sábado, 22 de dezembro de 2007

A MULTIDÃO E O FUTURO DA DEMOCRACIA NA CIBERCULTURA







Henrique Antoun

Professor da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ)


“Sem olhos, sem nariz, sem boca, a aranha responde
unicamente aos signos e é atingida pelo menor signo que
atravessa seu corpo como uma onda e a faz pular sobre a presa.”

Gilles Deleuze, Proust e os Signos.

Deleuze


A rede da vida e da sociedade está confundindo-se com a rede da guerra nas comunidades virtuais do ciberespaço. Através desta mistura está sendo jogada uma partida que envolve o sentido tanto da democracia e da política na cibercultura, quanto o da luta de classes no mundo globalizado. Os três principais acontecimentos de 2001 – a marcha do movimento Zapatista de Chiapas para a capital do México, transmitida e acompanhada ao vivo através do ciberespaço; a manifestação de protesto da sociedade civil global em Gênova, na Itália, por ocasião da reunião do G8 e o espetacular atentado terrorista perpetrado pelo grupo Al Qaeda, liderado por Osama Bin Laden, contra as instituições econômicas, políticas e militares do povo norte-americano, resultando na destruição das torres gêmeas da OMC em Nova Iorque e em dezenas de milhares de mortos e feridos – tem sua origem na forma de organização em rede que há muito sustenta tais comunidades. Eles nos fazem perguntar se as redes são características de qualquer organização ou se elas são uma forma própria de organização que – insufladas pelas tecnologias informacionais (TI) e pela comunicação mediada por computador (CMC) – estaria conquistando sua emancipação social. Se, para além disso, considerarmos que vivemos em um Império, como nos propõem Negri e Hardt, a importância da questão torna -se ainda maior. Por um lado porque a rede se confunde com a realidade atual do Império em suas duas cabeças, seus organismos (FMI, BM, G8 OMC e etc..., para a máquina de comando biopolítico, e ONGs e movimentos assistêmicos para a multidão plural de subjetividades de globalização produtivas e criadoras) só existem nesse modo e dele se alimentam. Por outro lado porque a multidão encontra na rede um meio privilegiado de exprimir sua potência de ação, fazendo seus movimentos de luta através da construção de redes desde que a vitória das revoluções políticas burguesas determinou a democracia representativa a principal forma de expressão política e o cidadão/consumidor sua unidade básica de expressão. [1]



À sombra da Jihad e do McMundo

Desde que em 1993 Howard Rheingold cunhou o conceito de comunidades virtuais, para caracterizar as comunidades em rede construídas através do ciberespaço,[2] um grande debate se desenvolveu girando em torno do tipo de realidade que elas teriam na sociedade contemporânea e do tipo de contribuição que elas trariam para o desenvolvimento da democracia. Em seu livro as tecnologias da informação (TI), que constituíram a Internet e os sistemas hipermídia através da comunicação mediada por computador (CMC), teriam uma dupla origem fundada nas necessidades estratégicas da máquina militar e nos investimentos de desejo da política democrática. Elas foram desenvolvidas, em seu projeto, para permitir tanto a condução e a articulação de forças aliadas num ambiente caógeno de confronto termonuclear, exprimindo os interesses do Departamento de Defesa norte-americano; quanto a colaboração no desenvolvimento acentrado de projetos de grande porte por parceiros dispersos geograficamente, exprimindo os interesses da comunidade científica. Através deste investimento teria sido realizada a maior transferência de renda e poder para um público generalizado que a história humana já conheceu, pois ele além de fundir numa só e mesma rede a telefonia, a computação e as tecnologias da informação – que figuram entre os maiores investimentos do século XX –, pôs esse poderoso e custoso dispositivo de comunicação mediada por computador (CMC) na ponta dos dedos de qualquer criança. A Internet seria um meio de todos os meios de comunicação, constituindo-se como um hipermeio cujas mensagens são novos modos de vida e as comunidades virtuais que emergiram neste hipermeio fariam dele uma mídia para viver.[3] O trabalho de Rheingold surgia neste momento como uma possível resposta ao caustico ensaio de Benjamin Barber, que responsabilizava a globalização e as tecnologias de informação de tornarem a liberdade impossível no mundo, ameaçando sua própria existência. Surgido um ano antes na revista Atlantic Monthly, em seu ensaio Barber dividia o mundo contemporâneo em duas tendências, a do tribalismo por ele apelidada de Jihad (que significa luta em árabe) e a do globalismo por ele apelidada de McMundo (McWorld), ambas ameaçando a democracia e a cultur a do ocidente ora com as forças de desagregação do provincianismo regional, ora com as forças da homogeneização global promovidas pelas tecnologias da informação (TI), de modo proativo no caso do mcmundo e de modo reativo no caso da jihad. Confrontada com estas tendências a sociedade contemporânea correria um sério risco de totalitarismo indiferenciado ou de "libanização" – termo derivado do país árabe Líbano que era uma pacífica e próspera democracia que foi destruída por uma guerra intestina promovida por inconciliáveis forças regionais de diversas origens, umas internacionais e outras nacionais.[4] Embora a posição de Rheingold – que vai considerar as comunidades virtuais capazes de recriar o tradicional sentido de participação e envolvimento das antigas comunidades, constituindo uma revitalização da esfera pública social e da política democrática através do recém nascido ciberespaço[5] – ganhasse diversos adeptos entusiásticos, dois vigorosos senões vieram lançar sobre ela a suspeita de profissão de fé.

Comunidades de araque

Por um lado Fernback e Thompson, em 1995, negaram que a comunicação mediada por computador (CMC) fosse capaz de criar "verdadeiras comunidades", sobretudo no sentido nostálgico evocado pelos defensores da CMC. Para eles as comunidades geradas pela CMC seriam comunidades de interesse desenvolvendo-se no não lugar do ciberespaço como um fenômeno transcultural e transnacional, o que seria antitético com a noção de coletividade gerada numa esfera pública onde uma ação comum é desenvolvida. Além do mais, a cidadania do ciberespaço seria incapaz de resolver os problemas da representação democrática e da renovação da vida ativa de uma verdadeira cidadania, construída na esfera pública real das nações, pois a CMC, como as demais tecnologias da informação (TI), promovem a fragmentação cultural e política nas sociedades – a disjunção com a vizinhança geográfica que pode gerar comunidades de araque, o custo e o conhecimento sobre o uso de computadores que sempre irá gerar a exclusão da maior parte da sociedade, os encontros nas comunidades virtuais que estão reduzindo os encontros face a face –, podendo, quando muito, ter um papel catártico, gerando para um público o sentimento de envolvimento e participação, que não evoluiria na direção da construção da participação atual em ações comuns, na vida de nossos vizinhos ou na vida cívica, que as comunidades verdadeiras exigem.[6]
Por outro lado Robert Putnam vai publicar em 1996 o resultado parcial de uma pesquisa sobre o desaparecimento do capital social e engajamento cívico na vida americana. Considerando capital social os aspectos da vida social – redes, normas e confiança – que capacitam os participantes a agir junto perseguindo objetivos partilhados; e engajamento cívico as conexões do povo com todas as dimensões da vida de suas comunidades; Putnam vai assinalar desde 1965 um decrescimento do tempo gasto pela população com o capital social e engajamento cívico paralelo ao crescimento do tempo gasto com a televisão, que teria se tornado a principal atividade de lazer devorando um tempo cada vez maior na vida da população americana. Com isto ele reforçava, através da pesquisa empírica realizada em diversas fontes independentes, a principal acusação dirigida contra as tecnologias da informação: elas promovem o isolamento individual e o desengajamento político corroendo a vida ativa das sociedades democráticas. Do
esvaziamento dos boliches e dos clubes ao crescimento da abstenção nas eleições, tudo isto viria das gerações que cresceram e se educaram sob a influência da revolução eletrônica nas tecnologias de comunicação que produziriam um efeito profundamente descentralizador e fragmentador na cultura e na sociedade.[7]
O esfriamento, propalado por Mcluhan como conseqüência dos meios eletrônicos de comunicação, ganhava uma inusitada e curiosa explicação nos resultados desta pesquisa, fazendo com que a diferença jihad/mcmundo nos ameaçasse agora, não apenas com a devastação mas, também, com a inanição.

O ciberespaço entre parênteses

Mais recentemente, em 2000, Fred Evans, de modo temporão, vai defender uma posição de conciliação, capaz de manter acesa a chama do otimismo de um pensamento como o de Rheingold embora aceite parte do criticismo de Fernback e Thompson e de Putnam. Por um lado a realidade das comunidades virtuais estaria confinada aos limites topológicos da Internet sem poder fugir de suas estreitas fronteiras. Por outro lado é exatamente este confinamento a que está submetida a Internet, e por extensão o ciberespaço construído em seu interior, que lhe permite revelar um dos mais importantes aspectos subjacente à democracia e à sociedade. Por ter uma realidade virtual ao invés de atual a Internet pode funcionar na casualidade feliz, a forma da epoché fenomenológica, permitindo-nos pôr entre parênteses o mundo que se confunde com nossas crenças correntes. Deste modo poderíamos entender a democracia, não como um processo de tomada de decisão e, sim, como "forma de vida", ou seja, como sendo baseada no aumento de certas características da existência individual e social. No espaço dialógico da realidade virtual da Internet a sociedade se revelaria "um corpo multi-vozes metamorfoseando-se", implicando para a democracia, real ou virtual, a necessidade de sustentar a interação ou a solidariedade das "vozes" do seu corpo e, ao mesmo tempo, de respeitar sua heterogeneidade. O ideal político da democracia seria a interação das vozes igualmente audíveis.[8]
A Internet como epoché ajudou-nos a ver que as comunidades humanas são trocas dialógicas entre vozes; que estas vozes ressoam umas nas outras – que cada uma é simultaneamente interior e exterior, a identidade e o outro, do todo; que as trocas entre sujeitos produzem novas vozes e então exemplificam uma virtude do dom-dando e uma ciber versão de uma economia do dom. Porque as vozes da comunidade são o que são à luz uma da outra, e porque a tensão criativa entre elas serendipituosamente cria novos discursos ou vozes, estas vozes estão continuamente se reajustando umas com as outras e assim continuamente modificando sua identidade. Nós podemos então sumariar o resultado que nossa "ciberepoché" revelou tão longe declarando que a sociedade é um corpo multi-vozes metamorfoseando-se – que o ser deste corpo é esta metamorfose.[9]
Existiria, portanto, um lado luminoso da Internet, se manifestando na criação de novas vozes em seu discurso indireto livre, mas, também, um lado negro que se manifestaria tanto na voz única de um avatar, a dominação de uma única voz ou discurso social direto – palavra de deus, pureza étnica ou racia l –, quanto no fechamento das comunidades em uma pluralidade exclusiva, a linguagem social estratificando-se em uma pletora de discursos indiretos fechados.[10]

