quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Horizontes imaginativos e o aquém e além





Vincent Crapanzano

Distinguished Professor of Anthropology and Comparative Literature at the Graduate Center of the City University of New York

RESUMO


O autor desenvolve as noções de horizontes imaginativos e de liminaridade, travessia, meio-termo, fundamentos de uma proposta de antropologia da imaginação. Lança seu olhar às dimensões ignoradas da experiência, embora considere imprecisão e obscuridade como componentes necessários a toda experiência, ao pensamento e à percepção. Indica as diferentes concepções do entre, pensando, por exemplo, os tempos e espaços intersticiais (ma) na estética tradicional japonesa ou o barzakh no misticismo sufi. Questiona os nossos pressupostos quanto à natureza das relações, mediante uma releitura da teoria da liminaridade de Victor Turner.


Palavras-chave: antropologia da imaginação, horizontes imaginativos, liminaridade, experiência, Victor Turner.


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Este artigo divide-se em duas partes principais.1 A primeira desenvolve a noção de horizontes imaginativos e o papel teórico que acredito deva desempenhar nas ciências humanas. A segunda examina o aquém e além,2 o liminar e as travessias que ocorrem nos ritos de passagem e em outros movimentos sociais. Mediante o exame do intersticial na estética japonesa e no misticismo sufi, ela chama atenção para alguns de nossos pressupostos quanto à natureza das relações. Discuto tais pressupostos como estão exemplificados na teoria da liminaridade de Victor Turner. Ao revelelar uma outra perspectiva, um outro horizonte possível de compreensão, a discussão reporta à primeira parte deste artigo.


Muito se tem escrito nos círculos acadêmicos em anos recentes sobre divisas, limites e fronteiras, sobre seu reforço, sua supressão, dissolução e porosidade, sobre idas e vindas através deles, sobre transmigração, tudo supostamente afetado e efetuado por conexões pela web, pelo transnacionalismo e pela globalização de nossa estipulada pós-modernidade. Embora reconheça a importância de divisas, limites e fronteiras geopolíticos, a violência que inspiram, as ciladas que produzem, o doloroso deslocamento que causam e os controles que provocam, não trato deles neste artigo. Não me ocuparei do movimento ou - não-movimento - de pessoas através de linhas constituídas legalmente ou em domínios de cultura, língua e poder institucionalizado nitidamente marcados. Antes, as fronteiras me interessam como horizontes que se ampliam da insistente realidade do aqui e agora para aquele espaço ou tempo optativos - o espaço-tempo - do imaginário. É esse âmbito que nos dá uma folga, às vezes dolorosa e angustiante, às vezes prazerosa e apaziguadora, do aqui e agora em toda sua viscosa imediação. Permite-nos escapar da insistente atração da realidade. Embora estar preso à realidade imediata seja associado às culturas primitivas em nossas mitologias etnocêntricas inteiramente questionáveis, que salientam a primazia da vida instintiva deles e a sublimação, de fato, a eterealização, de nossa condição civilizada, todos nós, em algum momento, fomos tão consumidos pela realidade a ponto de perdermos a paciência, a consciência de nós mesmos e de nossos limites. Supomos, acertadamente, creio, que a distância que nos define nasce de nossa habilidade de representar simbolicamente o mundo, inclusive nós mesmos. O que parece escapar a esse acento no simbólico é a relação deste com a possibilidade imaginativa - com a esperança, com o optativo, com os modos - como o subjuntivo, concebido por nossas gramáticas.


Ao contrário das divisas, que podem ser cruzadas (a menos que estejam fechadas), e dos limites, que podem ser transgredidos, as fronteiras, conforme estou empregando a palavra, não podem ser atravessadas. Elas marcam uma mudança de registro ontológico. Postulam um além que é, por sua natureza íntima, inacessível de fato e de representação. Interesso-me pelo papel do que está situado além do horizonte, pelas possibilidades que oferece, pelos desejos lícitos e ilícitos que desencadeia, pelos jogos de poder que sugere, pelo terror que pode causar - a incerteza, a sensação de contingência, de acaso -, pela exaltação, pelo frêmito com o desconhecido que pode provocar. Imaginado, sonhado, projetado, calculado, profetizado - logo, construído -, o além sempre depende de como o encaramos. Nossas imagens, sonhos, projeções, cálculos e profecias podem dar forma e substância ao além, mas, ao fazê-lo, destroem-no; pois, enquanto o constroem, garantem seu deslocamento. E esse deslocamento abala nossas premissas acerca da realidade, base sobre a qual nossas construções são feitas. Embora fundacional, não está imune a nossas imagens do além. Assim, estou particularmente interessado nas vias paradoxais pelas quais a irrealidade do imaginário imprime o real na realidade e por que o real da realidade compele a irrealidade do imaginário. Essas vias não podem ser separadas. São como amantes que, de tão emaranhados, tornam qualquer delimitação de um corpo- ou alma - singular quase arbitrária.


Examinarei a imaginação por meio de um tropo - o do arrière-pays, do sertão, e de seus correlatos, o além e o alhures. Utilizo o termo arrière-pays para relembrar o trabalho do poeta e crítico francês Yves Bonnefoy, cujo livrinho L'arrière-pays (1982) é a inspiração para minhas reflexões de uma antropologia da imaginação. Para Bonnefoy, o sertão evoca as dimensões da experiência que se situam além da percepcão imediata de um objeto, de uma paisagem. Incluem a ansiedade que ele sente em uma travessia: "Lá, a dois passos do caminho que não trilhei e do qual já me distanciei, sim, é lá que se abre uma terra de essência mais elevada, onde poderia ter morado e que, desde então, perdi" (p. 9). É uma terra de pura possibilidade, de desejo e medo.


O além é como as trevas: não pode ser contido. Ele escapole - para aparecer de novo exatamente quando se pensava, para alívio ou desespero, que havia sido eliminado. Bonnefoy insiste que o arrière-pays é inacessível, inexistente como - todo objeto da imaginação, é ausente, inexistente, uma negação, um não-ser.


O que torna a inacessibilidade do sertão assustadora é menos a inacessibilidade que seu papel determinante em nossa percepção daquilo que, de modo ingênuo, tomamos por acessível - daquilo que efetivamente percebemos, vivenciamos, tocamos e sentimos. Imaginada - melhor ainda, imaginável -, ela permanece elusiva. Como nota o filósofo Edward Casey (1976, p. 7): "De fato, estritamente falando, não observamos o que imaginamos, pois não estamos em condições de submeter objetos e eventos imaginados ao exame minucioso que pode ser administrado àquilo que percebemos". É esse caráter elusivo, essa ausência determinante do acessível, que é assustadora: pois o que percebemos sempre é determinado - até certo ponto - pela ausência, aquela presença imaginada. O que nos amedronta é mais que a contingência. É o artifício de factualidade, de nosso empirismo, de nosso realismo, pelos quais nos cegamos a nós mesmos - muitas vezes, por meio de disparatadas metodologias da verdade e de ingênuas filosofias positivistas. Velhas conhecidas de todos nós.


Temos de perguntar, contudo, se há alguma razão para que nos assustemos com o sertão, com a possibilidade imaginativa que ele oferece e nega, com (a impossibilidade de) ir ao outro lado? Podemos não sentir prazer com sua irrealidade, com sua possibilidade, o jogo que propicia? Estamos cultural e historicamente vinculados ao medo e à ansiedade perante a possibilidade imaginativa? Perante a ausência - o não-ser - que atribuímos ao imaginário? Somos vítimas de uma epistemologia puritana da presença? Ou esses medos, essas angústias, são um componente essencial da condição humana? Eu não sei. Mas posso imaginar e, na verdade, conheço o prazer que a possibilidade oferece, a libertação, a fuga que proporciona. Incomoda-me a banalidade, o caráter repetitivo, de nossos enunciados sobre o sertão. Conforta-me seu contínuo deslocamento o domínio que recusa.


Reconhecendo os horizontes imaginativos e o sertão acolá, desejo oferecer uma crítica de alguns pressupostos empíricos comuns. Não estou descartando o empirismo de per si nem a ciência, a ciência antropológica, mas uma apropriação específica do empirismo (da realidade) que nega ou, ao menos, ignora uma importante dimensão da experiência humana - bem conhecida de todos nós. Não estou advogando uma veneração ao irracional, ao irreal, à imaginação. Meu objetivo é mais mundano. Como o filósofo William James, desejo atentar para aquela dimensão da experiência que, por resistir à enunciação - com efeito, desaparece ao ser enunciada -, tem sido ignorada de fato. Em seu apelo para reintegrar "o vago e inarticulado ao lugar que lhe cabe em nossa vida mental", James notou que "as imagens precisas da psicologia tradicional compõem apenas a menor parte de nossas mentes, enquanto estas realmente vivem" (1992, p. 164-65). Ele salientou que "o significado, o valor da imagem está todo neste halo ou penumbra que a rodeia ou acompanha - ou antes, que se lhe funde e torna-se sangue de seu sangue, carne de sua carne". O halo, a penumbra - prefiro a aura - que rodeia toda experiência, toda percepção e toda compreensão pode apenas ser evocado. Impreciso, obscuro, ele é um componente necessário, creio, de qualquer pensamento, percepção e experiência.


Fenomenólogos relacionariam o que chamo de horizonte imaginativo da percepção à periferia da consciência, aos limites externos de nossa atenção, como um pano de fundo. Insistiriam, entretanto, como faz Husserl, que a periferia é simplesmente uma extensão do mundo percebido - e não do imaginado. Os psicólogos também insistiriam no alargamento do campo de percepção. Entenderiam-lhe a qualidade antecipatória não como possibilidade imaginativa, mas como algo pré-lingüístico, pré-verbal, pré-cognitivo, pré-perceptivo. Os "pré", contudo, não eliminam o fato de o próprio horizonte pressupor língua, cognição e percepção. Ele é, nos termos de Jacques Lacan, um precipitado da ordem simbólica. Os "pré", apesar de alegarmos a imediação deles, indicam um adiamento em nossa percepção, nosso pensamento, nossa imaginação e experiência - um adiamento para o que compõe o sertão, não importa o que seja.


Pense em uma paisagem de montanha pintada pelo artista romântico alemão Caspar-David Friedrich.

Quadro de Caspar David Friedrich



Reisengenbirge, de Caspar David Friedrich



Muitas vezes, como em sua pintura do Reisengenbirge, nossos olhos são conduzidos do primeiro plano para o horizonte, neste caso, para as montanhas coroadas de neve e o céu claro, luminoso. Mesmo em suas paisagens montanhosas mais íntimas, o que vemos no primeiro plano é percebido em função do que está situado além das montanhas: outras montanhas, um vale, uma aldeia, um agricultor lavrando a terra, uma celebração de colheita, um cortejo fúnebre. Não sabemos. Só podemos imaginar. Quando olhamos para o primeiro plano do quadro, contudo, geralmente não imaginamos de um modo concreto o que se situa além das montanhas, mas nossa percepção está, como estava, impregnada de possibilidades imaginativas. Por mais numerosas que aparentem ser, essas possibilidades não são infinitas. A menos que eu esteja empenhado, digamos, em uma paródia pós-moderna consciente de si mesma, imaginando um mundo de carros a buzinar, camponeses a olhar fixamente para computadores, ou fábricas a expelir vapores nocivos, que impediriam qualquer apreciação da paisagem montanhosa nos próprios termos - nossos constructos imaginativos, por mais difusos que sejam, conforme delimitados pelas premissas românticas de Friedrich, por sua idealização da natureza, pelo sublime evocado por suas montanhas. A relação entre primeiro plano e sertão é, contudo, recíproca. Caso enunciássemos de fato o sertão como uma espécie de fantasmagoria pós-moderna, por certo veríamos a paisagem de Friedrich de um modo diferente.


Poderia dar muitos exemplos de tais horizontes. Nem sempre têm natureza pictórica -visual -, embora, ao menos na cultura euro-americana, o visual esteja intimamente ligado ao imaginário e à imaginação. Aqui, desejo salientar que o escopo dos horizontes imaginários não é limitado apenas por nossas capacidades psicológicas ou por nossas convenções estéticas, mas também por arranjos socioeconômicos, políticos e culturais. Embora relute em dar exemplos dessas influências, por serem altamente complexas e operarem tanto indireta como diretamente, darei dois breves exemplos de pesquisas de campo que conduzi entre fundamentalistas cristãos nos Estados Unidos3 e entre os Harki, aqueles argelinos que tomaram o partido dos franceses na guerra pela independência da Argélia. Desejo salientar aqui o estilo mais que a causa. Como é sabido, os fundamentalistas cristãos esposam uma forte hermenêutica literalista. Como cada palavra da Bíblia é inerrante, eles acreditam que devem ser o mais fiel possível ao sentido literal delas - ao sentido "próprio". Qualquer desvio desse sentido, ou seja, qualquer interpretação figurativa (a menos que a figuração, como tal, esteja marcada com clareza no texto) é perigosa, pois se corre o risco de sacrificar o sentido de Deus pelo de algum intérprete. Os fundamentalistas preocupam-se com o que chamam, à boa moda vitoriana, imaginação depravada. A hermenêutica, como a oração, o auto-exame e a aplicação da Bíblia à vida cotidiana, é uma disciplina criada, entre outras coisas, para controlar a imaginação e a propensão desta para a interpretação alegórica e figurativa. Como cada palavra na Bíblia, segundo a vêm, é inspirada por Deus e, por isso, ligada de modo indelével a todas as outras palavras, qualquer desvio do sentido - do sentido literal - da palavra arrisca pôr abaixo toda a compreensão fundamentalista das Escrituras. Seus horizontes estão contidos no interior desse rígido arcabouço hermenêutico. Como isso se relaciona à vida atual nos Estados Unidos, trata-se, claro, de especulação. Sem dúvida, é possível relacionar essa hermenêutica rígida a uma necessidade de estruturação em um mundo ameaçado pelas incertezas inerentes à sociedade capitalista e pela brutalidade relativa do cotidiano, mas, como sugeri, se este for realmente o caso, o nexo causal não é, de modo algum, direto. É mediado, por exemplo, por uma tradição religiosa duradoura que antecede o capitalismo como o conhecemos - uma tradição que enfatiza a salvação pessoal e uma intensa relação pessoal com Deus, ao menos com uma das manifestações Dele, Jesus. Pode-se relacioná-la também ao individualismo - ao individualismo muitas vezes aterrador e contestado promovido pelo capitalismo. Não sei. Prefiro reconhecer a impossibilidade de determinação sem explicitá-la com açodamento e concentrar-me no estilo.
Meu segundo exemplo se refere aos Harki, os argelinos que tomaram o partido dos franceses na guerra pela independência da Argélia. Quando se conquistou finalmente a independência, em 1962, entre 100 e 150 mil dos, no máximo, 250 mil Harki foram mutilados e massacrados pela população argelina em geral. Embora De Gaulle tenha feito de tudo para desencorajar a emigração dos Harki para a França, cerca de 20 mil famílias harki conseguiram fazê-lo e foram encarceradas em campos de prisioneiros por até 16 anos. Sem dúvida, ambivalentes quanto à posição política, traídos e abandonados, do ponto de vista deles, pelos franceses, incapazes de retornarem à Argélia, os Harki são uma população à part - agora, uma população espalhada pela França e estendendo-se pela terceira geração, unida por traumas coletivizados ao longo das gerações, que são reiterados em histórias ou reconhecidos silenciosamente. Esses traumas - esse trauma (pois, coletivizado, se tornou singular) - tornam-se um ponto de referência básico que, gostaria de indicar, restringe as possibilidades imaginativas dos Harki - uma restrição que, sem dúvida, se correlaciona com o status marginalizado deles na França. Cada adversidade é reportada aos maus-tratos que sofreram, que, por reais que tenham sido e sejam, não são, de modo algum, cabais.


