segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

O neoliberalismo foi apenas um parêntese de loucura

Giovanni Arrighi



Entrevista com Giovanni Arrighi

Fonte: http://www.unisinos.br/_ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=12075



Giovanni Arrighi não acredita realmente na existência de um grande cassino da economia mundial. É um estudioso que sempre acreditou na dimensão histórica, "processual", dos fenômenos sociais e econômicos. Em seu último livro, que na Itália será editado pela Feltrinelli com o título Adam Smith em Pequim, o estudioso italiano, professor na Universidade John Hopkins e diretor nessa mesma Universidade do Centro Fernand Braudel, propõe uma análise do capitalismo histórico tão fascinante quanto discutível.

Sua tese é que o centro da economia mundial foi deslocado para Pequim, ao passo que os Estados Unidos continuam seu lento, mas inexorável declínio. Uma tese "partidista", que discute criticamente a distância com aqueles que, como o geógrafo marxista David Harvey ou a ativista Naomi Klein, consideram fundamental sistematizar teoricamente o ciclo neoliberal, considerado por Arrighi apenas um parêntese, ao contrário daqueles que o consideraram como um modelo social cuja compreensão ajudaria a entender as tendências do desenvolvimento econômico capitalista.

A entrevista foi realizada em Roma, onde Arrighi foi participar de um seminário organizado pelo Centro de Reforma do Estado, sobre o qual escreveu neste jornal Angela Pascucci, Il Manifesto, 22-01-08, e que foi testemunha ativa da reunião e da discussão produzida durante a mesma.

A entrevista, dada a Benedetto Vecchi, foi publicada originalmente no Il Manifesto, 23-01-2008. Para fins de tradução tomamos aqui uma versão espanhola reproduzida no sítio La Haine, 6-02-2008, entre outros. Na entrevista, Arrighi fala sobre as principais teses que defende no seu novo livro Adam Smith em Pequim, cuja edição brasileira está sendo realizada pela Boitempo Editorial. A tradução é do Cepat.

Adam Smith em Pequim começa com a fascinante sugestão sobre o retorno do baricentro da economia mundial à China, uma sociedade de mercado não capitalista. Uma imagem que contradiz as estatísticas, assim como as análises procedentes de sua realidade, que descrevem um país que tomou decisivamente o caminho do capitalismo. No final do livro, a sociedade de mercado não capitalista se converte mais numa esperança que numa realidade. Em que ponto estamos?

Não falaria de um caráter cíclico do desenvolvimento histórico. Para começar se recorda que a Europa conheceu um desenvolvimento capitalista com características únicas, cujo início coincide com o arranque da "grande divergência" entre Oriente e Ocidente. A aposta teórica sobre a qual é preciso se basear é entender porque o desenvolvimento capitalista mostra limites evidentes e porque a Ásia e a China em particular, se converteram no centro do mercado mundial, tal como eram no começo da grande divergência.

A China tem uma longa tradição de economia de mercado onde estiveram presentes elementos capitalistas muito inovadores. Ao mesmo tempo, a existência de uma diáspora chinesa permitiu sempre a este país ter uma estreita relação com o resto da Ásia e, a partir do século XIX, também com os Estados Unidos. Entretanto, a partir do século XV nenhum capitalista chinês tratou de controlar o Estado, fator indispensável para exercer uma hegemonia sobre a sociedade, como sustentaram, ainda que a partir de prospectivas nem sempre coincidentes, Karl Marx e Fernand Braudel.

Portanto, não expresso uma esperança, mas examino a possibilidade de que em tal país esteja tomando forma uma sociedade de mercado não capitalista. O que não exclui a possibilidade de que, pelo contrário, se desenvolva um sistema capitalista.

André Gunder Frank



André Gunder Frank, a quem dediquei o livro, me repetia, antes de morrer, que se abandonasse a categoria capitalismo. Não estava de acordo, mas sua provocação pode ser acolhida como um convite para considerar o capitalismo como uma realidade que, como escreveu Fernand Braudel, deve mudar continuamente para sobreviver.

De fato, o capitalismo se caracterizou pela escravidão e pela expansão territorial. E por isso tivemos o colonialismo e formas agressivas de imperialismo. Depois houve o welfare state nos países centrais e diversas formas de subordinação política e econômica de grande parte da população mundial. Agora estamos assistindo ao esgotamento do impulso propulsor constituído pelo militarismo e o imperialismo. Portanto, é evidente a perda da capacidade heurística dos paradigmas utilizados até aqui para compreender para onde se encaminha a economia mundial.

No Manifesto do Partido Comunista, Marx e Engels prospectam uma homologação capitalista do mundo. Isto os leva a uma ênfase, muito discutível, no caráter progressivo do capital. Sua profecia não está muito longe do "mundo plano" de uma analista liberal como Thomas Friedman. O mundo atual, no entanto, é tudo menos plano, como evidenciam os acontecimentos chineses.

Não sei se a China é capitalista ou um socialismo de mercado, mas sua irrupção na cena mundial provoca uma mudança de relações no sistema interestatal e que o Sul se apresenta agora com uma posição de força em relação ao Norte do mundo. Ultimamente, falei com freqüência da possibilidade de uma "nova Bandung". Quer dizer, de um entendimento entre os países do Sul do mundo, baseado em seu aumento de peso no mercado mundial.

A utilização que fazes de Adam Smith é fascinante. Enquanto o ensaísmo dominante o descreve como o teórico do capitalismo, tu o consideras como um estudioso favorável ao mercado, mas não do capitalismo. Mesmo assim, o autor de Riqueza das Nações tem como objetivo elaborar categorias úteis para compreender o funcionamento do capitalismo. Nós nos limitamos a perceber uma grande mudança, mas temos dificuldades para inovar as categorias úteis para entender as transformações em curso. Te proponho uma provocação: a análise do tão maltratado Lênin sobre o capitalismo de estado administrado pelo partido poderia ajudar a entender o dinamismo econômicos na Ásia oriental ou no Sudeste asiático. Não crês?

Podemos sustentar que existem diversas formas através das quais as elites nacionais exercem o poder de governo na sociedade. Uma tese já avançada precisamente por Adam Smith. Na China, as reformas de Deng Xsiao Ping foram lançadas para salvar a revolução popular da revolução cultural e se centravam no campo. Foi depois que chegaram os capitais estrangeiros. Nos anos 90 a situação escapou das mãos do grupo dirigente, que agora tenta retomar o controle. Deixam-me muito perplexo algumas leituras sobre o caráter totalitário da sociedade chinesa, marcada historicamente pelas revoltas contra o poder central ou local. Atualmente, o número de greves, manifestações, revoltas, é impressionante. E são revoluções que implicam centenas de milhões de homens e mulheres.





O partido comunista chinês tem, portanto, o problema de conter esta tendência à revolta. Há também outro aspecto sobre o qual poucos se detêm. No último decênio aconteceu, por exemplo, que a maior parte dos quadros intermediários se voltou para os negócios. Portanto, o vértice do partido e do Estado não dispõe da câmara de compensação necessária para exercer um governo sobre a sociedade.

No teu livro escreves que a crise das bolsas não é uma tragédia...

A crise das bolsas provoca empobrecimento. Isto é indubitável. Mas se pensarmos em termos de sistema, é benéfica, porque põe fim à loucura dos anos 80 e 90 caracterizada pela corrida espasmódica para conseguir superlucros. Duas décadas durante as quais ocorreu de tudo. Crescimento do crédito para o consumo, aquisição por parte do Sul do mundo dos bônus do Tesouro americano, que arrojaram uma massa de capital monetário nos Estados Unidos que alimentou o financiamento da economia. Se não houve uma derrocada, devemos dar graças ao Sul do mundo que alimentou a demanda mundial, produziu mercadorias de baixo custo para os consumidores norte-americanos e, em menor medida, europeus; tanto a China como o Japão adquirem, nos anos 80, bônus do Tesouro americano através dos quais os Estados Unidos financiam seu domínio no mundo.

A crise das bolsas põe fim a esta loucura. Também marca o fim da hegemonia americana na economia mundial. Agora a locomotiva está representada pela China e, em menor medida, pela Índia, que sustentam a demanda. Outra coisa é o problema de como fazer frente às conseqüência sociais da crise das bolsas. Em relação a isso, me parece que as propostas existentes são, para dizer pouco, deprimentes.

Como escreves num certo ponto, citando uma conhecida frase de Marx, para compreender o capitalismo falta desvelar o segredo dos laboratórios da produção...

Uma indicação metodológica de Marx que os marxistas logo tiraram. Foi Mario Tronti com "Operários e capital" que novamente a pôs a reluzir. Entretanto, duvido muito que a indicação de descer aos laboratórios da produção ajude a compreender algum segredo. Para compreender o funcionamento do capitalismo devemos tomar em conta a proliferação de formas econômicas de mercado, ainda que não necessariamente capitalistas. E também a simultaneidade de diversos modelos de capitalismo.

O "mundo não será plano", mas então por que não pensar que existem também, simultaneamente, diversos modelos produtivos interdependentes entre si? O Vale do Silício, por exemplo, não pode existir sem o "lager" onde se produzem microchips com força de trabalho quase reduzida à escravidão ou a uma condição carcerária. Em outras palavras, a higt-tech ou as biotecnologias tem uma dupla conexão com a militarização do trabalho, presente tanto no Norte como no Sul do mundo...

Seria preciso escrever outro livro para responder a esta pergunta. No momento, o que me interessa é compreender o papel exercido pelo militarismo. Muitas inovações produtivas foram conseqüência, por exemplo, da produção de armas. Por outro lado, sou polêmico com aqueles que fazem coincidir o capitalismo com sua fase industrial.

O Vale do Silício não é industrialismo...

Certo. Estou convencido da crise do fordismo. Se é preciso falar de um modelo produtivo emergente, este é Wal-Mart. Repito: se quisermos entender como o capitalismo exerceu sua hegemonia sobre grande parte da população mundial, é preciso tratar de compreender a relação entre militarismo e imperialismo. O que significa expansão e conquista territorial. Por exemplo, o capitalismo se desenvolveu através da escravidão...

Mas nos Estados Unidos a escravidão convivia com a indústria do aço que inova profundamente a produção...

Sim, mas o elemento fundamental para compreender a difusão do capitalismo e a hegemonia que exerce no mundo deve compreender o papel do militarismo, da potência militar. Disse há pouco que existe uma atitude para a insubordinação na sociedade chinesa. Mas não se compreende qual é a relação entre esta conflitualidade difusa e o poder político. Como se resolve, então, a relação entre movimentos e instituições?





A revolução constituiu uma vertente na história chinesa. A partir de então o arbítrio do Estado pode ser contestado. E quando isso ocorre, as formas da crítica vão desde a greve até a verdadeira revolta. Durante uma visita à China falei com um quadro do partido que havia constituído uma jont-venture com uma empresa francesa para a produção de champagne na China. Chegados a um certo ponto, a seção local do partido propôs a expropriação da terra. Os camponeses seqüestraram os dirigentes de fazendas, os funcionários estatais e os do partido, pondo uma condição: "iremos libertá-los apenas se assinarem um acordo de que a terra continuará sendo cultivada por nós". O partido assinou o acordo rapidamente.

Gosto de lembrar este episódio porque indica claramente que o partido pode decidir isto ou aquilo, mas se os homens e mulheres objeto das decisões não estiverem de acordo nada se faz, porque se sentem legitimados por alguns princípios de base da revolução.

Pelo que dizes, não estás em sintonia com aqueles que sustentam que o neoliberalismo é o modelo hegemônico no capitalismo...

O neoliberalismo foi um parêntese de loucura com que os Estados Unidos e seu fiel aliado, a Inglaterra, trataram de impor seu modelo. Mas ambos fracassaram, como testemunham a queda das bolsas e a derrota norte-americana no Iraque. Estamos numa fase turbulenta cujas saídas são ainda difíceis de prever. No momento, grande é a desordem debaixo do céu, mas não sei se a situação é excelente.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Escapando da Era Negra

Robert Anton Wilson


Por: Robert Anton Wilson

Extraído de: http://www.rizoma.net/interna.php?id=183&secao=neuropolitica





O livro final de Bucky Fuller - deixado incompleto quando este morreu em 1983 - finalmente alcançou as prateleiras, depois de uma cuidadosa edição e reorganização pelo homem que Bucky chamava de "seu adjuvante", Kiyoshi Kuromyia. Antes de falar alguma coisa sobre essa obra prima, sugiro que você aprenda um pouco sobre a precisão matemática da mente de Bucky Fuller, procurando num dicionário a palavra "adjuvante", que preferia em lugar de "associado", e "cosmografia", que define melhor o seu tópico de interesse do que "cosmologia".

