segunda-feira, 10 de março de 2008

Maio de 1968. 40 anos depois.
















Como em toda revolução sonhadora, nem todos os objetos de desejo são alcançados. Nas reivindicações de maio de 1968, em especial, não foi diferente. Entretanto, grupos até então excluídos da sociedade passaram a representar maior espaço no poder, lutando por ideais, respeito e reconhecimento.




Essa atitude, explica o psicanalista Benilton Bezerra Jr., em entrevista especial à IHU On-Line, por telefone, gerou uma mudança de paradigma. Mas a revolução sexual e as conquistas da subjetividade individual também sofreram distorções, pois, em grande medida, “se transformaram de um direito conquistado em uma espécie de obrigação de cada um”.

Essas mudanças, garante o pesquisador, são conseqüências de um movimento maior, surgido com o “desaparecimento do campo da política”. O engajamento coletivo presente em 68 desapareceu, abrindo espaço, conseqüentemente, para a exacerbação do individualismo.

Bezerra Jr. é graduado em Direito e em Medicina, mestre em Medicina Social e doutor em Saúde Coletiva, pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Atualmente, é membro do Instituto Franco Basaglia e atua como docente adjunto do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, e pesquisador do PEPAS (Programa de Estudos e Pesquisas sobre Ação e Sujeito) da UERJ.


IHU On-Line - Uma das marcas de Maio de 68 foi a ampla crítica dos jovens ao sistema. Eles contestaram a construção da família, a tradição, as proibições, a moral, os tabus. O que essas manifestações expressas através dos gritos de ordem “É proibido proibir” e “O poder está nas ruas” significaram?

Benilton Bezerra Jr. – Maio de 68 foi um acontecimento com múltiplas dimensões e várias conseqüências. Uma delas, talvez a principal, foi a capacidade de tal movimento abalar, de certa forma, várias estruturas de pensamento e de organização do poder, além de influir decisivamente na politização da vida cotidiana. Este impacto se expressou no plano da política por meio da crítica aos impérios ainda existentes e aos sistemas de poder estabelecidos. Ou seja, houve uma crítica, no plano da macropolítica, aos impasses e conflitos estruturais no mundo capitalista e soviético. Assim, surgiu a idéia de que as formas de organização e de exercício do poder precisavam ser renovadas.

Essa posição gerou também conseqüências no campo da micropolítica. Palavras de ordem, como “É proibido proibir”, ou “O poder está nas ruas”, acabaram implicando, em maio de 68, uma confluência do movimento estudantil e dos trabalhadores franceses. É preciso lembrar que essa foi uma manifestação popular, na qual mais de dez milhões de trabalhadores aderiram a greves, questionando o poder do Estado.

Esse período proporcionou a criação de um espaço para novos temas políticos, por exemplo, no que se refere à condição feminina, dos negros, dos homossexuais e das minorias em geral. Essas temáticas e esses grupos, na maneira de pensar a política até maio de 68, eram, de alguma maneira, sistematicamente, colocados em segundo plano. Assim, os acontecimentos da época significaram a emergência de uma nova agenda política que contemplava questões e conflitos antes subordinados às grandes bandeiras políticas e sociais.

IHU On-Line – Assim, esse período contribui para sacudir os valores da velha sociedade e estabelecer novos padrões no que se refere à sexualidade e prazer? Ou essa foi apenas uma revolução sonhadora?

Benilton Bezerra Jr.
– Sem dúvida, foi um movimento sonhador. Talvez essa tenha sido a grande marca de 68. Uma das frases mais famosas da época, registrada nos muros e paredes, dizia: “Sejamos realistas, peçamos o impossível”. Isso mostra que a idéia de se fazer uma revolução, ou seja, mudar pensando no impossível e quebrar paradigmas que pareciam estáticos, esteve presente, nesse período, em todas as manifestações ocorridas no mundo. Contudo, como toda revolução sonhadora, ela nunca, de fato, realizou, pelo menos inteiramente, os sonhos que a inspiraram. No que se refere ao estabelecimento de novos padrões, Maio de 68 está vinculado a outros movimentos que mudaram muito a sociedade. Um exemplo de manifestação que passou a reivindicar valor político, e que realmente teve conseqüências profundas na sociedade, foi a que envolveu uma crítica à cultura patriarcal, machista e à nova maneira de pensar as identidades sexuais. O fato de termos hoje, na eleição americana, um negro e uma mulher disputando a presidência mostra uma vinculação com o que se mudou em 1968.

IHU On-Line – Qual foi o principal legado desse movimento? Alguns militantes da época disseram que esse período mostrou que é mais provável mudar a si mesmo do que mudar o mundo. O senhor concorda?

Benilton Bezerra Jr.
– Não é mais provável mudar a si mesmo do que mudar o mundo. Na verdade, mudar a si mesmo sem mudar o mundo é uma busca um pouco inútil. O que, de fato, esse período serviu para mostrar é que não podemos pensar em mudar o mundo sem também mudar a nós mesmos. O ser humano é um ser político, como já dizia Aristóteles , isto é, tudo que concerne a minha liberdade, singularidade e existência pessoal encontra maneiras de estar ligado à vida de todos. Isso é, talvez, o efeito mais interessante dos acontecimentos de 68 no pensamento sobre o projeto democrático. A idéia de democracia como horizonte que nunca se realiza plenamente, como idéia regulativa, como um processo ininterrupto e de construção de um mundo melhor, implica, ao mesmo tempo, a idéia de que as macroestruturas precisam se transformar, mas também que se sustentam apenas na medida em que os indivíduos que vivem nesse mundo também se colocam como agentes de mudança em suas existências pessoais.




IHU On-Line – Os jovens reinvindicaram uma revolução sexual, mas no século XXI a sexualidade ainda é considerada uma caixa-preta, um tabu não superado?

Benilton Bezerra Jr.
– Se tomarmos a idéia de revolução sexual como um movimento que transformou o sexo e a sexualidade numa questão política, isto é, a qual todo mundo pode e deve ter acesso, podemos dizer que maio de 68 alcançou um dos seus objetivos. A sexualidade não tinha o valor político de hoje e, não há, nem de longe, semelhança com o padrão de repressão existente antes. Nesse sentido, não é mais um tabu falar de sexo.

Se pensarmos numa segunda perspectiva, a de que a revolução sexual foi, a partir de 68, uma espécie de superação dos problemas que a sexualidade traz, então a perspectiva é um pouco diferente. Naquele período, havia a idéia de uma sexualidade totalmente livre da repressão, indivíduos completamente isentos de conflitos em relação à sua sexualidade e à plena fruição do prazer. Como todo sonho, essa foi uma utopia irrealizável.

Foucault disse, um pouco depois desse período, que houve uma ilusão por trás dessa idéia de que a liberdade sexual teria um poder revolucionário de libertação dos indivíduos. Ele dizia que a verdadeira superação do aprisionamento na sexualidade seria a possibilidade de deslocar a idéia de sexualidade do papel tão central que ocupou nos últimos 300 anos.

De liberdade à imposição

Embora a revolução sexual tenha trazido mais liberdade para o tema, dando a ele uma conotação política, por outro lado, ela, em muitos sentidos, acabou deslocando o prazer sexual para uma espécie de obrigação. Se há um efeito colateral da revolução sexual hoje em dia, é o de que o uso da sexualidade e a busca do prazer sexual se transformaram de um direito conquistado a uma espécie de obrigação de cada um. Então, o que foi, em algum momento, uma crítica e uma desmontagem de normas se transformou, ao longo das décadas, numa outra maneira de normatização. Desse modo, hoje é praticamente impossível fugir às redes da sociedade que indicam os modos mais adequados de fruição sexual.

IHU On-Line – Então, o senhor concorda com a tese de Jean-Claude Guillebaud (1) , em seu livro A tirania do prazer, de que é necessária uma revisão crítica dos resultados da revolução sexual de 68?

Benilton Bezerra Jr. –
Concordo com a idéia exposta na Tirania do prazer, porque, de fato, isso talvez seja um dos traços que caracteriza a cultura atual. Nós todos somos quase que instados a exibir a nossa capacidade de ter prazer e de estarmos tendo prazer. A idéia de que conflitos, dúvidas, tristezas, tédio e ambivalência fazem parte de uma vida normal e bem vivida praticamente desapareceu. Quer dizer, a norma de funcionamento subjetivo, hoje em dia, é a do prazer usufruído ininterruptamente, sem nenhum tipo de obstáculo, o que é, na verdade uma recusa do desejo, e não sua liberação.

Se essa mudança, por um lado, tem a ver com os acontecimentos de 68, por outro lado, é conseqüência de um movimento maior, mais estrutural. Refiro-me ao desaparecimento do campo da política, ou seja, à diluição da idéia de cidadania em prol da noção de defesa de consumidores, fazendo refluir inteiramente a idéia da política como a ação na qual as pessoas coletivamente discutem o presente com vistas para um futuro a ser construído. Essa imagem de construção de cenários futuros, de engajamento coletivo na construção de horizontes, ou seja, a idéia forte de política, que estava presente de maneira muito contundente em 68, desapareceu. Isso não se deu devido ao fracasso de 68, mas porque a política no mundo mudou. O mundo bi-polarizado deixou de existir. A imaginação de horizontes alternativos ruiu de forma que, hoje em dia, num mundo dominado pelo mercado, com o desaparecimento da política, o desmoronamento da tradição, da religião e das instituições como a família, a própria idéia de ação política sofreu um enorme revés. Neste espaço deixado vazio pela imaginação e engajamento político, a ideologia da felicidade encontrou seu lugar.

IHU On-Line – Houve, então, nessas quatro décadas, uma mudança de paradigma? Lutamos pela autonomia, mas necessitamos e somos dependentes de modelos de vida, de conceitos instituídos do que significa tradição, moral, família, religião, por exemplo? A sociedade vive uma crise de autoconhecimento e valores sociais?

Benilton Bezerra Jr. –
Em 68, havia a idéia de autonomia, de crítica aos padrões estabelecidos e às formas opressivas na vida política, cotidiana, amorosa. Esse conceito de autonomia era um centro de gravidade muito importante para esses grupos. No entanto, por um lado, surgiram movimentos localizados: negros, mulheres, imigrantes, homossexuais. No mesmo sentido, ocorreu um desmoronamento de grandes bandeiras universais que englobaram todos esses grupos em torno de uma visão de sociedade melhor a ser construída. Assim, conseqüentemente, a vida política foi se fragmentando na luta por interesses de grupos pequenos.

Por isso, atualmente, aqueles que têm, por exemplo, deficiências, formam seus grupos de ação política para defender seus direitos específicos. Com isso, a idéia de autonomia deixou de estar vinculada a uma noção que era fundamental na política, ou seja, à noção de que a autonomia de cada um se sustenta no exercício de autonomia coletiva.