Passo agora à segunda parte deste artigo. Em certo sentido, ela decorre diretamente de meu interesse pelo horizonte imaginativo, pois é uma tentativa de inaugurar uma via para pensar sobre a contigüidade, a metonímia e a montagem. Interessa-me especialmente a montagem - conforme a entendo, a justaposição, às vezes arbitrária, às vezes inusual, de dois ou mais itens, elementos, imagens ou representações que chama atenção para aspectos desses itens que estavam escondidos ou eram ignorados. Montagens inusuais podem produzir surpresa ou choque, iluminações repentinas, epifanias ou insights e, por isso, podem ser retóricas, estéticas ou terapeuticamente efetivas. Podem ser transgressivas, inquietantes, perigosas e iconoclastas. O significado que atribuímos às justaposições, claro, é determinado, consciente ou inconscientemente, pelo discurso. Produzindo ansiedade interpretativa, as montagens exigem uma firmeza interpretativa -uma tradução, por exemplo, a um paradigma familiar que produza contentamento. Devo observar, entre parênteses, que a montagem é intrínseca à etnografia, pois o antropólogo conjuga elementos de duas culturas - a cultura em estudo e a cultura de referência. Assim, há uma dimensão iconoclasta importante para a etnografia que é (em meu ponto de vista, infelizmente) reduzida pela etnologia - pela descrição tornada convencional, pela interpretação autorizada, pela explicação científica. Não estou negando agora o valor da interpretação ou da explicação (embora questione o da descrição convencional). Desejo simplesmente indicar-lhes um efeito secundário inevitável, que exige reconhecimento crítico.


Agora, desejo demonstrar que, ao menos na cultura euro-americana, tendemos a enfatizar antes os elementos que compõem uma relação, incluindo a montagem, do que a própria relação - o aquém e além, o intersticial. É por demais óbvio que elementos compositivos e relações são mutuamente determinantes. E, decerto, não quero envolver-me em uma discussão do tipo quem-veio-primeiro-o-ovo-ou-a-galinha. O que desejo salientar é que em determinadas sociedades, ao menos em alguns de seus domínios, enfatiza-se a própria relação e o modo pelo qual esta formula e define os elementos que a compõem. Tal ênfase - chame-se estilo cognitivo ou perceptivo - afeta não apenas a estética e outras formulações teóricas, mas também é refletida e reflete outros elementos culturais e suas relações sintáticas. Que na cultura euro-americana ao entre preferimos os elementos que o balizam - à relação preferimos os termos que a constituem - pode relacionar-se, por exemplo, à prioridade que damos à palavra - o nome e - ao referente em nossa concepção (popular) de linguagem. Concentramo-nos em categorias e sistemas classificatórios baseados nessas categorias, em vez de em sistemas determinados pela relação e pela sintaxe. Acentuamos a coesão e moderamos a elipse, a interrupcão e a pausa. De modo geral, não lemos em função do silêncio e do não dito. Muitas vezes, choco meus alunos quando peço que considerem um romance como The Awakening [O despertar], de Kate Chopin, ou algum de Clarice Lispector, sob o aspecto das lacunas entre os capítulos, com efeito, entre os parágrafos e as frases.


Não creio que os japoneses ficassem tão chocados quanto meus alunos norte-americanos. A estética (tradicional) daqueles, profundamente enraizada em sua perspectiva religiosa, enfatiza o intervalo, a lacuna, o silêncio, o entre e o em meio a. No verso encadeado japonês (renga), por exemplo, o efeito estético resulta menos das cenas descritas que do espaço-tempo entre os versos encadeados (Ebersole, 1983, p. 55). "Concentre-se no que não é dito", disse Shinkei (1406-1475), o poeta (Kamparu, 1983, p. 74). Zeami Motokyio (1363-1443), o fundador do teatro nô, afirmou que "os momentos de inação" (sensu tokoro), ocorridos entre (himu), são os mais deliciosos do teatro nô (Pilgrim, 1995, p. 58). "O que o ator não faz tem interesse" (sennu tokoro ga omoshiroki) (Komparu, 1983, p. 73).


Os japoneses chamam esses espaços ou tempos intersticiais de ma. Diz-se que o ma vem do chinês, o caractere que mostra o sol no meio de portão aberto. Originalmente, era usado unicamente para referir-se a espaço mas passou a designar igualmente o tempo. Pode ser traduzido por "espaço, epaçamento, intervalo, lacuna, vão, lugar, interrupção, pausa, tempo, ocasião ou abertura" (Komparu, 1983, p. 70). Tem conotações tanto abstratas como concretas. Um lugar é ma porque é um espaço entre paredes; em música, uma pausa também é ma, porque ocorre entre duas notas (Pilgrim, 1995, p. 56). Roland Barthes (1982) tentou - de um modo por demais afetado e profundamente francês (e, por isso, etnocêntrico) - delinear o ma em sua interpretação pós-estruturalista do Japão. Ele utiliza expressões como "o nada pregnante", "uma reminiscência desmembrada, descentrada, deslocada", um "signo vazio remanescente da fissura do simbólico" para evocar algo que ele não nomeia. Artistas, acadêmicos e arquitetos japoneses defendem que o termo resiste à tradução. Salientam-lhe a ambigüidade, o fato de que, para ser compreendido, se deve levar em conta uma configuração de espaço e tempo, que não podem ser separados um do outro, unicamente japonesa e uma concepção de energia ou poder espiritual (ki_ ou chi) que ressoa no interior do espaço-tempo, entre e em meio a. Ele é um cronotopo negativo - um silêncio, um vazio -, não obstante fecundo, que antecipa (e é antecipado por) o espaço-tempo positivo da ação em, digamos, uma peça nô (Komparu, 1983). Ma refere-se, simultaneamente, a algo e a experiência desse algo. Não é objetivo nem subjetivo, mas uma coalescência dos dois, pois, visto que o ma desconstrói todos os limites, ele tem (suponho) de eliminar aqueles existentes entre o objetivo e o subjetivo.


Motokiyo observa que é o kokoro - a força espiritual subjacente do ator nô - que produz o deleite da platéia em "momentos de inação". O ator "não relaxa a tensão quando a dança ou o canto chegam ao fim ou em intervalos entre (hima) o diálogo e os diferentes tipos de mímica". Ele conserva sua "firme vontade interior (naishin)", mas não deve torná-la aparente, o que equivaleria a agir e, portanto, deixaria de ser inação (Pilgrim, 1995, p. 58-59). Quero destacar uma espécie de relação chame-se suspense ou tensão dramática - que não se presta a uma análise coloquial. Depende sobremaneira de pausas e silêncios; que fogem à mensuração. Há diferentes silêncios, diferentes pausas; diferentes atitudes em relação a eles. Têm valor qualitativo.


Embora voltadas para palavras, coisas e eventos, para notas musicais, nossas interpretações, seja de um ator representando o papel de Rei Lear ou de um pianista executando uma sonata de Haydn, necessariamente, devem considerar o espaço - o silêncio - entre palavras e notas. Permitimos que essas interpretações ficassem privadas de teorização, o que, em uma época excessivamente teorizada como a nossa, por certo, deve ser tomado como um sintoma de nossa perspectiva epistêmica e de seus efeitos sobre a atenção, ou mesmo sobre a percepção. Deixamos esse - silêncio , que pode ser de tamanha importância hermenêutica, à arte da interpretação. Reconhecemos, claro, a importância do silêncio na interlocução, que é interpretado primordialmente, creio, em termos psicológicos e, apenas de modo secundário, em termos estéticos (salvo quando tratamos de uma comunicação moldada para a apreciação estética, claro). Como o psicanalista, embora de modo menos consciente, observamos os silêncios, as pausas das pessoas com quem conversamos. Nós os lemos como sinais de estados interiores - medo, culpa, constrangimento, vergonha - e, com muita freqüência, como revelações involuntárias do que se procura ocultar. Em épocas de espírito mais retórico, como na Grécia e Roma antigas, o silêncio foi reconhecido e cultivado como uma figura retórica sob total controle do orador.


Lembro-me de passar horas com meu amigo e mentor marroquino Moulay Abedslem, um velho analfabeto de grande sabedoria espiritual que fazia mortalhas e lavava corpos, discutindo o barzakh - o que está situado entre as coisas, entre as bordas, as divisas e os eventos. Ele o equiparava ao silêncio entre as palavras e aos sonhos. "O sonho está entre a vigília e o sono", disse. Barzakhi é o âmago da filosofia do grande sufi andaluz Ibn al-'Arabi (1165-1240) (ver Chittick, 1989; Corbin, 1958). Moulay Abedslem ouvira falar dele, mas não tinha conhecimento preciso de seu pensamento e certamente não relacionava a própria compreensão do barzakhi à de al-'Arabi. Para este, a imaginação (al-khayal) é um termo intermediário que resiste à definição. Em alguns momentos, parece estar entre o mundo espiritual e o material; em outros, entre o ser e o nada, como algo equivalente à existência. O importante é que a imaginação é uma "realidade" intermediária, ambígüa por natureza e melhor descrita como "nem isso nem aquilo ou tanto isso quanto aquilo". É barzakh, que al-'Arabi descreve como:


Algo que separa [fâsil] duas outras coisas, sem nunca pender para um lado [mutatarrif], como, por exemplo, a linha que separa a sombra da luz do sol... O barzakhi é algo que separa o conhecido do desconhecido, o existente do inexistente, o negado do afirmado, o inteligível do ininteligível. (Chittick, 1989, p. 117-18)


Ele tem grande poder. É um termo inteligível, o filósofo sufi nos diz, mas é apenas imaginação. Ele insiste na transitoriedade - as mutações contínuas - da realidade mediadora da imaginação, ou seja, o que Vincent Crapanzano. Horizontes imaginativos e o aquém e além normalmente tomamos pela realidade cotidiana, o mundo como o conhecemos. Ibn al-'Arabi não desenvolve, contudo, uma estética fundada no entre, como os japoneses fizeram. Adotou uma atitude marota em relação ao barzakh, ao mesmo tempo, jocosa e imensamente séria, o que é inteiramente estranho à variante japonesa de ma. Essa atitute permitiu-lhe trazer à baila o artifício do mundo como o conhecia - presunção humana. Para o filósofo sufi, barzakhi, o jogo retórico que oferece, possibilitou-lhe insinuar outra realidade - outras realidades - a que, mediante disciplina mística ao menos, tem-se aceso.


Esforcei-me em descrever diferentes atitudes com respeito ao entre, pois, embora nossa perspectiva epistêmica peculiar tenda a ignorá-lo, ele é na realidade uma "arena" de singular importância social, cultural e psicológica. Ficamos ansiosos, como insistem os existencialistas, perante qualquer indício do não-ser. Podemos ignorá-lo; podemos evitá-lo; podemos ocultá-lo. Podemos enunciá-lo tangencialmente. Também podemos conceber o não-ser esteticamente, como os japoneses fazem com o ma, atribuindo-lhe, assim, valor positivo; ou podemos jogar com ele retoricamente, como Ibn al-'Arabi faz com o barzakh, para evocar a dimensão imaginária - sempre, de algum modo, uma negação - do que tomamos por realidade. Concentramo-nos, como insiste Heidegger (1979, p. 340), no que é, sem levar em conta o fato de o Nada ser um tipo de pano de fundo projetivo para o que é: "o Nada é o que torna possível a revelação de nossa existência humana como ela é". Não desejo, aqui, discutir a noção heideggeriana do Nada, apenas observar que o suspense - estar em suspensão, pender, flutuar, pairar, ascender, scwebwen - é um componente essencial do terror que revela o Nada. "Aterrorizados, ficamos em 'suspense' (wir schweben)" (Heidegger, 1979, p. 336). Quero salientar o suspense - o risco - da passagem. Desejo sugerir que em todas essas travessias há sempre um momento, assintótico, que está simultaneamente dentro e fora do tempo e do espaço, como normalmente os conhecemos. São fundamentais à vida social, aos seus procedimentos mais básicos: troca, passagem, reprodução e transformação.



Victor Turner

Estou interessado, portanto, nos perigos de atravessar o limiar - o limen - e, para utilizar as palavras do antropólogo Victor Turner (1969, 1974), os estados liminares que estão associados a essa travessia. Ibn al-'Arabi iria chamá-los de barzakh, mas daria ao termo um sentido epistêmico que Turner, dada sua epistemologia, não pode. O modelo de Turner é basicamente o modelo tripartite do rite de passage de Van Gennep (1960): separação, margem e incorporação. Ele e outros ampliaram o modelo dos ritos concernentes a crises na vida de um indivíduo para aqueles da sociedade como um todo. Estes incluiriam ritos preparatórios para a guerra, cerimônias de primeira frutificação, colheita e chuva, que marcam a passagem da escassez para a abundância, e rituais de posse, como coroações, que, embora centrados em um indivíduo, são eminentemente sociais na orientação e nos efeitos. Turner (1974, cap. 1) amplia mais ainda o modelo, aplicando-o a períodos de reparação de conflitos sociais, que chama de dramas sociais. O centro de sua atenção é a liminaridade - a margem - , que considera uma "situação interestrutural" e é entendida como processo e devir. Julga o aquecimento da água até a fervura, ou a modificação de uma pupa de lagarta em mariposa "analogias apropriadas" de transição e transformação. Não está particularmente interessado em pontuar o liminar - em suas disjunções internas - e em como este efetua e é afetado pelo momento final, definidor, da transição.4



Ao contrário de Turner, quero atentar nas disjunções rituais, sociais e culturais e no momento, que cada vez mais se reduz mas nunca desaparece por completo, da diferença que resiste à enunciação. Eles são apenas executados e geralmente ignorados, embora possam ser exibidos em rituais dilatados e repetitivos, no drama, na literatura e na música. São os momentos definidores dos ritos de passagem, das cerimônias de cura, das investiduras de poder e autoridade sagradas e seculares e transições corriqueiras de um registro experiencial, por exemplo, a vigília, a outro, por exemplo, o sonho, o transe ou o simples adormecer. São arriscados e, às vezes, perigosos, embora o perigo e o risco que acarretam sejam em regra limitados pela convenção, repetição e sanção. Podem marcar uma mudança de status dos participantes; muitas vezes, envolvem a troca de objetos, reais ou simbólicos, que pairam "despossuídos" por um instante. Com efeito, há, em qualquer troca, um momento disjuntivo no qual o objeto não é dado nem recebido e em que os participantes ainda não são doadores nem receptores. Há sempre o risco de desistência e a conseqüente ruptura da relação. E há momentos, os mais dramáticos de todos, em que os participantes são apanhados em um entre que não podem sequer definir - em que não há travessia.