O império e as redes

Este debate sobre as manifestações típicas da cibercultura e da sociedade em rede vai se desenvolver paralelamente na área do Departamento de Defesa norteamericano e das ciências sociais e exatas desembocando na questão das redes como modo de organização. Tanto a comunidade científica, quanto a comunidade de defesa, que participaram da construção das tecnologias da informação e da Internet, convergem neste ponto ao considerar esta questão fundamental. Para a comunidade científica a antiga compreensão da vida como "grande cadeia dos seres" ou como uma "progressão de hierarquias aninhadas" está dando lugar à visão de que ou bem o sistema vivo é uma mistura de hierarquias e redes entrecruzadas (Pagels, 1989 e La Porte, 1975), ou bem a rede da vida consiste em redes dentro de redes (Capra, 1996 e Kelly, 1994). Nesta nova forma de pensar as redes, a comunicação torna - se um modo de constituir os seres e não apenas um meio de trocar mensagens.
Para Arquilla e Ronfeldt, representantes do pensamento construtivista da RAND (Research Advanced of National Defense) – uma das principais agência de pesquisa ligada ao Departamento de Defesa norte-americano –, a emergência das formas de organização em rede, na esteira da propalada "revolução da informação", encontra amplo favorecimento no seio da sociedade global e anuncia uma profunda transformação na estruturação do mundo contemporâneo.
As redes parecem ser as próximas formas dominantes de organização – muito tempo depois do surgimento das tribos, hierarquias e mercados – a chegar ao seu próprio modo de redefinir as sociedades e assim fazendo, a natureza do conflito e da cooperação.[11]
Mesmo que, para eles, ainda não se possa prever o que resultará desta mudança radical, já se pode afirmar que as redes modificaram para melhor o perfil das sociedades. A partir de sua presença na estruturação do mundo os cenários de futuro ganharam um novo contorno com curiosas figuras a habitá-lo. Algumas redes vão sustentar a promessa de reformar setores específicos da sociedade gerando os enunciados de "democracia eletrônica", "corporações em rede" e "sociedade civil global".[12] Outras vão acreditar em efeitos mais amplos envolvendo a reconfiguração da sociedade como um todo de onde vão surgir os enunciados de "sociedade em rede" (Castells, 1999), "era da rede" (Kelly, 1994) e até mesmo a redefinição de "nações como redes" (Dertouzos, 1997).[13]
A longo prazo, o pensamento da rede tornar-se-á essencial para todos os ramos da ciência ao mesmo tempo em que lutamos para interpretar a enxurrada de dados vindos da neurobiologia, genôma, ecologia, finanças e da ampla teia mundial (World-Wide Web).[14]
De qualquer maneira, para Arquilla e Ronfeldt, a presença e a importância das redes na organização da sociedade não pode mais ser negada, tendo isto gerado vários estudos acadêmicos sobre a globalização que giram em torno da observação do crescimento da rede global e suas interconexões com as redes locais na sociedade. De todos estes textos, que envolvem tanto a análise do fundamento biológico das redes (ecologia, genética e etologia), quanto a análise da rede como fenômeno tecnológico, social e organizacional, vão se distinguir, para eles, os que emergem do mundo dos negócios, por seu caráter eminentemente prático, procurando determinar com precisão que tipos de estruturas e processos de rede funcionam, e quais não.
Estas análises geraram a distinção entre o sistema de gerenciamento mecânico (hierárquico e burocrático) e o orgânico (em forma de rede embora estratificado), assinalando a superioridade da forma orgânica por sua capacidade de lidar com rápidas mudanças de condições e inesperadas contingências. A capacidade da forma orgânica viria de sua estrutura de controle, autoridade e comunicação em forma de rede, privilegiando mais o direcionamento lateral da comunicação do que o vertical. Desta distinção emergirá a questão: rede se refere a certas características presentes em qualquer organização ou então está referida a uma forma particular de organização? Enquanto a resposta dada por Fukuyama[15] aponta na direção da primeira opção, a resposta dada por Castells16 elege decisivamente a segunda, juntamente com Arquilla e Ronfeldt que descobriram uma inusitada mutação sofrida por certas comunidades virtuais capaz de[16] apagar o "sentimentalismo" em que sua discussão estava imersa, substituindo-o por frias
indagações e assustadoras análises.[17]

O advento da rede de guerra

Para Arquilla e Ronfeldt a luta pelo futuro que faz o cotidiano de nossas manchetes não está sendo travada por exércitos liderados por Estados ou sendo conduzida por imensas e milionárias armas feitas para os tanques, aviões ou esquadras. Elas se desenvolvem através de grupos que operam em unidades pequenas e dispersas, podendo se desdobrar repentinamente em qualquer lugar ou tempo como uma incontrolável infecção por afluência popular (swarming). Eles sabem como enxamear e dispersar, penetrar e romper ou eludir e evadir. Os combatentes podem pertencer a redes de terroristas como a Al Qaeda, redes de traficantes como Cali, redes de militantes anarquistas como o Black Bloc, redes de luta política como o Zapatismo ou redes de ativistas da sociedade civil global como o DAN (Direct Action Network).[18]
Para compreender este modo emergente de luta e conflito, surgido na sociedade contemporânea a partir da revolução tecnológica que construiu a infra-estrutura do ciberespaço, Arquilla e Ronfeldt criaram em 1993 – mesmo ano do surgimento do conceito de comunidade virtual – o conceito de rede de guerra (netwar), como o oposto correlato do conceito de ciberguerra (cyberwar), também por eles gerado na mesma ocasião, ambos constituindo a maior parte do campo da infoguerra (infowar) no mundo atual.[19] Enquanto a ciberguerra compreenderia a luta de alta intensidade conduzida através de alta tecnologia militar travada por dois Estados (como, por exemplo, a Guerra do Golfo), a rede de guerra seria a luta de baixa intensidade travada de modo assimétrico por um Estado e grupos organizados em rede através do uso de táticas e estratégias que envolvem o intenso uso das novas tecnologias comunicacionais, da CMC e da Internet.
A rede de guerra é a contraparte de baixa intensidade no nível social de nosso conceito de ciberguerra, mais antigo e muito mais militarizado. A guerra de rede tem uma dupla natureza, como o deus romano de duas faces Janus, a qual é composta, por um lado, de conflitos travados por terroristas, criminosos e etnonacionalistas extremistas; e, por outro lado, por ativistas da sociedade civil. O que distingue a rede de guerra como uma forma de conflito é a estrutura organizacional em forma de rede de seus adeptos – com vários grupos estando atualmente estruturados no modo sem líder (leaderless) – e na sua ultra flexível habilidade de chegar rapidamente juntos em ataques de infecção por afluência popular (swarming attacks).
Os conceitos de ciberguerra e de rede de guerra abrange um novo espectro de conflito que emergiu na esteira da revolução da informação.[20]
No que diz respeito à conduta, para Arquilla e Ronfeldt a rede de guerra se refere a conflitos onde um combatente está organizado em forma de rede ou as emprega para as comunicações e o controle operacional.[21]Conforme o método desenvolvido para a análise de rede social, [22] a rede é um grupo (rede) formado por atores (nós) e seus vínculos (ligações) cujo relacionamento tem uma estrutura padronizada.[23]
Embora o modo organizacional que o ator da rede de guerra adote possa ter a forma topológica de estrela ou eixo (hub),[24] com alguns elementos centralizados; ou a de cadeia que é linear;[25] o principal design adotado será o de rede completamente conectada, também conhecida como rede "todos os canais" (all-channel) ou matriz completa (full-matrix), uma arquitetura que permite a comunicação e a interação de cada nó da rede diretamente com qualquer outro nó. De fato os atores da rede de guerra vão desenvolver estruturas híbridas incorporando as diversas for mas de rede dos modos mais variados tendo por base a estrutura "todos os canais".[26]
Mas o principal instrumento que deve ser usado para compreender uma rede é o de sua análise organizacional, pois enquanto para o analista social de redes determinar os grupos de atores com vínculos basta para sua compreensão, a análise organizacional ainda irá se perguntar se os atores se reconhecem como participantes da rede e se eles se comprometem com as suas operações.[27]
Embora os atores de uma rede de guerra possam fazer um intenso uso do ciberespaço, esta não é sua principal característica e eles podem subsistir e operar em áreas para além dele. Sendo um conflito de tipo não linear, a rede de guerra requer um novo paradigma analítico para ser entendida. O jogo oriental Go provê o novo modelo desta luta que não tem frentes de batalha, onde a defesa e o ataque se misturam, a formação de fortificações e acumulação de peças são um sedutor convite para ataques implosivos e a vitória é conquistada através do ganho de controle na maior quantidade do espaço de combate.[28]




O império se investiga

Arquilla e Ronfeldt, consideram essencial efetuar uma análise organizacional para compreender efetivamente a rede de guerra. Segundo um método próprio desenvolvido por eles – tendo por base a análise utilizada na literatura empresarial sobre os negócios e a da sociologia organizacional e econômica – devemos considerar, junto com o nível de seu design organizacional, os demais níveis que a compõem, como o narrativo da história que está sendo contada, o doutrinário dos métodos e estratégias de colaboração, o tecnológico dos sistemas de informação em uso e o social dos vínculos pessoais que asseguram a lealdade e a confiança.[29] De todos estes níveis chama a atenção a recente inclusão do nível narrativo como sendo determinante na compreensão da realidade da rede. Embora eles o apresentem abaixo do nível organizacional, acreditamos que sua importância pode vir a crescer sobrepujando a do design organizacional na constituição da rede. Vamos examinar estes diversos níveis em uma ordem diferente da apresentada pelos autores. Começaremos pelos níveis social e tecnológico por acreditarmos que eles dizem respeito à base material, humana ou técnica, da rede. Em seguida examinaremos o doutrinário que responde por seu modo de ação e o nível organizacional, que fala da ordem da rede. Por último veremos o narrativo, que nos parece o mais importante, pois diz respeito à constituição e sustentação da existência da rede.
O nível tecnológico da análise se pergunta pelo padrão e capacidade dos fluxos de informação e comunicação da rede e pelas tecnologias de suporte deles. Pergunta o quão integrados eles estão com os níveis organizacionais, narrativos e doutrinários. Telefones celulares, máquinas de fax, correio eletrônico e toda parafernália high-tech das tecnologias de informação coexistem aqui com as diversas mídias e os velhos mensageiros e encontros face-a-face. Já o nível social se pergunta o quão bem e de que modos os membros são pessoalmente conhecidos e conectados uns com os outros. É necessário saber o quanto a rede necessita de fortes vínculos pessoais familiares, de amizade ou de experiências unificadoras (escola, clubes, jogos, etc) para assegurar confiança e lealdade entre os membros. Para tanto, deve -se traçar os tipos de comunidades (de práticas, de ofícios, epistêmicas, clãs, etc) que integram a rede e seu sentido de identidade e lealdade pessoal para com ela.[30]
Que doutrina existe para possibilitar o melhor da forma de organização da rede? O que capacita aos seus membros agirem estrategicamente e taticamente sem precisar necessariamente se reportar a um comando central ou a um líder. A partilha de princípios e práticas condutores aceitos profundamente pelos membros pode fazer deles "uma única mente" mesmo que estejam dispersos e dedicados a diferentes tarefas. Isto provê coerência central ideacional, estratégica e operativa que permite a descentralização tática. Duas práticas doutrinárias são particularmente importantes em uma rede de guerra.
A primeira é dar a ela um modo de funcionamento o mais "sem líder" possível, seja pela ausência de lideranças ou pela multiplicação das lideranças, construindo um processo de tomada de decisões através do uso de mecanismos de consulta e formação de consenso. A outra é o uso da infecção por afluência popular (swarming) de um alvo como modo de combate. A infecção por afluência popular (swarming) é um modo estratégico – de aparência amorfa mas deliberadamente estruturado e coordenado – de golpear, vindo de todas as direções, um ponto particular ou vários pontos por meio de uma pulsação sustentável de força ou de fogo mantida a partir de uma posição de resistência próxima.
Esta pulsação sustentável de força ou de fogo será literal no caso de ação policial ou militar, mas metafórica no caso da ação de ativistas ligados às ONGs.[31]
Um exemplo do primeiro princípio é a doutrina da "resistência sem líder" elaborada pelo extremista de direita Louis Beam.[32] Usando o conceito de Resistência Sem Líder a rede se organiza através de células fantasmas e da ação individual de seus membros como "homens do momento" (minutemen)[33], de modo que os grupos e indivíduos operam independentes uns dos outros sem nunca se remeter a um quartel central ou líder único.[34]
A organização subterrânea da rede distingue quatro tipos diferentes de células codificadas e descentralizadas – células de comando, combate, apoio e comunicação – compostas por oito "homens do momento" e um líder cada uma. A partir de 1990 foram incluídos na doutrina a existência de "lobos solitários" que instigam atos violentos, como explodir alvos, fazendo parecer que são de sua própria iniciativa.[35]
Mas nas ONGs de ativistas da sociedade civil globalizada ambos os princípios serão manejados de modo mais flexível e bem elaborado: Hoje, uma das mais sofisticadas doutrinas para a rede de guerra social vem da Rede de Ação Direta (Direct Action Network) (DAN), que emergiu de
uma coalizão de ativistas dedicados a usar ação direta não violenta e desobediência civil para paralisar o encontro da OMC (WTO) em Seattle.
Sua abordagem da rede de guerra aproveita o essencial das idéias de infecção por afluência popular (swarming). Os participantes são convidados a se organizarem, a partir de sua própria escolha, em pequenos (5 a 20 pessoas) "grupos de afinidades" – "equipes de pessoas autosuficientes, pequenas e autônomas, que partilham certos princípios, objetivos, interesses, planos ou outras similaridades que as tornem capazes de trabalhar junto bem".[36]
Cada grupo decide por si quais ações seus membros vão responsabilizar-se, abrangendo do teatro de rua ao risco de ser preso [37]. Onde os grupos operam em proximidade uns para com os outros, eles são além disso organizados em "células" – mas podem também existir "grupos flutuantes" que se movem de acordo com o lugar onde são necessários. Diferentes pessoas em cada grupo assumem diferentes funções (por exemplo, ligação com a polícia), mas todo o esforço é feito para acentuar o fato de que nenhum grupo tem um líder único. Tudo isto é coordenado em um encontro de um conselho de porta-vozes para onde cada grupo envia um representante e as decisões são alcançadas através da consulta democrática e do consenso (em um outro tipo de abordagem que transforma o modo de organização em completamente "sem líder".[38]
Em que extensão um ator ou grupo de atores está organizado como uma rede? O que faz a rede ter sua disposição? Estas são as principais questões a serem respondidas na análise do nível organizacional. Como o design organizacional em uma rede de guerra diz respeito a híbridos o mais das vezes, os aspectos mais importantes a serem analisados são a variedade de "buracos estruturais"[39] e "pontes"[40] existentes e se os "atalhos"[41]
são utilizados de modo fácil e freqüente. Nas organizações de negócios a constituição de grupos de disciplinas entrecruzadas tornou-se fundamental para ajustar a empresa ao meio, rompendo com distinções de hierarquia, equipe, linhagem e um sem número de outras. As redes de guerra social desenvolvidas por ativistas de ONGs podem incluir instituições oficiais de governo em sua atuação, embora sua campanha não tenha nem escritórios centrais nem burocracia, funcionando através da livre coordenação e comunicação aberta entre seus diversos grupos a partir do objetivo comum. Esta flexibilidade e abertura serão impossíveis para as redes de guerra violentas como as formadas por terroristas ou criminosos que dependem da ocultação e do segredo em seu funcionamento. Elas precisarão misturar grupos de superfície difusos com grupos subterrâneos coesos para manter a integridade da cadeia de comandos através da coordenação horizontal entre grupos semi-autônomos com a liderança disseminada entre eles.[42]
Por que os membros assumiram e permanecem na rede? Esta é a questão que orienta o nível narrativo. Narrativas ou histórias sempre foram muito importantes para manter as pessoas unidas em uma organização pois elas podem exprimir o sentido de identidade e pertencimento – elas são capazes de dizer quem somos, porque estamos juntos e o que nos faz diferentes dos outros. Elas podem igualmente comunicar um sentido de causa, propósito e missão, exprimindo objetivos, métodos e disposições culturais – o que acreditamos, o que queremos fazer e como. A história certa pode manter as pessoas conectadas à rede que por sua flutuação não consegue antecipar a defecção.
Pode, também, gerar pontes entre diferentes redes e a percepção de que o movimento tem um momento vitorioso. "A rede mais forte será aquela na qual o design organizacional é sustentado por uma história vitoriosa e uma doutrina bem definida, e na qual tudo isto está de antemão reproduzindo-se como brotos em uma superfície."[43]

