segunda-feira, 17 de março de 2008

Genocídio no Tibet


17/3/2008

‘É um genocídio cultural e eu sozinho não posso estancá-lo’, afirma o Dalai Lama


“O senhor pode estancar as revoltas’, perguntam os jornalistas ao Dalai Lama em Dharamsala, na Índia.

Sério, Dalai Lama responde:

“Eu não tenho este poder. Trata-se de um movimento popular e eu me considero um servo, um porta-voz do meu povo. Além disso, eu sou totalmente a favor dos princípios da democracia, da liberdade de expressão, de pensamento. Não posso pedir às pessoas para fazer ou não fazer isto ou aquilo. O que fizerem ou queiram fazer, não sou o seu controlador”. A reportagem é do jornal Repubblica, 18-03-2008.





Ele não espera pela outra pergunta. Quer fazer compreender que nem por isso concorda com as violências.

“Na realidade, creio que todos sabem qual é a minha posição. Todos sabem que o meu princípio é a completa não violência, porque a violência é quase um suicídio. Mas, admita ou não o governo chinês, há um problema. A nação tibetana, a sua antiga cultura morre. Todos o sabem”. “Então eu peço – retoma – por favor, investiguem sozinhos, se possível o faça uma instituição respeitada de nível internacional, indague sobre o que aconteceu, sobre a situação e qual é a causa. Todos querem saber: Quem criou estes problemas agora?”

E novamente repete:

“Intencionalmente ou não, assistimos a uma forma de genocídio cultural. É um tipo de discriminação: os tibetanos, na sua terra, muitas vezes são cidadãos de segunda classe. Recentemente as autoridades locais pioraram a sua atitude para com o budismo tibetano. É uma situação muito negativa. Há restrições e a assim chamada “reeducação política” nos mosteiros...”.




E continua:

“Entre os tibetanos que vêm até aqui é crescido o ressentimento, inclusive alguns tibetanos comunistas, que trabalham em diversos departamentos e escritórios chineses. Ainda que sejam ideologicamente comunistas, eles levam no coração a causa do seu povo. Segundo estas pessoas, mais de 95% da população é muito, muito ressentida. Esta é a principal razão dos protestos, que reúnem monges, monjas, estudantes, pessoas comuns”.

E denuncia:

“Pequim confia na sua força para simular a paz, mas é uma paz criada com o terror. Isso acontece há cinqüenta anos e agora há uma nova geração, e também com ela eles têm a mesma atitude. Certamente que eles podem controlar o povo, mas não a sua mente”.

Quanto aos jogos olímpicos, Dalai Lama afirma:

“É a comunidade internacional que tem a responsabilidade moral de recordar à China de ser uma bom país hospitaleiro. Já disse que a China tem o direito de fazer os jogos e que o povo chinês tem a necessidade de sentir-se orgulhoso por isso”.

quinta-feira, 13 de março de 2008

É proibido viajar


Por: CONTARDO CALLIGARIS




(Extraído de: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1303200826.htm)


A modernidade, que começou com a livre circulação, acaba proibindo a viagem

NO EPISÓDIO dos jovens pesquisadores brasileiros barrados em Madri, as autoridades espanholas agiram como se o cônsul-geral do Brasil contasse lorotas para facilitar o trânsito de imigrantes ilegais. O desrespeito justifica a "retaliação" brasileira.
No mais, a cada dia, as fronteiras do mundo (não só do primeiro) barram alguém que tenta viajar, sobretudo se for jovem, solteiro e sem as aparências de uma "vida feita".
Ao atravessar uma fronteira, o passaporte prova que estamos em paz com a Justiça de nosso país. As outras nações devem decidir se somos hóspedes desejáveis. Nas últimas décadas, as "condições" para ser desejável se multiplicaram. Hoje, no caso da Espanha: 1) 70 por dia de permanência planejada; 2) passagem de volta marcada; 3) reserva de hotel, já pago; 4) para quem se hospedar com parentes, formulário preenchido pelos mesmos; 5) quem se desloca para trabalhar deve dispor de um contrato assinado. Normas muito parecidas valem na maioria dos países.
O escândalo é que essas condições podem nos parecer "aceitáveis". Afinal, qualquer Estado quer proteger o emprego de seus cidadãos impedindo a chegada de imigrantes não-autorizados, não é? Pois é, Michel Foucault é mesmo o pensador para os nossos tempos: o sistema social e produtivo dominante ordena nossas vidas furtivamente, convencendo-nos de que não há opressão, mas apenas necessidades "racionais". Se achamos essas regras "aceitáveis", é porque já adotamos a idéia de que, no nosso mundo, só é legítimo ter moradia fixa e profissão estável.
As pessoas com moradia fixa podem, quando elas dispõem dos meios necessários, adquirir uma passagem de ida e volta e sair de seu lar seguindo um programa pré-estabelecido -ou seja, podem ser, ocasionalmente, turistas.
Escárnio: prefere-se que os turistas sejam otários, pagando de antemão. Há uma pousada melhor da que estava prevista? Você quer encurtar a viagem? Pena, você já pagou. Mas isso é o de menos. Importa o seguinte. A modernidade, que começou com a circulação (livre ou forçada) de todos os agentes econômicos, acaba parindo, nem mais nem menos, a proibição da viagem. Como assim? Pois é, viajar não tem nada a ver com férias num resort ou com ser transportado de cidade em cidade para que os cicerones nos mostrem as coisas "memoráveis".
Para começar, viajar é usar uma passagem só de ida.
- Quanto tempo você vai ficar?
- Não faço a menor idéia. Um dia? Três meses? Um ano?
- E você vai para onde?
- Não sei. Talvez eu curta uma pequena enseada, alugue um quarto numa casa de pescadores e fique comendo caranguejos com os pés na areia. Talvez, já no avião ou pelas ruas de Barcelona, eu me apaixone por uma holandesa, um russo ou uma argelina e os siga até o país deles, por uma semana ou um mês.
Se a paixão durar, ficarei por lá.
- E o dinheiro?
- Não sei, meu amigo. Toco violão, posso ganhar um trocado numa esquina ou no metrô. Também posso lavar pratos, ajudar na colheita, cortar lenha, lavar carros e vender pulôveres. E, se a coisa apertar, tenho endereços de parentes e conhecidos que nem sabem que estou viajando, mas não me recusarão uma sopa e um banho quente. Além disso, em Paris, quando fecha o mercado da rua Saint Antoine, sobram na calçada as frutas e as saladas que não foram vendidas; em São Paulo, Londres e Nova York, conheço dezenas de igrejas que oferecem um pão com manteiga; em Varanasi, ao meio dia, distribuem riso com curry e carne aos peregrinos.
Cem anos depois da invenção do passaporte com fotografia, chegamos nisto: uma ordem que só permite se movimentar para consumir férias ou para se relocar segundo os imperativos da produção.
As regras que barram o viajante expressam nossa própria miséria coletiva: perdemos de vez o sentimento de que a vida é uma aventura. Preferimos a vida feita à vida para fazer.
Para quem quiser ler sobre a história da documentação de viagem, uma sugestão: "Invention of the Passport: Surveillance, Citizenship and the State" (invenção do passaporte: vigilância, cidadania e o Estado), de Torpey, Chanuk e Arup (Cambridge University Press).
Para quem quiser viajar, outra sugestão: a mentira, num mundo opressivo, é uma forma aceitável de resistência.

"Passagens são casas ou corredores que não tem lado exterior - como o sonhos"; Walter Benjamin e o sonho

Walter Benjamin, vocês já sabem, escreveu uma série de reflexões inspiradas nas chamadas passagens parisienses. Para ele essas peculiares "peças" arquitetônicas tinham um caráter intrigante: de serem internas-externas. Ou seja, as passagens parisienses refletem pelo menso dois aspectos da vida moderna: o processo de publicização da vida privada e a apresentação da contradição e o desvelamento da incapacidade da lógica hegemônica na filosofia ocidental de lidar com isso.
Mas o que quero destacar neste post são as associações que Walter Benjaimin faz com os sonhos. Desejo assim tentar instigar os colegas imersos nesse mundo, o onírico, a manifestar-se; tecendo comentários, críticas, ou reflexões resultantes no corpo deste texto.

Seguem alguns excertos:

"O tédio é um tecido cinzento e quente, forrado por dentro com a seda das cores mais variadas e vibrantes. Nele nós nos enrolamos quando sonhamos. Estamos então em casa nos arabescos de seu forro. Porém, sob essa coberta, o homem que dorme parece cinzento e entediado. E quando então desperta e quer relatar o que sonhou, na maioria das vezes ele nada comunica além desse tédio. Pois quem conseguiria com um só gesto virar o forro do tempo do avesso? E, todavia, relatar sonhos não é mais do que isso." [D, "O tédio, Eterno retorno", 2a, 1].

"O despertar como um processo gradual que se impõe na vida tanto do indivíduo quanto das gerações. O sono é seu estágio primário. A experiência da juventude de uma geração tem muito em comum com a experiência do sonho. Sua configuração histórica é configuração onírica. Cada época tem um lado voltado para os sonhos, o lado infantil. Para o século passado, isto aparece claramente nas passagens. Porém, enquanto a educação de gerações anteriores interpretava esses sonhos segundo a tradição, no ensino religioso, a educação atual volta-se simplismente à distração das crianças. Proust pôde surgir como um fenômeno sem precedentes apenas em uma geração que perdera todos os recursos corpóreos-naturais da rememoração e que, mais pobre do que as gerações anteriores, estivera abandonada à própria sorte, e, por isso, conseguira apoderar-se dos mundo infantis apenas de maneira solitária, dispersa e patológica. O que é apresentado a seguir é um ensaio sobre a técnica do despertar. Uma tentativa de compreender a revolução dialética, copernicana, da rememoração". [K, "Cidade dos sonhos e Morada dos sonhos, Sonhos e futuro, Niilismo Antropológico, Jung", 1, 1]

"A revolução copernicana na visão histórica é a seguinte: considerava-se como ponto fixo 'o ocorrido' e conferia-se ao presente o esforço de se aproximar, tateante, do conhecimento desse ponto fixo. Agora esta relação deve ser invertida, e o ocorrido, tornar-se a reviravolta dialética, irromper da consciência desperta. Atribui-se à política o primado sobre a história. os fatos tornam-se algo que acaba de nos tocar, e fixá-los é tarefa da recordação. E, de fato, o despertar é o caso exemplar da recordação: o caso no qual conseguimos recordar aquilo que é mais próximo, mais banal, mais ao nosso alcance. O que Proust quer dizer com a mudança experimental dos móveis no estado de semidormência matinal, o que Bloch percebe como a obscuridade do instante vivido, nada mais é do que aquilo que se estabelecerá aqui no plano da história, e coletivamente. Existe um saber ainda-não-consciente do ocorrido, cuja promoção tem a estrutura do despertar". [K, 1, 2]