Na maioria das vezes, os momentos que desafiam a enunciação permanecem um paradoxo: para cada travessia, há sempre um momento em que não se está num lado nem de outro, em que não se é o que era nem o que será; pois, uma vez que são discriminados, o contígüo nunca os atinge. Fica-se em suspensão - pairando eternamente de permeio. (Talvez por isso os japoneses imaginam a si mesmos como preenchidos de energia.) Tome-se o casamento, por exemplo. Há sempre o mais breve dos momentos, quando não se é mais solteiro e tampouco se é casado ainda. Um casal está diante do altar, um sacerdote está prestes a declará-los marido e mulher, mas ainda não o fez ou apenas proferiu as primeiras palavras da declaração. O casal ainda está solteiro? Embora, tecnicamente, não estejam casados, hesitaríamos em dizer que ainda são solteiros. De modo mais extremo, mais absurdo: o sacerdote declarou-os marido e mulher, mas eles (ou as testemunhas) ainda não ouviram - ou escutaram - as palavras. Ainda são solteiros? Casados? A mudança de status é instantânea; ou seja, ela ocorre em um instante e, nesse instante, sempre há um risco. Ainda que breve, sempre há a possibilidade de a noiva ou o noivo fugir; o sacerdote parar; uma testemunha morrer; um dos convidados levantar uma objeção. Essa é a substância do melodrama, mas ela reflete o suspense e o risco de qualquer transição social. (Descobri que a maioria das pessoas - incusive eu mesmo - não é capaz de recordar tais momentos.)


Turner (1967, p. 96) relaciona os símbolos de morte, decomposição e menstruação (muitas vezes, tida como a perda de um feto), que são com freqüência vinculados aos iniciados, ao fato de estes não serem mais classificados. Estruturalmente "mortos", podem ser tratados como cadáveres; denegridos; sepultados; obrigados a deitar, imóveis, na posição habitual dos defuntos, e forçados a viver "com mascarados monstruosos que representam, inter alia, os mortos, ou, pior ainda, os mortos-vivos". Por não estarem ainda classificados, associam-se os neófitos a símbolos de gestação e parto. Podem ser tratados como embriões, neonatos ou crianças de peito. Os dois conjuntos de símbolos, diria, são inextricáveis, ocultam ao revelar, revelam ao ocultar o momento de transição que resiste a ser enunciado. Paradoxalmente, é o simbolismo do nascimento e do renascimento que media a transição, na maioria das vezes, e encobre a disjunção, por sua vez, exposta pela imbricação do simbolismo da morte e do nascimento. Porquanto o nascimento media a oposição entre nascimento e morte, as cartas são sempre embaralhadas em favor dele - da afirmação do ser sobre a não-ser, da continuidade sobre a descontinuidade.


O que há de interessante nesses momentos de transição é que sua liminaridade de vida curta está muitas vezes encravada na liminaridade dilatada, em que a transição final é, como foi, ensaiada em uma série de minitransições: as provas, testes e provações das cerimônias de puberdade, por exemplo. Caracterizam-se por múltiplas repetições em vários registros. Turner descreveu essas longas passagens e, embora reconhecesse sua qualidade dramática, em meu juízo, não avaliou plenamente o modo como elas atingem o clímax, o momento da passagem que, em essência, não pode ser enunciado. Ele tendeu, em suas generalizações sobre a liminaridade, como antiestrutura e communitas, a achatá-lo. Freud, sem dúvida, teria visto essas travessias cada vez mais dramáticas como um modo de dominar a ansiedade. Lévi-Strauss talvez as visse como um modo de reduzir a lacuna entre os dois lados da travessia. Eu quero salientar o perigo, a ansiedade e o terror que evocam. Eles, de maneira inconsciente, chamaram atenção para o artifício de nossa compreensão social e cultural ao exporem esses momentos refratários, que escapam a - e correm o risco de destruir - aquela compreensão e suas exigências de coesão e continuidade. Podemos descrever tais momentos com a expressão horror vacui,5 com a qual Nietzsche (1967) caracterizou o momento dionisíaco da tragédia grega; ou "abismo" - l'abîme -, tão popular na poesia simbolista francesa; ou não-ser. Mas devemos fazê-lo com cuidado, pois elas refletem, como insiste Derrida, nossa insistente ontologia da presença - uma ontologia que, apesar de suas pretensões universalistas, de modo algum é compartilhada universalmente.
O liminar foi muitas vezes equiparado ao sonho - ao processo primário de pensamento. Ele sugere possibilidades imaginativas que, não necessariamente, estão ao nosso dispor no cotidiano. Por meio de paradoxo, ambigüidade, contradição; de símbolos incomuns, exagerados e, por vezes, grotescos - máscaras, indumentária, estatuetas -; e pela evocação de realidades transcendentes, do mistério e de poderes sobrenaturais, o liminar nos oferece uma visão do mundo, que normalmente não enxergamos, cegados pelas estruturas usuais da vida social e cultural. Turner cita o místico alemão Jakob Böhme: "Em incerteza todas as coisas consistem". Devemos citar igualmente al-'Arabi ou um sem-número de outros místicos que chamam atenção para os paradoxos de nossa compreensão. Turner escreve:


A liminaridade talvez possa ser considerada como o Não de todas as asserções estruturais positivas, mas, em certo sentido, a fonte de todas elas e, mais do que isso, como um reino de pura possibilidade, de onde novas configurações de idéias e relações podem surgir. (1967, p. 97)
Sim, queremos dizer - tamanho é o ethos de nossa criatividade -, mas devemos reconhecer que o liminar também impõe constrangimentos. Ele não é sem estrutura, como Turner algumas vezes afirma, mas, como sustenta em outras, é antiestrutural, ou seja, conforme entendo, sempre está em relação com a estrutura do cotidiano. O liminar pode estimular a invenção, mas, ainda que pela negação, também afirma a tradição.


À guisa de conclusão, quero destacar um paradoxo no modo como compreendemos o liminar, quanto à imaginação. Se tomamos a imaginação, como fazem Sartre e, à sua maneira, Ibn al-'Arab, como algo que apresenta o que está ausente ou é inexistente, somos obrigados a concluir que expomos essas lacunas, esses momentos disjuntivos do não-ser, que pontuam nossa vida social e cultural, por meio de um atividade que permanece no não-ser de seu objeto - a imagem. A imaginação também nos fornece o brilho, os dispositivos retóricos, as manobras narrativas e as estratégias rituais que ocultam essas lacunas. Expomos o não-ser, como era, por meio de um ato que postula o não-ser, assim como ocultamos esse não-ser por um não-ser que declaramos, ao menos no ritual, ter completude - plenitude. Que é mais "real" que os objetos rituais? Turner poderia chamá-los sacerrima. É a esse paradoxo que se deve a contínua (ainda que repetitiva) elaboração, no ritual e no drama, na literatura e na arte, especialmente e do modo mais puro, na música, do momento assintótico de passagem, que torna as fronteiras imaginativas tão ameaçadoras quanto fascinantes e encantadoras para nós? Tal subterfúgio, se pode ser chamado assim, é uma fonte de nossa inegável criatividade social e cultural - ou de sua extinção - por meio da repetição e de sua proclamação como verdade última.

Notas


1 Este artigo, em boa medida, baseia-se nos dois primeiros capítulos de meu novo livro, Imaginative Horizons: An Essay in Literary-Philosophical Anthropology (2004).


2 N. do T.: O autor emprega a expressão betwixt and between - traduzida geralmente por "nem uma coisa nem outra" e que denota estado ou natureza ambígua, indeterminada -, em referência ao ensaio de Victor Turner "Betwixt and Between: The Liminal Period in rites de passage" (in Turner, 1967). Este a utiliza para caracterizar a condição dos indivíduos que, nos ritos de passagem, encontram-se no "estado de transição" ou liminaridade: "Entidades liminares não estão cá nem lá; estão aquém e além [betwixt and between] das posições designadas e dispostas por lei, costume, convenção e cerimonial" (Turner, 1969, p. 95). O tradutor valeu-se de leitura e comentários dos professores Rose Satiko Hikiji e John Dawsey, a quem agradece.


3 Ver Crapanzano (2000) para uma discussão pormenorizada da hermenêutica do fundamentalismo cristão.


4 Ver Crapanzano (1992, p. 260-80) para uma discussão das disjunções intra e extra-ritual. Ver também Taussig (1987, p. 441 ss).


5 N. do T.: Literalmente, horror ao vácuo.



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(Tradução de André Pinto Pacheco)

ABSTRACT


In this paper, the author develops the notions of imaginative horizons as well as of betwixt and between, liminality and crossing; grounded on them, he propounds an anthropology of the imagination. Despite considering fuzziness, shadowiness as a necessary component of all experience, thought and perception, he focuses on ignored dimensions of reality. Examining the interstitial spaces and times (ma) in traditional Japanese aesthetics or the notion of barzakh in Sufi mysticism, the author stresses different conceptions of the between. Finally, through a rereading of Victor Turner's theorization of the liminal, he calls in question our presuppositions about the nature of relations.
Key-words: Anthropology of the imagination, imaginative horizons, liminality, experience, Victor Turner.
(Fonte: Rev. Antropol. v.48 n.1 São Paulo jan./jun. 2005)
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Comentário de u.s.w. (12/01/2008)
Viver é muito perigoso”.
Por que? Por que em toda sua matutice Riobaldo afirma que viver é perigoso?
Se o mundo é o sertão e viver é fazer a travessia de suas veredas. Se o sertão é a fronteira do imaginário; “terra de pura possibilidade, de desejo e medo”. Então viver é sempre perigoso.
Mas o sertão não é o não-ser, o sertão é o mundo antes que eu comece a lhe dar nomes. O sertão é o laranja e o azul que sinto entrar pela minha janela toda manhã de sol, antes de chamá-lo azul e laranja, antes de sabê-lo que não são azul e laranja, mas céu e concreto, que sequer o laranja existe, mas só o concreto cinza, antes de saber que o laranja é só o reflexo do sol se levantando. Esse mundo fugaz em que nada tem nome é um mundo de possibilidades infinitas, só aí pode nascer o amor. Só o sertão pode me fazer amar Diadorim, que não sei o que é, não sei chamar, só sei sentir. Todo amor se instala aí, no sertão. Quando aprendermos, como Riobaldo (que foi capaz de amar Diadorim sem sabê-lo ou dizê-lo), que o sertão é o mundo, e que portanto no mundo é que se instala o amor, então poderemos viver, no perigo, mas viver.


terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Produto Imaterial Bruto e "cultura" digital


'Uma internet sem espírito gera apenas um monte de 'macacos' jogando videogame'. Entrevista especial com Gilson Schwartz

(Fonte: http://www.unisinos.br/_ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=11519)


O Brasil está dividido entre entre o anseio de se transformar um país desenvolvido e as dificuldades que o fazem permanecer no grupo dos sonhadores subdesenvolvidos. Apostar em tecnologias e, mais especificamente, na produção digital direcionada para o mercado online seria uma possibilidade para o país engatinhar rumo ao desenvolvimento. Com o avanço da produção social na internet, parece que Brasil “vai entrar no mundo desenvolvido em alguns instantes, mas falta muito, muito para chegar lá”, lamenta o professor Gilson Schwartz, da Universidade de São Paulo (USP). Em entrevista por telefone à IHU On-Line, o pesquisador disse que a produção social realizada pelos brasileiros, ainda é baixa e que neste quesito o país “está atrasado”.

Para crescer no mercado imaterial, “sem dúvida a economia precisa crescer, necessita emprego, ou seja, precisamos das condições básicas, mas sem criatividade e inovação, continuaremos a consumir bovinamente o óbvio”, alerta o pesquisador.

Gilson Schwartz é graduado em Economia e em Ciências Sociais, pela Universidade de São Paulo (USP), e mestre e doutor em Ciência Econômica, pela Universidade Estadual de Campinas. Desde 2005, é professor do Departamento de Cinema, Rádio e TV da Escola de Comunicações e Artes da USP. Atua desde 1994 como consultor de instituições financeiras como BankBoston (como economista-chefe). É também assessor da Presidência no BNDES e consultor do BNB, CEF e Banco do Brasil. Ele concedeu outra entrevista à IHU On-Line, na edição 226, de 02-07-2007, intitulada Second Life: uma fábrica de sonhos e desejos.

IHU On-Line - Qual é a sua análise econômica sobre a produção social atual no Brasil?
Gilson Schwartz - Em termos mais gerais, levando em consideração os indicadores internacionais, nossa posição na internet é equivalente às que exibimos em outras áreas. O Brasil é um país de tamanho médio, encontrando-se na fronteira superior do mundo em desenvolvimento. Parece que irá entrar no mundo desenvolvido em alguns instantes, mas falta muito, muito mesmo para chegar lá, como atestam os indicadores educacionais. A nossa produção social na rede teria um destaque maior se a distribuição de renda fosse melhor.

IHU On-Line - Quais são as principais conseqüências dessa produção social para a justiça social, visto que já há casos de bloqueios de alguns portais por determinações da justiça, como aconteceu recentemente com o youtube?
Gilson Schwartz - A principal conseqüência é que a produção social (a chamada "wikinomia") pode gerar novos tipos de problemas, além de aumentar o espaço para antigos problemas. Um exemplo desses novos problemas está relacionado a essa questão do You Tube, em que um vídeo sem a autorização da pessoa vai para a rede. Hoje em dia, ficou muito fácil capturar material e distribuir sem maior responsabilidade. Então, essa é uma conseqüência que pode criar situações, que, do ponto de vista da justiça, são claramente ofensivas aos direitos das pessoas.

IHU On-Line - No Ciclo produzido pelo Instituto de Estudos Avançados da USP, sobre o livro A riqueza das redes, discutiu-se a inserção da produção social na cultura brasileira. Como essa inserção vem acontecendo?
Gilson Schwartz - O Brasil tem uma população urbana muito grande, mas, por enquanto, a chamada produção social (que muitos traduzem como "web 2.0") não tem grande destaque no país. Se formos observar o que tem acontecido de mais criativo em termos de uso social da rede, a chamada produção social, o Brasil está atrasado, como são atrasadíssimos todos os indicadores sociais do país. Mas, aos poucos, estão surgindo projetos inovadores. Falam muito do gosto do brasileiro por mídia, mas esquecem de dizer que a massa de usuários da web é "formada" por décadas de Xuxas, Trapalhões, sensacionalismo barato e até de cunho religioso, entre outras práticas de baixo impacto criativo.

Perspectivas

A produção social é fruto de duas determinações. Uma é o PIB (Produto Interno Bruto), com o crescimento econômico, desenvolvimento econômico, o que ajuda a aperfeiçoar a nossa capacidade criativa. O outro PIB, que se escreve do mesmo jeito, mas que tem um significado oposto, podemos chamar de "Produto Intangível", ou "Imaterial". Ele diz respeito não à economia, tal como conhecemos, mas a uma nova visão que é a da "iconomia", a economia dos intangíveis, dos imateriais, dos ícones. Claro que a expansão criativa da iconomia depende basicamente de educação e renda. Para crescer nesse mercado intangível, sem dúvida a economia precisa crescer, necessita emprego, ou seja, precisamos das condições básicas, mas, sem criatividade e inovação, continuaremos a consumir bovinamente o óbvio. Uma internet sem espírito gera apenas um monte de "macacos" jogando videogame.

IHU On-Line - Com a produção social surge uma nova economia, a economia imaterial (iconomia)?
Gilson Schwartz - A visão de uma produção social engloba tanto o mercado como aquilo que vai além do mercado. Em última análise, ela também é fundamental para regular e controlar o mercado. A rede digital, em contraposição ao mercado, onde aparece apenas o preço, coloca em evidência na rede digital uma inteligência coletiva que pode levar até mesmo a uma nova consciência de que é necessário salvar o planeta.

IHU On-Line - O senhor pode falar um pouco mais da influência que a obra de Benkler tem tido sobre as pesquisas relacionadas à produção social?

Gilson Schwartz - Sobre as pesquisas, o Benkler (1) é menos um influenciador, e mais um sistematizador. O livro dele tem o mérito de sistematizar uma visão hacker-liberal da sociedade em rede, que é muito forte nos Estados Unidos.

