quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Transformações no mundo junguiano (e psicanalítico) ?


Transcrevo abaixo entrevista com Andrew Samuels , que traz interessantes informações sobre o estado atual do mundo junguiano e psicanalítico.

Não há dúvida que seu conteúdo traz uma prova de honestidade e coragem intelectuais, pois o entrevistado não se furta em desnudar suas angústias e dúvidas, colocando em questão inclusive a validade de conceitos fundamentais, quando, por exemplo, revela seu desconforto com a teoria dos arquétipos.

Esta é a tradução da entrevista concedida por Andrew Samuels a Claudette Kulkarni, uma das editoras do Round Table Review. A entrevista original pode ser encontrada no sítio C. G. Jung, Analytical Psychology and Culture. Sua tradução e publicação na RUBEDO foram expressamente autorizadas pelo entrevistado. Agradecemos a atenção e cordialidade de Andrew Samuels que, prontamente, atendeu nossa solicitação.




--------------------------------------------------------------------------------


Durante muitos anos, o renomado analista junguiano britânico, Andrew Samuels, tem sido um comentador perspicaz e, freqüentemente, provocativo sobre o presente e o futuro da psicologia junguiana. Também foi um dos primeiros colaboradores da Review e um dos que a apoiaram. Nessa entrevista com a co-editora da The Round Table Review, Claudette Kulkarni, ele expressa seu pensamento mais recente sobre esse "estranho mundo junguiano", no qual diz que "encontrou felicidade, amizade e aceitação" e que "irá defendê-lo até à morte".

Kulkarni: Gostem ou não, o termo "pós-junguiano" agora faz parte do vocabulário junguiano, mesmo parecendo não haver um consenso real sobre o que ele significa. Quando você o cunhou (1985), escreveu que pretendia "se referir tanto aos que estavam ligados a Jung, quanto aos distantes dele". Em seu artigo mais recente sobre este assunto (1998), você aprimora esta definição, acrescentando que esta "distância" de Jung deveria ser uma distância "crítica". Contudo, no mesmo artigo, você deixa a porta aberta para a idéia de que, talvez, "hoje em dia, todos são pós-junguianos". Era essa a sua intenção?

Samuels: Você está certa ao intuir que eu, realmente, acredite não ser possível, para os junguianos, serem qualquer coisa, exceto pós-junguianos. Se tomarmos seu próprio trabalho como exemplo, você quer fazer parte dessa idéia junguiana tradicional, mas também quer incluir o filósofo Gadamer e o pensamento atual na psicanálise quanto a questões referentes ao homossexualismo.

As inadequações de se basear uma disciplina profissional sobre um homem, significou que os junguianos começaram a se dividir em duas direções diametralmente opostas. De um lado, a impossibilidade de se fazer qualquer coisa nos próprios termos de Jung, levou a uma idealização de outras abordagens terapêuticas (relações objetais, etc.) e, especialmente, à psicanálise. Por outro lado, houve um retorno à letra dos escritos de Jung, com uma imitação servil ao que se imagina como sendo seu padrão de vida.

Chamo a primeira tendência de "fusão com a psicanálise" e a segunda de "fundamentalismo junguiano". Preocupo-me, igualmente, com ambos.

Kulkarni: Seu interesse por essas duas tendências parece emergir da preocupação com a própria sobrevivência da psicologia analítica. Isto é, se os pós-junguianos, realmente, quiserem prosperar, precisam tomar uma posição que inclua algumas críticas a Jung, sem abandonar suas raízes na obra do mesmo, deste modo, permitindo, em termos junguianos, a constelação da função transcendente, que poderia nos levar para "além" de Jung. Então, poderia falar mais sobre os perigos inerentes dessas duas tendências "opostas" e como elas devem inibir a sobrevivência dos pós-junguianos? E você teria uma visão de como uma psicologia pós-junguiana viável deveria parecer?

Samuels: O perigo principal da fusão com a psicanálise é o de que muitas características boas do trabalho clínico junguiano clássico serão perdidas, notavelmente a ênfase sobre a dimensão interpessoal da terapia, a compreensão não-literal dos símbolos da infância e o uso disciplinado da auto-revelação do analista. Além disso, por mais que pareça triste, se o objetivo oculto da fusão com a psicanálise é conseguir a aprovação do mundo psicanalítico, isto simplesmente não vai dar certo. Eles precisam muito de nós como uma distante tribo inimiga .

Estranhamente, tenho encontrado aceitação no mundo psicanalítico. Fui eleito um associado científico da Academia Americana de Psicanálise e convidado a editar um número especial da Psychoanalytic Review and Psychoanalytic Dialogues. Mas, também, tenho sido muito ativo em criticar a psicanálise. Por exemplo, tenho escrito sobre as atitudes reacionárias, sociais e políticas, contidas em grande parte da teoria das relações objetais. Também conduzi uma campanha na Grã-Bretanha para remover os obstáculos contra as lésbicas e os gays se tornarem candidatos psicanalíticos. Não seria por causa dessas posições e não a despeito delas, que os psicanalistas estejam interessados no que tenho a dizer?

O perigo principal do fundamentalismo, ao que me referi, é de que as pessoas irão se ferir por ele – candidatos potenciais, assim como os clientes. Como todo fundamentalismo, o junguiano é cruel, moralmente arrogante e surdo à razão.

Imagino que ninguém irá admitir ser membro de nenhuma dessas duas facções extremas, como as descrevi. Mas, tendo acabado de voltar de uma viagem a França, onde a comunidade junguiana aparenta saber muito bem o que estou apontando, sinto-me encorajado a continuar a pressionar por um maior debate sobre essas questões.

Espero estar claro que ainda continuo conservando um ponto de vista pluralístico, em relação ao nosso campo. Mas, nem aqueles que se fundem com a psicanálise, nem os fundamentalistas, convencem-me de estarem preparados para serem tolerantes com outras pessoas, com outras maneiras de fazer coisas.

Kulkarni: É, certamente, intrigante a forma pela qual você tem sido aceito entre os psicanalistas, apesar de (ou, como você diz, talvez por causa de) suas críticas à psicanálise. Minha opinião é que você não tem sido facilmente aceito entre os junguianos. Isto é, enquanto a maior parte dos junguianos, independentemente às suas convicções, saúdam Jung e os Pós-Junguianos como um texto definitivo que demarca a escola junguiana de teoria e prática, muitos junguianos contemporâneos parecem relutantes em aceitar as profundas críticas ao pensamento junguiano contidas neles e em seus escritos posteriores (incluindo suas recentes advertências sobre o perigo da fusão com a psicanálise ou do retorno ao fundamentalismo). Como você se sente e o que pensa sobre isso?

Samuels: Acho que meu problema é que fiz tantas críticas que, talvez, as pessoas me experimentem com uma pontada de dor. Tant pis, como diriam nossos amigos franceses. Vou listar os principais problemas que tentei explorar:

(1) Sinto-me desconfortável com a teoria dos arquétipos, tanto em seu aspecto de imagens universais, quanto em seu aspecto de estruturas subjacentes separadas das manifestações. Não tenho certeza de que, mesmo como um modelo teórico, a abordagem estrutural funcione nos dias de hoje. Para mim, uma abordagem dos arquétipos baseada nos afetos funciona melhor. Estava lendo, outro dia, um pouco mais sobre como as pessoas, em todas as culturas, podem reconhecer os afetos básicos. O que isto quer dizer é que, tudo o que é arquetípico, encontra-se em você ou em mim, como pessoas num mundo vivido e não em partes deste mundo, tais como imagem, ou tema, ou padrão, ou uma fase de desenvolvimento. O arquetípico é redefinido como a capacidade para experimentar afetos de uma espécie muito poderosa e profunda.

(2) As teorias de Jung sobre o gênero não sofrem tanto de generalizações desatualizadas e culturais, quanto de uma associação ao binominalismo, de forma que cada sexo tem características que, de alguma forma milagrosa, são opostas às do outro sexo. Se os homens são racionais, então, a mulher deve ser... - surpresa - irracional. (Esse método instigou Jung quando tentou fazer uma psicologia cultural nos anos de 1930, porque tornou judeus e alemães, duas faces de um mesmo par binário).

(3) Todo o problema do anti-semitismo.

Agora, se você acrescentar a essas três, a acusação de que alguns junguianos são fundamentalistas cruéis e que outros deixaram de ser junguianos, eu teria que ser, notavelmente, Panglosiano para esperar ser muito apreciado. Isto leva tempo. Pergunte a Fordham ou a Hillman, não que deva me comparar a eles, mas porque os dois, realmente, modernizaram a psicologia junguiana.

As pessoas não gostam do termo pós-junguiano por que elas querem ser tanto (a) junguianas, (b) elas mesmas, (c) ecléticas. Mas, quanto mais eu trabalho sobre essa palavra - e responder suas perguntas faz parte disso – percebo estar ficando mais difícil para qualquer um escapar da natureza de Janus dos pós-junguianos: retornando a Jung e indo além de Jung para... o quê, exatamente? Acho que mesmo os fundamentalistas buscam – por mais Jung. Os psicanalistas junguianos buscam a psicanálise.

Penso que o problema, como muitos tem argumentado, é de identidade. Os junguianos formam uma profissão, uma comunidade, um movimento – até mesmo um culto? E qual é, exatamente, a nossa história? Quão confiáveis podem ser os Ur-textos da psicologia analítica (pós-Shamdasani e outros)?

Por favor, não me entenda mal. Parafraseando a resenha de Memórias, Sonhos e Reflexão, de Phillip Toynbee , compartilho das emoções junguianas. Apenas para dar um exemplo, minha religião – o judaísmo - está se tornando, para mim, uma essência e, mais intensamente ainda, um fenômeno introvertido. Penso que Jung foi, realmente, a figura inspiradora na passagem das religiões para os espaços privados no indivíduo. Quantas pessoas dizem que são cristãs com "c" minúsculo e nunca vão a igreja? Não sei o que os teólogos diriam, porém penso que o impacto da psicologia (junguiana) sobre a religião foi de facilitar a introversão da sensibilidade religiosa. O lado negativo, ou ruim, disso é que a contribuição pública da religião (por exemplo, o debate moralmente modulado sobre questões atuais) ficará muda se a religião continuar, por assim dizer, apenas em uma base privada.

Kulkarni: Essa referência à religião me remete a algo que pensei há muito tempo: a aparente evolução singular de seus interesses. Você começou analisando nossa herança do "homem Jung," ajudando-nos, especialmente, a reconhecer suas falhas nas áreas de gênero e sexualidade (1985) e, depois, se engajou num processo de criticar o legado de suas idéias nessas e em outras áreas (1989, 1991). Isto parece ter colocado-o na arena muito "anti-junguiana" da política (1993), onde, vigorosamente, desafiou a tendência junguiana de ver fronteiras onde não há nenhuma (i.e., entre os assim chamados mundos externo e interno), insistindo que muitas coisas que tínhamos pensado ser puramente psicológica, "têm raízes políticas" e "não são tão 'internas' quanto parecem". E agora, em alguns de seus mais recentes trabalhos (1998), você está fazendo inserções na área da espiritualidade, buscando uma conexão entre espiritualidade, psicoterapia e política. Poderia parecer que você está sendo impulsionado por um intenso desejo de construir uma ponte sobre as brechas entre distintas arenas da vida humana. O que o levou para a espiritualidade neste momento?

Samuels: Dando uma resposta curta, foi que compreendi como muitas variantes da espiritualidade sempre existiram, que muitas delas são do meu interesse e que as muitas coisas que me movem poderiam ser entendidas em termos de variantes da espiritualidade. Isso me ajudou a ver por que torno-me tão incrivelmente apaixonado por muitas coisas, até o ponto onde me sinto preenchido por sentimentos e imagens dos mais diferentes tipos: música country, questões sociais, comida e assim por diante. Eu não tinha compreendido que estava tendo experiências espirituais porque havia 'aprendido' que isso não deveria ser considerado assim.

Logo, tive que teorizar sobre isso e me veio à idéia de que existem três tipos básicos de espiritualidade contemporânea.

Ao primeiro, chamo de espiritualidade social. Não gosto da idéia de que pessoas espirituais se reunem para fazer coisas em sociedade, coisas que melhoram a vida dos outros. Para mim, é o ato de estar junto em sociedade que conduz à dimensão espiritual. Isto é, esse tipo de espiritualidade é envolvida no que parece ser seu oposto: ação social e organização política, por exemplo. Penso que isto é, um pouco, um judeu adotando a espiritualidade, mas tenho um pressentimento de que isto está se tornando mais válido. Talvez estejamos vendo a ascensão de uma esquerda religiosa! Espiritualidade não está subvertida quando a ação social está na agenda, ela é aumentada.

Ao segundo tipo, chamo de espiritualidade profissional. Isto tem a ver com o reconhecimento, não apenas de que o profissional importa, mas, também, que a espiritualidade tem a ver com artificio e não apenas com as coisas ditas "naturais". Nós fazemos espiritualidade, este é o ponto. Não apenas literalmente, em nosso trabalho, mas, também, na construção de relacionamentos, da cultura e em tudo mais que se apresenta para o humano. Tem sido difícil transmitir, para as pessoas, essa visão particular: que espiritualidade é um negócio planejado e artificial.

O terceiro tipo é a espiritualidade profana (seguindo o famoso livro "Misticismo Sagrado e Profano" de Zaehner). Senti que era hora de revisitar as conexões entre espiritualidade e sexualidade, no sentido de prazer sexual e não, tão somente, no de relacionamentos Eu-Tu. Mas, existe mais do que sexualidade na espiritualidade profana; existe, também, todo o componente espiritual na cultura popular e até no que, também, devemos condenar como materialismo e consumismo.