"Existe uma experiência da dialética totalemente singular. A experiência compulsória drástica, que desemente toda 'progressividade' do devir e comprova toda aparente 'evolução' como reviravolta dialética eminente e cuidadosametne composta, é o despertar do sonho. (...) O método novo, dialético, de escrever a história apresenta-se como a arte de experienciar o presente como o mundo da vigília ao qual se refere o sonho que chamamos de o ocorrido. Elaborar o ocorrido na recordação do sonho! - Quer dizer: recordação e despertar estão intimamente relacionados. O despertar é, com efeito, a revolução copernicana e dialética da rememoração". [K, 1, 3]

"(...) assim como aquele que dorme - e que nisto se assemelha ao louco - dá início à viagem macrocósmica através de seu corpo, e assim como os ruídos e sensações de suas próprias entranhas, como a pressão arterial, os movimentos peristálticos, os batimentos cardíacos e as sensações musculares - que no homem sadio e desperto se confundem no murmúrio geral do corpo saudável - produzem, grças à inaudita acuidade de sua sensibilidade interna, imagens delirantes ou oníricas que traduzem e explicam tais sensações, assim também ocorre com o coletivo que sonha e que, nas passagens, mergulha em seu próprio interior. É a ele que devemos seguir...". [K, 1, 4]

"É um dos pressupostos da psicanálise que a oposição categórica entre sono e vigília não tem valor algum para determinar a forma de consciência empírica do ser humano, mas cede lugar a um infinita variedade de estados de consciência concretos, cada um deles determinado pelo grau de vigília de todos os centros possíveis. Basta, agora, transpor o estado da consciência, tal como aparece desenhado e seccionado pelo sonho e pela vigília, do indivíduo para o coletivo. Para este, são naturalmente interiores muitas coisas que são exteriores para o indivíduo. A arquitetura, a moda, até mesmo o tempo atmosférico, são, no interior do coletivo, o que processos orgânicos, o sentimento de estar doente ou saudável são no interior do indivíduo. E, enquanto mantêm sua forma onírica, inconsciente e indistinta, são processos tão naturais quanto a digestão, a respiração etc. Permanecem no ciclo da eterna repetição até que o coletivo se apodere deles na política e qando se trasnformam, então, em história". [K, 1, 5]

terça-feira, 11 de março de 2008

Ernesto Laclau: 1968 e a construção de um novo discurso político

Laclau










"Para o pensador argentino Ernesto Laclau, “a importância do Maio de 68 se articula dentro de um projeto de construção política viável”. Na entrevista que concedeu por telefone para a IHU On-Line, ele fala sobre a herança do episódio de maio de 1968 na França, sobre democracia, sobre os novos movimentos da política latino-americana e sobre populismo. Ernesto Laclau é um dos filósofos mais lúcidos da política contemporânea. Vive em Londres há cerca de 40 anos. Atualmente, é professor de teoria política na Universidade de Essex, Inglaterra, e na Northwestern University. É licenciado em História pela Universidade de Buenos Aires e obteve o PhD pela Universidade de Essex. Entre seus livros traduzidos para o português, citamos Política e ideologia na teoria marxista: capitalismo, fascismo e populismo (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979) e Misticismo, retórica y política (Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2002). Com Chantal Mouffe, escreveu o importante livro Hegemony & socialist strategy: towards a radical democratic politics (London: Verso, 1985). "


Por: Graziela Wolfart e Márcia Junges, 10/03/2008


IHU On-Line - Quais são os maiores impasses e desafios da democracia atualmente?


Ernesto Laclau –
Isso depende muito de que parte do mundo estamos falando. No caso da América Latina, as principais dificuldades são a possibilidade de organizar uma alternativa continental ao projeto norte-americano. Creio que, nesse momento, a democracia no continente depende da consolidação de regimes populares que estão surgindo, mas que têm claras dificuldades de implementação.

IHU On-Line – Passados 40 anos do Maio de 1968, em que consiste, especificamente, o conceito de democracia radical que o senhor e Chantal Mouffe defendem?


Ernesto Laclau –
Creio que 1968 foi muito importante na construção de um discurso político novo. Mas precisamos ver também as limitações que esse discurso teve em seu momento. Em primeiro lugar, Maio de 1968 foi um evento europeu. E esse evento europeu teve lugar num momento em que se autonomizavam uma série de lutas que aconteciam nos Estados Unidos e na Europa. Tudo isso criou uma idéia de uma certa autonomia das lutas sociais, o que antes não havia. Por exemplo, nos anos posteriores à Segunda Guerra Mundial, houve um avanço das lutas democráticas na Europa Ocidental sob a hegemonia dos partidos comunistas. Isso significou um avanço da democracia, e na Itália ficou muito claro. Mas, quando chegamos aos anos 1960, o que vemos é uma irrupção de novas forças que já não podiam ser absorvidas dentro do universo simbólico comunista tradicional. No entanto, os limites dessa experiência também estão claros: não se pode chegar a uma autonomização das lutas sem fazer um esforço para modificar também os sistemas de relações políticas.

IHU On-Line - Esse tipo de democracia resultaria em uma concepção agonística de política, inspirada nos moldes gregos, primando pelo respeito à alteridade e pela não homogeneização do sujeito. Poderia explicar melhor essa idéia?

Ernesto Laclau –
Sim, claro. O que ocorre é que, por exemplo, se pensarmos pelo marxismo clássico, temos uma teoria de uma homogeneização das lutas sociais. A idéia central da estratégia política do marxismo clássico foi a de que a sociedade capitalista estava avançando para uma simplificação da estrutura social. As classes médias estariam fadadas a desaparecer e, ao final da história, teríamos uma confrontação radical entre a burguesia e a massa proletária homogênea. Evidentemente, a história não avançou nessa direção. O que se deu foi uma heterogeneização da estrutura social e, então, o problema da articulação política entre pontos de ruptura, que são muito distintos em sua natureza, passaram a ocupar o lugar central.

IHU On-Line - Qual é a maior importância do Maio de 1968?

Ernesto Laclau –
Creio que 1968 representou um momento de ruptura dentro da política de esquerda européia e dentro da política norte-americana, nos momentos de protesto contra a Guerra do Vietnã. Ou seja, alcançou a explosão de novos antagonismos, novas demandas e novos valores. De outro lado, 1968 não chegou a constituir o imaginário hegemônico, que poderia mostrar a definição de um novo tipo de estado. E, depois, explosões similares, como, por exemplo, o referendo do NÃO, que aconteceu na Europa, no ano passado, não chegou a se traduzir numa formulação política de tipo novo. Ou seja, creio que a política tem duas faces. Uma é de caráter ruptural, e a outra é a de transformar esse momento ruptural na base para uma nova reestruturação do Estado. Deste ponto de vista, 1968 precisaria mostrar suas potencialidades, o que não acontece até o momento.

IHU On-Line – Qual é a maior herança que o Maio de 68 deixou para a política e a democracia latino-americana?

Ernesto Laclau –
Em primeiro lugar, 1968 foi, do ponto de vista da América Latina, algo muito distinto. Na Argentina, assistimos a toda a experiência do Cordobazo e todas as mobilizações, mas não foi uma conseqüência direta do Maio de 68 na Europa. Mas, em termos de imaginário político, o episódio teve importância universal. Insisto que a importância não deve se transformar no absoluto. A importância do Maio de 68 se articula dentro de um projeto de construção política viável.

IHU On-Line - Como a democracia radical conjuga o respeito pela alteridade e a autonomia do sujeito moderno?

Ernesto Laclau –
O que está claro é que a situação atual, num capitalismo globalizado, no qual estamos avançando, traz uma pluralização dos pontos de ruptura e antagonismo. Ou seja, a questão é como unir forças que partem de pontos de luta muito diferentes. Por exemplo, no Fórum Social Mundial, de Porto Alegre, há uma pluralidade enorme de workshops que se dedicam a criar problemas muito específicos (sobre as mulheres em Zimbábue, os gays na Califórnia etc.). Mas, com o tempo, há um esforço de criar uma certa “linguagem comum” que transite entre todos esses temas. Ou seja, o que estamos criando, de alguma maneira, me parece, é uma nova forma de universalismo, que produz efeitos políticos de grande alcance.

IHU On-Line - Como o senhor interpreta a exaustão política dos eleitores expressa através da apatia (votos brancos, nulos, abstenções), ou, em outros termos, do niilismo passivo? O que essa postura revela sobre a democracia atual?

Ernesto Laclau –
Aqui temos que distinguir entre áreas geográficas. Por exemplo, se pensarmos na Argentina, o que aconteceu depois da crise econômica de 2001, a mais séria que o país sofreu, foi uma expansão horizontal enorme dos protestos sociais. Começaram as recuperações de fábricas, as mobilizações dos piqueteiros, e outras mobilizações de vários tipos. Isso, no entanto, não se traduz imediatamente ao nível do sistema político, porque, então, o lema era “que se vayan todos”. Kirchner manteve uma política de tratar de unir a proliferação horizontal dos protestos sociais à sua influência vertical dentro da estrutura política. Ou seja, com muitas dificuldades, está se criando um duplo processo, que teria de avançar em duas direções. Eu creio que na América Latina, em geral, essa é a situação. Se passarmos para a Europa, a questão é diferente. O que acontece lá é uma unificação dos setores dominantes. Por exemplo, se na França ganham os socialistas ou a direita, não temos uma diferença tão grande, porque os dois pertencem ao mesmo extrato tecnocrático. Não digo que isso não esteja acontecendo na América Latina, também de alguma maneira está acontecendo. Mas há opções de caráter mais radical.

IHU On-Line - Como o senhor percebe e define a atuação da Nova Esquerda na América Latina? Quais são os principais desafios que ela tem pela frente?

Ernesto Laclau –
Eu acredito que, na América Latina, nós temos duas esquerdas: uma é a tradicional, a do “Partidão”, e que está praticamente desaparecendo em todos os lados. Resquícios dessa esquerda tradicional podem ser vistos na Argentina, na Venezuela, com o partido comunista, e no Brasil também. De outro lado, as opções continentais do que pode ser uma nova esquerda são muito mais amplas. Creio que, se pensarmos na possibilidade de uma nova esquerda na Argentina, isso está muito mais ligado ao kirchnerismo do que aos partidos que se consideravam tradicionalmente de esquerda. De outro lado, há, em alguns países que tem mantido a estrutura mais clássica, como o Uruguai e o Chile, uma esquerda de tipo mais tradicional, mas com um sistema político que é menos permeável aos novos processos de mudança.