Yochai Benkler




IHU On-Line - Que tipo de grupamentos sociais influenciaram na formação da cultura da internet?
Gilson Schwartz - Não existe a cultura "da" internet. A rede é mais um meio de comunicação que possibilita a criação cultural. Considero exagerado transformar a cultura da internet num ícone, como se ela tivesse que ser exportada para todos os lugares do mundo. Se fosse assim, todos nós deveríamos nos tornar hackers para integrar essa nova sociedade. Esse talvez seja um dos limites da obra do próprio Benkler, que afirma a existência de uma cultura "da" internet. Obviamente, é possível associar formas e culturas às tecnologias que as pessoas utilizam para viver, como o automóvel, ou os garfos e as roupas.

Não vamos negar que existe um aspecto importante na cultura material e na maneira como se usa a tecnologia. Mas é reducionista pensar que a cultura da internet é, sobretudo, a cultura que a própria internet produz. Quer dizer, o que define a cultura é um conjunto de elementos que não se limita a uma tecnologia. Não é a tecnologia que determina a evolução da cultura, embora, sem dúvida alguma, ela é um dos fatores fundamentais que moldam a nossa vida.

A tecnologia não funciona como uma matriz geradora de cultura, pois é parte da nossa cultura material. Essa seria a minha crítica ao próprio Benkler e a maneira como ele encaminha a discussão sobre produção social, promovendo uma espécie de hipertrofia da cultura da internet, que não corresponde à realidade das sociedades nem dos mercados.

Notas:

(1) Yochai Benkler: docente da Faculdade de Direito da Yale Universit, Estados Unidos. Ele é autor de algumas obras que vislumbram o potencial das novas práticas de compartilhamento através da internet, como o Software Livre e a Wikipedia. Entre seus livros, destacamos The wealth of Networks: How Social Production Transforms Markets and Freedom (Neu Haven: Yale University Press, 2007) (A Riqueza das Redes - Como a Produção Social Transforma Mercados e a Liberdade).

Gelo da Groenlândia agita debate sobre nível dos oceanos

Fendas de água começam a aparecer na Groenlândia


08/01/2008


Por: Andrew C. Revkin



A antiga cúpula congelada que cobre a Groenlândia é tão vasta que pilotos já se chocaram com aquilo que pensavam ser uma formação de nuvens se estendendo ao longo do horizonte. Ao voar sobre ela, mal dá para imaginar que este gelo pudesse se derreter com rapidez suficiente para tão cedo elevar perigosamente o nível dos oceanos.

Entretanto, ao longo dos seus flancos, na primavera e no verão, o quadro é muito diferente. Durante uma série cada vez mais extensa de anos quentes, uma série de lagos azuis e riachos de gelo derretido tem se espalhado cada vez mais sobre a camada de gelo. A superfície que se derrete escurece-se, absorvendo até quatro vezes mais energia solar que a neve não derretida, que reflete a luz do sol. Cavidades naturais de drenagem, as chamadas moulins, conduzem a água da superfície para as profundezas, fazendo com que em alguns locais ela atinja o fundo de pedra. De forma discreta, mas mensurável, o processo lubrifica as superfícies e acelera a movimentação do gelo rumo ao mar.

E, segundo os glaciologistas, o mais importante é a ruptura de grandes pedaços semi-submersos de gelo onde enormes geleiras da Groenlândia, especialmente na costa oeste, se espremem pelos fiordes ao se encontrarem com o oceano em processo de aquecimento. Conforme essas passagens foram se abrindo, acelerou-se o fluxo de diversos desses rios congelados e rugosos.


"Todas essas mudanças fazem com que atualmente diversos glaciologistas estejam nervosos - para não dizer chocados", afirma Ted Scambos, que é o cientista chefe do Centro Nacional de Dados Sobre Neve e Gelo, em Boulder, no Colorado, e um veterano dos estudos sobre a Groenlândia e a Antártica.

Alguns temem que a elevação do nível dos mares em um mundo em processo de aquecimento possa ser maior do que a estimativa mais pessimista de cerca de 60 centímetros neste século, feita no ano passado pelo Painel Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas (os mares subiram menos do que 30 centímetros no século 20). A avaliação do painel não incluiu fatores conhecidos por contribuir para os fluxos de gelo, mas que não são compreendidos de forma suficiente para que se possa fazer com confiança estimativas baseadas neles. Tudo o que o painel pôde dizer foi: "Valores maiores não podem ser excluídos".

Está em andamento um esforço científico para determinar se a erosão das mais vulneráveis camadas de gelo do mundo, na Groenlândia e na Antártica Ocidental, pode continuar acelerando-se. Esse esforço envolve pesquisas de campo e análises de dados obtidos por satélites, bem como a busca de pistas baseadas em períodos quentes ocorridos no passado, incluindo o último intervalo entre eras glaciais, que chegou ao seu apogeu cerca de 125 mil anos atrás, e fez com que os oceanos atingissem um nível de 3,7 a 4,9 metros superior ao atual.

O Conselho Ártico, representando os países do território ártico, encomendou um relatório sobre as tendências ambientais na Groenlândia, para ser concluído antes das negociações sobre um tratado climático que deverão ocorrer em 2009, em Copenhague. As nações do mundo se comprometeram a criar durante essas negociações um plano de longo prazo para limitar o aquecimento global causado pelos seres humanos.

Konrad Steffem, um glaciologista da Universidade do Colorado que acampa sobre a camada de gelo da Groenlândia todos os anos desde 1990, é o autor do capítulo no relatório sobre o clima da região. Em agosto do ano passado, ele e uma equipe de cientistas que estudam as maneiras como o gelo derretido poderia afetar o movimento do gelo baixaram uma câmera a uma profundidade de 100 metros em uma moulin cheia de água para determinar se esse sistema de drenagem poderia ser mapeado.

A câmera sendo baixada no moulin



Pesquisas feitas nas geleiras alpinas demonstram que à medida que mais água flui por tais fendas, mais rapidamente o gelo se desloca. Mas em determinado momento formam-se canais maiores, que limitam o efeito lubrificante. A experiência com a câmera foi apenas um teste inicial.

Alberto Behar, um engenheiro da Nasa que projetou a câmera, diz que alguns métodos não convencionais foram cogitados para mapear o fluxo dessas águas. "Tivemos idéias como o lançamento de patinhos de borracha pelas fendas para verificar se eles apareceriam no mar", diz Behar. "Dentro dos patinhos haveria um bilhete dizendo algo como: 'Por favor, se você me encontrar, ligue para o número tal'".

As mudanças presenciadas na Groenlândia podem acabar revelando-se auto-limitantes no curto prazo; por exemplo, geleiras onduladas podem sofrer achatamento e ter sua velocidade reduzida. Ou elas podem ser um sinal de que o gelo da ilha - que contém aproximadamente a mesma quantidade de água que o Golfo do México - está prestes a sofrer um rápido despregamento. Os cientistas estão divididos quanto a essa questão, e também quanto ao risco de curto prazo referente a uma porção da cobertura de gelo da Antártica do tamanho do Texas, que também está dando sinais de instabilidade. Essa divisão coloca de um lado aqueles que antevêem um aumento do nível do mar de cerca 60 centímetros neste século, causado pelo derretimento do gelo da Groenlândia, do oeste da Antártica e de geleiras nas montanhas e, do outro lado os que acreditam que nesse período a elevação dos mares será de uns dois metros.

Entre os que têm uma visão mais conservadora em relação ao destino da Groenlândia no curto prazo está Richard Alley, da Universidade do Estado da Pensilvânia, que observou que amostras de gelo e testes com materiais orgânicos colhidos abaixo do gelo indicam que a principal massa de gelo da Groenlândia suportou milhares de anos de aquecimento no passado sem desaparecer.

"Aquilo é basicamente um grande pedaço de gelo sobre uma camada de rocha", diz Alley, ao descrever o comportamento da Groenlândia em condições mais quentes. "O que ele tenta fazer é formar mais neve no meio e derreter mais nas bordas. Se ele retrair as sua bordas, haverá menos área para derreter, e isso o ajuda a sobreviver. É por isso que é possível existir uma cobertura estável de gelo em um clima mais quente".

Mas não existe mais nenhuma polêmica significativa quanto ao cenário de longo prazo. Caso o aumento das emissões de gases causadores do efeito estufa continue seguindo uma tendência próxima à atual, o aquecimento e a perda de gelo resultantes nas duas extremidades do planeta fariam com que as regiões costeiras retrocedessem durante séculos. Embora tenha se mostrado circunspecto em relação às mudanças de curto prazo, o painel intergovernamental manifestou-se com confiança a respeito das mudanças de longo prazo.

A perspectiva de não se contar com uma linha costeira "normal" no futuro não muito distante faz com que muitos cientistas fiquem profundamente preocupados.

"O que está em jogo é a estabilidade que nós sempre consideramos como um fato imutável, tanto no que diz respeito às costas como ao próprio clima", afirma Jason E. Box, professor de geografia da Universidade do Estado de Ohio. Box apresentou descobertas recentes na reunião da União Geofísica Norte-Americana no mês passado, revelando que várias geleiras da Groenlândia tiveram a sua movimentação drasticamente acelerada em uma resposta direta ao aquecimento, tanto durante uma onda de calor que teve início na década de 1920 quanto agora.

Eric Rignot, que há muito tempo estuda as coberturas de gelo em ambos os pólos para o Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, diz que espera que a população e os elaboradores de políticas não vejam na incerteza das previsões do século 21 motivo para complacência quanto à necessidade de limitar os riscos por meio da redução das emissões.

Recentemente Rignot propôs que o aquecimento ininterrupto poderia resultar em uma aumento do nível dos mares globais composto por três fatores básicos: 90 centímetros devido ao derretimento na Groenlândia, 90 centímetros provenientes do gelo derretido da Antártica e 46 centímetros causados encolhimento das principais geleiras nas regiões montanhosas.

Isso é similar às projeções feitas pelo mais proeminente cientista climático da Nasa, James E. Hansen, sendo entretanto duas vezes maior do que os valores quanto ao qual muitos glaciologistas parecem considerar o limite máximo para a elevação dos oceanos até o final deste século.

"É muito cedo para se afirmar que tudo irá se estabilizar, e também não há como prever um colapso catastrófico", diz Rignot. "Mas as coisas estão sem dúvida alguma bem mais sérias do que qualquer um teria imaginado cinco anos atrás".


(Fonte: The New York Times - extraído de UOL Mídia Glogal - http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/nytimes/2008/01/08/ult574u8101.jhtm)

domingo, 6 de janeiro de 2008

O tempo

Às vezes acho que minha vida é movida a incríveis coincidências, mas talvez a gente só comece a notar as coisas de forma diferente quando está envolvida num assunto. De qualquer forma, durante meses meus interesses giraram em torno do tempo em Deleuze, tema espinhento... Nessa sanha me defrontei com textos, do próprio Deleuze e de comentadores seus, que falam de Borges. Ora, acabara de me cair às mãos as novas edições da obra de Borges e eu estava relendo os contos de Ficções. As grandes obras são sempre assim, por isso não consigo me desfazer de livros, sei que uma hora vou precisar relê-las: quando você lê Borges e tem 15 ou 16 anos é uma coisa, quando rele muito tempo depois é outra obra, outro autor. Bem, já estou me distanciando de novo do que queria comentar. Deleuze e seus comentadores citam dois textos específicos de Borges sobre o tempo, um deles está em Outras inquisições – livro de ensaios que não conhecia; li o tal texto, “Nova refutação do tempo”, achei fantástico e resolvi ler o livro. Os ensaios falam de literatura e filosofia, sendo que a grande maioria discute o tempo – e outra grande parte sonhos.
Há 10 dias atrás nos encontramos – não todos nós aqui do Blog, mas 3 de seus membros. Fomos ao cinema e depois num bar conversar um pouco. Não me lembro o motivo, mas lembro que acabamos falando... do tempo. Falamos da tese da coexistência, da contemporaneidade: essa é a tese que segue Deleuze, passado e futuro são resultados de sínteses, não são a natureza em si do tempo. Alguém falou de uma experiência incrível com médiuns que tinham fama de curar pacientes com vibrações ou orações: pegaram as fichas médicas de alguns pacientes e distribuíram – pelo que eu entendi aleatoriamente – para um grupo composto por esses médiuns e outro grupo controle. Na verdade essas fichas eram antigas (passadas), alguns pacientes já tinham se recuperado e outros tinham falecido. O interessante é que quando foram ver, as fichas que haviam sido distribuídas para os médiuns eram todas de pacientes que haviam se recuperado! Ora, pensamos, eles agiram sobre o passado! Como? Se pensarmos que só há o presente isso fica plausível.
Voltando a Borges, outro ensaio que fala do tempo é “A criação de P. H. Gosse” – Philip Henry Gosse foi um cientista natural inglês do século XIX. Ao que parece, Gosse tentava unir religião e ciência, mas de uma maneira bem inusitada: Borges fala que Gosse propôs – vejam bem, em pleno século cientificista – que os registro fósseis foram ali colocados por Deus. O que isso implica? Não há passado. Isso faz sentido, não? Ora, se o universo é eterno, existe apenas o hoje. Borges termina o ensaio lembrando uma incrível tese de Locke: “o planeta foi criado há poucos minutos, provido de uma humanidade que ‘recorda’ um passado ilusório”.

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Comentário de JHolland:

ZB,

Aqui vai o texto que te falei, de Contardo Calligaris e que vc. mencionou na postagem acima...


São Paulo, quinta-feira, 30 de novembro de 2006

CONTARDO CALLIGARIS

O poder da reza

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Mistério: estudo mostra que uma reza retroativa ajudou pacientes anos depois da internação
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UM AMIGO médico, Décio Mion, me fez conhecer um estranho debate que ocupou, de 2001 a 2003, as páginas do seríssimo "British Medical Journal".

Premissa: várias pesquisas, há tempos, mostram os efeitos positivos da reza numa variedade de condições patológicas. Documenta-se que o doente encontra benefícios (quanto ao andamento de sua enfermidade) no ato de rezar ou na consciência de que seus próximos rezam por ele. Até aqui, tudo bem: o paciente acharia assim uma paz de espírito que melhora sua evolução.

A coisa se complica: às vezes, as pesquisas mostram que a prece traz benefícios mesmo quando alguém reza por um doente sem que ele próprio saiba disso. Como explicar esses casos?

Talvez o benefício seja fruto de uma intervenção caridosa da divindade solicitada, mas essa explicação depende de um ato de fé que não cabe na interpretação de uma pesquisa científica. Além disso, é curioso que os benefícios apareçam seja qual for o deus ou o intercessor que receba a oração.

Resta, pois, imaginar que a intenção humana (o esforço cerebral de quem deseja que algo aconteça e reza por isso) tenha alguma realidade material (energia, partículas etc.) capaz de influir no andamento de um processo patológico. Estranho?

Nem tanto: afinal, até poucas décadas atrás, ignorávamos a existência de uma série de partículas que, segundo a física de hoje, povoam nosso universo. Por que as nossas intenções não movimentariam uma energia desconhecida, mas capaz de alterar o mundo físico? Nos EUA, nos anos 60-70, foram organizadas reuniões diante da Casa Branca com a idéia de que, se todos se concentrassem, a energia do dissenso faria levitar a residência do presidente norte-americano. Embora cético, participei, convencido por um amigo que dizia: "Tentar não dói". Claro, não funcionou.