As redes de guerra e a multidão

Das diferentes formas híbridas de rede que se pode compor – as de topologia em grade ou reticulado, as de centro/periferia, as de turminha, as de "mundo pequeno", as esparramadas ou de teia de aranha, as policêntricas segmentadas (SPIN) – Arquilla e Ronfeldt vão sublinhar duas que prevalecem em dois tipos diferentes de redes de guerra. A primeira é a rede policêntrica segmentada que o sociólogo Luther Gerlach identificou ao estudar os movimentos sociais dos anos 60 nos Estados Unidos, batizando-a com a sigla SPIN – que significa retorcer ou revolver.[44]
Na definição de Gerlach:

Por segmentada quero dizer que ela é celular, composta de muitos grupos diferentes... . Por policêntrica quero dizer que ela tem muitos diferentes líderes ou centros de direção... . Por tendo forma de rede quero dizer que os segmentos e os líderes são integrados em um reticulado de sistemas ou redes através de vários vínculos estruturais, pessoais e ideológicos. Redes normalmente são ilimitadas e expansivas... . Este acrônimo [SPIN] nos ajuda a figurar esta organização como sendo uma fluida, dinâmica, expansiva espiral giratória dentro da sociedade corrente.[45]
Arquilla e Ronfeldt consideram esta forma topológica de rede paradigmática para o design das redes de guerra, tendo uma grande relevância para o entendimento de sua teoria e prática. Além de caracterizar as redes de vários movimentos ambientalistas e sociais desde os anos 60, caracterizaria também atualmente as redes terroristas, criminosas, etnonacionalistas e fundamentalistas em todo mundo.[46]
A outra deriva de um dos padrões ordenados descobertos por teóricos da complexidade na área das ciências exatas e sociais interessados em discernir os princípios comuns que explicam "a arquitetura da complexidade" através dos sistemas naturais e humanos; padrões presentes na estrutura e na dinâmica dos sistemas biológicos, ecológicos e sociais onde as redes são o princípio de organização. Este padrão se assemelha a uma rede teia de aranha com multi-eixos bem estruturados; ou um grupo de redes centro/periferia interconectados. Sua topologia se caracteriza por um pequeno número de nós fortemente interconectados que agem como eixos (hubs), aos quais se conectam um grande número de nós de fraca conexão mesmo que partilhando uma ligação "todos os canais". Socialmente este tipo de padrão se caracteriza por um ou mais atores operando como eixos chaves, em torno dos quais estão ordenados um grande
número de atores ligados aos eixos mas menos ligados uns com os outros, mesmo que as informações estejam disponíveis e partilhadas no modo "todos os canais" para todos os atores. Este padrão é muito resistente aos choques sistêmicos, a menos que algum eixo chave seja rompido ou destruído. Ele caracterizaria a rede de guerra do movimento Zapatista ou da Batalha de Seattle.[47]
Em uma rede de guerra arquetípica, as unidades provavelmente se parecem com um arranjo disperso de nós interconectados, agrupados para agir como uma rede "todos-canais". Casos recentes de rede de guerra social de ONGs ativistas contra o estado e atores das corporações – por exemplo, a série de campanhas ativistas contra o globalismo conhecidas como J18, N30, A16, etc. – mostra os ativistas formados em um design multi-eixo, aberto e "todos-canais", cuja força depende do livre fluxo de discussão e da partilha de informação.[48]
No exame dos dois tipos de modelo dominante das redes de guerra o nível narrativo reaparece em sua faceta constituinte por influenciar diretamente o problema da liderança tanto no que diz respeito à organização, quanto o que diz respeito à doutrina nas redes em geral e nas redes de guerra. Na rede de guerra a liderança permanece importante mesmo que os protagonistas façam todo o esforço para terem um design "sem líder". Um modo de conseguir isso é ter muitos líderes disseminados através da rede que procura funcionar por coordenação, sem controle central ou uma hierarquia. Isto pode criar problemas de coordenação – uma típica fraqueza do design das redes – mas, como foi freqüentemente notado, isso pode, também, evitar a eleição de um alvo pela contraliderança. Talvez o ponto mais significante e menos notado seja que o tipo de líder que pode ser mais importante para o desenvolvimento e conduta de uma rede de guerra não é o "grande homem" ou o líder administrativo que as pessoas estão acostumadas a ver, mas de preferência o líder doutrinário – o indivíduo ou grupos de indivíduos que, longe de agir como um comandante, está encarregado de dispor o fluxo de comunicações, a "história" exprimindo a rede de guerra, e a doutrina guiando sua estratégia e táticas.[49]
Embora nesta conceituação da relação entre narrativa e liderança Arquilla e Ronfeldt já apontem o aspecto mais relevante – o lugar central que a narrativa ocupa na organização e doutrina da rede – parecem ainda presos ao velho problema da autoria na narrativa. Se esta descrição se encaixa perfeitamente em redes de guerra fundamentalistas, etnonacionalistas ou criminosas, o mesmo não se pode dizer dela quando se trata da rede de guerra do movimento Zapatista ou a da Batalha de Seattle.
Nestas redes a narrativa é indissociável, como veremos, das conversações recorrentes que geram a montagem e o desenvolvimento da rede e dos testemunhos que acompanham o desenrolar de seus acontecimentos. Dito de outra maneira, se a forma da narrativa mítica parece ainda apropriada para caracterizar a coesão de uma rede como, por exemplo, a de Bin Laden, ela é completamente inapropriada para, por exemplo, a rede Zapatista e inconcebível para a rede de guerra social de ONGs ativistas, grupos anarquistas, grupos hackers, movimento estudantil e movimento ciberpunk contra o estado e atores das corporações que emergiu na Batalha de Seattle. Nas duas últimas redes a narrativa mais se assemelha ao roteiro de um filme experimental que vai sendo escrito não só pelo diretor, mas pelos atores e equipe, conforme a filmagem se desenrola.

Micropolítica da multidão

Examinemos, para uma diferenciação mais acurada, as análises convergentes do Departamento de Defesa norte-americano, através de Arquilla e Ronfeldt (2001, 2001 editores, 1997, 1996), e do economista, e ativista do movimento Zapatista, Harry Cleaver (1999, 1998, 1995,1994) sobre o zapatismo. Eles mostram de modo inequívoco como diferentes movimentos – o do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), o das comunidades indígenas de Chiapas e o de diversas Organizações Não-Governamentais (ONGs) mexicanas e internacionais – reuniram-se para montar a rede de guerra Zapatista. O movimento EZLN, quando emergiu com seu manifesto contra o NAFTA, era um grupo formado por pessoas oriundas da classe média educada mexicana, com pouca ou nenhuma ascendência indígena. Seu objetivo era criar um exército de guerrilha infiltrando-se na região de Chiapas – rica em urânio, madeira e petróleo – onde viviam diversas comunidades indígenas. Eles pretendiam sustentar uma estratégia bem tradicional de luta armada, conhecida no meio militar como "guerra da pulga", consistindo em manter a iniciativa através de ataques surpresa em pequenas unidades.
Em meio a desastrosos resultados militares, surgidos de problemas organizacionais e táticos durante as primeiras semanas de luta (que quase levaram o EZLN à extinção), eles buscavam o apoio das ONGs e outros membros da sociedade civil global e o apoio das comunidades indígenas. Os ativistas das ONGs, por seu lado, estavam interessadas em estimular uma forma de democracia no México na qual os atores da sociedade civil fossem fortes o bastante para contrabalançar o poder dos atores do estado e do mercado, ganhando um lugar de destaque nas tomadas de decisão da política pública que afetassem a sociedade civil. Seus ativistas, porém, não estavam nem um pouco interessados em conquistar o governo e tampouco queriam ajudar que algum grupo viesse a conquistá-lo.
Como resultado destas conversações o EZLN abandonou a conquista do governo mexicano como o principal objetivo de sua luta, retirando-o de seu discurso. Nele, a partir de então, os direitos das populações indígenas, o reconhecimento da participação da mulher e dos seus direitos na sociedade, a proteção ambiental, a luta pelos direitos humanos e pelos direitos dos trabalhadores subiram para o primeiro plano. Encorajados a vir para o México por Marcos e outros membros do EZLN, as ONGs já contatadas convidaram outras ONGs a se juntar a sua mobilização gerando um efeito em cadeia de grandes proporções. Um dinâmico movimento de afluência da multidão[50] cresceu pondo o governo mexicano e seu exército na defensiva paralisando sua investida militar. Uma coalizão de ONGs, misturando ONGs temáticas (direitos humanos, direitos indígenas, proteção do meio ambiente, etc) locais e globais com a APC (uma ONG que provê infra estrutura e meios técnicos para a construção de redes eletrônicas), formou-se e 4 congressos foram realizados em Chiapas, reunindo-as com o EZLN e as comunidades indígenas, fazendo emergir uma agenda comum de reivindicações e ações. O que havia começado como uma tradicional insurgência guerrilheira havia se transformado em uma
rede de guerra social pertencente a era da informação.
O processo de construção da aliança criou uma nova forma de organização – uma multiplicidade de grupos autônomos rizomaticamente conectados –, conectando várias espécies de lutas, através da América do Norte, que estavam anteriormente desconectadas e separadas.[51]
Tanto Arquilla e Ronfeldt, quanto Cleaver querem ver no EZLN o principal ator da coalizão e apontam Marcos como um excelente porta-voz do movimento Zapatista mais do que um líder. Para o pensamento do Departamento de Defesa norteamericano, Marcos faria parte de uma sofisticada tentativa do EZLN de quebrar seu isolamento político, permitindo-lhe combinar as suas pequenas unidades de ataque com as mobilizações nacionais e os apelos internacionais. Entretanto o EZLN não tem seus próprios laptops , conexão com a Internet, máquinas de fax e telefones celulares que estão com as ONGs mexicanas e internacionais. Mas Cleaver mostra como o apoio e a divulgação do movimento Zapatista se estruturou em torno de uma rede de trabalho voluntário ativista coordenada através da Internet de forma descentralizada composta por digitadores, tradutores, webdesigners, escritores, organizadores de listas de discussão e administradores de sítio. Stefan Wray, por sua vez, expõe como os hackers, depois do massacre de índios em Chiapas em fins de 1997, conceberam um modo de fazer da Internet um lugar para a ação direta não-violenta e a desobediência civil inventando o bloqueio virtual e o sit in virtual. Em 1998 o grupo Teatro Eletrônico de Distúrbios (Electronic Disturbance Theatre - EDT) cria o inundanet (floodnet) – uma aplicação em java para os navegadores (browsers) que repetidamente envia pedidos de recarregar para um sítio da Internet – concebido como um modo de convocar uma manifestação virtual onde uma multidão podia tentar paralisar ou derrubar um alvo usando esta aplicação (o projeto chamava-se significativamente SWARM, que significa enxame). O software foi chamado de Zapatista inundanet (floodnet) e inaugurou o casamento dos hackers com o ativismo político, mais tarde chamado de hacktivismo.[52]