IHU On-Line – Quem, na política latino-americana, hoje pode ser apontado como um líder populista? Em que sentido o populismo interfere na questão da democracia?

Ernesto Laclau -
Para mim, populismo não é um termo pejorativo, como o é para muitos cientistas sociais. Vejo o populismo como um tipo de discurso que trata de dicotomizar o espaço social entre os “de cima” e os “de baixo”. Esse discurso poderia ir numa direção de direita e numa direção de esquerda. Isso não quer dizer que algo é bom por ser populista. Pode ir em direções completamente diferentes. No entanto, contemplo uma situação na qual a multiplicação dos pontos de ruptura e antagonismo não pode ser reduzida a uma unidade, como era aquela de classe no sentido da esquerda tradicional. No momento atual da articulação política, uma dimensão populista será uma característica central de qualquer nova esquerda. Há muitos líderes populistas na América Latina hoje. Há Chávez, Cristina Kirchner e Ollanta Humala, o líder peruano que perdeu as últimas eleições. No caso do Brasil, o problema é mais complexo. Porque o Brasil, tradicionalmente, teve uma extrema regionalização da política. Vamos comparar Vargas e Perón. Este último era líder de um movimento unificado, porque ao redor das três grandes cidades (Rosário, Córdoba e Buenos Aires), há toda uma classe operária e industrial no centro dessa política. Enquanto isso, no Brasil, o que temos é um regionalismo real. Então, Vargas precisou ser bom articulador para diferentes classes. De um ponto de vista populista, isso era muito mais complexo. Lula tem mantido um equilíbrio. Eu sou menos crítico a Lula do que alguns. Penso que Lula conseguiu alguns feitos importantes. Na reunião de Mar Del Plata, o projeto da Alca não se implementou, em boa medida, porque o Brasil se opôs. Lula está fazendo um papel de ponte entre vários projetos latino-americanos. Eu, pessoalmente, tenho simpatia pela sua política. Lula pode ser apontado como populista até certo ponto. Ele tem que dirigir um sistema político no qual sempre haverá um certo equilíbrio entre o populismo e o institucionalismo.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Maio de 1968. 40 anos depois.
















Como em toda revolução sonhadora, nem todos os objetos de desejo são alcançados. Nas reivindicações de maio de 1968, em especial, não foi diferente. Entretanto, grupos até então excluídos da sociedade passaram a representar maior espaço no poder, lutando por ideais, respeito e reconhecimento.




Essa atitude, explica o psicanalista Benilton Bezerra Jr., em entrevista especial à IHU On-Line, por telefone, gerou uma mudança de paradigma. Mas a revolução sexual e as conquistas da subjetividade individual também sofreram distorções, pois, em grande medida, “se transformaram de um direito conquistado em uma espécie de obrigação de cada um”.

Essas mudanças, garante o pesquisador, são conseqüências de um movimento maior, surgido com o “desaparecimento do campo da política”. O engajamento coletivo presente em 68 desapareceu, abrindo espaço, conseqüentemente, para a exacerbação do individualismo.

Bezerra Jr. é graduado em Direito e em Medicina, mestre em Medicina Social e doutor em Saúde Coletiva, pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Atualmente, é membro do Instituto Franco Basaglia e atua como docente adjunto do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, e pesquisador do PEPAS (Programa de Estudos e Pesquisas sobre Ação e Sujeito) da UERJ.


IHU On-Line - Uma das marcas de Maio de 68 foi a ampla crítica dos jovens ao sistema. Eles contestaram a construção da família, a tradição, as proibições, a moral, os tabus. O que essas manifestações expressas através dos gritos de ordem “É proibido proibir” e “O poder está nas ruas” significaram?

Benilton Bezerra Jr. – Maio de 68 foi um acontecimento com múltiplas dimensões e várias conseqüências. Uma delas, talvez a principal, foi a capacidade de tal movimento abalar, de certa forma, várias estruturas de pensamento e de organização do poder, além de influir decisivamente na politização da vida cotidiana. Este impacto se expressou no plano da política por meio da crítica aos impérios ainda existentes e aos sistemas de poder estabelecidos. Ou seja, houve uma crítica, no plano da macropolítica, aos impasses e conflitos estruturais no mundo capitalista e soviético. Assim, surgiu a idéia de que as formas de organização e de exercício do poder precisavam ser renovadas.

Essa posição gerou também conseqüências no campo da micropolítica. Palavras de ordem, como “É proibido proibir”, ou “O poder está nas ruas”, acabaram implicando, em maio de 68, uma confluência do movimento estudantil e dos trabalhadores franceses. É preciso lembrar que essa foi uma manifestação popular, na qual mais de dez milhões de trabalhadores aderiram a greves, questionando o poder do Estado.

Esse período proporcionou a criação de um espaço para novos temas políticos, por exemplo, no que se refere à condição feminina, dos negros, dos homossexuais e das minorias em geral. Essas temáticas e esses grupos, na maneira de pensar a política até maio de 68, eram, de alguma maneira, sistematicamente, colocados em segundo plano. Assim, os acontecimentos da época significaram a emergência de uma nova agenda política que contemplava questões e conflitos antes subordinados às grandes bandeiras políticas e sociais.

IHU On-Line – Assim, esse período contribui para sacudir os valores da velha sociedade e estabelecer novos padrões no que se refere à sexualidade e prazer? Ou essa foi apenas uma revolução sonhadora?

Benilton Bezerra Jr.
– Sem dúvida, foi um movimento sonhador. Talvez essa tenha sido a grande marca de 68. Uma das frases mais famosas da época, registrada nos muros e paredes, dizia: “Sejamos realistas, peçamos o impossível”. Isso mostra que a idéia de se fazer uma revolução, ou seja, mudar pensando no impossível e quebrar paradigmas que pareciam estáticos, esteve presente, nesse período, em todas as manifestações ocorridas no mundo. Contudo, como toda revolução sonhadora, ela nunca, de fato, realizou, pelo menos inteiramente, os sonhos que a inspiraram. No que se refere ao estabelecimento de novos padrões, Maio de 68 está vinculado a outros movimentos que mudaram muito a sociedade. Um exemplo de manifestação que passou a reivindicar valor político, e que realmente teve conseqüências profundas na sociedade, foi a que envolveu uma crítica à cultura patriarcal, machista e à nova maneira de pensar as identidades sexuais. O fato de termos hoje, na eleição americana, um negro e uma mulher disputando a presidência mostra uma vinculação com o que se mudou em 1968.

IHU On-Line – Qual foi o principal legado desse movimento? Alguns militantes da época disseram que esse período mostrou que é mais provável mudar a si mesmo do que mudar o mundo. O senhor concorda?

Benilton Bezerra Jr.
– Não é mais provável mudar a si mesmo do que mudar o mundo. Na verdade, mudar a si mesmo sem mudar o mundo é uma busca um pouco inútil. O que, de fato, esse período serviu para mostrar é que não podemos pensar em mudar o mundo sem também mudar a nós mesmos. O ser humano é um ser político, como já dizia Aristóteles , isto é, tudo que concerne a minha liberdade, singularidade e existência pessoal encontra maneiras de estar ligado à vida de todos. Isso é, talvez, o efeito mais interessante dos acontecimentos de 68 no pensamento sobre o projeto democrático. A idéia de democracia como horizonte que nunca se realiza plenamente, como idéia regulativa, como um processo ininterrupto e de construção de um mundo melhor, implica, ao mesmo tempo, a idéia de que as macroestruturas precisam se transformar, mas também que se sustentam apenas na medida em que os indivíduos que vivem nesse mundo também se colocam como agentes de mudança em suas existências pessoais.




IHU On-Line – Os jovens reinvindicaram uma revolução sexual, mas no século XXI a sexualidade ainda é considerada uma caixa-preta, um tabu não superado?

Benilton Bezerra Jr.
– Se tomarmos a idéia de revolução sexual como um movimento que transformou o sexo e a sexualidade numa questão política, isto é, a qual todo mundo pode e deve ter acesso, podemos dizer que maio de 68 alcançou um dos seus objetivos. A sexualidade não tinha o valor político de hoje e, não há, nem de longe, semelhança com o padrão de repressão existente antes. Nesse sentido, não é mais um tabu falar de sexo.

Se pensarmos numa segunda perspectiva, a de que a revolução sexual foi, a partir de 68, uma espécie de superação dos problemas que a sexualidade traz, então a perspectiva é um pouco diferente. Naquele período, havia a idéia de uma sexualidade totalmente livre da repressão, indivíduos completamente isentos de conflitos em relação à sua sexualidade e à plena fruição do prazer. Como todo sonho, essa foi uma utopia irrealizável.

Foucault disse, um pouco depois desse período, que houve uma ilusão por trás dessa idéia de que a liberdade sexual teria um poder revolucionário de libertação dos indivíduos. Ele dizia que a verdadeira superação do aprisionamento na sexualidade seria a possibilidade de deslocar a idéia de sexualidade do papel tão central que ocupou nos últimos 300 anos.

De liberdade à imposição

Embora a revolução sexual tenha trazido mais liberdade para o tema, dando a ele uma conotação política, por outro lado, ela, em muitos sentidos, acabou deslocando o prazer sexual para uma espécie de obrigação. Se há um efeito colateral da revolução sexual hoje em dia, é o de que o uso da sexualidade e a busca do prazer sexual se transformaram de um direito conquistado a uma espécie de obrigação de cada um. Então, o que foi, em algum momento, uma crítica e uma desmontagem de normas se transformou, ao longo das décadas, numa outra maneira de normatização. Desse modo, hoje é praticamente impossível fugir às redes da sociedade que indicam os modos mais adequados de fruição sexual.

IHU On-Line – Então, o senhor concorda com a tese de Jean-Claude Guillebaud (1) , em seu livro A tirania do prazer, de que é necessária uma revisão crítica dos resultados da revolução sexual de 68?

Benilton Bezerra Jr. –
Concordo com a idéia exposta na Tirania do prazer, porque, de fato, isso talvez seja um dos traços que caracteriza a cultura atual. Nós todos somos quase que instados a exibir a nossa capacidade de ter prazer e de estarmos tendo prazer. A idéia de que conflitos, dúvidas, tristezas, tédio e ambivalência fazem parte de uma vida normal e bem vivida praticamente desapareceu. Quer dizer, a norma de funcionamento subjetivo, hoje em dia, é a do prazer usufruído ininterruptamente, sem nenhum tipo de obstáculo, o que é, na verdade uma recusa do desejo, e não sua liberação.