Ora, no fim de 2001, o "British Medical Journal", depois de um editorial lembrando que a razão não explica tudo, publicou uma pesquisa, de L. Leibovici (BMJ, 2001, 323), que registra os efeitos benéficos (em pacientes com septicemia) de uma reza afastada não só no espaço, mas também no tempo. Explico.

Foram incluídos no estudo todos os pacientes internados com septicemia, de 1990 a 1996, num hospital israelense; eram 3393. Em 2000 (de quatro a dez anos mais tarde), por um processo rigorosamente aleatório, os arquivos desses pacientes foram divididos em dois grupos: um grupo pelo qual haveria reza e um grupo de controle. Para cada nome do primeiro grupo, foi dita uma breve reza que pedia a recuperação do paciente e do grupo inteiro.

Resultado: no grupo que recebeu uma reza em 2000, a mortalidade foi (ou melhor, fora, de 90 a 96) inferior, embora de maneira pouco significativa; no mesmo grupo, a duração da febre e da hospitalização fora (ou melhor, havia sido, de 90 a 96) significativamente menor.

A publicação da pesquisa provocou uma enxurrada de cartas (BMJ, 2002, 324), algumas contestando as estatísticas, outras manifestando uma certa incompreensão do problema, que é o seguinte: como entender que uma reza possa agir não só sem que o paciente tenha consciência da intercessão pedida (com possível efeito psicológico positivo), mas à distância no tempo? Como entender, em suma, que uma reza dita em 2000 tenha um efeito retroativo em alguém que estava doente entre 90 e 96, quando a pesquisa e a reza nem sequer estavam sendo cogitadas?

Uma tentativa de resposta veio em 2003. O "BMJ" (2003, 327) publicou um interessante e enigmático artigo de Olshansky e Dossey, "History and Mystery" (história e mistério), em que os dois médicos dão prova de conhecimentos de física quântica muito acima de minha cabeça. O argumento de fundo é o seguinte: há modelos do espaço-tempo nos quais é possível que haja relações físicas entre o passado e o presente (ou seja, modelos em que o presente pode alterar o passado).

Que o leitor não me peça para explicar como isso aconteceria. As dimensões do "espaço de Calabi-Yan" e os "campos bosônicos", para mim, são tão obscuros quanto os ectoplasmas, os espíritos e os milagres.

Moral da história: embaixo do sol (ou da chuva), deve haver muito mais do que imaginamos, até porque nossa ciência está longe de ser acabada. Alguns colegas positivistas talvez durmam mal com esse barulho.

Eu não acredito nas paranormalidades, mas, em geral, durmo melhor ninado pelo mistério do que pelas certezas.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Um sonho de Breton (Nadja...)

Andre Breton



Breton havia acabado de descrever a peça Détraquées e as impressões profundas que ela lhe havia impregnado...

"A falta de indicações suficientes sobre o que acontece depois da [cena] da caída da bola na sala, sobre Solange e sua parceira poderem perfeitamente ser a presa e se transformarem em soberbas predadoras, continua até hoje, por excelência, o que mais me confunde. De manhã, ao despertar, tive mais trabalho que de costume para me desvencilhar de um sonho bastante infame, que não vejo a menor necessidade de transcrever aqui, pois decorre em grande parte de conversas que tive ontem, sobre um assunto inteiramente diverso. Esse sonho me pareceu interessante na medida em que era sintomático da repercussão que tais lembranças, por menos que a elas nos entreguemos com violência, podem ter sobre o curso do pensamento. É notável, desde logo, observar que o sonho de que se trata não expunha senão o lado penoso, repugnante, ou mesmo atroz, das considerações a que eu me entregara, destruindo cuidadosamente todo o fabuloso valor que essas considerações representam para mim, tal como um extrato de âmbar ou de rosa que atravessasse os séculos. Por um lado, é preciso admitir que se eu me desperto, vendo com extrema lucidez o que aconteceu por último: um inseto verde-musgo, de uns ciquenta centímetros, que havia tomado lugar de um velho, e avança em direção a uma espécie de aparelho automático; põe uma moeda na ranhura, uma em vez de duas, o que me parece constituir uma fraude particularmente repreensível, a tal ponto que, como que por descuido, lhe ter dado uma bengalada e tê-lo feito cair na minha cabeça - tive tempo de perceber as bolas de seus olhos brilharem na aba de meu chapéu, depois me engasguei, e custaram a retirar da minha garganta duas de suas patas aveludadas, enquanto eu sentia uma repugnância inexprimível -, é claro que, superficialmente, isto guarda uma relação sobretudo com o fato de existir, no forro do estúdio onde fiquei nesses últimos dias, um ninho, em torno do qual se agita um passarinho meio assustado com a minha presença, a cada vez que traz lá dos campos, piando, alguma coisa como um gafanhoto verde, mas é indiscutível que na transposição, na intensa fixação, na passagem, de outra forma inexplicável, de uma imagem desse tipo do plano da observação sem interesse para o plano emotivo, concorrem em primeiro lugar a evocação de certos apisódios de Détraquées e a volta àquelas conjecturas de que havia falado. Porque a produção de imagens de sonho depende sempre pelo menos desse duplo jogo de espelhos, nela encontramos a indicação do papel muito especial, sem dúvida eminentemente revelador, no mais alto grau "supradeterminante", no sentido freudiano, que certas impressões muito fortes são chamadas a desempenhar, nada contamináveis pela moralidade, verdadeiramente percebidas "acima do bem e do mal" no sonho e, em seguida, no que lhes opomos muito sumariamente sob o nome de realidade."
(André Breton: Nadja, pags. 54-55)

Filme: "O Fio da Navalha" (The Razor's Edge), de 1946

Cena de "O Fio da Navalha" (1946): qualquer semelhança com Caspar Friedrich...


É um belo filme dos anos 40 (1946), que também traz interessantes conexões com a nossa temática: transmutações pessoais e xamanismo.




The Razor's Edge é uma adaptação do romance homônimo do escritor inglês Sumerset Maugham (1874-1965) e se passa no entre-guerras, período que deu nascimento a uma impressionante geração de escritores, como Fiztgerald, Williams, Hamingway e Henri Miller: a chama "Geração Perdida".



S. Maugham



O título provém do provérbio oriental:

"The sharp edge of a razor is difficult to pass over; thus the wise say that the path to salvation is hard."


Tendo como pretexto da narrativa a vida de três jovens amigos nos anos 20/30 - e como pano de fundo a dissolução do mundo tradicional ocorrida no pós-I Guerra - essa história de sabor existencialista irá tratar na verdade do inconformismo radical e da busca interior por parte de um "Outsider" para alcançar uma genuina liberdade, um ato de coragem que irá culminar com o rompimento de todos os referenciais tradicionais.



Embora siga uma narrativa linear, clássica, The Razor's Edge, além de belo, segue fielmente o romance de Sumerset Maugham, conhecido pelo seu fascínio pelo Oriente e por sua delicada pena, capaz de unir a leveza e a reflexão.




Filmes como esse mostram quão "careta" se tornou, posteriormente, o "establishment" cinematográfico, sobretudo no final do século XX e início do XXI.

E, de fato, a refilmagem realizada em 1984 - tendo Bill Murray no papel principal - é bem inferior ao original, pois não soube explorar as potencialidades do romance e, sobretudo, as sutilezas psicológicas do personagem principal (na verdade, sutilezas de todos os seus personagens...)

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

As estruturas antropológicas do ciberspaço




Fonte: www.futuro.eng.br/CIBER.html

Por Andre Lemos.
E-mail: lemos@svn.com.br

« Le cyberspace. Une hallucination consensuelle vécue quotidiennement en toute légalité par des dizaines de millions d’opérateurs dans tous les pays, par des gosses auxquels on enseigne les concepts mathématiques... Une représentation graphique de données extraites des mémoires de tous les ordinateurs du système humain. Une complexité impensable. Des traits de lumières disposés dans le non-espace de l’esprit, des amas et des constellations de données. Comme les lumières de villes, dans le lointain... » (1) W. Gibson


O termo ciberespaço aparece quotidianamente na imprensa e nas discussões sobre as novas tecnologias de informação. Entretanto, nada é mais difícil de definir ou simplesmente compreender. Temos uma idéia do ciberespaço como o conjunto de redes de telecomunicações criadas com o processo digital das informações. John Perry Barlow (um dos fundadores da "Electronic Frontier Foundation"), por exemplo, define o ciberespaço como o lugar em que nos encontramos quando falamos ao telefone. Se essa definição nos dá uma imagem do que venha a ser o ciberespaço, ela não ajuda a compreendermos todas as suas facetas. Como a fronteira pela qual a sociedade redefine noções de espaço e de tempo, de natural e de artificial, de real e de virtual, o ciberespaço é uma das grandes questões do século que se aproxima. Daí a urgência em compreender suas estruturas internas.


Nesse artigo tentaremos abordar teorias que podem ser aplicadas ao ciberespaço para mostrar que este se encontra preso em estruturas arcaicas, imaginárias e simbólicas, de toda vida em sociedade. Visamos assim, esclarecer um pouco o conceito de ciberespaço sob a luz do hermetismo, da gnose, dos ritos de passagem, do tempo real, do espaço imaginário e da metáfora evolucionista e organicista da "Noosfera", do "Cybionte", da "Inteligência Coletiva" e dos "Rizomas". O ciberespaço seria assim um espaço mágico, uma rede de inteligências coletivas. Ele não aceita a idéia de árvore, como centralização de sua evolução, sendo um rizoma que vai se comportar como uma entidade complexa (um "Cybionte"), auto-organizante e quase orgânico.


Breve descrição do ciberespaço


O termo "cyberspace" foi inventado pelo escritor "cyberpunk" de ficção científica William Gibson no seu monumental "Neuromancer" de 1984 (2). Para Gibson, o ciberespaço é um espaço não físico ou territorial, que se compõe de um conjunto de redes de computadores através das quais todas as informações (sob as suas mais diversas formas) circulam. O ciberespaço gibsoniano é uma "alucinação consensual" onde podemos nos conectar através de "chips" implantados no cérebro. A Matrix (3), como chama Gibson, é a mãe, o útero da civilização pós-industrial onde os "cybernautas" vão penetrar (4). Ela será povoada pelas mais diversas tribos, onde os "cowboys" do ciberespaço circulam em busca de informações vitais para suas empresas ou suas vidas. A Matrix de Gibson, como toda a sua obra, faz uma caricatura do real, do quotidiano.
Embora ainda estejamos longe da "ligação" neuronal direta com o ciberespaço, esse é em crescimento geométrico. Só para termos uma idéia, a parte dita multimídia da Internet, o "world wide web" (WWW ou Web) vê nascer uma "home page" nova a cada quatro segundos. A rede de redes chamada Internet está em via de se tornar para os anos 90, aquilo que foi o rock para os anos 60: um fenômeno de massa. Toda a economia, a cultura, o saber, a política do século XXI, vão passar por um processo de negociação, distorção, apropriação dessa nova dimensão espaço-temporal que é o ciberespaço.


Hoje entendemos o ciberespaço à luz de duas perspectivas: como o lugar onde estamos quando entramos num ambiente virtual (realidade virtual), e como o conjunto de redes de computadores, interligadas ou não, em todo o planeta (BBS, videotextos, Internet...). Estamos caminhando para uma interligação total dessas duas concepções do ciberespaço, pois as redes vão se interligar entre si e, ao mesmo tempo, permitir a interação por mundos virtuais em três dimensões. O ciberespaço é assim uma entidade real, parte vital da cybercultura planetária que está crescendo sob os nossos olhos.


Mesmo sem ser uma entidade física concreta, pois ele é um espaço imaginário, o ciberespaço constitui-se em um espaço intermediário. Ele não é desconectado da realidade mas, ao contrário, parte fundamental da cultura contemporânea. O ciberespaço é assim um complexificador do real. Como afirma Kellogg (5), ele aumenta a realidade já que ele supre nosso espaço físico em três dimensões de uma nova camada eletrônica. No lugar de um espaço fechado, desligado do mundo real, o ciberespaço colabora para a criação de uma "realidade aumentada". Ele "faz da realidade um ciberespaço".


O ciberespaço é concebido como um espaço transnacional, onde o corpo é suspenso pela abolição do espaço e pelas "personas" que entram em jogo nos mais diversos meios de sociabilização como os BBS, os MUDs, ou o Minitel francês (6). Assim sendo, o ciberespaço é um "não-lugar", uma "u-topia" onde devemos repensar a significação sensorial de nossa civilização baseada em informações digitais, coletivas e imediatas.


O ciberespaço é um enorme hypertexto (Ted Nelson) planetário (7). Um hypertexto é um texto aberto à múltiplas conexões a outros hypertextos. Com os hypertextos, é a figura do leitor que se vê substituída pela do "netsurfista". Esse não é mais um simples leitor, mas um ator, um autor e um agente de interação com as interfaces do ciberespaço (Laurel)(8). O ciberespaço é assim um conjunto de hypertextos interligados entre si onde podemos adicionar, retirar e modificar partes desse texto vivo.


Entretanto, a idéia de hypertexto não é exclusividade do ciberespaço. Na leitura clássica (livros e textos impressos), o texto e o leitor se engajam num processo também hypermediático, pois a leitura é feita de interconexões à memória do leitor, às referências do texto, aos índices e ao índex que remetem o leitor para fora da linearidade do texto. Assim, todo texto escrito é um hypertexto onde o motor da interatividade se situa entre a memória subjetiva do leitor e a interatividade em relação ao objeto livro. Toda leitura exige um estado de atenção, de lapsos e de correlações similares ao surfar no Web.


No entanto, a diferença entre um "hypertexto livro" e um "hypertexto ciberespaço" se situa no fato de que, no ciberespaço, a conexão é em tempo real, imediata, "live". Ela nos permite passar de uma referência à outra, sendo a conexão imediatamente disponível. Essa conexão em relação ao livro obriga a vinculação também do corpo, além da memória e da subjetividade. O leitor deve buscar a referência, procurar numa biblioteca, subir nas estantes e achar a correlação procurada, saindo fisicamente de perto do livro em questão para interagir com um outro.


No ciberespaço isso não acontece pois passamos de referências à referências, de servidor à servidor, de país em país com um simples "click" do "mouse", sem saber onde começa e onde termina o processo. Como afirmava McLuhan, Gutenberg nos fez leitores, a máquina Xerox nos fez editores e a eletrônica e os computadores em rede nos faz autores. Nesse hypertexto planetário que é o ciberespaço, "everyone is an author, which means that no one is an author: the distinction upon which it rest, the author distinct from the reader disappears" (9).


Os novos meios de comunicação que coletam, manipulam, estocam, simulam e transmitem os fluxos de informação criam assim uma nova camada que vem se sobrepor aos fluxos materiais que estamos acostumados a receber. O ciberespaço é um espaço sem dimensões, um universo de informações navegável de forma instantânea e reversível. Ele é dessa forma um espaço mágico; já que caracterizado pela ubiqüidade, pelo tempo real e pelo espaço não físico. Todos esses elementos são característicos da magia como manipulação do mundo.


Depois da modernidade que controlou, manipulou e organizou o espaço físico, nos vemos diante de um processo de desmaterialização pós-moderna do mundo. O ciberespaço faz parte do processo de desmaterialização do espaço e de instantaneidade temporal contemporâneos, após dois séculos de industrialização moderna que insistiu na dominação física de energia e de matérias, e na compartimentalização do tempo. Se na modernidade o tempo era uma forma de esculpir o espaço, com a cybercultura contemporânea nós assistimos à um processo onde o tempo real vai aos poucos exterminando o espaço.