Fuller sempre utilizou a palavra precisa para denotar o significado exato daquilo que desejava transmitir e com freqüência notei que aproveitava melhor os seus livros com um dicionário ao lado, não apenas para encontrar o significado de palavras pouco familiares, mas quando eu suspeitava ter perdido alguma nuance ou dimensão.

Entrevistando Bucky alguns meses antes de sua morte, perguntei-lhe o que é que uma pessoa ordinária (não treinada em matemática ou engenharia) poderia fazer para melhorar o "plano da revolução científica" que instava. Ele não hesitou mais que dois segundos e respondeu: "vivendo com integridade".

"Isto é tudo? ", perguntei, algo mistificado.

"É o necessário e suficiente", replicou ele. Reli este comentário e as palavras "integridade", "necessário", "suficiente" pelo menos uma vez por semana nestes últimos dez anos. Sempre obtenho novos insights a partir desse processo de repensar - insights sobre Fuller, sobre a ética científica e até mesmo sobre o Budismo.


Buckminster Fuller


Uma passagem característica das duas últimas páginas de "Cosmography" explora os mesmos pensamentos, com mais luz e claridade:

"Umas poucas instâncias de reflexos condicionados persistentes e mal-colocados são popularmente, a falha, o fato agora cientificamente provado que não existem raças ou classes diferentes de humanos; a falha de reconhecer a obsolescência tecnológica da suposição Malthusiana-Darwiniana aceita como política mundial global de uma inadequação inerente da manutenção da vida e daí, "a sobrevivência apenas dos mais fortes"; a falha em ratificar o ERA (adendo constitucional de igualdade de direitos para as mulheres) pela democracia que até o momento atual na história representa a população mais misturada do mundo ou, frente á ampla capacidade de produção de alimentos para todos os seres terrestres, termos o fato da tolerância de todos os sistemas de mercados com o sistema que resulta em milhões de humanos morrendo de fome a cada ano.

"A persistência insensata e não-desafiada de uma miríade de tais reflexos cerebrais mal-formados irá sinalizar tamanha falta de integridade das pessoas que poderá determinar a desqualificação da humanidade e sua eliminação pelo holocausto atômico".

"Você poderá sentir-se impotente para tentar parar a bomba. Para você, a conexão entre os direitos iguais e o holocausto atômico poderá parecer-lhe remota, de início. Tenho confiança que aquilo que estou dizendo é verdadeiro".





Em uma linguagem menos exata, pré-Fulleriana, os reflexos condicionados nos governam mais que nossas mentes. A falha da inclusão do ERA indica a persistência de um daqueles reflexos sem mente. A soma total desses reflexos criam todos nossos problemas planetários. Esses problemas globais sinergeticamente somam-se em direção a uma tendência à incessante repetição de hábitos obsoletos - hábitos que agora colocam nossa sobrevivência em perigo.

A Integridade, significando a mente atuando de forma honesta e criativa, lutando contra seus próprios reflexos condicionados, funciona como a única força trabalhando para contrabalançar esse impulso mecânico-condicionado em direção ao holocausto.

Mais no início de seu livro, Fuller lista os condicionamentos maiores do cérebro que são subjacentes a todas as confusões do Universo e nossa própria posição. Tais erros habituais indicam que permanecemos aprisionados na "Era Negra" pelos "termos nos quais fomos condicionados a pensar":

1. A crença na objetividade (ou externalidade) de "cima" e "baixo".

2. A crença de que as linhas retas estendem-se ao infinito.

3. A crença em medidas baseadas em quadrados fictícios e cubos não-existentes.

4. Q crença que os "sólidos" são realmente sólidos.

5. A crença que várias linhas podem passar pelo mesmo ponto ao mesmo tempo.

6. A crença num mundo tridimensional independente de nossos reflexos cerebrais.

7. A crença de que existe mais que uma raça de seres humanos.

8. A crença que o Universo contém um Deus masculino e que fora "dele" tudo o mais de importância é humano e dominado pelo macho. (Penso que se Fuller tivesse vivido para dar polimento e afinação ao livro, teria acrescentado mais alguns "erros fundamentais", por exemplo:

9. A crença que o dinheiro existe independentemente de nossos cérebros e somente numa quantidade limitada e,

10. A crença que os recursos também existem apenas em quantidades limitadas. (Ou talvez ele considerasse esses erros - enormes e custosos - como não fundamentais, mas derivativos dos erros primários?)

Embora a maioria dos físicos e matemáticos concordem com Fuller sobre a falácia de todas as crenças citadas acima, ele não se preocupa em citar muitos dos seus trabalhos. Ao invés, leva-nos, passo a passo, através da visão de mundo alternativa que criou desde 1927, na qual o Universo não tem nem "cima" nem "baixo", ou "linhas retas", as tensões e compressões em sistemas geodésicos oferecem formulações mais simples e elegantes de nosso mundo do que o sistema tradicional Euclidiano-Aristoteliano-Newtoniano ou os sistemas revisados "modernos" que ainda fazem uso de geometrias pré-Fullerianas.

Todos os paradoxos e espantosas Alças Estranhas que infestam a ciência "moderna" (pós-quântica) agora aparecem, dentro da perspectiva fulleriana, como resultantes da aplicação da algebratização de Descartes de uma geometria de terra-plana de Euclides sobre um espaço esférico onde Euclides simplesmente não funciona. Na geometria de Fuller, os paradoxos e Alças Estranhas simplesmente não acontecem. O Universo torna-se espantosamente racional, novamente.

Uma das passagens mais belas e inovadoras (pp.146-159) explica, em termos da geometria sinergética de Fuller, a forma mais simples de sinergia reconhecida pela ciência - o porquê de uma liga de dois metais acabar produzindo um todo mais forte que a soma de cada uma das partes. Numa precisão matemática maravilhosa, essas páginas provam mais do que os últimos 3.000 livros sobre o "holismo" produzidos por entusiastas intuitivos que nunca aprenderam a disciplinar suas intuições, como faz Fuller, com a lógica pura. Você não consegue ler aquelas páginas sem um novo e sublime insight sobre o que o "holismo"(ou como preferia Fuller, a sinergia) realmente significa e também o quanto do Universo também funciona nesses modos não-lineares e não-somatórios.




Num sentido, aquelas poucas páginas apenas podem elevá-lo da Era Negra Atual prevalente, se você lê-las com uma atenção total. Beleza e lógica iguais, em minha opinião, permeiam a discussão Fulleriana inteira sobre o "reflexo" e "mente". Os reflexos mecânicos ocorrem em cérebros humanos, como em todos os cérebros animais, diz ele, mas a "mente" apenas se manifesta quando um humando, utilizando tanto a intuição quanto a lógica, percebe uma generalização não-local. Em outras palavras, os reflexos somam-se num número finito de experiências-casos especiais, mas a mente habita diretamente o mesmo campo meta-físico (isto é, não-local) que a lei cósmica.

Abstrato demais? Deixe-me tentar novamente: tanto a mente como as leis cósmicas que ela transcreve permanecem não-locais, não-específicas, sem peso, sem massa, sem temperatura. Em todos esses aspectos, diferem de reflexos e de outros sistema mecânicos que sempre apresentam localidade, especificidade, peso, massa e temperatura. Onde a mente, neste sentido Fulleriano não tem o domínio, os reflexos preenchem este espaço e quando tornam-se obsoletos, ainda assim o mundo continua as mesmas brutalidades estúpidas, como as pessoas mecânicas presas numa peça de Beckett.

Fuller diz melhor, mas em palavras que você tem de ler mais devagar. A maior parte da Cosmography, utilizando diagramas sinergéticos simples, tenta mostrar a bela coerência do Universo pós-Einsteniando e assim tenta nos livrar de outras repetições mecânicas de nossos errados conceitos de "cima" e "baixo", assim como de formas de espaço "quadradas" e "cúbicas". Como lemos, o mundo Relativistico torna-se brilhantemente novo mais uma vez, e podemos visualizá-lo nos tetraedros e octetos e Fuller e outras estruturas simples - assim como se nós nunca havíamos realmente compreendido a Relatividade, antes.

Do interior do átomo até ao cosmos como um todo, Fuller nos mostra, novamente, os mesmos nós de energia sinergéticos não-simultâneos criando a ilusão de "objetos sólidos" que vemos normalmente. Este livro, portanto, poderá ser considerado como a melhor introdução à Física do século 20 e também como uma espécie de análogo de uma experiência iluminadora, já que os diagramas de Fuller nos ajudam, literalmente, a "ver" através do modelo materialístico até os sistemas de informação-energia dos quais as "coisas sólidas" surgem.

E, como li, recordei mais uma vez minha última entrevista com Bucky. Perguntei-lhe se "Universo" e "Deus" significavam a mesma coisa para ele, como muitos de seus leitores suspeitavam.

"Deus", disse de maneira precisa, "parece um conceito muito pequeno para conter as coerências estranhamente inter-acomodativas do Universo".

De forma tipicamente fulleriana, penso: ele disse "coerências" e não "forças". O todo Aristoteliano-Newtoniano da mitologia da "força" representa um outro reflexo de Era Negra que havia superado.

Tradução do Instituto Nokhooja

Fontes: Trajectories n. 12 - Spring 1993 - Cosmography (Macmillan, New York, 1992).

Instituto Nokhooja (http://www.nokhooja.com.br/).

Link: Site de Robert Anton Wilson (http://www.rawilson.com/).

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

O último grito de André Gorz


Antes de morrer, o filósofo André Gorz transmitiu, via fax, um texto, com a data de 17-09-2008, para a revista ÉcoRev’ um longo artigo intitulado O trabalho na saída do capitalismo.

Segundo Jean-Claude Guillebaud, autor de inúmeros livros, vários deles traduzidos para o português como A Tirania do Prazer e A Reinvenção do Mundo :


“O texto que André Gorz enviou via fax, no dia 17 de setembro, para a revista ÉcoRev’ é magnífico pela sua gravidade e da grande capacidade de visão ampla e profunda. Longe de se imiscuir com bravatas políticas e frivolidades do momento, Gorz manifesta seu espanto de ver o capitalismo (ele ousa empregar esta palavra) se tornar cada vez mais imperioso e conquistador à medida que ele é minado, desde o seu interior, pro uma lógica irracional”.
No ano passado, a editora Bertrand Brasil traduziu e publicou o seu livro A Força da Convicção.

Por isso, introduzo o último texto de Gortz com o artigo de Jean-Claude Guillebaud, que foi publicado pela revista francesa La Vie, no, 3253, 03-01-2008 (Fonte: http://www.unisinos.br/_ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=12012)

Guillebaud cita o texto de Gorz:
“Pelo seu próprio desenvolvimento, o capitalismo chegou a um limite tanto interno quanto externo que ele é incapaz de superar. Trata-se, portanto, de um sistema que sobrevive de subterfúgios para escapar da crise das suas categorias fundamentais: o trabalho, o valor, o capital”.

Guillebaud continua:

“Falando do “limite”, Gorz designa a corrida à produtividade do capital investido, à pressão ilimitada sobre os salários, as condições de trabalho e o meio ambiente. Esta corrida, absurda desde o seu início, traz consigo fenômenos explosivos como o crescente endividamento, a financeirização da economia mundial, o aparecimento das ‘bolhas’ financeiras cuja imaterialidade ameaça o sistema planetário de derrocamento. Uma tal “loucura” em movimento favorece uma instabilidade mundial geradora de violências terroristas, guerras larvares, desesperança social.
“O decrescimento, escreve Gorz, é portanto um imperativo para sobreviver. Mas ele supõe uma outra economia, um outro estilo de vida, uma outra civilização, outras relações sociais”.

“É preciso ter presente que este texto, fortemente argumentado – escreve Guillebaud – foi redigido antes que aparecessem, especialmente nos EUA, os sinais anunciadores de uma depressão financeira que faz com que muitos analistas evoquem, sombriamente, a possível reedição da crise de 1929”.

Para Jean-Claude Guillebaud, o artigo de Gorz, “é uma mensagem essencial. Ela lembra a mensagem de do filósofo Edmund Husserl (1859 – 1938) que, em 1935, num texto prodigioso – mas pouco lido na época! – falava do medo de ver a Europa cair no ceticismo, no nihilismo e na barbárie. Alguns textos precisam ser lidos por nós com muita atenção. E com respeito”.






O trabalho na saída do capitalismo


Por: André Gorz



(OBS: A página eletrônica Rue89, publicou um extrato do texto que segue abaixo.)



A questão da saída do capitalismo nunca foi tão atual. Ela se põe em termos e com uma urgência de uma radical novidade. Por causa do próprio desenvolvimento, o capitalismo atingiu um limite tanto interno quanto externo que ele é incapaz de ultrapassar e que faz com que seja um sistema que sobrevive por meio de subterfúgios à crise das suas categorias fundamentais: o trabalho, o valor, o capital.