Se essa mudança, por um lado, tem a ver com os acontecimentos de 68, por outro lado, é conseqüência de um movimento maior, mais estrutural. Refiro-me ao desaparecimento do campo da política, ou seja, à diluição da idéia de cidadania em prol da noção de defesa de consumidores, fazendo refluir inteiramente a idéia da política como a ação na qual as pessoas coletivamente discutem o presente com vistas para um futuro a ser construído. Essa imagem de construção de cenários futuros, de engajamento coletivo na construção de horizontes, ou seja, a idéia forte de política, que estava presente de maneira muito contundente em 68, desapareceu. Isso não se deu devido ao fracasso de 68, mas porque a política no mundo mudou. O mundo bi-polarizado deixou de existir. A imaginação de horizontes alternativos ruiu de forma que, hoje em dia, num mundo dominado pelo mercado, com o desaparecimento da política, o desmoronamento da tradição, da religião e das instituições como a família, a própria idéia de ação política sofreu um enorme revés. Neste espaço deixado vazio pela imaginação e engajamento político, a ideologia da felicidade encontrou seu lugar.

IHU On-Line – Houve, então, nessas quatro décadas, uma mudança de paradigma? Lutamos pela autonomia, mas necessitamos e somos dependentes de modelos de vida, de conceitos instituídos do que significa tradição, moral, família, religião, por exemplo? A sociedade vive uma crise de autoconhecimento e valores sociais?

Benilton Bezerra Jr. –
Em 68, havia a idéia de autonomia, de crítica aos padrões estabelecidos e às formas opressivas na vida política, cotidiana, amorosa. Esse conceito de autonomia era um centro de gravidade muito importante para esses grupos. No entanto, por um lado, surgiram movimentos localizados: negros, mulheres, imigrantes, homossexuais. No mesmo sentido, ocorreu um desmoronamento de grandes bandeiras universais que englobaram todos esses grupos em torno de uma visão de sociedade melhor a ser construída. Assim, conseqüentemente, a vida política foi se fragmentando na luta por interesses de grupos pequenos.

Por isso, atualmente, aqueles que têm, por exemplo, deficiências, formam seus grupos de ação política para defender seus direitos específicos. Com isso, a idéia de autonomia deixou de estar vinculada a uma noção que era fundamental na política, ou seja, à noção de que a autonomia de cada um se sustenta no exercício de autonomia coletiva.

A autonomia é, hoje, mais ou menos intuitivamente pensada como um direito do indivíduo de fazer o que bem lhe aprouver. Entretanto, como dizem, nenhum homem é uma ilha: ninguém consegue ser autônomo, a não ser num mundo de autônomos. Não é possível viver livre, sem que essa liberdade seja construída conjuntamente com outros indivíduos. Assim, a sociedade moderna vive uma situação um pouco paradoxal. De um lado, não nos sentimos tão obrigados quanto outras gerações a nos curvarmos frente a valores da moral, da família, da religião, da tradição. Poucas pessoas deixam de fazer alguma coisa porque é pecado, por exemplo, interpretando os fatos da sua maneira. Quer dizer, não há nenhum valor capaz de fazer com que nos curvemos de maneira inexorável. Nesse sentido, vivemos numa sociedade em que a idéia é a de que somos completamente livres e autônomos. No entanto, a mesma sociedade que cria isso tira a base desse indivíduo, de modo que ele se sente sempre dependente de alguma carta de orientação.

Autonomia ou dependência?

Como diz o sociólogo francês Alan Ehrenberg, vivemos uma sociedade da autonomia assistida, porque somos autônomos, mas nunca tivemos tantos profissionais a quem consultamos para saber como viver a nossa vida em cada um dos aspectos. Assim, temos liberdade para escolher, ao mesmo tempo em que não nos sentimos competentes para decidir. Desse modo, nos deixamos governar pelos modelos que são distribuídos na cultura e, sobretudo, pela mídia.

Uma autonomia, no sentido forte, implica em engajamentos e projetos coletivos e comuns. A liberdade vazia de direção é uma fantasia vivida por um indivíduo desorientado. Ele não é constituído num diálogo permanente com os grandes mapas da vida, que são as tradições, as ideologias, as grandes narrativas que orientam visões de mundo. Sem isso, é impossível saber para onde seguir.

IHU On-Line - A conquista pelos direitos do “eu” enquanto ser individualista gerou um novo problema para a sociedade, o que o senhor chama de exacerbação da autonomia e do individualismo? Ainda é possível resgatar a idéia de coletivo?

Benilton Bezerra Jr.
– Essa exacerbação é uma espécie de desenvolvimento natural da própria lógica do individualismo que constituiu o mundo moderno.

A idéia de democracia é inviável sem a idéia do valor central do indivíduo. A luta pela igualdade e o respeito à singularidade é possível com base no valor do indivíduo. No entanto, numa sociedade em que valores e horizontes coletivos ficam desmoralizados, a lógica do individualismo se torna exacerbada, girando muito mais em torno do narcisismo de cada um do que de uma ação coletiva de indivíduos que se juntam em função de objetivos comuns.

Não há dúvida de que falta alguma maneira de construção de novos horizontes coletivos de construção de um mundo melhor. A compreensão de que eu só garantirei a minha liberdade quando eu garantir a de todos, que só terei garantido a minha singularidade quando os outros tiverem também a sua garantida, e que todos tenham conforto, acesso à saúde, habitação, precisa de novo ser recolocada no imaginário social. E, de fato, hoje em dia, vivemos o refluxo dessa idéia.

IHU On-Line – Alguns grupos, naquele período, seguiram o maoísmo. Como explicar a reivindicação por direitos democráticos através da luta armada?

Benilton Bezerra Jr.
– Esses grupos terroristas dos anos 1970 surgiram no refluxo do movimento de 68. Naquele momento a esquerda se dividiu. A esquerda mais representada entre os estudantes foi para um lado, e a mais tradicional, ligada aos partidos comunistas e aos países socialistas, acabaram estabelecendo uma forma de acordo com o governo francês, de modo a fazer retroceder aquele movimento, com medo do que viria depois.

Nas eleições que se seguiram a Maio de 68, os grupos que apoiaram o De Gaulle , ganharam com maioria absoluta no congresso francês. O que aconteceu é que, logo depois daquela explosão enorme da mudança, houve um recuo enorme daquele movimento de mudança, o que desmoralizou em boa parte o processo da política partidária, o movimento sindical. Desse modo, muitos grupos caíram em ações extremadas e perderam a sua vinculação com o movimento de massas. Esses terroristas de esquerda tinham a pretensão de ficarem ligados a um movimento de transformação social, mas passaram a ser isolados.

IHU On-Line - Lacan dizia que a “a revolução é feita para manter a ordem”. Levando em consideração o movimento de 68, podemos dizer que os jovens queriam manter a ordem, mas estabeleceram uma nova ordem?

Benilton Bezerra Jr
. – Os jovens de 68 tinham uma percepção aguda do quanto havia, na ordem estabelecida então, coisas a serem transformadas profundamente. Por isso, eles criticavam a sociedade patriarcal e a opressão da mulher, por exemplo. Inspiravam-se na idéia de que a sociedade poderia ser muito mais livre, fraterna, igualitária do que era até então. Assim, pode-se dizer que eles foram herdeiros da Revolução Francesa, ocorrida dois séculos antes.

Quando se pensou que outra ordem poderia se estabelecer no lugar, as coisas se complicaram. Do ponto de vista do movimento internacional em 68, a alternativa que se oferecia para eles, do sistema vigente nos países do chamado socialismo real, era criticada pelos próprios revolucionários. Por outras razões, os jovens criticavam acertadamente esse socialismo, pois viam o quanto a bandeira libertaria do socialismo havia se transformado numa ordem com muitos traços opressores. Então, eles tinham o martelo para derrubar a ordem, mas não o cimento para construir uma outra ordem.

De fato, o que se pode dizer é que havia, entre os grupos que se movimentaram em 68, desde aqueles que tinham idéia de que tipo de sociedade queriam colocar no lugar, até aqueles que simplesmente, numa expressão mais anarquista, estavam preocupados em demolir o que vinha antes.

Nota:

1.- Jean-Claude Guillebaud: jornalista, ensaísta e diretor literário da prestigiada Editora francesa Seuil; autor de diversas obras, entre elas A tirania do prazer – Prêmio Renaudot de Ensaio, (Cidade, Editora, ano) 1998 e A reinvenção do mundo. Recentemente, publicou Comment je suis redevenu chrétien. Paris: Albin Michel, 2007. No Brasil, acaba de ser traduzido A força da convicção. Bertrand Brasil, 2007.

domingo, 9 de março de 2008

mais ou menos assim:

quero introduzir um assunto que é: CIDADE. Vamos lá, tipo PARIS! Muito já se escreveu, já se falou, inclusive muitos já se suicidaram em Paris. Qual é a energia ou então o quê que faz uma cidade ser praticamente uma entidade, um ser? Por mim Paris e um louco/intenso amor estão presentes ali. Benjamim escreveu, quantos escritores ali viveram e lá realizaram tudo, ou talvez o mais significativo de sua obra? E quantos lá não nasceram, apenas por lá passaram, mas assim que lá pisaram pronto, produziram o que havia de melhor em si?
Mas então qual é?
A cidade é um ente?

Uma estrofe de um poema de alguém que escolheu Paris pra se matar (Mário de Sá Carneiro, poeta português da geração de F. Pessoa. Matou-se aos 26 anos tomando doses excessivas do veneno estricnina):

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

segunda-feira, 3 de março de 2008

O Universo como um Holograma


O Universo como um Holograma

FONTE: http://216.239.51.104/search?q=cache:oo1ZuKDLbmEJ:www.holoalternativo.com/Universo



Existe uma Realidade Objetiva ou o Universo é um Fantasma?

Em 1982 ocorreu um fato muito importante. Na Universidade de Paris uma equipe de pesquisa liderada pelo físico Alain Aspect realizou o que pode se tornar o mais importante experimento do século 20. Você não ouviu falar sobre isto nas notícias da noite. De fato, a menos que você tenha o hábito de ler jornais e revistas científicos, você provavelmente nunca ouviu falar no nome de Aspect.

E há muitos que pensam que o que ele descobriu pode mudar a face da ciência.

Aspect e sua equipe descobriram que sob certas circunstâncias partículas subatômicas como os elétrons são capazes de instantaneamente se comunicar umas com as outras a despeito da distância que as separe. Não importa se esta distância é de 10 pés ou de 10 bilhões de milhas. De alguma forma uma partícula sempre sabe o que a outra está fazendo. O problema com esta descoberta é que isto viola a por muito tempo sustentada afirmação de Einstein que nenhuma comunicação pode viajar mais rápido do que a velocidade da luz. E como viajar mais rápido que a velocidade da luz é o objetivo máximo para quebrar a barreira do tempo, este fato estonteante tem feito com que muitos físicos tentem vir com maneiras elaboradas para descartar os achados de Aspect.