O ciberespaço é assim um operador meta-social (Benedikt), um espaço pós-tribal, uma arena cultural criativa (10). Assim, o ciberespaço é uma geografia metal comum (Benedikt), um universo de pura informação. Ele é a incarnação tecnológica do velho sonho de criação de um mundo paralelo, de uma memória coletiva, do imaginário, dos mitos e símbolos que perseguem o homem. Nos tempos imemoriais, a potência do imaginário era veiculada pelas narrações míticas, pelos ritos. Eles agiam como um verdadeiro mídia entre os homens e os seus universos simbólicos.


Hoje o ciberespaço funciona um pouco dessa forma. Ele coloca em relação, ele incita a abolição do espaço e do tempo, ele é lugar de um culto secular digital. O ciberespaço se constitui assim como um tipo de "espaço imaginal" (Corbin), onde as novas tecnologias mostram todo o potencial de compartilhamento e de "reliance" (11)(Bolle de Bal). A racionalidade tecnológica, herdeira da modernidade, anda lado a lado com o simbólico, o mítico e o religioso. Essa mistura vai marcar toda a cybercultura nascente. O ciberespaço é, em conseqüência, uma casa da imaginação, o lugar onde se encontram racionalidade tecnológica, vitalismo social e pensamento mágico. Não é à toa que Virilio (12) clama por um conhecimento mágico para compreender a tecnologia contemporânea.


Hermetismo e Gnosticismo nas Redes Eletrônicas


O termo hermetismo é empregado para descrever a literatura hermética, atribuída ao deus grego Hermes. Essa literatura se caracteriza pela busca de conhecimentos secretos (gnósticos). Hermes é o deus da comunicação, o mensageiro, aquele que viabiliza as trocas de informações, como o Exú do candomblé afro-brasileiro. O ciberespaço é, como o espaço sagrado de movimentação de conhecimentos e de informações, um espaço de encruzilhadas. Ele é uma casa para as "comunidades de almas" (13). Assim sendo, nós podemos traçar paralelos entre o ciberespaço e a arte hermética da memória, a criptografia demoníaca e a cosmologia gnóstica (14).

O hermetismo é, desde o começo, uma técnica mágica de armazenamento e de tratamento de informações. O pensamento mágico é imerso num mundo de informações das mais diversas (nomes rituais, códigos secretos, correspondências astrológicas, signos, imagens) onde o sucesso da busca se realiza na manipulação dessas informações. O conhecimento hermético visa organizar este vasto saber através de uma arte da memória (Frances Yates) que consiste na criação de espaços imaginários, como uma vasta edificação. Essa arte da memória, ou mnemônica, se aproxima da idéia do poeta grego Simonide de Céos (556-469 aC) que pensava a memória como uma casa onde depositaríamos "souvenirs" em cada peça da casa. A recuperação dessas informações se dava por um percurso imaginário na casa imaginária. Podemos pensar a memória como uma arte de percorrer um "espaço imaginário".


A manipulação mágica das informações no hermetismo e no gnosticismo encontra um paralelo com as manipulações de dados nas redes de computadores e nos sistemas de realidade virtual, pois como um espaço hermético, o ciberespaço é um espaço da memória, um espaço imaginário povoado de imagens, de encruzilhadas, um "inner space" (Santo Agostinho)..


A arte medieval da memória, baseada na alegoria, que o poeta catalão Lull chamava de "Arbor Scientae", se estrutura enquanto un conjunto de conhecimentos agrupados em florestas de árvores, sendo a imagem das árvores uma metáfora para o crescimento da natureza e do saber. Da mesma forma, a metáfora da teia (o WEB) que liga todas as informações disponíveis no planeta, serve hoje como imagem para o ciberespaço. As interfaces gráficas são também metáforas e alegorias para a busca de informações. Manipular os ícones revela a essência da manipulação mágica. Dessa forma, a manipulação mágica do mundo, como a manipulação de dados no ciberespaço, se situam na mesma dinâmica.


As imagens, os totens e os ícones, mais que simples representações, são simulações do mundo: eles funcionam "como se". Da mesma forma que no "voudou" a manipulação da boneca é a manipulação do alvo, na metáfora do "desktop", os ícones simulam objetos reais (como arquivos, pastas, lixeiras, etc.), permitindo a manipulação virtual desses objetos. Assim como as alegorias medievais, as redes de computadores "fusionam as imagens com abstrações, elas tendem para uma complexidade barroca, contendo operações mágicas e hiperdimensionais, e freqüentemente representam espacialmente suas abstrações" (15).


A batalha atual dos "cypherpunks" (16) pela adoção de sistemas públicos de criptografia de mensagens encontra também um eco na mística da cabala e das criptografias antigas. A criptografia de mensagens era vinculada à valorização do poder não como simplesmente saber ou conhecimento, mas como código secreto, como conhecimento hermético, acessível somente aos iniciados. A quebra dos códigos secretos é a fonte do poder máximo pois o hermetismo é fundado nas técnicas de numerologia a partir das quais nós podemos desvendar mensagens esotéricas. O desenvolvimento da criptografia de massa pelos cypherpunks (assim como o de agentes) faz com que o ciberespaço seja um espaço mágico de circulação de códigos secretos e de anjos ou demônios, que aí circulam em busca de informações. Logo, não é ao acaso que McLuhan dizia que com o advento da eletricidade nós entramos num "tempo de iluminação" (17).


A representação de um espaço mágico, pleno de conexões e de estruturas multi-dimensionais é a forma de estruturação do ciberespaço. Como dizia Aggripa no seu "De Occulta Philosophia", existem três tipos de magia: uma magia natural (manipuladora das forcas da natureza), uma magia matemática (influenciada pela filosofia mística de Pitágoras) e uma magia teológica (relativa à comunicação angélica). Essa comunicação angélica se atualiza hoje com a disseminação de agentes electronicos. Ora, os agentes, programas inteligentes que circulam pelo cyberespaco em busca de informações personalizadas, são assim como demônios bem próximos da "magia teológica" de Aggripa. A gnose (do grego conhecimento, ligado ao conhecimento de Deus) é, mais do que uma transcendência mística, uma busca afinada de informações que, colocadas juntas, trazem à tona conhecimentos revelados a poucos. A gnose é assim uma técnica mágica, uma "technè" (18), como manipulação prática de informações (nomes secretos, códigos, etc.). Podemos assim, ver a gnose e o hermetismo como antecipadores do ciberespaço e da cybercultura.


A gnose é atualizada hoje pela nova forma de esoterismo que emerge com a cybercultura na forma do "tecno-paganismo" típico dos "ravers" e "zippies" (19). Esses são personagens da cybercultura que misturam esoterismo e novas tecnologias, principalmente aquelas que dão acesso ao ciberespaço. Os tecnopagãos visam assim restabelecer a tecnologia como parte da cultura, ao mesmo tempo em que refutam as dicotomias entre o sagrado e o profano. Assim, a partir das novas tecnologias, são visados os rituais (festas, sexo e drogas), a busca do espírito e da transcendência da matéria. Para os tecnopagãos, as novas tecnologias do ciberespaço devem ser vistas como parceiras dionisíacas da gnose.


O ciberespaço é para os tecnopagãos, um espaço mágico por excelência, um espaço imaginário. Eles se interessam pela ficção cientifica, pela realidade virtual e, obviamente, pelos MUDs, espaço imaginário por excelência. Como define um "tecnopagão" "viver on-line faz parte da minha pratica diária (...) é um tipo de experiência eremita, como entrar numa caverna" (20). Os tecnopagãos criam dessa forma uma rede eclética que mistura espiritualidade, teosofia, hermetismo e medicina natural. Eles são herdeiros diretos dos hippies e da onda nova era. Eles incorporam esses valores à cybercultura. Entretanto, eles atualizam o movimento hippie de uma nova maneira. Eles aceitam a tecnologia, perspectiva essa oposta aos hippies (retorno à natureza, refutação do artificial, etc.), não de uma forma simplesmente conformista, mas de uma forma apropriativa. Eles implantam assim um "cyberpsicodelismo", valorizando a utilização comunitária e espiritual das novas técnicas já que essas são as ferramentas mais importantes para atingir os objetivos da Era de Aquário.


O ciberespaço, como espaço mágico por excelência, é visto como potencializador das dimensões lúdicas, eróticas, hedonistas e espirituais. Nós podemos dizer que com o advento da cybercultura, estamos diante de uma verdadeira "info-gnose", um rito de passagem em direção à desmaterialização pós-industrial.


Ritos de passagem para a Pós-modernidade


Nós vimos como o ciberespaço se comporta como um espaço mágico. Vimos que, se durante a modernidade o espaço e o tempo eram entidades concretas, transformadas pela industrialização, hoje, com o processo de desmaterialização engendrado pelas economias avançadas, o espaço é aniquilado pelo tempo real. Assim, o ciberespaço pode ser visto também como uma fronteira, um espaço intermediário na passagem do industrialismo para o pós-industrialismo. Ele é também como o espelho de Alice, uma passagem do indivíduo austero para o indivíduo "re-ligado" (do individualismo ao tribalismo), participante do fluxo de informações do mundo contemporâneo. Ele é ainda um rito de passagem obrigatório para os novos cidadãos da cybercultura (21).


Os ritos de passagem são rituais que marcam, na vida de um indivíduo ou grupo, a passagem para um outro estado, seja ele biológico ou social. Esses ritos fazem parte de um processo de iniciação (nascimento, casamento, morte, mudança de estação, etc.) criados com o objetivo de preservar uma certa continuidade espaço-temporal e simbólica. Como um "lugar" de passagem, os ritos se caracterizam por um espaço simbólico intermediário, através do qual um indivíduo ou grupo se integra à globalidade da vida social. O ciberespaço deve ser compreendido como um rito de passagem da era industrial à pós-industrial, da modernidade dos átomos, à pós-modernidade dos bits, como diria Negroponte (22), já que existem várias similaridades entre as estruturas dos ritos de passagem e os mecanismos simbólicos do ciberespaço.


O ato de se conectar ao ciberespaço sugere versões dos ritos de agregação e de separação, onde a tela do monitor possibilita a passagem à um outro mundo. A tela é a fronteira entre o individual e o coletivo; entre o orgânico e o artificial; entre o corpo e o espírito. O ciberespaço é onde se realizam ritos de passagem do espaço físico e analógico ao espaço digital sem fronteiras, do corpo átomo ao corpo bit. Se conectar ao ciberespaço significa ainda, a passagem da modernidade (onde o espaço é esculpido pelo tempo) à pós-modernidade (onde o tempo aniquila o espaço); de um social marcado pelo indivíduo autônomo e isolado ao coletivo tribal e digital. Será pelo ciberespaço que irá passar toda a "socialidade" (23) contemporânea. Como afirma Benedikt, « a post-industrial work environment predicated on a new hardwired communications interface that provides a direct and total sensorial access to a parallel world of potential work space » (24).


Como rito de passagem, hermetismo e gnosticismo o ciberespaço impõe uma interface entre o profano e o sagrado; uma fronteira entre a existência banal do dia a dia, e o espaço eletrônico de circulação do saber. Mais uma vez retornamos à gnose e ao hermetismo. O ciberespaço é uma interface entre a estrutura de máquinas de comunicação e a massa de informações numéricas despejadas na "consciência planetária" (o grande sonho dos enciclopedistas, a saber, reunir num só mídia, todo o conhecimento da humanidade).


O ciberespaço no entanto, não é um lugar asséptico, de informações precisas e utilitárias. O grande interesse do ciberespaço reside justamente no vitalismo social que ele permite (BBS, "chat lines", "MUDs", "newsgroups", "e-mail"). O interesse está no fato de que todas as formas de sociabilidade contemporâneas encontram na tecnologia um potencializador, um catalisador, um instrumento de conexão - que vai contra a lógica iniciada na Escola de Frankfurt e que nos chega contemporaneamente nas vozes de Baudrillard ou Virilio. O ciberespaço não é uma entidade puramente cibernética, mas uma entidade efervescente, caótica e descontrolada.


Tempo, espaço e hierofania de dados


O ciberespaço, como espaço sagrado, é o lugar privilegiado para observarmos esse reencantamento da tecnologia. Como todo espaço sagrado, o ciberespaço acolhe um tempo também sagrado. Ele é um lugar de hierofanias (manifestações do sagrado). Assim como o ciberespaço é o nome desse novo espaço sagrado, o tempo real é o nome desse novo tempo mágico. Podemos utilizar aqui esses conceitos de acordo com o mitólogo romeno Mircea Eliade (25).


Como toda hierofania, se conectar ao ciberespaço é ter a experiência de uma revelação de um outro mundo, uma irrupção do sagrado em plena luz do quotidiano. Isso fica claro com a fascinação que temos ao ver uma máquina fazer coisas (quando na verdade não entendemos direito como é que ela as faz); com o delírio de se conectar à "distance homes" e ver o desenrolar de imagens, textos e ícones os mais diversos; com a absorção de se passar horas sem nos darmos conta; com antiquíssimo desejo de alcançar um mundo do conhecimento, da inteligência ou da consciência planetária, etc. Não é exagero afirmar que, no ciberespaço, temos o sentimento de participarmos de uma hierofania, à uma outra realidade, à um espaço de qualidade distinta (logo sagrado) daquele por onde circulamos nossos corpos (sem falar no potencial para futuros desenvolvimentos da realidade virtual de massa "on line").


O tempo real (acesso instantâneo, como todo toque de varinha de condão) é similar ao tempo sagrado, circular e reversível. O tempo sagrado do mito é um tempo repetitivo que fixa determinada memória coletiva; e ele é reversível, pois o passado é a fonte do saber na preparação do presente e do futuro. Ele atualiza o "ilo tempore", o tempo primordial onde tudo veio à existência. O tempo sagrado do mito (26), assim como o tempo real do ciberespaço, não é o tempo linear e progressivo, mas o tempo de conexões, aqui e agora, um tempo presenteísta (27), correspondente ao presenteísmo social contemporâneo.


Circular pelo Web, participar aos MUDs, recomeçar ao infinito um jogo eletrônico ou um CD Rom, se perder nos "links" dos hypertextos, voltar várias vezes à Home Page preferida, etc., tudo isso faz do tempo real do ciberespaço um tempo sagrado, circular e reversível. O tempo real da informática é assim correlato ao tempo presenteísta da sociedade contemporânea. Mais uma vez encontramos a essência da cybercultura: a imbricação entre uma sociedade tribal, emocional e presenteísta e as máquinas do ciberespaço. Hoje os computadores pessoais são cada vez menos individuais e cada vez mais computadores coletivos, máquinas de comunicação (28).
Após termos visto o ciberespaço como um espaço gnóstico e hermético, dotado de um tempo e de um espaço sagrados, representando um rito de passagem da tecnocultura moderna à cybercultura pósmoderna, veremos o ciberespaço como uma nova camada do planeta (Noosfera) e como um novo organismo complexo (o Cybionte). O ciberespaço pode assim ser visto em termos de evolução da vida na Terra, de acordo com a teoria de Theillard de Chardin, elaborada na década de 50. Essa expansão da Noosfera se traduz pela formação de um "organismo-rede" rizomático e auto-organizante.


