segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

O simbolismo em Cornelius Castoriadis


"Por mais que encontremos na história uma autonomização do simbolismo, esta não é um fato último, e não se explica por si própria. Existe um utilização imediata do simbólico, onde o sujeito pode se deixar dominar por este, mas existe também uma utilização lúcida ou refletida. Mesmo se esta última nunca pode ser garantida a priori (não se pode construir uma linguagem, nem mesmo um algorítmo, no interior do qual o erro seja "mecanicamente" impossível), ela se realiza, mostrando assim a via e a possibilidade de uma outra relação onde o simbólico não é mais autonomizado e pode adequar-se ao conteúdo. Uma coisa é dizer que não podemos escolher uma linguagem em uma liberdade absoluta, e que cada linguagem se apodera do que "deve ser dito". Outra coisa é acreditar que somos fatalmente dominados pela linguagem e que só podemos dizer o que ela nos leva a dizer. Não podemos jamais sair da linguagem, mas nossa mobilidade na linguagem não tem limites e nos permite tudo questionar, inclusive a própria linguagem e nossa relação com ela. O mesmo ocorre em relação ao simbolismo institucional - exceto evidentemente que o grau de complexidade é neste caso incomparavelmente mais elevado. Nada do que pertence propriamente ao simbólico impõe fatalmente o domínio de um simbolismo autonomizado das instituições sobre a vida social; nada, no próprio simbolismo institucional, exclui seu uso lúcido pela sociedade - sendo também neste caso evidente que não é possível conceber instituições que impeçam "por construção", "mecanicamente" a sujeição da sociedade ao seu simbolismo."
(In, A Instituição Imaginária da Sociedade, pags.152/153)

A Internet está cada vez mais centralizada



(reportagem de Pedro Doria e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 14-01-2007.)


O discurso é estupendo - mas a realidade o derruba.

Basta ver alguns dos números levantados por Nicholas Carr, escritor especializado em tecnologia e 'crítico cultural' destes nossos tempos digitais. O número de websites no mundo dobrou entre 2002 e 2006 - e tende mesmo a continuar aumentando bastante. Mas só porque há mais sites na web para visitar, não quer dizer que mais sites sejam visitados.

Em 2002, 31% do tráfego de dados em toda web era dominado pelos 10 sites mais populares da rede. Em 2006, os dez sites mais populares atraíam 40% do tráfego. Não é pouco, então não custa frisar: 40% de todo acesso à web está voltado para apenas dez sites.

Um destes sites, evidentemente, é o Google, sistema de buscas que todos usamos. Em 2006, 58% de todas as pesquisas feitas na web foram via Google. Agora em novembro passado, o Google abocanhava 65% de todas as pesquisas.

Se alguém me perguntasse quantas pesquisas faço diariamente usando o Google, não saberia responder. O meu não é um exemplo único - é típico. Todos que acessam diária e continuamente o Google conhecem já os vícios do site. Como, por exemplo, o hábito de listar ali dentre as primeiras respostas algum verbete da Wikipédia.

A tese de Carr é esta: a web está ficando centralizada. E, sim, o Google é um dos responsáveis.

Talvez seja mesmo inevitável. Como o critério usado pelo Google para decidir a relevância de um site é o número de visitas, quanto mais visitado, mais acima na lista de respostas ele aparece. Quanto mais acima ele aparecer, mais clicado ele será e, portanto, mais visitado. Forma-se um ciclo vicioso.

Outro dos motivos da centralização é o modelo econômico de micropagamentos que começa a imperar na rede. Se um anúncio paga pelo número de vezes que ele é exibido, a maneira de apresentar muitos anúncios a muita gente é concentrar muito conteúdo. Daí que grandes portais compram muitos sites: seu objetivo é atrair o maior número possível de visitantes. Evidente. Mas o resultado é um novo ciclo vicioso no qual quem mais acumula dinheiro na rede é quem tem mais conteúdo para exibir e que, portanto, mais dinheiro para investir em novos sites terá.

A concentração é também física. Grandes grupos como Yahoo!, Microsoft e o próprio Google, por atraírem uma quantidade desproporcional de usuários, precisam de conexões à rede extremamente poderosas e grandes parques de servidores que ninguém mais tem.

Aquele modelo inicial de internet no qual cada ponto da rede seria tão importante quanto qualquer outro se foi no mundo prático. Até fisicamente a internet é centralizada.

Carr é um crítico ácido da utopia eletrônica. Em 2006, ele apostou com o israelense Yochai Benkler a respeito de como será a internet em 2010. Para Benkler, esta centralização pode estar acontecendo, mas os dez sites mais visitados da rede serão colaborativos. Quer dizer: Wikipédias, Blogspots da vida, grandes portais onde todo o publicado virá pelas mãos do grande público anônimo que povoa o mundo digital.

Carr não tem dúvidas de que o mundo da internet será centralizado e que os dez mais lidos serão sites tradicionais, talvez de grandes empresas de mídia, mas sempre com gente paga para produzir conteúdo.

Esta é, afinal de contas, a grande aposta em curso na internet.
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Comentário de jholland, 14/01/2008, 23h03
Ontem tive uma segunda conversa com o Guilherme sobre um assunto correlato: o "sistema" está mais (ou menos) fascista ? É muito mais fácil e evidente demonstrar o caráter de fechamento ideológico.Está na tradição da nossa filosofia, é quase um senso-comum etc. Entretanto, tenho-me dedicado a visualizar o "outro lado", mais anárquico, digamos, do mesmo sistema, do mesmíssimo cotidiano. De uma certa forma, é como se a ideologia e o sistema simbólico fossem uma espécie de "Janus": de uma lado, fascista, e assim se apresenta para a maioria das pessoas; mas, de outro, para aqueles que conseguiram se "despregar" (ou desapegar), esse mesmo sistema apresenta inúmeras e variadas possibilidades, oferecendo sua face anárquica. É nesse sentido que apresentei o texto do Castoriadis, acima...
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Comentário de u.s.w, 15/01/2008, 06h51
São alguns os pontos que gostaria de destacar.
De fato, cada vez mais acredito que o mundo, com seus sistemas (econômicos, simbólicos etc.), seja Janus. Quero dizer com isso que vemos e sentimos o mundo de acordo com a postura que assumimos perante ele. Numa conversa com um professor da UFRJ cujo o tema de trabalho é o papel das mídias na construção de estados mentais "felizes" e cujos os pés estão imersos no hinduismo, dei o seguinte exemplo: "sinto como se o mundo como está hoje fosse esse copo de cerveja abandonado na mesa; existe uma imensidão para fora dele, mas estamos todos presos dentro desse líquido já fétido e quente". Ao que ele me respondeu: "Isso porque tudo que você consegue ver é esse copo de cerveja. Mas pelo menos já desconfia da existência dessa imensidão".
Assim, voltamos ao ponto no qual você, e todos que se inspiram nas filosofias orientais, insiste: não pode haver ação transformadora no mundo se não nos transformarmos junto.
Às vezes, em momentos de extremo delírio, chego a pensar que talvez o mundo tenha sempre sido o mesmo, que ele é belo, ou melhor dizer sublime, exatamente como é; que devem existir inúmeras almas felizes que já habitam esse mundo e que a passagem para ele é somente aprender a olhar.
Isso remete ao comentário que fiz no texto sobre antropologia da imaginação: amar o mundo é viver em perigo, mas viver.
Mas deixando o delírio de lado. Mesmo presos dentro do copo de cerveja é preciso buscar uma saída, e apenas criticar a face sisuda de Janus só nos faz mergulhar mais ainda nesse líquido viscoso. É preciso lembrar que se trata de cerveja, podemos bebê-la até que não nos prenda mais, até que todas as faces sejam Baco: gaiatas, rosadas e felizes.
Falei de fim de delírio mas continuei nele... talvez a hora...
Voltando, então, ao centro desta postagem, a internet. Como o que disse do mundo, tudo é uma questão de postura. Minha crítica, no entanto, não é do veículo em si, mas das expectativas exageradas que colocam sobre ele. Como um deus ex machina a internet surge agora como o bote salva-vidas da modernidade e da alienação. Só acho que é preciso lembrar, como já coloquei em outra postagem, que se trata de mais um veículo, tão bom e tão sujeito a alienação e apropriação pela face fascista do sistema quanto qualquer outro.
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Comentário de JHolland, em 15/01/2008, às 09:56 hs
Muito belo o seu texto. Sempre admiro como vc coloca suas idéias, de uma forma simples, poética. Isso é muito importante. Revela intuição, que é essencial para o "despertar" disso que estamos falando.
É nesse sentido mesmo que considero o "cotidiano" a maior de todas as escolas - percebo que um dia começa a ser completamente diferente do outro, o mesmo acontecendo até mesmo com a noite ! Lembro de uma frase do Raoul Vaneigem: "Existem mais verdades em 24 horas da vida de um ser humano do que em todas as filosofias." Ao percebermos isso é como se mudássemos para um outro planeta ! No Budismo, diz-se que podemos ter a abordagem "mal humorada" e a "bem humorada" da Sansara.

sábado, 12 de janeiro de 2008

Auto-Observação...(2)


Eu estava, certa vez, ao longo da Liteiny, em direção à Nevsky, e, apesar de todos os meus esforços, não conseguia manter minha atenção na lembrança de si. O barulho, o movimento, tudo me distraía. A cada minuto perdia o fio da atenção, encontrava-o de novo e tornava a perdê-lo. Por fim, senti uma espécie de irritação ridícula comigo mesmo, e dobrei a esquina, à esquerda, decidido a manter a atenção no fato de que haveria de me lembrar de mim mesmo pelo menos por algum tempo, pelo menos até alcançar a próxima rua. Cheguei à Nadejdinskaya sem perder o fio da atenção, exceto talvez por breves momentos. Depois, retornei à Nevsky ainda me lembrando de mim mesmo, e já começava a experimentar o estranho estado emocional de paz e confiança interiores que surge depois de muitos esforços desse tipo. Bem na esquina, em Nevsky, havia uma charutaria onde eram fabricados os meus cigarros. Ainda lembrando-me de mim, pensei em entrar e encomendar alguns.
"Duas horas depois, acordei na Tavricheskaya, isto é, bem longe de lá. Eu ia de carro até a editora. A sensação de acordar era extremamente viva. Posso quase dizer que voltei a mim. Lembrei-me imediatamente de tudo. De como tinha estado a andar pela Nadejdinskaya, de como me lembrava de mim mesmo, de como pensara nos cigarros e de como, ao pensar nisso, parece que caí, desaparecendo em um sono profundo.
Ao mesmo tempo, enquanto imerso neste sono, continuara a realizar ações coerentes e expedientes. Saí da tabacaria, voltei ao meu apartamento na Leiteiny, telefonei à editora...No caminho, de carro, ao longo da Tavricheskaya, comecei a sentir um desconforto estranho, como se tivesse me esquecido de alguma coisa. E, de repente, me lembrei que tinha me esquecido de lembrar de mim." (Ouspensky, In Search of the Miraculous, p. 120)

In: O Outsider, Colin Wilson, pag.269)

Auto-Observação





...."TUDO QUE AS MINHAS TENTATIVAS DE LEMBRANÇA DE SI ME MOSTRARAM, ME CONVENCEU BEM CEDO DE QUE EU ESTAVA DIANTE DE UM PROBLEMA NOVO COM QUE A CIÊNCIA E A FILOSOFIA NÃO TINHAM, ATÉ ENTÃO, SE DEPARADO"... P.D Ouspensky - Livro (Consciência) Editora Martins Fontes.