A multidão armada

Tudo isto reforça a constatação da profunda mudança introduzida nas relações sociais e na base organizacional das comunidades através do acesso do indivíduo comum às tecnologias de Informação (TI) e comunicações mediadas por computador (CMC). Mostra, também, que o EZLN é diferente do movimento Zapatista, além de mostrar o desenvolvimento do movimento como uma poderosa convergência de diferentes redes (ONGs, indígenas, guerrilheiros, hackers, estudantes, intelectuais, etc) construindo uma comunidade que partilha uma agenda comum de reivindicações e ação e experimenta em sua própria construção modos democráticos de produção e tomada de decisão. Se olharmos para este movimento na perspectiva da luta política, ele se revela muito mais forte e adequado para conduzir uma guerra assimétrica contra o estado e as empresas porque estes últimos ainda estão embaraçados com o modo de organizar e institucionalizar suas relações através das hierarquias e mercados.
Analisada na perspectiva da construção social, a comunidade virtual do movimento Zapatista é uma comunidade real montada na esfera pública global do ciberespaço, capaz de construir a participação atual em ações comuns na vida de seus participantes e na vida cívica da sociedade civil mundial – o que afasta as objeções de Fernback e Thompson quanto a realidade das comunidades virtuais. Na perspectiva do capital social e do engajamento cívico – objeções de Putnam – ela nada deixa a desejar enquanto comunidade através das manifestações que promove pelo mundo, os congressos e encontros realizados em Chiapas e a marcha para a capital do méxico integrando grande parte de seus membros em uma caminhada cívica ao longo da região de Chiapas. Mas o mais importante dado é o fato da dicotomia jihad/macmundo desaparecer no interior da organização e prática da comunidade virtual do movimento Zapatista. A experiência desta comunidade não é a de um mundo destroçado, ameaçado de dissolução pelo totalitarismo homogeneizante ou tribalismo desagregador.
A globalização transformou a informação em uma arma e o estado, global ou local, está sempre envolto, pós-modernamente, nas guerras de informação.[53]
A ciberguerra, teorizada pela RAND logo após a Guerra do Golfo, revela a emergência de uma guerra imanente e absoluta, coextensiva à existência do Império com suas armas espaciais e tecnologias de destruição em massa. A guerra tornou-se algo tão ordinário na esfera imperial que as forças armadas dos EUA reduziram as tropas do exército, de 790 mil para 480 mil homens nos últimos dez anos, ao mesmo tempo em que empresas privadas passaram a vender operações de guerra – ciberguerra, rede de guerra, infoguerra – para os estados e as corporações.[54]
O vasto material, produzido nos últimos 10 anos pelas pesquisas da RAND e demais intelectuais ligados ao Departamento de Defesa norte-americano, não deixam margem para dúvidas: vivemos em guerra permanente – mesmo os negócios tornaram-se operações especializadas de guerra – e as armas usadas a maior parte do tempo são as notícias que os jornais, rádios, televisões e revistas despejam sobre as populações em seu bombardeio incessante e a capacidade de comunicação, controle e comando do ciberespaço. O movimento Zapatista percebeu com clareza a atual condição quando anunciou aos quatro ventos que a quarta guerra mundial havia começado.[55] A suprema ironia é que parte dos inimigos atuais do império – fundamentalistas, traficantes e etnonacionalistas – são os antigos aliados da guerra-fria, armados e enriquecidos pela luta anti-comunista através das operações encobertas do Departamento de Defesa norte-americano.[56]
Mas através das comunidades virtuais do ciberespaço a multidão está armada e as redes, que sempre construiu para lutar contra o poder político burguês, tornaram-se poderosas redes de guerra, paralisando o uso das armas de aniquilação do poder global e rompendo com sua cadeia de medo orquestrada pela mídia oficial usando da contra-informação. A comunidade virtual é uma rede de guerra lutando contra os estados global e locais, mas seu combate se desenvolve através de sua própria construção como um modo surpreendente de inventar valores e práticas democráticas no seu interior, utilizando as tecnologias da informação e a comunicação mediada por computador.

O futuro da democracia

As redes de guerra do tipo SPIN oscilam entre a rostficação e a voz única do discurso social direto de um avatar – retomando a análise de Evans –, como no caso da rede Bin Laden; ou na guetificação de uma pluralidade exclusiva dominada pelo ideal de um discurso indireto fechado, como no caso da rede sedicionista dos Americanos Patriotas Católicos – durante um certo tempo esta limitação foi um problema que assombrava, também, as redes ativistas das ONGs. Mas as redes de teia de aranha são corpos em metamorfose exprimindo-se através do discurso indireto livre gerador de novas vozes e novos gestos. Elas não comportam em sua narrativa um rosto ou um ideal.[57] Mas, ao contrário do que pensava Evans, elas não dependem da casualidade feliz – a serendiptuosidade – de seu fechamento fenomenológico em uma ciberepoché eletrônica capaz de pôr o mundo entre parenteses. Pois seus gestos e suas palavras não se constroem no confinamento topológico de uma rede eletrônica, mas no amplo e aberto espaço sóciopsíquico global, que envolve o mundo construído com o auxílio das teias das tecnologias da informação(TI).
Ao contrário do que acredita a fenomenologia, não é o mundo que precisa ser posto entre parênteses para que o entendimento venha habitá -lo, mas é o pensamento que precisa fugir deste parêntese mental onde o confinaram e conquistar, de direito, aquilo que de fato nunca deixou de ser seu: o território das comunidades que povoam o mundo. O até hoje chamado "espaço real" foi construído expulsando-se o pensamento da concepção euclidiana do espaço e da objetividade constitutivas do mundo. O entendimento das redes nos permite, hoje, devolver ao pensamento a realidade do espaço, sua cidadania real no seio do mundo, afirmando que o assim chamado "espaço real" é apenas um caso do ciberespaço, e que o espaço virtual é aquele que de fato nós sempre habitamos. Nele uma democracia torna-se possível porque a multidão armada pelas tecnologias da informação (TI) e comunicação mediada por computador faz o problema da cidadania pós-moderna e da segurança pública convergirem na direção da organização das comunidades virtuais, apontando na direção de um novo pacto democrático. Como na antiga grécia a construção do exército hoplita – feita pelas elites para fugir do terror despótico do gigantesco exército Persa – armou o povo, que insurrecionado, gerou a invenção da cidadania e do estado democrático.

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Notas

[1]Para o conceito de Império e de multidão cf. Antonio Negri e Michael Hardt (2001), Império, Rio de Janeiro: Record, p. 14-15 e 21-60 para Império e p. 15 e 61-84 para multidão.

[2] Cf. Howard Rheingold (1993), The Virtual Community. Homesteading on the Electronic Frontier , Nova York: Harper Collins. Endereço eletrônico em: http://www.rheingold.com/vc/book/.

[3] Cf. Howard Rheingold (1993), op. cit.

[4] Este ensaio rapidamente tornou-se referência obrigatória no debate sobre a cibercultura. Cf. Benjamin R. Barber (1992), Jihad Vs. McWorld, In: The Atlantic Monthly, Boston: Atlantic Monthly, v. 269, n. 3 (março), p. 53-65. Endereço eletrônico em: http://www.theatlantic.com/politics/foreign/barberf.htm.

[5] Cf. Howard Rheingold (1993), op. cit.

[6] Cf. Jan Fernback e Brad Thompson (1995), Virtual Communities: Abort, Retry, Failure? USA: Rheingold. Endereço eletrônico em: http://www.rheingold.com/texts/techpolitix/VCcivil.html.

[7] Cf. Robert D. Putnam (1996), The Strange Disappearance of Civic America, In: The American Prospect, Boston, MA: American Prospect, v. 7, n. 24. Endereço eletrônico em: http://www.prospect.org/print/V7/24/putnam-r.html.

[8]Cf. Fred Evans (2000), Cyberspace and the Concept of Democracy, In FirstMonday, Chicago: University of Illinois, ano 5, n. 10. Endereço eletrônico em: http://www.firstmonday.org/issues/issue5_10/evans/index.html.

[9] Fred Evans (2000), op. cit. A tradução é nossa. "The Internet as epoché has helped us see that human communities are dialogical exchanges among voices; that these voices resound in one another - that each is simultaneously inside and outside, the identity and the other, of the rest; that exchanges among subjects produce new voices and therefore exemplify a gift-giving virtue and a cyber version of a gift economy. Because the voices of the community are what they are in light of one another, and because the creative tension among them serendipitously creates new discourses or voices, these voices are continually readjusting to one another and thus continually modifying their identity. We can therefore summarize the results that our "cyberepoché" has revealed so far by stating that society is a metamorphosing multi-voiced
body – that the being of this body is its metamorphosis."

[10]Cf. Fred Evans (2000), op. cit.

[11]David Ronfeldt e John Arquilla (2001), What Next for Networks and Netwars?, In idem (editores), Networks and Netwars: the Future of Terror, Crime and Militancy, Santa Monica, CA: RAND, p. 311. Endereço eletrônico em: http://www.rand.org/publications/MR/MR1382/. A tradução é nossa. "The network appears to be the next major form of organization – long after tribes, hierarchies, and markets – to come into its own to redefine societies, and in so doing, the nature of conflict and cooperation."

[12]A literatura sobre estes conceitos é hoje bastante vasta.

[13]David Ronfeldt e John Arquilla (2001), What Next for Networks and Netwars? In: op. cit., p. 311-312.

[14]Steven H. Strogatz (2001), Exploring Complex Networks In Nature, v. 410, (8 de março), p. 275. A tradução é nossa. "In the longer run, network thinking will become essential to all branches of science as we struggle to interpret the data pouring in from neurobiology, genomics, eco logy, finance and the World-Wide Web."

[15] Frank Fukuyama (1999), The Great Disruption: Human Nature and the Reconstitution of Social Order , Nova Iorque: Free Press. "If we understand a network not as a type of formal organization, but as social capital, we will have much better insight into what a network's economic function really is. By this view, a network is a moral relationship of trust: A network is a group of individual agents who share informal norms or values beyond those necessary for ordinary market transactions. The norms and values encompassed under this definition can extend from the simple norm of reciprocity shared between two friends to the complex value systems created by organized religions".

[16]Manuel Castells (1999), A sociedade em rede, São Paulo: Paz e Terra. "Our exploration of emergent social structures across domains of human activity and experience leads to an overarching conclusion: as a historical trend, dominant functions and processes in the information age are increasingly organized around networks. Networks constitute the new social morphology of our societies ... While the networking form of social organization has existed in other times and spaces, the new information technology paradigm provides the material basis for its pervasive expansion throughout the entire social structure."

[17]Cf. David Ronfeldt e John Arquilla (2001), What Next for Networks and Netwars? In: op. cit., p. 312-322.

[18]Cf. David Ronfeldt e John Arquilla (2001), Networks, Netwars and the Fight for the Future In FirstMonday, Chicago: University of Illinois, ano 6, n. 10 (outubro). Endereço eletrônico em: http://www.firstmonday.org/issues/issue6_10/ronfeldt/index.html. "The fight for the future makes daily headlines. Its battles are not between the armies of leading states, nor are its weapons the large, expensive tanks, planes and fleets of regular armed forces. Rather, the combatants come from violent terrorist networks like Osama bin Laden's al-Qaeda, drug cartels like those in Colombia and Mexico, and militant anarchists like the Black Bloc that ran amok during the Battle of Seattle. Other protagonists – ones who often benefit U.S. interests – are networked civil-society activists fighting for democracy and human rights around the world. From the Battle of Seattle to the "attack on America," these networks are proving very hard to deal with; some are winning. What all have in common is that they operate in small, dispersed units that can deploy nimbly – anywhere, anytime. All feature network forms of organization, doctrine, strategy, and technology attuned to the information age. They know how to swarm and disperse, penetrate and disrupt, as well as elude and evade. The tactics they use range from battles of ideas to acts of sabotage – and many tactics involve the Internet."

[19]Cf. David Ronfeldt e John Arquilla (1993), Cyberwar is Coming, Philadelphia: Taylor & Francis.