Mas também tem proporcionado que outros busquem explicações mais radicais.

O físico da Universidade de Londres, David Bohm, por exemplo, acredita que as descobertas de Aspect implicam em que a realidade objetiva não existe, que a despeito da aparente solidez o universo está no coração de um holograma fantástico, gigantesco e extremamente detalhado. Para entender porque Bohm faz esta afirmativa surpreendente, temos primeiro que saber um pouco sobre hologramas. Um holograma é uma fotografia tridimensional feita com a ajuda de um laser.

Para fazer um holograma, o objeto a ser fotografado é primeiro banhado com a luz de um raio laser. Então um segundo raio laser é colocado fora da luz refletida do primeiro e o padrão resultante de interferência (a área aonde se combinam estes dois raios laser) é capturada no filme. Quando o filme é revelado, parece um rodamoinho de luzes e linhas escuras. Mas logo que este filme é iluminado por um terceiro raio laser, aparece a imagem tridimensional do objeto original.

A tridimensionalidade destas imagens não é a única característica importante dos hologramas. Se o holograma de uma rosa é cortado na metade e então iluminado por um laser, em cada metade ainda será encontrada uma imagem da rosa inteira. E mesmo que seja novamente dividida cada parte do filme sempre apresentará uma menor, mas ainda intacta versão da imagem original. Diferente das fotografias normais, cada parte de um holograma contém toda a informação possuída pelo todo.

A natureza de "todo em cada parte " de um holograma nos proporciona uma maneira inteiramente nova de entender organização e ordem. Durante a maior parte de sua história, a ciência ocidental tem trabalhado dentro de um conceito que a melhor maneira para entender um fenômeno físico, seja ele um sapo ou um átomo, é dissecá-lo e estudar suas partes respectivas. Um holograma nos ensina que muitas coisas no universo não podem ser conduzidas por esta abordagem. Se tentamos tomar alguma coisa à parte, alguma coisa construída holograficamente, não obteremos as peças da qual esta coisa é feita, obteremos apenas inteiros menores.

Este "insight" é o sugerido por Bohm como outra forma de compreender os aspectos da descoberta de Aspect. Bohm acredita que a razão que habilita as subpartículas a permanecerem em contacto umas com as outras a despeito da distância que as separa não é porque elas estejam enviando algum tipo de sinal misterioso, mas porque esta separação é uma ilusão. Ele argúe que em um nível mais profundo de realidade estas partículas não são entidades individuais, mas são extensões da mesma coisa fundamental.

Para capacitar as pessoas a melhor visualizarem o que ele quer dizer, Bohm oferece a seguinte ilustração: Imagine um aquário que contém um peixe. Imagine também que você não é capaz de ver este aquário diretamente e seu conhecimento deste aquário se dá por meio de duas câmaras de televisão, uma dirigida ao lado da frente e outra a parte lateral.

Quando você fica observando atentamente os dois monitores, você acaba presumindo que o peixe de cada uma das telas é uma entidade individual. Isto porque como as câmeras foram colocadas em ângulos diferentes, cada uma das imagens será também ligeiramente diferente. Mas se você continua a olhar para os dois peixes, você acaba adquirindo a consciência de que há uma relação entre eles.

Quando um se vira, o outro faz uma volta correspondente apenas ligeiramente diferente; quando um se coloca de frente para a frente, o outro se coloca de frente para o lado. Se você não sabe das angulações das câmeras você pode ser levado a concluir que os peixes estão se intercomunicando, apesar de claramente este não ser o caso.

Isto, diz Bohm, é precisamente o que acontece com as partículas subatômicas na experiência de Aspect. Segundo Bohm, a aparente ligação mais-rápido-do-que-a-luz entre as partículas subatômicas está nos dizendo realmente que existe um nível de realidade mais profundo da qual não estamos privados, uma dimensão mais complexa além da nossa própria que é análoga ao aquário. E ele acrescenta, vemos objetos como estas partículas subatômicas como se estivessem separadas umas das outras porque estamos vendo apenas uma porção da realidade delas.

Estas partículas não são partes separadas mas sim facetas de uma unidade mais profunda e mais subliminar que é holográfica e indivisível como a rosa previamente mencionada. E como tudo na realidade física está compreendido dentro destes "eidolons", o próprio universo é uma projeção, um holograma.

Em adição a esta natureza fantástica, este universo possuiria outras características surpreendentes. Se a aparente separação das partículas subatômicas é uma ilusão, isto significa que em nível mais profundo de realidade todas as coisas do universo estão infinitamente interconectadas.

Os elétrons num átomo de carbono no cérebro humano estão interconectados com as partículas subatômicas que compreendem cada salmão que nada, cada coração que bate, e cada estrela que brilha no céu.

Tudo interprenetra tudo e embora a natureza humana possa buscar categorizar como um pombal e subdividir os vários fenômenos do universo, todos os aportes toda esta necessidade é de fato artificial e todas de natureza que é finalmente uma rede sem sentido.

Em um universo holográfico, mesmo o tempo e o espaço não podem mais serem vistos como fundamentais. Porque conceitos como localização se quebram diante de um universo em que nada está verdadeiramente separado de nada, tempo e espaço tridimensional, como as imagens dos peixes nos monitores, também podem ser vistos como projeções de ordem mais profunda.

Este tipo de realidade a nível mais profundo é um tipo de super holograma no qual o passado, o presente, o futuro existem simultaneamente. Sugere que tendo as ferramentas apropriadas pode ser algum dia possível entrar dentro deste nível de realidade super holográfica e trazer cenas do passado há muito esquecido. Seja o que for que o super holograma contenha, é ainda uma questão em aberto. Pode-se até admitir, por amor a argumentação, que o super holograma é a matriz que deu nascimento a tudo em nosso universo e no mínimo contém cada partícula subatômica que existe ou existirá - cada configuração da matéria e energia que é possível, de flocos de neve a quasars, de baleias azuis aos raios gamma. Deve ser visto como um tipo de "depósito" de "Tudo que é".

Embora Bohm admita que não há maneira de saber o que mais pode estar oculto no super holograma, ele se arrisca em dizer que não temos qualquer razão para admitir que ele não contenha mais. Ou, como ele coloca, talvez o nível super holográfico da realidade é um simples estágio além do que repousa "uma infinidade de desenvolvimento posterior".

Bohm não é o único pesquisador que encontrou evidências de que o universo é um holograma. Trabalhando independentemente no campo da pesquisa cerebral, o neurofisiologista Karl Pribram, de Standford também se persuadiu da natureza holográfica da realidade. Pribram desenhou o modelo holográfico para o quebra-cabeças de como e onde as memórias são guardadas no cérebro.

Por décadas, inúmeros estudos tem mostrado que muito mais que confinadas a uma localização específica, as memórias estão dispersas pelo cérebro.

Em uma série de experiências com marcadores na década de 20, o cientista cerebral Karl Lashley concluiu que não importava que porção do cérebro do rato era removida; ele era incapaz de erradicar a memória de como eram realizadas as atividades complexas que tinham sido aprendidas antes da cirurgia. O único problema foi que ninguém foi capaz de poder explicar a natureza de "inteiro em cada parte" da estocagem da memória.

Então, na década de 60, Pribram encontrou o conceito de holografia e entendeu que ele tinha achado a explicação que os cientistas cerebrais estavam buscando. Pribram acredita que as memórias são codificadas não nos neurônios, ou pequenos grupos de neurônios, mas em padrões de impulsos nervosos de tipo cruzado em todo o cérebro da mesma forma que a interferência da luz laser atravessa toda a área de um pedaço de filme contendo uma imagem holográfica. Em outras palavras, Pribram acredita que o próprio cérebro é um holograma.

A teoria de Pribram também explica como o cérebro humano pode guardar tantas memórias em um espaço tão pequeno.

Tem sido calculado que o cérebro humano tem a capacidade de memorizar algo na ordem de 10 bilhões de bits de informação durante a média da vida humana ( ou rudemente comparando, a mesma quantidade de informação contida em cinco volumes da Encyclopaedia Britannica).

Similarmente, foi descoberto que em adição a suas outras capacidades, o holograma possui uma capacidade de estocagem de informação simplesmente mudando o ângulo no qual os dois lasers atingem um pedaço de filme fotográfico, e é possível gravar muitos registros diferentes na mesma superfície. Tem sido demonstrado que um centímetro cúbico pode estocar mais que 10 bilhões de bits de informação.

Nossa habilidade de rapidamente recuperar qualquer informação que precisamos do enorme estoque de nossas memórias se torna mais compreensível se o cérebro funciona segundo princípios holográficos. Se um amigo pede a você que diga o que lhe vem a mente quando ele diz a palavra "zebra", você não tem que percorrer uma gigantesca lista alfabética para encontrar a resposta. Ao contrário, associações como "listrada", parecida com um cavalo e "animal nativo da África" logo lhe vem à mente.

Uma das coisas mais surpreendentes sobre o processo de pensamento humano é que cada peça de informação parece imediatamente correlacionada com muitas outras - uma outra característica intrínseca do holograma. Por que cada porção de um holograma é infinitamente interligada com todas as outras porções, talvez seja a natureza o supremo exemplo de um sistema interligado.

A estocagem da memória não é o único quebra-cabeças neurofisiológico que se torna abordável à luz do modelo holográfico de cérebro de Pribram.

Um outro é como o cérebro é capaz de traduzir a avalanche de freqüências que recebe via sentidos (freqüências de sons, freqüências de luz e assim por diante ) dentro do mundo concreto de nossas percepções. Codificando e decodificando freqüências é precisamente o que o holograma faz melhor.

Exatamente como um holograma funciona como um tipo de lente, um aparelho tradutor capaz de converter um borrão de freqüências aparentemente sem sentido em uma imagem coerente, Pribram acredita que o cérebro também parece uma lente e usa os princípios holográficos para converter matematicamente as freqüências que recebe através dos sentidos dentro do mundo interior de nossas percepções. Um impressionante corpo de evidência sugere que o cérebro usa os princípios holográficos para realizar as suas operações. A teoria de Pribram de fato tem ganho suporte crescente entre os neurofisiologistas.

O pesquisador ítalo-argentino Hugo Zucarelli recentemente estendeu o modelo holográfico ao mundo dos fenômenos acústicos. Confuso pelo fato de que os humanos podem localizar a fonte dos sons sem moverem as cabeças, mesmo se eles só possuem audição em um ouvido, Zucarelli descobriu que os princípios holográficos podem explicar estas habilidades.

Zucarelli também desenvolveu uma técnica de som holográfico, uma técnica de gravação capaz de reproduzir sons acústicos com um realismo quase inconcebível.