Kulkarni: Estou fascinada por esse modo muito criativo de pensar a espiritualidade. Você parece, com efeito, estar tentando reivindicar o conceito de espírito, vendo-o como constelado em formas que não requerem a cisão mente-corpo. Poderia ser argumentado - razoavelmente, creio eu – que Jung tentou, embora, nem sempre de maneira bem sucedido, evitar esta cisão ao teorizar sobre a função transcendente. Você está sugerindo uma variação desta idéia?

Samuels: Eu não tinha pensado nisso antes de você ter mencionado, mas, o que diz faz sentido para mim. Vou tomar emprestada esta idéia. Muitas vezes a forma de teorizar de Jung é de imensa ajuda, mesmo se alguns detalhes e elementos de avaliação sejam um pouco mais problemáticos.

Kulkarni: E, esse tipo de apreciação de alguns dos trabalhos de Jung, parecem estar vinculados a algo que sempre me marcou em seu trabalho, a saber: sua insistência de que nós (junguianos) movemos nosso foco para longe do homem Jung, voltando-o para nós mesmos. Isto é, que examinamos as várias falhas de Jung (como as três que você identificou acima) "não como problemas dele, mas como nosso", porque herdamos um corpo de teoria junguiana, o qual continua, ainda hoje, a ser permeado pelos vários preconceitos de Jung. Sua intenção, aqui, parece-me ser a de nos ajudar a imaginar modos de superar aqueles aspectos da teoria de Jung que são androcêntricos ou fixados a determinados contextos culturais, ou que nos mantêm confinados num mundo estreito e "interno", descobrindo novas formas de tornar a teoria junguiana mais relevante para um maior número de pessoas. Você tem sugerido, por exemplo, que devemos estar mais dispostos a 'sujar' nossas mãos, tornando-nos mais envolvidos com o mundo e seus problemas – por exemplo, com os desafios apresentados pela multiculturalismo, capitalismo, economia de mercado, anti-semitismo, etc. Esta é, realmente, a extremidade radical do pensamento junguiano. Existem outros junguianos nisto com você? E quais são as principais áreas com as quais os junguianos têm que se confrontar hoje?

Samuels: Para mim, a coisa mais importante é que nós, junguianos, e outras escolas de análise ou terapia, não tentamos fazer nada no mundo externo por conta própria. Estou dizendo, afetuosamente, que deveríamos tentar ter um terapeuta em todo comitê policial, assim como eles têm um estatístico, mas do outro lado do espectro. Mas, por Deus, não nos deixe ter um comitê de terapeutas – isto seria o inferno!

Logo, o trabalho multidisciplinar é a chave aqui. Agora, deixe-me fazer um aparente desvio, para marcar algo importante. Se queremos engajar outros para trabalhar conosco, de forma multidisciplinar, então, temos que esclarecer nosso procedimento sobre as difíceis questões que estamos discutindo: anti-semitismo, sexismo e tudo mais. Ou, então, por que alguém iria querer trabalhar conosco?

Penso que, também, existe um problema que chamo de pseudo-especialidade junguiana. Com isso quero dizer quando um de nós – isso poderia ser eu em relação à política! – entra em uma área que é estranha às nossas principais áreas de especialidade. E, então, começamos a escrever com uma autoridade que não é exatamente real. Aqueles que mais ofendem são os que, entre nós, desejam ser críticos literários e antropólogos, embora, como havia dito, muitas pessoas, inclusive eu, caem nisso. Realmente, não sei qual é a solução para isso. Alguns de nós foram especialistas numa área antes de se tornarem analistas, mas o problema é que ficamos desatualizados.

O problema que estou tentando localizar é como sermos parceiros confiáveis, neste sério empreendimento inter ou multidisciplinar. Para alguns junguianos, talvez isso não importe tanto, para mim, importa.

Kulkarni: Muitos junguianos parecem hesitantes em entrar nesse desafio de estarem mais envolvidos em abordagens interdisciplinares da psique, abordagens que poderiam, inevitavelmente, nos deixar mais envolvidos, não apenas no mundo, mas também com os outros. Alguns temem que tal envolvimento com o "mundo externo" poderia levar-nos a diluir a teoria junguiana ou a perder nosso foco no "mundo interno" e no processo de individuação. Como você responde a tal preocupação?

Samuels: Não desconsidero aquelas pessoas que têm essas preocupações, embora ache que não há necessidade de se preocupar com isso. Primeiro, porque isto, sinceramente, não é o caso de uma coisa ou outra, mas de conjugar estas duas perspectivas. O problema é que é muito difícil de se aderir a uma abordagem pluralística e, facilmente, caímos em uma perspectiva interna ou externa .

Quando estou dando supervisão, acho útil, simplesmente, tomar a perspectiva oposta àquela que o terapeuta usa correntemente, de forma que, se seu trabalho for muito intra-psíquico, especulo sobre questões culturais e vice-versa.

Pessoalmente, tenho dificuldade com a resolução holística dessas questões que algumas pessoas podem manejar. Creio que existem diferenças entre esferas e domínios da existência e diferentes aspectos do universo, tais como o mundo interno e o mundo da política. Algumas vezes, o holismo criterioso é o caminho a seguir. Mas, fico desanimado com a quantidade de holismo barato que está presente e a forma como é usado, para apaziguar as ansiedades que vida do mundo moderno engendram em nós.

Kulkarni: Por "holismo barato," suponho que esteja incluindo muito do que exite sob a rubrica da "Nova Era". Parece-me que muitos junguianos têm se agregado a esse movimento popular – alguns, talvez, por fama e ganho financeiro, mas outros porque sentem que este é o meio de "passar a mensagem" para uma audiência maior. Você vê isto como problemático?

Samuels: Bem, nós saberemos a resposta a isso quando o livro de David Tacey, sobre Jung e a Nova Era, sair!! Sinceramente, não me importo com o que parece ser alguns dos excessos e maluquices dos seguidores da Nova Era – suas buscas por espiritualidade não devem ser muito diferentes das minhas ou das suas. Se um marciano viesse à Terra, poderia, ela ou ele, ser, realmente, capaz de falar sobre as diferenças entre os junguianos, os seguidores da Nova Era e os psicanalistas? Duvido. O que tem me preocupado é a aparente falta de interesse nas questões sociais por parte destes seguidores, mas isso tem começado a mudar nos últimos anos – por exemplo, em relação à ecologia. Tenho preocupação sobre a idealização dos povos indígenas, que me lembra os escritos de Jung sobre os chamados "primitivos". De um lado, quão maravilhoso é poder ajudar a civilização ocidental! Por outro lado, isto pode ser complacente e contribuir para as desvantagens materiais de tais grupos idealizados por sua sabedoria, enquanto não se erguer algo efetivamente contrário à aqueles interesses, principalmente no ocidente, que ameaçam destruir os povos indígenas do mundo.

Kulkarni: Gostaria de voltar agora a algo que você mencionou anteriormente - sobre estar incomodado com a atual teoria dos arquétipos. Acho que muitos de nossos leitores estariam interessados em ouvir mais sobre suas idéias a esse respeito. Por exemplo, você está dizendo, de fato, que Jung confundiu nossas experiências de poderosos (e numinosos?) afetos humanos por "arquétipos" universais? Isso não estaria ainda mais perto de "instinto" do que Jung permitiu? E como você, então, entende ou usa conceitos, como o de imago?

Samuels: Sim, você está certa em me ouvir dizer que é na área dos afetos que posso descobrir o que é conhecido por arquetípico. Normalmente, argumento que nada no universo é arquetípico, nada! Mas, tudo tem a capacidade ou potencial para estimular um nível arquetípico de excitamento emocional em nós. Isso quer dizer que os arquétipos estão, verdadeiramente, no olhar do observador e, assim, tão provável de ser encontrado no dia-a-dia habitual, assim como nas áreas oficiais, onde supomos encontrá-los – tais como a religião ou a infância.

Não posso mais comprar a idéia de uma espécie de andaime no qual as coisas são penduradas, que é um modo de imaginar a irreprensentabilidade dos arquétipos; que eles são formais e vazios, a menos que sejam preenchidos por alguma propriedade, padrão ou fenômeno.

Considero que nós, junguianos, temos que aceitar as teorias de difusão e migração cultural que desmontam a idéia de que existe um grupo de imagens a-históricas e universais. Similarmente, aqueles que querem crer nos arquétipos pertencentes à área biológica, têm que explicar porque nosso conceito particular não acrescenta nada ao que os biólogos e etnólogos já estão fazendo.

A parte mais difícil parece ser a de manter os arquétipos como um conceito ou constructo psicológico. Fui culpado disso em Jung e os Pós-junguianos, quando fiz uma grande lista de comparações e analogias entre arquétipos e idéias de outras disciplinas.

Arquétipo é uma palavra de poder e tende a ser usada erradamente. Contudo, muitas pessoas parecem ligá-lo à emoção, o que me ajuda em meu projeto de tentar fazer exatamente isso, mas de forma, inteiramente, teórica. O trabalho de Louis Stewart sobre afetos me vem à mente aqui e é excelente em introduzir a dimensão afetiva. Stewart foi um psicólogo academicamente formado e durante muito tempo analista junguiano na Bay Area.

Kulkarni: Você fez várias referências à "comunidade junguiana", o que me permite uma variação de uma questão levantada por você mesmo: O que somos nós? – "uma profissão... uma comunidade... um movimento?... um culto?" Parece-me que um dos únicos aspectos característicos da comunidade junguiana tem sido essa capacidade de criar espaços e organizações, nos quais leigos e profissionais podem se encontrar e aprender juntos. Contudo, isto parece estar mudando. Em vários círculos junguianos, parece estar havendo um crescente elitismo, que não apenas desencoraja os leigos de estarem ativamente envolvidos, mas também aumenta a divisão entre a comunidade junguiana "oficial" dos "que já estão dentro" (i.e., analistas e analistas em formação) e a comunidade junguiana mais ampla, porém não-oficial de "estranhos" (i.e., profissionais não-analistas, cujo trabalho – muitas vezes, o mais provocativo feito atualmente – de maneira característica, passa desapercebido no mundo junguiano oficial). O que acha que está acontecendo aqui?

Samuels: Num artigo sobre a história do Clube de Psicologia de Zurique, disse que achava que a profissionalização da psicologia analítica significava que havíamos perdido algo incalculável. Os clubes podem continuar a funcionar como espaços onde analistas e não-analistas podem se encontrar, mas o obstáculo é que os clubes têm verdadeiros fiéis em seu interior. O que torna a vida um bocado difícil para àqueles que têm uma atitude crítica para com Jung. Idealmente, como os fundadores do Clube de Psicologia Analítica de Londres mantiveram, os Clubes poderiam ser "universidades de psicologia analítica".

O que me conduz ao meu atual grande amor, que é a academia ocidental com todas as suas gloriosas contradições. A função da psicologia analítica na academia poderia ser muito interessante. Por exemplo, estamos testemunhando uma enorme mudança epistemológica, na qual, não apenas, a divisão observador-observado torna-se menos clara no modo em que os físicos têm nos ensinado, mas as próprias fontes de conhecimento trocaram seu locus. Elas trocam de um lugar para outro no mundo e em nós mesmos. Chamo a isso de subjetivação do conhecimento e outros a chamam de feminilização do conhecimento, ou conhecimento intuitivo, ou suave, ou tácito e assim por diante.

Essa epistemologia tem perigos por causa do slogan 'no seu coração você sabe que ele está certo', que foi usado pelo ditador Mussolini . Então, não poderia querer uma abordagem do conhecimento exclusivamente baseada neste tipo de epistemologia. Mas, pluralisticamente, como sempre, eu diria que o conhecimento subjetivo é tão válido quanto outros tipos.

As universidades estão começando a perceber isso, mas estão encarando um grande problema que é o de não ter, absolutamente, um repertório de abordagens teóricas para acomodar tais conhecimentos. De fato, elas têm, usualmente, sido contra este tipo de pensamento.

O modo em que terapeutas e analistas têm aprendido, através dos anos, a usar seu conhecimento subjetivo em uma busca objetiva para o bem-estar do paciente ou cliente, é um modelo muito proveitoso para os profissionais das ciências humanas e sociais copiarem. Acho que, de algum modo, uma de nossas maiores contribuições ao pensamento será está idéia de que a entidade, pessoa, ou tema que se confronta num espaço, de certo modo controlado, envia-lhe mensagens, as quais você pode receber e decodificar, naquilo que, em contexto clínico, é chamado de contra-transferência.

Kulkarni: Acho que você está pontuando algo, extremamente, importante aqui, que discute a tomada feminista e, relativamente pós-moderna, dos conceitos de "subjetivo" e "subjetividade" — um entendimento que eu chamaria de hermenêutico (no sentido gadameriano). Na perspectiva gadameriana, não existe subjetividade pura porque nenhum de nós pode ser independente de nossa "tradição" (isto é, da matriz de nossa cultura coletiva, teorias, ideologias, história, costumes, crenças, etc., - tudo o que nos permeia e nos condiciona e, portanto, que afeta e molda as interpretações que permitem o entendimento). Nesta estrutura, todo entendimento resulta de um inter-jogo entre as forças da tradição e as experiências do indvíduo. Isso permite uma menor atitude subjetivista, sem abandonar totalmente o conceito de subjetividade. E tudo isso me parece estar conectado ao seu desejo de desconstruir os arquétipos e de nos re-estabelecer no afeto. O que me permite fazer uma outra pergunta: você parece querer nos lembrar que o afeto encarnado está no centro da vida humana e, de lá, nos liga de volta à comunidade, através da política e, agora, através da espiritualidade. É esta a sua missão?