A autonomia é, hoje, mais ou menos intuitivamente pensada como um direito do indivíduo de fazer o que bem lhe aprouver. Entretanto, como dizem, nenhum homem é uma ilha: ninguém consegue ser autônomo, a não ser num mundo de autônomos. Não é possível viver livre, sem que essa liberdade seja construída conjuntamente com outros indivíduos. Assim, a sociedade moderna vive uma situação um pouco paradoxal. De um lado, não nos sentimos tão obrigados quanto outras gerações a nos curvarmos frente a valores da moral, da família, da religião, da tradição. Poucas pessoas deixam de fazer alguma coisa porque é pecado, por exemplo, interpretando os fatos da sua maneira. Quer dizer, não há nenhum valor capaz de fazer com que nos curvemos de maneira inexorável. Nesse sentido, vivemos numa sociedade em que a idéia é a de que somos completamente livres e autônomos. No entanto, a mesma sociedade que cria isso tira a base desse indivíduo, de modo que ele se sente sempre dependente de alguma carta de orientação.

Autonomia ou dependência?

Como diz o sociólogo francês Alan Ehrenberg, vivemos uma sociedade da autonomia assistida, porque somos autônomos, mas nunca tivemos tantos profissionais a quem consultamos para saber como viver a nossa vida em cada um dos aspectos. Assim, temos liberdade para escolher, ao mesmo tempo em que não nos sentimos competentes para decidir. Desse modo, nos deixamos governar pelos modelos que são distribuídos na cultura e, sobretudo, pela mídia.

Uma autonomia, no sentido forte, implica em engajamentos e projetos coletivos e comuns. A liberdade vazia de direção é uma fantasia vivida por um indivíduo desorientado. Ele não é constituído num diálogo permanente com os grandes mapas da vida, que são as tradições, as ideologias, as grandes narrativas que orientam visões de mundo. Sem isso, é impossível saber para onde seguir.

IHU On-Line - A conquista pelos direitos do “eu” enquanto ser individualista gerou um novo problema para a sociedade, o que o senhor chama de exacerbação da autonomia e do individualismo? Ainda é possível resgatar a idéia de coletivo?

Benilton Bezerra Jr.
– Essa exacerbação é uma espécie de desenvolvimento natural da própria lógica do individualismo que constituiu o mundo moderno.

A idéia de democracia é inviável sem a idéia do valor central do indivíduo. A luta pela igualdade e o respeito à singularidade é possível com base no valor do indivíduo. No entanto, numa sociedade em que valores e horizontes coletivos ficam desmoralizados, a lógica do individualismo se torna exacerbada, girando muito mais em torno do narcisismo de cada um do que de uma ação coletiva de indivíduos que se juntam em função de objetivos comuns.

Não há dúvida de que falta alguma maneira de construção de novos horizontes coletivos de construção de um mundo melhor. A compreensão de que eu só garantirei a minha liberdade quando eu garantir a de todos, que só terei garantido a minha singularidade quando os outros tiverem também a sua garantida, e que todos tenham conforto, acesso à saúde, habitação, precisa de novo ser recolocada no imaginário social. E, de fato, hoje em dia, vivemos o refluxo dessa idéia.

IHU On-Line – Alguns grupos, naquele período, seguiram o maoísmo. Como explicar a reivindicação por direitos democráticos através da luta armada?

Benilton Bezerra Jr.
– Esses grupos terroristas dos anos 1970 surgiram no refluxo do movimento de 68. Naquele momento a esquerda se dividiu. A esquerda mais representada entre os estudantes foi para um lado, e a mais tradicional, ligada aos partidos comunistas e aos países socialistas, acabaram estabelecendo uma forma de acordo com o governo francês, de modo a fazer retroceder aquele movimento, com medo do que viria depois.

Nas eleições que se seguiram a Maio de 68, os grupos que apoiaram o De Gaulle , ganharam com maioria absoluta no congresso francês. O que aconteceu é que, logo depois daquela explosão enorme da mudança, houve um recuo enorme daquele movimento de mudança, o que desmoralizou em boa parte o processo da política partidária, o movimento sindical. Desse modo, muitos grupos caíram em ações extremadas e perderam a sua vinculação com o movimento de massas. Esses terroristas de esquerda tinham a pretensão de ficarem ligados a um movimento de transformação social, mas passaram a ser isolados.

IHU On-Line - Lacan dizia que a “a revolução é feita para manter a ordem”. Levando em consideração o movimento de 68, podemos dizer que os jovens queriam manter a ordem, mas estabeleceram uma nova ordem?

Benilton Bezerra Jr
. – Os jovens de 68 tinham uma percepção aguda do quanto havia, na ordem estabelecida então, coisas a serem transformadas profundamente. Por isso, eles criticavam a sociedade patriarcal e a opressão da mulher, por exemplo. Inspiravam-se na idéia de que a sociedade poderia ser muito mais livre, fraterna, igualitária do que era até então. Assim, pode-se dizer que eles foram herdeiros da Revolução Francesa, ocorrida dois séculos antes.

Quando se pensou que outra ordem poderia se estabelecer no lugar, as coisas se complicaram. Do ponto de vista do movimento internacional em 68, a alternativa que se oferecia para eles, do sistema vigente nos países do chamado socialismo real, era criticada pelos próprios revolucionários. Por outras razões, os jovens criticavam acertadamente esse socialismo, pois viam o quanto a bandeira libertaria do socialismo havia se transformado numa ordem com muitos traços opressores. Então, eles tinham o martelo para derrubar a ordem, mas não o cimento para construir uma outra ordem.

De fato, o que se pode dizer é que havia, entre os grupos que se movimentaram em 68, desde aqueles que tinham idéia de que tipo de sociedade queriam colocar no lugar, até aqueles que simplesmente, numa expressão mais anarquista, estavam preocupados em demolir o que vinha antes.

Nota:

1.- Jean-Claude Guillebaud: jornalista, ensaísta e diretor literário da prestigiada Editora francesa Seuil; autor de diversas obras, entre elas A tirania do prazer – Prêmio Renaudot de Ensaio, (Cidade, Editora, ano) 1998 e A reinvenção do mundo. Recentemente, publicou Comment je suis redevenu chrétien. Paris: Albin Michel, 2007. No Brasil, acaba de ser traduzido A força da convicção. Bertrand Brasil, 2007.

domingo, 9 de março de 2008

mais ou menos assim:

quero introduzir um assunto que é: CIDADE. Vamos lá, tipo PARIS! Muito já se escreveu, já se falou, inclusive muitos já se suicidaram em Paris. Qual é a energia ou então o quê que faz uma cidade ser praticamente uma entidade, um ser? Por mim Paris e um louco/intenso amor estão presentes ali. Benjamim escreveu, quantos escritores ali viveram e lá realizaram tudo, ou talvez o mais significativo de sua obra? E quantos lá não nasceram, apenas por lá passaram, mas assim que lá pisaram pronto, produziram o que havia de melhor em si?
Mas então qual é?
A cidade é um ente?

Uma estrofe de um poema de alguém que escolheu Paris pra se matar (Mário de Sá Carneiro, poeta português da geração de F. Pessoa. Matou-se aos 26 anos tomando doses excessivas do veneno estricnina):

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

segunda-feira, 3 de março de 2008

O Universo como um Holograma


O Universo como um Holograma

FONTE: http://216.239.51.104/search?q=cache:oo1ZuKDLbmEJ:www.holoalternativo.com/Universo



Existe uma Realidade Objetiva ou o Universo é um Fantasma?

Em 1982 ocorreu um fato muito importante. Na Universidade de Paris uma equipe de pesquisa liderada pelo físico Alain Aspect realizou o que pode se tornar o mais importante experimento do século 20. Você não ouviu falar sobre isto nas notícias da noite. De fato, a menos que você tenha o hábito de ler jornais e revistas científicos, você provavelmente nunca ouviu falar no nome de Aspect.

E há muitos que pensam que o que ele descobriu pode mudar a face da ciência.

Aspect e sua equipe descobriram que sob certas circunstâncias partículas subatômicas como os elétrons são capazes de instantaneamente se comunicar umas com as outras a despeito da distância que as separe. Não importa se esta distância é de 10 pés ou de 10 bilhões de milhas. De alguma forma uma partícula sempre sabe o que a outra está fazendo. O problema com esta descoberta é que isto viola a por muito tempo sustentada afirmação de Einstein que nenhuma comunicação pode viajar mais rápido do que a velocidade da luz. E como viajar mais rápido que a velocidade da luz é o objetivo máximo para quebrar a barreira do tempo, este fato estonteante tem feito com que muitos físicos tentem vir com maneiras elaboradas para descartar os achados de Aspect.

Mas também tem proporcionado que outros busquem explicações mais radicais.

O físico da Universidade de Londres, David Bohm, por exemplo, acredita que as descobertas de Aspect implicam em que a realidade objetiva não existe, que a despeito da aparente solidez o universo está no coração de um holograma fantástico, gigantesco e extremamente detalhado. Para entender porque Bohm faz esta afirmativa surpreendente, temos primeiro que saber um pouco sobre hologramas. Um holograma é uma fotografia tridimensional feita com a ajuda de um laser.

Para fazer um holograma, o objeto a ser fotografado é primeiro banhado com a luz de um raio laser. Então um segundo raio laser é colocado fora da luz refletida do primeiro e o padrão resultante de interferência (a área aonde se combinam estes dois raios laser) é capturada no filme. Quando o filme é revelado, parece um rodamoinho de luzes e linhas escuras. Mas logo que este filme é iluminado por um terceiro raio laser, aparece a imagem tridimensional do objeto original.

A tridimensionalidade destas imagens não é a única característica importante dos hologramas. Se o holograma de uma rosa é cortado na metade e então iluminado por um laser, em cada metade ainda será encontrada uma imagem da rosa inteira. E mesmo que seja novamente dividida cada parte do filme sempre apresentará uma menor, mas ainda intacta versão da imagem original. Diferente das fotografias normais, cada parte de um holograma contém toda a informação possuída pelo todo.

A natureza de "todo em cada parte " de um holograma nos proporciona uma maneira inteiramente nova de entender organização e ordem. Durante a maior parte de sua história, a ciência ocidental tem trabalhado dentro de um conceito que a melhor maneira para entender um fenômeno físico, seja ele um sapo ou um átomo, é dissecá-lo e estudar suas partes respectivas. Um holograma nos ensina que muitas coisas no universo não podem ser conduzidas por esta abordagem. Se tentamos tomar alguma coisa à parte, alguma coisa construída holograficamente, não obteremos as peças da qual esta coisa é feita, obteremos apenas inteiros menores.

Este "insight" é o sugerido por Bohm como outra forma de compreender os aspectos da descoberta de Aspect. Bohm acredita que a razão que habilita as subpartículas a permanecerem em contacto umas com as outras a despeito da distância que as separa não é porque elas estejam enviando algum tipo de sinal misterioso, mas porque esta separação é uma ilusão. Ele argúe que em um nível mais profundo de realidade estas partículas não são entidades individuais, mas são extensões da mesma coisa fundamental.