Todo o trabalho deriva do homem que começa a observar-se. A auto-observação é que nos permite mudar interiormente.Não devemos confundir o observar com o conhecer. Falando superficialmente, podemos dizer que alguém sabe, por exemplo, que está sentado em uma cadeira, mas isto não quer dizer que a está observando. Falando mais profundamente, talvez uma pessoa saiba que está em um estado negativo, mas isto não quer dizer que o está observando.
A auto-observação é um ato de atenção dirigida para dentro, para o que está acontecendo na pessoa. A atenção deve ser ativa, isto é, dirigida. No caso, por exemplo, de uma pessoa a quem se tem antipatia, é possível notar os pensamentos que se acumulam na mente, o coro de vozes que falam dentro de nós, o que estão dizendo, as emoções desagradáveis que surgem, etc. Também notamos que estamos tratando interiormente muito mal à pessoa a quem temos antipatia. Para ver tudo isso é necessária uma atenção dirigida.
A atenção vem do lado observante, os pensamentos as emoções e os movimento pertencem ao lado observado, isto é, há que dividir-nos em dois, observador e observado. O lado do observador é interior ao lado observado, ou está por cima dele; mas seu poder de consciência independente varia, porque a qualquer momento poderá ficar submerso. Nesse caso ficará completamente identificado com o estado negativo. Aí a pessoa não observa o estado, porque ela mesma é o estado. Cabe dizer que o fato de ser negativo é conhecido, mas não é observado.
Muitas vezes também se confunde o pensar com o observar. Pensar e observar são bem diferentes. Um homem pode pensar todo dia a respeito de sua pessoa e não auto-observar-se sequer por um momento. Observar nossos pensamentos não é a mesma coisa que pensar. O 4c ensina que o homem deve observar tudo nele, sempre como se não fosse ele, mas sim outro. Isto significa que ele deve chegar a dizer: "o que está fazendo esse eu?" E não "o que eu estou fazendo?" Então vê os pensamentos que se sucedem, as emoções, as comédias privadas, os dramas pessoais, as elaboradas mentiras, as desculpas e justificativas, os discursos, que passam sucessivamente. No instante seguinte, cai outra vez no sono e desempenha seu papel em todos eles, isto é, atua na comédia que compôs e crê que é verdadeira.
É preciso que um homem seja capaz de dizer: "isto não sou eu", a todas as peças e canções estabelecidas, a todas as representações que se sucedem nele, a todas as vozes que toma pela sua. Sabe-se que, às vezes, antes de dormir, ouvimos fortes vozes na cabeça. São os eus que estão falando. Durante o dia, passam o tempo todo falando, só que os tomamos por Eu, por nós mesmos.
Quando você encontra-se em um estado desagradável e auto-observa-se durante alguns minutos, notará grupos diferentes de eus desagradáveis que tentam, um após o outro, ocupar-se da situação e tirar proveito dela. Isto se deve a que os eus negativos vivem sendo negativos. Sua vida consiste em pensar negativamente ou sentir negativamente, isto é, em proporcionar-lhe pensamentos negativos e sentimentos negativos. Deleitam-se em fazê-lo porque para eles assim é a vida.
No trabalho sobre si, é preciso observar sinceramente quando se goza dos estados negativos, em especial quando se goza secretamente deles. Se um homem sente prazer sendo negativo, sejam quais forem as formas de ser negativo, e são muitas, não poderá separar-se delas. Não é possível separar-se de algo pelo qual sente-se um afeto secreto Em realidade, o que ocorre é que a pessoa identifica-se com os eus negativos por meio de um afeto secreto e assim sente seu gozo, porque seja qual for a coisa com a qual uma pessoa identifique-se, converte-se nela.
É preciso observar a fala interior (VERBALIZAÇÃO) e o lugar de onde provém. A fala interior automática é a semente de muitos estados desagradáveis futuros e também da fala exterior equivocada.
Existe a prática do Silêncio Interior. Não se trata de impedir que algo penetre na mente, mas pratica-se o silêncio interior com relação a algo que já está na mente e do qual deve-se ter percepção, mas é preciso não tocá-lo com a língua interior, com o discurso interior, ou seja não usar a verbalização. A fala interior sempre se ocupa dos estados negativos e forja muitas frases desagradáveis que, de súbito, acham expressão na fala exterior, talvez muito tempo depois.
A fala interior mecânica produz confusão interior, é feita de diferentes formas de mentiras, de meias verdades ou de verdades que se relacionam entre si de modo incorreto, com algo que se agregou ou se omitiu. Em outras palavras, é mentir para si mesmo.
Tudo isso pertence à purificação da vida emocional. Mecanicamente, só simpatizamos com nós mesmos e temos antipatia ou ódio daqueles que não simpatizam conosco. Não é possível o desenvolvimento interior, a menos que as emoções deixem de fundamentar-se unicamente na auto-simpatia (AUTO IDENTIFICAÇÃO). Talvez uma pessoa se dê conta que diz coisas que, se as recebesse, não as toleraria. Dentro de nós mesmos, todos os outros são impotentes. Podemos arrastar uma pessoa para nossa caverna secreta e fazer com ela o que quisermos. Podemos ser naturalmente corteses mas, neste trabalho, cujo propósito é purificar e organizar a vida interior, isto não basta. O que realmente conta é a maneira como os homens se comportam interna e invisivelmente uns com os outros.
Todo ensinamento esotérico, desde a mais remota Antigüidade, refere-se ao conhecimento de si. O trabalho psicológico aplica-se à nossa realidade invisível, na qual moramos psicologicamente; refere-se à conquista de si, ao domínio de si. Mas uma das maiores dificuldades é justamente, imaginarmos que nos vemos e nos conhecemos integralmente, e isto nos impede de compreender o que significa verdadeiramente a auto-observação e o que quer dizer começar a conhecer-se a si mesmo.
Só quem compreende plenamente a dificuldade de despertar pode compreender a necessidade de um prolongado e árduo trabalho sobre si, com o fim de despertar. VEJAMOS BEM, PROLONGADO TRABALHO SOBRE SI.
Neste trabalho, é preciso dissolver a fantasia e a imaginação negativa. A fantasia pode satisfazer todos os centros, de modo que o homem fica satisfeito com o imaginário em lugar do real. O poder da fantasia mantém os homens hipnotizados, porque o homem sonha que está desperto ou a ponto de despertar. Contudo, geralmente passa-se muito tempo neste trabalho antes que uma pessoa comece a observar sua fantasia. E é difícil observá-la, porque quando a observamos, ela se detém, isto é, tão logo chega a atenção dirigida, a fantasia cessa.Nosso estado de hipnose impede toda observação real e direta. Imaginamos que somos pessoas respeitáveis e agradáveis, e não podemos ver através da bruma de nossa fantasia que não o somos em absoluto.
Por isso é imperativo conhecer o modo correto para trabalhar o que se observa, por enquanto estamos apenas estudando o básico do sistema, e comprovando em nós que assim é, mas muito cuidado para não cair na armadilha de acharmos que podemos realizar um trabalho de auto-observação correta para alcançar a consciência de SI sem ajuda e sem preparo. Já foi dito aqui nesta lista que neste caminho sem vontade é impossível evoluir e que sem ajuda é igualmente impossível evoluir.Será que tem alguém aqui que pode dizer que desenvolveu a vontade plenamente? Vamos então criar as condições para que a vontade se desenvolva em nós, ainda é muito cedo para tentar saltos maiores que as pernas, é bem melhor um passo seguro de cada vez que dar um salto para o desconhecido e bater com a cara no muro. temos muita coisa para conversar sobre o sistema, oportunamente veremos as técnicas para criarmos um observador eficiente. Por hora é solicitado a auto-observação como forma de constatar em si a veracidade do que dizemos aqui sobre os muitos "eus", centros, funções,estados de presença, consciência, compartimentos, amortecedores, emoções negativas, sono, vigília, observação de si, consideração interior, identificação, 4c , Gurdjieff, evolução possível, abordagem do sistema, contexto, aqui agora etc, para que possamos partir para algo mais profundo se realmente a nossa vontade para isso se prestar.



escrito por Flávio, praticante do 4º Caminho, membro do Instituto Gurdjieff



(Fonte: www.holosgaia.blogspot.com )

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

O poder tem medo da Internet - entrevista com Manuel Castells

Manuel Castells

11/1/2008



Se alguém estudou o que é, por dentro, a sociedade da informação, é o sociólogo Manuel Castells. A sua trilogia A era da informação foi traduzida para 23 línguas. Ele voltou para a Espanha em 2001 e dirige a pesquisa na Universitat Oberta de Catalunya, , depois de ter lecionado, durante 24 anos, na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Uma das pesquisas mais recentes é o Projeto Internet Cataluña, em que durante seis anos analisou, com 15 mil entrevistas pessoais e 40 mil pela internet, as mudanças que a Internet introduz na cultura e na organização social. Ele acaba de publicar com Marina Subirats, Mujeres y hombres, ¿un amor imposible? (Alianza Editorial), onde aborda estas mudanças. A reportagem e a entrevista é de Milagros Pérez Oliva e publicada pelo jornal El País, 6-01-2008.


Eis a entrevista.


Esta pesquisa mostra que a Internet não favorece o isolamento, como muitos acreditam, mas que as pessoas que mais usam o chat são as mais sociais.


Sim. Para nós não é nenhuma surpresa. A surpresa é que esse resultado tenho sido uma surpresa. Há pelo menos 15 estudos importantes no mundo que dão esse mesmo resultado.
Por que acredita que a idéia contrária se estendeu com tanto sucesso?
Os meios de comunicação tem muito a ver. Todos sabermos que as más notícias são mais notícia. Você utiliza a Internet e seus filhos, também. Mas é mais interessante acreditar que ela está cheia de terroristas, de pornografia... Pensar que é um fator de alienação é mais interessante do que dizer: A Internet é a extensão da sua vida. Se você é sociável, será mais sociável; se não é, a Internet lhe ajudará um pouquinho, mas não muito. Os meios são um certo modo de expressão do que pensa a sociedade: a questão é por que a sociedade pensa isso.


Porque tem medo do novo?


Exatamente. Mas medo de quem? A velha sociedade tem medo da nova, os pais dos seus filhos, as pessoas que têm o poder ancorado num mundo tecnológico, social e culturalmente antigo do poder que lhes abalroa, que não entendem nem controlam e que percebem como um perigo. E no fundo é mesmo um perigo. Porque a Internete é um instrumento de liberdade e de autonomia, quando o poder sempre foi baseado no controle das pessoas por meio do controle da informação e da comunicação. Mas isto acaba. Porque a Internet não pode ser controlada.


Vivemos numa sociedade onde a gestão da visibilidade na esfera pública midiática, como a define John J. Thompson, se converteu na principal preocupação de qualquer instituição, empresa ou organismo. Mas o controle da imagem pública requer meios que sejam controláveis, e se a Internet não é ...


Nao é, e isso explica porque os poderes tem medo da Internet. Estive em várias comissões de assessoria de governos e instituições internacionais nos últimos 15 anos, e a primeira pergunta que os governos sempre fazem é: como podemos controlar a Internet? A resposta é sempre a mesma: não se pode. Pode se vigiar, mas não controlar.


Se a Internet é tão determinante da vida social e econômica, seu acesso pode ser o principal fator de exclusão?


Não. O mais importante segue sendo o acesso ao trabalho e à carreira profissional e, ainda anteriormente, ao nível educativo, porque sem educação, a tecnologia não serve para nada. Na Espanha, a chamada exclusão digital é por questão de idade. Os dados estão muito claros: entre os maiores de 55 anos, somente 9% são usuários da Internete, mas entre os menores de 25 anos, são 90%.


É, portanto, uma questão de tempo?


Quando minha geração desaparecer, não haverá mais esta exclusão digital no que diz respeito ao acesso. Mas na sociedade da Internet, o complicado não é saber navegar, mas saber onde ir, onde buscar o que se quer encontrar e o que fazer com o que se encontra. Isso requer educação. Na realidade, a Internet amplifica a velha exclusão social da história, que é o nível de educação. O fato de que 555 dos adultos não tenha completado, na Espanha, a educação secundária, essa é a verdadeira exclusão digital.