Samuels: Bem, a palavra missão que você usou me deixou sem jeito. Não sei sobre missão. Mas, entendo porque devo ter feito você usar esta palavra!

Kulkarni: Na realidade, eu a usei com prazer desde que o percebi como alguém que, não apenas exibe uma grande paixão pelo o que acredita, mas que também está preocupado com algumas questões filosóficas profundas. Eu diria sobre você, o que alguém disse sobre Gadamer, que "foi [seu] destino retornar à questão ainda mais básica, prática e política, sobre o modo correto de viver" (Frederick G. Lawrence em "Introdução do Tradutor" para Hans-Georg Gadamer: Reason in the age of Science, 1981, p. xiv) – exceto que eu diria que você chega até isso, psicologicamente.

Isto me leva à minha última pergunta: Quem são os indivíduos que estão sendo formados para serem analistas hoje e do que se trata a formação? Isto é, a maioria dos junguianos têm ouvido as estórias apócrifas sobre como Jung era feliz de ser Jung, e não "um junguiano", e como foi relutante em se envolver no estabelecimento de um programa formal para o treinamento de analistas "junguianos". Apesar de qualquer receio, contudo, Jung se envolveu no estabelecimento de um instituto em Zurich e, desde então, muitos outros institutos e programas de formação têm aparecido em todo o mundo. O procedimento para entrar e a conclusão desses programas parecem ser assunto de algumas controvérsias: qual é o objetivo da formação? Alguns acreditam que os programas de formação têm se tornado veículos para preservar a ortodoxia, ou para o estabelecimento de uma classe de elite de analistas, que formam algum tipo de clube para os quais eles irão convidar apenas outros iguais. O que você acha? Essas críticas são válidas?

Samuels: Bem, tenho debatido a respeito de um programa de ação afirmativa, no qual nós tornaríamos mais fácil para diferentes tipos de pessoas treinarem para serem analistas, porque sinto que isso é necessário em termos de responsabilidade social e, também, porque sinto que analistas nascem, não são feitos. Mas, a corrente está contra essa visão e até os requisitos aplicados à formação tornam-se mais e mais rígidos.

Esta é a razão pela qual gosto de trabalhar com a IAAP (Associação Internacional de Psicologia Analítica) em áreas limites, onde, simplesmente, não se pode fazer o mesmo tipo de demanda que se faz no ocidente. Tenho aprendido muito em minhas viagens a lugares que eu tenho sido admitido para ensinar.

Para voltar à sua questão, penso que a razão, pela qual, muitos dos programas de treinamento de hoje são tão deprimentes como lugares para se estar é que estão cheios de zelo psicanalítico (ao contrário do zelo junguiano). Isso tende a levar à monocromização do campo. E ele não é, de forma alguma, monótono. Tipos excêntricos, singulares, suis generis, afluem.

Encontrei felicidade, amizade e aceitação nesse estranho mundo junguiano e irei defendê-lo até a morte.



Andrew Samuels é Professor de Psicologia Analítica na Universidade de Essex e Professor Visitante dos Estudos Psicanalíticos na Universidade de Londres. Ele é analista junguiano, conferencista e consultor político. Seus livros incluem Jung e Post-Jungians, A Critical Dictionary of Jungian Analysis e The Plural Psyche. The Secret Life of Politics será publicado no ano 2000.

Claudette Kulkarni é psicoterapeuta particular, sem vínculo institucional e do Persad Center (uma agência de saúde mental que dá assistência às "minorias sexuais", à comunidade e aos familiares de aidéticos), Pittisburgh, PA. Ela é a autora de Lesbians and Lesbianisms: A Post-Jungian Perspective, and "Radicalizing Jungian Theory" em Contemporary Perspectives on Psycotherapy and Homosexualities. Ela é co-editora do The Round Table Review.

Tradução
Adriana Bisi Nicolau
Revisão
Carlos Bernardi
Marta Chagas
Marcus Quintaes

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Palestra de Giorgio Agamben em florianópolis/setembro 2005

link revista interthesis http://www.interthesis.cfh.ufsc.br/interthesis5/artigos/Traducao_Selvino_AGAMBEN_interthesis5.pdf

MOVIMENTO1¨
GIORGIO AGAMBEN
As reflexões que farei hoje nascem de um mal-estar, ou melhor, de uma série de
perguntas que me pus, assistindo, há algum tempo atrás, em Veneza, a um encontro em
que estavam presentes algumas pessoas que também estão aqui hoje (Toni, Casarini...).
Um termo era repetidamente usado pelos que falavam e discutiam: era o termo
“movimento”. Trata-se de um termo que, em nossa tradição, tem uma longa história.
Mesmo hoje, na intervenção de Toni (Negri), o termo movimento parece ter sido o mais
recorrente. Também no seu livro tem uma posição estratégica, toda vez que se trata de
definir o termo multidão, por exemplo, para escapar da falsa alternativa entre soberania
e anarquia. De onde vinha meu mal-estar, que se repete também hoje? Do fato de me dar
conta, pela primeira vez, de que este termo nunca era definido. Quem o usava
provavelmente não o poderia definir, ou em todo caso, nunca o definia. Eu mesmo não o
teria conseguido definir. No passado muitas vezes me servi, como regra implícita de
minha prática de pensamento, da fórmula: quando há movimento, fazer como se não
houvesse, e quando não há movimento, fazer como se houvesse. Agora me dou conta de
que não sabia o que significava o termo movimento, para além de toda a sua
genericidade. Trata-se de um termo que todos acham que entendem, mas que não se
define. Por exemplo: de onde provinha este termo? Por que se passa em certo momento
a chamar movimento uma instância política decisiva? Assim, as considerações que faço
1 Tradução portuguesa por Selvino José Assmann, Doutor em Filosofia pela Università Lateranense, PUL,
Itália, Professor do Departamento de Filosofia e do Doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas,
CFH/UFSC, Setembro de 2005.
¨ Tradução portuguesa da intervenção feita por Giorgio AGAMBEN, em italiano, em encontro realizado em
Veneza. Audio acessado em junho de 2005: http://www.globalproject.info/IMG/mp3/03_agamben.mp3.
Conservou-se em geral, na tradução portuguesa, o estilo da intervenção falada, embora se tenha cotejado
o áudio em italiano com a transcrição feita e traduzida para o inglês – por Arianna Bove - acessada, em
agosto de 2005, na revista eletrônica Multitudes: http://multitudes.samidzat.net/article.php3?id_article=1914
2
hoje nascem da consciência de que não era possível deixar indefinido esse termo, esse
conceito. Devemos pensar o movimento porque o conceito é de algum modo o nosso
impensado, que, por isso mesmo, corre o risco de comprometer eventualmente nossas
escolhas e nossas estratégias. Não é apenas um escrúpulo filológico, ou porque a
terminologia é o momento poético e, portanto, produtivo do pensamento, ou porque o meu
trabalho consiste em definir conceitos, o que por hábito costumo fazer, mas porque o uso
a-crítico de certos conceitos pode ser responsável de muitas derrotas. Lembro que estou
apenas no início de uma pesquisa sobre este conceito, e por isso hoje quero apenas
plantar algumas balizas, que poderiam servir para endereçar a investigação futura.
Em primeiro lugar, alguns dados históricos banais: o conceito de movimento, que
nas ciências e na filosofia tem uma longa história, por sua vez adquire na política um
significado técnico relevante apenas no século XIX.. Um dos primeiros aparecimentos
ocorre na Revolução de julho de 1830 na França, na qual os defensores de mudança se
denominavam do “partie du mouvement” e os seus adversários do “partie de l’ordre”. De
modo breve, talvez só com Lorenz von Stein, autor que, como se sabe, influenciou tanto
Marx quanto Carl Schmitt, que este conceito se torna mais preciso e começa a definir um
âmbito estratégico de aplicação. Na sua História do Movimento Social na França (1850),
Von Stein joga a noção de movimento em contraposição dialética à noção de Estado. O
Estado é o elemento estático, legal, enquanto o movimento é a expressão das forças
dinâmicas da sociedade. Dessa forma, o movimento é sempre movimento social, em
antagonismo com o Estado, e expressa o primado dinâmico da sociedade sobre as
instituições jurídicas e estatais. Assim, nem sequer Von Stein define o que entende por
movimento; ele atribui a ele uma dinâmica e descreve sua função, mas não lhe dá uma
definição nem uma tópica.
Algumas indicações interessantes sobre a história dos movimentos podem ser
encontradas no livro de Arendt sobre o totalitarismo. Mas também nele o termo acaba não
sendo definido. Ou seja, todos sabem o que é, mas ninguém o define. O que Arendt
mostra é que por volta da Primeira Guerra Mundial, imediatamente antes e imediatamente
depois, os movimentos adquirem na Europa um desenvolvimento extraordinário, mas
agora em contraposição aos partidos. Por volta da primeira Guerra Mundial, os
3
movimentos estendem sua influência em contraposição estratégica contra os partidos.
Assiste-se então a uma verdadeira explosão do conceito e do fenômeno do movimento.
Tal terminologia é usada tanto pela direita quanto pela esquerda: Fascismo e Nazismo
sempre se definem como movimentos, e só secundariamente como partidos.
De toda forma, trata-se de um termo que neste momento ultrapassa o âmbito
político. Muitas pessoas conhecem a importância que, nesse momento, têm na própria
formação o Jugendbewegung (movimento de juventude). Para dar um exemplo de fora da
política: quando Freud, em 1914, pretende escrever um texto para definir o que é isso, a
psicanálise, ele não a define nem como escola, nem como instituição, e nem como
disciplina, mas como “movimento psicanalítico”. Mas também aqui não aparece uma
definição. De toda forma, se percebe claramente que há em determinados momentos
históricos palavras e conceitos que se impõem como palavras de ordem irresistíveis, que
são adotadas por posições antagônicas, sem que, porém, nunca se exija uma definição.
O ponto perturbador desta minha pesquisa, o ponto em que se evidencia a cegueira deste
conceito, é me ter dado conta que o único que havia tentado definir no âmbito político e
também jurídico este termo foi um jurista nazista: Carl Schmitt. No ensaio de 1933,
intitulado “Staat, Bewegung, Volk” (Estado, Movimento, Povo), e cujo subtítulo é Die
Dreigliederung der politischen Einheit (A tripartição da unidade política), Schmitt procura
definir claramente a função político-constitucional da noção de movimento. O que é
perturbador é o fato de Schmitt querer definir nesse ensaio a estrutura constitucional do
Reich nazista. Trata-se de definir o que ele denomina “heutige Verfassunglage”, ou seja, a
situação constitucional do Estado nacional-socialista. Eis um breve resumo das teses de
Schmitt. Parece-me que esta promiscuidade terminológica com um pensador do nazismo
exige clareza e lucidez. Portanto, sem uma análise dessa promiscuidade, no caso da
análise como a de Schmitt, não é possível esclarecer e sair dessa promiscuidade.
Segundo Schmitt, a política do Reich nazista se funda sobre três elementos ou
membros: Estado, movimento e povo. Por conseguinte, a articulação constitucional do
Reich nazista é resultado da articulação e da distinção desses três elementos. O primeiro
elemento é o Estado - declara Schmitt – e importa prestar atenção na definição que ele
dá: o Estado é a parte política estática. Trata-se do aparato das repartições. O povo –
4
preste-se também atenção – é o elemento impolítico, não político, (unpolistisch), que
cresce à sombra e sob a proteção do movimento. O movimento, por sua vez, é o
verdadeiro elemento político, elemento político dinâmico, que encontra a sua forma
específica na relação com o Partido Nacional-Socialista, com a direção (Führung).
Importante é que para Schmitt o próprio Führer não é senão a personificação do
movimento. Gostaria ainda de falar sobre as implicações dessa tripartição, que, segundo
Schmitt, também está presente no aparato constitucional do Estado soviético.
Uma primeira consideração importante, rica de conseqüências, é a seguinte: o
primado da noção de movimento é função do fato de o povo se tornar impolítico
(insistimos que o povo é o elemento impolítico que cresce à sombra e sob a proteção do
movimento...). Portanto, eis a primeira conseqüência importante: o movimento torna-se o
conceito político decisivo quando o conceito democrático de povo, como corpo político, já
está ultrapassado. Isso talvez hoje não nos deixe surpresos, mas se pode dizer que a
democracia acaba quando nascem os movimentos. Em sentido substancial, não existem
movimentos democráticos (entendendo aqui por democracia aquela tradição que vê no
povo o seu elemento político constitutivo – se de fato a democracia possa ou não
repousar sobre o conceito de povo, isso é outro problema...). Esse pressuposto – o de
que os movimentos estabelecem o fim do conceito de povo como corpo político – parece
ser compartilhado tanto pela tradição revolucionária da esquerda, quanto pelo fascismo e
pelo nazismo. Não é por acaso que pensadores políticos contemporâneos, como Toni
(Negri), procuram pensar o novo corpo político recorrendo a outras noções, como
multidão, e não à de povo. Em Hobbes, a noção de multidão também aparece contraposta
à noção de povo. Para mim também é significativo que em volta de Jesus não há nunca
laos nem demos (termos técnicos no grego para “povo”), mas apenas oclos (uma massa,
uma “turba”, conforme a tradução de São Jerônimo, uma multidão). Em volta de Jesus
nunca há povo, mas somente multidão. Portanto, o conceito de movimento pressupõe o
eclipse do conceito democrático de povo como sujeito político constitutivo, como corpo
político. Esta é a primeira conseqüência do uso do termo movimento. E nisso concordam
nazismo e fascismo: estes nascem da consciência de que o conceito de povo como corpo
político está ultrapassado.
5
A segunda conseqüência desse conceito schmittiano de movimento é a de que o
povo é um elemento impolítico cujo crescimento o movimento precisa proteger e sustentar
(Schmitt usa o termo “wachsen”, que tem a ver com crescimento biológico, de plantas e
animais). Conforme declara Schmitt, isso corresponde não à esfera não política do povo,
mas à esfera impolítica da administração (Selbstverwaltung). Schmitt lembra também o
estado corporativo fascista. Olhando as coisas com os olhos de hoje, parece que não se
pode deixar de ver - nessa determinação do povo como elemento não-político - o implícito
reconhecimento, que Schmitt nunca ousa articular, do seu caráter biopolítico. O povo,
deixa de ser corpo político constitutivo, e se transformou em população, ou seja, em
entidade demográfico-biológica, e, como tal, impolítica. Uma entidade que o movimento
deve sustentar, proteger e fazer crescer. Quando, durante o século XIX, o povo se
transforma de entidade política em entidade demográfica e biológica, em populações, o
movimento se torna uma necessidade. Disso também devemos ter consciência: vivemos
em uma época na qual a transformação do povo em população, de uma entidade política
em entidade demográfica, é um fato cabal. O povo hoje é uma realidade biopolítica, no
sentido de Foucault, no sentido restrito do termo, e é essa transformação biopolítica do
antigo sujeito político, que torna necessário o conceito de movimento. Se, porventura,
quisermos pensar de forma diferente o conceito de biopolítica, como o faz Toni (Negri),
mesmo que em perspectiva diferente, e da qual eu me sinto muito próximo, se quisermos,
pois, pensar a intrínseca politicidade do biopolítico – se o elemento biopolítico é visto
como político desde sempre , e por isso não precisa ser politizado através do movimento
¾ então precisaremos repensar, desde a raiz, o conceito de movimento. Não poderemos
usar a-criticamente o conceito de movimento se, por exemplo, quisermos pensar a
politicidade do elemento biopolítico.
Tal trabalho de definição torna-se necessário também porque, continuando a ler o
texto de Schmitt, verificamos como aparecem, a partir do conceito de movimento, aporias
especialmente ameaçadoras. Se, na perspectiva de Schmitt, o elemento político
determinante, se o elemento político autônomo é o movimento, e se o povo, por sua vez,
é um elemento impolítico, então o movimento só poderá encontrar sua politicidade na
medida em que sinalizar no corpo biopolítico do povo para cesuras internas que permitam
a sua politicização. Essa cesura é denominada por Schmitt de identidade de espécie, ou
seja, racismo. Podemos verificar que aqui Schmitt alcança a máxima identificação com o
6
racismo e a máxima co-responsabilidade com o nazismo. Isso é um fato e, ao mesmo
tempo nos devemos dar conta de que essa escolha, a de ser obrigado a identificar uma
cesura, no corpo impolítico do povo, é a conseqüência imediata da sua concepção da
função do movimento. Se o elemento político não for o povo, mas o movimento como
entidade autônoma, de onde o movimento pode tirar sua politicidade? A politicidade do
movimento poderá basear-se unicamente na sua capacidade de identificar no interior do
povo um inimigo, ou seja, um elemento racialmente estranho – no caso de Schmitt. Onde
há movimento sempre haverá uma cesura que corta o povo, que divide o povo, nesse
caso identificando um inimigo. Eis porque me parece tão urgente repensar o conceito de
movimento, e esclarecer a sua relação com o de povo e de multidão. Em Schmitt vemos
que o elemento excluído do movimento como impolítico volta a apresentar-se como
aquilo que precisa, cada vez, ser decidido; trata-se de um decisão política sobre o
impolítico, sobre o que é impolítico no político. Em Schmitt, o movimento é um órgão que
decide sobre o impolítico. É uma decisão política sobre o impolítico. Isso pode ter a forma
de uma cesura étnica ou racial, mas também, como acontece hoje, a forma de indicar
uma tarefa de gestão e de governo daquele elemento impolítico que são as populações, o
corpo biológico da humanidade, dos povos, que o poder hoje deve governar.
Há algumas perguntas que hoje se põem para nós.
Em primeiro lugar: devemos continuar usando o conceito de movimento, ou
devemos abandoná-lo? Se, por exemplo, o conceito de movimento sinaliza para uma
espécie de politização do impolítico, poderia acontecer um movimento que fosse
diferente, por exemplo, de uma guerra civil?
Ou então, outra pergunta: em que direção poderíamos repensar o conceito de
movimento e sua relação com o biopolítico?
Com esta pergunta gostaria de terminar. Não darei aqui uma resposta, para uma
pesquisa que tomará muito tempo, mas gostaria apenas de dar algumas indicações de
horizonte, para onde nos podemos movimentar ou onde podemos pesquisar.
7
Sabemos que o conceito de movimento é o conceito central no pensamento de
Aristóteles. No interior do seu pensamento, o conceito de movimento, kinesis, cumpre
uma função estratégica num âmbito muito importante, como o da relação entre potência e
ato. Aristóteles apresenta uma definição muito interessante: movimento é o ato de uma
potência enquanto potência, mais do que uma passagem para o ato. Noutro lugar ele
afirma que o movimento é um ato imperfeito, ateles, que não se possui no seu fim, que
não tem fim. Neste caso, sugeriria uma pequena modificação em Aristóteles, que vai
numa direção - entre as muitas diferenças que nos opõem - que Toni poderia compartilhar
comigo: o movimento é a constituição de uma potência enquanto potência. Mas se isso
for verdade, então nunca conseguiremos pensar que o movimento seja externo ou
autônomo em relação à multidão, ao povo. Assim, o movimento nunca poderá ser sujeito
de uma decisão, organização, direção do povo, ou nunca poderá ser elemento de
politicização da multidão ou do povo.
Outra coisa que me parece interessante em Aristóteles é que o movimento é um
ato ao qual falta um fim, ateles, incompleto, in-finito, no sentido de lhe faltar um telos. Isso
significa que o movimento se mantém numa relação essencial com uma privação, com
uma ausência de telos, com uma imperfeição. Movimento é sempre, constitutivamente,
relação com o próprio faltar, com a própria ausência de um ergon, de um telos e também
de uma obra. Aquilo sobre o que nunca estou de acordo com Toni é a ênfase posta na
produtividade. Há que reivindicar também a inoperosidade, a ausência de obra como
elemento central... Por conseguinte, o movimento é algo que nunca se possui em um
ergon, em um telos, em uma obra. Movimento expressa nesta perspectiva a
impossibilidade de um telos, de um ergon, ou de um fim de uma obra para a política.
Movimento significa precisamente o fato de ser indefinida (indefinitezza) e a imperfeição
de toda política. Nesse sentido, o movimento deixa sempre um resíduo.
Sob esta perspectiva, o mote que havia citado inicialmente, e que servia de regra
interna para o meu pensamento - quando há movimento, fazer como se não houvesse; e
quando não há movimento, fazer como se houvesse – poderia ser reformulado, em
sentido ontológico, da seguinte maneira: o movimento é aquilo que, se existe, é como se
não existisse, ele falta a si mesmo (manca a se stesso), e quando não existe, é como se
8
existisse, excede a si mesmo (eccede a se stesso). Há, pois, um umbral de
indeterminação entre o excesso e a falta que marca o limite e o resíduo de qualquer
política na sua constitutiva imperfeição.
Florianópolis, Setembro de 2005.
Selvino José Assmann – Tradutor