A crise do sistema se manifesta no nível macro-econômico como também no nível micro-econômico. Isso se explica principalmente pela mudança tecnocientífica que introduz uma ruptura no desenvolvimento do capitalismo e arruína, por seus repercussões a base do seu poder e sua capacidade de se reproduzir. Tentarei de analisar esta crise, em primeiro lugar, sob o aspecto macro-econômico e, depois, nos seus efeitos sobre o funcionamento e a gestão das empresas.


1.- A informação e a robotização permitiram introduzir quantidades crescentes de mercadorias com quantidades decrescentes de trabalho. O custo do trabalho por unidade de produto não cessa de diminuir e o preço dos produtos tende a baixar. Quanto mais a quantidade de trabalho para uma determinada produção diminui, mais o valor produzido por trabalhador – sua produtividade – deve aumentar para que a massa de lucro realizado não diminua. Tem-se, assim, este aparente paradoxo que quanto mais aumenta a produtividade, tanto mais é necessário que ela aumente para evitar que o volume do lucro não diminua. A corrida em busca da produtividade tende assim a acelerar, os efetivos empregados tendem a ser reduzidos, a pressão sobre o pessoal endurece, o nível e a massa dos salários diminui. O sistema evolui para um limite interno onde a produção e o investimento na produção param de ser muito rentáveis.
Os índices atestam que este limite foi atingido. A acumulação produtiva do capital produtivo não para de regredir. Nos EUA, as 500 empresas do índice Standard & Poor’s dispõem de 631 bilhões de reservas líquidas; a metade dos lucros das empresas americanas provém dos mercados financeiros. Na França, o investimento produtivo das empresas do CAC 40 não aumenta mesmo quando os lucros explodem.


A produção não sendo mais capaz de valorizar o conjunto dos capitais acumulados, uma parte crescente destes conserva a forma de capital financeiro. Uma indústria financeira se constitui que não pára de afinar a arte de fazer dinheiro não comprando nem vendendo nada além das diversas formas de dinheiro. O dinheiro mesmo é a única mercadoria que a indústria financeira produz por meio de operações, nos mercados financeiros, cada vez mais arriscadas e cada vez menos controláveis.


A massa de capital que a indústria financeira drena e gera ultrapassa de longe a massa de capital que valoriza a economia real (o total dos ativos financeiros representa 160 trilhões de dólares, ou seja, quatro vezes mais do que o PIB mundial). O “valor” deste capital é puramente fictício: ele repousa, em grande parte, sobre o endividamento e o “good will”, isto é, sobre as antecipações: a Bolsa capitaliza o crescimento futuro, os lucros futuros das empresas, a alta futura dos preços imobiliários, os ganhos que poderão ser gerados pelas reestruturações, pelas fusões, concentrações, etc. As Bolsas se enchem de capitais e de seus rendimentos futuros e as famílias são incitadas pelos bancos a comprar (entre outros) as ações e os certificados de investimento imobiliário, a acelerar, desta maneira, a alta da Bolsa, a emprestar dos bancos somas crescentes à medida que aumenta o capital fictício da Bolsa.


A capitalização da antecipações do lucro e do crescimento anima o endividamento crescente, alimenta a economia com liquidez devido à reciclagem bancária da mais-valia fictícia, e permite aos EUA um ‘crescimento econômico’ que, fundado sobre o endividamento interno e externo, é, de longe, o principal motor do crescimento mundial (inclusive do crescimento chinês). A economia real torna-se, assim, um apêndice das bolhas especulativas mantidas pela indústria financeira. Até o momento, inevitável, em que as bolhas estouram, levando os bancos à bancarrota em cadeia, ameaçando com o colapso o sistema mundial de crédito, a economia real de uma depressão severa e prolongada (a depressão japonesa dura já quase quinze anos).
Tem-se acusado a especulação, os paraísos fiscais, a opacidade e a falta de controle da indústria financeira (particularmente os hedge funds), a ameaça de depressão, ou seja, o derrocamento que pesa sobre a economia mundial não é devido à falta de controle; ele se deve à incapacidade do capitalismo se reproduzir. Ele não se perpetua e somente funciona sobre bases fictícias cada vez mais precárias. Pretender redistribuir por meio da imposição as mais-valias fictícias das bolhas precipitaria o que a indústria financeira quer evitar: a desvalorização da massa gigantesca dos ativos financeiros e a derrocada do sistema bancário.


A “reestruturação ecológica” irá agravar ainda mais a crise do sistema. É impossível evitar uma catástrofe climática sem romper radicalmente com os métodos e a lógica econômica que reinam há 150 anos. Se se prolonga a tendência atual, o PIB mundial será multiplicado por 3 ou 4 vezes, de hoje até o ano 2050. Ora, segundo o relatório do Conselho sobre o clima da ONU, as emissões de CO2 deverão diminuir em 85% até 2050 se se quer limitar o aquecimento climático em 2º C, no máximo. Além dos 2º, as conseqüências serão irreversíveis e não controláveis.


Portanto, o decrescimento é um imperativo de sobrevivência. Mas ele supõe uma outra economia, um outro estilo de vida, uma outra civilização, outras relações sociais. Na sua ausência, o derrocamento só será evitado impondo restrições, racionamentos, alocações autoritárias de recursos característicos de uma economia de guerra. A saída do capitalismo, portanto, se dará de uma ou outra maneira, de modo civilizado ou bárbaro. A questão é somente de que forma se dará esta saída e qual a cadência com que vai se dar.


A forma bárbara nos já é familiar. Ela prevalece em várias regiões da África, dominadas por chefes de guerra, pela pilhagem das ruínas da modernidade, os massacres e tráficos de seres humanos, tendo como pano de fundo a fome. Os três Mad Max eram relatos antecipatórios.
Uma forma civilizada de saída do capitalismo, ao contrário, raramente é analisada. A evocação da catástrofe climática que ameaça conduz geralmente a propor uma necessária ‘mudança de mentalidade”, mas a natureza desta mudança, suas condições de possibilidade, os obstáculos a serem superados parecem sufocar a imaginação.


Propor uma outra economia, outras relações sociais, outros modos e meios de produção e modos de vida é visto como algo ‘irrealista’, como se a sociedade da mercadoria, do assalariamento e do dinheiro fosse impossível de ser superada. Na realidade, uma multidão de índices convergentes sugerem que esta superação já iniciou e que as chances de uma saída civilizada do capitalismo dependem antes de tudo da nossa capacidade em distinguir as tendências e as práticas que anunciam a possibilidade.


2.- O capitalismo deve a sua expansão e a sua dominação ao poder que ele tomou, em um século, sobre a produção e, ao mesmo tempo, sobre o consumo. Ao expropriar, primeiramente, os operários dos seus meios de produção e dos seus produtos, ele foi assegurando, progressivamente, o monopólio dos meios de produção e a possibilidade de subsumir o trabalho. Ao especializar, dividir e mecanizar o trabalho nas grandes fábricas, ele fez dos trabalhadores os apêndices das megamáquinas do capital. A apropriação dos meios de produção pelo produtores se tornou impossível. Eliminando o poder daqueles sobre a natureza e a destinação dos produtos, ele garantiu ao capital o quase-monopólio da oferta, portanto o poder de privilegiar em todos os domínios as produção e o consumo mais rentáveis, como também o poder de fomentar o gosto e os desejos dos consumidores, a maneira pela qual ele satisfariam as suas necessidades. É este poder que a revolução informacional começa a romper.









terça-feira, 29 de janeiro de 2008

A revolução "inumana"






A crescente tensão entre a realidade biológica e a realidade tecnológica resulta na condição inumana. A opinião é de Ollivier Dyens, professor do Departamento de Estudos Franceses da Universidade de Concordia (Montreal), que estuda há mais de quinze anos o impacto das novas tecnologias na sociedade em entrevista ao Le Monde, 27-01-2008. Dyens é autor do livro La Condition inhumaine (A condição inumana), assunto desta entrevista. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

O devastador aumento do poder da tecnologia digital vai transformar-nos profundamente?

Há alguns anos eu pensava que a tecnologia iria mudar o ser humano. Hoje, penso que vai mudar a percepção que temos do ser humano. Eu acredito cada vez menos no fantasma cyborg ou no homem-máquina. Mas a visão que temos de nós mesmos vai ter de mudar para se adaptar à realidade tecnológica de amanhã.

Seu último livro se intitula "A condição inumana". Por que o título?

O termo "inumano" não é usado aqui no sentido de crueldade, mas no sentido do que está para além do homem. Às questões essenciais que o homem se coloca desde o início dos tempos - Quem sou eu? De onde venho? -, a ciência e a tecnologia podem fornecer respostas que, cada vez mais, contrariam o que dizem nossos sentidos e nosso espírito. É essa crescente tensão entre a nossa realidade biológica e a nossa realidade tecnológica que eu qualifico de "condição inumana". Historicamente, consideramos as ferramentas e a linguagem como estruturas que existiam para atender às nossas necessidades. É fundamental repensar esta relação.

Por que a crescente interdependência destas duas realidades, biológica e tecnológica, nos perturba tanto?

Para explicar este mal-estar, um roboticista japonês criou uma imagem, a do ‘vale do desconhecido’. Tanto que robôs que continuam bem diferentes de nós, não nos perturbam. Mas se eles estão muito próximos caem no ‘vale do desconhecido’. A mão artificial se torna inquietante no momento em que ela se torna uma mão verdadeira, quando a podemos tocar ou fechá-la como se fosse natural. Estamos à volta com a revolução digital que está se tornando cada vez mais "inteligente", cada vez mais "viva"... Isso nos preocupa, porque se assemelha muito a nós.

A civilização das máquinas nasceu com este milênio?

Lembre-se do 31 de dezembro de 1999 e do famoso medo do bug do milênio. Este receio era real, inclusive entre as maiores empresas de informática do mundo. Naquele dia, a humanidade toda prendeu a respiração à espera do veredicto das máquinas, para saber se chegariam ou não à ‘compreensão’ dos três zeros da nova data. E o que aconteceu? Os softwares, em todo o mundo, conseguiram se adaptar, nenhuma catástrofe aconteceu. A moral da história é que os sistemas informáticos tornaram-se muito complexos para sermos capazes de determinar o que os torna eficazes ou não. Um pouco como a previsão meteorológica que se tornou muito complexa para prever para além de alguns dias.

Ollivier Dyens

Sendo assim, podemos ser esquecidos pelas máquinas que nós mesmos criamos, assustador não?

Para alguns, sim. Mas outros acreditam que este é um processo normal da evolução. Que o importante é a dinâmica da vida, que se encontra no DNA ou no silício. De qualquer forma, a tecnologia já nos obriga a redefinir o nosso lugar na hierarquia mundial. A nos situar não mais no topo da pirâmide, mas numa dinâmica tendo em conta as máquinas como parte integrante da espécie humana.

E se não chegarmos a isso?

Então corremos o risco de, num futuro mais ou menos próximo, desembocar num mundo polarizado, maniqueísta, violento, no qual a maioria da humanidade encontrar-se-á descolado de um mundo cheio de representações, idéias, teorias e da cultura. Um mundo de frustração e desespero e de uma nova alienação: aquela do conhecimento. Esse risco já está acontecendo: temos uma crescente dificuldade para distinguir claramente a informação de sua síntese – dito de outra maneira, do conhecimento. Por quê? Porque a cultura gerada pelas máquinas nos ultrapassa. Para usar uma imagem marítima: a quantidade de informações disponíveis na Net é um oceano, mas não conhecemos mais a arte de navegar. É cada vez mais claro que permanecemos na superfície desse oceano - "surfar" tornou-se uma questão de sobrevivência. Mas os seres humanos ainda navegam como antigamente tanto o conhecimento nos parece ligado à idéia do aprofundamento. A superfície e o profundo: vamos ter de aprender a conciliar essas duas noções.

A "condição inumana" terá conseqüências positivas?

Menos guerras, talvez. Quanto mais países estiverem enredados economicamente e culturalmente, menos razões teremos para ver os outros como estranhos, e, portanto, para combatê-lo. As tecnologias digitais e da Web são uma aproximação entre os seres. O e-mail, os chats, os blogs podem nos unir para além da geografia do corpo, da cor da pele. Em nossa história, nunca se gastou tanto tempo para se comunicar, mas também para enriquecer-nos e debater através das redes.

A internet vai gerar novas formas de inteligência coletiva?