A crença de Pribram que nossos cérebros constroem matematicamente a "dura" realidade pela liberação de um input de uma freqüência dominante também tem recebido grande quantidade de suporte experimental. Foi descoberto que cada um de nossos sentidos é sensível a uma extensão muito mais ampla de freqüências do que se suspeitava anteriormente.

Os pesquisadores tem descoberto, por exemplo, que nosso sistema visual é sensível às freqüências de som, nosso sentido de olfato é em parte dependente do que agora chamamos de freqüências ósmicas e que mesmo cada célula de nosso corpo é sensível a uma ampla extensão de freqüências. Estas descobertas sugerem que está apenas sob o domínio holográfico da consciência e que estas freqüências são selecionadas e divididas dentro das percepções convencionais.

Mas o mais envolvente aspecto do modelo holográfico cerebral de Pribram é o que acontece quando ele é conjugado à teoria de Bohm. Se a "concretividade" do mundo nada mais é do que uma realidade secundária e o que está "lá" é um borrão de freqüências holográfico, e se o cérebro é também um holograma e apenas seleciona algumas das freqüências deste borrão e matematicamente transforma-as em percepções sensoriais, o que vem a ser a realidade objetiva? Colocando de forma simples, ela deixa de existir.

Como as religiões orientais há muito tem afirmado, o mundo material é Maya, uma ilusão, e embora pensemos que somos seres físicos que se movem em um mundo físico, isto também é uma ilusão. Somos realmente "receptores" boiando num mar caleidoscópico de freqüência, e que extraímos deste mar e transformamos em realidade física não é mais que um canal entre muitos do super holograma.

Esta intrigante figura da realidade, a síntese das abordagens de Bohm e Pribram tem sido chamada de "paradigma holográfico", e embora muitos cientistas tenham recebido isto com ceticismo, este paradigma tem galvanizado outros. Um pequeno mas crescente grupo de pesquisadores acredita que este pode ser o modelo mais acurado da realidade científica que foi mais longe. Mais do que isto, muitos acreditam que ele pode solucionar muitos mistérios que nunca foram antes explicados pela ciência e mesmo estabelecer o paranormal como parte da natureza.

Numerosos pesquisadores como Bohm e Pribram tem notado que muitos fenômenos parapsicológicos se tornam muito mais compreensíveis em termos do paradigma holográfico.

Em um universo em que cérebros individuais são atualmente porções indivisíveis de um holograma muito maior e tudo está infinitamente interligado, a telepatia pode ser simplesmente o acessamento do nível holográfico. E é obviamente muito mais fácil entender como a informação pode viajar da mente do indivíduo A para a do indivíduo B ao ponto mais distante e auxilia a entender um grande número de quebra-cabeças em psicologia.

Em particular, Grof sente que o paradigma holográfico oferece um modelo de compreensão para muitos estonteantes fenômenos vivenciados por indivíduos durante estados alterados de consciência. Nos anos 50, conduzindo uma pesquisa em que se acreditava que o LSD seria um instrumento psicoterapêutico, Grof teve uma paciente que de repente ficou convencida que tinha assumido a identidade de uma femea de uma espécie pré-histórica de répteis.

Durante o curso da alucinação dela, ela não somente deu riquissimos detalhes do que ela sentia ao ser encapsulada naquela forma, mas notou que uma porção do macho daquela espécie tinha anatomia que era um caminho para as escamas coloridas ao lado de sua cabeça. O que foi surpreendente para Grof é que a mulher não tinha conhecimento prévio sobre estas coisas, e uma conversação posterior com um zoologista confirmou que em certas espécies de repteis as áreas coloridas na cabeça tem um importante papel como estimulantes do desenvolvimento sexual.

A experiência desta mulher não foi única. Durante o curso da pesquisa, Grof encontrou exemplos de pacientes regredindo e se identificando com virtualmente todas as espécies na árvore evolucionária (descobertas da pesquisa ajudaram a influenciar a cena do homem-vindo-do-macaco no filme Altered States). E mais ainda, ele descobriu que estas experiências freqüentemente continham detalhes obscuros que mais tarde vieram a ser confirmados como acurados.

Regressões dentro do reino animal não são os únicos quebra cabeças entre os fenômenos psicológicos que Grof encontrou.

Ele também teve pacientes que pareciam entrar em algum tipo de consciência racial ou coletiva. Indivíduos com pouca ou nenhuma educação repentinamente davam detalhadas descrições das práticas funerárias do Zoroastrismo e cenas da mitologia hindu. Em outro tipo de experiências os indivíduos forneciam relatos persuasivos de jornadas fora do corpo, relâmpagos pré cognitivos do futuro, de regressões dentro de aparentemente encarnações de vidas passadas.

Em pesquisa posterior, Grof encontrou a mesma extensão de fenômenos manifestados em seções de terapia que não envolviam o uso de drogas. Em virtude dos elementos em comum nestas experiências parecerem transcender a consciência individual, além dos usuais limites do ego e/ou as limitações de tempo ou espaço, Grof chamou estas manifestações de experiências transpessoais e no fim dos anos 60 ele auxilou na fundação de um ramo de psicologia chamada "psicologia transpessoal" e se devotou inteiramente ao seu estudo.

Embora a recém-fundada Association of Transpersonal Psychology conquistasse um rápido crescimento entre o grupo de profissionais de mente similar, e se tornasse um ramo respeitado da psicologia, durante anos nem Grof nem seus colegas foram capazes de fornecer um mecanismo para explicar os bizarros fenômenos psicológicos que eles estavam testemunhando. Mas isto mudou com o advento do paradigma holográfico. Como Grof recentemente notou, se a mente é parte de um continuum, um labirinto que é conectado não somente as outras mentes que existem ou existiram, mas a cada átomo, cada organismo e região na vastidão do espaço e tempo, o fato de que seja capaz de ocasionalmente fazer entradas no labirinto e Ter experiências transpessoais não pode mais parecer estranho.

O paradigma holográfico tem também implicações nas chamadas ciências "concretas" como a biologia. Keith Floyd, um psicólogo do Virginia Intermont College, tem pontificado que a concretividade da realidade é apenas uma ilusão holográfica, e não está muito longe da verdade dizer que o cérebro produz a consciência. Mais ainda, é a consciência que cria a aparência do cérebro - bem como do corpo e de tudo mais que nós interpretamos como físico.

Esta virada na maneira de se ver as estruturas biológicas fez com que pesquisadores apontassem que a medicina e o nosso entendimento do processo de cura poderia também ser transformado em um paradigma holográfico. Se a aparente estrutura física do corpo nada mais é do que a projeção holográfica da consciência, torna-se claro que cada um de nós é mais responsável por sua saúde do que admite a atual sabedoria médica. Que nós agora vejamos as remissões miraculosas de doenças podem ser próprias de mudanças na consciência que por sua vez efetua alterações no holograma do corpo.

Similarmente, novas técnicas controversas de cura como a visualização podem funcionar muito bem porque no domínio holográfico de imagens pensadas que são muito "reais" se tornam "realidade". Mesmo visões e experiências que envolvem realidades "não ordinárias" se tornam explicáveis sob o paradigma holográfico. Em seu livro, "Gifts of Unknown Things," o biologista Lyall Watson descreve seu encontro com uma mulher xamã indonésia que, realizando uma dança ritual , foi capaz de fazer um ramo inteiro de uma árvore desaparecer no ar. Watson relata que ele e outro atônito expectador continuaram a olhar para a mulher, e ela fez o ramo reaparecer, desaparecer novamente e assim por várias vezes.

Embora o atual entendimento científico seja incapaz de explicar estes eventos, experiências como esta vem a ser mais plausíveis se a "dura" realidade é apenas uma projeção holográfica. Talvez concordemos sobre o que está "lá" ou "não está lá " porque o que chamamos consenso realidade é formulada e ratificada a nível de inconsciência humana a qual todas as mentes estão interligadas.

Se isto é verdade, a mais profunda implicação do paradigma holográfico é que as experiências do tipo da de Watson não são lugares comum somente porque nós não temos programado nossas mentes com as crenças que fazem com que sejam.

Num universo holográfico não há limites para a extensão do quanto podemos alterar o tecido da realidade. O que percebemos como realidade é apenas uma forma esperando que desenhemos sobre ela qualquer imagem que queiramos.

Tudo é possível, de colheres entortadas com o poder da mente aos eventos fantasmagóricos vivenciados por Castaneda durante seus encontros com o bruxo Yaqui Don Juan, mágico de nascença, não mais nem menos miraculoso que a nossa habilidade para computar a realidade que nós queremos quando sonhamos.

E assim, mesmo as nossas noções fundamentais sobre a realidade se tornam suspeitas, dentro de um universo holográfico, como Pribram postulou, e mesmo eventos ao acaso podem ser vistos dentro dos princípios básicos holográficos e portanto determinados.

Sincronicidades ou coincidências significativas de repente fazem sentido, e tudo na realidade terá que ser visto como uma metáfora, e mesmo eventos ao acaso expressariam alguma simetria subjacente.

Seja o paradigma holográfico de Bohm e Pribram aceito na ciência ou morra de morte ignóbil, é seguro dizer que ele já tem influenciado a mente de muitos cientistas. E mesmo se descoberto que o modelo holográfico não oferece a melhor explicação para as comunicações instantâneas que vimos ocorrer entre as partículas subatômicas, no mínimo, como observou notou Basil Hiley, um físico do Birbeck College de Londres, os achados de Aspect "indicam que devemos estar preparados para considerar radicalmente novos pontos de vista da realidade".

Tradução do original:


Reality - the Holographic Universe - 03/16/97.


Arquivo postado como REALITY.ASC na lista KeelyNet BBS em 24 de fevereiro de 1991.

*Não encontrei referências a autor e tradutor

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Michel Onfray, o filósofo francês que desafia os círculos acadêmicos





Desconforme com o modelo educativo tradicional, Onfray criou uma Universidade onde não se fazem exames nem se conferem títulos. Seus textos combinam a filosofia com gastronomia, religião, anarquismo e a busca do prazer.


Segue artigo de Héctor Pavón publicado no jornal argentino Clarín, 11-02-2008.


A tradução é do Cepat.

Há uma Universidade na cidade de Caen, França, onde um filósofo chamado Michel Onfray dá aulas para auditórios lotados de ouvintes. Não são alunos tradicionais, são pessoas que vão à universidade para aprender sem buscar títulos, mas saberes finamente selecionados. É esse o espírito que rege a escritura deste pensador que se mantém afastado dos círculos acadêmicos que costuma defenestrar. Produz textos livres que combinam filosofia com gastronomia, religião, anarquismo, história e a busca do prazer, entre outras disciplinas e ocorrências.