A Buddhist Perspective on Lucid Dreaming


TARAB TULKU XI

Copenhagen University, Denmark

Editor’s Note
:

Tarab Tulku, L.R.G.S, Dr.Phil., is a Tibetan lama, the eleventh in-carnation of the Tarab Tulku. Tarab is an abbreviation of the much longer name of a monastery in Tibet. Tulku means "reborn." He has been educated in Tibet at the University of Drepung Monastery, where he received the highest degree, Lharampa Geshe, in Buddhist philosophy and metaphysics, as well as in meditation disciplines (including Tantra). At present Tarab Tulku is the head of the Tibetan section of the Royal Library and of the Tibetan department of Copenhagen University. On the basis of his own profound experience and accumulated knowledge, Tarab Tulku has modified the original Tibetan Buddhist techniques and developed therapeutic meth-ods adapted to Western approaches, still integrating the essence of the esoteric meditation practices of Tibetan Buddhism.


Nota do Blog
:

O texto abaixo é fundamental para quem se interessa e se dedica à pesquisa dos sonhos lúcidos. Foi retirado do site http://www.spiritwatch.ca/abuddhis.htm, cujo "link" encontra-se entre os "sites recomendados" neste mesmo Blog sob título "Sonhos 2". Não obstante essa referência já antiga no Blog e em face da importância do próprio texto, julguei conveniente transcrevê-lo na íntegra, sob a forma de postagem, a fim de que permaneça arquivado neste espaço.


Within the Buddhist Tantric tradition there is great emphasis on using the dream state of being for developmental ends. There exists a special practice called "dream yoga," which in the West has been presented as one of the "Six Doctrines of Naropa." The dream yoga is a high meditation practice which is performed by the practitioner within the so-called lucid dream state.
However, working directly and consciously in the lucid dream state is not ac-cessible to very many people. As the dream yoga methods are very strong and direct methods for development, I have committed myself to developing ways of dealing with dreams, which on the one hand provide training towards actual dream yoga practice—the practicing within the lucid dream state—and on the other hand can fruitfully be used to confront and dissolve problematic psychological structures more effectively than by dealing with these in the ordinary waking state. Therefore, it is appropriate to talk about two different levels of purposes, a surface level of psychological observance, and a more subtle level of spiritual observance.
Psychologically-oriented practices are concerned mainly with changing our general psychological structures with the purpose of decreasing our everyday prob-lems in relation to self and others. In contrast, the spiritual observance level is a practice level mainly concerned with changing our existential existence, with the purpose of decreasing the distance between, and thus uniting, our rational and non-rational abilities, or our feminine and masculine energies, or our body and mind or substance and consciousness. By healing the gaps and finally uniting subject and object we break the dualistic determination and entrapment of our existence, thus entering into the nature of existence, the essential nature of the universe.
It should be noted that distinguishing these two practice levels is provisional. The two levels follow each other sequentially. One must solve one’s major problems on a psychological level before being able to successfully enter the more subtle spir-itual level where changing one’s existential structures in relation to reality occurs.
One of the main concerns on a psychological level is to obtain a balance be-tween our ordinary coarse-rational contact with and/or interpretation of reality and a nonrational relation with reality. This balance can be obtained, and has traditionally within Buddhism been obtained, from two alternately used angles:

1. One can use methods to awaken and train the nonrational contact, whereby the coarse-rational contact naturally will be softened, and become less rigid and projec-tive and thus more open and clear; or

2. One can use methods to directly reduce the coarse, rationally created reality, to touch upon and be able to perceive and appreciate a more direct and nonmanipulated relationship with reality, a step which in itself will further a nonrational contact with reality.

During the process of establishing a balance between our ordinary, coarse-rational and the nonrational contact with reality our psychological problems change as they are part and parcel of the coarse-rational creations.
In dealing with dreams, in the dream state in particular, we initially train the nonrational way of contacting reality, using our dream body/mind abilities. With this basis we deal with the dream object—and later again with the dream subject—in different ways, slowly breaking the coarse-rational beliefs as well as many other layers of our dualistic way of existence.
Before I talk about the way I work with dreams, I will briefly be concerned with the creation and dynamism of our ordinary way of being, i.e. the ordinary coarse-rational way in which we contact reality. For this purpose, the foundation of the Buddhist psychology of perception/cognition, characterized by "the five skandhas" is useful. This system describes our psychophysical dynamic being from the per-spective of the meeting of subject and object. In other words it is a detailed breaking down of the moments of perception. We also need to concern ourselves with the question of why the dream state is particularly useful for our purposes. Finally, I will present how I find it useful to deal with dreams within the dream state and within the imaginary dream state—methods based on the traditional dream yoga practice.

