derretimento na Groenlândia, 90 centímetros provenientes do gelo derretido da Antártica e 46 centímetros causados encolhimento das principais geleiras nas regiões montanhosas.

Isso é similar às projeções feitas pelo mais proeminente cientista climático da Nasa, James E. Hansen, sendo entretanto duas vezes maior do que os valores quanto ao qual muitos glaciologistas parecem considerar o limite máximo para a elevação dos oceanos até o final deste século.

"É muito cedo para se afirmar que tudo irá se estabilizar, e também não há como prever um colapso catastrófico", diz Rignot. "Mas as coisas estão sem dúvida alguma bem mais sérias do que qualquer um teria imaginado cinco anos atrás".


(Fonte: The New York Times - extraído de UOL Mídia Glogal - http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/nytimes/2008/01/08/ult574u8101.jhtm)

domingo, 6 de janeiro de 2008

O tempo

Às vezes acho que minha vida é movida a incríveis coincidências, mas talvez a gente só comece a notar as coisas de forma diferente quando está envolvida num assunto. De qualquer forma, durante meses meus interesses giraram em torno do tempo em Deleuze, tema espinhento... Nessa sanha me defrontei com textos, do próprio Deleuze e de comentadores seus, que falam de Borges. Ora, acabara de me cair às mãos as novas edições da obra de Borges e eu estava relendo os contos de Ficções. As grandes obras são sempre assim, por isso não consigo me desfazer de livros, sei que uma hora vou precisar relê-las: quando você lê Borges e tem 15 ou 16 anos é uma coisa, quando rele muito tempo depois é outra obra, outro autor. Bem, já estou me distanciando de novo do que queria comentar. Deleuze e seus comentadores citam dois textos específicos de Borges sobre o tempo, um deles está em Outras inquisições – livro de ensaios que não conhecia; li o tal texto, “Nova refutação do tempo”, achei fantástico e resolvi ler o livro. Os ensaios falam de literatura e filosofia, sendo que a grande maioria discute o tempo – e outra grande parte sonhos.
Há 10 dias atrás nos encontramos – não todos nós aqui do Blog, mas 3 de seus membros. Fomos ao cinema e depois num bar conversar um pouco. Não me lembro o motivo, mas lembro que acabamos falando... do tempo. Falamos da tese da coexistência, da contemporaneidade: essa é a tese que segue Deleuze, passado e futuro são resultados de sínteses, não são a natureza em si do tempo. Alguém falou de uma experiência incrível com médiuns que tinham fama de curar pacientes com vibrações ou orações: pegaram as fichas médicas de alguns pacientes e distribuíram – pelo que eu entendi aleatoriamente – para um grupo composto por esses médiuns e outro grupo controle. Na verdade essas fichas eram antigas (passadas), alguns pacientes já tinham se recuperado e outros tinham falecido. O interessante é que quando foram ver, as fichas que haviam sido distribuídas para os médiuns eram todas de pacientes que haviam se recuperado! Ora, pensamos, eles agiram sobre o passado! Como? Se pensarmos que só há o presente isso fica plausível.
Voltando a Borges, outro ensaio que fala do tempo é “A criação de P. H. Gosse” – Philip Henry Gosse foi um cientista natural inglês do século XIX. Ao que parece, Gosse tentava unir religião e ciência, mas de uma maneira bem inusitada: Borges fala que Gosse propôs – vejam bem, em pleno século cientificista – que os registro fósseis foram ali colocados por Deus. O que isso implica? Não há passado. Isso faz sentido, não? Ora, se o universo é eterno, existe apenas o hoje. Borges termina o ensaio lembrando uma incrível tese de Locke: “o planeta foi criado há poucos minutos, provido de uma humanidade que ‘recorda’ um passado ilusório”.

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Comentário de JHolland:

ZB,

Aqui vai o texto que te falei, de Contardo Calligaris e que vc. mencionou na postagem acima...


São Paulo, quinta-feira, 30 de novembro de 2006

CONTARDO CALLIGARIS

O poder da reza

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Mistério: estudo mostra que uma reza retroativa ajudou pacientes anos depois da internação
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UM AMIGO médico, Décio Mion, me fez conhecer um estranho debate que ocupou, de 2001 a 2003, as páginas do seríssimo "British Medical Journal".

Premissa: várias pesquisas, há tempos, mostram os efeitos positivos da reza numa variedade de condições patológicas. Documenta-se que o doente encontra benefícios (quanto ao andamento de sua enfermidade) no ato de rezar ou na consciência de que seus próximos rezam por ele. Até aqui, tudo bem: o paciente acharia assim uma paz de espírito que melhora sua evolução.

A coisa se complica: às vezes, as pesquisas mostram que a prece traz benefícios mesmo quando alguém reza por um doente sem que ele próprio saiba disso. Como explicar esses casos?

Talvez o benefício seja fruto de uma intervenção caridosa da divindade solicitada, mas essa explicação depende de um ato de fé que não cabe na interpretação de uma pesquisa científica. Além disso, é curioso que os benefícios apareçam seja qual for o deus ou o intercessor que receba a oração.

Resta, pois, imaginar que a intenção humana (o esforço cerebral de quem deseja que algo aconteça e reza por isso) tenha alguma realidade material (energia, partículas etc.) capaz de influir no andamento de um processo patológico. Estranho?

Nem tanto: afinal, até poucas décadas atrás, ignorávamos a existência de uma série de partículas que, segundo a física de hoje, povoam nosso universo. Por que as nossas intenções não movimentariam uma energia desconhecida, mas capaz de alterar o mundo físico? Nos EUA, nos anos 60-70, foram organizadas reuniões diante da Casa Branca com a idéia de que, se todos se concentrassem, a energia do dissenso faria levitar a residência do presidente norte-americano. Embora cético, participei, convencido por um amigo que dizia: "Tentar não dói". Claro, não funcionou.