Nesta sociedade que tende a ser tão líquida, na expressão de Zygmunt Bauman, em que tudo muda constantemente e que é cada vez mais globalizada, aumenta a sensação de insegurança, de que o mundo se move debaixo dos nossos pés?


Há uma nova sociedade que eu busquei definir teoricamente com o conceito de sociedade-rede e que não está distante da que define Bauman. Eu creio que, mais que líquida, é uma sociedade em que tudo está articulado de forma transversal e onde menos controle das instituições tradicionais.


Em que sentido?


Estende-se a idéia de que as instituições centrais da sociedade, o Estado e a família tradicional, já não funcionam. Então, o chão se move sob os nossos pés. Primeiro, as pessoas pensam que seus governos não as representam e que não são confiáveis. Começamos mal. Segundo, elas pensam que o mercado é bom para os que ganham e mau para os que perdem. Como a maioria perde, há uma desconfiança para o que a lógica pura e dura do mercado pode proporcionar às pessoas. Terceiro, estamos globalizados; isso significa que nosso dinheiro está no fluxo global que não controlamos, que a população está submetida ás pressões migratórias muito fortes, de modo que cada vez mais é difícil encerrar as pessoas numa cultura ou nas fronteiras nacionais.


Qual é o papel da Inernet neste processo?


Por um lado, ao nos permitir aceder à toda informação, aumenta a incerteza, mas ao mesmo tempo é um instrumento chave para a autonomia das pessoas, e isto é algo que demonstramos pela primeira vez na nossa pesquisa. Quanto mais autônoma é uma pessoa, mas ela utiliza a Internet. Em nosso trabalho definimos seis dimensões da autonomia e comprovamos que quando uma pessoa tem um forte projeto de autonomia, em qualquer uma dessas dimensões, ela utiliza Internet com muito mais freqüência e intensidade. E o uso da Internet reforça, por sua vez, a sua autonomia. Mas, claro, quanto mais uma pessoa controla a sua vida, menos ela se fia das instituições.


E maior pode ser sua frustração pela distância que há entre as possibilidades teóricas de participação e as que exerce na prática, que se limitam a votar a cada quatro anos?


Sim, há um descompasso entre a capacidade tecnológica e a cultura política. Muitos municípios colocaram Wi-Fi de acesso, mas se ao mesmo não são capazes de articular um sistema de participação, servem para que as pessoas organizem melhor as suas próprias redes, mas não para participar na vida política. O problema é que o sistema político não está aberto à participação, ao diálogo constante com os cidadãos, à cultura da autonomia e, portanto, estas tecnologias contribuem para distanciar ainda mais a política da cidadania.

Brasil: uma farsa em Bali? Entrevista especial com Claudio Ângelo



11/1/2008









A Conferência de Bali trouxe algum resultado? O mapa do caminho será uma solução para as emissões de carbono no planeta ou terá o mesmo fim que o Protocolo de Kyoto? Para o jornalista Claudio Ângelo, que participou da cobertura do evento como correspondente da Folha de S. Paulo, o encontro pode ser considerado um sucesso e um fracasso. De positivo, Bali aprovou o mapa do caminho. Entretanto, faltou uma “resposta adequada à dimensão do problema do aquecimento global”, considerou.

Os integrantes do G-77 foram o grande destaque da Conferência, e estavam dispostos a contribuir para o novo texto, que substituirá Kyoto em 1012. O Brasil apresentou um plano de compensação voluntária. Entre tantas promessas e propostas, lembra o jornalista, o país ainda não fez efetivamente nada. Para ele, a falta de uma política nacional de mudanças climática revela o que país não “está nem um pouco preocupado com as emissões de gases das indústrias e do setor de combustíveis fósseis”.

Em entrevista concedida por telefone à IHU On-Line, o jornalista chama a atenção para a disputa interna existente dentro do governo. E dispara: “Tem uma esquizofrenia no setor ambiental brasileiro que é, de um lado, o Ministério do Meio Ambiente tentando fazer alguma coisa, e, de outro, o Ministério da Casa Civil tentando minar tudo que o Ministério do Meio Ambiente está fazendo”.

Claudio Ângelo é jornalista e editor de Ciência da Folha de S. Paulo.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Para você, que esteve em Bali, acompanhou as discussões e decisões, o que, de fato, a conferência deixa para o mundo?


Claudio Ângelo – Essa pergunta tem sido feita desde que a Conferência terminou. Bali foi um fracasso ou foi um sucesso? Considero mais justo dizer que foram as duas coisas. Primeiro, não é possível negar que a Conferência apresentou um resultado concreto. Até o último segundo, poucas pessoas esperavam que o mapa do caminho fosse aprovado. Os Estados Unidos tentaram armar um retrocesso gravíssimo na Conferência e, no final das contas, o mapa do caminho foi aprovado e até mesmo foi além do que muitos esperavam. Nesse ponto, a Conferência foi um sucesso. Agora, a ONU e a humanidade em geral não deram uma resposta adequada à dimensão do problema do aquecimento global, tal qual ela foi delineada pela ciência. O processo político continua muito aquém do que deveria ser feito para combater o problema. O nível de estabilização que os cientistas consideram que deve ser alcançado é de 450 watts por 1 milhão de dióxido de carbono na atmosfera. Entretanto, penso que esse percentual nunca será alcançado.

IHU On-Line – A partir de acontecimentos como o da pressão que os Estados Unidos fizeram sobre as decisões a serem tomadas em Bali, com apoio do Japão e Canadá inclusive, e o do importante assentimento que a União Européia deu ao mapa do caminho, junto aos países em desenvolvimento, como o senhor analisa a Conferência de Bali, em relação às discussões feitas há dez anos em Kyoto?


Claudio Ângelo – Por mais que pareça absurdo isso que eu vou dizer, considero necessário separar as posições dos países desenvolvidos. Japão, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Estados Unidos sempre, tradicionalmente, decidiram essas questões em bloco durante todo o processo de construção de Kyoto e da Convenção do Clima. Ocorre que esse grupo se rompeu. A Nova Zelândia se tornou um país totalmente favorável a medidas duras para combater o aquecimento global, sendo o primeiro país a sair do bloco. Hoje, eles estão dizendo que se transformarão num país neutro em carbono. Quer dizer, eles perceberam que essa nova posição é estratégica, até porque o país é pequeno, e com recursos escassos. O Japão tem um problema que é diferente dos Estados Unidos. Apesar de aderir à idéia de não aceitar nenhum tipo de mecanismo de punição para os países que não cumprirem suas metas, ele tem o problema da eficiência de energia. Os japoneses já cortaram muita coisa depois da crise do petróleo, e, hoje, dificilmente eles vão conseguir amenizar seus problemas com medidas domésticas de redução de emissões. Por isso, eles insistem em comprar créditos de carbono. Na semana passada, o Japão anunciou que vai fechar um acordo com a China, para comprar créditos de carbono dos chineses. Para os japoneses, soluções de mercado serão fundamentais.

Canadá e Estados Unidos têm posições diferentes. Na administração Bush, os estadunidenses não querem fazer nada. Eu conversei com um especialista dos Estados Unidos por conta da Conferência, e ele falou uma coisa engraçada e até meio óbvia. Ele disse que o governo estadunidense não nega mais que o problema do aquecimento global exista. O que ele nega agora é a solução do problema. Assim, o país continua insistindo na alternativa de medidas voluntárias. O Canadá, de certa forma, em Bali, tentou aderir à mesma posição dos estadunidenses, mas, no final, os Estados Unidos ficaram totalmente isolados.

IHU On-Line – Qual é a importância para o mapa do caminho, que está sendo traçado ainda, a participação do G-77 na conferência de Bali?


Claudio Ângelo – É fundamental, porque todo o impasse criado pelos estadunidenses estava justamente em torno do fato de que os países em desenvolvimento são desobrigados por Kyoto a aceitar metas de redução. Então, o argumento dos Estados Unidos e Canadá era: nós não vamos fazer exatamente nada enquanto grandes emissores do mundo em desenvolvimento, como China e Índia não adotarem a medidas.

Em 2007, a China sentiu a pressão e antes da reunião do G8 anunciou um grande plano de aumentar a eficiência energética no setor industrial, de economia, combustível, de fósseis. Quer dizer, a China já chegou a Bali preparada para discutir compromisso. O mesmo ocorreu com o Brasil e a África do Sul. O México já tem um plano pronto e detalhado de quanto eles podem cortar em cada setor da economia. Então, os grandes países do G-77 chegaram em Bali dispostos a discutir e firmes na decisão de não aceitar metas obrigatórias. As potências do G-77, excluindo a Índia, se uniram dispostas a fazer uma contribuição. Isso foi fundamental. A grande liderança nessa Conferência, e isso foi uma coisa que as ONGs disseram desde o início de Bali, estava, por incrível que pareça, no G-77.

IHU On-Line – O Protocolo de Kyoto levou quase dez anos sendo negociado. Enquanto os acordos eram realizados, o mundo emitia 24% a mais de gases de efeito estufa. Agora, temos até o próximo ano para escrever um novo texto para substituí-lo. Você, como jornalista que tem acompanhado todo esse processo, acredita que este mapa do caminho poderá ser mais ambicioso do que o protocolo de Kyoto? Por quê?


Claudio Ângelo – O novo texto não tem nenhuma opção que não seja ser mais ambicioso que o Protocolo de Kyoto. Isso está claro para todos. Nem a Arábia Saudita duvida que tenha que ser assim. Kyoto, na prática não serve para nada. Ele abriu caminho para uma solução multilateral, mas que se tornou muito distante da solução do problema.

Então, esse novo acordo promete ser mais ambicioso que Kyoto, mas se ele vai ser fechado em 2009, como serão os acordos, compromissos, ninguém sabe.

IHU On-Line – Os resultados apresentados pelo IPCC, no início do ano passado, alertaram não apenas os governos, mas a população mundial sobre o problema do aquecimento global. Que influência esse alerta terá sobre as políticas públicas relacionadas ao clima a partir de agora?


Claudio Ângelo – O Sérgio Besserman, ex-presidente do IBGE, disse que o século XXI começou no dia 2 de fevereiro de 2007, na divulgação da primeira parte do Quarto Relatório do IPCC. Eu concordo com tudo que ele disse, porque nesse dia, aparentemente “caiu a ficha” globalmente do tamanho do problema e do que significa para a humanidade falhar em resolver essas questões. Não é a toa que o aquecimento global virou prioridade número um das Nações Unidas, e até está decidindo eleição.

Ninguém poderia prever, ainda em 2005, que a missão na Austrália seria decidida pelo aquecimento global. Então, apesar do Relatório do IPCC não ter trazido a rigor nenhuma novidade, ele teve um impacto imenso na opinião pública. Se não fosse o IPCC, Bali teria sido um fracasso retumbante. E eu não tenho a menor dúvida disso. Depois do Relatório do IPCC, até o governo Bush perdeu a desculpa e sua linha de argumentação.

IHU On-Line – Como o senhor vê a posição do Brasil, que se prontificou a lançar metas nacionais para diminuir os efeitos do aquecimento global, mas que, ao mesmo tempo, dá andamentos, a partir de seu Plano de Aceleração do Crescimento, a projetos como a transposição do Rio São Francisco e as usinas do Rio Madeira?


Claudio Ângelo – Em primeiro lugar, o Brasil não se prontificou a adotar metas nacionais. O que o país fez foi apresentar um plano de compensação voluntária, com criação de um fundo, no qual seria posto dinheiro por quem quisesse.