Para capacitar as pessoas a melhor visualizarem o que ele quer dizer, Bohm oferece a seguinte ilustração: Imagine um aquário que contém um peixe. Imagine também que você não é capaz de ver este aquário diretamente e seu conhecimento deste aquário se dá por meio de duas câmaras de televisão, uma dirigida ao lado da frente e outra a parte lateral.

Quando você fica observando atentamente os dois monitores, você acaba presumindo que o peixe de cada uma das telas é uma entidade individual. Isto porque como as câmeras foram colocadas em ângulos diferentes, cada uma das imagens será também ligeiramente diferente. Mas se você continua a olhar para os dois peixes, você acaba adquirindo a consciência de que há uma relação entre eles.

Quando um se vira, o outro faz uma volta correspondente apenas ligeiramente diferente; quando um se coloca de frente para a frente, o outro se coloca de frente para o lado. Se você não sabe das angulações das câmeras você pode ser levado a concluir que os peixes estão se intercomunicando, apesar de claramente este não ser o caso.

Isto, diz Bohm, é precisamente o que acontece com as partículas subatômicas na experiência de Aspect. Segundo Bohm, a aparente ligação mais-rápido-do-que-a-luz entre as partículas subatômicas está nos dizendo realmente que existe um nível de realidade mais profundo da qual não estamos privados, uma dimensão mais complexa além da nossa própria que é análoga ao aquário. E ele acrescenta, vemos objetos como estas partículas subatômicas como se estivessem separadas umas das outras porque estamos vendo apenas uma porção da realidade delas.

Estas partículas não são partes separadas mas sim facetas de uma unidade mais profunda e mais subliminar que é holográfica e indivisível como a rosa previamente mencionada. E como tudo na realidade física está compreendido dentro destes "eidolons", o próprio universo é uma projeção, um holograma.

Em adição a esta natureza fantástica, este universo possuiria outras características surpreendentes. Se a aparente separação das partículas subatômicas é uma ilusão, isto significa que em nível mais profundo de realidade todas as coisas do universo estão infinitamente interconectadas.

Os elétrons num átomo de carbono no cérebro humano estão interconectados com as partículas subatômicas que compreendem cada salmão que nada, cada coração que bate, e cada estrela que brilha no céu.

Tudo interprenetra tudo e embora a natureza humana possa buscar categorizar como um pombal e subdividir os vários fenômenos do universo, todos os aportes toda esta necessidade é de fato artificial e todas de natureza que é finalmente uma rede sem sentido.

Em um universo holográfico, mesmo o tempo e o espaço não podem mais serem vistos como fundamentais. Porque conceitos como localização se quebram diante de um universo em que nada está verdadeiramente separado de nada, tempo e espaço tridimensional, como as imagens dos peixes nos monitores, também podem ser vistos como projeções de ordem mais profunda.

Este tipo de realidade a nível mais profundo é um tipo de super holograma no qual o passado, o presente, o futuro existem simultaneamente. Sugere que tendo as ferramentas apropriadas pode ser algum dia possível entrar dentro deste nível de realidade super holográfica e trazer cenas do passado há muito esquecido. Seja o que for que o super holograma contenha, é ainda uma questão em aberto. Pode-se até admitir, por amor a argumentação, que o super holograma é a matriz que deu nascimento a tudo em nosso universo e no mínimo contém cada partícula subatômica que existe ou existirá - cada configuração da matéria e energia que é possível, de flocos de neve a quasars, de baleias azuis aos raios gamma. Deve ser visto como um tipo de "depósito" de "Tudo que é".

Embora Bohm admita que não há maneira de saber o que mais pode estar oculto no super holograma, ele se arrisca em dizer que não temos qualquer razão para admitir que ele não contenha mais. Ou, como ele coloca, talvez o nível super holográfico da realidade é um simples estágio além do que repousa "uma infinidade de desenvolvimento posterior".

Bohm não é o único pesquisador que encontrou evidências de que o universo é um holograma. Trabalhando independentemente no campo da pesquisa cerebral, o neurofisiologista Karl Pribram, de Standford também se persuadiu da natureza holográfica da realidade. Pribram desenhou o modelo holográfico para o quebra-cabeças de como e onde as memórias são guardadas no cérebro.

Por décadas, inúmeros estudos tem mostrado que muito mais que confinadas a uma localização específica, as memórias estão dispersas pelo cérebro.

Em uma série de experiências com marcadores na década de 20, o cientista cerebral Karl Lashley concluiu que não importava que porção do cérebro do rato era removida; ele era incapaz de erradicar a memória de como eram realizadas as atividades complexas que tinham sido aprendidas antes da cirurgia. O único problema foi que ninguém foi capaz de poder explicar a natureza de "inteiro em cada parte" da estocagem da memória.

Então, na década de 60, Pribram encontrou o conceito de holografia e entendeu que ele tinha achado a explicação que os cientistas cerebrais estavam buscando. Pribram acredita que as memórias são codificadas não nos neurônios, ou pequenos grupos de neurônios, mas em padrões de impulsos nervosos de tipo cruzado em todo o cérebro da mesma forma que a interferência da luz laser atravessa toda a área de um pedaço de filme contendo uma imagem holográfica. Em outras palavras, Pribram acredita que o próprio cérebro é um holograma.

A teoria de Pribram também explica como o cérebro humano pode guardar tantas memórias em um espaço tão pequeno.

Tem sido calculado que o cérebro humano tem a capacidade de memorizar algo na ordem de 10 bilhões de bits de informação durante a média da vida humana ( ou rudemente comparando, a mesma quantidade de informação contida em cinco volumes da Encyclopaedia Britannica).

Similarmente, foi descoberto que em adição a suas outras capacidades, o holograma possui uma capacidade de estocagem de informação simplesmente mudando o ângulo no qual os dois lasers atingem um pedaço de filme fotográfico, e é possível gravar muitos registros diferentes na mesma superfície. Tem sido demonstrado que um centímetro cúbico pode estocar mais que 10 bilhões de bits de informação.

Nossa habilidade de rapidamente recuperar qualquer informação que precisamos do enorme estoque de nossas memórias se torna mais compreensível se o cérebro funciona segundo princípios holográficos. Se um amigo pede a você que diga o que lhe vem a mente quando ele diz a palavra "zebra", você não tem que percorrer uma gigantesca lista alfabética para encontrar a resposta. Ao contrário, associações como "listrada", parecida com um cavalo e "animal nativo da África" logo lhe vem à mente.

Uma das coisas mais surpreendentes sobre o processo de pensamento humano é que cada peça de informação parece imediatamente correlacionada com muitas outras - uma outra característica intrínseca do holograma. Por que cada porção de um holograma é infinitamente interligada com todas as outras porções, talvez seja a natureza o supremo exemplo de um sistema interligado.

A estocagem da memória não é o único quebra-cabeças neurofisiológico que se torna abordável à luz do modelo holográfico de cérebro de Pribram.

Um outro é como o cérebro é capaz de traduzir a avalanche de freqüências que recebe via sentidos (freqüências de sons, freqüências de luz e assim por diante ) dentro do mundo concreto de nossas percepções. Codificando e decodificando freqüências é precisamente o que o holograma faz melhor.

Exatamente como um holograma funciona como um tipo de lente, um aparelho tradutor capaz de converter um borrão de freqüências aparentemente sem sentido em uma imagem coerente, Pribram acredita que o cérebro também parece uma lente e usa os princípios holográficos para converter matematicamente as freqüências que recebe através dos sentidos dentro do mundo interior de nossas percepções. Um impressionante corpo de evidência sugere que o cérebro usa os princípios holográficos para realizar as suas operações. A teoria de Pribram de fato tem ganho suporte crescente entre os neurofisiologistas.

O pesquisador ítalo-argentino Hugo Zucarelli recentemente estendeu o modelo holográfico ao mundo dos fenômenos acústicos. Confuso pelo fato de que os humanos podem localizar a fonte dos sons sem moverem as cabeças, mesmo se eles só possuem audição em um ouvido, Zucarelli descobriu que os princípios holográficos podem explicar estas habilidades.

Zucarelli também desenvolveu uma técnica de som holográfico, uma técnica de gravação capaz de reproduzir sons acústicos com um realismo quase inconcebível.

A crença de Pribram que nossos cérebros constroem matematicamente a "dura" realidade pela liberação de um input de uma freqüência dominante também tem recebido grande quantidade de suporte experimental. Foi descoberto que cada um de nossos sentidos é sensível a uma extensão muito mais ampla de freqüências do que se suspeitava anteriormente.

Os pesquisadores tem descoberto, por exemplo, que nosso sistema visual é sensível às freqüências de som, nosso sentido de olfato é em parte dependente do que agora chamamos de freqüências ósmicas e que mesmo cada célula de nosso corpo é sensível a uma ampla extensão de freqüências. Estas descobertas sugerem que está apenas sob o domínio holográfico da consciência e que estas freqüências são selecionadas e divididas dentro das percepções convencionais.

Mas o mais envolvente aspecto do modelo holográfico cerebral de Pribram é o que acontece quando ele é conjugado à teoria de Bohm. Se a "concretividade" do mundo nada mais é do que uma realidade secundária e o que está "lá" é um borrão de freqüências holográfico, e se o cérebro é também um holograma e apenas seleciona algumas das freqüências deste borrão e matematicamente transforma-as em percepções sensoriais, o que vem a ser a realidade objetiva? Colocando de forma simples, ela deixa de existir.

Como as religiões orientais há muito tem afirmado, o mundo material é Maya, uma ilusão, e embora pensemos que somos seres físicos que se movem em um mundo físico, isto também é uma ilusão. Somos realmente "receptores" boiando num mar caleidoscópico de freqüência, e que extraímos deste mar e transformamos em realidade física não é mais que um canal entre muitos do super holograma.

Esta intrigante figura da realidade, a síntese das abordagens de Bohm e Pribram tem sido chamada de "paradigma holográfico", e embora muitos cientistas tenham recebido isto com ceticismo, este paradigma tem galvanizado outros. Um pequeno mas crescente grupo de pesquisadores acredita que este pode ser o modelo mais acurado da realidade científica que foi mais longe. Mais do que isto, muitos acreditam que ele pode solucionar muitos mistérios que nunca foram antes explicados pela ciência e mesmo estabelecer o paranormal como parte da natureza.

Numerosos pesquisadores como Bohm e Pribram tem notado que muitos fenômenos parapsicológicos se tornam muito mais compreensíveis em termos do paradigma holográfico.

Em um universo em que cérebros individuais são atualmente porções indivisíveis de um holograma muito maior e tudo está infinitamente interligado, a telepatia pode ser simplesmente o acessamento do nível holográfico. E é obviamente muito mais fácil entender como a informação pode viajar da mente do indivíduo A para a do indivíduo B ao ponto mais distante e auxilia a entender um grande número de quebra-cabeças em psicologia.

Em particular, Grof sente que o paradigma holográfico oferece um modelo de compreensão para muitos estonteantes fenômenos vivenciados por indivíduos durante estados alterados de consciência. Nos anos 50, conduzindo uma pesquisa em que se acreditava que o LSD seria um instrumento psicoterapêutico, Grof teve uma paciente que de repente ficou convencida que tinha assumido a identidade de uma femea de uma espécie pré-histórica de répteis.