Ora, no fim de 2001, o "British Medical Journal", depois de um editorial lembrando que a razão não explica tudo, publicou uma pesquisa, de L. Leibovici (BMJ, 2001, 323), que registra os efeitos benéficos (em pacientes com septicemia) de uma reza afastada não só no espaço, mas também no tempo. Explico.

Foram incluídos no estudo todos os pacientes internados com septicemia, de 1990 a 1996, num hospital israelense; eram 3393. Em 2000 (de quatro a dez anos mais tarde), por um processo rigorosamente aleatório, os arquivos desses pacientes foram divididos em dois grupos: um grupo pelo qual haveria reza e um grupo de controle. Para cada nome do primeiro grupo, foi dita uma breve reza que pedia a recuperação do paciente e do grupo inteiro.

Resultado: no grupo que recebeu uma reza em 2000, a mortalidade foi (ou melhor, fora, de 90 a 96) inferior, embora de maneira pouco significativa; no mesmo grupo, a duração da febre e da hospitalização fora (ou melhor, havia sido, de 90 a 96) significativamente menor.

A publicação da pesquisa provocou uma enxurrada de cartas (BMJ, 2002, 324), algumas contestando as estatísticas, outras manifestando uma certa incompreensão do problema, que é o seguinte: como entender que uma reza possa agir não só sem que o paciente tenha consciência da intercessão pedida (com possível efeito psicológico positivo), mas à distância no tempo? Como entender, em suma, que uma reza dita em 2000 tenha um efeito retroativo em alguém que estava doente entre 90 e 96, quando a pesquisa e a reza nem sequer estavam sendo cogitadas?

Uma tentativa de resposta veio em 2003. O "BMJ" (2003, 327) publicou um interessante e enigmático artigo de Olshansky e Dossey, "History and Mystery" (história e mistério), em que os dois médicos dão prova de conhecimentos de física quântica muito acima de minha cabeça. O argumento de fundo é o seguinte: há modelos do espaço-tempo nos quais é possível que haja relações físicas entre o passado e o presente (ou seja, modelos em que o presente pode alterar o passado).

Que o leitor não me peça para explicar como isso aconteceria. As dimensões do "espaço de Calabi-Yan" e os "campos bosônicos", para mim, são tão obscuros quanto os ectoplasmas, os espíritos e os milagres.

Moral da história: embaixo do sol (ou da chuva), deve haver muito mais do que imaginamos, até porque nossa ciência está longe de ser acabada. Alguns colegas positivistas talvez durmam mal com esse barulho.

Eu não acredito nas paranormalidades, mas, em geral, durmo melhor ninado pelo mistério do que pelas certezas.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Um sonho de Breton (Nadja...)

Andre Breton



Breton havia acabado de descrever a peça Détraquées e as impressões profundas que ela lhe havia impregnado...

"A falta de indicações suficientes sobre o que acontece depois da [cena] da caída da bola na sala, sobre Solange e sua parceira poderem perfeitamente ser a presa e se transformarem em soberbas predadoras, continua até hoje, por excelência, o que mais me confunde. De manhã, ao despertar, tive mais trabalho que de costume para me desvencilhar de um sonho bastante infame, que não vejo a menor necessidade de transcrever aqui, pois decorre em grande parte de conversas que tive ontem, sobre um assunto inteiramente diverso. Esse sonho me pareceu interessante na medida em que era sintomático da repercussão que tais lembranças, por menos que a elas nos entreguemos com violência, podem ter sobre o curso do pensamento. É notável, desde logo, observar que o sonho de que se trata não expunha senão o lado penoso, repugnante, ou mesmo atroz, das considerações a que eu me entregara, destruindo cuidadosamente todo o fabuloso valor que essas considerações representam para mim, tal como um extrato de âmbar ou de rosa que atravessasse os séculos. Por um lado, é preciso admitir que se eu me desperto, vendo com extrema lucidez o que aconteceu por último: um inseto verde-musgo, de uns ciquenta centímetros, que havia tomado lugar de um velho, e avança em direção a uma espécie de aparelho automático; põe uma moeda na ranhura, uma em vez de duas, o que me parece constituir uma fraude particularmente repreensível, a tal ponto que, como que por descuido, lhe ter dado uma bengalada e tê-lo feito cair na minha cabeça - tive tempo de perceber as bolas de seus olhos brilharem na aba de meu chapéu, depois me engasguei, e custaram a retirar da minha garganta duas de suas patas aveludadas, enquanto eu sentia uma repugnância inexprimível -, é claro que, superficialmente, isto guarda uma relação sobretudo com o fato de existir, no forro do estúdio onde fiquei nesses últimos dias, um ninho, em torno do qual se agita um passarinho meio assustado com a minha presença, a cada vez que traz lá dos campos, piando, alguma coisa como um gafanhoto verde, mas é indiscutível que na transposição, na intensa fixação, na passagem, de outra forma inexplicável, de uma imagem desse tipo do plano da observação sem interesse para o plano emotivo, concorrem em primeiro lugar a evocação de certos apisódios de Détraquées e a volta àquelas conjecturas de que havia falado. Porque a produção de imagens de sonho depende sempre pelo menos desse duplo jogo de espelhos, nela encontramos a indicação do papel muito especial, sem dúvida eminentemente revelador, no mais alto grau "supradeterminante", no sentido freudiano, que certas impressões muito fortes são chamadas a desempenhar, nada contamináveis pela moralidade, verdadeiramente percebidas "acima do bem e do mal" no sonho e, em seguida, no que lhes opomos muito sumariamente sob o nome de realidade."
(André Breton: Nadja, pags. 54-55)