Estou convencido de que sim. Os meios de comunicação oferecidos à humanidade, as redes digitais instantâneas parecem ter um objetivo principal: alimentar ou criar uma coerência global. Um blog adquire a sua legitimidade se for identificado com outros blogs, e o primeiro sítio que surge no Google é aquele que é ‘hyperligado’ pelo maior número de sítios... Essa legitimação por parte da coletividade carrega os seus perigos: ela se defende contra o individual e despreza aquilo que é marginal ou fora dos padrões. Mas também representa um enorme potencial que pode mudar profundamente a nossa relação com o mundo. O humano da condição inumana está bem mais próximo da formiga - que vive, existe e compreende o universo através de sua coletividade – que não é o de um indivíduo autônomo, consciente e singular.

domingo, 27 de janeiro de 2008

Maio de 1968 - 40 anos

Em maio deste ano terão se passado 40 anos dos acontecimentos de 1968. Acho a efeméride interessante, nos dá a oportunidade de revisitar esta página da história e dela tirarmos boas lições.
A Carta Capital deste final de semana fez um pequeno especial sobre o assunto. Devo dizer que não concordei muito com o tom da matéria: provavelmente a idéia era parecer imparcial e mostrar as realidades e os mitos envolvendo maio de 1968, em paris e no mundo, mas na minha opinião acabou diminuindo o impacto e a importância do evento. De qualquer forma seguem as matérias; a primeria é sobre o movimento na frança e suas conseqüências no mundo, e a segundo é uma entrevista com um, então, lider estudantil aqui no Brasil.

O mito e o real
por Gianni Carta
Carta Capital, 27/01/2008, edição 480

Marcado por protestos em várias partes do mundo, o ano de 1968, o mais simbólico do século XX, tem sua importância reavaliada por historiadores e protagonistas
Maio em Paris: pólo irradiador ou efeito de alcance restrito?
Quarenta anos atrás, manifestações sacudiram o planeta, mulheres e negros lutaram pelos seus direitos civis, os assassinatos de Martin Luther King e Robert Kennedy traumatizaram os Estados Unidos, os soviéticos invadiram Praga, e criou-se a impressão de que o mundo mudava. No entanto, neste aniversário do lendário ano de 1968 não se sabe ao certo se vale a pena assoprar velas.
Dentro de três meses, saberemos como a França se comportará. A mítica revolta de maio de 68 foi iniciada por um punhado de alunos da Universidade de Nanterre, Paris, insatisfeitos com o “sistema” autoritário e com a burocracia responsável pelo financiamento da instituição. Nanterre, sob a liderança do franco-alemão Daniel Cohn-Bendit (teria sido seu papel amplificado pela mídia, minimizando, assim, a participação de outros líderes apolíticos ou filiados a partidos e sindicatos?), teria engatilhado mais enfrentamentos quase-revolucionários Europa afora e na América Latina.
De modo geral, tratava-se de uma juventude disposta a se rebelar contra a rigidez da polícia, das administrações universitárias e de seus pais. Mas o mais sólido elo entre manifestantes de diversos países foi a oposição à guerra no Vietnã. Por que, então, quatro décadas após aquele marcante ano, tantas dúvidas sobre como interpretá-lo permanecem sem respostas?
Em May 68: A Contested History, a avaliação do historiador Chris Reynolds, da Nottingham Trent University, do Reino Unido, é válida também para certos países. “Quando consideramos os eventos (na França), suas conseqüências, interpretações ou explicações, é bastante difícil, se não impossível, de se chegar a um real consenso”, argumenta Reynolds.
Um exemplo de falta de consenso é sobre o papel da polícia, em particular das Companhias Republicanas de Segurança (CRS), no confronto com os estudantes em Paris. Após o sumiço do presidente Charles de Gaulle (ele pretendia renunciar ao rumar com a família para Baden-Baden, ou criar suspense?), e seu subseqüente discurso de 30 de maio, no qual anunciou o fim do conflito, veio chumbo por parte do governo, preocupado com obstáculos surgidos durante a campanha legislativa, em junho (pressionado, De Gaulle dissolveu a Assembléia). Foi banida uma série de grupos de esquerda e jornais. Gilles Tautin, um estudante, e dois operários da Peugeot, Pierre Beylot e Henri Blanchet, foram mortos pelas CRS.
Há quem defenda a tese de que o número reduzido de mortos (sem contar os feridos), naquela delicada situação, demonstra a habilidade da polícia. Cenas de brutalidade foram, porém, confirmadas pela televisão, nova tecnologia que transformou os noticiários, e influenciou vários manifestantes apolíticos a participarem do conflito, a favor dos estudantes.
Violência, diga-se, não faltou em outros países. Por tabela, alguns experts dizem que o fenômeno, em Paris, deve ser incluído num contexto internacional. Reynolds pondera, contudo, que “cada região experimentou os eventos de sua própria maneira, com várias motivações, devido a diversas demandas”, e o mesmo se aplica a outras cidades espalhadas pelo mundo. Em suma, é mítica a percepção de que Maio de 68 só aconteceu em Paris, e não no resto da França.
No México, em outubro, o Exército reagiu com brutalidade a manifestações de estudantes por melhores condições nas universidades. O episódio, que passou à história como o Massacre de Tlatelolco, acabou na morte de 48 universitários e cerca de 500 presos e feridos.
Em Berlim, houve protestos contra a guerra no Vietnã, a primeira a ser televisionada. Ao contrário da França, na Itália os estudantes uniram-se à classe operária. Após duas semanas de demonstrações contra a brutalidade da polícia, a Universidade de Roma foi fechada. Uma das repercussões de 1968 foi a proliferação de movimentos armados, como as Brigadas Vermelhas, na Itália, e o Baader-Meinhof, na Alemanha.
Em Varsóvia, narra a CartaCapital o jornalista Leszek Mazan, então com 26 anos, uma peça do poeta Adam Mickiewicz no Teatro Nacional foi banida. “Isso foi pretexto para manifestações estudantis em Varsóvia, Cracóvia, Lódz e outras cidades”, diz Mazan. Em 21 de agosto, os soviéticos invadiram Praga e prenderam o primeiro-secretário do Partido Comunista, Aleksander Dubcek, o qual havia tentado estabelecer reformas democráticas na então Tchecoslováquia.
“Após 68”, diz Mazan, que seria correspondente em Praga durante a década de 70, “o país viveu mais 21 anos de tirania.”
Leland Emerson McCleary, professor de letras modernas da Universidade de São Paulo (USP), presente, aos 24 anos, em manifestações de 1968 no seu país natal, os Estados Unidos, avalia: “Maio de 68 não significa nada para mim, especificamente. Nos Estados Unidos, toda a década de 60 foi de protesto. Ainda no colegial, em Houston, Texas, no início da década de 60, tomei parte em manifestações que uniam brancos e negros, a fim de provocar estabelecimentos segregados, como restaurantes”.
Elizabeth Vance, em 1968 aluna de pós-graduação da California State University at Long Beach, hoje professora de Sociologia no Santa Monica College, resume: “1968 foi um ano caótico, ligado, em grande parte, ao envolvimento dos EUA no Vietnã. Martin Luther King foi assassinado em 4 de abril, o senador Robert F. Kennedy foi morto em 5 de junho, e, em agosto, tivemos demonstrações na Convenção Nacional do Partido Democrata, em Chicago”. Vance afirma que participou de várias manifestações. “Certamente fui fotografada pela CIA.”
Perguntada sobre quais foram os legados dos anos 60, Vance responde: “Foram os anos nos quais uma resistência a desigualdades e contra a guerra aumentou dramaticamente”. A socióloga acrescenta que “as mulheres deram largos passos. Além disso, a pílula lhes deu maior liberdade sexual. Os gays continuam lutando, mas nos anos 60 conseguiram vitórias. Os negros iniciaram o movimento de direitos civis, e Martin Luther King deu continuidade a ele”.
Mais pessimista, Wilton Woods, universitário em 1968 e manifestante contra o Vietnã, crê que, com a morte de Luther King, o movimento de direitos civis a favor dos negros arrefeceu. “Os negros conseguiram avanços nos últimos anos em várias áreas, mas foram muito superficiais em outras”, argumenta Woods, ex-editor da quinzenal Fortune. “Mas a popularidade de negros não foi conseguida no tablado político, e sim graças a atletas negros e à mídia que divulga suas imagens.”
Woods acredita que a cobertura da mídia da violência em Chicago, em 1968, centrada no ponto de vista da polícia, abriu caminho para os reacionários tomarem o poder. “Durante uma geração, as cenas de violência, em Chicago, foram usadas pelos republicanos e outros grupos conservadores para atacar democratas, hippies, e manifestantes em geral”, afirma. O resultado, interpreta Woods, foram as eleições de Richard Nixon e Ronald Reagan, e a tomada do Congresso pelos republicanos, nos anos 90.
Na França, argumenta Reynolds, a “falta de consenso” gerou novas análises sobre Maio de 68 a partir dos hedonísticos anos 80. Aquele período passou a ser visto por significante fatia da população (incluindo o atual presidente Nicolas Sarkozy) como um “carnavalesco psicodrama”. Mais: 1968 perdeu seu “apelo romântico”, e teria impulsionado a predominância do capitalismo na França. “Criou, assim, o oposto daquilo que pretendia realizar”, conclui Reynolds.

Os protestos no Brasil
por Maurício Dias, Carta Capital, 27/01/2008, edição 480.
Jean Marc von der Weid, destacado dirigente do movimento estudantil, analisa a importância e os frutos das revoltas no País

Jean Marc von der Weid, 62 anos, não lembra mais a figura carbonária que infernizou a vida da polícia nas ruas da cidade em 1968. A diferença, 40 anos depois, não é tanto pelo envelhecimento do corpo, visível no desaparecimento da cabeleira vasta que mantinha na juventude, e sim pelo amadurecimento das reflexões sobre o que viveu.
Aos 22 anos, quando presidia o diretório da influente Faculdade de Química e era um atuante líder estudantil, não percebeu que o movimento desencadeado por jovens como ele, Vladimir Palmeira, Marcos Medeiros e Elinor Brito, entre outros, podia ter removido os militares do poder muito antes do ocorrido. É no que acredita.
Jean Marc está convicto: os estudantes não entenderam que a sociedade aglutinada, por exemplo, na célebre “passeata dos 100 mil”, realizada em junho de 1968 nas ruas do Rio de Janeiro, ansiava pelo restabelecimento da democracia. “Podíamos ter acelerado o fim do regime militar”, afirma, na entrevista que se segue.

CartaCapital:
A greve geral estudantil foi um dos pontos altos do movimento das manifestações de 1968. Qual foi a importância dela naquele ambiente político?
Jean Marc von der Weid:
No primeiro momento, ela generalizou a luta estudantil. A morte do Edson Luís foi uma explosão. Houve protestos, muita emoção, e acabou. A greve geral foi um elemento de mobilização muito amplo. A partir da greve houve uma manifestação importante no pátio do prédio do Ministério da Educação. Foi o primeiro movimento no contexto que antecedeu a passeata dos 100 mil. Enquanto movimento estritamente estudantil, foi a maior que a gente fez. Juntou mais de 10 mil pessoas. Nessa primeira não chegou a haver “porradaria”, porque a polícia ficou protegendo o MEC e a gente saiu. Em seguida, ocorreu uma reversão de alianças dentro do movimento. Até aquele momento quem puxava a mobilização éramos nós, da AP, apoiados pelo PCBr e pelo PcdoB.

CC: O que isso significou na prática?
JMW: Queriam parar a mobilização. Por que parar? Queríamos mais verbas e mais vagas e não tínhamos conseguido nada. Achei que era hora de desafiar o ministro da Educação outra vez e, se necessário, ir para a porrada. A Dissidência comunista me apoiou e os meus aliados da véspera votaram contra. Ficaram a favor do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Nossa proposta venceu e fizemos, então, uma manifestação que foi a primeira em horário diferente. Isso mudou tudo. Todas as outras foram feitas no fim de tarde.

CC: Por que a mudança de horário?
JMW: A lógica do fim de tarde era pegar o trânsito. Atravancava e a polícia tinha dificuldade para se deslocar. Só que, com o tempo, o centro da cidade se esvaziava e ficávamos nós e a polícia. Propus a manifestação para o meio-dia. Juntamos 4 mil nessa manifestação. Naqueles dias, o movimento estudantil entrara em declínio. Isso foi uma semana antes da passeata dos 100 mil. Encontramos de novo a polícia no pátio do ministério. Só que desta vez a gente partiu para cima. Tomamos o pátio do MEC e, sem saber o que fazer com aquilo, saímos pelo centro da cidade. Aí virou, de fato, uma manifestação que não era mais estudantil. Era da massa quebrando o pau com a polícia. Já quase no final botaram fogo em um carro do Exército. Peguei um ônibus e, em frente ao prédio da UNE, na praia do Flamengo, fui preso, acusado de ser o incendiário.