Durante o curso da alucinação dela, ela não somente deu riquissimos detalhes do que ela sentia ao ser encapsulada naquela forma, mas notou que uma porção do macho daquela espécie tinha anatomia que era um caminho para as escamas coloridas ao lado de sua cabeça. O que foi surpreendente para Grof é que a mulher não tinha conhecimento prévio sobre estas coisas, e uma conversação posterior com um zoologista confirmou que em certas espécies de repteis as áreas coloridas na cabeça tem um importante papel como estimulantes do desenvolvimento sexual.

A experiência desta mulher não foi única. Durante o curso da pesquisa, Grof encontrou exemplos de pacientes regredindo e se identificando com virtualmente todas as espécies na árvore evolucionária (descobertas da pesquisa ajudaram a influenciar a cena do homem-vindo-do-macaco no filme Altered States). E mais ainda, ele descobriu que estas experiências freqüentemente continham detalhes obscuros que mais tarde vieram a ser confirmados como acurados.

Regressões dentro do reino animal não são os únicos quebra cabeças entre os fenômenos psicológicos que Grof encontrou.

Ele também teve pacientes que pareciam entrar em algum tipo de consciência racial ou coletiva. Indivíduos com pouca ou nenhuma educação repentinamente davam detalhadas descrições das práticas funerárias do Zoroastrismo e cenas da mitologia hindu. Em outro tipo de experiências os indivíduos forneciam relatos persuasivos de jornadas fora do corpo, relâmpagos pré cognitivos do futuro, de regressões dentro de aparentemente encarnações de vidas passadas.

Em pesquisa posterior, Grof encontrou a mesma extensão de fenômenos manifestados em seções de terapia que não envolviam o uso de drogas. Em virtude dos elementos em comum nestas experiências parecerem transcender a consciência individual, além dos usuais limites do ego e/ou as limitações de tempo ou espaço, Grof chamou estas manifestações de experiências transpessoais e no fim dos anos 60 ele auxilou na fundação de um ramo de psicologia chamada "psicologia transpessoal" e se devotou inteiramente ao seu estudo.

Embora a recém-fundada Association of Transpersonal Psychology conquistasse um rápido crescimento entre o grupo de profissionais de mente similar, e se tornasse um ramo respeitado da psicologia, durante anos nem Grof nem seus colegas foram capazes de fornecer um mecanismo para explicar os bizarros fenômenos psicológicos que eles estavam testemunhando. Mas isto mudou com o advento do paradigma holográfico. Como Grof recentemente notou, se a mente é parte de um continuum, um labirinto que é conectado não somente as outras mentes que existem ou existiram, mas a cada átomo, cada organismo e região na vastidão do espaço e tempo, o fato de que seja capaz de ocasionalmente fazer entradas no labirinto e Ter experiências transpessoais não pode mais parecer estranho.

O paradigma holográfico tem também implicações nas chamadas ciências "concretas" como a biologia. Keith Floyd, um psicólogo do Virginia Intermont College, tem pontificado que a concretividade da realidade é apenas uma ilusão holográfica, e não está muito longe da verdade dizer que o cérebro produz a consciência. Mais ainda, é a consciência que cria a aparência do cérebro - bem como do corpo e de tudo mais que nós interpretamos como físico.

Esta virada na maneira de se ver as estruturas biológicas fez com que pesquisadores apontassem que a medicina e o nosso entendimento do processo de cura poderia também ser transformado em um paradigma holográfico. Se a aparente estrutura física do corpo nada mais é do que a projeção holográfica da consciência, torna-se claro que cada um de nós é mais responsável por sua saúde do que admite a atual sabedoria médica. Que nós agora vejamos as remissões miraculosas de doenças podem ser próprias de mudanças na consciência que por sua vez efetua alterações no holograma do corpo.

Similarmente, novas técnicas controversas de cura como a visualização podem funcionar muito bem porque no domínio holográfico de imagens pensadas que são muito "reais" se tornam "realidade". Mesmo visões e experiências que envolvem realidades "não ordinárias" se tornam explicáveis sob o paradigma holográfico. Em seu livro, "Gifts of Unknown Things," o biologista Lyall Watson descreve seu encontro com uma mulher xamã indonésia que, realizando uma dança ritual , foi capaz de fazer um ramo inteiro de uma árvore desaparecer no ar. Watson relata que ele e outro atônito expectador continuaram a olhar para a mulher, e ela fez o ramo reaparecer, desaparecer novamente e assim por várias vezes.

Embora o atual entendimento científico seja incapaz de explicar estes eventos, experiências como esta vem a ser mais plausíveis se a "dura" realidade é apenas uma projeção holográfica. Talvez concordemos sobre o que está "lá" ou "não está lá " porque o que chamamos consenso realidade é formulada e ratificada a nível de inconsciência humana a qual todas as mentes estão interligadas.

Se isto é verdade, a mais profunda implicação do paradigma holográfico é que as experiências do tipo da de Watson não são lugares comum somente porque nós não temos programado nossas mentes com as crenças que fazem com que sejam.

Num universo holográfico não há limites para a extensão do quanto podemos alterar o tecido da realidade. O que percebemos como realidade é apenas uma forma esperando que desenhemos sobre ela qualquer imagem que queiramos.

Tudo é possível, de colheres entortadas com o poder da mente aos eventos fantasmagóricos vivenciados por Castaneda durante seus encontros com o bruxo Yaqui Don Juan, mágico de nascença, não mais nem menos miraculoso que a nossa habilidade para computar a realidade que nós queremos quando sonhamos.

E assim, mesmo as nossas noções fundamentais sobre a realidade se tornam suspeitas, dentro de um universo holográfico, como Pribram postulou, e mesmo eventos ao acaso podem ser vistos dentro dos princípios básicos holográficos e portanto determinados.

Sincronicidades ou coincidências significativas de repente fazem sentido, e tudo na realidade terá que ser visto como uma metáfora, e mesmo eventos ao acaso expressariam alguma simetria subjacente.

Seja o paradigma holográfico de Bohm e Pribram aceito na ciência ou morra de morte ignóbil, é seguro dizer que ele já tem influenciado a mente de muitos cientistas. E mesmo se descoberto que o modelo holográfico não oferece a melhor explicação para as comunicações instantâneas que vimos ocorrer entre as partículas subatômicas, no mínimo, como observou notou Basil Hiley, um físico do Birbeck College de Londres, os achados de Aspect "indicam que devemos estar preparados para considerar radicalmente novos pontos de vista da realidade".

Tradução do original:


Reality - the Holographic Universe - 03/16/97.


Arquivo postado como REALITY.ASC na lista KeelyNet BBS em 24 de fevereiro de 1991.

*Não encontrei referências a autor e tradutor

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Michel Onfray, o filósofo francês que desafia os círculos acadêmicos





Desconforme com o modelo educativo tradicional, Onfray criou uma Universidade onde não se fazem exames nem se conferem títulos. Seus textos combinam a filosofia com gastronomia, religião, anarquismo e a busca do prazer.


Segue artigo de Héctor Pavón publicado no jornal argentino Clarín, 11-02-2008.


A tradução é do Cepat.

Há uma Universidade na cidade de Caen, França, onde um filósofo chamado Michel Onfray dá aulas para auditórios lotados de ouvintes. Não são alunos tradicionais, são pessoas que vão à universidade para aprender sem buscar títulos, mas saberes finamente selecionados. É esse o espírito que rege a escritura deste pensador que se mantém afastado dos círculos acadêmicos que costuma defenestrar. Produz textos livres que combinam filosofia com gastronomia, religião, anarquismo, história e a busca do prazer, entre outras disciplinas e ocorrências.

Muitos desses livros (escreveu mais de quarenta) foram editados aqui [Argentina] ou importados e são lidos apaixonadamente. Somente em 2007 foram editados quatro: La filosofía feroz (Libros del Zorzal); La potencia de existir. Manifiesto hedonista (De la Flor); El cristianismo hedonista. Contrahistoria de la filosofía II e Las sabidurías de la antigüedad (Anagrama). Há um crescente interesse por seu pensamento e por sua atitude antiintelectual que seduz e multiplica leitores argentinos.

Alguns de seus livros começaram a circular nos anos 90: A razão gulosa e O ventre dos filósofos [No Brasil, ambos são editados pela Rocco], por exemplo. Esse modo de analisar a partir da filosofia os hábitos culinários chamou a atenção, e seu nome começou a circular nas livrarias, faculdades e círculos de discussão filosófica fora das universidades. Depois se conheceu um livro bem divertido sobre a vida dos filósofos cínicos e de Diógenes em particular, Cinismos. O ateísmo e o hedonismo são os temas que ocupam seu pensamento desde sempre.

O livro Tratado de Ateologia [Martins Fontes, 2007] vendeu 200 mil exemplares só na França e também provocou reações ásperas por parte de grupos religiosos. Foram publicados três livros que tentaram rebater seus postulados e também foi aberto um blog intitulado “Contra Michel Onfray”. Ali fazem fila intelectuais e crentes em geral para “pegar” Onfray. No blog se pode ler: “Michel Onfray, nascido em 1959 (depois de JC) pretende desencaixar tudo. Inspirado nas correntes de idéias marxistas e nietzscheanas, prega a descristianização. Suas propostas são virulentas, cultiva o desprezo, propaga idéias caluniosas e blasfemas”. Também se poderia dizer que se encarregou de historiar o prazer ou sua carência. O seu caminho também fustiga o cristianismo e ao mesmo tempo resgata, em El cristianismo hedonista, santos heréticos e sábios licenciosos cristãos que participaram de banquetes sexuais.

Onfray teve uma infância muito dura, sem família. Graças à filosofia se refez de um duro começo: “A filosofia me permitiu sobreviver à tragédia que foi para mim ser enviado a um orfanato por meus próprios pais quando eu tinha dez anos. Os livros, a leitura me salvaram nesse momento e depois me garantiram a salvação novamente na minha adolescência, quando a filosofia funcionou em mim como o sentido, a verdade, a certeza, a razão que ninguém me havia transmitido: creio que a filosofia é uma terapia, o que séculos de filosofia mostraram, sempre que não foram cristãos...”, diz desde Argentan, sua cidade natal.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Dois exemplos da geopolítica na nova ordem "imperial"


Duas pequenas reportagens extraídas hoje do site UOL ilustram com clareza a configuração geopolítica "imperial" da nova ordem que se anuncia no início deste milênio.


Primeiro exemplo:

Integração à UE é falsa promessa da Europa para os Bálcãs



Sérvia, Kosovo, Montenegro, Macedônia. A União Européia mostrou a cenoura da afiliação a todos esses países. Mas quem na UE quer ver o bloco aumentar? Quase ninguém

Hans-Jürgen Schlamp
Em Bruxelas


A Europa é uma potência mundial, pelo menos em princípio. Com a declaração divulgada na segunda-feira pelos 27 ministros das Relações Exteriores da União Européia, tornou-se mais ou menos a política oficial do bloco: a Europa, diz a declaração, terá um papel de liderança na estabilidade de todos os Bálcãs ocidentais.