[20]David Ronfeldt e John Arquilla (2001), Summary In: idem (editores), op. cit., p.IX. A tradução é nossa. "Netwar is the lower-intensity, societal-level counterpart to our earlier mostly military concept of cyberwar. Netwar has a dual nature, like the two-faced Roman god Janus, in that it is composed of conflicts waged, on the one hand, by terrorists, criminals, and ethnonationalist extremists; and by civil-society activists on the other. What distinguishes netwar as a form of conflict is the networked organizational structure of its practitioners – with many groups actually being leaderless – and the suppleness in their ability to come together quickly in swarming attacks. The concepts of cyberwar and netwar encompass a new spectrum of conflict that is emerging in the wake of the information revolution."

[21]Cf. David Ronfeldt e John Arquilla (1996), The Advent of Netwar, Santa Monica, CA: RAND, p.VII. Endereço eletrônico em: http://www.rand.org/publications/MR/MR789/.

[22]Cf. Linton C. Freeman, (2000), Visualizing Social Networks, Journal of Social Structure, v. 1, n. 1 (4 de fevereiro). Endereço eletrônico em: http://www.heinz.cmu.edu/project/INSNA/joss/vsn.html.

[23]Cf. David Ronfeldt e John Arquilla (2001), op. cit

[24]Topologia de rede em que os membros são vinculados a um nó central e devem passar por ele para se comunicar uns com os outros.

[25] Topologia de rede em que os membros são vinculados em uma fila e a comunicação deve fluir através de um ator adjacente antes de chegar ao próximo.

[26]Cf. David Ronfeldt e John Arquilla (1996), op. cit., p.VII.

[27]Cf. David Ronfeldt e John Arquilla (2001), op. cit.

[28] Cf. David Ronfeldt e John Arquilla (1996), op. cit., p. VII-VIII. Embora Arquilla e Ronfeldt ressaltem o controle do território na vitória do Go, o que o jogo de fato privilegia é a quantidade de espaços livres no território controlado, algo que faz toda a diferença.

[29] Cf. David Ronfeldt e John Arquilla (2001), op. cit.

[30]Cf. David Ronfeldt e John Arquilla (2001), op. cit.

[31]Cf. David Ronfeldt e John Arquilla (2001), op. cit.

[32]Cf. Louis Beam (1992), Leaderless Resistance In The Seditionist, USA: n. 12 (fevereiro). Endereço eletrônico em: http://www.louisbeam.com/leaderless.htm.

[33] O "homem do momento" (minutemen) é uma figura que tem suas raízes na experiência da Sedição Americana e no uso das milícias como forma de luta contra a dominação imperialista inglesa. Ele é um indivíduo permanentemente pronto para entrar em ação quando o momento exigir, mas age cotidianamente como um homem normal desvinculado da luta política.

[34]Cf. Louis Beam (1992), op. cit.

[35]Cf. David Ronfeldt e John Arquilla (2001), op. cit.

[36]Cf. o endereço eletrônico do DAN em: http://cdan.org/. Para um testemunho da ação do DAN na Batalha

de Seattle cf. Starhawk (1999), Como bloqueamos a OMC In: Lugar Comum – Estudos de Mídia,Cultura e Democracia (2000), Rio de Janeiro: NEPCOM, n. 11, p. 9-14.

[37]Uma das tarefas em um grupo de afinidade é a ligação com a polícia, o que acarreta o risco de que a pessoa encarregada seja percebida como líder do grupo, quando de fato o grupo não tem líder tomando todas as suas decisões por consenso.

[38]Cf. David Ronfeldt e John Arquilla (2001), op. cit. A tradução é nossa. "Today, one of the most sophisticated doctrines for social netwar comes from the Direct Action Network (DAN), which arose from a coalition of activists dedicated to using nonviolent direct action and civil disobedience to halt the WTO meeting in Seattle. Its approach to netwar epitomizes swarming ideas. Participants are asked to organize, at their own choice, into small (5-20 people) "affinity groups" – "self-sufficient, small, autonomous teams of people who share certain principles, goals, interests, plans or other similarities that enable them to work together well". Each group decides for itself what actions its members will undertake, ranging from street theater to risking arrest. Where groups operate in proximity to each other, they are further organized into "clusters" – but there may also be "flying groups" that move about according to where needed. Different people in each group take up different functions (e.g., police liaison), but every effort is made to make the point that no group has a single leader. All this is coordinated at spokescouncil meetings where each group sends a representative and decisions are reached through democratic consultation and consensus (in yet another approach to leaderlessness)."

[39]Uma rede constitui um "buraco estrutural" ao conectar um ator involuntário em suas operações. Um policial corrompido é uma "ponte" que constitui um "buraco estrutural" entre uma rede criminosa e a instituição policial.

[40]As "pontes" conectam uma rede a outra rede dando -lhes um funcionamento integrado ou mesmo fundindo-as em uma nova rede.

[41]"Atalhos" possibilitam atores distantes se conectarem em apenas alguns saltos através de intermediários e são a base de uma "rede de mundo pequeno".

[42]Cf. David Ronfeldt e John Arquilla (2001), op. cit.

[43]Cf. David Ronfeldt e John Arquilla (2001), op. cit. A tradução é nossa. "The strongest networks will be those in which the organizational design is sustained by a winning story and a well-defined doctrine, and in which all this is layered atop advanced."

[44]Cf. David Ronfeldt e John Arquilla (2001), op. cit.

[45]Cf. Luther P. Gerlach (1987), Protest Movement and the Construction of Risk, p. 115, In: Brandem B. Johnson and Vincent T. Covello (editores), The Social and Cultural Construction of Risk: Essays on Risk Selection and Perception, Boston: D. Reidel, p. 103-145.

[46] Cf. David Ronfeldt e John Arquilla (2001), op. cit.

[47]Cf. David Ronfeldt e John Arquilla (2001), op. cit.

[48]Cf. David Ronfeldt e John Arquilla (2001), op. cit. A tradução é nossa. "In an archetypal netwar, the unitsare likely to resemble an array of dispersed, internetted nodes set to act as an all-channel network. Recent cases of social netwar by activist NGOs against state and corporate actors - e.g., the series of activist campaigns aga inst globalism known as J18, N30, A16, etc. - show the activists forming into open, allchannel, and multi-hub designs whose strength depends on free-flowing discussion and information sharing."

[49]Cf. David Ronfeldt e John Arquilla (2001), op. cit. A tradução é nossa. "In netwar, leadership remains important, even though the protagonists may make every effort to have a leaderless design. One way to accomplish this is to have many leaders diffused throughout the network who try to act in coordination, without central control or a hierarchy. This can create coordination problems - a typical weakness of network designs - but, as often noted, it can also obviate counterleadership targeting. Perhaps a more significant, less noted point is that the kind of leader who may be most important for the development and conduct of a netwar is not the "great man" or the administrative leader that people are accustomed to seeing, but rather the doctrinal leadership - the individual or set of individuals who, far from acting as commander, is in charge of shaping the flow of communications, the "story" expressing the netwar, and the doctrine guiding its strategy and tactics."

[50]Os teóricos do Departamento de Defesa norte-americano preferem chamar de "infecção por afluência popular" ("swarming") revelando a boca torta do cachimbo que usam.

[51]Harry Cleaver, (1994). The Chiapas Uprising and the Future of Class Struggle in the New World Order , Pádua: RIFF-RAFF. Endereço eletrônico com o título The Chiapas Uprising Feb94 em: gopher://mundo.eco.utexas.edu/11/fac/hmcleave/Cleaver Papers/. A tradução é nossa. "The process of alliance building has created a new organizational form – a multiplicity of rhizomatically connected autonomous groups – that is connecting all kinds of struggles throughout North America that have previously been disconnected and separate."

[52]Stefan Wray (1998), Electronic Civil Disobedience and the World Wide Web of Hacktivism, Nova Iorque:
Drake University. Endereço eletrônico em: http://www.nyu.edu/projects/wray/wwwhack.html.


[53]Cf. Carlo Kopp (2000). Information Warfare, Sydney: Auscom. Endereço eletrônico em: http://www.infowar.com/info_ops/00/info_ops033000b_j.shtml.

[54]Cf. Carmelo Ruiz Marrero (2001), La Privatización de la Guerra, In Rebelión, Espanha: Rebelión. Endereço eletrônico em: http://www.rebelion.org/international/ruiz201201.htm.

[55]Cf. Sub -Comandante Marcos (1997), La Quatrème Guerre Mondiale a Commencé, In: Le Monde Diplomatique, Paris: Le Monde Diplomatique, agosto. Endereço eletrônico em: http://www.mondediplomatique/. fr/1997/08/MARCOS/8976.html.

[56]Cf. David Isenberg (1989). The Pitfalls of U.S. Covert Operations, In Policy Analysis , Washington, D. C.: Cato Institute, n. 118 (7 de abril). Endereço eletrônico em: http://www.infowar.com/mil_c4i/01/mil_c4i_111301a_j.shtml.

[57]Quando por ocasião do grande comício do EZLN (Exército Zapatista de Libertação Nacional), após a chegada da marcha Zapatista à capital do México, perguntaram ao subcomandante Marcos, em uma entrevista, qual seria o seu rosto. Ele respondeu que para conhecer o seu rosto bastava às pessoas se olharem no espelho. Perguntado, também, porque não estava no palanque do comício, Marcos respondeu que ele era apenas um subcomandante da EZLN e não um líder.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Rorty: a dignidade em forma de vida

Richard Rorty
Transcrevo abaixo um belo texto de Jurandir Freire Costa escrito por ocasião do falecimento do filósofo Richard Rorty, ocorrido em 08/Junho/2007.

Por: Jurandir Freire Costa

Fonte:Portal Brasileiro da Filosofia (http://www.filosofia.pro.br/)


Jurandir Freire Costa


(Jurandir Freire Costa é Psicanalista. Coordena o Grupo PEPAS, na UERJ.)

Há 20 anos, exatamente, deparei-me, por acaso, com A filosofia e o espelho da natureza de Richard Rorty. O choque da leitura foi fulminante. Fiquei boquiaberto. Poucas vezes um livro me causou tamanha curiosidade, admiração e inquietação. Obviamente, não ignoro que espanto deveu-se, em grande parte, a ignorância. Por ser psiquiatra e psicanalista de formação, jamais tive muita familiaridade com a literatura filosófica.
Mas o fascínio se explicava por algo além do embasbacamento do neófito. Dois outros ingredientes favoreceram o encantamento de que fui tomado ao ler Rorty. Primeiro seu talento magistral para verter em termos claros e simples os mais complexos problemas e conceitos herdados da filosofia analítica de língua inglesa; segundo, o recado cristalino que fluía de sua escrita. Como Michel Foucault ou Hannah Arendt, Rorty não escreveu apenas para filósofos ou especialistas em filosofia. Escreveu para quem quisesse ouvir o que ele tinha de fundamental a dizer, e que poderia resumir-se em duas grandes injunções:

1) “a dor física e a humilhação é o que de pior podemos fazer a nosso próximo”;

2) “estender tanto quanto possível a referência do pronome nós” é o que de melhor podemos fazer uns aos outros.