CC: Como a imprensa tratou isso?
JMW: As reportagens promoveram uma mobilização que o movimento estudantil não conseguia mais fazer, até porque muita gente tinha sido presa. Marcaram uma manifestação na porta da embaixada americana e até hoje eu não tenho muito claro como é que foi decidido isso. Sempre foi um tabu entre os estudantes do Rio de Janeiro fazer manifestação na porta da embaixada. Era visto como um ato de provocação. Mesmo assim ela foi realizada. Não tinha 300 pessoas. A capacidade de mobilização vinha caindo. Houve tiroteio e a manifestação rachou. A grande maioria da direção voltou para a Faculdade de Química, na Praia Vermelha. Uma parte dos estudantes percorreu o centro da cidade. A polícia foi atrás e a coisa virou uma insurreição popular que durou até as 10 horas da noite. O pessoal que tinha ido para a Faculdade foi preso e levado para o campo do time do Botafogo, que fica perto. Esse pessoal foi massacrado pela Polícia Militar. Várias forças se mobilizaram a partir dessa repressão violenta. Isso resultou na passeata dos 100 mil.

CC: Você participou?
JMW: Não. Eu continuava preso no Batalhão de Infantaria Blindada. Fiquei lá duas semanas. Nesse meio-tempo soube da negociação com o general Costa e Silva, presidente da República. Houve uma negociação para escolher uma comissão aceitável para o governo. Do movimento estudantil foi o Franklin Martins, presidente do DCE da UFRJ, o Marcos Medeiros, presidente do DCE da Faculdade de Filosofia, um padre e um professor. Não puseram nem o Luiz Travassos, presidente da UNE, nem o Vladimir, presidente da União Metropolitana de Estudantes (UME), porque eram notoriamente de entidades clandestinas. Não seriam recebidos. Foi uma coisa inteligente. Mas, quando apareceu nos jornais a lista de reivindicações, eu fiquei perplexo. Os integrantes dessa “Comissão dos 100 mil” exigiam a minha libertação e a de mais três presos, a reabertura do Calabouço e a Reforma Universitária.

CC: O que o deixou perplexo?
JMW: Eu não tinha noção exata na ocasião. Mas sabia que uma manifestação com dezenas de milhares de pessoas não tinha sido mobilizada em torno de interesse exclusivo do movimento estudantil. A massa não foi às ruas porque eu estava preso ou porque queria a reforma universitária. Foram por um sentimento difuso em defesa da democracia violada pela ditadura. Não saberia dizer se, naquela altura, eu seria capaz de propor outra coisa.

CC: A sociedade queria a democracia.
JMW: Nós não entendemos assim. Uma parte do movimento já estava com a estratégia da guerrilha na cabeça e achava que um movimento democrático amplo era uma ilusão.

CC: O ano de 1968 foi marcado por explosões de revolta estudantis em quase todo o mundo. Há uma identidade nesses movimentos?
JMW: Muito menos do que parece. Duas coisas são seguras: não é a lógica de ocorrências internacionais que motivava as direções dos movimentos aqui no Brasil. O contexto internacional tinha pouca influência aqui. Nosso movimento era meio autista nesse sentido. Muito centrado nas questões estudantis.

CC: Vistas de hoje, 40 anos depois, qual o balanço daquelas manifestações?
JMW: Acho que teve resultados. O mais objetivo foi a conservação da universidade pública, gratuita, no Brasil. Isso se deve, em grande parte, à reação do movimento estudantil entre 1964 e 1968. Dali para a frente a ditadura faz outra coisa. Ante a pressão social, incentivou o ensino privado.

CC: O movimento teria retardado o fim da ditadura?
JMW: Não. Podia ter acelerado o fim. A luta pela democracia, da segunda metade dos anos 70, foi o que derrotou o regime militar.

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Comentário de jholland, 28/01/2008. às 10:45

O que faltou dizer é que nós todos somos frutos de Maio/68. Não creio que seja uma avaliação exagerada. Maio/68 foi a culminância de uma reviravolta na filosofia ocidental, no nosso paradigma, o modo como sentimos o mundo e a perspectiva adotada. E isso dos "dois lados", ou seja, a explosão das máquinas desejantes representou uma tentativa de conciliação com o inconsciente, obrigando o sistema egóico-racionalizante - o sistema "Neo-Dadá" - a se reciclar. Tudo bem, isso já estava inscrito no pós-II Guerra, pois o capitalismo da produção já havia sido substituído pelo capitalismo-do-fetiche-e-do-consumo. Poderiamos até estabelecer um certo paralelismo entre o pós-I-Guerra (com a ascenção dos EUA e do capitalismo do consumo) e a eclosão das Vanguardas; e o pós-II-Guerra, com a eclosão de Maio/68.

Qualquer "balanço" daqueles acontecimentos deve levar em consideração os seguintes fatores - todos eles interligados: 1) a alteração do natureza do sistema hegemônico e a consequente incorporação de parcelas maiores da sociedade - a eclosão da sociedade de consumo, os meios de comunicação de massa, o surgimento da classe média, a burocratização etc; 2 ) a explosão do "desejo" e sua incorporação pela ideologia que passa a se alicerçar cada vez mais na manipulação das emoções; 3) o desaparecimento da via "socialista" clássica - capitalismo da produção x capitalismo do consumo; classe média x proletariado; 3)a análise dos resíduos/recalques (a questão ecológica - esta já se encontrava no centro das procupações de Debord ao final de sua vida...).

Muito oportuna esta postagem, pois o próprio Blog Diacrianos não existiria se não tivesse havido Maio/68.


quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Henri Lefebvre e a Internacional Situacionista

Entrevista conduzida e traduzida para o inglês em 1983 por Kristen Ross.

Tradução para o português por Cláudio Roberto Duarte.

H.L.: Você vai me perguntar sobre os Situacionistas ? É que tenho algo que gostaria de dizer.

K.R.: Ótimo, prossiga.

H.L.: Os Situacionistas... é um assunto delicado, algo que me preocupo profundamente. Em certos pontos toca-me muito intimamente, porque os conheci muito bem. Eu era amigo íntimo deles. A amizade durou de 1957 a 1961 ou ‘62, o que quer dizer aproximadamente cinco anos. E então nós tivemos uma discussão que se tornou cada vez pior em condições que eu mesmo não entendo muito bem, mas que eu poderia narrar para você. No fim, foi uma história de amor que terminou mal, muito mal. Há histórias de amor que começam bem e terminam mal. E esta foi uma delas. Eu me lembro de uma noite inteira gasta conversando na casa de Guy Debord, onde ele estava vivendo com Michele Bernstein num tipo de estúdio, perto do lugar em que eu estava morando na rua Saint Martin, num quarto escuro, nenhuma luz, nada, um verdadeiro... um lugar miserável, mas ao mesmo tempo um lugar onde havia uma grande troca de energia e irradiação de pensamentos e indagações.

K.R.: Eles não tinham dinheiro ?

H.L.: Não.

K.R.: Como eles viviam ?

H.L.: Ninguém poderia entender como eles sobreviviam. Um dia um de meus amigos (alguém para quem eu tinha apresentado Debord) lhe perguntou, "você vive de que ?" E Guy Debord respondeu muito orgulhosamente, "eu vivo de minha sabedoria" [Risos]. De fato, ele deve ter tido algum dinheiro; eu acho que a família dele não era pobre. Os pais dele moravam no Cote d'Azur. Acho que não tenho realmente a resposta. E além disso, Michele Bernstein tinha arranjado um modo esperto para ganhar dinheiro, ou ao menos um pouco de dinheiro. Ou pelo menos isto foi o que ela me contou. Ela disse que fazia horóscopos para cavalos, que eram publicados em revistas de corrida do gênero. Era extremamente engraçado. Ela determinava a data de nascimento dos cavalos e fazia seus horóscopos para predizer o resultado da corrida. E acho que houveram revistas deste tipo que publicaram e pagaram-na.

K.R.: Então o slogan situacionista "nunca trabalhe" não se aplicava às mulheres ?

H.L.:
Sim, se aplicava, porque isto não era trabalho. Eles não trabalhavam; eles conseguiram viver sem trabalhar em grande parte - claro que, eles tinham de fazer alguma coisa. Fazer horóscopos para cavalos de corrida, creio eu, realmente não era trabalho; em todo caso, acho que era divertido fazer isto, e eles realmente não trabalhavam. Mas eu gostaria de voltar mais longe no tempo, porque tudo começou muito mais cedo. Começou com o grupo COBRA. Eles foram os intermediários: o grupo composto por arquitetos, com o arquiteto holandês Constant, em particular, e o pintor Asger Jorn e as pessoas de Bruxelas - era um grupo nórdico, um grupo com ambições consideráveis. Eles queriam renovar a arte, renovar a ação da arte na vida. Era um grupo extremamente interessante e ativo, que viveu junto nos anos 50 e um dos livros que inspirou a fundação do grupo foi o meu Crítica da Vida Cotidiana. Por isso, estive envolvido com eles desde muito cedo. E a figura pivô foi Constant Nieuwenhuys, o arquiteto utopiano que projetou uma cidade utopiana, uma Nova Babilônia - um nome provocante, já que na tradição protestante Babilônia é uma figura do mal. Nova Babilônia era para ser a figura do bem que levou o nome da cidade amaldiçoada e se transformou na cidade do futuro. O desenho da Nova Babilônia data de 1950. E em 1953, Constant publicou um texto chamado Por uma Arquitetura de Situação. Este foi um texto fundamental, baseado na idéia de que a arquitetura permitiria uma transformação da realidade do dia a dia. Esta era a concepção que diz respeito à Crítica da Vida Cotidiana: criar uma arquitetura que por si mesma instigasse a criação de novas situações. Assim, este texto foi o começo de uma pesquisa inteiramente nova que desenvolveu-se nos anos seguintes, especialmente porque Constant estava muito próximo a movimentos populares; ele era um dos instigadores dos Provos, o movimento Provo.

K.R.: Então havia uma relação direta entre Constant e os Provos ?

H.L.:
Oh sim, ele foi reconhecido por eles como o seu pensador, o seu líder, aquele que quis transformar a vida e a cidade. A relação era direta; ele os estimulou.

[...] Durante os anos do pós-guerra, a figura de Stalin era dominante. E o movimento comunista era o movimento revolucionário. Então, depois de '56 ou '57, movimentos revolucionários mobilizaram-se por fora de partidos organizados, especialmente com Fidel Castro. Neste sentido, os Situacionistas não estavam, de qualquer modo, isolados. Seu ponto de origem era a Holanda - Paris, também - mas a Holanda especialmente, e isto estava ligado a muitos eventos em nível mundial, especialmente pelo fato de que Fidel Castro consegue uma vitória revolucionária completamente fora do movimento comunista e dos trabalhadores. Isto foi um evento. E me lembro que em 1957 publiquei um tipo de manifesto, O romantismo revolutionário, que estava ligado à história de Castro e a todos os movimentos que acontecem um pouco em todas as partes fora dos partidos. Isto se deu quando deixei o Partido Comunista. Eu senti que estavam acontecendo muitas coisas fora dos partidos estabelecidos e dos movimentos organizados como os sindicatos. Estava acontecendo uma espontaneidade fora das organizações e instituições - e era sobre isso este texto de 1957. Foi este texto que me colocou em contato com os Situacionistas, porque eles deram uma certa importância a ele - antes de atacá-lo mais tarde. Eles tiveram as suas críticas a fazer, é claro; nós nunca estávamos completamente de acordo, mas o artigo foi a base para um certo entendimento que durou por quatro ou cinco anos - e nós continuamos voltando a ele. [...] E então havia os movimentos mais extremistas, como aquele de Isidore Isou e os Letristas. Eles também tiveram ambições numa escala internacional. Mas aquilo tudo era uma brincadeira. Isto era evidente no modo como Isidore Isou recitava sua poesia dadaísta composta de sílabas sem sentido e fragmentos de palavras. Ele as recitava em cafés. Eu me lembro bem de tê-lo encontrado várias vezes em Paris [...]

K.R.: A teoria situacionista da construção de situações tem uma relação direta com sua teoria dos "momentos"?

H.L.:
Sim, essa foi a base de nosso entendimento. Eles mais ou menos disseram-me durante discussões - discussões que duraram noites inteiras - "o que você chama 'momentos', nós chamamos 'situações', mas nós estamos levando isto mais longe que você. Você aceita como momentos tudo o que aconteceu no curso da história (amor, poesia, pensamento). Nós queremos criar momentos novos".

K.R.: Como eles propuseram fazer a transição de um "momento" para uma construção consciente ?