Nos próximos 120 dias, cerca de 2 mil policiais, peritos judiciais e especialistas do serviço civil seguirão para o recém-independente Kosovo para ajudar a estabelecer a estrutura de trabalho oficial necessária para um país funcionar. Bruxelas entrou no clube de elite das potências que assumiram total responsabilidade pela segurança e a economia de um território estrangeiro. Os outros membros modernos desse clube são Moscou e Washington.


Garoto segura bandeiras sérvias durante protesto no vila de Gracanica, em Kosovo

Como exatamente isso vai funcionar no caso de Kosovo -e no resto dos Bálcãs ocidentais- é há muito tempo um tema para "brainstorming" e sessões de planejamento. A estratégia resultante depende em grande parte de dois instrumentos: um envolve dinheiro e o outro mostra a cenoura do eventual acesso à União Européia. Os países que se comportarem receberão primeiro um pacote de ajuda econômica e então, em algum momento, a identidade de sócio, completa, com a paz e a prosperidade que a acompanham.

A lógica política é fácil de seguir. Oferecer aos países da antiga Iugoslávia uma "perspectiva européia", como se diz nos salões de Bruxelas, vai encorajar os vários grupos étnicos, religiosos e lingüísticos da região a abandonar qualquer idéia de novos derramamentos de sangue.

Mas há um detalhe: alguns -talvez a maioria- dos membros da UE estão trabalhando ativamente contra essa vaga promessa de afiliação feita aos sérvios, bósnios, montenegrinos e albaneses. Bruxelas tem de andar na corda bamba e oferecer a esses países o prêmio da afiliação sem realmente dá-la. O motivo disso é claro: com o acesso da Romênia e Bulgária à UE em 1º de janeiro de 2007, a disposição do grupo de se expandir ainda mais encolheu para zero.

A Spiegel Online examina rapidamente as possibilidades de acesso à UE de cada país dessa região inclinada a crises:

Croácia - próximo membro da UE?
A Croácia é a primeira candidata ao acesso na sala de espera dos Bálcãs, e como tal a primeira a ser afetada pela nova atitude européia em relação à expansão. Há muito tempo disseram que o país entraria para o clube em 2009. Mas hoje em dia poucos em Bruxelas acreditam que a Croácia será convidada para embarcar antes de 2011 -apesar das negociações continuarem em bom ritmo. As negociações começaram em 3 de outubro de 2005 e vão bem, segundo um recente relatório da Comissão Européia. A economia do país está crescendo e as reformas jurídicas, conforme os regulamentos da UE, estão bem encaminhadas.

Mas enquanto a comissão demonstrou uma disposição a olhar para outro lado quando avaliou falhas óbvias tanto na Romênia quanto na Bulgária, antes da ampliação de 2007, hoje minúcia é o nome do jogo -especialmente quando se trata de inadequações jurídicas ou deficiências no combate à corrupção. E enquanto os burocratas europeus se tornam mais detalhistas a euforia diminui no país -resultando em menos disposição para cooperar entre seus políticos. As conseqüências podem ser vistas nos choques recentes sobre direitos de pesca ao largo da costa da Croácia, ou disputas sobre o acesso da vizinha Eslovênia às águas internacionais. Zagreb está se tornando menos disposta a compromissos. Os que são forçados a correr atrás da cenoura por muito tempo eventualmente perderão o apetite.

Macedônia - esperando pelos vizinhos?
Os macedônios ainda estão ávidos para entrar na UE, e o país, que fica ao norte da Grécia, é o segundo candidato oficial à afiliação nos Bálcãs. Mas as negociações de acesso ainda nem começaram -Bruxelas também está ganhando tempo aqui. O país fez rápido progresso na implementação de uma estrutura de pré-acesso e até deu passos na direção de controlar a corrupção, como Bruxelas notou. O crescimento sólido com inflação limitada também pode ser colocado no lado positivo da balança, mas a UE nota uma constante tensão política no país entre a maioria eslava e a minoria albanesa. Em suma, a Macedônia não será convidada a entrar para a UE tão cedo, e provavelmente terá de esperar até que seus vizinhos estejam prontos para que possa se unir ao grupo.

Albânia, Montenegro e Bósnia-Herzegovina -ainda não estão prontos.
Todos esperam um futuro no clube europeu. Mas por enquanto, pelo menos, nenhum deles está sequer remotamente perto de preparado. O judiciário e as forças policiais dos três países dificilmente são transparentes, e a corrupção é crescente. Os três provavelmente terão dificuldades econômicas. Bruxelas está planejando enviar um total de 1 bilhão de euros para eles entre 2007 e 2011, pagamentos chamados de "assistência pré-acesso". Especialistas em ampliação de Bruxelas especulam que os três poderão estar prontos para se afiliar até 2015.

Sérvia -irada para sempre?
Belgrado, que já foi a capital da diversificada nação da Iugoslávia e hoje é apenas a capital de uma Sérvia encolhida, se contenta por enquanto em chorar a glória perdida. A Sérvia está chamando seus embaixadores de todos os países, incluindo a Alemanha na quarta-feira, que reconheceram Kosovo. Líderes do governo também estão fazendo pouco para acalmar as emoções aquecidas entre a população e se recusam a assinar acordos negociados com a União Européia. O país teve uma oportunidade de ouro de entrar na pista rápida de acesso à UE, mas mostrou uma disposição de deixar a chance passar por intransigência sobre a questão de Kosovo.

Se Belgrado tivesse apresentado uma lista de exigências em troca de flexibilidade sobre Kosovo -compensação territorial, ajuda financeira ou cronograma para o acesso- teria conseguido a maior parte ou mesmo tudo o que pedisse.

Mas agora as relações entre a Sérvia e a UE chegaram ao fundo do poço. Não vão ficar assim por muito tempo. Os dois lados precisam do outro. Sem a Sérvia a bordo, a estabilidade nos Bálcãs em longo prazo é impossível. E sem a UE a Sérvia não tem futuro.


Segundo exemplo:


Mudança no Paquistão pode impedir ataques contra suspeitos de terrorismo




Eric Schmitt e David E. Sanger



Em Washington

As autoridades americanas chegaram a um discreto acordo com o líder paquistanês, no mês passado, para intensificar os ataques secretos contra suspeitos de terrorismo com aeronaves não tripuladas, lançadas de dentro do Paquistão, disseram altos funcionários de ambos os governos. Mas a perspectiva de mudanças no governo do Paquistão deixaram o governo Bush preocupado com uma possível restrição às operações.
Entre outras coisas, os novos acordos permitiam um aumento no número, área de patrulha e ataques por aeronaves de vigilância armadas Predator, lançadas de uma base secreta dentro do Paquistão -uma estratégia bem mais agressiva para atacar a Al Qaeda e o Taleban.
Mas desde que os partidos de oposição saíram vitoriosos nas eleições no início desta semana, as autoridades americanas temem que o novo acordo mais permissivo possa ser sufocado em sua infância.
Nas semanas que antecederam as eleições de segunda-feira, uma série de encontros com os conselheiros de segurança nacional do presidente Bush resultaram em um relaxamento significativo das regras, segundo as quais as forças americanas poderiam atacar combatentes suspeitos da Al Qaeda e do Taleban nas áreas dos Paquistão próximas da fronteira com o Afeganistão. A mudança, descrita por altos funcionários americanos e paquistaneses que não quiseram ser identificados porque o programa é confidencial, permite aos comandantes militares americanos maior liberdade para escolher entre o que uma autoridade que participou do debate chamou de "cardápio chinês" de opções de ataque.
Em vez de serem obrigados a confirmar a identidade de um líder militante antes de atacar, a mudança permite que os operadores americanos ataquem comboios que tenham as características de conterem líderes da Al Qaeda e do Taleban em fuga, por exemplo, desde que o risco de baixas civis seja considerado baixo.
As novas regras de combate mais flexíveis poderiam ter seu maior impacto na base secreta da CIA no Paquistão, cuja existência foi descrita por altos funcionários americanos e paquistaneses como mantida até agora em segredo para evitar embaraço para o presidente Pervez Musharraf. O presidente, cujo partido foi derrotado nas eleições desta semana por margens que surpreenderam as autoridades americanas, é acusado pelos adversários políticos de ligação estreita demais com os Estados Unidos.
A base no Paquistão abriga um punhado de Predators -aeronaves não tripuladas que são controladas dos Estados Unidos. Dois mísseis de um desses Predators teriam matado um alto comandante da Al Qaeda, Abu Laith al-Libi, no noroeste do Paquistão no mês passado, apesar de um alto funcionário paquistanês ter dito que seu governo ainda não confirmou a presença de Libi entre os mortos. Um porta-voz da CIA se recusou a comentar na quinta-feira qualquer operação no Paquistão.
Os novos acordos com o Paquistão ocorreram após uma viagem ao país, em 9 de janeiro, de Mike McConnell, o diretor de inteligência nacional, e do general Michael V. Hayden, o diretor da CIA. As autoridades americanas se encontraram com Musharraf e com o novo chefe do exército, o general Ashfaq Parvez Kayani, e ofereceram um aumento das operações secretas.
Mas funcionários do governo Bush e especialistas americanos em contraterrorismo estão expressando preocupação com a possibilidade desses acordos poderem ser revistos ou reduzidos pelos vencedores das eleições parlamentares do Paquistão. Os dois partidos vencedores disseram que desejam promover negociações com os líderes tribais pashtun, que se opõem ao governo de Musharraf e que às vezes apóiam o Taleban e dão abrigo aos combatentes estrangeiros da Al Qaeda."Um novo governo poderia chegar a um acordo com os extremistas, o que daria uma certa trégua para o governo", disse Robert L. Grenier, ex-diretor do Centro de Contraterrorismo da Agência Central de Inteligência (CIA).
"Mas isto daria aos extremistas espaço para fornecer santuário para a Al Qaeda e outros extremistas envolvidos em ataques no Afeganistão."
Xenia Dormandy, a diretora para Sul da Ásia do Conselho de Segurança Nacional até 2005, disse na quinta-feira que se as negociações resultassem no tipo de trégua -e recuo de tropas- negociada por Musharraf há quase dois anos, os extremistas provavelmente continuariam se fortalecendo.
"Se tentarem reproduzir o que já vimos, eu não sei por que o resultado seria diferente", ela disse. Mas ela acrescentou que se o exército paquistanês permanecer na área, o governo poderá manter alguma vantagem.
A pergunta sobre o que fazer a seguir no Paquistão provavelmente preocupará o último ano de mandato do governo Bush. Funcionários disseram que há uma pressão clara, mesmo que não declarada, para fazer um último esforço para capturar ou matar Osama Bin Laden antes que Bush deixe o cargo. Mas vários altos funcionários no Departamento de Estado vinham alertando que o apoio pleno do governo a Musharraf era uma estratégia errada que agora poderá fracassar.
Outros funcionários do governo alertaram contra as pessoas fazerem uma interpretação exagerada dos comentários iniciais de Asif Ali Zardari, o líder do Partido do Povo Paquistanês e viúvo da ex-primeira-ministra Benazir Bhutto, sobre fechar acordos com os líderes tribais. Zardari, eles notaram, deixou claro que deseja acabar com o terrorismo e apontou que os terroristas mataram sua esposa, de forma que deseja derrotá-los.
Os partidos de oposição e analistas disseram que as autoridades americanas estavam interpretando erroneamente o resultado das eleições, que foram dominadas pelos partidos seculares, liberais, do país. Uma aliança de partidos religiosos que controlava o governo provincial da Fronteira Noroeste foi retirada do poder e até mesmo perdeu a maioria das cadeiras nas áreas tribais.Segundo os partidos de oposição, um novo governo civil será mais eficaz no combate aos extremistas do que o dominado pelos militares sob Musharraf. Eles pediram por uma estratégia nas áreas tribais semelhante às novas estratégias de contra-insurreição empregadas pelos militares americanos no Afeganistão e no Iraque. Nesses lugares, os Estados Unidos tentaram usar uma combinação de força militar, reconstrução e diálogo político para voltar as tribos locais contra os radicais fundamentalistas.
A pergunta, disseram altos funcionários americanos e paquistaneses na quinta-feira, é como a estratégia para atingir estas metas comuns poderia mudar.
"A curto prazo, haverá alguma confusão e alguns tropeços", disse Henry A. Crumpton, uma ex-autoridade de contraterrorismo do Departamento de Estado. "Mas a médio e longo prazo, haverá a continuidade da cooperação, talvez até mesmo uma mais estreita, devido aos nossos interesses comuns."