The Coarse-Rational Way of Contacting Reality

Elucidated Through a Presentation of the Five Skandhas

The first skandha relates the corporeality of the object in terms of the qualities of form/color, sound, smell, taste and tactility, and, the corporeality of the subject, in terms of our body and especially in terms of the physical sense organs and faculties. The first moment of contact or perception of the object, within the ordinary waking state, is through the functional dynamism of the first skandha, our physical body. Our five senses individually contact with the related qualities of the object. From the senses the sense impressions go to the five respective sense consciousnesses. Neither the senses nor the sense consciousnesses have intellectual abilities.
Immediately after the sense contact, the second skandha, the basic feeling-evaluation (Tibetan tsor-ba; Sanskrit vedana) which differentiates into attraction and rejection, sets in. The middle part of the "wheel of existence," symbolized by a pig, a doe, and a snake, refers to lack of intrinsic awareness (Tibetan ma rig-pa) and to this basic feeling differentiating attraction and rejection (Tibetan ’dod-chags for attraction, zhe-sdang for rejection).
The third moment of perception can roughly be described as the "taking in" of the sense-impressions by consciousness. In the ordinary waking state the sense-impressions are not just "taken in" but, especially within our modern, Western, highly materialistic cultures, the sense-impressions are almost simultaneously "tak-en over" by a consciousness dominated by a coarse-rational approach. This leaves the person with very little if any conscious awareness of the pure sense-impressions.
The coarse-rational consciousness refers to the consciousness which establishes that the perceived object is in accordance with the stored image, and with the name/ connotations of similar, already perceived, objects. All this is created within a cer-tain complex cultural/individual view of reality.
The image we create of an object has first been singled out of its natural inter-connectedness with the whole and given a name. This image, when it is first created, will most often come between oneself and future similar objects "perceived." There-fore, instead of actually perceiving the object, in the ordinary waking state, we mainly perceive our already created image of a similar object, and seldom meet the object more intimately than that.
The naming/language part in itself is most useful. However, in the coarse-rational approach the name/language has a tendency to take over reality, i.e., we give the language more meaning than reality itself. Ontologically, we exchange reality with the map of reality.
Following the "taking in" or "taking over" of the sense-impressions by con-sciousness, the feeling-discrimination between attraction and rejection referred to above now arises. Pleasant feelings arise when the object in focus seems to nourish and/or protect our image of ourself, and unpleasant feelings arise when our image of ourself is endangered. The coarse-rational contact gives the direction for the feeling-evaluation of oneself and the feeling-evaluation increases one’s belief in the coarse-rational perception/cognition. In general, the feeling-evaluation has the last word in reality proof and in decisions.
When the feeling-evaluation of oneself in relation to the object thus arises, it enhances the further building of a coarse-rational interpretation of the object. For instance, if one first evaluates the object as good and supportive of oneself, one naturally approaches and contacts more or less solely its "positive" sides. If, how-ever, one first evaluates the object as confronting or undermining with regard to one’s image of oneself, one’s interpretation and contact is skewed toward its nega-tive aspects. This description may sound trivial, but it has a great impact on our perception/cognition of reality.
Due to the dynamism between the coarse-rational interpretation and the feeling-evaluation of the object, the different emotions accordingly arise. Here we enter the domain of the fourth skandha, the skandha pertaining, among other things, to men-tation/emotion. In this way, we create our coarse-rational emotional reality, which we automatically and more or less subconsciously superimpose of the actual sense impression of the object in focus. This, our creation of reality, is to a great extent fictional, and has often very little in common with the basic "pure" sense-reality.
The fifth skandha, the aggregate pertaining to our basic, consciousness energy refers to the main essence of being. This rnam-shes type of consciousness energy is underlying and gives energy to any psychological/mental function. That is, any kind of perception depends on the rnam-shes basic consciousness energy; the sensing, the coarse-rational perception/cognition, the feeling-evaluation, the emotions, etc. If we take away all the above mentioned psychological/mental functions of the first four skandhas, the consciousness energy as such is still maintained, continuing in and throughout all other states of being. Any of our mental/physical acts pertaining to the first four skandhas leave bag-chags, mental imprints in the basic psycho-physical energy of consciousness. These are carried through into any other state of being, for instance into the dream state of being, from whence they again emerge, being part of the manifest dream.
The coarse-rational, perception/cognition of reality is thus, as pointed out above, not "pure," but gives us a projected view of reality, which always is mixed up with our beliefs, fears, self-protective tendencies, emotional states, etc.
In the beginning of this paper, the importance of first obtaining a balance be-tween the coarse-rational and the nonrational relation with reality was stressed. I referred to "a state of being in relation with reality," which is not so corrupted by the coarse-rational approach, but is in closer connection to the basic psychophysical energy of consciousness, that is, closer to the actual nature of being.
In order to diminish and break coarse-rational creations, we have to use an ap-propriate kind of consciousness, which works in a different manner. For our purpose we have different natural states: the deep meditation state, the dream/bardo state or the deep sleep/death state of being.

Why the Dream State Is Particularly Useful
for Psychological As Well As Spiritual Observations

The dream state is useful for our purposes due to its subtle qualities. In psycho-logically changing ourselves, it is stronger and more effective to work with our dif-ficulties from a level of "being," which circumvents the coarse-rational domination —as our psychological problems most often are bound up with or are part and par-cel with the coarse-rational approach to reality—and also circumvents the limita-tions of our contact with reality due to our bondage within the rough physical body. If we want to progress in a spiritual direction, change ourselves existentially, change the relation between subject and object towards their unity, then one must transcend both types of limitations.
As we have just shown, our ordinary perception/cognition has a limited contact with the object. This is manifest in different ways. First of all, the perceptive/cogni-tive process of our ordinary waking state is strongly dispersed. The actual percep-tion through the five distinct senses, though they can have direct contact with the five object qualities correlating with the senses, have no unity in themselves and no intellectual abilities. Further, the coarse-rational consciousness, belonging to the sixth-sense consciousness, has no direct perceptive tools by itself. It has to rely on the sense impressions of the five physical senses and the five sense consciousnesses, on top of which it has a strong tendency to create its own individual reality, differing radically from the ordinary "surface reality" as such. Secondly, the perception/cog-nition is bound within the physical body and limited accordingly, i.e., it is space- and time-limited.
In the dream state, as well as in the deep meditation state, perception and cog-nition are united. The sense-impressions are not functionally distinct. They are not dependent on the physical sense organs, but operate directly from within the sixth-sense consciousness. That is to say, the five sense consciousnesses and the sixth-sense consciousness operate naturally in union in the dream/meditation states of being—implying a natural basis for uniting body/mind and subject/object. In gen-eral, within the Tibetan Buddhist tradition, body and consciousness always need to work together. A body doesn’t work without a consciousness, and a consciousness doesn’t work without a body.
In the dream state and deep meditation state, we also have/are a body. However, the dream body and the body in the deep meditation state, often named the subtle body, are not of coarse physical nature, but are energy bodies, and have therefore the ability to go beyond the ordinary limitations and bondage of the physical body, i.e. beyond space and time fixations.
An energy body can be characterized as a unity of the basic energy of our phys-ical body and the basic mental energy of consciousness. In the ordinary waking state we naturally also have the energy body, but we are normally unaware of it. In gen-eral, we only use our coarse physical body in cooperation with our coarse-rational consciousness, in which state our physical and mental aspects of being are strongly separated.
In any Tantric meditation, we try to awaken and train an energy body—for example, through awakening the energy in the chakras, etc. In the Six Doctrines of Naropa there is a specific Tantric practice where you train the "illusory body" (Tibetan sGyu-lus). The illusory body is a very subtle energy body, which can be established through deep meditation. Through the sGyu-lus practice one can leave the rough physical body, enabling one to use the subtle body without interference. However, it takes a long time and is very difficult to be able to awaken and train the sGyu-lus from the waking state of being. In general, when we try to awaken and train our energy body from the waking state, the physical body constantly interferes. It is very difficult not to take notice of the physical body, as we are used to identi-fying with and greatly caring about it.
However, in the dream state we have already parted from the rough physical body and we naturally have an energy body (the dream body). Because the dream state naturally occurs in every sleeping period, the Tantrics therefore make use of the dream state in order to develop and practice use of the subtle body.
However, though our more subtle abilities are naturally present in the dream state, we are ordinarily, in this state, still dominated by our normal, coarse-rational and dualistic views and beliefs of separation between body and consciousness. So in order to be aware of and be able to use the abilities of the dream state, we need to train our dream body and dream consciousness. We will now turn to this training.

Dreamwork Within the Dream State and Within the Imaginary State of Being—
Methods Based on the Traditional Dream Yoga Practice

Preliminary to dream yoga, the practitioner must be acquainted with the dream world, remembering dreams and having clear dreams. For psychological reasons it is also very important to remember one’s dreams. In the waking state we reject re-pressed conflicts and fears which we find difficult to deal with. However, these con-flicts and fears, among all acts pertaining to the first four skandhas, leave imprints in the basic psychophysical energy of our consciousness, and reappear in the manifest dream in order to be lived through in this level of being. I find that living through psychological difficulties is the natural psychological function of dreams.

Stage One

The first stage of dream yoga is "holding the dream." This stage implies the training of lucid dreaming—to know the dream is a dream while dreaming.
In order to experience lucid dreams whenever desired—not just at random—the practitioner has to train her will power to be able to go consciously into the dream state. Also she needs to awaken and balance her subtle energies.
Roughly we can talk about three "chakra" energies. The qualities of the chakra energies can be respectively expressed and distinguished in the following way:

1. An active type of energy, the rational-intellectual, the birth-creation, male type of energy.

2. A nonactive, nonoutgoing type of energy, nonrational, like the Death energy, which is female. The Death-consciousness is the subtlest form of consciousness.

3. The third energy type balances between the active and nonactive.

People who mainly use the intellect or rational energy while asleep have to use methods of first getting into the nonrational (Type 2) energy. Getting into the non-rational energy on the threshold of sleep has different effects in the dream state, among which the most important for now are:

1. The sleeping state comes at rest and will therefore function naturally, fulfilling its function, i.e., the mental imprints (which for the reason of our mental health/healing need to come out and be lived through or worked through in the dream state);

2. Through nonrational energy one can develop lucidity and train to use one’s pow-ers in the lucid dream state.

However, when the dream state is at rest and the will-power created, the practi-tioner needs to get more into the active (Type 1) energy in order to create the clear dream and in order to be more consciously aware in the dream state experiencing the lucid dreaming.
But if the practitioner gets too much into active energy, she will wake up. She therefore needs to hold a fine balance between the non-active and the active energy, using the Type 3 energy in order to stay in the lucid dream, neither waking up nor falling back into the ordinary dream flow.

Stage Two

The second stage is "mastering the dream." In this stage, knowing the dream is a dream while dreaming, the practitioner develops his own power of using his dream body with volition. This enables him to deal actively with the dream object in a way, which is similar to the way we deal with the object while awake.
The first step in obtaining the power of mastering the dream body is to con-sciously be the dream body, as ordinarily we are being our physical bodies. Being the dream body still requires training the practitioner how to use it. He needs to get all the senses to work properly and to be able to move the dream body at will.
Next the practitioner trains his willpower through the dream body in order to further investigate that which captures his interest. When this step is mastered he has the ability to acknowledge disturbing psychological structures emerging in the dream, and further, he has the ability to work directly in the dream state with them.
In this context, I will mention some methods the practitioner can use to work directly with fear when confronted with negative aspects in the dream scene (the dream object), and discuss how/why these methods work. The practitioner is ad-vised never to flee the negativity, but to either fight it, or better still, to let the nega-tivity destroy himself. In other words, unite with negativity. In order to understand why these methods work, we must understand the dynamic between negativity and the subject being confronted by it. Here we have to reach back to the basic psychol-ogy presented earlier under the third skandha, where we found that pleasant feelings arise in contact with the object when the object seems to nourish and/or protect our image of ourself, and unpleasant feelings arise when our image of ourself is endan-gered. Thus, within my interpretation and experience, the negativity frightening the practitioner in the dream is a picture/representation of the practitioner’s fear of hav-ing his self-image destroyed.
If a practitioner flees a negativity, he misses the opportunity to work with his self-image and with the fear of having it destroyed. Instead, through this action he manifests his self-image even further. Secondly, if the practitioner fights that which will destroy his self-image, he creates a feeling of being protected in himself, and he will therefore feel stronger both in the dream, and also, it would seem, in waking reality. Thirdly, the practitioner can let a negativity destroy himself in the dream, i.e. he can unite with the negativity. When a negativity destroys the dream subject, it destroys that which the practitioner identifies with and therefore wants/needs to pro-tect, his self-image. However, when this is destroyed the practitioner goes beyond this image of himself and reaches a more authentic layer of his being. No longer identifying with the image, there is nothing to maintain the game of fear and nega-tivity, which is why there no longer is any fear or negativity. The practitioner has united himself with his fear and negativity. Through this act, it seems to me, he has resolved underlying psychological problems.
Having obtained the ability to "master the dream" it is possible for a practi-tioner to do many different and possibly unusual things within the dream. If, for instance, the practitioner wants to understand certain things, it could be within the sciences or within philosophy, psychology, the arts, he can—through various meth-ods—contact or tune into "energy-lines" of the knowledge he wants to acquire. The dream state gives special possibilities to do so, due to its naturally stronger unity between body/mind and subject/object.

Stage Three

The third stage is "changing the dream." I mentioned above that the core point in the dream yoga was to break or go beyond our dualistic way of existence. In this stage the practitioner is supposed to start directly breaking some of our strongest beliefs: the belief in the solidness and absoluteness of the object, the belief in our separateness from the object, the belief in time linearity and space fixation. Thus, in order to change the dream object, a practitioner has to train herself to go within the will power of her dream body/mind, contacting the basic structuring energy through which she can contact the dream object of the same energy level. On this very subtle structuring level of being, there is a correspondence between the energy of the sub-ject and the object, through which direct contact is possible. Through this direct en-ergy contact the practitioner can change the object, and/or can create objects at will.
In order to learn how to go into this subtle structuring level of being, the practi-tioner is traditionally instructed to use different deity-meditations in the dream state. However, to use these, certain initiations are required. When the practitioner can tune into this subtle structuring energy of the subject and the object, and use it for changing the object, she is breaking the ordinary natural laws of separateness. After obtaining this ability, a practitioner is able, by her will power and unity abilities, to transcend ordinary space and time limitations.
When the practitioner was working with the dream object, she had to work from her more rational/active chakra energy side, still keeping a balance in order not to awake from the dream state. But approaching the training of the unity abilities of subject/object, the practitioner is advised to work more through the nonrational, nonactive, feminine energy side.
As I have mentioned before, different levels of imprints, of more or less prob-lematic observances, give rise to the main part of the dream. Having sufficiently mastered the dream, the practitioner naturally and spontaneously does seem to know which method to use in successfully dealing with dream appearances, and through these with the underlying consciousness energy. These needed to come out to be lived or worked through. After having mastered the methods of changing dream ap-pearances, the practitioner can now change unwanted, unpleasant dream situations or her dream being. This act seems to have a direct healing impact on the underlying psychological difficulties associated with her waking life.