A noosfera eletrônica e a inteligência coletiva


No seu "fenômeno humano" (29), Theillard de Chardin considera a evolução humana em termos intelectuais e espirituais. Segundo o padre jesuíta, no mundo físico existem duas energias: uma energia radial (correspondente ao conceito de força newtoniana de causa e efeito) e uma energia tangencial (que vem de dentro, de onde o divino aparece). Essa energia tangencial seria de três níveis, que Chardin chama de pré vida (para os objetos inanimados), vida (para os seres vivos) e consciência(para os homens). A pré vida corresponde à formação de matéria inorgânicas, a vida corresponde ao aparecimento de matérias orgânicas e a consciência ao aparecimento do homem e, consequentemente, do pensamento reflexivo. Assim, camadas sucessivas vão se empilhando umas sobre as outras : o mundo mineral, o mundo animal e o mundo da consciência. Esse camada da consciência, Chardin chama de Noosfera.


A Noosfera é assim uma rede invisível da consciência humana que virtualmente engloba todo o planeta terra. Noosfera vem de noogênese, ou mais precisamente, o desenvolvimento ou evolução do espírito. Como explica Chardin, "s’étale depuis lors par dessus le monde de plantes et des animaux; hors et au dessus de la biosphère, une Noosphère" (30). A Noosfera é uma camada invisível pela qual circula a consciência humana. Ela é uma nova membrana onde "c’est um Age nouveau qui commence. La Terre fait ‘peau neuve’. Mieux encore, elle trouve son âme" (31).


Com as redes eletrônicas como Internet, o ciberespaço, enquanto Noosfera está diante de nós. O ciberespaço é uma Noosfera na medida em que ele é uma camada abstrata e invisível, pela qual circulam dados, imagens, espectros e fantasmas digitais (32). Esse cyberespaco-Noosfera está em via de expansão planetária como um tipo de consciência coletiva. Isso nos leva à hipótese levantada por Pierre Lévy, segundo a qual o ciberespaço é o receptáculo de uma "inteligência coletiva" (33).


Pierre Lévy mostra como as novas tecnologias do ciberespaço podem verdadeiramente ajudar a criar uma circulação do saber, circulação essa que forma o que ele chama de "Inteligência Coletiva". Partindo de uma análise antropológica do espaço, Lévy vai mostrar que, depois da terra (espaço do mito e do rito, marcado por uma ligação completa do homem ao cosmos), do território (fruto da revolução neolítica onde surge a agricultura, as primeiras cidades, a escrita e o Estado), do mercado (espaço do trabalho e da velocidade, instaurado no século XVI com as conquistas marítimas e a globalização dos mercados com os fluxos de matéria prima, de mão de obra e de capital), o ciberespaço seria o formador de um quarto espaço, um espaço do saber. Esses espaços antropológicos não são excludentes, podendo interagir como camadas (de novo a idéia de Noosfera) comunicantes.


O espaço do saber é criado a partir da expansão dos mídias de comunicação e dos meios de transportes modernos (paradoxalmente existe um relação direta entre a locomoção e os mídias) e, principalmente com o nascimento de uma nova economia baseada na aceleração de trocas, na abolição de limites geográficos e com o surgimento do tempo real. De acordo com Lévy, esse quarto espaço antropológico pode instaurar uma verdadeira inteligência coletiva, "uma inteligência distribuída em todas as direções, valorizada sem cessar, coordenada em tempo real, e que chega à uma valorização e mobilização efetiva de competências"(34). Dessa forma o ciberespaço pode se tornar um meio de discussões pluralista, reforçando competência e laços comunitários específicos.


Um cybionte de estrutura rizomática

O ciberespaço é hoje uma realidade em forma ainda embrionária, conhecido como a estrutura de informação (rede de computadores, satélites, sistemas de telefonia, etc.). A dinâmica atual do desenvolvimento das redes de computadores e seu crescimento exponencial caracterizam o ciberespaço como um organismo complexo, interativo e auto-organizante.


De acordo com Joël de Rosnay (35), o ciberespaço é hoje uma entidade quase biológica, um organismo no sentido orgânico do termo. De Rosnay chama esse organismo de "Cybionte", uma forma emergente da simbiose entre a cibernética e o biológico. Para De Rosnay, o Cybionte é um cérebro planetário (como a Noosfera e a Inteligência Coletiva) formado pelo conjunto de cérebros humanos, de redes conectadas, de computadores e de modens: "um organisme planétaire unique (...), la forme la plus avancée d’un cerveau planétaire em cours de constitution" (36). O Cybionte faz parte assim da tendência pós-orgânica da civilização contemporânea, a saber, a fusão entre os homens e as máquinas (o cyberpunk R. U. Sirius, editor da revista californiana "Mondo 2000", afirma que nós somos já, de certa forma, "cyborgs": lentes de contato, marcapassos, drogas sintéticas, engenharia genética...).


Esse organismo planetário que é o Cybionte vai ganhar a forma daquilo que Guattari e Deleuze (37) chamaram de estrutura rizomática. Uma estrutura rizomática é um sistema de multiplicidade, um sistema de formas as mais diversas, como um verdadeiro rizoma, com extensão ramificada em todos os sentidos. De acordo com Deleuze e Guattari, um rizoma pode ser conectado com qualquer outro rizoma e "deve ser". Como multiplicidade, um rizoma não tem nem sujeito nem objeto e ele cresce de acordo com a dinâmica das conexões. Os rizomas se ramificam e se reticulam permitindo estratificações e territórios, da mesma forma que cria linhas de fuga e de desterritorialização. Existe assim um processo de desterritorialização e reterritorialização à partir de múltiplos "devenirs".


Avessos à centralização, os rizomas não tem um eixo genético como estrutura profunda, como é o caso das estruturas em arborescência. Eles não nos dão a imagem triste de uma hierarquia superior e determinante de um sistema centralizado. O modelo da árvore dominou, segundo os filósofos franceses, todo o pensamento ocidental. Mas a partir das crises da modernidade, esse modelo árvore cede lugar aos rizomas. Assim, dentro do processo civilizatório contemporâneo podemos ver estruturas rizomáticas nos beatniks, no underground, nas tribos de "hackers" e "cyberpunks", nos "tecno-anarquistas" e nos "tecnopagãos" que pulsam lateralmente, sem controle e sem eixo gerador, e que se espalham horizontalmente como os canais de Amsterdã.


É óbvia a semelhança entre as estruturas rizomáticas e o ciberespaço. Ambos são descentralizados, conectando pontos ordinários, criando territorialização e desterritorialização sucessivas. O ciberespaço não tem um controle centralizado, multiplicando-se de forma anárquica e extensa, desordenadamente, a partir de conexões múltiplas e diferenciadas. O ciberespaço permite agregações ordinárias, de pontos a pontos, onde entram em jogo toda a dialógica (Morin)(38) entre o particular e o geral e a formação de comunidades virtuais (ou "quelconques", como quer o filosofo italiano Agamben)(39). As conexões do ciberespaço, assim como aquelas dos rizomas, modificam as suas estruturas, caracterizando-se como sistemas complexos e auto-organizantes (os exemplos do Minitel francês e de Internet ilustram bem esse ponto). Como explica Deleuze e Guattari, a árvore impõe o "ser", o rizoma o "e, e, e,...". Aí está toda a força social do ciberespaço.


Conclusão


Nós tentamos nesse artigo desenvolver rapidamente as similaridades entre o pensamento mágico (hermetismo, gnose, hierofania, tempo cíclico) e a estrutura da Noosfera, do Cybionte, da inteligência coletiva e do rizoma, para trazer à luz algumas particularidades do ciberespaço. Nenhuma delas no entanto, tem a supremacia sobre as outras pois, como entidade escorregadia, o ciberespaço não nos revela tão facilmente seus segredos. Ele é um pouco de tudo isso, sem ser totalmente o conjunto de todas essas particularidades.


Exageramos em alguns pontos para tentar fazer, mais do que um retrato fiel, uma caricatura do ciberespaço. Identificar (pois as caricaturas identificam mais do que diferenciam) essas particularidades pode nos ajudar à compreender melhor esse lugar poroso e rizomático por onde vai passar toda a cultura do próximo século.




1. Gibson, W., "Neuromancien", Paris, La Découverte, 1985., p.64


2. Gibson, W., op. cit.


3. Sobre a Matrix, nome dado ao cyberespaco, ver Quaterman, J.S., "The Matrix. Computer Network and Conferencing Systems Worldwide"., Digital Press, 1990.


4. Sobre a visão erótica do ciberespaço, ver Heim, M., "The Metaphysics of Virtual Reality"., Oxford Press, 1993.


5. Kellogg, W; Carroll, J.M.; Richards, J.T., "Making Reality a Cyberspace". in, Benedikt, M., "Cyberspace. First Steps". Mit Press, 1992.


6. BBS (Bulletin Board Systems), MUDS (Multi Users Dungeons), Minitel (sistema videotexto francês). Sobre o Minitel ver Lemos, A., "The Labyrinth of Minitel"., in Shields, R. (ed). "Cultures of Internet". Sage, Londres, 1996.


7. Ted Nelson é também o mentor do projeto Xanadu. Sobre esse projeto ver Wolf, Gary., "The Curse of Xanadu", in Wired, 3.06, juin 1995, p. 137.


8. Sobre a interface e o utilizador como agentes numa perspectiva teatral ver Laurel, B. "Computer as Theater"., Addison-Wesley, 1993.


9. Wooley, B. "Virtual Worlds. A Journey in Hype and Hyperreality", Penguin Books, 1992., p. 165.


10. Todo o desenvolvimento da micro-informática é ligado à essa "sopa cultural". Os micros computadores, a rede Internet e a explosão do Web não são diretivas tecnocráticas de nenhuma instituição. Essa relação, entre a técnica e o social, sem que nenhum dos dois tenha a chave da equação, é que caracteriza a cybercultura. Ver Lemos, A. "La Cyberculture. Les Nouvelles Technologies et la Société Contemporaine". Tese de Doutorado, Paris V, Sorbonne, 1995.


11. Bolle de Bal mostra como a modernidade é marcada pela separação. A "tentação comunitária" leva a uma nova forma de relação que ele chama de "reliance". Sobre a "reliance" comunitária ver Bolle de Bal, M. "La Tentation Communautaire. Les Paradoxes de la Reliance et de la Contre-Culture". Université de Bruxelles, Bruxelas, 1985.


12. Virilio, P., "Esthétique de la Disparition"., Paris, Galilée, 1989.


13. Ver Zorach, R., "New Medieval Aesthetic", in Wired, n° 2.01, p. 48. Ela analisa a cultura do monastério e a estética dos manuscritos medievais como uma rede de "comunidades de almas".


14. Ver Davis, E., "Techgnosis: Magic, Memory, and the Angels of Information"., in Dery, M., "Flame Wars. The Discourse of Cyberculture"., The South Atlantic Quarterly 92:4, fall 1993.


15. Ver Davis, Erik., "Techgnosis..." op. cit., p. 593.


16. Sobre os cypherpunks ver Levy, S. "Cryptorebels", in Wired, 1.2. e Lemos, A. "Technorebels", in Citizen K, Paris, dec, 1995.


17. Ver McLuhan, M. "La Galaxie Gutenberg.", Paris, Gallimard, 1967.


18. Mauss e Ellul mostram como a magia é uma das primeiras expressões da "technè", da técnica humana. Ver. Mauss, M. "Sociologie et Anthropologie", Paris, PUF, 1962 et Ellul, J., "La Technique ou l’Enjeu du Siècle"., Paris, A. Colin, 1954.


19. Sobre os "ravers" e "zippies" ver Marshall, J., "Zippies", in Wired, 2.05, maio 1994; "The Roots of Techno", in Mondo 2000, n° 2.07 e Davis, E., "Technopagans", in Wired, 3.07, julho, 1995.


20. Citado por Davis, E., op.cit., p.180.


21. Sobre o ciberespaço como rito de passagem, ver Tomas, D. "Old Rituals for New Spaces. Rites de Passage and William Gibson’s Model of Cyberspace"., in Benedikt, M., op.cit.


22. Negroponte, N., "L’Homme Numérique"., Paris, Fayard, 1995.


23. Sobre a "socialidade" contemporânea ver a obra de Michel Maffesoli, particularmente Maffesoli, M. "La Conquête du Présent. Pour Une Sociologie de la Vie Quotidienne"., Paris, PUF, 1979.


24. Benedikt, M., "Cyberspace. Some Proposals"., in Benedikt (ed). "Cyberspace; First Steps"., op.cit., p. 35.


25. Ver Eliade M. "Le Sacré et le Profane"., Paris, Gallimard, 1965.


26. Ver Eliade, M., "Mito e Realidade", SP, Perspectiva. 1977.


27. Sobre o "presentísmo", ver Maffesoli, M, op.cit.


28. O "netcompute" da Oracle (máquinas sem disco rígido e prontas para se conectarem às redes) comprova essa tendência.


29. Theillard de Chardin, P., "Le Phénomène Humain"., Paris, Seuil, 1955.


30. Theillard de Chardin, op.cit., p. 179.


31. idem.


32. Sobre espectros e fantasmas digitais ver, Guillaume, M., "Téléspectres", in Traverses, número 26, Paris, CGP, outubro de 1982.


33. Lévy, P. "L’Intelligence Collective. Pour une Anthropologie du Cyberspace". Paris, La Découverte, 1995.


34. Lévy, P. op.cit, p. 29


35. De Rosnay, J. "L’Homme Symbiotique". Paris, Seuil, 1995.


36. De Rosnay, op.cit., p. 315.


37. Deleuze, G.; Guattari, F., "Mille Plateaux. Capitalisme et Schizophrénie"., Paris, Minuit, 1982.


38. Sobre a dialógica ver Morin, E., "La Methode I. La Nature de la Nature". Paris, Seuil, 1977.


39. Ver Agamben, G. "La Communauté qui Vient. Essais sur la Singularité Quelconque". Paris, Seuil, 1990.



André L.M. Lemos é doutor em sociologia pela Sorbonne, professor e pesquisador do Programa de Pòs-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da Faculdade de Comunicação (FACOM), UFBA/CNPq. E-mail: lemos@svn.com.br



quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

De literatura e sonhos

Transcrevo um belíssimo conto de Borges.

As ruínas circulares[i]
Jorge Luis Borges, por volta de 1941.