David Rohde, em Peshawar, Paquistão, contribuiu com reportagem.


Tradução: George El Khouri Andolfato

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Devemos tornar-nos utópicos, afirma Slavoj Zizek



Slavoj Zizek sustenta que "há situações em que a democracia não funciona, em que ela perde sua substância, em que é preciso reinventar modalidades de mobilização popular".



Segue a entrevista dada a Éric Aeschimann e publicada no Libération, 16-2-08.



Que crítica você faz à democracia?

Talvez a mesma que os conservadores... Os conservadores têm a coragem de admitir que a democracia está num impasse. Riu-se muito de Francis Fukuyama quando anunciou o fim da história, mas hoje todo o mundo aceita a idéia de que o quadro democrático-liberal se impôs para sempre.

Nos contentamos em reclamar um capitalismo de rosto humano, como se falava outrora de um comunismo de rosto humano. Vejam a ficção-científica: visivelmente, é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo.

O capitalismo é o alvo, por atrás da crítica da democracia?

Sejamos claros: a Europa do pós-guerra conheceu um nível médio de felicidade nunca visto. Mas quatro problemas maiores vêm desequilibrar o modelo democrático-liberal.

1) Os indocumentados, os sem-teto, os sem emprego, aqueles que não participam da vida da comunidade, com os quais o Estado não se ocupa mais.

2) A propriedade intelectual, que o mercado não chega mais a regular, como o mostra o destino delirante de Bill Gates, fundador da Microsof.

3) O meio-ambiente, cuja regulação o mercado pode assegurar quando a poluição é mensurável, mas não quando o risco for incalculável – Tchernobyl, as tempestades...

4) A biogenética: estamos em condições de dizer onde começa o humano?

Nesses quatro campos, nem a democracia liberal, nem o capitalismo global têm boas respostas.

Que alternativa existe?

Eu não sou idiota, eu não sonho com um novo partido comunista. Minha posição é mais trágica. Como todo marxista, eu admiro a incrível produtividade do capitalismo e não subestimo a utilidade dos direitos humanos. A prisão de Pinochet exerceu um papel psicológico muito importante no Chile. Mas vejam o venezuelano Chávez. Dizem que ele é populista, demagógico, que não faz nada pela economia, que isso vai acabar mal. Talvez seja verdadeiro... Mas ele é o único a ter incluído os pobres das favelas num processo político. É por isso que eu o apóio. Quando criticam a sua tentação ditatorial, fazem como se, antes dele, tivesse existido uma democracia equilibrada. Ora, foi ele, e somente ele, o vetor da mobilização popular. Para defender isso eu penso que existe o direito de utilizar o aparelho do Estado – chamem isso de Terror, se quiserem.

Para os pensadores liberais, capitalismo e democracia permanecem inseparáveis.

Muitos disseram isso, mas na China está nascendo um capitalismo autoritário. Modelo americano ou modelo chinês: eu não quero viver nessa escolha. É por isso que devemos voltar a ser utópicos. O aquecimento global vai nos levar a reabilitar as grandes decisões coletivas, aquelas que os pensadores antitotalitários dizem que conduzem necessariamente ao gulag. Walter Lippmann mostrou que em situações normais, a condição da democracia é a que a população tenha confiança numa elite que decide. O povo é como um rei: ele subscreve passivamente, sem olhar. Ora, em tempo de crise, esta confiança se evapora. Minha tese é a seguinte: há situações em que a democracia não funciona, em que ela perde sua substância, em que é preciso reinventar modalidades de mobilização popular.

Por isso seu elogio a Robespierre.

O Terror não se resume a Robespierre. Havia então uma agitação popular, encarnada pelas figuras ainda mais radicais, como Baboeuf e Hébert. É preciso lembrar que foram decepadas mais cabeças depois da morte de Robespierre do que antes. De fato, continuou muito legalista. A prova disso é que ele foi preso. O que me interessa nele é aquilo que Walter Benjamin chama de “violência divina”, aquela que acompanha as explosões populares. Eu não gosto da violência física, eu tenho medo dela, mas eu não estou próximo de renunciar a esta tradição da violência popular. Isso nem sempre quer dizer violência sobre as pessoas. Gandhi, por exemplo, não se contentou em organizar as manifestações, mas ele fez boicotes, estabeleceu uma relação de força. Defender os excluídos, proteger o meio ambiente passará por novas formas de pressão, de violência. Amedrontar o capitalismo, não para matar, mas para mudar as coisas. Caso contrário, corremos o risco de cair numa violência maior, numa violência fundamentalista, num novo autoritarismo.

Na perspectiva de uma “violência popular”, um intelectual serve para qualquer coisa?

Para prevenir as formas catastróficas. Para fazer ver as coisas de outra maneira. Deleuze dizia que se há falsas respostas, há também falsas perguntas. Um conselho de filósofo não pode estabelecer um projeto para mobilizar as massas. Mas podemos lançar as idéias e talvez alguma coisa será recuperada. Os motins dos subúrbios da França nasceram de um descontentamento não-articulado a um pensamento, mesmo de maneira utópica. Essa é a tragédia.

Seus amigos de esquerda pensam como você?

O que predomina, sobretudo nos Estados Unidos, é um esquerdismo liberal, tolerante, para quem a menor alusão à noção de verdade já é totalitária, em que é preciso respeitar a história de cada um. Para o filósofo Richard Rorty, o que define o homem é seu sofrimento e sua capacidade de narrá-lo. Para mim, esta esquerda de ressentimento e de impotência é muito triste.





quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

FIDEL

Mais uma vez peço desculpas ao grupo desse blog, mas a comunista impedernida que em mim habita não pode conter o ímpeto de publicar algo sobre o barbudo vivo mais famoso do planeta.
Vou ficar pelo menos 1 semana com a mensagem de "Viva Fidel!" no meu msn, com uma fotinho do "ditador".
A seguir o artigo de Clovis Rossi, como sempre mandando muito bem, sobre Fidel, publicado na Folha de hoje. O melhor texto até agora.


Só a história para fazer um julgamento mais racional sobre dirigente cubano
Ditador comunista, que associou o extraordinário e inegável carisma a uma inquietação permanente, é santo ou demônio, sem meios termos, de acordo com posição ideológica de quem o julga
CLÓVIS ROSSI DO CONSELHO EDITORIAL
Começou ontem, com a renúncia de Fidel Alejandro Castro Ruz, aos 81 anos, a contagem regressiva para se saber se vingará uma de suas frases mais célebres: "A história me absolverá".
Só mesmo a história para emitir um julgamento menos emocional de quem era o governante há mais tempo no poder no planeta: 49 anos. Fidel é santo ou demônio, sem meios termos, de acordo a posição ideológica de quem o julga.A frase completa é algo mais longa: "Podem condenar-me, não importa, a história me absolverá". Foi pronunciada por Fidel como advogado dele próprio, durante o julgamento, em 1953, dos militantes que tentaram ocupar o quartel Moncada, um dos principais do Exército do ditador Fulgencio Batista.A primeira parte da frase cumpriu-se: Fidel foi condenado a 15 anos de prisão. Anistiado em 1955, tratou de apressar a absolvição pela história, que a seu ver seria representada pela derrubada de Batista. Cumpriu-se igualmente a segunda parte. Mas começou então um novo julgamento, sobre os méritos e os defeitos da revolução e, por extensão, do homem que a encarnava.
Comunista desde quando? É comunista desde sempre e escondeu o fato para não alienar aliados do movimento anti-Batista ou é apenas um libertário? O seu primeiro documento político sugere a segunda opção. O manifesto com que ele e seus 165 homens mal equipados se lançaram ao ataque ao Moncada é pouco radical. Pedia até a volta à Constituição de 1940, liberal como quase todas as Cartas latino-americanas. O suficiente para justificar a análise que fez o historiador britânico Hugh Thomas, em seu livro "A Revolução Cubana": "Castro embarcou no ataque ao Moncada sem uma ideologia verdadeiramente elaborada, somente com o anseio de depor o tirano Batista e de acabar com a corrompida sociedade da velha Cuba". Até depois da vitória, na sua primeira visita aos EUA (maio de 1959), o tom era similar: "Digo de maneira clara e definitiva que não somos comunistas". Comunista tardio, só assumiria o comunismo no fim de 1961. A decisão foi tomada praticamente três anos depois de vitoriosa a revolução e de uma sucessão de atos hostis por parte do governo norte-americano, como o bloqueio comercial e a frustrada tentativa de invasão de Cuba por contra-revolucionários financiados e treinados pelos EUA. Paradoxo da história: um comunista tardio tornou-se, com o fim da URSS e do charme do marxismo, no "último dinossauro marxista", na definição do "Le Figaro", de 1995. De todo modo, não se fez comunista pelo método mais usual, que era o de aderir ao Partido Comunista. Na verdade, o partido aceitou a direção de um homem sobre o qual o único consenso, entre admiradores e inimigos, é o de que possui extraordinário carisma, no sentido que o filósofo Max Weber dá ao termo.
"Carisma implica muito mais do que popularidade. O líder carismático é percebido por seus seguidores como dotado de poderes ou qualidades sobre-humanas ou, pelo menos, excepcionais. E ele se percebe a si próprio como "eleito" do alto para cumprir uma missão. Ambos os requisitos se cumpriram em Cuba", escreveu o acadêmico americano Richard Fagen.
Fidel associou o carisma a uma inquietação permanente, que o levou, aos 20 anos (1947), a participar de uma frustrada tentativa de invadir a República Dominicana para depor o ditador Rafael Trujillo. Antes disso, tivera a sua primeira e fracassada experiência de interlocução com os EUA. Aos 14 anos, em 1940, enviou carta a Franklin Delano Roosevelt, na qual dizia ter 12 anos, cumprimentava-o pela reeleição e pedia uma nota de US$ 10, "porque nunca vi uma nota verde de dez dólares americanos e gostaria de ter uma".