Muitos desses livros (escreveu mais de quarenta) foram editados aqui [Argentina] ou importados e são lidos apaixonadamente. Somente em 2007 foram editados quatro: La filosofía feroz (Libros del Zorzal); La potencia de existir. Manifiesto hedonista (De la Flor); El cristianismo hedonista. Contrahistoria de la filosofía II e Las sabidurías de la antigüedad (Anagrama). Há um crescente interesse por seu pensamento e por sua atitude antiintelectual que seduz e multiplica leitores argentinos.

Alguns de seus livros começaram a circular nos anos 90: A razão gulosa e O ventre dos filósofos [No Brasil, ambos são editados pela Rocco], por exemplo. Esse modo de analisar a partir da filosofia os hábitos culinários chamou a atenção, e seu nome começou a circular nas livrarias, faculdades e círculos de discussão filosófica fora das universidades. Depois se conheceu um livro bem divertido sobre a vida dos filósofos cínicos e de Diógenes em particular, Cinismos. O ateísmo e o hedonismo são os temas que ocupam seu pensamento desde sempre.

O livro Tratado de Ateologia [Martins Fontes, 2007] vendeu 200 mil exemplares só na França e também provocou reações ásperas por parte de grupos religiosos. Foram publicados três livros que tentaram rebater seus postulados e também foi aberto um blog intitulado “Contra Michel Onfray”. Ali fazem fila intelectuais e crentes em geral para “pegar” Onfray. No blog se pode ler: “Michel Onfray, nascido em 1959 (depois de JC) pretende desencaixar tudo. Inspirado nas correntes de idéias marxistas e nietzscheanas, prega a descristianização. Suas propostas são virulentas, cultiva o desprezo, propaga idéias caluniosas e blasfemas”. Também se poderia dizer que se encarregou de historiar o prazer ou sua carência. O seu caminho também fustiga o cristianismo e ao mesmo tempo resgata, em El cristianismo hedonista, santos heréticos e sábios licenciosos cristãos que participaram de banquetes sexuais.

Onfray teve uma infância muito dura, sem família. Graças à filosofia se refez de um duro começo: “A filosofia me permitiu sobreviver à tragédia que foi para mim ser enviado a um orfanato por meus próprios pais quando eu tinha dez anos. Os livros, a leitura me salvaram nesse momento e depois me garantiram a salvação novamente na minha adolescência, quando a filosofia funcionou em mim como o sentido, a verdade, a certeza, a razão que ninguém me havia transmitido: creio que a filosofia é uma terapia, o que séculos de filosofia mostraram, sempre que não foram cristãos...”, diz desde Argentan, sua cidade natal.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Dois exemplos da geopolítica na nova ordem "imperial"


Duas pequenas reportagens extraídas hoje do site UOL ilustram com clareza a configuração geopolítica "imperial" da nova ordem que se anuncia no início deste milênio.


Primeiro exemplo:

Integração à UE é falsa promessa da Europa para os Bálcãs



Sérvia, Kosovo, Montenegro, Macedônia. A União Européia mostrou a cenoura da afiliação a todos esses países. Mas quem na UE quer ver o bloco aumentar? Quase ninguém

Hans-Jürgen Schlamp
Em Bruxelas


A Europa é uma potência mundial, pelo menos em princípio. Com a declaração divulgada na segunda-feira pelos 27 ministros das Relações Exteriores da União Européia, tornou-se mais ou menos a política oficial do bloco: a Europa, diz a declaração, terá um papel de liderança na estabilidade de todos os Bálcãs ocidentais.

Nos próximos 120 dias, cerca de 2 mil policiais, peritos judiciais e especialistas do serviço civil seguirão para o recém-independente Kosovo para ajudar a estabelecer a estrutura de trabalho oficial necessária para um país funcionar. Bruxelas entrou no clube de elite das potências que assumiram total responsabilidade pela segurança e a economia de um território estrangeiro. Os outros membros modernos desse clube são Moscou e Washington.


Garoto segura bandeiras sérvias durante protesto no vila de Gracanica, em Kosovo

Como exatamente isso vai funcionar no caso de Kosovo -e no resto dos Bálcãs ocidentais- é há muito tempo um tema para "brainstorming" e sessões de planejamento. A estratégia resultante depende em grande parte de dois instrumentos: um envolve dinheiro e o outro mostra a cenoura do eventual acesso à União Européia. Os países que se comportarem receberão primeiro um pacote de ajuda econômica e então, em algum momento, a identidade de sócio, completa, com a paz e a prosperidade que a acompanham.

A lógica política é fácil de seguir. Oferecer aos países da antiga Iugoslávia uma "perspectiva européia", como se diz nos salões de Bruxelas, vai encorajar os vários grupos étnicos, religiosos e lingüísticos da região a abandonar qualquer idéia de novos derramamentos de sangue.

Mas há um detalhe: alguns -talvez a maioria- dos membros da UE estão trabalhando ativamente contra essa vaga promessa de afiliação feita aos sérvios, bósnios, montenegrinos e albaneses. Bruxelas tem de andar na corda bamba e oferecer a esses países o prêmio da afiliação sem realmente dá-la. O motivo disso é claro: com o acesso da Romênia e Bulgária à UE em 1º de janeiro de 2007, a disposição do grupo de se expandir ainda mais encolheu para zero.

A Spiegel Online examina rapidamente as possibilidades de acesso à UE de cada país dessa região inclinada a crises:

Croácia - próximo membro da UE?
A Croácia é a primeira candidata ao acesso na sala de espera dos Bálcãs, e como tal a primeira a ser afetada pela nova atitude européia em relação à expansão. Há muito tempo disseram que o país entraria para o clube em 2009. Mas hoje em dia poucos em Bruxelas acreditam que a Croácia será convidada para embarcar antes de 2011 -apesar das negociações continuarem em bom ritmo. As negociações começaram em 3 de outubro de 2005 e vão bem, segundo um recente relatório da Comissão Européia. A economia do país está crescendo e as reformas jurídicas, conforme os regulamentos da UE, estão bem encaminhadas.

Mas enquanto a comissão demonstrou uma disposição a olhar para outro lado quando avaliou falhas óbvias tanto na Romênia quanto na Bulgária, antes da ampliação de 2007, hoje minúcia é o nome do jogo -especialmente quando se trata de inadequações jurídicas ou deficiências no combate à corrupção. E enquanto os burocratas europeus se tornam mais detalhistas a euforia diminui no país -resultando em menos disposição para cooperar entre seus políticos. As conseqüências podem ser vistas nos choques recentes sobre direitos de pesca ao largo da costa da Croácia, ou disputas sobre o acesso da vizinha Eslovênia às águas internacionais. Zagreb está se tornando menos disposta a compromissos. Os que são forçados a correr atrás da cenoura por muito tempo eventualmente perderão o apetite.

Macedônia - esperando pelos vizinhos?
Os macedônios ainda estão ávidos para entrar na UE, e o país, que fica ao norte da Grécia, é o segundo candidato oficial à afiliação nos Bálcãs. Mas as negociações de acesso ainda nem começaram -Bruxelas também está ganhando tempo aqui. O país fez rápido progresso na implementação de uma estrutura de pré-acesso e até deu passos na direção de controlar a corrupção, como Bruxelas notou. O crescimento sólido com inflação limitada também pode ser colocado no lado positivo da balança, mas a UE nota uma constante tensão política no país entre a maioria eslava e a minoria albanesa. Em suma, a Macedônia não será convidada a entrar para a UE tão cedo, e provavelmente terá de esperar até que seus vizinhos estejam prontos para que possa se unir ao grupo.

Albânia, Montenegro e Bósnia-Herzegovina -ainda não estão prontos.
Todos esperam um futuro no clube europeu. Mas por enquanto, pelo menos, nenhum deles está sequer remotamente perto de preparado. O judiciário e as forças policiais dos três países dificilmente são transparentes, e a corrupção é crescente. Os três provavelmente terão dificuldades econômicas. Bruxelas está planejando enviar um total de 1 bilhão de euros para eles entre 2007 e 2011, pagamentos chamados de "assistência pré-acesso". Especialistas em ampliação de Bruxelas especulam que os três poderão estar prontos para se afiliar até 2015.

Sérvia -irada para sempre?
Belgrado, que já foi a capital da diversificada nação da Iugoslávia e hoje é apenas a capital de uma Sérvia encolhida, se contenta por enquanto em chorar a glória perdida. A Sérvia está chamando seus embaixadores de todos os países, incluindo a Alemanha na quarta-feira, que reconheceram Kosovo. Líderes do governo também estão fazendo pouco para acalmar as emoções aquecidas entre a população e se recusam a assinar acordos negociados com a União Européia. O país teve uma oportunidade de ouro de entrar na pista rápida de acesso à UE, mas mostrou uma disposição de deixar a chance passar por intransigência sobre a questão de Kosovo.

Se Belgrado tivesse apresentado uma lista de exigências em troca de flexibilidade sobre Kosovo -compensação territorial, ajuda financeira ou cronograma para o acesso- teria conseguido a maior parte ou mesmo tudo o que pedisse.

Mas agora as relações entre a Sérvia e a UE chegaram ao fundo do poço. Não vão ficar assim por muito tempo. Os dois lados precisam do outro. Sem a Sérvia a bordo, a estabilidade nos Bálcãs em longo prazo é impossível. E sem a UE a Sérvia não tem futuro.