Ninguém o viu desembarcar na noite unânime, ninguém viu a canoa de bambu sumindo no lodo sagrado, mas dias depois ninguém ignorava que o homem taciturno vinha do Sul e que sua pátria era uma das infinitas aldeias que estão a montante, no flanco violento da montanha, onde o idioma zend não foi contaminado pelo grego e a lepra é pouco freqüente. A verdade é que o homem cinza beijou o lodo, galgou o barranco da margem sem afastar (provavelmente, sem sentir) o capim-navalha que lhe dilacerava a carne e se arrastou, atônito e ensangüentado, até o recito circular coroado por um tigre ou cavalo de pedra, que um dia foi da cor do fogo e agora é da cor da cinza. Essa arena é um templo que antigos incêndios devoraram, que a selva do pântano profanou e cujo deus não recebe a honra dos homens. O forasteiro estendeu-se sob o pedestal. Foi despertado pelo sol alto. Comprovou sem espanto que as feridas tinham cicatrizado; fechou os olhos pálidos e adormeceu, não por fraqueza da carne, mas por determinação da vontade. Sabia que aquele templo era o lugar exigido por seu invencível propósito; sabia que as árvores incessantes não haviam conseguido estrangular, rio abaixo, as ruínas de outro templo propício, também de deuses incendiados e mortos; sabia que sua imediata obrigação era sonhar. Por volta da meia-noite foi despertado pelo grito inconsolável de um pássaro. Rastros de pés descalços, alguns figos e um cântaro lhe permitiram entender que os homens da região tinham espiado com respeito seu sono e solicitavam sua proteção ou temiam sua magia. Sentiu frio do medo e buscou na muralha dilapidada um nicho sepulcral e se cobriu com folhas desconhecidas.
O propósito que o guiava não era impossível,ainda que sobrenatural. Queria sonhar um homem: queria sonhá-lo com integridade minuciosa e impô-lo à realidade. Esse projeto mágico havia esgotado completamente o espaço de sua lama; se alguém tivesse lhe perguntado seu próprio nome ou qualquer traço de sua vida anterior, não teria dado com a resposta. Era para ele conveniente o templo desabitado e destroçado, p0roque era um mínimo de mundo visível; a proximidade dos lenhadores também, pois estes se encarregavam de suprir suas necessidades frugais.O arroz e as frutas de seu tributo eram alimento suficiente para seu corpo, consagrado à única tarefa de dormir e sonhar.
No início, os sonhos eram caóticos; pouco depois, foram de natureza dialética. O forasteiro sonhava consigo mesmo no centro de um anfiteatro circular que era de algum modo o templo incendiado: nuvens de alunos taciturnos exauriam a arquibancada; as caras dos últimos pendiam a muitos séculos de distância e a uma altura estelar, mas eram inteiramente precisas. O homem ditava-lhe lições de anatomia, de cosmografia, de magia: os rostos escutavam com ansiedade e procuravam responder com entendimento, como se adivinhassem a importância daquele exame, que redimiria um deles de sua condição de vã aparência e o introduziria no mundo rela. Durante o sonho e a vigília, o homem e considerava as respostas de seus fantasmas, não se deixava engambelar pelos impostores, adivinhava em certas perplexidades uma inteligência crescente. Buscava uma alma que merecesse participar do universo.
Depois de nove ou dez noites compreendeu com alguma amargura que nada podia esperar daqueles alunos que aceitavam com passividade sua doutrina, e sim daqueles que arriscavam, ás vezes, uma contradição razoável. Os primeiros, embora dignos de amor e afeição, não podiam ascender a indivíduos; os últimos preexistiam um pouco mais. Uma tarde (agora também as tardes eram tributárias do sonho, agora não velava senão um par de horas durante o amanhecer) dispensou para sempre o vasto colégio ilusório e ficou apenas com um aluno. Era um rapaz taciturno, melancólico, ás vezes indócil, de traços afilados que repetiam os de seu sonhador. A brusca eliminação de seus condiscípulos não o desconcertou por muito tempo; depois de umas poucas aulas particulares, maravilhou o mestre. Contudo, sobreveio a catástrofe. Certo dia, o homem emergiu do sonho como de um deserto viscoso, olhou a luz vã da tarde que de imediato confundiu com a aurora e compreendeu que não sonhara. Toda a noite e o dia seguinte, a intolerável lucidez da insônia se abateu sobre ele. Quis explorar a selva, extenuar-se, mal conseguiu, em meio à cicuta, rajadas de um sonho débil, fugazmente mescladas à visão de qualidade rudimentar: imprestáveis. Quis consagrar o colégio e , mal tinha articulado umas breves palavras de exortação, este se deformou, desfazendo-se. Na quase perpétua vigília, lágrimas de ira queimavam-lhe os olhos envelhecidos.
Compreendeu que o empenho de modelar a matéria incoerente e vertiginosa de que os sonhos são feitos é o mais árduo que um varão pode empreender, embora penetre todos os enigmas da ordem superior e da inferior: muito mais árduo que tecer uma corda de areia ou que amoldar o vento sem rosto. Compreendeu que um fracasso inicial era inevitável. Jurou esquecer a enorme alucinação que a princípio o desviara e buscou outro método de trabalho. Antes de exercitá-lo, dedicou um mês à reposição das forças que o delírio desperdiçara. Abandonou toda premeditação de sonhar e quase ato contínuo consegui dormir um pedaço razoável do dia. As raras vezes que sonhou durante esse período, não reparou nos sonhos. Para reatar a tarefa, esperou que o disco da lua ficasse perfeito. Em seguida, à tarde purificou-se nas águas do rio, adorou os deuses planetários, pronunciou as sílabas lícitas de um nome poderoso e adormeceu. Quase imediatamente, sonhou com um coração que palpitava.
Sonhou-o ativo, quente, secreto, do tamanho de um punho fechado, de cor grená na penumbra de um corpo humano ainda sem rosto nem sexo: sonhou-o com minucioso amor, durante catorze lúcidas noites. Cada noite, percebia-o com maior evidência. Não o tocava: limitava-se a testemunhar sua presença, a observá-lo, talvez a corrigi-lo com o olhar. Percebia-o, vivia-o, de muitas distâncias e muitos ângulos. Na décima quarta noite tocou a artéria pulmonar com o indicador e, em seguida, o coração todo por fora e por dentro. O exame o satisfez. Deliberadamente não sonhou durante uma noite: depois voltou ao coração, invocou o nome de um planeta e empreendeu a visão de outro dos órgãos principais. Antes de um ano chegou ao esqueleto, ás pálpebras. O cabelo inumerável foi, quem sabe, a tarefa mais difícil. Sonhou um homem inteiro, um oco, mas este não se incorporava nem falava nem podia abrir os olhos. Noite após noite, o homem o sonhava adormecido.
Nas cosmogonias gnósticas, os demiurgos moldam um Adão vermelho que não consegue ficar de pé; tão inábil e rude e elementar feito esse Adão de pó era o Adão de sonho que as noites do mago tinham fabricado. Uma tarde, o homem quase destruiu por completo sua obra, mas arrependeu-se. (Melhor teria sido que a tivesse destruído.) Esgotados os votos aos numes da terra e do rio, lanço-se aos pés da efígie que talvez fosse um tigre, talvez um potro, e implorou seu desconhecido socorro. Durante aquele crepúsculo, sonhou com a estátua. Sonhou-a viva, trêmula: não era um atroz bastardo de tigre e proto, mas a uma só vez essa duas criaturas veementes e também um touro, uma rosa, uma tempestade. Esse múltiplo deus revelou-lhe que seu nome terreno era Fogo, que naquele templo circular (e noutros iguais) haviam lhe rendido sacrifícios e culto, e que magicamente animaria o fantasma sonhado, de modo que todas as criaturas, exceto o próprio Fogo e o sonhador, o tomassem por um homem de carne e osso. Ordenou-lhe que, uma vez instruído nos ritos, seria enviado ao outro templo destroçado, cujas pirâmides persistem a jusante, para que alguma voz o glorificasse naquele edifico deserto. No sonho do homem que sonhava, o sonhado despertou.
O mago executou as ordens. Consagrou um prazo (que finalmente abrangeu dois anos) a lhe desvelar os arcanos do universo e do culto do fogo. Intimamente, sentia separar-se dele. Com o pretexto da necessidade pedagógica, todo dia aumentava as horas dedicadas ao sonho. Também refez o ombro direito, quem sabe deficiente3. Às vezes, inquietava-o uma impressão de que tudo aquilo já acontecera... Em geral, seus dias eram felizes: ao fechar os olhos, pensava: “Agora estarei com meu filho”. Ou, mais raramente: “O filho que gerei me espera e não existirá se eu não for”.
Gradualmente, foi habituando-o à realidade. Uma vez lhe ordenou que pusesse uma bandeira num pouco distante. No dia seguinte, a bandeira flamejava no cume. Ensaiou outros experimentos análogos, cada vez mais ousados. Compreendeu com certa amargura que seu filho estava pronto para nascer – e talvez já impaciente. Nessa noite beijou-o pela primeira vez e o enviou ao outro templo, cujos destroços alvejaram rio acima, a muitas léguas de inextricável selva e pântano. Antes (para que ele não soubesse nunca que era um fantasma, para que se julgasse um homem como os outros) lhe infundiu o esquecimento total de seus anos de aprendizagem.
Sua vitória e sua paz ficaram empanadas pelo fastio. Nos crepúsculos da tarde e da madrugada, prosternava-se perante a figura de pedra, talvez imaginado que seu filho irreal executasse idênticos ritos, noutras ruínas circulares, a jusante; de noite não sonhava, ou sonhava como fazem todos os homens. Percebia com certa palidez os sonos e as formas do universo: o filho ausente se nutria dessas diminuições de sua alam. O propósito de sua vida fora cumprido; o homem persistiu numa espécie de êxtase. Depois de algum tempo que certos narradores de sua história preferem computar em anos e outros em lustros, foi despertado por dois remadores à meia-noite: não pode ver o rosto deles, mas lhe falaram de um homem mágico num templo do Norte, capaz de pisar no fogo sem se queimar. O mago recordou bruscamente as palavras do deus. Recordou que, de todas as criaturas que compõem o globo, o Fogo era a única que sabia que seu filho era um fantasma. Essa recordação, apaziguadora de início. Acabou por atormentá-lo. Temeu que seu filho meditasse sobre esse privilégio anormal e descobrisse de algum modo sua condição de mero simulacro. Não ser um homem, será a projeção do sonho de outro homem, que humilhação incomparável, que vertigem! A todo para interessam os filhos que procriou (que permitiu) numa mera confusão ou felicidade; é natural que o mago temesse pelo futuro daquele filho, pensado entranha por entranha e traço por traço, em mil e uma noites secretas.
O término de suas cavilações foi repentino, mas alguns sinais o prenunciaram. Primeiro (no fim de uma longa seca) uma nuvem remota sobre um morro, leve como um pássaro; depois, rumo ao Sul, o céu que era da cor da gengiva dos leopardos; logo as fumaceiras que enferrujam o metal das noites; por fim, a fuga pânica das feras. Porque se repetiu o acontecido havia séculos. As ruínas do santuário do deus do Fogo foram destruídas pelo fogo. Num amanhecer sem pássaros o mago viu o incêndio concêntrico agarrar-se aos muros. Por um instante, pensou se refugiar nas águas, mas depois compreendeu que a morte vinha coroar sua velhice e absolvê-lo dos seus trabalhos. Caminhou contra as línguas de fogo. Elas não morderam sua carne; antes o acariciaram, inundando-o sem calor e sem combustão. Com alívio, com humilhação, com terror, compreendeu que ele também era uma aparência, que outro o estava sonhando.

[i] Extraído de Ficções. Companhia Das Letras, 2007, p. 46.

Um programa de estudos...


Transcrevo abaixo um programa da disciplina Culturas Contemporâneas, ministrada pelo Prof. Rui Bebiano da Universidade de Coimbra...para dar água na boca e traçar paralelismos com o "nosso" (antigo) programa:

Culturas Contemporâneas

(Licenciatura em Estudos Artísticos e opção oferecida pelo Grupo de História
1º semestre - ano lectivo de 2007/2008)

Objectivos: Propõe-se uma abordagem crítica da definição e do desenvolvimento diferenciado da contemporaneidade, sob a perspectiva da história da teoria da cultura e das transformações das práticas culturais.

Funcionamento: A cadeira é semestral e funciona em regime de 4 horas semanais em 2 horários lectivos.

Avaliação de conhecimentos: 1) contínua: mínimo de 75% das presenças + trabalho ou relatório de 15 páginas (previamente aprovado) + prova escrita final; 2) ou final: prova escrita obrigatória e trabalho facultativo de 30 páginas (previamente aprovado).

PROGRAMA GERAL

Introdução ao programa - Contemporâneo, contemporaneidade e a velocidade do tempo histórico.
1. A herança das metanarrativas. Afirmação e sobrevivência do romantismo, do nacionalismo, do cientismo e do marxismo-leninismo.
2. A experiência totalitária. Fascismo e comunismo numa perspectiva comparada. Política e cultura dos fascismos. O “Socialismo real”, o “realismo socialista” e os “amanhãs que cantam”.
3. Pós-guerra e actualidade. Um mundo em ruínas. O modelo cultural americano e a Guerra-Fria. “Terceiro-Mundismo” e anticolonialismo. A Queda do Muro de Berlim e a nova ordem internacional.
4. Experiências de ruptura. Nietzsche, Bergson, Freud e a subjectividade. Génese, decadência e recuperação das vanguardas. “Crise de consciência”: o existencialismo e a Beat Generation.
5. A aceleração da mudança. A cultura de massas e a nova cultura juvenil. Anos 60: inovação, contracultura e “antidisciplina”. Os anos 80 e a “era do vazio”. Utopias e contra-utopias.
6. Novos alinhamentos. Pós-comunismo, pós-colonialismo. A crise da modernidade: continuidades e rupturas. Reidentificações: cidades, minorias e cultura global. A “guerra das culturas”.
7. Temas e problemas. Heróis, mitos e ficções: as representações contemporâneas do passado. A construção e a comunicação da memória. A revolução digital e a “sociedade da informação”.

Bibliografia geral


Perry Anderson (2005). As Origens da Pós-Modernidade. Lisboa: Edições 70.
João Maria André (2005). Diálogo Intercultural, Utopia e Mestiçagens. Em tempos de globalização. Coimbra: Ariadne.
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(extraído de http://ruibebiano.wordpress.com/aulas/culturas-contemporaneas/)
"Lembro-me de quando era criança e via, como hoje não posso ver, a manhã raiar sobre a cidade. Ela não raiava para mim, mas para a vida. Porque então eu, não sendo consciente, eu era a vida. E via a manhã e tinha alegria. Hoje vejo a manhã, tenho alegria, e fico triste. Eu vejo como via, mas por trás dos olhos, vejo-me vendo. E só com isso, se obscurece o sol, o verde das árvores é velho, e as flores murcham antes de aparecidas." (Fernando Pessoa)

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Filme: "A Concepção", de José Eduardo Belmonte


Acabo de assistir ao filme "A Concepção" de Eduardo Belmonte. Recomendo. Não me deterei nos detalhes técnicos, nem nas questões relacionadas aos aspectos puramente "fílmicos".
O filme trata de um grupo de jovens de Brasília que, entendiados com suas vidas pequeno-burguesas, decidem se aventurar em experiências existenciais e produzir suas próprias histórias, ou seja, tornarem-se livres.
Logo surge um novo personagem, "X", assim conhecido porque ninguém sabe ou virá a conhecer seu nome (não por acaso, lembrei-me de "Velvet Goldmine" - sobre o também camaleão David Bowie - nas cenas de apresentação de "X").
Em meio a intermináveis orgias, muita droga e rock´n roll, "X" introduz tais jovens na filosofia-existencial "concepcionista" (a referência ao Situacionismo é explícita e algo caricatural).



Nesse universo, as referências identitárias se esvaecem, tudo é possível e tenta-se a todo instante dissolver o Ego. Dar nascimento a uma nova identidade a "cada dia". As experiências concepcionistas buscam a dissolução de toda e qualquer referência, seja sexual, econômica, jurídica etc.

" O concepcionista é uma fraude que dura 24 horas".

Como é de se esperar, a "experiência" foge do controle, ou melhor, envereda por caminhos inesperados. Não contarei, claro, o final do filme.
Como disse, o ponto de partida é Maio/68 e o Situacionismo, com claras referências a Deleuze (para não deixar dúvidas, um personagem grita - enquanto perseguido pela polícia - "Somos todos máquinas !") e ao xamanismo, havendo inclusive uma alusão a Carlos Castañeda e ao "despertar" nos sonhos lúcidos, bem no final do filme, quando um dos personagens diz que "olhará para as mãos"...
O "sentido" final não é unânime: para mim sua mensagem é otimista, embora não da forma em que os concepcionistas-situacionistas desejavam.