Para captar esse dinheiro, é necessário estabelecer uma linha de base do quanto cada país vai reduzir seu desmatamento. O que o Brasil fez, foi tirar uma média dos últimos dez anos, uma média alta de aproximadamente 10 mil Km², e propô-la como linha de base. Essa seria a meta brasileira de reduções. Mas, concretamente, o país ainda não tem uma política nacional de mudança climática, não tem um plano de ação nacional de mudança climática e não está nem um pouco preocupado com as emissões das indústrias, com as emissões no setor de combustíveis fósseis e continua leiloando usina termoelétrica a carvão. Quer dizer, a rigor, o Brasil não fez muita coisa.

Para responder à sua pergunta, tem uma esquizofrenia no setor ambiental brasileiro que é, de um lado, o Ministério do Meio Ambiente tentando fazer alguma coisa, e, de outro, o Ministério da Casa Civil tentando minar tudo que o Ministério do Meio Ambiente está fazendo.

IHU On-Line – Como o senhor analisa o jornalismo focado na área do meio ambiente e saúde no país?


Claudio Ângelo – O jornalismo é muito melhor do que era há 10 anos. Não posso falar muito de saúde, mas existe uma demanda fortíssima dos leitores por reportagens nessa área. Saúde é um dos temas que mais interessa ao leitor. Uma pesquisa do Ministério de Ciências e Tecnologias, em 2006, revelou que os brasileiros apreciam mais as matérias de saúde do que de política, por exemplo. Isso bate com dados do perfil do leitor da Folha, em pesquisa realizada pelo Datafolha, no ano passado. Então, os jornais já estão dando um espaço e uma atenção maior para esse assunto, mas ainda existe uma demanda reprimida muito grande.

Em relação às matérias sobre meio ambiente ocorre a mesma coisa. Segundo essas pesquisas, questões ambientais também interessam mais ao leitor do que política. Embora exista demanda reprimida nessa área, os jornais ainda não estão atendendo esse novo nicho.

IHU On-Line – A cobertura sobre meio ambiente na imprensa brasileira tem crescido, pautada principalmente por temas polêmicos, como transgênicos, mudanças climáticas, biodiversidade e biopirataria. A imprensa brasileira cumpre seu devido papel ao tratar de tais temas?

Claudio Ângelo –
Eu não sei. Para isso, é preciso definir qual o papel da cobertura da imprensa. Se o papel da imprensa é ajudar no debate público, eu penso que ela cumpre e não cumpre seu papel.
Sobre o aquecimento global, por exemplo, vejo que as pessoas estão bem informadas quando lêem o jornal. Nessa questão dos transgênicos, ainda não foi realizado um bom trabalho. As ONGs, as indústrias e o governo fizeram um papelão. Por sua vez, a imprensa ficou refém das agendas de todos esses atores e acabou fazendo um papelão também. Assim, eu penso que o jornalista que cobrem transgênicos se dividiram num certo momento entre os militantes pró-transgênicos e os militantes anti-transgênicos, e isso obviamente prejudicou a cobertura.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Bali: Valeu a pena ?




10/1/2008

Fonte: http://www.unisinos.br/_ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=11608




A discussão em torno dos resultados obtidos na Conferência da ONU sobre Mudança Climática, que ocorreu na Ilha de Bali (Indonésia), continua em pauta. E assim deve permanecer até meados do próximo ano quando se pretende ter definido as metas do chamado “mapa do caminho”, um acordo que abre o processo de negociações em torno dos objetivos de redução das emissões de gases que causam o efeito estufa, o grande causador do aquecimento global, segundo o IPCC. O foco deveria mesmo ter sido este: discutir quem irá reduzir essa emissão para diminuir os efeitos do problema da mudança climática. O diálogo, no entanto, foi abalado quando os Estados Unidos, seguidos pelo Canadá e pelo Japão, se negaram a aderir qualquer objetivo específico em relação às reduções de emissões de poluentes. O bom exemplo foi dado pela União Européia e por países em desenvolvimento, como o Brasil, que acordaram em criar metas nacionais e internacionais de redução.

Grande parte das ONGs presentes na reunião saíram satisfeitas com o fato de pelo menos esse acordo ter sido feito, mas destacaram que as decisões são pequenas ainda para o grande problema que precisamos enfrentar. De acordo com Luis Piva, coordenador da campanha de clima do Greenpeace/Brasil, “o crescimento dessas emissões tem que acontecer até o ano de 2015” e, “a partir daí, nós teríamos que estabilizar essa curva e passar a reduzi-la imediatamente, porque caso contrário não conseguiremos, no ano de 2050, estabilizar a elevação da temperatura até os dois graus, que é considerado o ponto de colapso mesmo do sistema climático”. A IHU On-Line conversou com Piva, por telefone.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais são os principais pontos de destaque da Conferência de Bali?

Luis Piva – Para o Greenpeace, houve dois momentos importantes dentro da Conferência de Bali: um momento ruim e um momento bom. Isso faz crer que o balanço foi positivo, mas ainda temos muita coisa para discutir. Aquilo que foi bom diz respeito à inclusão da questão de florestas num segundo período de compromisso do Protocolo de Kyoto. Então, uma vez que a conferência passou a definir o tal “mapa do caminho” que irá gerar um mandato de Bali, a inclusão da questão das florestas foi um assunto bastante importante, até porque são mais de 20% a contribuição do desmatamento e da mudança de uso do solo para o aquecimento global. Outro ponto importante foi o da inclusão da questão da transferência de tecnologias entre países ricos e países pobres. O terceiro ponto, que também foi consensual durante a Conferência, foi o da criação de um fundo de adaptação. Nós costumamos dividir o tema de mudança climática, bem a grosso modo, entre questões de mitigação e adaptação. Ou seja, o que devemos fazer para nos adaptar a essa nova realidade já de uma mudança climática evidente e o que devemos fazer no futuro, que é justamente a mitigação, a fim de minimizar para termos os menores efeitos perversos das mudanças climáticas.




Então, incluir florestas, transferir tecnologias e a transferência de recursos emergenciais para países em desenvolvimento são assuntos muito importantes e relevantes. Para o Greepeace, o que a conferência deixou muito a desejar e de certa forma foi uma grande decepção foi o que se refere à questão das metas. Simplesmente porque, quando nós colocamos isso diante de um ponto de vista científico, o IPCC afirma que precisa haver esforços de redução de emissão de carbono a curto, médio e longo prazo. O crescimento dessas emissões deve acontecer até o ano de 2015. A partir daí, nós teríamos que estabilizar essa curva e passar a reduzi-la imediatamente, porque caso contrário não conseguiremos, no ano de 2050, estabilizar a elevação da temperatura até os dois graus, que é considerado o ponto de colapso mesmo do sistema climático. A partir de uma elevação de dois graus, ficará muito complicado para a humanidade se adaptar a essas alterações tão bruscas, acontecendo numa velocidade tão intensa. Então, se, por um lado, os Estados Unidos fazem uma espécie de chantagem, dizendo que não irão assinar o mapa do caminho porque não são a favor de metas, temos, por outro lado, a União Européia, atestando que se compromete e que gostaria que houvesse um compromisso entre 25 e 40% até o ano de 2020. Esse panorama gera um impasse.


IHU On-Line – E qual foi a resolução desse impasse?

Luis Piva – Foi quando os países em desenvolvimento, como o Brasil e a China, entraram na jogada e disseram: “Nós nos comprometemos com metas nacionais, e os Estados Unidos se comprometem com alguma forma de meta só que para o ano de 2050”. Foi uma negociação muito truncada, muito difícil. Inclusive, se precisou de mais um dia de conferência para que esse impasse fosse resolvido. Então, eu acredito que a questão das metas são primordiais, precisando acontecer num prazo menor do que 2050. Porque em 2050, segundo a ONU, nós já teremos que ter cortado 50% das emissões, em média, e os países desenvolvidos deverão ter cortado 80%. Então, para nós, o fato de não haver um compromisso expresso, explícito de metas para o ano de 2020, é algo muito sério e delicado. Nós reduzimos a possibilidade e aumentamos o risco de não reduzir as emissões em 2050.




IHU On-Line – Esse fundo que o Brasil pode receber para reduzir o desmatamento da Amazônia faz sentido quando sabemos que de julho até dezembro de 2007 8% da floresta foi desmatado?

Luis Piva – A questão de florestas é bastante delicada e complexa. Em minha opinião, deve acontecer esforços domésticos para redução do desmatamento até que seja possível zerar esse desmatamento. Esses esforços devem indicar ações de governança, fiscalização, pesquisas, aparelhamento. Enfim, trata-se de uma decisão de Estado. O Estado tem que agir para conter o avanço do desmatamento e, conseqüentemente, reduzir as emissões de gases de efeito estufa provenientes desta forma. Isso, inclusive, garante a soberania do país, que fará sua lição de casa desde que esteja convicto de que é isso que precisa ser feito, o que impõe uma decisão estratégica. Não quer dizer que os países detentores de florestas tropicais não possam receber apoio internacional em forma de cooperação internacional, de transferência de tecnologias, ou de transferência de recursos. O Brasil, inclusive, apresentou uma proposta de um fundo para redução do desmatamento, que contempla simplesmente ações de governo e não de mercado. O Greenpeace, por sua vez, apresentou uma proposta híbrida, que chama Mecanismo de Redução de Emissões Via Desmatamento de Florestas Tropicais.

Essa proposta é um mix entre ações de governo e ações de mercado, ou seja, países que fizerem a sua lição de casa terão a possibilidade de acessar um recurso internacional na forma de um fundo de recursos de países desenvolvidos. Só que, para nós não pervertermos o mercado, a proposta consiste justamente em acessar esses créditos dentro de um teto, dentro de um limite. Por exemplo, em 2008 o Brasil reduziu x% do desmatamento, o que equivale y em carbono e, portanto, equivale a um percentual em créditos de carbono. Com base nisso, os países desenvolvidos acessam essa informação e abatem suas emissões, fazendo a compensação dentro de um limite considerado adequado porque nós sabemos que o problema majoritário das emissões dos gases de efeito estufa é a queima de combustíveis fósseis, que representam 80%. Em suma, não é só quem tem floresta que precisa fazer a lição de casa. É necessário que quem possui obrigações dentro do Protocolo de Kyoto também cumpra suas obrigações. Só para você ter uma idéia: se nós conseguíssemos fixar esse teto em 3%, conseguiríamos fazer uma captação de recursos de aproximadamente 14 bilhões de dólares, o que contribuiria significativamente para a manutenção das florestas. Nós sabemos que os países detentores de florestas tropicais são menos favorecidos e têm que identificar uma oportunidade excelente de conservá-las, transformando-as numa forma de captar recursos para manter a governança desse lugar. No caso do Brasil, é importante que o país receba apoio, mas é mais importante ainda que identifique a Amazônia como algo estratégico, com investimentos estruturais, recursos canalizados, especialmente para a gestão adequada da floresta, para a criação de áreas protegidas etc. Ninguém está falando que é um problema fácil de ser resolvido, mas sabemos que, com vontade política, é possível evoluir bastante nessa discussão.

IHU On-Line – Como você analisa a posição do Brasil, como um dos países que mais emitem dióxido de carbono, em relação às suas metas?