Segundo exemplo:


Mudança no Paquistão pode impedir ataques contra suspeitos de terrorismo




Eric Schmitt e David E. Sanger



Em Washington

As autoridades americanas chegaram a um discreto acordo com o líder paquistanês, no mês passado, para intensificar os ataques secretos contra suspeitos de terrorismo com aeronaves não tripuladas, lançadas de dentro do Paquistão, disseram altos funcionários de ambos os governos. Mas a perspectiva de mudanças no governo do Paquistão deixaram o governo Bush preocupado com uma possível restrição às operações.
Entre outras coisas, os novos acordos permitiam um aumento no número, área de patrulha e ataques por aeronaves de vigilância armadas Predator, lançadas de uma base secreta dentro do Paquistão -uma estratégia bem mais agressiva para atacar a Al Qaeda e o Taleban.
Mas desde que os partidos de oposição saíram vitoriosos nas eleições no início desta semana, as autoridades americanas temem que o novo acordo mais permissivo possa ser sufocado em sua infância.
Nas semanas que antecederam as eleições de segunda-feira, uma série de encontros com os conselheiros de segurança nacional do presidente Bush resultaram em um relaxamento significativo das regras, segundo as quais as forças americanas poderiam atacar combatentes suspeitos da Al Qaeda e do Taleban nas áreas dos Paquistão próximas da fronteira com o Afeganistão. A mudança, descrita por altos funcionários americanos e paquistaneses que não quiseram ser identificados porque o programa é confidencial, permite aos comandantes militares americanos maior liberdade para escolher entre o que uma autoridade que participou do debate chamou de "cardápio chinês" de opções de ataque.
Em vez de serem obrigados a confirmar a identidade de um líder militante antes de atacar, a mudança permite que os operadores americanos ataquem comboios que tenham as características de conterem líderes da Al Qaeda e do Taleban em fuga, por exemplo, desde que o risco de baixas civis seja considerado baixo.
As novas regras de combate mais flexíveis poderiam ter seu maior impacto na base secreta da CIA no Paquistão, cuja existência foi descrita por altos funcionários americanos e paquistaneses como mantida até agora em segredo para evitar embaraço para o presidente Pervez Musharraf. O presidente, cujo partido foi derrotado nas eleições desta semana por margens que surpreenderam as autoridades americanas, é acusado pelos adversários políticos de ligação estreita demais com os Estados Unidos.
A base no Paquistão abriga um punhado de Predators -aeronaves não tripuladas que são controladas dos Estados Unidos. Dois mísseis de um desses Predators teriam matado um alto comandante da Al Qaeda, Abu Laith al-Libi, no noroeste do Paquistão no mês passado, apesar de um alto funcionário paquistanês ter dito que seu governo ainda não confirmou a presença de Libi entre os mortos. Um porta-voz da CIA se recusou a comentar na quinta-feira qualquer operação no Paquistão.
Os novos acordos com o Paquistão ocorreram após uma viagem ao país, em 9 de janeiro, de Mike McConnell, o diretor de inteligência nacional, e do general Michael V. Hayden, o diretor da CIA. As autoridades americanas se encontraram com Musharraf e com o novo chefe do exército, o general Ashfaq Parvez Kayani, e ofereceram um aumento das operações secretas.
Mas funcionários do governo Bush e especialistas americanos em contraterrorismo estão expressando preocupação com a possibilidade desses acordos poderem ser revistos ou reduzidos pelos vencedores das eleições parlamentares do Paquistão. Os dois partidos vencedores disseram que desejam promover negociações com os líderes tribais pashtun, que se opõem ao governo de Musharraf e que às vezes apóiam o Taleban e dão abrigo aos combatentes estrangeiros da Al Qaeda."Um novo governo poderia chegar a um acordo com os extremistas, o que daria uma certa trégua para o governo", disse Robert L. Grenier, ex-diretor do Centro de Contraterrorismo da Agência Central de Inteligência (CIA).
"Mas isto daria aos extremistas espaço para fornecer santuário para a Al Qaeda e outros extremistas envolvidos em ataques no Afeganistão."
Xenia Dormandy, a diretora para Sul da Ásia do Conselho de Segurança Nacional até 2005, disse na quinta-feira que se as negociações resultassem no tipo de trégua -e recuo de tropas- negociada por Musharraf há quase dois anos, os extremistas provavelmente continuariam se fortalecendo.
"Se tentarem reproduzir o que já vimos, eu não sei por que o resultado seria diferente", ela disse. Mas ela acrescentou que se o exército paquistanês permanecer na área, o governo poderá manter alguma vantagem.
A pergunta sobre o que fazer a seguir no Paquistão provavelmente preocupará o último ano de mandato do governo Bush. Funcionários disseram que há uma pressão clara, mesmo que não declarada, para fazer um último esforço para capturar ou matar Osama Bin Laden antes que Bush deixe o cargo. Mas vários altos funcionários no Departamento de Estado vinham alertando que o apoio pleno do governo a Musharraf era uma estratégia errada que agora poderá fracassar.
Outros funcionários do governo alertaram contra as pessoas fazerem uma interpretação exagerada dos comentários iniciais de Asif Ali Zardari, o líder do Partido do Povo Paquistanês e viúvo da ex-primeira-ministra Benazir Bhutto, sobre fechar acordos com os líderes tribais. Zardari, eles notaram, deixou claro que deseja acabar com o terrorismo e apontou que os terroristas mataram sua esposa, de forma que deseja derrotá-los.
Os partidos de oposição e analistas disseram que as autoridades americanas estavam interpretando erroneamente o resultado das eleições, que foram dominadas pelos partidos seculares, liberais, do país. Uma aliança de partidos religiosos que controlava o governo provincial da Fronteira Noroeste foi retirada do poder e até mesmo perdeu a maioria das cadeiras nas áreas tribais.Segundo os partidos de oposição, um novo governo civil será mais eficaz no combate aos extremistas do que o dominado pelos militares sob Musharraf. Eles pediram por uma estratégia nas áreas tribais semelhante às novas estratégias de contra-insurreição empregadas pelos militares americanos no Afeganistão e no Iraque. Nesses lugares, os Estados Unidos tentaram usar uma combinação de força militar, reconstrução e diálogo político para voltar as tribos locais contra os radicais fundamentalistas.
A pergunta, disseram altos funcionários americanos e paquistaneses na quinta-feira, é como a estratégia para atingir estas metas comuns poderia mudar.
"A curto prazo, haverá alguma confusão e alguns tropeços", disse Henry A. Crumpton, uma ex-autoridade de contraterrorismo do Departamento de Estado. "Mas a médio e longo prazo, haverá a continuidade da cooperação, talvez até mesmo uma mais estreita, devido aos nossos interesses comuns."



David Rohde, em Peshawar, Paquistão, contribuiu com reportagem.


Tradução: George El Khouri Andolfato

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Devemos tornar-nos utópicos, afirma Slavoj Zizek



Slavoj Zizek sustenta que "há situações em que a democracia não funciona, em que ela perde sua substância, em que é preciso reinventar modalidades de mobilização popular".



Segue a entrevista dada a Éric Aeschimann e publicada no Libération, 16-2-08.



Que crítica você faz à democracia?

Talvez a mesma que os conservadores... Os conservadores têm a coragem de admitir que a democracia está num impasse. Riu-se muito de Francis Fukuyama quando anunciou o fim da história, mas hoje todo o mundo aceita a idéia de que o quadro democrático-liberal se impôs para sempre.

Nos contentamos em reclamar um capitalismo de rosto humano, como se falava outrora de um comunismo de rosto humano. Vejam a ficção-científica: visivelmente, é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo.

O capitalismo é o alvo, por atrás da crítica da democracia?

Sejamos claros: a Europa do pós-guerra conheceu um nível médio de felicidade nunca visto. Mas quatro problemas maiores vêm desequilibrar o modelo democrático-liberal.

1) Os indocumentados, os sem-teto, os sem emprego, aqueles que não participam da vida da comunidade, com os quais o Estado não se ocupa mais.

2) A propriedade intelectual, que o mercado não chega mais a regular, como o mostra o destino delirante de Bill Gates, fundador da Microsof.

3) O meio-ambiente, cuja regulação o mercado pode assegurar quando a poluição é mensurável, mas não quando o risco for incalculável – Tchernobyl, as tempestades...

4) A biogenética: estamos em condições de dizer onde começa o humano?

Nesses quatro campos, nem a democracia liberal, nem o capitalismo global têm boas respostas.

Que alternativa existe?

Eu não sou idiota, eu não sonho com um novo partido comunista. Minha posição é mais trágica. Como todo marxista, eu admiro a incrível produtividade do capitalismo e não subestimo a utilidade dos direitos humanos. A prisão de Pinochet exerceu um papel psicológico muito importante no Chile. Mas vejam o venezuelano Chávez. Dizem que ele é populista, demagógico, que não faz nada pela economia, que isso vai acabar mal. Talvez seja verdadeiro... Mas ele é o único a ter incluído os pobres das favelas num processo político. É por isso que eu o apóio. Quando criticam a sua tentação ditatorial, fazem como se, antes dele, tivesse existido uma democracia equilibrada. Ora, foi ele, e somente ele, o vetor da mobilização popular. Para defender isso eu penso que existe o direito de utilizar o aparelho do Estado – chamem isso de Terror, se quiserem.

Para os pensadores liberais, capitalismo e democracia permanecem inseparáveis.

Muitos disseram isso, mas na China está nascendo um capitalismo autoritário. Modelo americano ou modelo chinês: eu não quero viver nessa escolha. É por isso que devemos voltar a ser utópicos. O aquecimento global vai nos levar a reabilitar as grandes decisões coletivas, aquelas que os pensadores antitotalitários dizem que conduzem necessariamente ao gulag. Walter Lippmann mostrou que em situações normais, a condição da democracia é a que a população tenha confiança numa elite que decide. O povo é como um rei: ele subscreve passivamente, sem olhar. Ora, em tempo de crise, esta confiança se evapora. Minha tese é a seguinte: há situações em que a democracia não funciona, em que ela perde sua substância, em que é preciso reinventar modalidades de mobilização popular.

Por isso seu elogio a Robespierre.

O Terror não se resume a Robespierre. Havia então uma agitação popular, encarnada pelas figuras ainda mais radicais, como Baboeuf e Hébert. É preciso lembrar que foram decepadas mais cabeças depois da morte de Robespierre do que antes. De fato, continuou muito legalista. A prova disso é que ele foi preso. O que me interessa nele é aquilo que Walter Benjamin chama de “violência divina”, aquela que acompanha as explosões populares. Eu não gosto da violência física, eu tenho medo dela, mas eu não estou próximo de renunciar a esta tradição da violência popular. Isso nem sempre quer dizer violência sobre as pessoas. Gandhi, por exemplo, não se contentou em organizar as manifestações, mas ele fez boicotes, estabeleceu uma relação de força. Defender os excluídos, proteger o meio ambiente passará por novas formas de pressão, de violência. Amedrontar o capitalismo, não para matar, mas para mudar as coisas. Caso contrário, corremos o risco de cair numa violência maior, numa violência fundamentalista, num novo autoritarismo.

Na perspectiva de uma “violência popular”, um intelectual serve para qualquer coisa?

Para prevenir as formas catastróficas. Para fazer ver as coisas de outra maneira. Deleuze dizia que se há falsas respostas, há também falsas perguntas. Um conselho de filósofo não pode estabelecer um projeto para mobilizar as massas. Mas podemos lançar as idéias e talvez alguma coisa será recuperada. Os motins dos subúrbios da França nasceram de um descontentamento não-articulado a um pensamento, mesmo de maneira utópica. Essa é a tragédia.

Seus amigos de esquerda pensam como você?

O que predomina, sobretudo nos Estados Unidos, é um esquerdismo liberal, tolerante, para quem a menor alusão à noção de verdade já é totalitária, em que é preciso respeitar a história de cada um. Para o filósofo Richard Rorty, o que define o homem é seu sofrimento e sua capacidade de narrá-lo. Para mim, esta esquerda de ressentimento e de impotência é muito triste.