H.L.:
A idéia de um momento novo, de uma situação nova, já estava lá no texto de Constant de 1953. Porque a arquitetura de situação é uma arquitetura utopiana que supõe uma sociedade nova, a idéia de Constant era que a sociedade não deveria ser transformada no sentido de continuar uma vida chata e monótona, mas no sentido de criar algo absolutamente novo: situações.

K.R.: E como a cidade figura nisto ?

H.L.:
Bem, as "situações novas" nunca estavam muito claras. Quando nós falávamos sobre isso, eu sempre dava como um exemplo - e eles não teriam nada a ver com meu exemplo - o amor. Eu disse a eles: na Antiguidade, o amor apaixonado era conhecido, mas não o individual, o amor por um indivíduo. Os poetas da Antiguidade escrevem sobre um tipo de paixão cósmica, física, fisiológica. Mas o amor por um indivíduo só aparece na Idade Média dentro de uma mistura das tradições cristã e islâmica, especialmente no sul da França [...]

K.R.: Mas construir "situações novas" para os Situacionistas não envolvia o urbanismo ?

H.L.:
Sim. Nós concordávamos. Eu dizia a eles, o amor individual criou situações novas, havia uma criação de situações. Mas isto não aconteceu num dia, isto se desenvolveu. A idéia deles (e isto também estava relacionado às experiências de Constant) era que na cidade alguém poderia criar situações novas, por exemplo, ligando partes da cidade, bairros que eram espacialmente separados. E este foi o primeiro significado da deriva. Ela foi feita primeiro em Amsterdã, usando walkie-talkies. Havia um grupo que foi para uma parte da cidade e que poderia comunicar-se com pessoas em outra área.

K.R.: Os situacionistas usaram esta técnica também ?

H.L.:
Oh, eu acho que sim. Em todo caso, Constant fez. Mas houveram experiências situacionistas no Urbanismo Unitário. O Urbanismo Unitário consistiu em fazer com que partes diferentes da cidade se comunicassem com outras. Eles tiveram seus experimentos; eu não participei. Eles usaram todos os tipos de meio de comunicação - não sei quando exatamente eles usaram walkie-talkies. Mas sei que eles eram usados em Amsterdã e em Estrasburgo.

K.R.: Você conheceu as pessoas em Estrasburgo então ?

H.L.:
Eles eram meus estudantes. Mas as relações com eles também estavam muito cansadas. Quando cheguei em Estrasburgo em 1958 ou '59, estávamos bem no meio da Guerra da Argélia, e eu só tinha estado em Estrasburgo durante aproximadamente três semanas talvez, quando um grupo de rapazes chegou até mim. Eles eram os futuros Situacionistas de Estrasburgo - ou talvez eles já eram um pouco Situacionistas. Eles me disseram: "Precisamos de seu apoio: vamos montar uma operação na Vosges. Vamos fazer uma base militar na Vosges, e de lá propagarmo-nos pelo país inteiro. Vamos descarrilhar trens". Eu respondi: "Mas e o exército e a polícia... vocês não estão seguros de ter o apoio da população. Vocês estão precipitando uma catástrofe". Assim, eles começaram a me insultar e a me chamar de traidor. E, após pouco tempo, algumas semanas, eles voltaram a me ver e me falaram: "Você tinha razão, é impossível. É impossível montar uma base militar na Vosges. Nós vamos trabalhar em qualquer outra coisa". Deste modo, me encontrava relacionando com eles, e posteriormente eles se tornaram Situacionistas, o mesmo grupo que quis apoiar os argelinos principiando atividades militares na França - era loucura. Mas, você sabe, minhas relações com eles sempre foram muito difíceis. Eles ficavam furiosos por nada. Eu estava vivendo na ocasião com uma mulher jovem de Estraburgo; eu era o escândalo da Universidade. Ela estava grávida, ela teve uma filha (minha filha Armelle), e era o escândalo da cidade - um horror, uma abominação. Estrasburgo era uma cidade muito burguesa. E a Universidade não estava fora da cidade, estava bem no meio. Mas, ao mesmo tempo, eu estava dando conferências que tinham muito êxito, em música, por exemplo – música e sociedade. Eu lecionei um curso inteiro de um ano sobre "música e sociedade"; muitas pessoas assistiram, então eu só poderia ser atacado com dificuldades. A mãe de Armelle, Nicole, era amiga dos Situacionistas. Ela estava sempre com eles; ela os convidava. Eles vieram comer em nossa casa, e nós tocamos música - isto era escândalo em Estrasburgo. Então, eis como eu vim a ter relações íntimas, relações orgânicas, com eles - não só porque eu ensinei marxismo na Universidade, mas através de Nicole que era uma intermediária. Guy veio para minha casa ver Nicole, e para jantar. Mas as relações eram difíceis, eles ficavam irritados por coisas minúsculas. Mustapha Khayati, autor do panfleto, estava no grupo.

K.R.: Como foi o efeito do panfleto [Sobre a Pobreza da Vida de Estudante] ? Quantas cópias foram distribuídas ?

H.L.:
Oh, teve muito êxito. Mas no princípio só foi distribuído em Estrasburgo; então, Debord e outros distribuíram-no em Paris. Milhares e milhares foram dados, certamente dezenas de milhares de cópias, para estudantes. É um panfleto muito bom, sem dúvida. Seu autor, Mustapha Khayati, era tunisiano. Havia vários tunisianos no grupo, muitos estrangeiros que foram posteriormente menos mencionados, e mesmo Mustapha Khayati não se expôs muitas vezes na ocasião porque ele poderia ter tido problemas por causa da sua nacionalidade. Ele não tinha cidadania dupla; ele permaneceu tunisiano e poderia ter tido dificuldades sérias. Mas, de qualquer maneira, em Paris, depois de 1957, eu vi muitos deles, e também fui passar um tempo com Constant em Amsterdã. Este foi o momento quando o movimento Provo se tornou bastante poderoso em Amsterdã, com a sua idéia de manter a vida urbana intacta, impedindo a cidade de ser eviscerada por auto-estradas e de ser aberta para o tráfego de automóveis. Eles queriam conservar e transformar a cidade em vez de entregá-la completamente ao trânsito. Eles também queriam drogas; eles pareciam contar com drogas para criar situações novas - imaginação estimulada por LSD, era LSD naqueles dias.

K.R.: Entre os situacionistas parisienses também ?

H.L.:
Não. Muito pouco. Eles bebiam. Na casa de Guy Debord, nós bebíamos tequila com a adição de um pequeno mescal. Mas nunca... mescalina, um pouco, mas, de qualquer forma, muitos deles não tomavam nada. Este não era o modo pelo qual eles queriam criar situações novas [...]

K.R.: O projeto de Constant previa o fim do trabalho ?

H.L.:
Sim, até certo ponto. Sim, eis o início: mecanização completa, a automatização completa do trabalho produtivo, que libera as pessoas para fazerem outras coisas. Ele foi um dos únicos que considerou o problema.

K.R.: E os situacionistas, também ?

H.L.:
Sim [...]. E, assim, uma mudança completa nos movimentos revolucionários começa em 1956-57, movimentos que deixam para trás organizações clássicas. Que bonita é a voz de grupos pequenos tendo influência.

K.R.: Assim, a existência real de micro-sociedades ou de pequenos grupos como os Situacionistas era por si só uma situação nova ?

H. L.:
Sim, até certo ponto. Mas, novamente, nós também não devemos exagerar. Para quantos deles ela existia ? Você sabe que a Internacional Situacionista nunca teve mais de dez membros [de cada vez]. Havia dois ou três belgas, dois ou três holandeses, como Constant. Mas eles eram todos imediatamente expurgados. Guy Debord seguia o exemplo de Andre Breton. As pessoas eram expulsas. Eu nunca fui parte do grupo. Eu poderia ter sido, mas tive cuidado desde que conheci o caráter de Guy Debord e suas maneiras e o modo que ele tinha de imitar Andre Breton, expulsando todo mundo a fim de chegar a um pequeno núcleo duro e puro. No final, os membros da Internacional Situacionista eram Guy Debord, Raoul Vaneigem e Michele Bernstein. Havia alguns pequenos grupos externos, grupos satélites - que era o meu caso, e o de Asger Jorn também. Asger Jorn tinha sido expulso, tanto quanto o pobre Constant. Por que razão ? Bem, Constant não construiu nada - ele era um arquiteto que não construía, um arquiteto utopiano. Mas ele foi expulso porque um sujeito que trabalhou com ele construiu uma igreja na Alemanha; expulsão por motivo de influência desastrosa. É uma tolice. Era realmente quase como ter que manter a si mesmo num estado puro, como um cristal. O dogmatismo de Debord era exatamente como o de Breton. E, o que é mais, era um dogmatismo sem um dogma, já que a teoria das situações, da criação de situações, desapareceu muito rápido, deixando para trás apenas a crítica ao mundo existente, que é onde tudo começou, com a Crítica da Vida Cotidiana.

K.R.: Como sua associação com o situacionistas mudou ou inspirou seu pensamento sobre a cidade ? Mudou seu pensamento ou não ?