Luis Piva – Na verdade, não houve uma definição explicita de metas, quantativamente falando. Não há um número, indicando, por exemplo, que o Brasil tem reduzir x até tal ano. O que existe é o compromisso de o país em reduzir o desmatamento através da adoção de metas nacionais. Essa palavra nacional ou interna é muito significativa porque, por exemplo, a União Européia tem metas internacionais de redução. Ela faz parte do anexo 1 do Protocolo de Kyoto, estando, portanto, comprometida a reduzir as suas emissões de gases de efeito estufa. Nesse segundo momento, o que aconteceria? Os países do anexo 1 ampliariam o seu escopo de metas, que agora sabemos serem cinco por cem. Então, a nossa expectativa é de que países desenvolvidos aumentem as suas metas para podermos fazer essa redução adequadamente, enquanto países em desenvolvimento sejam beneficiados por outros mecanismos e também façam esse comprometimento interno. É claro que o Brasil não sofreria uma sanção internacional direta, caso não as cumprisse. No entanto, trata-se de um grande indicativo de que há uma vontade política para se reduzir. Da teoria à prática, sabemos que há um caminho muito complicado para seguir. Nós sabemos que toda a região amazônica corresponde a mais de 60% do território brasileiro. Não é fácil, mas nós sabemos que é perfeitamente viável e temos a consciência de que é perfeitamente possível zerar o desmatamento. Para isso, existe uma proposta do Greenpeace internacional, que é essa a qual eu me referi. O Greenpeace também participou do lançamento de uma proposta em nível nacional, chamada Pacto pela valorização da Floresta e pelo fim do desmatamento da Amazônia Brasileira, lançada em outubro. O que eu quero demonstrar com isso é que a sociedade está pronta para esse debate ou está se capacitando e aprimorando muito bem a sua capacidade de contribuir com isso. Nós precisamos que o governo abra mais os olhos e esteja mais atento às propostas e àquilo que nós temos colocado na mesa, porque o tempo é muito curto. Tudo se resume na falta de tempo para agir e nas evidências que a ciência tem colocado. Então, se a posição do Brasil foi conservadora ou não, eu não sei, mas é extremamente necessária. Além disso, nem sempre o conservadorismo é algo negativo, mesmo que nesse caso nossa atitude necessite ser mais agressiva, mais proativa e mais emergencial.

IHU On-Line – Como o senhor analisa o mercado de venda de crédito de carbono no país? E no mundo?

Luis Piva – Eu creio que o mercado de carbono no Brasil, hoje, só se dá através de MDL (Mecanismo de Desenvolvimento Limpo). O Brasil é o segundo país que mais comercializa créditos por esse mecanismo. Então, eu percebo que, como uma iniciativa de mercado, isso é legítimo. Só que nós sabemos que, no começo, o MDL era uma grande esperança para resolvermos os problemas das mudanças climáticas e hoje passou a ser uma ponta de um grande iceberg. Sabemos também que mecanismos de mercado e implementação de energias limpas são extremamente necessários, mas isso faz parte de um complexo conjunto de ações que precisam ser tomadas. Até onde eu sei, o MDL, no Brasil, representa uma fração pouco significativa de redução de emissão com relação ao total de emissões do Brasil. Se ele é efetivo ou não, essa questão precisa ser melhor esclarecida. Mas é preciso entender, definitivamente, que o MDL é um mecanismo de mercado que irá fomentar, gerar renda, um capital, embora seja apenas uma gota no oceano, sobretudo em comparação com aquilo que precisamos realizar se quisermos nos livrar desse grande problema.

IHU On-Line – Que tipo de soluções o “mapa do caminho” aponta?

Luis Piva – Ele é um conjunto de soluções capazes de nortear o segundo período do compromisso de Bali, que nós estamos chamando de Mandato de Bali. O “mapa do caminho” é ainda um embrião, um texto muito incipiente sobre os rumos do segundo período de compromisso do Protocolo de Kyoto. As negociações começaram em Bali, em 2007, e espera-se que terminem em 2009, quando poderemos ter esse “mapa do caminho” fechado. E aí entra um rol de assuntos relacionados que também farão fazer parte dessa definição para o segundo período de compromisso. Existem outras demandas, mas os pontos de destaques são esses: florestas, tecnologias e o fundo de adaptação.

IHU On-Line – O que falta para esse “mapa do caminho” levar o mundo realmente às soluções corretas para redução do aquecimento global?

Luis Piva – Faltou essa definição mais explicita de metas, que eu creio constituir o principal problema. Faltou porque nós não tivemos tempo de ficar em cima de discussões teóricas e superficiais. Nós já sabemos o que fazer e como atacar o problema e que o compromisso voluntário é ineficiente. Voluntariamente, eu não conseguir reduzir nada numa escala adequada. Então, para nós, a grande preocupação é a definição das metas.





IHU On-Line – Em sua opinião, por que o Japão, que sediou as reuniões que deram origem ao Protocolo de Kyoto, de certa forma, sabotou esta conferência?

Luis Piva –
Na verdade, quem sabotou mesmo foram os Estados Unidos, mas o Japão fez parte desse bloco. Eu acredito que o Japão seja um país com grande possibilidade de contribuir para a solução desse problema. É um país que precisa entender que a questão da sustentabilidade está, necessariamente, atrelada à questão do desenvolvimento.

IHU On-Line – O que se falou, durante a Conferência de Bali, sobre a adoção de energias renováveis?

Luis Piva – A questão das energias renováveis permeia as conferências desde seu início. Não só o IPCC observa que a adoção de energias renováveis tem grande potencial de mitigação para as mudanças climáticas, de aproximadamente 30 a 35% no ano de 2030, ou seja, a oferta de energia renovável no planeta atualmente está em torno de 16% e pode crescer em torno de 35%. Com base nisso, identifica-se um grande potencial nesse mercado. A segunda grande coisa é que nessas conferências, inclusive na abertura de Bali, todos os países, querendo demonstrar boa-fé, disseram que vão investir pesadamente em energias renováveis e, ao mesmo tempo, desestimular os combustíveis fósseis. No entanto, sabemos que passar do discurso para a prática é algo complicado. A questão das energias renováveis é o fator principal, a fim de que possamos reduzir as emissões via queima de combustíveis fosseis. Mas precisa ser uma coisa combinada, pois, ao mesmo tempo em que você estimula tecnologias renováveis, como a eólica e a solar, você também cria mecanismos para desestimular tecnologias provenientes da queima de combustível fóssil. Porque não dá para nós descarbonizarmos o planeta fazendo as duas coisas ao mesmo tempo. Uma precisa crescer ao mesmo tempo em que a outra precisa reduzir.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Horizontes imaginativos e o aquém e além





Vincent Crapanzano

Distinguished Professor of Anthropology and Comparative Literature at the Graduate Center of the City University of New York

RESUMO


O autor desenvolve as noções de horizontes imaginativos e de liminaridade, travessia, meio-termo, fundamentos de uma proposta de antropologia da imaginação. Lança seu olhar às dimensões ignoradas da experiência, embora considere imprecisão e obscuridade como componentes necessários a toda experiência, ao pensamento e à percepção. Indica as diferentes concepções do entre, pensando, por exemplo, os tempos e espaços intersticiais (ma) na estética tradicional japonesa ou o barzakh no misticismo sufi. Questiona os nossos pressupostos quanto à natureza das relações, mediante uma releitura da teoria da liminaridade de Victor Turner.


Palavras-chave: antropologia da imaginação, horizontes imaginativos, liminaridade, experiência, Victor Turner.


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Este artigo divide-se em duas partes principais.1 A primeira desenvolve a noção de horizontes imaginativos e o papel teórico que acredito deva desempenhar nas ciências humanas. A segunda examina o aquém e além,2 o liminar e as travessias que ocorrem nos ritos de passagem e em outros movimentos sociais. Mediante o exame do intersticial na estética japonesa e no misticismo sufi, ela chama atenção para alguns de nossos pressupostos quanto à natureza das relações. Discuto tais pressupostos como estão exemplificados na teoria da liminaridade de Victor Turner. Ao revelelar uma outra perspectiva, um outro horizonte possível de compreensão, a discussão reporta à primeira parte deste artigo.


Muito se tem escrito nos círculos acadêmicos em anos recentes sobre divisas, limites e fronteiras, sobre seu reforço, sua supressão, dissolução e porosidade, sobre idas e vindas através deles, sobre transmigração, tudo supostamente afetado e efetuado por conexões pela web, pelo transnacionalismo e pela globalização de nossa estipulada pós-modernidade. Embora reconheça a importância de divisas, limites e fronteiras geopolíticos, a violência que inspiram, as ciladas que produzem, o doloroso deslocamento que causam e os controles que provocam, não trato deles neste artigo. Não me ocuparei do movimento ou - não-movimento - de pessoas através de linhas constituídas legalmente ou em domínios de cultura, língua e poder institucionalizado nitidamente marcados. Antes, as fronteiras me interessam como horizontes que se ampliam da insistente realidade do aqui e agora para aquele espaço ou tempo optativos - o espaço-tempo - do imaginário. É esse âmbito que nos dá uma folga, às vezes dolorosa e angustiante, às vezes prazerosa e apaziguadora, do aqui e agora em toda sua viscosa imediação. Permite-nos escapar da insistente atração da realidade. Embora estar preso à realidade imediata seja associado às culturas primitivas em nossas mitologias etnocêntricas inteiramente questionáveis, que salientam a primazia da vida instintiva deles e a sublimação, de fato, a eterealização, de nossa condição civilizada, todos nós, em algum momento, fomos tão consumidos pela realidade a ponto de perdermos a paciência, a consciência de nós mesmos e de nossos limites. Supomos, acertadamente, creio, que a distância que nos define nasce de nossa habilidade de representar simbolicamente o mundo, inclusive nós mesmos. O que parece escapar a esse acento no simbólico é a relação deste com a possibilidade imaginativa - com a esperança, com o optativo, com os modos - como o subjuntivo, concebido por nossas gramáticas.


Ao contrário das divisas, que podem ser cruzadas (a menos que estejam fechadas), e dos limites, que podem ser transgredidos, as fronteiras, conforme estou empregando a palavra, não podem ser atravessadas. Elas marcam uma mudança de registro ontológico. Postulam um além que é, por sua natureza íntima, inacessível de fato e de representação. Interesso-me pelo papel do que está situado além do horizonte, pelas possibilidades que oferece, pelos desejos lícitos e ilícitos que desencadeia, pelos jogos de poder que sugere, pelo terror que pode causar - a incerteza, a sensação de contingência, de acaso -, pela exaltação, pelo frêmito com o desconhecido que pode provocar. Imaginado, sonhado, projetado, calculado, profetizado - logo, construído -, o além sempre depende de como o encaramos. Nossas imagens, sonhos, projeções, cálculos e profecias podem dar forma e substância ao além, mas, ao fazê-lo, destroem-no; pois, enquanto o constroem, garantem seu deslocamento. E esse deslocamento abala nossas premissas acerca da realidade, base sobre a qual nossas construções são feitas. Embora fundacional, não está imune a nossas imagens do além. Assim, estou particularmente interessado nas vias paradoxais pelas quais a irrealidade do imaginário imprime o real na realidade e por que o real da realidade compele a irrealidade do imaginário. Essas vias não podem ser separadas. São como amantes que, de tão emaranhados, tornam qualquer delimitação de um corpo- ou alma - singular quase arbitrária.


Examinarei a imaginação por meio de um tropo - o do arrière-pays, do sertão, e de seus correlatos, o além e o alhures. Utilizo o termo arrière-pays para relembrar o trabalho do poeta e crítico francês Yves Bonnefoy, cujo livrinho L'arrière-pays (1982) é a inspiração para minhas reflexões de uma antropologia da imaginação. Para Bonnefoy, o sertão evoca as dimensões da experiência que se situam além da percepcão imediata de um objeto, de uma paisagem. Incluem a ansiedade que ele sente em uma travessia: "Lá, a dois passos do caminho que não trilhei e do qual já me distanciei, sim, é lá que se abre uma terra de essência mais elevada, onde poderia ter morado e que, desde então, perdi" (p. 9). É uma terra de pura possibilidade, de desejo e medo.