Stage Four

The fourth and last stage of dream yoga is to "merge with the unity of the subtle body/mind." Here the practitioner is no longer working with the dream object/ap-pearances. He now works directly through the unity of the subtle feminine and mas-culine energies of his dream subject, going beyond dream appearances. From this state of being, which is closely connected with the above mentioned state of "the illu-sory body," the practitioner works directly with his relationship to the waking state reality, also breaking the ordinary natural laws of the reality of the waking state.

Dream Reliving

As mentioned in the beginning, it is not so easy to traverse the steps of knowing the dream is a dream, being able to create lucid dreams at will, or going consciously into the dream state of being.
Instead of working directly in the dream state, I have found it useful for the practitioner first to work with the same methods in the imaginary dream state of being. The imaginary dream state is a deeply relaxed state from which the practi-tioner enters a recalled dream with which she wishes to work. However, it is much more effective to work with the dream from the dream state than to work with the recalled dream from the imaginary dream state. The dream state is more subtle than the imaginary dream state. The imaginary dream state is more easily influenced by the view of the coarse-rational consciousness. However, psychologically speaking, if the practitioner is able to enter the imaginary state and not be disturbed or influ-enced by the coarse-rational view, then it seems fruitful for her to train and apply the dream yoga methods in the imaginary dream state.
To advance on the spiritual levels, i.e., existentially changing the dualistic way of existence, breaking the natural laws, etc., it is, of course, difficult to work from the imaginary dream level due to the possible interference of the ordinary coarse-rational dualistic view. However, some progress certainly takes place when the methods are properly used.
In general, it should be clear that any practice towards awakening and develop-ing the subtle energies of body/mind, whether through the imaginary dream state, training the imaginary dream state or training the chakra energies, has a great impact on the ability of a practitioner to create clear dreams, and to further the dream power necessary for creating lucid dreams at will, and to work directly with the dream appearances in the dream.

References

Ajitamitragupta (1981). The Tibetan Tripitaka, D.G. edition, no. 2832: Rmi-lam dri-ma med-pa bsgom-pa. Dharma Press USA. [Note: Provides information on Rmi-lam bsgom-pa, the "Dream Yoga."]

Dharmakirti (1981). The Tibetan Tripitaka, D.G. edition, no. 4210: Tshad-ma rnam-hgrel gyi tshig-lehur byas-pa (The Tibetan translation of Pramanavarttikakarika.) Dharma Press USA. [Note: Provides information on ’Du-shes (the rational/coarse-rational conscious-ness) and mNgon-sum (the nonrational consciousness with respect to direct perception of the yogi mind).]

Dignaga (1981). The Tibetan Tripitaka, D.G. edition, no. 4204: Tshad-ma kun-las btus-pahi hgrel-pa (The Tibetan translation of Pramanasamuccayavrtti). Dharma Press USA. [Note: Provides information on ’Du-shes (the rational/ coarse-rational consciousness) and mNgon-sum (the nonrational consciousness with respect to direct perception of the yogi mind).]

rGyal-tshab dar-ma rin-chen (1974–1975). Tson-kha pa’s collected works, vol. ca: Rnam-hgrel gyi bsdus-don, Thar-lam gyi de-ñid gsal-byed. Printed in Barasasi, India. [Note: Provides information on ’Du-shes (the rational/coarse-rational consciousness) and mNgon-sum (the nonrational consciousness with respect to direct perception of the yogi mind).]

Tson-kha pa (1979). Tson-kha pa’s collected works, vol. ta: Zab-lam na-rohi chos-drug gi sgo-nas hkhrid-pahri rim-pa, yid-ches gsum Idan & Na- rohi chos-drug gi dmigs-skor lag-tu len tshul bsdus-pa. New Delhi, India. [Note: Provides information on Rmi-lam bsgom-pa, the "Dream Yoga," and the sGyulus, the "Illusory Body."]

terça-feira, 6 de novembro de 2007

ENTREVISTA C/ GIORGIO AGAMBEN

Revista do Departamento de Psicologia. UFF
Print ISSN 0104-8023
Rev. Dep. Psicol.,UFF vol.18 no.1 Niterói Jan./June 2006

Entrevista com Giorgio Agamben





Entrevistadora: Flavia CostaI





Flavia Costa: Na introdução de Homo Sacer I, você afirma que havia concebido inicialmente o livro como uma resposta à "sangrenta mistificação de uma nova ordem planetária" (e que em seu desenvolvimento se viu diante de problemas, como o da sacralidade da vida, que não estavam no plano inicial). Como se conforma a partir de então seu projeto intelectual?

GIORGIO AGAMBEN: Quando comecei a trabalhar em Homo Sacer, soube que estava abrindo um canteiro que implicaria anos de escavações e de pesquisa, algo que não poderia jamais ser levado a termo e que, em todo caso, não poderia ser esgotado certamente em um só livro. Daí que o algarismo I no frontispício de Homo Sacer é importante. Depois da publicação do livro, freqüentemente me acusam de oferecer ali conclusões pessimistas, quando na realidade deveria ter ficado claro desde o princípio que se tratava somente de um primeiro volume, no qual expunha uma série de premissas e não de conclusões. Talvez tenha chegado o momento de explicitar o plano da obra, ao menos tal como ele se apresenta agora em minha mente. Ao primeiro volume (O poder soberano e a vida nua, publicado em 1995), seguirá um segundo, que terá a forma de uma série de investigações genealógicas sobre os paradigmas (teológicos, jurídicos e biopolíticos) que têm exercido uma influência determinante sobre o desenvolvimento e a ordem política global das sociedades ocidentais. O livro Estado de exceção (publicado em 2003) não é senão a primeira dessas investigações, uma arqueologia do direito que, por evidentes razões de atualidade e de urgência, pareceu-me que devia antecipar em um volume à parte. Porém, inclusive aqui, o algarismo II, indicando a seqüência da série, e o algarismo I no frontispício indicam que se trata unicamente da primeira parte de um livro maior, que compreenderá um tipo de arqueologia da biopolítica sob a forma de diversos estudos sobre a guerra civil, a origem teológica da oikonomia, o juramento e o conceito de vida (zoé) que estavam já nos fundamentos de Homo Sacer I. O terceiro volume, que contém uma teoria do sujeito ético como testemunha, apareceu no ano de 1998 com o título Ciò che resta di Auschwitz. L'Archivio e il testimone. No entanto, talvez será somente com o quarto volume que a investigação completa aparecerá sob sua luz própria. Trata-se de um projeto para o qual não só é extremamente difícil individualizar um âmbito de investigação adequado, senão que tenho a impressão de que a cada passo o terreno desaparece debaixo dos meus pés. Posso dizer unicamente que no centro desse quarto livro estarão os conceitos de forma-de-vida e de uso, e que o que está posto em jogo ali é a tentativa de capturar a outra face da vida nua, uma possível transformação da biopolítica em uma nova política.

F. C.: Você integra um grupo não muito extenso de pesquisadores europeus que têm realizado uma leitura atenta de autores como Martin Heidegger e Carl Schmitt, e a tem incluído no marco de um pensamento - por assim dizer - emancipatório. Como foi se articulando em sua bibliografia intelectual a leitura desses autores?

G. A.: Os dois autores que você cita tiveram em minha vida um peso diferente. O encontro com Heidegger foi relativamente cedo, e ele inclusive foi determinante em minha formação depois dos seminários de Lê Thor, em 1966 e em 1968. Mais ou menos nos mesmos anos durante os quais eu lia Walter Benjamin, leitura que talvez me serviu de antídoto ante o pensamento de Heidegger. Estava em questão o conceito mesmo de filosofia, o modo pelo qual deveria responder à pergunta, prática e teórica ao mesmo tempo: que é a filosofia? O encontro com Carl Schmitt se deu, por outro lado, relativamente tarde, e teve um caráter totalmente distinto. Era evidente (creio que é evidente para qualquer um que não seja estúpido nem tenha má-fé, ou, como acontece freqüentemente, as duas coisas juntas) que, se queria trabalhar com o direito e sobre a política, era com ele que eu deveria medir-me. Como com um inimigo, antes de tudo - mas a antinomia amigo-inimigo era precisamente uma das teses schmittianas que eu queria pôr em questão.

F. C.: A recepção de sua obra tem sido polêmica em alguns países, sobretudo na Alemanha. Talvez um dos momentos mais provocadores de seu trabalho seja quando rastreia e expõe a matriz comum (a "íntima solidariedade") entre democracia e totalitarismo. Como você comenta isso?

G. A.: Na perspectiva arqueológica, que é a de minha pesquisa, as antinomias (por exemplo, a da democracia versus totalitarismo) não desaparecem, mas perdem seu caráter substancial e se transformam em campos de tensões polares, entre as quais é possível encontrar uma via de saída. Não se trata, então, de distinguir o que é bom do que é mal em Heidegger ou em Schmitt. Deixemos isto aos bem pensantes. O problema, sobretudo, é que se não se compreende o que se põe em jogo no fascismo, não se chega a observar sequer o sentido da democracia.

F. C.: O que você entende por arqueologia? Que lugar ocupa em seu método de trabalho?

G. A.: Meu método é arqueológico e paradigmático num sentido muito próximo ao de Foucault, mas não completamente coincidente com ele. Trata-se, diante das dicotomias que estruturam nossa cultura, de ir além das exceções que as têm produzido, porém não para encontrar um estado cronologicamente originário, mas, ao contrário, para poder compreender a situação na qual nos encontramos. A arqueologia é, nesse sentido, a única via de acesso ao presente. Porém, superar a lógica binária significa, sobretudo, ser capaz de transformar cada vez as dicotomias em bipolaridades, as oposições substanciais num campo de forças percorrido por tensões polares que estão presentes em cada um dos pontos sem que exista alguma possibilidade de traçar linhas claras de demarcação. Lógica do campo contra lógica da substância. Significa, entre outras coisas, que entre A e A se dá um terceiro elemento que não pode ser, entretanto, um novo elemento homogêneo e similar aos anteriores: ele não é outra coisa que a neutralização e a transformação dos dois primeiros. Significa, enfim, trabalhar por paradigmas, neutralizando a falsa dicotomia entre universal e particular. Um paradigma (o termo em grego quer dizer simplesmente "exemplo") é um fenômeno particular que, enquanto tal, vale por todos os casos do mesmo gênero e adquire assim a capacidade de construir um conjunto problemático mais vasto. Nesse sentido, o panóptico em Foucault e o duplo corpo do rei em Kantorowicz são paradigmas que abrem um novo horizonte para a investigação histórica, subtraindo-a aos contextos metonímicos cronológicos (França, o século XVIII). No mesmo sentido, em meu trabalho, lancei mão constantemente dos paradigmas: o homo sacer não é somente uma figura obscura do direito romano arcaico, senão também a cifra para compreender a biopolítica contemporânea. O mesmo pode ser dito do "muçulmano" em Auschwitz e do estado de exceção.

F. C.: No livro, você historiciza o processo - acelerado depois da Primeira Guerra Mundial - segundo o qual o estado de exceção se transforma em regra; o paradigma de governo dominante na política contemporânea. Como você chega a esta idéia?

G. A.: Para mim tratava-se, sobretudo, de compreender a profunda transformação que se havia produzido na constituição material, isto é, na vida política das assim chamadas democracias nas quais vivemos. Está claro que nenhuma das categorias fundamentais da tradição democrática manteve seu sentido, sobre isso não podemos estar iludidos. Em Estado de exceção tentei indagar essa transformação de um ponto de vista do direito; perguntei-me o que significa viver em um estado de exceção permanente. Creio que os dois campos de investigação que Foucault deixou de lado, o direito e a teologia, são extremamente importantes para compreender nossa situação presente. Em todo caso, é nesses dois âmbitos que tenho trabalhado nesses últimos anos.

F. C.: Por que você considera fundamental uma teoria geral do estado de exceção: uma teoria do vazio do direito que, contudo, o funda? Imagina uma práxis para essa teoria?

G. A.: Algumas vezes foi dito que em cada livro há algo assim com um centro que permanece escondido; e que é para aproximar-se, para encontrar e - às vezes - para evitar esse centro que se escreve esse livro. Se tivesse de dizer qual é, no caso do Estado de exceção, esse núcleo problemático, diria que está na relação entre anomia e direito, que no curso da pesquisa apareceu como a estrutura constitutiva da ordem jurídica. Um dos objetivos do livro era precisamente a tentativa de abordar e analisar essa dupla natureza do direito, essa ambigüidade constitutiva da ordem jurídica pela qual esta parece estar sempre fora e dentro de si mesma, simultaneamente vida e norma, fato e direito. O estado de exceção é o lugar no qual essa ambigüidade vem à luz e, simultaneamente, o dispositivo que deveria manter unidos os dois elementos contraditórios do sistema jurídico. Ele é, nesse sentido, aquilo que funda o nexo entre violência e direito e, ao mesmo tempo, no ponto em que se torna "efetivo", aquilo que rompe com esse nexo. E para responder à segunda parte de sua pergunta, diria que a ruptura do nexo entre violência e direito abre duas perspectivas à imaginação (a imaginação é naturalmente já uma práxis): a primeira é a de uma ação humana sem nenhuma relação com o direito, a violência revolucionária de Benjamin ou um "uso" das coisas e dos corpos que não tenha nunca a forma de um direito; a segunda é a de um direito sem nenhuma relação com a vida - o direito não aplicado, mas somente estudado, do qual Benjamin dizia que é a porta da justiça.