Hoje, tendo tido conhecimento de sua morte, é difícil dizer o que é mais doloroso perder, se o filósofo Rorty ou a pessoa humana Rorty. De um lado, queria testemunhar que suas elegantes e originais teses sobre o pragmatismo lingüístico, epistemológico, e, principalmente, ético sobre a “verdade”, o “conhecimento” e o “sujeito” me marcaram de forma indelével. Não poderia resumir, em duas páginas, o enorme impacto que elas tiveram na minha compreensão da prática e da teoria psicanalíticas. Do mesmo modo, tudo que pude aprender com ele sobre o respeito à pluralidade de idéias, o culto ao debate democrático e a abertura intelectual para a diferença de opiniões não se mede em palavras.
De outro lado, entretanto, algo em Rorty me impressionou de modo especial. Tive, com ele, apenas três encontros: dois no Rio e um em Belo Horizonte. Em todos, a mesma surpresa e a mesma emoção. Enfim, tinha conhecido alguém que agia como pensava; alguém que procurava, honesta e generosamente, aproximar-se dos ideais de vida nos quais acreditava. Rorty foi um dos pensadores que mais me fez acreditar que pensar não é uma tarefa inútil, ociosa, feita para adornar a fútil vaidade dos “sábios” ou a impiedade dos que pensam com ácido nos dedos ou cheques na cabeça.
Ao vir ao Rio, depois de duas conferências, não quis receber a parca remuneração que eu e meu colega Benilton Bezerra Jr. tínhamos a lhe oferecer, dizendo: “Não, o que já me pagaram em outro lugar, é suficiente”. Depois, ao almoçarmos em um boteco da Urca e jantarmos em um restaurante à beira da Baía de Guanabara, não quis que pagássemos sua conta e a de sua mulher: “Não, ganhei dinheiro no Brasil e vou gastá-lo no Brasil”. Finalmente, depois de duas caipirinhas, ouvindo-nos, a mim e aos outros colegas, chamá-lo o tempo todo de “professor Rorty”, disse: “Por favor, me chamem de Dick”. Dias depois de sua partida, chegou-me pelo correio um livro enviado por ele. O livro tratava de um assunto que, em conversa, havia dito que me interessava. Eu já tinha esquecido da conversa; “Dick”, não!
Para Rorty, pensar era um modo particular de viver, e viver era estar atento ao Outro. Era um exercício constante de colocar-se em seu lugar e imaginar o que poderia torná-lo mais livre ou mais submisso, mais feliz ou mais miserável, para, então, decidir o que era humanamente útil, e, conseqüentemente, moralmente verdadeiro. Embora agnóstico, é impossível não escutar em suas palavras e atitudes ecos da fé cristã de Agostinho, que traduzo, com “licença rortyana”, como: “Quem sou eu” e, “Quem eu amo quando amo o Outro”. Embora irônico, e, às vezes, brincalhão e provocador, é impossível não ouvir no que ele disse os rastros da “infinita responsabilidade pelo Outro” de Lévinas. Embora um asceta do pensamento, cuja sobriedade resistia à sedução de quaisquer piruetas conceituais, é impossível não ver o espectro do insaciável desejo de justiça de Derrida, sublinhando, suavemente, tudo o que escreveu. Em suma, o pensamento rortyano é um condensado, um magnífico breviário do que melhor se produziu em matéria de ética no domínio da ética ocidental. E, apesar de ser ele avesso à mitificação ou á mistificação dos grandes nomes da Antigüidade filosófica, não há como deixar de comparar sua obra com o que disse o estóico Sêneca: “Se a sabedoria só me for concedida na condição de a guardar para mim, sem a compartilhar, então, rejeitá-la-ei: nenhum bem há cuja posse não partilhada dê satisfação”.
Rorty foi um exemplo de dignidade em forma de vida. Infelizmente, estou certo de que nenhuma gratidão sentida pode estar à altura da dádiva recebida. Resta, então, dizer novamente com Sêneca: “nada nos pertence daquilo que o acaso nos traz”. Mas acrescentar com Freud que fazer o luto dos seres queridos significa guardá-los no coração e na memória para fazê-los viver além da morte. Adeus Rorty. Ou melhor, adeus “Dick”.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Os ladrões do tempo






Ano 20.311...


... no decorrer dos tempos a verdadeira natureza dos problemas ia-se revelando aos olhos alucinados da plebe.
Um dos descobrimentos mais marcantes foi, sem dúvida, o episódio dos “ladrões do tempo”:


Nos primeiros anos do 3º Milénio ( por volta de 2002) havia um grupo de indivíduos que tinham curiosamente a missão, ou a profissão, de fazer perder tempo aos demais. Havia-os de todas as categorias e género: eram os funcionários que faziam parar o tempo na burocracia do Estado, ou empresarial, até àqueles personagens cuja única missão era sair aos fins de semana para fazer perder tempo àqueles de também saíam para viver

...a missão destas pessoas era realmente fazer com que a vida livre em conjunto fosse impossível.

Estavam ainda na Internet, inundando de publicidade os diversos sites, fazendo impossível ler o correio electrónico, que chegavam ininterruptamente com aquele lixo, ou de outra forma qualquer, de tal modo que o resultado era uma sobredose de informação, completamente impossível de ser absorvida.

Estavam igualmente na rua, assaltando-te com panfletos publicitários, e todos os outros transeuntes, a quem abordavam sem parar de maneira a fazer-lhes perder tempo, e convertendo o contacto humano em algo artificial pelo uso de uma linguagem publicitária.

Parecia uma loucura pensar que estas pessoas estavam a trabalhar para o Sistema, mas a verdade é que, directa ou indirectamente, estavam-no a fazer

Eram pessoas que agiam sob as ordens de uma empresa que os havia contratado, e que se moviam com o objectivo de gerar a hipnose telepática da publicidade junto dos incautos

As empresas chegavam mesmo a publicar livros que eram convertidos em manuais de estudo nas escolas e nas universidades!

O resultado de tudo isto era um mundo inabitável, estranho, irreal, virtual

Acontecia o caso inclusivamente daquelas pessoas que queriam transformar o mundo, activistas da liberdade, e que passavam o seu tempo, encerrados, frente ao monitor, criando conteúdos web, muito ou pouco visitados, mas que eram exactamente os inputs da maquinaria e do complexo tecnológico industrial-capitalista..

Felizmente, pela mesma época, havia outras pessoas que se empenhavam em desertar deste sistema, regressando ao local , reinventando a convivialidade da cidade, exercendo o supremo direito de existir neste planeta, renunciando aos deus-dinheiro, e restabelecendo as relações naturais com a natureza, e que tentavam resgatar a fresca brisa da liberdade.

...e foram, estes últimos, os activistas que conseguiram transformar o mundo...


Fonte: (postado por viriat no Blog Pimenta Nergra - http://pimentanegra.blogspot.com/2005/02/os-ladres-do-tempo.html)

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Maneiras de ser, maneiras de sentir do indivíduo hipermoderno






Por: Claudine Haroche


Diretora de Pesquisas do CNRS; Membro do Cetsah (Centro de Estudos Interdisciplinares: Sociologia, Antropologia e História), na École d'Hautes Etudes en Sciences Sociales, Paris. 85 rue d'Assas, Paris 75006. clharoche@aol.com




Fonte: (Ágora (Rio J.) vol.7 no.2 Rio de Janeiro July/Dec. 2004)


RESUMO


A fluidez das sociedades contemporâneas, intrinsecamente destituídas de limites, provoca modificações das estruturas, suscetíveis de colocar em causa a possibilidade mesma de estruturação, até mesmo da existência do eu. Indaga-se, aqui, se as maneiras – mais fundamentalmente a capacidade de sentir –, declinaram "em se sentir", separadas doravante do fato de experimentar sentimentos, não seriam agora sinônimo de sensação.
Palavras-chave: Indivíduo, sentido, sentimento.


ABSTRACT


The fluidity of the contemporary society, intrinsically destituted by limitations, induces structural modifications, susceptible of putting in grounds the same possibility of structuralization, even so at the existence of the I. It is questioned here if the reasons – most fundamentally the capacity of feeling – declined to "feeling", separated from the experimentation of feeling, wouldn't them be, now, synonym of sensation.
Keywords: Individual, sense, feeling.


"Quando nos preocupamos, como eu há meio século, com o problema da relação entre indivíduo e sociedade, revela-se de forma evidente que esta relação não é fixa." (N. ELIAS, La société des individus )





Em 1938, Mauss publica "Uma categoria do espírito humano: a noção de pessoa, a noção de 'eu'", texto fundador, que foi lido, comentado e criticado e fomentou numerosos outros escritos.1


Marcel Mauss



Interessado na história social da "noção de pessoa e da noção de eu", Mauss formulou o problema em toda sua extensão, mas de forma muitas vezes imprecisa, intuitiva – será criticado por isso –, e profundamente estimulante.


Escreve:


"Desculpem-me se, resumindo certo número de pesquisas pessoais e inúmeras opiniões de que podemos traçar a história, adianto mais idéias do que provas [...]. É evidente, sobretudo para nós, que jamais existiu um ser humano que não tenha tido o sentido não apenas do seu corpo, mas também de sua individualidade ao mesmo tempo espiritual e corporal." (MAUSS, 1950/1983, p.359)2


Mauss afirma que "a noção de pessoa, longe de ser uma idéia primordial, inata e claramente inscrita [...] no mais profundo de nosso ser, [...] é ainda hoje imprecisa, necessitando de maior elaboração, [que] ela se constrói lentamente, se clarificando, se especificando, se identificando com o conhecimento de si, com a consciência psicológica [...]" E prossegue, formulando um questionamento extremamente contemporâneo: "Quem sabe se esta 'categoria' que todos acreditamos fundada será sempre reconhecida como tal?" (1950, p.359/362).


Uma observação preliminar: neste texto não distinguiremos o eu das noções de pessoa, personalidade, caráter, indivíduo, individualidade. Todos estes termos referem-se a um mesmo campo paradigmático, relativamente impreciso e movediço, conforme encontramos em vários autores, por exemplo (para citar apenas alguns) em Mauss (1950/1983), Durkheim (1894/1988), Simmel (1908/1999) ou Elias (1987/1991).3


O que interessa aqui é a existência de um desengajamento, fato sublinhado de forma reiterada em relação às sociedades contemporâneas: levanto a hipótese de que este desengajamento – este descompromisso resultante das sensações contínuas exercidas sobre o eu – influencia profundamente e de maneira insidiosa as relações entre sensação, percepção, consciência, reflexão e sentimentos, levando ao esmaecimento das fronteiras entre objetos materiais reais e imagens virtuais. Desengajamento este que toca os limites do eu,4 com efeitos sobre as maneiras de sentir e sobretudo sobre a capacidade mesma de sentir.5


As sociedades contemporâneas, sob o impacto da globalização, tendem a se tornar sociedades que se transformam de maneira contínua, sociedades flexíveis, sem fronteiras e sem limites, sociedades fluidas, sociedades líquidas. Essas condições têm conseqüências sobre os traços de personalidade que estimulam, desde os mais contingentes e superficiais aos mais profundos, os tipos de personalidade que permitem sejam desenvolvidos, e mesmo encorajados, e finalmente sobre a natureza das relações entre os indivíduos.6



A fluidez intrinsecamente destituída de limites acarreta modificações nas estruturas, sendo suscetível de colocar em questão a possibilidade de estruturação e mesmo de existência do eu.7



Pode-se pensar imerso na fluidez, sob a pressão permanente e ininterrupta do fluxo? O indivíduo hipermoderno pode, privado de tempo, da duração exigida pelos sentimentos, experimentar outra coisa além de sensações?


Pretendo aqui discutir certos traços de personalidade do indivíduo contemporâneo – ligados e mesmo atribuídos à flexibilidade e à fluidez – através das maneiras de ser, de se comportar e, também, ainda que esta seja uma questão problemática, das maneiras de sentir, de exprimir e da capacidade mesma de vivenciar sentimentos.8


Retomo, nessa perspectiva, uma hipótese conjetural difícil de discutir, aquela que Lasch (1979/2000), entre outros, que fala do declínio dos sentimentos, de uma dificuldade e, mesmo, de uma relativa incapacidade de experimentar sentimentos nas formas extremas de individualismo, nas sociedades narcisistas.



Christopher Lasch


É oportuno, portanto, que nos detenhamos tanto nos escritos de Durkheim como nos de Simmel para recolocar questões que dizem respeito às categorias, às classificações, às próprias condições de observação nas sociedades contemporâneas: essas sociedades conhecem uma sobreposição de referências, uma tendência à confusão, ao esmaecimento das fronteiras do íntimo, do privado e do público e, de maneira geral, uma psicologização das relações (HAROCHE, 2001).


Durkheim, ao estabelecer que "a condição de toda objetividade é a existência de um ponto de referência, constante e idêntico, ao qual a representação pode ser reportada e que permite eliminar tudo o que ela tem de variável, partindo do subjetivo" (1894/1988, p.137), nos deixa apreender a extraordinária dificuldade das condições de observação das sociedades contemporâneas: o variável, que era para Durkheim próprio da subjetividade, tornou-se uma dimensão específica das sociedades contemporâneas em seu conjunto. A variabilidade confunde-se, hoje, com a flexibilidade, levando pouco a pouco à fluidez.


Mas, quando Durkheim enuncia as condições liminares, indispensáveis à observação, nos possibilita compreender que, face à aceleração e fluidez dos mecanismos nas sociedades contemporâneas, a possibilidade mesma de observação é colocada em causa: "se os únicos pontos de referência dados são eles mesmos variáveis – escreve –, se são continuamente diversos em relação a si mesmos, toda medida comum está ausente e não temos nenhum meio de distinguir em nossas impressões o que depende do exterior e o que vem de nós" (1894/1988, p.137).