O além é como as trevas: não pode ser contido. Ele escapole - para aparecer de novo exatamente quando se pensava, para alívio ou desespero, que havia sido eliminado. Bonnefoy insiste que o arrière-pays é inacessível, inexistente como - todo objeto da imaginação, é ausente, inexistente, uma negação, um não-ser.


O que torna a inacessibilidade do sertão assustadora é menos a inacessibilidade que seu papel determinante em nossa percepção daquilo que, de modo ingênuo, tomamos por acessível - daquilo que efetivamente percebemos, vivenciamos, tocamos e sentimos. Imaginada - melhor ainda, imaginável -, ela permanece elusiva. Como nota o filósofo Edward Casey (1976, p. 7): "De fato, estritamente falando, não observamos o que imaginamos, pois não estamos em condições de submeter objetos e eventos imaginados ao exame minucioso que pode ser administrado àquilo que percebemos". É esse caráter elusivo, essa ausência determinante do acessível, que é assustadora: pois o que percebemos sempre é determinado - até certo ponto - pela ausência, aquela presença imaginada. O que nos amedronta é mais que a contingência. É o artifício de factualidade, de nosso empirismo, de nosso realismo, pelos quais nos cegamos a nós mesmos - muitas vezes, por meio de disparatadas metodologias da verdade e de ingênuas filosofias positivistas. Velhas conhecidas de todos nós.


Temos de perguntar, contudo, se há alguma razão para que nos assustemos com o sertão, com a possibilidade imaginativa que ele oferece e nega, com (a impossibilidade de) ir ao outro lado? Podemos não sentir prazer com sua irrealidade, com sua possibilidade, o jogo que propicia? Estamos cultural e historicamente vinculados ao medo e à ansiedade perante a possibilidade imaginativa? Perante a ausência - o não-ser - que atribuímos ao imaginário? Somos vítimas de uma epistemologia puritana da presença? Ou esses medos, essas angústias, são um componente essencial da condição humana? Eu não sei. Mas posso imaginar e, na verdade, conheço o prazer que a possibilidade oferece, a libertação, a fuga que proporciona. Incomoda-me a banalidade, o caráter repetitivo, de nossos enunciados sobre o sertão. Conforta-me seu contínuo deslocamento o domínio que recusa.


Reconhecendo os horizontes imaginativos e o sertão acolá, desejo oferecer uma crítica de alguns pressupostos empíricos comuns. Não estou descartando o empirismo de per si nem a ciência, a ciência antropológica, mas uma apropriação específica do empirismo (da realidade) que nega ou, ao menos, ignora uma importante dimensão da experiência humana - bem conhecida de todos nós. Não estou advogando uma veneração ao irracional, ao irreal, à imaginação. Meu objetivo é mais mundano. Como o filósofo William James, desejo atentar para aquela dimensão da experiência que, por resistir à enunciação - com efeito, desaparece ao ser enunciada -, tem sido ignorada de fato. Em seu apelo para reintegrar "o vago e inarticulado ao lugar que lhe cabe em nossa vida mental", James notou que "as imagens precisas da psicologia tradicional compõem apenas a menor parte de nossas mentes, enquanto estas realmente vivem" (1992, p. 164-65). Ele salientou que "o significado, o valor da imagem está todo neste halo ou penumbra que a rodeia ou acompanha - ou antes, que se lhe funde e torna-se sangue de seu sangue, carne de sua carne". O halo, a penumbra - prefiro a aura - que rodeia toda experiência, toda percepção e toda compreensão pode apenas ser evocado. Impreciso, obscuro, ele é um componente necessário, creio, de qualquer pensamento, percepção e experiência.


Fenomenólogos relacionariam o que chamo de horizonte imaginativo da percepção à periferia da consciência, aos limites externos de nossa atenção, como um pano de fundo. Insistiriam, entretanto, como faz Husserl, que a periferia é simplesmente uma extensão do mundo percebido - e não do imaginado. Os psicólogos também insistiriam no alargamento do campo de percepção. Entenderiam-lhe a qualidade antecipatória não como possibilidade imaginativa, mas como algo pré-lingüístico, pré-verbal, pré-cognitivo, pré-perceptivo. Os "pré", contudo, não eliminam o fato de o próprio horizonte pressupor língua, cognição e percepção. Ele é, nos termos de Jacques Lacan, um precipitado da ordem simbólica. Os "pré", apesar de alegarmos a imediação deles, indicam um adiamento em nossa percepção, nosso pensamento, nossa imaginação e experiência - um adiamento para o que compõe o sertão, não importa o que seja.


Pense em uma paisagem de montanha pintada pelo artista romântico alemão Caspar-David Friedrich.

Quadro de Caspar David Friedrich



Reisengenbirge, de Caspar David Friedrich



Muitas vezes, como em sua pintura do Reisengenbirge, nossos olhos são conduzidos do primeiro plano para o horizonte, neste caso, para as montanhas coroadas de neve e o céu claro, luminoso. Mesmo em suas paisagens montanhosas mais íntimas, o que vemos no primeiro plano é percebido em função do que está situado além das montanhas: outras montanhas, um vale, uma aldeia, um agricultor lavrando a terra, uma celebração de colheita, um cortejo fúnebre. Não sabemos. Só podemos imaginar. Quando olhamos para o primeiro plano do quadro, contudo, geralmente não imaginamos de um modo concreto o que se situa além das montanhas, mas nossa percepção está, como estava, impregnada de possibilidades imaginativas. Por mais numerosas que aparentem ser, essas possibilidades não são infinitas. A menos que eu esteja empenhado, digamos, em uma paródia pós-moderna consciente de si mesma, imaginando um mundo de carros a buzinar, camponeses a olhar fixamente para computadores, ou fábricas a expelir vapores nocivos, que impediriam qualquer apreciação da paisagem montanhosa nos próprios termos - nossos constructos imaginativos, por mais difusos que sejam, conforme delimitados pelas premissas românticas de Friedrich, por sua idealização da natureza, pelo sublime evocado por suas montanhas. A relação entre primeiro plano e sertão é, contudo, recíproca. Caso enunciássemos de fato o sertão como uma espécie de fantasmagoria pós-moderna, por certo veríamos a paisagem de Friedrich de um modo diferente.


Poderia dar muitos exemplos de tais horizontes. Nem sempre têm natureza pictórica -visual -, embora, ao menos na cultura euro-americana, o visual esteja intimamente ligado ao imaginário e à imaginação. Aqui, desejo salientar que o escopo dos horizontes imaginários não é limitado apenas por nossas capacidades psicológicas ou por nossas convenções estéticas, mas também por arranjos socioeconômicos, políticos e culturais. Embora relute em dar exemplos dessas influências, por serem altamente complexas e operarem tanto indireta como diretamente, darei dois breves exemplos de pesquisas de campo que conduzi entre fundamentalistas cristãos nos Estados Unidos3 e entre os Harki, aqueles argelinos que tomaram o partido dos franceses na guerra pela independência da Argélia. Desejo salientar aqui o estilo mais que a causa. Como é sabido, os fundamentalistas cristãos esposam uma forte hermenêutica literalista. Como cada palavra da Bíblia é inerrante, eles acreditam que devem ser o mais fiel possível ao sentido literal delas - ao sentido "próprio". Qualquer desvio desse sentido, ou seja, qualquer interpretação figurativa (a menos que a figuração, como tal, esteja marcada com clareza no texto) é perigosa, pois se corre o risco de sacrificar o sentido de Deus pelo de algum intérprete. Os fundamentalistas preocupam-se com o que chamam, à boa moda vitoriana, imaginação depravada. A hermenêutica, como a oração, o auto-exame e a aplicação da Bíblia à vida cotidiana, é uma disciplina criada, entre outras coisas, para controlar a imaginação e a propensão desta para a interpretação alegórica e figurativa. Como cada palavra na Bíblia, segundo a vêm, é inspirada por Deus e, por isso, ligada de modo indelével a todas as outras palavras, qualquer desvio do sentido - do sentido literal - da palavra arrisca pôr abaixo toda a compreensão fundamentalista das Escrituras. Seus horizontes estão contidos no interior desse rígido arcabouço hermenêutico. Como isso se relaciona à vida atual nos Estados Unidos, trata-se, claro, de especulação. Sem dúvida, é possível relacionar essa hermenêutica rígida a uma necessidade de estruturação em um mundo ameaçado pelas incertezas inerentes à sociedade capitalista e pela brutalidade relativa do cotidiano, mas, como sugeri, se este for realmente o caso, o nexo causal não é, de modo algum, direto. É mediado, por exemplo, por uma tradição religiosa duradoura que antecede o capitalismo como o conhecemos - uma tradição que enfatiza a salvação pessoal e uma intensa relação pessoal com Deus, ao menos com uma das manifestações Dele, Jesus. Pode-se relacioná-la também ao individualismo - ao individualismo muitas vezes aterrador e contestado promovido pelo capitalismo. Não sei. Prefiro reconhecer a impossibilidade de determinação sem explicitá-la com açodamento e concentrar-me no estilo.
Meu segundo exemplo se refere aos Harki, os argelinos que tomaram o partido dos franceses na guerra pela independência da Argélia. Quando se conquistou finalmente a independência, em 1962, entre 100 e 150 mil dos, no máximo, 250 mil Harki foram mutilados e massacrados pela população argelina em geral. Embora De Gaulle tenha feito de tudo para desencorajar a emigração dos Harki para a França, cerca de 20 mil famílias harki conseguiram fazê-lo e foram encarceradas em campos de prisioneiros por até 16 anos. Sem dúvida, ambivalentes quanto à posição política, traídos e abandonados, do ponto de vista deles, pelos franceses, incapazes de retornarem à Argélia, os Harki são uma população à part - agora, uma população espalhada pela França e estendendo-se pela terceira geração, unida por traumas coletivizados ao longo das gerações, que são reiterados em histórias ou reconhecidos silenciosamente. Esses traumas - esse trauma (pois, coletivizado, se tornou singular) - tornam-se um ponto de referência básico que, gostaria de indicar, restringe as possibilidades imaginativas dos Harki - uma restrição que, sem dúvida, se correlaciona com o status marginalizado deles na França. Cada adversidade é reportada aos maus-tratos que sofreram, que, por reais que tenham sido e sejam, não são, de modo algum, cabais.


Passo agora à segunda parte deste artigo. Em certo sentido, ela decorre diretamente de meu interesse pelo horizonte imaginativo, pois é uma tentativa de inaugurar uma via para pensar sobre a contigüidade, a metonímia e a montagem. Interessa-me especialmente a montagem - conforme a entendo, a justaposição, às vezes arbitrária, às vezes inusual, de dois ou mais itens, elementos, imagens ou representações que chama atenção para aspectos desses itens que estavam escondidos ou eram ignorados. Montagens inusuais podem produzir surpresa ou choque, iluminações repentinas, epifanias ou insights e, por isso, podem ser retóricas, estéticas ou terapeuticamente efetivas. Podem ser transgressivas, inquietantes, perigosas e iconoclastas. O significado que atribuímos às justaposições, claro, é determinado, consciente ou inconscientemente, pelo discurso. Produzindo ansiedade interpretativa, as montagens exigem uma firmeza interpretativa -uma tradução, por exemplo, a um paradigma familiar que produza contentamento. Devo observar, entre parênteses, que a montagem é intrínseca à etnografia, pois o antropólogo conjuga elementos de duas culturas - a cultura em estudo e a cultura de referência. Assim, há uma dimensão iconoclasta importante para a etnografia que é (em meu ponto de vista, infelizmente) reduzida pela etnologia - pela descrição tornada convencional, pela interpretação autorizada, pela explicação científica. Não estou negando agora o valor da interpretação ou da explicação (embora questione o da descrição convencional). Desejo simplesmente indicar-lhes um efeito secundário inevitável, que exige reconhecimento crítico.