F. C.: Você afirma que não há um retorno possível do estado de exceção em que vivemos imersos para o estado de direito. Que a tarefa que nos ocupa é, em todo caso, a de denunciar a ficção da articulação entre violência e direito, entre vida e norma, para abrir ali a cesura, o campo da política. Contudo, não nos devemos também uma teoria, não tanto do "poder constituinte" como da "instituição política", quer dizer, uma teoria sobre a "práxis articulatória" que inclua a politicidade do vivente como um elemento central?

G. A.: Precisamente porque se trata de romper o nexo entre violência e direito, o problema aqui é que devemos superar a falsa alternativa entre poder constituinte e poder constituído, entre a violência que instala o direito e a violência que o conserva. Porém, precisamente por isso me parece que não se trata tanto de "instituir" e de "articular", como de destruir e desarticular. Em geral, em nossa cultura o homem tem sido pensado sempre com a articulação e a conjunção dos princípios opostos: uma alma e um corpo, a linguagem e a vida, nesse caso um elemento político e um elemento vivente. Devemos, ao contrário, aprender a pensar o homem como aquele que resulta da desconexão desses dois elementos e investigar não o mistério metafísico da conjunção, mas o mistério prático e político da separação.

F. C.: A dinâmica de como desinstalar o instituído sem instituir ao mesmo tempo uma nova instituição remete certamente à idéia de revolução permanente. Pergunto-lhe não pelo "o que fazer?", mas sim até onde crê que é possível e desejável orientar-se na tentativa de pensar uma política "completamente nova"?

G. A.: Diria que o problema da revolução permanente é o de uma potência que não se desenvolve nunca em ato, e, ao contrário, sobrevive a ele e nele. Creio que seria extremamente importante chegar a pensar de um modo novo a relação entre a potência e o ato, o possível e o real. Não é o possível que exige ser realizado, mas é a realidade que exige tornar-se possível. Pensamento, práxis e imaginação (três coisas que jamais deveriam ser separadas) convergem nesse desafio comum: tornar possível a vida.

F. C.: No primeiro capítulo - de O Estado de exceção - você assinala que, em que pese a crescente conversão das democracias parlamentares em governamentais, e o aumento do "decisionismo" do poder executivo, os cidadãos ocidentais não registram essas mudanças e crêem seguir vivendo em democracias. Você tem uma hipótese sobre por que isso acontece? Caberia enfocar esse tema com base em uma teoria sobre a sujeição voluntária ao poder disciplinar (aquilo que Legendre chama "o modo em que o poder se faz amar")?

G. A.: O problema da sujeição voluntária coincide com aqueles processos de subjetivação sobre os quais trabalhava Foucault. Foucault mostrou, parece-me, que cada subjetivação implica a inserção em uma rede de relações de poder, nesse sentido uma microfísica do poder. Eu penso que tão interessantes como os processos de subjetivação são os processos de dessubjetivação. Se nós aplicamos também aqui a transformação das dicotomias em bipolaridades, poderemos dizer que o sujeito apresenta-se como um campo de forças percorrido por duas tensões que se opõem: uma que vai até a subjetivação e outra que procede em direção oposta. O sujeito não é outra coisa que o resto, a não-consciência desses dois processos. Está claro que serão as considerações estratégicas aquelas que decidirão, a cada momento, sobre qual pólo fazer a alavanca para desativar as relações de poder, de que modo fazer jogar a dessubjetivação contra a subjetivação e vice-versa. Letal é, por outro lado, toda política das identidades, ainda que se trate da identidade do contestatário e a do dissidente.

F. C.: Você afirma que "vida nua" e "norma" não são coisas preexistentes à máquina biopolítica, são um produto de sua articulação. Você poderia explicar isto? Porque é mais simples compreender que o direito foi "inventado", mas custa mais se desembaraçar da idéia de que os seres humanos somos, em algum sentido, "existências nuas", que pouco a pouco vamos aprovisionando-nos de nossas roupagens: língua, normas, hábitos...

G. A.: Aquilo que chamo vida nua é uma produção específica do poder e não um dado natural. Enquanto nos movimentarmos no espaço e retrocedermos no tempo, jamais encontraremos - nem sequer as condições mais primitivas - um homem sem linguagem e sem cultura. Nem sequer a criança é vida nua: ao contrário, vive em uma espécie de corte bizantina na qual cada ato está sempre já revestido de suas formas cerimoniais. Podemos, por outro lado, produzir artificialmente condições nas quais algo assim como uma vida nua se separa de seu contexto: o muçulmano em Auschwitz, a pessoa em estado de coma etc. É no sentido que eu dizia antes que é mais interessante indagar como se produz a desarticulação real do humano do que especular sobre como foi produzida uma articulação que, pelo o que sabemos, é um mitologema. O humano e o inumano são somente dois vetores no campo de força do vivente. E esse campo é integralmente histórico, se é verdade que se dá história de tudo aquilo de que se dá vida. Porém, nesse continuum vivente se podem produzir interrupções e cesuras: o "muçulmano" em Auschwitz e o testemunho que responde por ele são duas singularidades desse gênero.

F. C.: Em Homo sacer I você diz: "O corpo técnico do Ocidente já não pode superar-se em outro corpo técnico ou integralmente político [...]. Antes será preciso fazer do próprio corpo biopolítico, da vida nua mesma, o lugar no qual se constitui e assenta uma forma de vida vertida integralmente nessa vida nua. Um bios que seja somente sua zoé". Como você analisa as ilusões de "superar" o corpo biológico (e biopolítico) num corpo técnico?

G. A.: A frase que você citou sobre um bios que é somente sua zoé é para mim o selo e a empresa do que resta pensar. Todos os problemas, incluído o da técnica, deverão ser reinscritos na perspectiva de uma vida inseparável de sua forma. No fundo, a vida fisiológica não é outra coisa que uma técnica esquecida, um saber tão antigo que já perdemos toda memória dele. Uma apropriação da técnica não poderá ser feita sem um re-pensamento preliminar do corpo biopolítico do Ocidente.

F. C.: Nos últimos anos, muitas das energias do pensamento sobre a resistência e a emancipação se concentraram em desenvolver uma teoria da defecção, do êxodo (por exemplo, penso em Toni Negri e Michael Hardt, Paolo Virno, Albert Hirschmann). Quer dizer, diante da expansão totalitária em escala global, parece haver uma aposta na negatividade, no silêncio e no exit. Qual a sua opinião sobre isto?

G. A.: Para dizer a verdade, não estou muito convencido de que o êxodo seja hoje um paradigma verdadeiramente praticável. O sentido desse paradigma é, por outro lado, solidário do paradigma do Império, com o qual forma sistema. A analogia com a história da relação entre vida monástica e o Império Romano nos primeiros séculos da era cristã é iluminadora. Também nessa época, fizeram frente a um poder global centralizado formas de êxodo organizado que deram vida às grandes ordens conventuais. A analogia com a situação descrita em um livro recente que teve muita sorte é evidente. Inclusive, às vezes, penso que Negri e Hardt têm perfeito equivalente em Eusebio Cesarea, o teólogo da corte de Constantino (que Overbeck definia ironicamente como o friser da peruca teológica do imperador). Eusebio é o primeiro cristão a teorizar sobre a superioridade do único poder imperial sobre o poder das diversas pessoas e nações. Ao único Deus nos céus corresponde um único império sobre a terra. A história das relações entre Igreja e Império Romano é uma mescla e uma alternância de êxodo e alianças, de rivalidade e negociatas. Contudo, a cidade celeste de Agostinho ainda é peregrina, quer dizer, está no êxodo mesmo quando está em seu próprio terreno. Não creio que tenha sentido aplicar hoje o mesmo modelo. O êxodo da vida monástica fundava-se de fato sobre uma radical heterogeneidade da forma de vida cristã e sobre uma sólida fé comum, apesar disso, não alcançou ser verdadeiramente antagonista. Hoje, o problema é que uma forma de vida verdadeiramente heterogênea não existe, ao menos nos países do capitalismo avançado. Nas condições presentes, o êxodo pode assumir somente formas subalternas e não é uma causalidade se termina pedindo ao inimigo imperial que lhe pague um salário. Está claro que uma vida separada de sua forma, uma vida que se deixa subjetivar como vida nua não estará em condições de construir uma alternativa ao império. O que não significa que não seja possível trazer do êxodo modelos e reflexões. Penso, por exemplo, nos conceitos franciscanos de uso e de forma de vida, que são ainda hoje extremamente interessantes.





Tradução de Susana Scramim
I Tradutora de Estado de excepción. Buenos Aires: Editorial Adriana Hidalgo, 2004.

O homem, as máquinas e o futuro

Entrevista com João Camillo Penna.
(João Camillo Penna é graduado e especialista em Letras Modernas, pela Universidade de Paris, onde também realizou o mestrado na mesma área. Doutorou-se em Literatura Comparada, pela Universidade da Califórnia, nos EUA. É pós-doutor, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde é, atualmente, professor adjunto. É autor de A imitação dos modernos (São Paulo: Paz e Terra, 2000).
Pensar as mudanças que acontecerão no mundo no futuro é imponderável. Alguns prognósticos que transcendem o mundo conhecido e tem como horizonte a possibilidade virtual foram estudados pelo professor João Camillo Penna e apresentados no Programa Cultura e Pensamento, que aconteceu em setembro, no Rio de Janeiro. Nele, Penna apresentou o trabalho “Máquinas Utópicas e Distópicas”, no qual, a partir do movimento das evoluções, analisa algumas produções de ficção científica e pensa na construção de um “mundo possível”. Sobre este assunto, João Camillo Penna falou à IHU On-Line, por e-mail.
Nesta entrevista, o doutor em Literatura Comparada fala sobre a dependência e independência do homem em relação às tecnologias, das nanotecnologias e tecnociências como utopias e distopias desenvolvidos no mundo contemporâneo e as diferenças entre o homem e as máquinas. Segundo ele, “a substituição do trabalho humano pela tecnologia gerou uma classe de inúteis ao sistema produtivo, dispensável e excrescente, ao invés de energia livre para o ócio, ele próprio integrando o ciclo reprodutivo da produção”.

IHU On-Line - A sociedade contemporânea está cada vez mais dependente das máquinas e das tecnologias para acompanhar o desenvolvimento do mundo. No entanto, essa mesma sociedade nega essa dependência. Porque a pessoa humana precisa fazer essa negação para afirmar sua humanidade, em sua opinião?


João Camillo Penna - A discussão sobre a dependência das máquinas depende e está ligada à da independência delas, as duas proposições sendo contemporâneas uma da outra, e interdependentes. Precisamos estar dependentes das máquinas, sentirmo-nos quase escravizados por elas, em uma fantástica inversão dos desígnios que deram origem a elas, sob a forma de um pesadelo, para podermos, então, nos libertar delas. O que me impressionou em meu estudo sobre ficção científica é que o sonho de um outro ser, semelhante ao ser humano, mas artificial e por ele produzido, que desembocará na temática da automação e dos robôs, uma máquina das máquinas, capaz não apenas de cumprir programas estabelecidos pelos homens, mas reprogramar-se e produzir programas. Ele consiste imediatamente em um alerta contra os perigos que isso representaria para a humanidade. A máquina é em si a imagem deste perigo, é refletido nelas que nos vemos como dependentes/independentes. Ela existe para que afirmemos a partir dela a nossa liberdade e libertação dela.
Há um roteiro clássico que reaparece de forma recorrente tanto em ficção científica, quanto nos relatos de viagem, e que hoje em dia estrutura reality shows, como Survivor (1) e No limite (2), que consiste em imaginar um grau zero da técnica: uma nova sociedade estabelecida em uma ilha fechada, onde faltam o conforto e as conquistas da civilização, e para onde são jogados estes náufragos da cultura. O que estes relatos contêm é uma imagem da reinvenção da civilização a partir da sua tábula rasa, e constituem pesadelos organizados sobre precisamente o problema que ecoa em sua pergunta: o que fazer quando não temos mais nenhuma máquina em que nos apoiar? Precisaríamos nos desvencilhar delas, treinarmo-nos asceticamente a não mais depender delas para no momento preciso não sentirmos tanto a sua falta?
Esta seria uma reação programada por este pesadelo, que é posto em prática incessantemente hoje em dia pelos mais diversos grupos refratários aos avanços tecnológicos. Mas o que invariavelmente se comprova nestes reality shows? Que os humanos são plenos de recursos, têm “muitos truques”, como se dizia de Ulisses, na Odisséia de Homero (3), e invariavelmente prevalecem sobre as agruras da natureza, reconstituindo a civilização inclusive e, sobretudo, no que ela tem de mais terrível: a competição e o critério seletivo dos melhores. O que este laboratório darwiniano-capitalista demonstra é que nos refazemos invariavelmente, prevalecemos necessariamente, que somos de fato os melhores e que prevalecem os melhores. Que isso tudo se dê na superfície da tela da televisão - uma máquina de imagens, e das mais poderosas, sintoma central de nossa “dependência” delas - significa o que dizia no início: que a máquina é quem produz tanto o sonho de um mundo no qual seríamos independentes delas (utilizaríamo-nas, sem ser contaminados por elas), em que elas representariam um acréscimo de conforto em nossa existência social, quanto o pesadelo de sermos delas dependentes (sem elas morreríamos).


IHU On-Line – No texto "máquinas utópicas e distópicas", o senhor fala sobre as projeções que se faziam na ficção científica dos anos 1960, 1970. Essas projeções eram, geralmente, otimistas, ou seja, imaginavam um futuro repleto de tecnologias (muitas surreais ainda hoje) e o homem totalmente conectado a elas. As ficções científicas produzidas hoje são bastante pessimistas. Elas projetam um mundo caótico e o fim dos seres humanos. Para o senhor, o desenvolvimento da tecnociência e das nanotecnologias são uma distopia ou uma utopia? Viveremos num mundo diferente do que conhecemos?