H.L.:
Foi tudo um corolário, paralelo. Meu pensamento sobre a cidade teve fontes completamente diferentes [...] Mas, ao mesmo tempo em que conheci Guy Debord [1957], eu conheci Constant. Eu soube que os Provos em Amsterdã estavam interessados na cidade e eu fui ver o que acontecia lá, talvez umas dez vezes. Só para ver a forma que o movimento estava ganhando, se tomava uma forma política. Houve Provos eleitos para a Assembléia Municipal em Amsterdã. Eu esqueci qual ano, mas eles conseguiram uma vitória grande nas eleições municipais. Então, depois disso, tudo caiu em pedaços. Tudo isso foi parte e parcela da mesma coisa. E após 1960 houve o grande movimento na urbanização. [Os Situacionistas] abandonaram a teoria do Urbanismo Unitário, já que o Urbanismo Unitário só tinha um significado preciso para cidades históricas, como Amsterdã, que teve de ser renovada, transformada. Mas, no momento em que a cidade histórica explodiu em periferias, subúrbios - como aconteceu em Paris, e em diversos lugares, Los Angeles, São Francisco, extensões selvagens da cidade - a teoria do Urbanismo Unitário perdeu qualquer significado. Eu me lembro de discussões muito afiadas e aguçadas com Guy Debord, onde ele dizia que o urbanismo estava se tornando uma ideologia. Ele estava absolutamente correto, no momento em que havia uma doutrina oficial em urbanismo. Eu acho que o código de urbanismo na França data de 1961 - esse é o momento quando o urbanismo se torna uma ideologia. Isso não significa que o problema da cidade estava resolvido - longe disto. Mas naquele ponto [os Situacionistas] abandonaram a teoria do Urbanismo Unitário. E então, eu acho que até mesmo a deriva, os experimentos da deriva foram também pouco a pouco sendo abandonados dali em diante. Não estou seguro como isso aconteceu, pois esse foi o momento em que rompi com eles. Afinal de contas, há o contexto político na França, e também há relações pessoais, histórias muito complicadas. A história mais complicada surgiu quando [os Situacionistas] vieram até minha casa nos Pirineus. E fizemos uma viagem maravilhosa: deixamos Paris num carro e paramos nas cavernas de Lascaux que estavam fechadas não muito antes de chegarmos. Interessava-nos muito o problema das cavernas de Lascaux. Elas estão escondidas muito fundo, assim como um poço que era inacessível - e tudo aquilo estava coberto por pinturas. Como estas pinturas foram feitas, para quem foram feitas, já que não foram pintadas para serem vistas ? A idéia era que a pintura começou como uma crítica. Além do mais, também, todas as igrejas na região têm criptas. Nós paramos em Saint-Savin, onde há afrescos na abóboda da igreja e uma cripta cheio de pinturas, uma cripta cujas profundezas são difíceis de alcançar, pois é muito escura. O que são pinturas que não foram destinadas a serem vistas ? E como elas foram feitas ? Assim, nós fizemos nosso caminho pelo Sul; nós passamos por uma festa fabulosa em Sarlat, e eu quase não podia dirigir - eu era o único motorista. Eu tinha uma carta; nós fomos quase presos porque eu cruzei uma aldeia a 120 km por hora. Eles ficaram vários dias em minha casa, e, trabalhando juntos, nós escrevemos um texto programático. No fim da semana, eles passaram em Navarrenx, eles guardaram o texto. Eu disse a eles, "vocês datilografam isto" (estava manuscrito), e posteriormente eles me acusaram de plágio. Na realidade, foi má fé completa. O texto, que foi usado para escrever o livro sobre a Comuna [de Paris], era um texto em comum, feito por eles e por mim, e só uma parte pequena do livro sobre a Comuna foi tomada deste texto em conjunto. Eu tive a idéia sobre a Comuna como uma festa, e lancei isto em debate, depois de consultar um documento inédito sobre a Comuna que está na Fundação Feltrinelli, em Milão. É um diário sobre a Comuna. A pessoa que guardou o diário - que foi deportada, por causa disso, e que trouxe de volta seu diário vários anos depois da deportação, ao redor de 1880 - reconta como, no dia 28 de março de 1871, os soldados de Thiers vieram procurar os canhões que estavam em Montmartre e nas colinas de Belleville; como as mulheres acordaram de manhã muito cedo, ouviram o barulho e correram pelas ruas afora e rodearam os soldados, rindo, se divertindo, saudando-os de um modo amistoso. Então, elas partiram para trazer café e o ofereceram aos soldados; e estes soldados, que tinham vindo tomar os canhões, foram mais ou menos conquistados por aquelas pessoas. Primeiro as mulheres, então os homens, todo mundo saiu, numa atmosfera de festa popular. O incidente dos canhões da Comuna não foi, de qualquer modo, uma situação de heróis armados que chegam e combatem os soldados, assumindo os canhões. Não aconteceu assim. Foi o povo que saiu das suas casas, que vai regozijando-se. O tempo estava bonito, 28 de março, era o primeiro dia da primavera, estava ensolarado: as mulheres beijam os soldados, eles relaxam, e os soldados são absorvidos em tudo isso, uma festa popular parisiense. Mas este diário é uma exceção. E posteriormente os teóricos dos heróis da Comuna disseram-me: "isto é um testemunho, você não pode escrever história através de um testemunho". Os situacionistas disseram mais ou menos a mesma coisa. Eu não li o que eles disseram; eu fiz meu trabalho. Houveram idéias que foram debatidas no meio da conversa, e então trabalhadas em textos em conjunto. E então posteriormente, eu escrevi um estudo sobre a Comuna. Trabalhei durante semanas em Milão, no Instituto Feltrinelli; achei documentação inédita. Usei isto, e isso é completamente o meu direito. Olha, não me preocupo, de qualquer modo, sobre estas acusações [por parte dos Situacionistas] de plágio. E eu nunca gastei meu tempo para ler o que eles escreveram sobre isto na revista deles. Eu sei que fui caluniado. E então, o modo como rompi com eles aconteceu depois de uma história extremamente complicada, relativa à Revista Arguments. A idéia surgida era parar de editar Arguments porque vários dos colaboradores na revista, como meu amigo Kostas Axelos, pensavam que seu papel terminara; eles achavam que não tinham mais nada a dizer. De fato, eu tenho o texto de Axelos onde ele fala sobre a dissolução do grupo e da revista. Eles acharam que tudo tinha acabado e que seria melhor terminá-la [depressa], em lugar de deixar se arrastar demais. Mantinha-me informado sobre estas discussões. Durante discussões com Guy Debord, nós conversaamos sobre este assunto e Debord me disse, "nossa revista, a International Situationniste, tem que substituir Arguments". E, deste modo, o editor de Arguments, e todas as pessoas lá, tiveram que concordar. Tudo dependia de um certo homem [Herval], que era na ocasião um editor muito poderoso: ele fazia uma crônica literária para L'Express, também estava por dentro da Nouvelle Revue Français e nas Edições Minuit. Ele era extremamente poderoso, e tudo dependia dele. Bem, naquele momento eu tinha me separado de uma mulher, muito amargamente. Ela me deixou, e ela levou minha agenda de endereços com ela. Isto significava que eu já não tinha mais o endereço de Herval. Eu telefonei para Debord e lhe falei que estava perfeitamente disposto a continuar as negociações com Herval, mas que eu já não tinha o endereço dele, o número do telefone dele, nada. Debord começou a me insultar pelo telefone. Ele estava furioso e disse, "eu sou usado por pessoas como você que se tornam os traidores no momento decisivo". Esse foi o modo como a ruptura entre nós começou, e continuou de um modo curioso. Esta mulher, Eveline – que, eu esqueci de mencionar, era uma amiga de longa data de Michele Bernstein - tinha me deixado, e Nicole tomou o lugar dela, e Nicole estava grávida. Ela quis a criança, assim como eu: eis Armelle. Mas Guy Debord e nossos colegas Situacionistas enviaram uma mulher jovem a Navarrenx no feriado de Páscoa para tentar convencer Nicole a fazer um aborto.

K.R.: Por quê ?

H.L.:
Porque eles não souberam, ou não quiseram saber, que Nicole quis esta criança da mesma maneira que eu. Você pode acreditar que esta mulher, cujo nome era Denise e que era particularmente insuportável, tinha sido enviada para persuadir Nicole a fazer um aborto e a me deixar para ficar com eles ? Mais tarde eu entendi - Nicole me falou imediatamente sobre isto. Ela me disse, "sabe, esta mulher foi mandada por Guy Debord; eles querem que eu deixe você e livre-se da criança". Por isto, visto que já não tinha gostado muito de Denise, eu a desprezei. Denise era a namorada daquele situacionista que tinha aprendido chinês - eu esqueço o nome dele [Rene Vienet]. Estou lhe contando isto porque é tudo muito complexo, tudo é confuso; história política, ideologia, mulheres... mas houve um tempo que foi uma amizade real, muito calorosa.

K.R.: Você escreveu um artigo intitulado "Vocês todos serão situacionistas".

H.L.:
Oh sim, eu fiz isso para ajudar a substituição de Arguments pela Internationale Situationniste. Guy Debord me acusou de não ter feito nada para conseguir essa publicação. Sim, era Herval que supostamente a publicaria. Sorte minha que não apareceu, porque depois eles teriam me reprovado por isto. Mas há um ponto que quero voltar - a questão do plágio. Isso me aborreceu bastante. Não muito, só um pouco. Nós trabalhamos dia e noite juntos em Navarrenx, fomos dormir às nove da manhã (assim era como eles viviam, indo dormir pela manhã, dormindo todo o dia). Nós não comíamos nada. Era apavorante. Eu sofri ao longo da semana, não comendo, só bebendo. Nós devemos ter bebido cem garrafas em poucos dias. Cinco... e ficamos trabalhando enquanto bebendo. O texto era quase um resumo doutrinal de tudo que nós estávamos pensando, sobre situações, sobre transformações da vida; não era muito longo, só algumas páginas, manuscritas. Eles levaram-no embora e o datilografaram, e depois pensaram que tinham direito sobre as idéias. Estas idéias, que nós trouxemos à luz ao longo de um pequeno passeio no campo, eu as acolhi. Com um toque agradável de perversidade, eu os levei por um caminho que não conduzia a parte alguma, que se perdia nos bosques, nos campos, e assim por diante. Michele Bernstein teve um colapso nervoso completo, não curtiu nenhum pouco. É verdade, não era urbano, era bem longe no campo.

K.R.: Uma deriva rural. Falemos sobre a deriva em geral. Você acha que isso trouxe alguma coisa nova para a teoria do espaço ou para a teoria urbana ? Do modo em que enfatizou jogos e práticas experimentais, você acha que era mais produtivo que uma abordagem puramente teórica da cidade ?

H.L.:
Sim. Como observei, a deriva era mais uma prática que uma teoria. Revelou a fragmentação crescente da cidade. No curso de sua história, a cidade foi outrora uma unidade orgânica poderosa; durante algum tempo, porém, aquela unidade foi sendo desfeita, foi se fragmentando, e [os situacionistas] foram gravando exemplos do que nós todos conversávamos, como o lugar onde a nova Opera Bastille está para ser construída. A Place de la Bastille é o fim de Paris histórica - além dela está Paris da primeira industrialização do século XIX. A Place des Vosges ainda é Paris aristocrática do século XVII. Quando você vai a Bastille, outra Paris começa, que é a do século XIX, mas é Paris da burguesia, do comércio, da expansão industrial, ao mesmo tempo que a burguesia comercial e industrial toma o Marais, o centro de Paris – estende-se afora, para além da Bastille, da Rue de la Roquette, da Rue du Faubourg Saint-Antoine etc. Desde então a cidade é fragmentada. Nós tínhamos uma visão de uma cidade que foi fragmentada cada vez mais, sem sua unidade orgânica ser completamente despedaçada. Posteriormente, claro que as periferias e os subúrbios realçaram o problema. Mas tempos atrás isto então não era óbvio, e pensávamos que a prática da deriva revelava a idéia da cidade fragmentada. Mas era principalmente feita em Amsterdã. A experiência consistia em interpretar aspectos diferentes ou fragmentos da cidade simultaneamente, fragmentos que podem ser vistos só sucessivamente, da mesma forma que existe pessoas que nunca viram certas partes da cidade.

K.R.: Enquanto a deriva levava a forma de uma narrativa.

H.L.:
Isso. A pessoa vai ao longo de uma direção qualquer e relata o que vê.

K.R.: Mas os relatos não podem ser feitos simultaneamente.

H.L.:
Sim, pode, se você tem um walkie-talkie. A meta era atingir uma certa simultaneidade. Essa era a meta; nem sempre funciona.

K.R.: Então, um tipo de história sincrônica.

H.L.:
Sim, isso mesmo, uma história sincrônica. Esse era o significado do Urbanismo Unitário: unificar o que tem uma certa unidade, mas uma unidade perdida, uma unidade em desaparição.

K.R.: E foi durante o tempo em que você conheceu os situacionistas que a idéia de Urbanismo Unitário começou a perder sua força ?

H.L.:
No momento em que a urbanização se tornou verdadeiramente volumosa, isto é, depois de 1960, e quando a cidade, Paris, explodiu completamente. Você sabe que havia muito poucos subúrbios em Paris; havia alguns, mas muito poucos. E então, de repente, a área inteira estava cheia, coberta com moradias pequenas, com cidades novas, Sarcelles e o resto. Sarcelles se tornou um tipo de mito. Havia até mesmo uma doença que as pessoas chamaram "sarcellite". Desde então, a atitude de Guy Debord mudou - ele caminhou da tese do Urbanismo Unitário para a da Ideologia Urbanística.

K.R.: E o que foi essa transição, exatamente ?

H.L.:
Foi mais que uma transição, foi o abandono de uma posição para adotar uma exatamente oposta. Entre a idéia de elaborar um urbanismo e a tese de que todo o urbanismo é uma ideologia, está uma modificação profunda. Na realidade, dizendo que todo o urbanismo era uma ideologia burguesa, [os situacionistas] abandonaram o problema da cidade. Eles deixaram isto para trás. Eles achavam que o problema já não os interessava. Enquanto eu, de outro lado, continuei me interessando; pensei que a explosão da cidade histórica era precisamente a ocasião para achar uma teoria mais ampla da cidade, e não um pretexto para abandonar o problema. Mas, nós rompemos não por causa disso; rompemos por razões muito mais sórdidas. Aquele negócio sobre sabotar Arguments, o endereço perdido de Herval - tudo aquilo foi completamente ridículo. Mas havia razões certamente mais profundas. A teoria das situações foi abandonada, pouco a pouco. E a própria revista se tornou um órgão político. Eles começaram a insultar todo mundo. Isso fazia parte da atitude de Debord, ou poderia ter sido parte das dificuldades dele - ele se separou de Michele Bernstein [em 1967]. Eu não sei, havia todos os tipos de circunstâncias que poderiam ter lhe feito mais polêmico, mais amargo, mais violento. No fim, tudo foi orientado para um tipo de violência polêmica. Acho que eles acabaram insultando quase todo mundo. E eles também exageraram bastante o seu papel em maio de 68, depois do fato.

Fonte: http://www.geocities.com/jneves_2000/henri_lefebvre.htm

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Crítica da vida cotidiana: breve comentário do primeiro capítulo




Não sei se alguém aqui já leu esse importante livro de Henri Lefebvre, livro que foi de grande influência nos primeiros momentos da Internacional Situacionista. Estou na metade do livro e gostaria de fazer alguns comentários, principalmente no que diz respeito ao primeiro capítulo.