Agora, desejo demonstrar que, ao menos na cultura euro-americana, tendemos a enfatizar antes os elementos que compõem uma relação, incluindo a montagem, do que a própria relação - o aquém e além, o intersticial. É por demais óbvio que elementos compositivos e relações são mutuamente determinantes. E, decerto, não quero envolver-me em uma discussão do tipo quem-veio-primeiro-o-ovo-ou-a-galinha. O que desejo salientar é que em determinadas sociedades, ao menos em alguns de seus domínios, enfatiza-se a própria relação e o modo pelo qual esta formula e define os elementos que a compõem. Tal ênfase - chame-se estilo cognitivo ou perceptivo - afeta não apenas a estética e outras formulações teóricas, mas também é refletida e reflete outros elementos culturais e suas relações sintáticas. Que na cultura euro-americana ao entre preferimos os elementos que o balizam - à relação preferimos os termos que a constituem - pode relacionar-se, por exemplo, à prioridade que damos à palavra - o nome e - ao referente em nossa concepção (popular) de linguagem. Concentramo-nos em categorias e sistemas classificatórios baseados nessas categorias, em vez de em sistemas determinados pela relação e pela sintaxe. Acentuamos a coesão e moderamos a elipse, a interrupcão e a pausa. De modo geral, não lemos em função do silêncio e do não dito. Muitas vezes, choco meus alunos quando peço que considerem um romance como The Awakening [O despertar], de Kate Chopin, ou algum de Clarice Lispector, sob o aspecto das lacunas entre os capítulos, com efeito, entre os parágrafos e as frases.


Não creio que os japoneses ficassem tão chocados quanto meus alunos norte-americanos. A estética (tradicional) daqueles, profundamente enraizada em sua perspectiva religiosa, enfatiza o intervalo, a lacuna, o silêncio, o entre e o em meio a. No verso encadeado japonês (renga), por exemplo, o efeito estético resulta menos das cenas descritas que do espaço-tempo entre os versos encadeados (Ebersole, 1983, p. 55). "Concentre-se no que não é dito", disse Shinkei (1406-1475), o poeta (Kamparu, 1983, p. 74). Zeami Motokyio (1363-1443), o fundador do teatro nô, afirmou que "os momentos de inação" (sensu tokoro), ocorridos entre (himu), são os mais deliciosos do teatro nô (Pilgrim, 1995, p. 58). "O que o ator não faz tem interesse" (sennu tokoro ga omoshiroki) (Komparu, 1983, p. 73).


Os japoneses chamam esses espaços ou tempos intersticiais de ma. Diz-se que o ma vem do chinês, o caractere que mostra o sol no meio de portão aberto. Originalmente, era usado unicamente para referir-se a espaço mas passou a designar igualmente o tempo. Pode ser traduzido por "espaço, epaçamento, intervalo, lacuna, vão, lugar, interrupção, pausa, tempo, ocasião ou abertura" (Komparu, 1983, p. 70). Tem conotações tanto abstratas como concretas. Um lugar é ma porque é um espaço entre paredes; em música, uma pausa também é ma, porque ocorre entre duas notas (Pilgrim, 1995, p. 56). Roland Barthes (1982) tentou - de um modo por demais afetado e profundamente francês (e, por isso, etnocêntrico) - delinear o ma em sua interpretação pós-estruturalista do Japão. Ele utiliza expressões como "o nada pregnante", "uma reminiscência desmembrada, descentrada, deslocada", um "signo vazio remanescente da fissura do simbólico" para evocar algo que ele não nomeia. Artistas, acadêmicos e arquitetos japoneses defendem que o termo resiste à tradução. Salientam-lhe a ambigüidade, o fato de que, para ser compreendido, se deve levar em conta uma configuração de espaço e tempo, que não podem ser separados um do outro, unicamente japonesa e uma concepção de energia ou poder espiritual (ki_ ou chi) que ressoa no interior do espaço-tempo, entre e em meio a. Ele é um cronotopo negativo - um silêncio, um vazio -, não obstante fecundo, que antecipa (e é antecipado por) o espaço-tempo positivo da ação em, digamos, uma peça nô (Komparu, 1983). Ma refere-se, simultaneamente, a algo e a experiência desse algo. Não é objetivo nem subjetivo, mas uma coalescência dos dois, pois, visto que o ma desconstrói todos os limites, ele tem (suponho) de eliminar aqueles existentes entre o objetivo e o subjetivo.


Motokiyo observa que é o kokoro - a força espiritual subjacente do ator nô - que produz o deleite da platéia em "momentos de inação". O ator "não relaxa a tensão quando a dança ou o canto chegam ao fim ou em intervalos entre (hima) o diálogo e os diferentes tipos de mímica". Ele conserva sua "firme vontade interior (naishin)", mas não deve torná-la aparente, o que equivaleria a agir e, portanto, deixaria de ser inação (Pilgrim, 1995, p. 58-59). Quero destacar uma espécie de relação chame-se suspense ou tensão dramática - que não se presta a uma análise coloquial. Depende sobremaneira de pausas e silêncios; que fogem à mensuração. Há diferentes silêncios, diferentes pausas; diferentes atitudes em relação a eles. Têm valor qualitativo.


Embora voltadas para palavras, coisas e eventos, para notas musicais, nossas interpretações, seja de um ator representando o papel de Rei Lear ou de um pianista executando uma sonata de Haydn, necessariamente, devem considerar o espaço - o silêncio - entre palavras e notas. Permitimos que essas interpretações ficassem privadas de teorização, o que, em uma época excessivamente teorizada como a nossa, por certo, deve ser tomado como um sintoma de nossa perspectiva epistêmica e de seus efeitos sobre a atenção, ou mesmo sobre a percepção. Deixamos esse - silêncio , que pode ser de tamanha importância hermenêutica, à arte da interpretação. Reconhecemos, claro, a importância do silêncio na interlocução, que é interpretado primordialmente, creio, em termos psicológicos e, apenas de modo secundário, em termos estéticos (salvo quando tratamos de uma comunicação moldada para a apreciação estética, claro). Como o psicanalista, embora de modo menos consciente, observamos os silêncios, as pausas das pessoas com quem conversamos. Nós os lemos como sinais de estados interiores - medo, culpa, constrangimento, vergonha - e, com muita freqüência, como revelações involuntárias do que se procura ocultar. Em épocas de espírito mais retórico, como na Grécia e Roma antigas, o silêncio foi reconhecido e cultivado como uma figura retórica sob total controle do orador.


Lembro-me de passar horas com meu amigo e mentor marroquino Moulay Abedslem, um velho analfabeto de grande sabedoria espiritual que fazia mortalhas e lavava corpos, discutindo o barzakh - o que está situado entre as coisas, entre as bordas, as divisas e os eventos. Ele o equiparava ao silêncio entre as palavras e aos sonhos. "O sonho está entre a vigília e o sono", disse. Barzakhi é o âmago da filosofia do grande sufi andaluz Ibn al-'Arabi (1165-1240) (ver Chittick, 1989; Corbin, 1958). Moulay Abedslem ouvira falar dele, mas não tinha conhecimento preciso de seu pensamento e certamente não relacionava a própria compreensão do barzakhi à de al-'Arabi. Para este, a imaginação (al-khayal) é um termo intermediário que resiste à definição. Em alguns momentos, parece estar entre o mundo espiritual e o material; em outros, entre o ser e o nada, como algo equivalente à existência. O importante é que a imaginação é uma "realidade" intermediária, ambígüa por natureza e melhor descrita como "nem isso nem aquilo ou tanto isso quanto aquilo". É barzakh, que al-'Arabi descreve como:


Algo que separa [fâsil] duas outras coisas, sem nunca pender para um lado [mutatarrif], como, por exemplo, a linha que separa a sombra da luz do sol... O barzakhi é algo que separa o conhecido do desconhecido, o existente do inexistente, o negado do afirmado, o inteligível do ininteligível. (Chittick, 1989, p. 117-18)


Ele tem grande poder. É um termo inteligível, o filósofo sufi nos diz, mas é apenas imaginação. Ele insiste na transitoriedade - as mutações contínuas - da realidade mediadora da imaginação, ou seja, o que Vincent Crapanzano. Horizontes imaginativos e o aquém e além normalmente tomamos pela realidade cotidiana, o mundo como o conhecemos. Ibn al-'Arabi não desenvolve, contudo, uma estética fundada no entre, como os japoneses fizeram. Adotou uma atitude marota em relação ao barzakh, ao mesmo tempo, jocosa e imensamente séria, o que é inteiramente estranho à variante japonesa de ma. Essa atitute permitiu-lhe trazer à baila o artifício do mundo como o conhecia - presunção humana. Para o filósofo sufi, barzakhi, o jogo retórico que oferece, possibilitou-lhe insinuar outra realidade - outras realidades - a que, mediante disciplina mística ao menos, tem-se aceso.


Esforcei-me em descrever diferentes atitudes com respeito ao entre, pois, embora nossa perspectiva epistêmica peculiar tenda a ignorá-lo, ele é na realidade uma "arena" de singular importância social, cultural e psicológica. Ficamos ansiosos, como insistem os existencialistas, perante qualquer indício do não-ser. Podemos ignorá-lo; podemos evitá-lo; podemos ocultá-lo. Podemos enunciá-lo tangencialmente. Também podemos conceber o não-ser esteticamente, como os japoneses fazem com o ma, atribuindo-lhe, assim, valor positivo; ou podemos jogar com ele retoricamente, como Ibn al-'Arabi faz com o barzakh, para evocar a dimensão imaginária - sempre, de algum modo, uma negação - do que tomamos por realidade. Concentramo-nos, como insiste Heidegger (1979, p. 340), no que é, sem levar em conta o fato de o Nada ser um tipo de pano de fundo projetivo para o que é: "o Nada é o que torna possível a revelação de nossa existência humana como ela é". Não desejo, aqui, discutir a noção heideggeriana do Nada, apenas observar que o suspense - estar em suspensão, pender, flutuar, pairar, ascender, scwebwen - é um componente essencial do terror que revela o Nada. "Aterrorizados, ficamos em 'suspense' (wir schweben)" (Heidegger, 1979, p. 336). Quero salientar o suspense - o risco - da passagem. Desejo sugerir que em todas essas travessias há sempre um momento, assintótico, que está simultaneamente dentro e fora do tempo e do espaço, como normalmente os conhecemos. São fundamentais à vida social, aos seus procedimentos mais básicos: troca, passagem, reprodução e transformação.



Victor Turner

Estou interessado, portanto, nos perigos de atravessar o limiar - o limen - e, para utilizar as palavras do antropólogo Victor Turner (1969, 1974), os estados liminares que estão associados a essa travessia. Ibn al-'Arabi iria chamá-los de barzakh, mas daria ao termo um sentido epistêmico que Turner, dada sua epistemologia, não pode. O modelo de Turner é basicamente o modelo tripartite do rite de passage de Van Gennep (1960): separação, margem e incorporação. Ele e outros ampliaram o modelo dos ritos concernentes a crises na vida de um indivíduo para aqueles da sociedade como um todo. Estes incluiriam ritos preparatórios para a guerra, cerimônias de primeira frutificação, colheita e chuva, que marcam a passagem da escassez para a abundância, e rituais de posse, como coroações, que, embora centrados em um indivíduo, são eminentemente sociais na orientação e nos efeitos. Turner (1974, cap. 1) amplia mais ainda o modelo, aplicando-o a períodos de reparação de conflitos sociais, que chama de dramas sociais. O centro de sua atenção é a liminaridade - a margem - , que considera uma "situação interestrutural" e é entendida como processo e devir. Julga o aquecimento da água até a fervura, ou a modificação de uma pupa de lagarta em mariposa "analogias apropriadas" de transição e transformação. Não está particularmente interessado em pontuar o liminar - em suas disjunções internas - e em como este efetua e é afetado pelo momento final, definidor, da transição.4



Ao contrário de Turner, quero atentar nas disjunções rituais, sociais e culturais e no momento, que cada vez mais se reduz mas nunca desaparece por completo, da diferença que resiste à enunciação. Eles são apenas executados e geralmente ignorados, embora possam ser exibidos em rituais dilatados e repetitivos, no drama, na literatura e na música. São os momentos definidores dos ritos de passagem, das cerimônias de cura, das investiduras de poder e autoridade sagradas e seculares e transições corriqueiras de um registro experiencial, por exemplo, a vigília, a outro, por exemplo, o sonho, o transe ou o simples adormecer. São arriscados e, às vezes, perigosos, embora o perigo e o risco que acarretam sejam em regra limitados pela convenção, repetição e sanção. Podem marcar uma mudança de status dos participantes; muitas vezes, envolvem a troca de objetos, reais ou simbólicos, que pairam "despossuídos" por um instante. Com efeito, há, em qualquer troca, um momento disjuntivo no qual o objeto não é dado nem recebido e em que os participantes ainda não são doadores nem receptores. Há sempre o risco de desistência e a conseqüente ruptura da relação. E há momentos, os mais dramáticos de todos, em que os participantes são apanhados em um entre que não podem sequer definir - em que não há travessia.