João Camillo Penna - A ficção científica é o relato sobre o futuro e, especificamente, sobre a parte que a tecnociência desempenhará neste futuro. O progressismo do século XIX gerou uma série de projeções otimistas sobre o futuro da humanidade, em um mundo que seria de fato melhorado pela mecanização. Este mesmo otimismo está presente na futurologia de Herman Kahn (4) nos anos 1960, ou na ficção científica de Isaac Azimov (5), na série de relatos otimistas sobre os robôs (Eu, robô [6]) - ambos correspondendo à perspectiva da tecnocracia estadunidense, que desembocará nas epopéias espaciais e interplanetárias, que desdobram o imaginário da “corrida espacial” entre Estados Unidos e União Soviética, uma ficcionalização tecnológica da Guerra Fria.
Há, no entanto, uma outra linhagem da ficção científica, que se inicia precisamente na pós-Segunda Guerra Mundial, quando tanto Hiroshima e Nagazaki, de um lado, e os campos de concentração e extermínio nazistas, de outro, ambos produtos diletos da tecnociência, demonstraram de forma insofismável que nem tudo eram flores no que tocava à tecnociência. Vem daí esta corrente de fato dominante hoje em dia na ficção científica, de relatos distópicos, com uma forte ênfase em uma temática biológico-genética, que projetam um futuro entrópico: o que ocorreria à humanidade após uma grande catástrofe, freqüentemente nuclear, que erradicaria a vida na superfície do planeta? A ficção científica tem uma certa veleidade preditiva, pode representar horizontes possíveis de nosso futuro, mas não é de fato esta a sua pretensão mais essencial.
Assim, quando assistimos ao maravilhoso 2001 – Uma odisséia no espaço (1968), de Stanley Kubrick (7), percebemos que de fato as viagens interplanetárias ainda não se transformaram em episódios corriqueiros explorados por linhas áreas comerciais. É possível que um dia isso venha a ocorrer, embora a hipótese seja cada dia menos verossímel. O mais importante aqui, no entanto, não é o fato de que 2001 passou e esta representação do futuro esteja bem longe de ser confirmada, demonstrando a falha preditiva de A. C. Clarke (8) e de Kubrick. O importante no filme e no livro sobre o qual é baseado, como na ficção científica em geral, é que constituem um espelho analógico a partir do qual podemos ver o nosso presente, refletir sobre o que significa o humano, esta a pergunta essencial da ficção científica.



IHU On-Line - Esse desenvolvimento das tecnologias, tornando tudo cada vez menor, mas nos tornando cada vez mais cidadãos dessa aldeia global, como pensou Mcluhan (9), pode mudar nossa moral e os valores que predominam hoje na sociedade? De que forma?


João Camillo Penna - Mcluhan descreveu de forma aguda, nos anos 1960, o mundo contemporâneo a partir da invenção da eletricidade, que introduziu a simultaneidade de espaços-tempos, a aproximação, coexistência e inclusão recíproca de mundos, por oposição à especialização, segmentarização, seqüenciamento do mecanismo, a revolução tecnológica anterior. Esta descrição do mundo unificado em uma “aldeia global”- formulação que, diga-se de passagem, foi transposta na logomarca da TV Globo, a ponto de não mais poder dela ser distinguida (sendo contemporânas: Compreendendo a mídia: as extensões do homem é de 1964, e a fundação da Globo de 1965) - corresponde de fato à uma representação possível, parcialmente realizada no mundo atual. Com a sabedoria que um certo olhar retrospectivo lança sobre o insight de Mcluhan, percebemos, no entanto, que a eletricidade, ou sua derivação, a informática e a comunicação, não apenas juntou o mundo, mas resegmentarizou-o, permitiu a coexistência de diversos mundos simultâneos, ao mesmo tempo separados e internamente articulados.
Se a hipótese da integração crescente, tendendo à simultaneidade e à unificação dos mundos em um mundo único gerava uma perspectiva universalista de fundo iluminista, com o eventual predomínio de uma ética progressista e libertária, ocidental, vemos hoje em dia que um movimento inverso também se deu: uma inesperada reação entrópica, arcaizante, que reage a esta dissolução dos mundos violentamente produzindo o ressurgimento de particularismos. A aldeia de Mcluhan no campo da moral seria de fato o relativismo: a transcendência das hierarquias, fundadora dos sistemas morais, sendo substituída por uma horizontalidade imanente dos mundos em um mundo, afirma-se então que tudo é certo, e que, portanto, qualquer perspectiva auto-justificada é certa e pode e deve legitimamente coexistir com as outras.


IHU On-Line - Se mudarmos esses valores, estaremos caminhando para uma ética mundial, onde haverá uma unidade entre as nações, ou as diferenças e singularidades ficarão ainda mais em evidência predominando o estado de exceção?


João Camillo Penna - Minha hipótese é que na política contemporânea o estado de exceção deixou precisamente de ser uma exceção, isto é, uma eventualidade, mesmo que implícita a todas as constituições nacionais modernas, e passou a ser a regra. Estamos diante de um paradoxo: a exceção perdeu o seu status excepcional e passou a constituir o nosso cotidiano político de cidadãos que vivem no mundo hoje em dia. O estado de exceção é na verdade a condição para a vigência do estado de direito (que em tese se oporia a ele). Há largos segmentos de populações inteiras do mundo hoje em dia que vivem em um estado de exceção explícito, indisfarçado. Ao contrário do que queria um certo relato da modernização progressista, que entendia que gradativamente o círculo modernizante se expandiria, atingindo um número cada vez maior de pessoas, é necessário que estes bolsões de estado de exceção existam, para que aqueles onde vige o estado de direito possam subsistir.
É provável que a coexistência necessária destas duas ordens esteja ligada à revolução tecnológica de que estamos falando: uma ordem única globalizada ou mundializada, horizontal e imanente, subsumindo singularidades as mais diversas, diversos mundos em um mundo, estados de exceção e estado de direito. A descrição lógica disso seria o seguinte: uma igualdade geral entre segmentos desiguais, que subsumem desigualdades internas a cada sistema. O que é certo é que o horizonte das revoluções tecnológicas é o mesmo do estado de exceção: ambos têm origem na modernidade (a primeira formulação do estado de exceção data do terror revolucionário francês), no programa de uma revolução racional social. Que esta revolução tenha ao mesmo tempo ocorrido (dado certo), e rotundamente fracassado, é um dos enigmas que a política contemporânea nos apresenta.


IHU On-Line - O senhor cita autores que dizem que o robô, ou seja, a máquina é o escravo ideal do homem. No entanto, o senhor afirma, também, que o homem é a tecnologia. Quais são as principais diferenças entre o homem e a máquina que de fato definem quem é o criador e quem é o dominado?


João Camillo Penna - A palavra robô vem do tcheco robota, “trabalho tedioso e maçante”, com fortes conotações feudais do trabalho escravo e servo. Ela surge justamente na ficção científica, na obra dos irmãos Karel e Josef Capek (10), nos anos 1920. A tese do que Marx e Engels chamaram de “socialismo utópico” do século XIX era baseada na hipótese de que a mecanização da sociedade produziria uma melhoria em nossas vidas, fazendo com que parte ou eventualmente a totalidade dos trabalhos de sustentação social seja realizada pos máquinas. Na utopia de Saint-Simon ou nos falanstérios de Fourier, teríamos uma sociedade sem trabalhadores, com homens exercendo funções de chefia no exército e na empresa. Podemos dizer com segurança que, mais uma vez, a profecia maquínica utópica ao mesmo tempo realizou-se e fracassou. É verdade que as máquinas se ocupam de certas funções antes exclusivas a humanos, no entanto isso não liberou o nosso tempo para termos uma vida melhor.
Pelo contrário, a arqueologia prova que o homem do neolítico trabalhava muito menos do que nós, seu dia sendo constituído por longos períodos de espera e ócio, pontuados de atividades circunscritas. A substituição do trabalho humano pela tecnologia gerou uma classe de inúteis ao sistema produtivo, dispensável e excrescente, ao invés de energia livre para o ócio, ele próprio integrando o ciclo reprodutivo da produção. Tudo indica que esta perspectiva da máquina como escravo ideal, tão presente nas ficções científicas, não se efetivou na realidade. Mas a ficção científica não sendo preditiva, entende-se então por que os robôs fornecem tão somente analogias para com as relações humanas. A partir deles, a ficção científica formula a sua questão essencial: o que é o humano?
Pergunta complexa já que o homem é essencialmente técnica, isto é, artifício, sua natureza sendo por assim dizer artificial, constituído que é, em sua diferença específica, como fala articulada, a partir de um sistema fonador que se instala como prótese em um sistema vocal digestivo. Debruçando-se sobre este paradoxo, a ficção científica vai constantemente perguntar-se: o que nos diferencia das máquinas? Esta, na verdade, é a razão de ser das máquinas na ficção científica. E partirá freqüentemente da resposta rousseauiana à pergunta: o que nos diferencia é a compaixão, a piedade, no léxico rousseauiano, a capacidade de se identificar com a dor do outro. Esta resposta precária, constantemente expandida, contradita, mas renovada, é o ponto de partida da pergunta sobre a paradoxal natureza técnica do humano.


Notas:


(1) Survivor é um reality show competitivo popular nos EUA e produzido em vários outros países. No programa, participantes são isolados em um local remoto onde competem por um prêmio em dinheiro e outros prêmios. Seu formato foi criado no Reino Unido em 1992 por Charlie Parsons, e sua primeira produção foi o programa sueco Expedition Robinson em 1997. A versão estadunidense é conhecida como a mãe dos reality shows americanos devido ao seu pioneirismo na TV americana e pelos altos índices de audiência nos EUA. Seu produtor é Mark Burnett, o mesmo responsável por sucessos como "O aprendiz".


(2) No Limite é a versão brasileira (não-autorizada) de Survivor editada por três vezes pela Rede Globo.


(3) Homero foi o primeiro grande poeta grego cuja obra chegou até nós. Teria vivido no século VIII a.C. período coincidente com o ressurgimento da escrita na Grécia. Consagrou o gênero épico com as obras Ilíada e Odisséia.

(4) Herman Kahn foi um estrategista e teórico do sistema militar empregados na Rand Corporation, nos EUA. Suas teorias contribuíram para o desenvolvimento da estratégia nuclear dos EUA.

(5) Isaac Asimov foi um escritor e bioquímico famoso como popularizador da ciência e como autor de ficção científica, sendo suas séries mais populares Fundação e Robôs. Nesta última criou as famosas Três Leis da Robótica. Sua obra de ficção destaca-se por introduzir ao leitor leigo conhecimentos científicos e a idéia do método científico.

(6) Eu, Robô é um filme futurista estadunidense lançado em 2004. É baseado em uma história de Isaac Asimov, mais precisamente, nas Três Leis da Robótica criadas pelo escritor. Nos contos da série, Asimov brincava com as diferentes implicações da lógica das leis, criando situações absurdas e perigosas para os humanos envolvendo os robôs, mas sempre elegantemente resolvidas também de forma lógica.

(7) Stanley Kubrick foi considerado um dos cineastas mais importantes do século XX, responsável por uma obra polêmica, mas que gozou de uma excelente recepção crítica, 2001 - Uma odisséia no espaço (1968). Cinco anos de produção foram necessários para o desenvolvimento de 2001, para muitos, a melhor ficção científica já filmada. Foi escrito ao mesmo tempo em que o livro homônimo de Arthur C. Clarke estava em produção.

(8) Arthur Charles Clarke é um escritor e inventor britânico, autor de obras de divulgação científica e de ficção científica, como por exemplo os contos The Sentinel, A estrela, A muralha das trevas, As canções da terra distante e os romances 2001 - Uma odisséia no espaço, A revelação de Rama e As fontes do paraíso. Talvez sua contribuição de maior importância seja o conceito de satélite geoestacionário como futura ferramenta para desenvolver as telecomunicações.

(9) Herbert Marshall McLuhan foi um filósofo e educador canadense. McLuhan introduz o impacto sensorial, o meio é a mensagem e aldeia global como metáforas para a sociedade contemporânea, ao ponto de se tornarem parte da nossa linguagem do dia-a-dia. Teórico dos meios de comunicação, foi precursor dos estudos midiológicos. Seu foco de interesse não são os efeitos ideológicos dos meios de comunicação sobre as pessoas, mas a interferência deles nas sensações humanas, daí o conceito de "meios de comunicação como extensões do homem" (título de uma de suas obras), ou "prótese técnica".


(10) Karel Capek nasceu em 1880 e seu irmão, Josef, em 1887, na Checoslováquia. Karel foi novelista, dramaturgo e encenador. Simultaneamente, foi o editor do jornal de Praga, fundador e diretor do "Vinohradsky Art Theater", em Praga, e ensaísta político. É reconhecido pelas suas peças, sendo a R.U.R. a mais famosa. Realizada em 1921, retrata uma fantasia dramática em que cada uma das personagens é desumanizada pela máquina da idade. R.U.R. é a sigla de "Rossum´s Universal Robots" e foi nesta peça que surgiu a palavra Inglesa robot. Já Josef é conhecido com um notório pintor, escritor e poeta. Inventou a palavra robô que foi usada por seu irmão. Primeiramente, foi um pintor cubista, mas inventou seu próprio estilo, chamado playfull. Escreveu poemas do campo de concentração de Bergen-Belsen-Belsen, onde morreu em 1945.