quinta-feira, 25 de outubro de 2007

RESPIRAÇÃO HOLOTRÓPICA NO PROCESSO XAMÂNICO

A respiração holotrópica é uma técnica respiratória que aumenta a quantidade de oxigenio no cerebro e, portanto, altera nossas ondas cerebrais como se tivessemos tomado LSD, e a parte boa é que provaca os mesmos efeitos...(a parte não tão boa é que não dá para fazer sozinho) Esta técnica foi desenvolvida por Stanislav Grof , psiquiatra húngaro radicado nos EUA. Abaixo uma entrevista bem interessante sobre o assunto.

Após anos de pesquisa clínica, com mais de 4.000 casos registrados de clientes tratados com LSD (a maioria em condições controladas de laboratório) e mais de 30.000 sessões de trabalho com a Respiração Holotrópica conduzidas com milhares de pessoas em todos os continentes do planeta, Stan Grof vem publicando através de seus 16 livros escritos, em várias línguas, o resultado de suas modernas pesquisas de consciência, que trazem sérias e profundas implicações para a Psiquiatria, para a Psicologia e para a Psicoterapia, pontuando, de forma sistemática e compreensiva, as áreas que requerem uma revisão radical, sugerindo a direção e a natureza das mudanças necessárias. Essa revisão das idéias básicas sobre a consciência e a psique humana, proposta por Stan Grof, traria mudanças a serem promovidas na nossa forma de pensar, incidindo em várias categorias tais como: a natureza da psique e as dimensões da consciência, a natureza e a arquitetura das desordens emocionais e psicossomáticas, os mecanismos terapêuticos eficazes, a estratégia da psicoterapia e da auto-exploração, o papel da espiritualidade na vida humana e a natureza da realidade: psique, cosmo e consciência.
(Álvaro Veiga Jardim)
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Esta entrevista foi concedida por Stanislav Grof, M.D., a Álvaro Veiga Jardim e Carmen Maciel, durante visita a Goiânia, GO, Brasil, no período entre 24 a 28 de Setembro de 2000. Neste período, o Dr. Grof deu uma palestra pública - "O Potencial de Cura dos Estados Incomuns de Consciência" - no Salão Tocantins do Castro's Park Hotel, onde se fizeram presentes mais de 400 pessoas prestigiando o evento, e, no Serro Park Hotel ele dirigiu a parte teórica do módulo "Arquitetura da Psicopatologia". Segue a entrevista no seu todo.

O que a Psicologia Transpessoal e o seu trabalho trouxeram para a psicologia como ciência?

O famoso psicólogo americano Abraham Maslow chamou Psicologia Transpessoal a Quarta Força em psicologia, que se seguiu ao Comportamentalismo, à Psicanálise Freudiana e à Psicologia Humanista. Na primeira metade do século, a psicologia americana e européia e a psiquiatria foram dominadas, exclusivamente, através do comportamentalismo e da psicanálise. A Psicologia Humanista, fundada por Abraham Maslow e Anthony Sutich, surgiu como uma reação às inadequações e limitações destas primeiras duas forças.

A Psicologia Humanista corrigiu a tendência do comportamentalismo em ignorar a consciência e a introspecção e formular teorias sobre a psique humana, exclusivamente, através de observações do comportamento, particularmente, em relação ao comportamento dos animais, tais como ratos e pombos. A Psicologia Humanista também enfatizou a necessidade de ir além da tendência da análise Freudiana de manipular todos os dados do estudo da psicopatologia e incluiu indivíduos normais e supernormais como assuntos de pesquisa.

O foco do estudo humanístico foram os valores humanos mais elevados e a tendência em perseguir os "metavalores" de Maslow e "metamotivações", lidando com o que Maslow chamou "auto-atualização" e "autorealização". A Psicologia Humanista também sustentou uma ampla abertura, para o desenvolvimento de uma nova forma revolucionária de psicoterapias, chamadas "terapias experienciais", tais como prática da Gestalt, bioenergética ou técnica de Alexander.