Preocupado com o equilíbrio nós-eu, com a interação e com o sentimento 'do eu' que aí se exprime, Simmel (1908/1999) coloca, ao descrever os processos presentes na modernidade, um conjunto de questões desenvolvidas igualmente por Elias e Fromm. Percebendo na fluidez um estado estrutural fundamental, mas algo limitado, um estado comensurável, Simmel nos permite entender alguns dos elementos essenciais dos processos em ação na fluidez ulterior das sociedades contemporâneas. Reconhece a existência de uma imprecisão das interações devido ao seu caráter intrinsecamente instável. Coloca que as interações oscilam entre a continuidade e a descontinuidade, a certeza e a incerteza e, através do conceito de interação, questiona a suposta nitidez presente na fronteira entre indivíduo e sociedade. Simmel (1908/1999) releva o movimento incessante, a mobilidade permanente, restritos à esfera do indivíduo, anunciando assim as questões mais atuais das sociedades contemporâneas: as que se referem aos limites, às fronteiras, às capacidades e atributos, aos traços característicos do indivíduo.



George Simmel

Valendo-se da noção de interação, Simmel (1908/1999) enfatiza algo de essencial no que se refere ao vínculo social, sua permanência ou declínio, e também quanto os modelos de comportamento, a forma como se estruturam e influenciam os sentimentos. Sublinha aquilo com que os sociólogos pouco se preocuparam: a natureza, a fraqueza ou intensidade dos vínculos, a qualidade das interações, apontando que ela é função da duração: é a duração que permite medir sua qualidade.9


Simmel (1998) toma o exemplo da fidelidade, vendo-a mais como um efeito dos modos de vida, das maneiras de ser do que como a conseqüência de elementos originais e indizíveis: assim nos leva a concluir que são os comportamentos que, por seu turno, provocam os sentimentos.10
Necessário se faz, portanto, pensar o que acontece com a qualidade das interações quando a flexibilidade e a fluidez dos sistemas econômicos contemporâneos impõem o imediatismo, o instantâneo nas relações, deixando de lado a eventualidade a até a capacidade de engajamento e de inscrição no tempo.11


No final dos anos 1980, Elias resume e formula com concisão extrema todo um conjunto de itens antes abordado por Mauss e por Simmel e que permanece problemático: a questão do equilíbrio nós-eu, da pertença, dos vínculos entre comunidade e sociedade, da alternância entre os processos de integração e de desintegração, a questão da instabilidade. Sintetiza os questionamentos atuais sobre a gênese e a definição problemática de indivíduo, percebendo alguns dos problemas maiores da contemporaneidade. Reiteradamente insiste na necessidade de se superar a idéia de uma oposição entre "indivíduo" e "sociedade".


Norbert Elias

Escreve: "Neste século XX, tudo leva a pensar que não se trata de um problema pontual e individual, mas [...] de um traço fundamental da estrutura da personalidade social dos indivíduos da época mais recente." Acrescentando: "...a tônica do vínculo modificou-se de forma decisiva com a modificação estrutural mais profunda da relação do indivíduo com todas as formas de grupo sociais" (ELIAS, 1987/1991, p.208, 261, 262, 263),

Elias retraça e explica a gênese, as origens de uma insegurança psíquica profunda, seus efeitos sobre as estruturas da personalidade social dos indivíduos. Insiste sobre a auto-reflexividade contínua, que nasce das relações não permanentes, "a grande variabilidade das relações entre os indivíduos", o que "os força constantemente [...] a um exame de suas relações que é ao mesmo tempo um exame de si mesmo" (ELIAS, 1987/1991, p.264). Traz à tona os processos, as estruturas, mas também os efeitos psicológicos que provocam.


Em Fear of freedom (O medo à liberdade), Fromm (1972) se debruça precisamente sobre estes efeitos psicológicos, elaborando reflexões que permanecem decisivas sobre os traços de personalidade, de caráter, os modelos de comportamento encorajados por um tipo específico de sociedade. (FROMM, 1994).12





Erich Fromm


Enquanto Elias (1987/1991) preocupa-se essencialmente com o domínio e controle dos afetos, Fromm, ao focar os processos subjacentes na emergência do indivíduo, situa-se de certa forma como pioneiro: sua atenção se volta para a gênese desses afetos – a dúvida, o medo, a ansiedade e o declínio concomitante da espontaneidade dos vínculos.

Posto que a personalidade autoritária é fortemente integrada, são os processos presentes nas estruturas da personalidade autoritária – mais do que os traços de personalidade respectivos – que podem contribuir para a compreensão do indivíduo contemporâneo. A personalidade autoritária, assim como a personalidade contemporânea, ameaça a idéia de individualidade, a autonomia, a singularidade, o não-conformismo e mesmo a própria idéia de personalidade.


Lembrando que a estrutura da sociedade e da personalidade modifica-se profundamente no final da Idade Média, Fromm enfatiza que o indivíduo se libertou dos vínculos pessoais tradicionais de indivíduo a indivíduo: esta emancipação afetará de modo radical a estrutura do caráter.


Fromm (1941/1994) traz assim à tona os processos que levam ao isolamento e à impotência do indivíduo, a falta de proteção das condições novas que provoca efeitos psicológicos maiores: a liberdade do indivíduo faz nascer a dúvida, a incerteza, um sentimento de impotência e de insegurança; esta autonomia acompanha a emergência de um sentimento problemático, complexo e que é fonte de angústia, o sentimento do eu, o medo de perder o eu.13


Fromm insiste, então, sobre a importância decisiva de se compreender a questão da dúvida, da incerteza, e também os tipos de respostas que lhe foram dadas. O autoritarismo constitui um dos dois mecanismos psíquicos através do qual o homem procura escapar do isolamento e do sentimento de impotência, de confusão engendrados pelo mundo moderno. O outro modo de reação constitui o que Fromm chama de "conformismo compulsivo", que evita o autoritarismo. Ele observa que é o "conformista" e não o autoritário quem tem condições de responder às necessidades das sociedades industriais avançadas (FROMM, 1941/1994).


Este conformismo, em nosso ponto de vista, ainda que interiorizando o autoritarismo sob formas particularmente insidiosas, pode muito bem integrar o movimento e a atividade incessante e compulsiva, encarnando-se nos tipos de personalidade contemporâneos.


Alguns trabalhos recentes – consagrados sobretudo à família, às telas, à Internet, ao trabalho, à psicologia contemporânea e, de maneira mais geral, aos efeitos do mercado e da globalização sobre o indivíduo – centraram-se na questão do eu, do indivíduo, da personalidade, do caráter contemporâneo: Lasch (1979/2000 e 1984), Turckle (1995), assim como Castel (2001), Haroche (2003), Enriquez (1991, 2002), Sennet (1998, 2000), Bauman (1999, 2001), Gauchet (1998) e Kauffman (2001, 2002, 2003) interessaram-se pela personalidade contemporânea, pela maneira de ser um indivíduo nas formas extremas do individualismo contemporâneo. Atentos a diferentes dimensões, eles se detiveram sobre os traços de comportamento e de caráter específicos, tais como a indiferença, o desinteresse, o desengajamento, a falta de elã, a ausência de espontaneidade, o cálculo permanente, a instrumentalização de si e do outro, os comportamentos fugidios, o desvencilhar-se.


Lasch (1979/2000) atribui as modificações conhecidas pelo indivíduo contemporâneo à evolução da família. A família burguesa, observa, citando Horkheimer (1972), "tinha como função fabricar um certo tipo de personalidade, um tipo de caráter autoritário" (LASCH, 1979/2000, p.91), mas hoje a família educa, constrói um tipo de personalidade radicalmente diferente, um tipo de personalidade descomprometida, adaptada à flexibilidade, sem engajamento com a duração. Lasch sublinha que os pais se abstêm hoje em dia de inculcar em seus filhos preceitos e normas inúteis em um mundo em constante transformação; a família, portanto, forma o indivíduo para vínculos que não engajem: "a flexibilidade na educação tornou-se uma necessidade absoluta" (1979/2000, p.134-141).


Sherry Turckle (1995), em trabalhos que incidem sobre os efeitos produzidos na identidade pela presença contínua das telas, interessou-se pela flexibilidade e a fragmentação do eu. Chama a atenção para a profunda evolução ocorrida entre o período em que falávamos de "forjar a personalidade", considerada como um todo, e o presente, quando não cessamos de construir e reconstruir identidades múltiplas, o que leva a um tipo de personalidade flexível. Corroborando, de certa maneira, o que dizia Lasch, Turckle enfatiza aquilo sobre o qual insistirá também Sennet: "a estabilidade era outrora social e culturalmente valorizada (...). O que é agora decisivo é a flexibilidade, a capacidade de adaptação e de mudança", privilegiadas em detrimento da estabilidade, considerada como rígida (TURCKLE, 1995, p.255).


Estudando a questão do trabalho, Sennet percebe uma "erosão do caráter" que leva à flexibilidade do sistema. Vê na idéia de "carreira", atualmente abandonada em proveito do job, a encarnação desta flexibilidade. Sennet lembra, então, que no inglês do século XIV "um job era um fragmento ou um pedaço de qualquer coisa", o que é traduzido no presente pelo caráter descontínuo, a atividade fragmentada e fracionada – psiquicamente fragmentária – do trabalho" (SENNET, 1998).14


Sennet se questiona sobre como "preservar aquilo que tem um valor durável em uma sociedade [...] que se interessa apenas pelo imediato?" (1998, p.11). Interroga-se, também, quanto a "como cultivar engajamentos a longo termo no seio de instituições que são constantemente deslocadas ou perpetuamente reelaboradas?" (1998, p.11). O fluxo contínuo, provocando efeitos de alienação profunda e destruição do eu, leva Sennet a insistir sobre a necessidade de se "salvar o sentimento de si do fluxo sensorial" (1998, p.61).15


Gauchet (1992), desenvolvendo trabalhos próximos aos de Lasch e Sennet e vendo no "desengajamento da pessoa" um fenômeno inédito, esboçou um quadro de conjunto da psicologia contemporânea, no qual observa o desaparecimento da distância na relação com o outro e na relação consigo mesmo, uma "aderência a si", que se transforma em traço característico da personalidade contemporânea. Desenha, então, um modelo de personalidade paradoxalmente irrefletida e imersa na auto-reflexividade permanente, na qual "ser eu mesmo" não significa mais "saber o que leva a agir com vontade e liberdade interior", não é estar paralisado mas poder movimentar-se, deslocar-se constantemente (GAUCHET, 1992, p.177).


O movimento contínuo entrava a possibilidade de reflexão, a eventualidade de uma hesitação, a possibilidade de distanciamento, os processos de elaboração das percepções a partir das sensações. A personalidade hipermoderna aparece como sendo sem engajamentos – o indivíduo está "ligado, mas distante". Experimenta "a necessidade da presença dos outros, mas afastado desses outros" (GAUCHET, 1992, p.179), abstratos, inconsistentes, permutáveis, inexistentes. Sem continuidade, sem aspirações afirmadas na duração, desengajado, o indivíduo hipermoderno, "na aderência a si" e no deslocamento incessante, consegue ser ele mesmo apenas "na medida que pode se desprender de todo modelo ou adesão qualquer que seja" (p.179). Ele se comunica ou se vincula apenas sob o modo da prudência, do controle de si, da dominação: "ele se afirma não ao se comprometer", observa ainda, "mas ao se destacar" (GAUCHET, 1992, p.172).16


Bauman (2001) vai enfatizar, em termos similares, um desengajamento análogo nos comportamentos, vendo na mobilidade, no deslocamento incessante, a quintessência do poder nas sociedades contemporâneas.


Z. Baumann

Descrevendo a atmosfera do funcionário e seu modo de vida, o trabalho, a cidade, Bauman percebe que "nada permanece parecido, imutável, durante muito tempo, nada dura o suficiente para se tornar familiar, acolhedor e tranqüilo" (BAUMAN, 2001, p.46), nada responde às aspirações de vínculo e à necessidade de pertencimento. As lojas desaparecem, os rostos atrás dos balcões não cessam de mudar. Em resumo, observa Bauman, esmaece, desaparece "tudo o que é contínuo, estável e sólido [...] o que sugeria a existência de um quadro social durável, seguro, pacífico e pacificador. Esmaece, ainda, a certeza de poder se rever regularmente, com freqüência e durante muito tempo" (BAUMAN, 2001, p.47).


Todas essas observações constituem, pode-se dizer, "os fundamentos epistemológicos da experiência da comunidade. Ficamos tentados a dizer de uma comunidade estreitamente unida" (BAUMAN, 2001, p.47). É tal experiência que agora faz falta, é sua ausência que explica o declínio da comunidade: a falta de expectativas, de elãs; os vínculos da comunidade tornaram-se pouco a pouco consumíveis, "perecíveis" (2001, p.48).