Nunca recebeu o dinheiro e foi vítima de 33 tentativas de assassinato, parte delas pela CIA, a agência de inteligência norte-americana. Retórica, ele marcaria a história de Cuba não só com ações mas com uma retórica caudalosa, triunfalista. Ao ir para o exílio no México, em 1955, profetizou: "De tais viagens, ou não se tem retorno, ou se retorna com a ditadura decapitada aos pés". Quase tudo deu errado para os 82 homens que, em 25 de novembro de 1956, embarcaram no iate Granma para decapitar a ditadura. Uma sucessão de tempestades atrasou a chegada e o grupo que deveria apoiar o desembarque foi dizimado pelos soldados de Batista. Não obstante, quando o grupo desembarcou, em 2 de dezembro, voltou a profetizar: "Os dias da ditadura estão contados". Estavam. Às 3h de 1º de janeiro de 1959, Batista e colaboradores fugiram para a República Dominicana. Uma semana depois, Fidel entrou em Havana e voltou a profetizar: "Não nos enganemos, acreditando que, daqui para a frente, será mais fácil. Talvez seja mais difícil". Acertou outra vez. Difícil, entre outras razões, porque os revolucionários iniciaram processo de autofagia. Os primeiros a divergir foram os moderados do Movimento 26 de Julho. Em outubro, o líder guerrilheiro Hubert Matos escreveu a Fidel, pedindo demissão do comando militar da Província de Camaguey e do governo revolucionário. A carta custou a Matos 20 anos de prisão, "sistemáticas perseguições, maus-tratos e torturas", como ele contaria depois. Ele passou a ser, em todos esses 20 anos, um dos símbolos, talvez o maior, de violação aos direitos humanos praticados por uma revolução que Castro jurara, no início, ser "a mais justa e a mais generosa".

Nem Ernesto Guevara, o Che, ficou imune às disputas de poder ou ideológicas no novo regime. Che acreditava cegamente que sua missão era levar a revolução socialista a toda a América Latina. Fidel dependia fortemente da URSS, cuja doutrina oficial era a da "coexistência pacífica" com o Ocidente.Em 1964, "já não restavam dúvidas de que tinham começado a seguir rumos divergentes. A meta de Fidel era consolidar o bem-estar econômico de Cuba e a sua própria sobrevivência política, e, para isso, ele se dispunha a conciliar. A missão de Che era difundir a revolução socialista. Aproximava-se a hora em que deveria deixar Cuba", escreve Jon Lee Anderson, em biografia de Guevara.Três anos depois, Guevara morria na Bolívia e, paradoxalmente, Fidel assumia o papel de propagador da revolução no resto do mundo, ao criar a Olas (Organização Latino-Americana de Solidariedade).

O confronto de posições com a URSS era uma relíquia de sua nunca escondida irritação com o comportamento do líder soviético Nikita Kruschev na crise dos mísseis em 1962, tido como o momento em que as duas superpotências ficaram mais próximas de um confronto.Para ele, "a forma como [Kruschev] se comportou na crise foi uma séria afronta". Afrontar a "convivência pacífica" da URSS com o internacionalismo revolucionário da Olas parecia uma resposta à "afronta" anterior, mas durou pouco. O bloqueio dos EUA aumentou a dependência dos recursos enviados pela União Soviética. Natural que Cuba entrasse em colapso quando a URSS começou a ruir, a partir de 1989. Entre 1989 e 1992, a economia cubana retrocedeu 35%,e o racionamento (em vigor desde o bloqueio americano) tornou-se mais rígido. Mas Fidel nunca perdeu a pose e sempre teve tratamento de superstar nos encontros internacionais.Ele teve momentos de estrela até no território inimigo: em 1995, teve tratamento de herói em visita ao bairro do Harlem, em Nova York. Ainda se permitiu uma ironia: "Se algum dia os EUA precisarem de médicos, garanto que temos os melhores. Teria o maior prazer em mandá-los para tratar da população que não pode pagar os hospitais caros daqui".Uma ironia que corresponde a uma realização, o êxito no setor de saúde, que nem mesmo os mais ferozes críticos negam. O triunfalismo e a retórica quase sempre inflamada não impediram que, por vezes, Castro preferisse aos clássicos marxistas ou revolucionários o dramaturgo espanhol Calderón de la Barca para recitar, na Cúpula sobre o Desenvolvimento Social de 1995: "A vida é sonho e, os sonhos, sonhos são".

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

O capitalismo deve ser combatido por meio de reivindicações impossíveis ou se deve almejar a conquista do poder do Estado?

Slavoj Zizek




Por: Slavoj Zizek




Uma das lições mais claras das últimas décadas é que o capitalismo é indestrutível. Marx comparava o capitalismo a um vampiro, e hoje um dos pontos que mais se salientam nessa comparação é que os vampiros sempre conseguem se reerguer, mesmo depois de feridos de morte. Até a tentativa de Mao, na Revolução Cultural, de apagar todos os vestígios do capitalismo acabou desembocando no seu retorno triunfal.

A esquerda de hoje reage de maneira bastante variada à hegemonia do capitalismo global e ao seu complemento político, a democracia liberal. Pode, por exemplo, aceitar essa hegemonia, mas continuar a lutar por reformas dentro das suas regras (a social-democracia da Terceira Via).

Ou pode aceitar que essa hegemonia não deixará de existir, mas ainda assim preconizar uma resistência a ela a partir dos seus “interstícios”.

Ou aceitar a futilidade de toda luta, já que a hegemonia é tão abrangente que não há nada que se possa fazer, exceto esperar pela irrupção da “violência divina” — uma versão revolucionária do “só Deus pode nos salvar”, de Heidegger.

Ou reconhecer a futilidade temporária da luta. Após o triunfo do capitalismo global, como a verdadeira resistência é impossível, diz o argumento, a única coisa que podemos fazer, enquanto o espírito revolucionário da classe operária global não se renova, é defender o que ainda resta do Welfare State, confrontando os ocupantes do poder com reivindicações que eles não têm como atender. E, fora isso, nos refugiarmos nos estudos culturais, nos quais é possível prosseguir silenciosamente o trabalho de crítica.

Ou enfatizar que o problema é mais profundo, e que o capitalismo global é, em última instância, um efeito dos princípios subjacentes da tecnologia, ou da “razão instrumental”.

Ou postular que é possível minar o capitalismo global e o poder do Estado não por meio de um ataque direto, mas transferindo o foco da luta para as práticas cotidianas, com as quais se pode “construir um mundo novo”. Desse modo, as fundações do poder do capital e do Estado ficarão cada vez mais abaladas e, em algum momento, o Estado acabará desabando (o exemplo dessa visão é o movimento zapatista, no México).

Ou enveredar pelo caminho “pós- moderno”, transferindo a ênfase da luta anticapitalista para as múltiplas formas de disputa político-ideológica pela hegemonia, enfatizando a importância da rearticulação do discurso.

Ou apostar que é possível repetir, no nível pós-moderno, o gesto marxista clássico de incorporar a “negação” do capitalismo: com a ascensão contemporânea do “trabalho cognitivo”, a contradição entre a produção social e as relações capitalistas tornou-se mais aguda do que nunca, sendo possível pela primeira vez a “democracia absoluta” (essa seria a posição de Michael Hardt e Antonio Negri).

Essas posições não são apresentadas para evitar uma “autêntica” política radical de esquerda — o que elas tentam contornar, na verdade, é a falta dessa posição. A derrota da esquerda, porém não esgota a história dos últimos trinta anos. Existe outra lição, não menos surpreendente: é a de que precisamos aprender com o crescimento da social-democracia de Terceira Via na Europa Ocidental e com a liderança dos comunistas chineses, cujo desenvolvimento, segundo se diz, é o mais explosivo de toda a história do capitalismo.

Eis a lição em poucas palavras: podemos fazer isto melhor. No Reino Unido, a revolução thatcheriana foi, no seu tempo, caótica e impulsiva, marcada por contingências imprevisíveis. Foi Tony Biair quem conseguiu institucionalizá-la ou, nas palavras de Hegel, transformar (o que num primeiro momento parecia) uma contingência, um acidente histórico, numa necessidade. Thatcher não era thatcherista, era simplesmente ela mesma. Foi Blair (mais que o primeiro-ministro John Major) quem realmente deu forma ao thatcherismo.

A resposta de alguns críticos da esquerda pós-moderna a essa situação difícil é propor uma nova política de resistência. Os que ainda insistem em combater o poder do Estado, para não falar dos que ainda cogitam em tomá-lo, são acusados de um apego indevido ao “velho paradigma”: a tarefa, hoje, é resistir ao poder do Estado retirando-se do seu terreno e criando novos espaços fora do seu controle, o que é, evidentemente, o contrário de aceitar o triunfo do capitalismo. A política de resistência não passa do complemento moralizante de uma esquerda da Terceira Via.

O recente livro de Simon Critchley, Infinitely Demanding: Ethics of Commitment, Politics of Resistance [“Demandas Infinitas: Ética do Compromisso, Políticas de Resistência”, London: Verso, 2007. i68 p.j, representa essa posição de maneira quase perfeita. Para Critchley, o Estado liberal-democrático chegou para ficar. Como as tentativas de abolir o Estado fracassaram miseravelmente, a nova política deve se concentrar a uma certa distância dele: nos movimentos contra a guerra, nas organizações ecológicas, nos grupos que protestam contra abusos racistas ou sexuais, e em outras formas de organização espontânea local. Ela deve ser uma política de resistência ao Estado, de denúncia das suas limitações, de seu bombardeio com demandas impossíveis. O principal argumento em favor dessa política se baseia na dimensão ética das “reivindicações infinitas” por justiça: nenhum Estado tem como satisfazer essa expectativa uma vez que a sua finalidade última é assegurar a própria reprodução (o seu crescimento econômico, a sua segurança pública etc.).

“Obviamente”, diz Critchley, a história é geralmente escrita pelas pessoas que detêm as armas e os cassetetes, e não se pode esperar derrotá-las a golpes de espanador e sátira bem-humorada. Ainda assim, como demonstra de maneira eloqüente a história do niilismo ativo de ultra-esquerda, estamos perdidos no momento em que pegamos em armas e cassetetes. A resistência política anárquica não deve copiar e espelhar a violência do poder ao qual se opõe.