Na maioria das vezes, os momentos que desafiam a enunciação permanecem um paradoxo: para cada travessia, há sempre um momento em que não se está num lado nem de outro, em que não se é o que era nem o que será; pois, uma vez que são discriminados, o contígüo nunca os atinge. Fica-se em suspensão - pairando eternamente de permeio. (Talvez por isso os japoneses imaginam a si mesmos como preenchidos de energia.) Tome-se o casamento, por exemplo. Há sempre o mais breve dos momentos, quando não se é mais solteiro e tampouco se é casado ainda. Um casal está diante do altar, um sacerdote está prestes a declará-los marido e mulher, mas ainda não o fez ou apenas proferiu as primeiras palavras da declaração. O casal ainda está solteiro? Embora, tecnicamente, não estejam casados, hesitaríamos em dizer que ainda são solteiros. De modo mais extremo, mais absurdo: o sacerdote declarou-os marido e mulher, mas eles (ou as testemunhas) ainda não ouviram - ou escutaram - as palavras. Ainda são solteiros? Casados? A mudança de status é instantânea; ou seja, ela ocorre em um instante e, nesse instante, sempre há um risco. Ainda que breve, sempre há a possibilidade de a noiva ou o noivo fugir; o sacerdote parar; uma testemunha morrer; um dos convidados levantar uma objeção. Essa é a substância do melodrama, mas ela reflete o suspense e o risco de qualquer transição social. (Descobri que a maioria das pessoas - incusive eu mesmo - não é capaz de recordar tais momentos.)


Turner (1967, p. 96) relaciona os símbolos de morte, decomposição e menstruação (muitas vezes, tida como a perda de um feto), que são com freqüência vinculados aos iniciados, ao fato de estes não serem mais classificados. Estruturalmente "mortos", podem ser tratados como cadáveres; denegridos; sepultados; obrigados a deitar, imóveis, na posição habitual dos defuntos, e forçados a viver "com mascarados monstruosos que representam, inter alia, os mortos, ou, pior ainda, os mortos-vivos". Por não estarem ainda classificados, associam-se os neófitos a símbolos de gestação e parto. Podem ser tratados como embriões, neonatos ou crianças de peito. Os dois conjuntos de símbolos, diria, são inextricáveis, ocultam ao revelar, revelam ao ocultar o momento de transição que resiste a ser enunciado. Paradoxalmente, é o simbolismo do nascimento e do renascimento que media a transição, na maioria das vezes, e encobre a disjunção, por sua vez, exposta pela imbricação do simbolismo da morte e do nascimento. Porquanto o nascimento media a oposição entre nascimento e morte, as cartas são sempre embaralhadas em favor dele - da afirmação do ser sobre a não-ser, da continuidade sobre a descontinuidade.


O que há de interessante nesses momentos de transição é que sua liminaridade de vida curta está muitas vezes encravada na liminaridade dilatada, em que a transição final é, como foi, ensaiada em uma série de minitransições: as provas, testes e provações das cerimônias de puberdade, por exemplo. Caracterizam-se por múltiplas repetições em vários registros. Turner descreveu essas longas passagens e, embora reconhecesse sua qualidade dramática, em meu juízo, não avaliou plenamente o modo como elas atingem o clímax, o momento da passagem que, em essência, não pode ser enunciado. Ele tendeu, em suas generalizações sobre a liminaridade, como antiestrutura e communitas, a achatá-lo. Freud, sem dúvida, teria visto essas travessias cada vez mais dramáticas como um modo de dominar a ansiedade. Lévi-Strauss talvez as visse como um modo de reduzir a lacuna entre os dois lados da travessia. Eu quero salientar o perigo, a ansiedade e o terror que evocam. Eles, de maneira inconsciente, chamaram atenção para o artifício de nossa compreensão social e cultural ao exporem esses momentos refratários, que escapam a - e correm o risco de destruir - aquela compreensão e suas exigências de coesão e continuidade. Podemos descrever tais momentos com a expressão horror vacui,5 com a qual Nietzsche (1967) caracterizou o momento dionisíaco da tragédia grega; ou "abismo" - l'abîme -, tão popular na poesia simbolista francesa; ou não-ser. Mas devemos fazê-lo com cuidado, pois elas refletem, como insiste Derrida, nossa insistente ontologia da presença - uma ontologia que, apesar de suas pretensões universalistas, de modo algum é compartilhada universalmente.
O liminar foi muitas vezes equiparado ao sonho - ao processo primário de pensamento. Ele sugere possibilidades imaginativas que, não necessariamente, estão ao nosso dispor no cotidiano. Por meio de paradoxo, ambigüidade, contradição; de símbolos incomuns, exagerados e, por vezes, grotescos - máscaras, indumentária, estatuetas -; e pela evocação de realidades transcendentes, do mistério e de poderes sobrenaturais, o liminar nos oferece uma visão do mundo, que normalmente não enxergamos, cegados pelas estruturas usuais da vida social e cultural. Turner cita o místico alemão Jakob Böhme: "Em incerteza todas as coisas consistem". Devemos citar igualmente al-'Arabi ou um sem-número de outros místicos que chamam atenção para os paradoxos de nossa compreensão. Turner escreve:


A liminaridade talvez possa ser considerada como o Não de todas as asserções estruturais positivas, mas, em certo sentido, a fonte de todas elas e, mais do que isso, como um reino de pura possibilidade, de onde novas configurações de idéias e relações podem surgir. (1967, p. 97)
Sim, queremos dizer - tamanho é o ethos de nossa criatividade -, mas devemos reconhecer que o liminar também impõe constrangimentos. Ele não é sem estrutura, como Turner algumas vezes afirma, mas, como sustenta em outras, é antiestrutural, ou seja, conforme entendo, sempre está em relação com a estrutura do cotidiano. O liminar pode estimular a invenção, mas, ainda que pela negação, também afirma a tradição.


À guisa de conclusão, quero destacar um paradoxo no modo como compreendemos o liminar, quanto à imaginação. Se tomamos a imaginação, como fazem Sartre e, à sua maneira, Ibn al-'Arab, como algo que apresenta o que está ausente ou é inexistente, somos obrigados a concluir que expomos essas lacunas, esses momentos disjuntivos do não-ser, que pontuam nossa vida social e cultural, por meio de um atividade que permanece no não-ser de seu objeto - a imagem. A imaginação também nos fornece o brilho, os dispositivos retóricos, as manobras narrativas e as estratégias rituais que ocultam essas lacunas. Expomos o não-ser, como era, por meio de um ato que postula o não-ser, assim como ocultamos esse não-ser por um não-ser que declaramos, ao menos no ritual, ter completude - plenitude. Que é mais "real" que os objetos rituais? Turner poderia chamá-los sacerrima. É a esse paradoxo que se deve a contínua (ainda que repetitiva) elaboração, no ritual e no drama, na literatura e na arte, especialmente e do modo mais puro, na música, do momento assintótico de passagem, que torna as fronteiras imaginativas tão ameaçadoras quanto fascinantes e encantadoras para nós? Tal subterfúgio, se pode ser chamado assim, é uma fonte de nossa inegável criatividade social e cultural - ou de sua extinção - por meio da repetição e de sua proclamação como verdade última.

Notas


1 Este artigo, em boa medida, baseia-se nos dois primeiros capítulos de meu novo livro, Imaginative Horizons: An Essay in Literary-Philosophical Anthropology (2004).


2 N. do T.: O autor emprega a expressão betwixt and between - traduzida geralmente por "nem uma coisa nem outra" e que denota estado ou natureza ambígua, indeterminada -, em referência ao ensaio de Victor Turner "Betwixt and Between: The Liminal Period in rites de passage" (in Turner, 1967). Este a utiliza para caracterizar a condição dos indivíduos que, nos ritos de passagem, encontram-se no "estado de transição" ou liminaridade: "Entidades liminares não estão cá nem lá; estão aquém e além [betwixt and between] das posições designadas e dispostas por lei, costume, convenção e cerimonial" (Turner, 1969, p. 95). O tradutor valeu-se de leitura e comentários dos professores Rose Satiko Hikiji e John Dawsey, a quem agradece.


3 Ver Crapanzano (2000) para uma discussão pormenorizada da hermenêutica do fundamentalismo cristão.


4 Ver Crapanzano (1992, p. 260-80) para uma discussão das disjunções intra e extra-ritual. Ver também Taussig (1987, p. 441 ss).


5 N. do T.: Literalmente, horror ao vácuo.



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(Tradução de André Pinto Pacheco)

ABSTRACT


In this paper, the author develops the notions of imaginative horizons as well as of betwixt and between, liminality and crossing; grounded on them, he propounds an anthropology of the imagination. Despite considering fuzziness, shadowiness as a necessary component of all experience, thought and perception, he focuses on ignored dimensions of reality. Examining the interstitial spaces and times (ma) in traditional Japanese aesthetics or the notion of barzakh in Sufi mysticism, the author stresses different conceptions of the between. Finally, through a rereading of Victor Turner's theorization of the liminal, he calls in question our presuppositions about the nature of relations.
Key-words: Anthropology of the imagination, imaginative horizons, liminality, experience, Victor Turner.
(Fonte: Rev. Antropol. v.48 n.1 São Paulo jan./jun. 2005)
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Comentário de u.s.w. (12/01/2008)
Viver é muito perigoso”.
Por que? Por que em toda sua matutice Riobaldo afirma que viver é perigoso?
Se o mundo é o sertão e viver é fazer a travessia de suas veredas. Se o sertão é a fronteira do imaginário; “terra de pura possibilidade, de desejo e medo”. Então viver é sempre perigoso.
Mas o sertão não é o não-ser, o sertão é o mundo antes que eu comece a lhe dar nomes. O sertão é o laranja e o azul que sinto entrar pela minha janela toda manhã de sol, antes de chamá-lo azul e laranja, antes de sabê-lo que não são azul e laranja, mas céu e concreto, que sequer o laranja existe, mas só o concreto cinza, antes de saber que o laranja é só o reflexo do sol se levantando. Esse mundo fugaz em que nada tem nome é um mundo de possibilidades infinitas, só aí pode nascer o amor. Só o sertão pode me fazer amar Diadorim, que não sei o que é, não sei chamar, só sei sentir. Todo amor se instala aí, no sertão. Quando aprendermos, como Riobaldo (que foi capaz de amar Diadorim sem sabê-lo ou dizê-lo), que o sertão é o mundo, e que portanto no mundo é que se instala o amor, então poderemos viver, no perigo, mas viver.