Dick Pountain e David Robins pensam que o descomprometimento, o desengajamento, o frio, definem no presente o espírito do tempo. "Cool significa a capacidade de fugir, de escapar dos sentimentos, de viver em um mundo fácil, que questiona e recusa os vínculos possessivos" (BAUMAN, 2001, p.51-52).17

Os engajamentos duráveis, que constroem vínculos, em que a individualidade é valorizada pela exigência, foram substituídos por encontros breves, banais e intercambiáveis, encontros em que as relações começam tão rápido quanto terminam.


Os vínculos são mais frágeis e efêmeros. Hoje, o estar junto tende a ser breve, de curta duração e desprovido de projetos: o desengajamento aparece assim como um novo modo de poder e dominação. O comportamento das elites aparece imediata e fundamentalmente como "a capacidade de escapar da comunidade" (BAUMAN, 2001, p.57).


Em artigo recente, Dany Robert Dufour (2003) chama a atenção para a existência de uma estupefação profunda e mesmo de um niilismo, explicados pela aceleração da difusão do modelo de mercado. Ao descrever os processos presentes no niilismo contemporâneo que respondem a imperativos econômicos funcionais, Dufour esclarece as razões da fluidez fundamental das sociedades de mercado contemporâneas, quando se necessita de "tudo menos do que se possa entravar a circulação das mercadorias" (2003, 168), assim como seus efeitos psicológicos sobre o indivíduo, "efeitos desestruturantes que provocam uma profunda redefinição da forma moderna do sujeito" (2003, p.163).


Dufour afirma que o mercado esforça-se em suprimir as resistências do sujeito, as hesitações, as indecisões, as reflexões: "o mercado acomoda-se mal com um traço específico da forma sujeito", observa, "o livre-arbítrio crítico que leva, com efeito, a discutir tudo, a constantemente retardar a decisão de compra". O mercado procura "suprimir os vínculos, os elos, os sentimentos que não podem ser convertidos em valores mercantis": o mercado procura, assim, estimular continuamente as sensações para desenvolver o consumo e dispor, como diz Dufour, "de indivíduos definidos por nada além do que a necessidade de consumo sempre ampliada" (2003, p.170).18


Lasch falou do "porto" que significa a família para os indivíduos isolados em um mundo indiferente, sem coração, um mundo duro e frio. Elias, de forma mais genérica, discutiu a "necessidade elementar de calor direto e de espontaneidade que todo indivíduo experimenta e suas relações com os outros".19



Ora, a fluidez isola, entrava e evita os vínculos, os elos e os elãs: tende a produzir vínculos formais e superficiais, um falso vínculo e, até mesmo, a ausência de vínculo; ela se acompanha do medo do vínculo, dos outros.20


Penso ser relevante, então, que nos interroguemos sobre a imbricação, o papel respectivo das sensações e dos sentimentos no indivíduo contemporâneo; é importante que retomemos os questionamentos gerais presentes em trabalhos seminais, tanto em filosofia política e sociologia quanto em psicologia social: obras que questionaram a maneira como exprimimos os sentimentos, os momentos, a qualidade e a natureza daquilo que exprimimos e, também, daquilo que – deliberada ou involuntariamente – não exprimimos, aquilo que calamos ou recalcamos de maneira permanente e, além disso, obras que pensaram sobre a ausência e mesmo a incapacidade de vivenciar sentimentos espontâneos.21



Mauss, em texto de 1921 dedicado à "expressão obrigatória dos sentimentos", esboçou questões que se colocam hoje com insistência. Urge que o retomemos, pois sua leitura permite repensar a questão da pessoa e as maneiras de ser e de sentir do indivíduo contemporâneo (1950/1983).22



Observava então Mauss:



"Toda espécie de expressão oral dos sentimentos [...] é em essência não um fenômeno exclusivamente psicológico, ou fisiológico, mas fenômenos sociais, marcados eminentemente pelo signo da não espontaneidade e da mais perfeita obrigação" (1950/1983, p.269). Se Mauss admitia que os ritos mais simples que estudara "não têm um caráter completamente público e social", notava, no entanto, que "lhes falta em alto grau todo caráter de expressão individual do sentimento experimentado de forma puramente individual" (1950/1983, p.272).



Afastando a questão da espontaneidade individual, Mauss abordou os sentimentos através de modelos, de rituais, da ritualização dos sentimentos, sublinhando que "é preciso que eles sejam ditos, mas se é preciso dizê-los é porque todo o grupo os compreende" (1950/1983, p.277). Insistiu, assim, que "fazemos, portanto, mais do que manifestar nossos sentimentos, nós os manifestamos aos outros, pois é preciso manifestá-los. Manifestamos a nós mesmos exprimindo-os aos outros e em virtude dos outros" (1950/1983, p.278). Este é o sentido que apreendeu das convenções e regularidades que despertavam sua atenção.


Faz-se necessário agora abordar o estudo dos sentimentos pelo viés da relação ao tempo e buscar pensar as duas dimensões presentes na ritualização dos sentimentos: a ausência de duração e a ausência de sentido. A falta de tempo precede atualmente a expressão dos sentimentos? Fato desconcertante para nossa maneira de conceber os sentimentos como pertencendo à esfera do irracional e mesmo do indizível: a inteligibilidade, a perda do sentido na relação consigo e com o outro revela um entrave, um declínio e mesmo uma incapacidade não tanto de exprimir sentimentos, mas de experimentá-los, de senti-los?


Pode-se conceber e imaginar uma sociedade sem afetos, sem sentimentos; não se pode concebê-la sem rituais discerníveis, inteligíveis, reconhecidos.


A capacidade de sentir estaria declinando nas formas extremas de individualismo? A ininteligibilidade provocada pelas sensações contínuas teria ao mesmo tempo afastado a expressão dos sentimentos em relação aos outros e a si mesmo, a capacidade de vivenciar sentimentos? O sentir tenderia hoje a se atrelar e a se confundir com a sensação, o fluxo? Sentir pode ainda ser considerado como sendo da ordem do sentido e do sentimento inscrito na duração? São questões que, de meu ponto de vista, se situam no cerne da problemática do indivíduo hipermoderno.

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Tradução da autora

Notas



1 Dentre os textos que lhe foram dedicados, destacamos: Carrithers, Collins e Lukes (org.) (1985), sobretudo os artigos de Louis Dumont, "A modified view of our origins: the Christian beginnings of modern individualism", p.93-123, e de Charles Taylor, "The person", p.257-282.

2 Estas questões são retomadas, desenvolvidas e comentadas em Collins e Lukes (1985). Lukes sublinha que é preciso talvez reconhecer aí uma "estrutura de sentimento", uma "atitude geral" ou, ainda, um tipo de crença "que perdura em diferentes formas culturais" (p.285). Carrithers, frisando que Mauss "deixa de lado tudo o que está ligado ao eu, à personalidade consciente enquanto tal", observa que no texto de Mauss "apenas o legal, o social ou ainda o político importa, pouco contam o psíquico ou o filosófico". E acrescenta: "o eu é colocado em aposição à pessoa [...] como se para as sociedades ocidentais modernas fossem a mesma coisa". Na verdade, observa, Mauss coloca que "pessoa = eu, e que o eu equivale à consciência" e que o fato de a "pessoa ter uma história social e legal não tem nada de surpreendente: a história social e legal é precisamente o que permite a especificidade da pessoa" (p.234-236).

3 A respeito do eu, do sentimento de si, ver Freud (1921/1981, 1923/1981) e Janet (1889/1989). Observa-se que, em Mauss (1950/1983), palavras referentes à pessoa aparecem vinculadas à família, enquanto que Elias (1987/1991) privilegiará o indivíduo.

4. Sobre as relações entre sensação, percepção e idéias, ver Locke (1690/2001). A obra trata de questões ligadas àquelas que Durkheim abordará mais tarde: a necessidade de que a ciência "afastando as noções comuns e as palavras que as exprimem, retorne à sensação, matéria-prima e necessária de todos os conceitos. É da sensação que provém todas as idéias gerais, verdadeiras ou falsas, científicas ou gerais" (DURKHEIM, 1894/1988, p.136). Sobre as relações entre reflexão e reflexo, ver Gauchet (1992), que cita e comenta uma passagem de Valéry sobre o ato reflexo: "a divisão e a distribuição dos atos-acontecimentos que estão em jogo na transformação [dos] atos reflexos ou automáticos em atos refletidos", acrescentando que o "ato reflexo é indivisível - e realizado exteriormente antes que se possa pará-lo. [...] O ato refletido [...] é um reflexo retardado - presumido - que uma sensibilidade especial - que tem ou não o tempo de intervir - reprime, equilibra ou sustenta". Gauchet retém a conclusão de Valéry: "o estado nascente do refletido é reflexo" (GAUCHET, 1992, p.162-163).

5 Tomo emprestado de Durkheim a expressão "maneiras de ser e de sentir": "as maneiras de agir, de pensar e de sentir que apresentam a notável propriedade de existirem fora das consciências individuais" (1894/1988, p.96).

6 A propósito da análise das sociedades contemporâneas, ver os trabalhos de Balandier, sobretudo Le dedale (1994). Sobre a questão do desengajamento nas sociedades contemporâneas, ver Bauman (1998, 1999).

7 A propósito da formação e mecanismos do eu, ver Anzieu (1985), Anzieu et al. (1993), Bauman (2000).

8 O caráter extremamente complexo da questão refere-se ao fato de podermos experimentar sentimentos e exprimi-los, podermos nada exprimir e nada vivenciar, podermos ainda vivenciar sentimentos sem exprimi-los, podermos também exprimir sentimentos sem vivenciá-los. Durkheim observou que "nem Locke, nem Condillac consideraram os fenômenos psíquicos objetivamente. [...] Eis a razão por que, ainda que em certos aspectos tenham preparado o advento da psicologia científica, ela nasceu apenas muito mais tarde, quando enfim se chegou à concepção de que os estados de consciência podem e devem ser considerados do exterior e não do ponto de vista da consciência que os experimenta" (1894/1988, p.123). Para uma primeira aproximação do estudo dos sentimentos, ver o conjunto das contribuições de Le ressentiment, organizado por Ansart (2002), particularmente Haroche em "Eléments d'une anthropologie politique du ressentiment. Genèse des sentiments dans les processus de frustration et de refoulement". Ver, também, "Reflexões sobre a personalidade democrática", in Duarte, Lopreato e Magalhães (orgs.) (2004).

9 Ver, também, "La fidélité. Essai de socio-psychologie" (SIMMEL, 1998).

10 Cf. Simmel (1998) e Haroche (2001).

11 Ver, sobre esta questão, Bauman (1995).

12 Ver também Reich (1933); Adorno e Horkheimer (1944); Polanyi (1944/1983). Mais recentemente, Castoriadis (1990, 1996, 1997).

13 Precisando os efeitos da emancipação evocados por Fromm, Elias (1987/1991) vai enfatizar que o indivíduo era ou devia ser autônomo. "O termo 'indivíduo' tem hoje essencialmente por função exprimir que toda pessoa humana, em todas as partes do mundo, é ou deve ser um ser autônomo que comanda sua própria vida e, ao mesmo tempo, que toda pessoa humana é em certos aspectos diferente de todas as outras, ou, talvez, deveria sê-lo. Realidade fatual e postulado confundem-se com facilidaade quando empregamos esta palavra" (p.208).

14 De acordo com Sennet (1998): "Em suas origens inglesas, a palavra 'carrière' designava uma estrada para os carros (carriages); aplicada finalmente ao trabalho, designava a via pela qual se seguia a vida em seus propósitos econômicos" (p.9).

15 O eu estaria conhecendo no presente um momento inédito de alienação. Conforme Marx (1844/1996, 1859/1985).

16 Gauchet (2003) enfatizou recentemente que "nos encontramos face a indivíduos que querem [...] existir por si mesmos, mas não pertencer" (p.334).

17 D. Pountain, D. Robins to cool to care, citado por Bauman (2001, p.51-52).

18 O que se traduz nas observações de Kauffman (2001), que percebe uma mutação antropológica profunda que concerne ao eu, a busca permanente de visibilidade de si, a produção mesma do eu na visibilidade e quantidade: "a identidade, outrora outorgada pelo lugar social, deve agora ser produzida em uma quantidade tão grande quanto possível, ampliada em seu ser pelas imagens e outros traços de si" (p.123).

19 Existem limites à variação para que a pessoa permaneça a pessoa? São necessários limites - leis, regras, normas - para que as pessoas sejam protegidas e, mais do que isso, para que possam existir. Cf. Edelman (1999).

20 Cf. Haroche (2001).

21 Sobre a importância da espontaneidade, ver Stuart Mill (1859/1999); Arendt (1951/1972). Sobre o recalque, ver Ansart (2002); Godelier (1996/2003).

22 Cf. "L'expression obligatoire des sentiments (rituels oraux funéraires australiens)", de 1921.