Embora ainda esteja na metade do livro, já dá pra notar que a proposta é importantíssima e deve ser levada a sério ainda hoje. Acredito que afirmações como, “nós buscamos o humano muito longe, ou muito ‘profundamente’, nas nuvens ou nos mistérios, sendo que ele nos espera e nos cerca em toda parte”; ou ainda, “a história, a psicologia, a ciência do homem devem tornar-se um estudo da vida cotidiana”, descrevem muito bem o projeto de Lefebvre.
O tom desse estudo crítico da vida cotidiana será marxista, é claro; e esse marxismo já se anuncia no primeiro capítulo, quando Lefebvre faz uma crítica um tanto mordaz da filosofia, da arte, da prosa e da poesia, desde finais do século XIX até seus dias. Um de seus primeiros alvos é André Breton e o surrealismo. O que Lefebvre critica é o fato desses movimentos, ao tentarem colocar o maravilhoso no cotidiano, nos objetos familiares, acabaram por negar o mundo real, e não por transformá-lo de fato. Além disso, afirma que a crítica colocada por movimentos como o surrealismo era leviana e alucinada demais para que dela se tirasse alguma análise lúcida. Para ele todos esses movimentos tinham como objetivo viver fora do real.
São também alvos de Lefebvre Heidegger e o círculo existencialista. Vale citá-lo:
“(...) A angústia, o mistério (o sentimento do mistério) são irredutíveis às teorias, impossíveis de se por em teoria. A angústia verdadeira, aquela de uma criança perdida, de um primitivo perdido na floresta, de um ser completamente frágil e desarmado diante da natureza, essa angústia nos escapa. (...) Mesmo nesse momento, a ação, o trabalho, o amor, o pensamento, a busca da verdade e do belo criam realidades que ultrapassam o indivíduo perecível. E não é porque essas afirmações tornaram-se banais e porque foram muito usadas – às vezes aos piores fins – que cessaram de ser verdade. Ao contrário... reergamos as certezas na comunidade humana, renovemos, restabeleçamos em sua força e sua juventude esses elementos do humano. Filósofos, metafísicos, vocês uivam à morte como cães! Mas não, perdão, vocês fazem pose. Vocês têm da morte uma idéia sofisticada da qual podem fazer uso, a qual podem repetir e misturar a todos os momentos de suas vidas; e vocês me convidam a seguir-lhes, a aceitar esse último fantasma. Mas esse ‘outro’, essa ausência, esse sentimento trágico da existência, essa consciência absurda, eu as encontro nos homens que levam suas vidas com bastante habilidade e sucesso; discorre-se sobre a angústia nas salas de conferência, diante de um público mundano, e ela se tornar um tema de dissertações escolares; escreve-se sobre a angústia nos Cafés ou nas redações de jornais; e se escreve de forma engenhosa, fina, técnica, com vocabulário refinado. As flores que se joga à morte não são mais que retórica. Os metafísicos “existencialistas” mais profundos... não impediram a degradação e o deslocamento da angústia. A angústia bruta, primitiva, se distancia de nós; e a reencontramos, não mais que num momento de fraqueza, e ela não nos leva a nada de ‘autêntico’ ou a uma profundidade abissal”.

A crítica prossegue, sem misericórdia, contra Rimbaud, contra Baudelaire, contra a poesia, contra os neo-românticos... todos culpados de um culto injustificado do fantástico, do misterioso e do mágico. Na verdade não compartilho inteiramente com Lefebvre, acho que ele se esquece de que o mágico, o fantástico e o misterioso estão presentes sim na vida cotidiana. O fantástico em Hoffmann, por exemplo, não desvia nossos olhos do real, mas os abre mais ainda e enxergamos coisas que antes pareciam escondidas. Eu acredito na força do mágico e do fantástico. Mas é preciso concordar que Lefebvre tem um bom argumento: de fato, muitas vezes, esquecemos de colocar esse mágico e esse fantástico em ação; esquecemos de transformar o mundo de acordo com nossos sonhos mais loucos; resignamos-nos em sonhar. Vale, então, acabar com uma extraordinária afirmação do autor:
"Não é na vida cotidiana que o homem deve realizar sua vida de homem? A teoria dos momentos sobre-humanos é inumana. Não é na vida de cada dia que é preciso ter a verdade em uma alma e em um corpo? O homem será cotidiano ou não será”.
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Comentário de jholland, em 24/01/2007, às 10:27 hs


Estou inteiramente de acordo com voce.

De fato, a importância desse filósofo marxista está em resgatar o cotidiano dentro da reflexão filosófica - o que também ocorreu no âmbito da historiografia, como atestam as histórias das mentalidades, do cotidiano etc - algo muito bem aproveitado pelos situacionistas. E esse tipo de reflexão guarda toda sua importância e atualidade (vide a esse respeito, a postagem "O Senso-comum e a Vida Cotidiana" de 18/07/2007, neste Blog, que traz um artigo de José de Souza Martins). Na minha opinião, é claro, os situacionistas foram mais longe, incluindo as experiências surrealistas dentro das preocupações de Lefebvre e agindo de acordo com elas ("devemos viver poeticamente", "a arte deve se fundir ao cotidiano" etc).

Tudo isso, na verdade, tem implicações profundas e penso que não devemos subestimar a importância dessa questão, muito bem frisada pelos próprios situacionistas e pelas vanguardas da primeira metade do século XX. Pois se ao trazermos o mistério, o fantástico, o não-domesticável para o cotidiano e para a reflexão, incorporando-o, rompemos, na verdade, com a própria razão e com as cisões do aparelho psíquico. Ou seja, trata-se de uma crítica à razão levada ao seu grau mais alto - e devemos lembrar aqui as reflexões de Deleuze, para citar um exemplo. Libertar o cotidiano pressupõe não apenas o rompimento das amarras detectadas pela razão egóica (por exemplo, pelo marxismo), mas uma ruptura interna, dentro do sujeito, o que, evidentemente, implica em uma reformulação epistemológica, uma transmutação do próprio ser e do pensar (que não mais é pensar, mas sentir, perceber , intuir e agir, tudo isso fundido). E aqui acho realmente que Lefebvre está "aquém" do desafio que até mesmo aquelas vanguardas já haviam percebido.
Por isso, tenho a impressão que Debord concordaria com voce, naquilo que se refere à dimensão do fantástico e do mistério. E também por isso, vejo nesse resgate das dimensões mais inconscientes, misteriosas e incontroláveis, promovido pelos movimentos de vanguarda, um distanciamento em relação ao marxismo. Talvez seja essa a razão pela qual Debord iria desferir duríssimos ataques contra Lefebvre posteriormente, chamando-o (injustamente, penso) de stalinista etc.

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Comentários u.s.w, 24 de janeiro de 2008, 11h00

Realmente sinto que faltou a Lefebvre, agora tendo lido mais dois capítulos, ousar na sua exposição e na sua proposta. No fundo, escondido no texto, ele deixa escapar momentos de poesia e alumbramento, mas tem sempre o cuidado de voltar para um “marxismo científico” muito correto. Acho que temia exatamente – e nesse sentido acho que sua crítica tem certa fundamentação – a perda de contato com o mundo das ações políticas que o delírio das vanguardas acabou trazendo, o que significa um abandono do real e não sua transformação. Unir o delírio à ação política foi o objetivo dos situacionistas e, pelo pouco que sei, foram bem sucedidos. Entretanto, Lefebvre, numa entrevista que você já enviou pra gente, faz algumas boas críticas a Debord, aproximando-o, no final, a Breton: segundo Lefebvre, Debord tornou-se quase que dogmático. Não conheço muito, ainda, dos situacionistas para avaliar essa crítica, talvez você possa falar mais.
Acho que vou postar a entrevista aqui no Blog.

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Comentário de jholland, de 24/01/2008, às 11:35 hs

Eu tenho uma posição clara nesse debate: creio que o marxismo está "aquém", por se inserir, ainda, dentro do que chamei de uma razão-egóica. Acho que Lefebvre já representa um avanço, um início de uma crítica a esse paradigma. Mas ainda se encontra um tanto indeciso em "dar o salto". As vanguardas do início do século XX, por sua vez, já iniciam esse salto, afastando-se bem mais dessa mesma "razão-egóica" - o que, aliás, já havia sido anunciado pelas vanguardas do final do século XIX (aquelas mesmas criticadas por Lefebvre !) - e por Nietzsche e a psicanálise. Debord retoma a crítica contundente das vanguardas, reavivando-as. Discordo de voce no tocante à crítica das vanguardas (promoveram um "afastamento" da ação "política": para as vanguardas, não há ação "política", pois as esferas "política", "artística" etc. se dissolvem...). Acho que o projeto delas era muito mais revolucionário que o de Lefebvre, por exemplo. A crítica deste àquelas é bem sintomática de sua perspectiva "racional-egóica", não compreendeu que a ação não somente deve ser pensada e executada, mas deve ser intuida e já "elaborada" dentro de pressupostos completamente impensáveis e inconcebíveis se o próprio ator-sujeito (ou seja, Lefebvre) não mudar de paradigma (no caso, o paradigma dele, falando aqui do ponto mais pessoal possível). Acho que Debord avançou muito nesse ponto, mas também ele não atingiu o "ponto de transmutação" necessário - pois senão teria se transformado em um Buda ou algo assim !

Mas devemos reconhecer o seguinte: o "quantum" de energia liberada pelas vanguardas e pelo Situacionismo já foi suficiente para detonar um terremoto sem precedentes no mundo, cujos reflexos abalaram a filosofia e o cotidiano até hoje. Tanto assim que o sistema neo-dadá teve que se transformar profundamente para absorver esse choque promovido por meia dúzia de pessoas ! Isso dá uma dimensão do que pode acontecer quando começamos a liberar as energias represadas no inconsciente e a romper as cisões psíquicas...

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Comentário de u.s.w, 24/01/2008, 14h01

Sabia que você tinha mais pra falar.

Tenho muito que refletir sobre isso.

Tenho algumas idéias/metas para esse ano que significam mudanças mínimas de comportamentos cotidianos, mas que podem fazer certa diferença.

Só tenho um senão: tal salto radical deixa de fora muita gente. Eu tenho sempre em mim essa vontade de aceitação maior - talvez, concordo, por me sentir de fora de um processo de emancipação tão contundente - da vida prosaica. Gosto de pensar que mesmo a dona de casa mais conformada é capaz de pequenas revoluções, pequenas liberdades... Repito: talvez seja uma esperança comigo mesma, algo que me justifique...

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Comentário de jholland, em 25/01/2008, às 11:00 hs

Gostaria de acrescentar somente duas observações:

1) acho sua intuição corretíssima, importante e que deve ser levada a sério. Em primeiro lugar, pelas razões que coloquei acima e que são de ordem pessoal, em relação a você mesma. Coerentemente, quando você começa a se levar a sério, suas intuições emergem, e voce deve também levá-las a sério, como parte do projeto de "transmutação" pessoal do qual também fazem parte qualquer reflexão teórica e prática política etc. Tudo vem junto e voce deve estar atenta a si própria o tempo todo, a fim de que voce não exclua nada, absolutamente nada. Assim, se voce tem "uma vaga impressão" de que algo não é bem assim, ou que "falta algo" ou que "não cai bem" etc etc., você deve levar isso que chamei de intuição muito a sério e deve analisar, sentir e vivenciar esse sentimento com todo cuidado e delicadeza, incorporando-o, sempre que possível, na sua reflexão, no seu viver etc. Portanto, minha percepção é de que voce deve ir em frente.

Por outro lado, concordo também com voce, pois essa transmutação - que ocorre também no nível epistemológico, discursivo, teórico etc etc - deve ser sempre INCLUSIVA, ou seja, deve não apenas incluir todas as manifestações da psiqué (da sua própria psiqué, como abertura e quebra das cisões, superação dos recalques etc), como também ter como princípio a inclusão do Outro (como consequencia daquelas superações internas). Toda ação-reflexão deve ser um exercício de compaixão (não só para consigo mesmo mas para com o outro). E é também nesse sentido que reafirmo o avanço dos movimentos de vanguarda do final do século XIX e início do XX, incluindo aí os Situacionistas. Tudo bem que Debord talvez fosse sectarista...é uma questão ainda em aberto. Mas ele estava consciente desse problema - e talvez não tivesse se auto-transformado o suficiente...

2) a segunda observação diz respeito à própria entrevista do H. Lefbvre, acima. Chamou-me muito a atenção o início da entrevista. Pois, embora eu não conheça o contexto dela, é muito significativo que ele tenha feito questão de puxar o assunto "situacionismo", como se fosse uma ferida ainda aberta dentro dele. Hmmm...a entrevista foi dada muitos anos após esses eventos, já no final da vida desse importante filósofo. É interessante notar que o situacionismo já era questão passada na trajetória de Lefevbre, pois no final dos anos 60 e anos 70 ele se ocupou de sociologia agrária e outras questões. Por que teria levantado esse assunto tantos anos depois ? Acredito que ele não tenha "resolvido" a questão dentro dele por um motivo muito importante e que tem a ver com tudo o que dissemos acima. Por se tratado de uma experiência radical - da qual o próprio H. Lefebvre tem orgulho de ter co-participado, por algum momento - ele reconhece intimamente a validade e a atualidade das questões levantadas, tendo mesmo mexido com o inconsciente dele e de toda a coletividade !