Nesse caso, o que deveriam fazer, por exemplo, os democratas americanos? Parar de disputar o poder estatal e refugiar-se nos interstícios do Estado, deixando o poder para os republicanos e iniciando uma campanha de resistência anárquica? E o que faria Critchley se tivesse pela frente um adversário como Hitler? Em casos assim, o militante pode “copiar e espelhar a violência do poder” ao qual se opõe? Será que a esquerda não deveria fazer uma distinção entre as circunstâncias em que é possível recorrer à violência no confronto com o Estado e aquelas em que só cabe desferir “golpes de espanador e sátira bem-humorada”?

A ambigüidade da posição de Crítchley reside num estranho non sequitur: se o Estado não deixará de existir, se é impossível acabar com ele (ou com o capitalismo), por que afastar-se dele? Por que não atuar em conjunto com o Estado ou de dentro dele? Por que não aceitar a premissa básica da Terceira Via? Por que limitar-se a uma política que, como afirma Critchley, “questiona o Estado e acusa a ordem estabelecida, não com a finalidade de livrar-se do Estado, por mais que isso possa ser desejável em algum sentido utópico, mas de melhorá-lo ou atenuar os seus efeitos malévolos”?

Essas palavras demonstram, simplesmente, que tanto o Estado liberal-democrático de hoje quanto o sonho de uma política anárquica de “reivindicações infinitas” existem numa relação de mútuo parasitismo: os militantes anárquicos produzem o pensamento ético, enquanto o Estado cumpre o papel de gerir e regular a sociedade. O militante anárquico ético-político de Critchley atua como um superego, bombardeando o Estado de demandas a partir de uma posição confortável. E quanto mais o Estado tenta satisfazer essas demandas, mais culpada é a aparência que ele assume. Nos termos dessa lógica, os agentes anárquicos concentram o seu protesto não contra as ditaduras declaradas, e sim contra a hipocrisia das democracias liberais, acusadas de traição aos princípios que professam.

As grandes manifestações em Washington e Londres contra o ataque americano ao Iraque são um exemplo claro dessa estranha relação simbiótica entre o poder e a resistência. E o resultado paradoxal foi que os dois lados saíram satisfeitos. Os manifestantes salvaram as suas belas almas: deixaram claro que não concordavam com a política governamental em relação ao Iraque. Os ocupantes do poder aceitaram o protesto com toda a calma, e até lucraram com ele: não só as manifestações não prejudicaram em nada a decisão de atacar o Iraque, como ainda serviram para legitimá-la, o que explica, aliás, a reação de George W. Bush diante das manifestações de massa contra a sua visita a Londres: “Estão vendo, é por isso que estamos lutando, para que isso — protestar contra as decisões do governo — seja possível também no Iraque!”

É digno de nota que o caminho pelo qual enveredou Hugo Chávez, a partir de 2006, seja exatamente oposto ao da esquerda pós-moderna. Longe de resistir ao poder do Estado, ele o tomou (primeiro com uma tentativa de golpe e depois democraticamente), usando sem hesitar os aparatos do Estado venezuelano para perseguir os seus objetivos. Além disso, está militarizando os barrios e neles promovendo o treinamento de unidades armadas. E o que mete medo acima de tudo: agora que começa a sentir os efeitos econômicos da “resistência” do capital ao seu governo (a escassez temporária de produtos nos supermercados, subsidiados pelo Estado), anunciou planos para consolidar os 24 partidos que o apóiam numa única agremiação.

Mesmo alguns dos seus aliados se mostram céticos diante da idéia: será que isso não irá acontecer em prejuízo dos movimentos populares que deram ânimo à revolução venezuelana? Essa escolha, embora arriscada, deve ser plenamente apoiada: a dificuldade é fazer o novo partido funcionar não como um típico partido socialista (ou peronista) de Estado, mas como um veículo para a mobilização de novas formas de política (como os comitês de base organizados nas favelas). O que devemos dizer a alguém como Chávez? “Não, não tome o poder do Estado, recue, deixe de lado o Estado e a situação que encontrou?” Chávez é muitas vezes visto como um palhaço — mas será que um recuo como esse não iria reduzi-lo a mais uma versão do subcomandante Marcos, a quem muitos mexicanos de esquerda hoje se referem como o “subcomediante Marcos”? Hoje, são os grandes capitalistas — Bill Gates, as empresas poluidoras, os “caçadores de raposas” — que “resistem” ao Estado.

A lição é que a decisão realmente subversiva não está em insistir em reivindicações “infinitas”, que não podem ser atendidas pelos ocupantes do poder. Como eles sabem que sabemos disso, essa atitude de promover “demandas infinitas” não representa o menor problema para os poderosos: “É ótimo que, com as suas demandas críticas, vocês nos lembrem em que tipo de mundo todos gostaríamos de viver. Infelizmente, vivemos no mundo real, onde temos de nos contentar com o que é possível”.

O que devemos fazer é, pelo contrário, bombardear os ocupantes do poder com demandas estrategicamente bem escolhidas, precisas e finitas, que não possam ter como resposta essa mesma desculpa.







segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Medo e mal são irmãos siameses na modernidade.

Zygmunt Bauman

(Entrevista com Zygmunt Bauman)


O octogenário sociólogo polonês Zygmunt Bauman vive perguntando aos jornalistas se leram o Livro de Jó. Compreensível. Fica bem melhor ler seu mais recente livro, Medo Líquido, se o candidato conhecer o sofrimento do personagem bíblico: Jó era bom e, no entanto, foi punido severamente por Deus. Por quê? Foi também a pergunta daqueles que sobreviveram ao terremoto de Lisboa, em 1755. De repente, a razão iluminista recusou-se a admitir o “ato de Deus” e tudo mudou. Veio a modernidade e com ela o processo de secularização. Depois, o 11 de setembro e, de novo, o medo e a pergunta que não quer calar. O mal, diz Bauman em entrevista ao jornalista Antonio Gonçalves Filho e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 17-02-2008,, é que só conseguimos dirigir um olhar retrospectivo para as catástrofes. Para enfrentar o “medo líquido” que assola o mundo globalizado, o sociólogo sugere uma mudança radical em nosso comportamento.


O medo e o mal são irmãos siameses, segundo seu livro. Parece que o senhor concorda com Primo Levi quando ele diz que todos nós podemos ser a encarnação do mal. Não se pode esquecer que Bush justificou a invasão do Iraque como uma “guerra contra o mal” e que o ódio do Islã contra o Ocidente é também uma “guerra santa” contra o que os fundamentalistas consideram o mal absoluto. Em que medida essas visões são diferentes?


Fundamentalistas, sejam nascidos no Ocidente ou no Oriente, são divisionistas por definição. Todo fundamentalista concorda com seu inimigo em um ponto: “É o que acredito - e apenas o que eu acredito - o absolutamente certo; todas as outras crenças estão absolutamente erradas.” Os fundamentalistas pertencem à categoria dos que pensam em soluções locais para problemas globais. Ora, problemas globais só podem ser resolvidos de forma global. As soluções exigem tempo, muito tempo, embora nem tanto como em séculos passados. Não conseguimos nem mesmo assumir a tarefa de construir uma rede de instituições globais. Temos um longo caminho montanha acima. Vamos torcer para chegarmos ao topo, porque a outra opção é aterrorizadora.


Eis a entrevista.



O escritor espanhol Juan Goytisolo e o Livro de Jó são mencionados em seu livro. Eles expressam melhor que outros autores e livros o dilema da sociedade pós-moderna, ou “líquida”, como o senhor prefere?

A conclusão a que cheguei, ao tentar entender a ansiedade dos contemporâneos, é a seguinte: o que faz nossos medos particularmente dolorosos, insuportáveis, é a falta de clareza sobre as suas causas. Em outras palavras, o que nos faz sofrer mais do que qualquer outra coisa, envenenando nossos prazeres cotidianos e provocando pesadelos, é a própria incerteza, tanto sobre a condição humana como sobre nossa ignorância. É uma verdade antiga, contida no Livro de Jó e esquecida: ainda que houvesse razões sensíveis para as catástrofes que se abatem sobre nós, seríamos incapazes de compreendê-las, a despeito de nossa sabedoria e lógica. Goytisolo nota que o nosso conhecimento do mal se dá apenas quando olhamos para trás, retrospectivamente. É uma observação aguda a sua, referendada pela quase imperceptível erosão de nossos direitos e liberdades individuais nos tempos que correm. O processo todo só pode ser entendido em retrospecto, quando é tarde demais para restaurar aquilo que está perdido. Nos países que se consideram democráticos as pessoas já se renderam sem resistência: admite-se que “suspeitos” sejam seguidos pela polícia ou mantidos presos sem julgamento, ou ainda que sejam deportados sem provas legais - apenas como “medida de segurança”. A maioria das pessoas aceita essas arbitrariedades, seguras de que atingem apenas uma minoria. Mas o fato é que, desrespeitados os direitos humanos, não há como impedir a avalanche que vem por aí.

O senhor diz que os orientadores de futuros homens-bomba são intelectuais que se aproveitam da ignorância do próximo, mas encerra o livro com esperança numa possível aliança entre intelectuais e pessoas do povo. Esse otimismo é justificável?

Intelectuais são, por definição, seres engajados em criar e difundir cultura. No século 18, o termo cultura era entendido como um esforço para promover, facilitar e acelerar o progresso, social e espiritual. A cultura, assim, entrou para o vocabulário moderno como uma declaração de intenções - de educar, iluminar, melhorar e enobrecer as pessoas do povo, recém-elevadas à categoria de cidadãos do Estado-nação: era, enfim, o casamento da nação emergente, auto-elevada à condição de Estado soberano, com o Estado emergente, que clamava pelo papel de guardião da nação. O projeto do Iluminismo alocou à cultura (entendida como trabalho de cultivo) o status de principal ferramenta na criação do Estado-nação; simultaneamente, elegeu a classe instruída como agente dessa operação. Nesse trânsito entre ambição política e ruminações filosóficas, os dois objetivos do projeto iluminista (explicitamente proclamados ou tacitamente presumidos) cristalizaram-se como disciplina dos súditos do Estado e a solidariedade dos cidadãos. O Estado-nação emergente sentiu-se, então, encorajado pelo crescimento rápido de potenciais trabalhadores-soldados, vistos como propulsores do crescimento de seu poder diferencial. Contudo, os esforços para a construção do Estado-nação, conjugados com o progresso econômico, resultaram no crescimento de “redundantes” (parte da população que precisava ser urgentemente descartada até segunda ordem). O novo Estado-nação foi logo pressionado a buscar espaços fora de suas fronteiras para acomodar esse excesso de pessoas e produtos, incapazes de serem “absorvidos”. A sociedade de hoje é o resultado disso, uma sociedade de consumidores e, como todo o resto, a cultura virou um produto como outro qualquer. A transformação gradual da idéia de cultura, do conceito original iluminista à sua reencarnação líquida, é operada pelas mesmas forças que promovem a emancipação dos mercados das limitações remanescentes de natureza não-econômica - restrições sociais, políticas e éticas, entre outras. Enfim, a cultura ‘líquida’ moderna não tem pessoas para cultivar, mas clientes para seduzir.