A Psicologia Transpessoal então adicionou, ainda, uma outra dimensão importante, que é o reconhecimento da espiritualidade, como um aspecto importante e legítimo da psique humana. Esta é uma diferença radical da psicologia acadêmica, que destitui a espiritualidade de alguma forma e de algum nível de sofisticação e a caracteriza como superstição, pensamento mágico primitivo, imaturidade emocional ou patologia. Um outro importante aspecto da Psicologia Transpessoal é que ela estuda o espectro inteiro da experiência humana, incluindo os estados incomuns de consciência, particularmente, várias formas de experiências místicas.

A Psicologia Transpessoal foi profundamente influenciada pelas experiências e observações dos estudos de estados incomuns de consciência, tais como aqueles que ocorrem durante práticas xamânicas, ritos aborígenes de passagem, os mistérios antigos de morte e renascimento, sessões psicodélicas e várias formas de práticas espirituais (incluindo diferentes escolas de yoga, Budismo, Taoísmo, Sufismo, misticismo Cristão, etc.). E aí é onde entra meu próprio trabalho.

Minha contribuição para a Psicologia Transpessoal, além de dar o nome "transpessoal", vem de quatro décadas de exploração sistemática do potencial terapêutico, transformativo e evolucionário dos estados incomuns de consciência. Fiquei aproximadamente a metade deste tempo conduzindo terapia com substâncias psicodélicas, primeiro na Tchecoeslováquia, no Instituto de Pesquisa Psiquiátrica, em Praga, e depois nos Estados Unidos, no Maryland Psychiatric Research Center, em Baltimore, onde participei do último programa sobrevivente de pesquisa psicodélica americana.

Desde 1975, trabalho com respiração holotrópica, um poderoso método de terapia e auto-exploração, que desenvolvi juntamente com minha esposa Christina. Através dos anos, também apoiei muitas pessoas passando por crises psico-espirituais ou "emergências espirituais", como Christina e eu as chamava. O denominador comum destas três situações é que elas envolviam estados incomuns de consciência ou, mais especificamente, uma importante subcategoria delas, que denominei holotrópico. Em terapia psicodélica, estes estados são induzidos pela administração de substâncias ou plantas, que alteram a mente. No trabalho com a respiração holotrópica, a consciência é mudada pela combinação de respiração mais rápida e profunda, música evocativa e liberação de energia, através de trabalho corporal. Em emergências espirituais, os estados holotrópicos ocorrem espontaneamente, no cotidiano e sua causa é usualmente desconhecida.

Somando-se a outras atividades, também tenho me envolvido, de modo mais periférico, com muitas disciplinas que são, mais ou menos diretamente, relacionadas ao estados incomuns de consciência. Tenho participado de cerimônias sagradas de culturas nativas em diferentes partes do mundo, tenho tido contato com xamãs norte-americanos, mexicanos e sul-americanos e troquei informações com muitos antropólogos. Também tenho tido intenso contato com representantes de várias disciplinas espirituais, incluindo o Budismo Vipassana, Zen, Vajrayana, Siddha Yoga, Tantra e a Ordem Cristã Beneditina.

Uma outra área que tenho dedicado bastante atenção tem sido a tanatologia, uma jovem disciplina que estuda experiências próximas da morte e aspectos psicológicos e espirituais da morte e do morrer. Eu participei no final dos anos 60 e no início dos anos 70 de um amplo projeto de pesquisa, estudando os efeitos da terapia psicodélica, em indivíduos terminais com câncer. Eu poderia também acrescentar que tenho tido o privilégio de conhecer pessoalmente e de ter tido experiências com alguns dos grandes físicos e parapsicólogos de nossa era, pioneiros de pesquisa da consciência em laboratório e terapeutas, que desenvolveram e praticaram formas poderosas de terapias experienciais, que induzem estados incomuns de consciência.

Após todos esses anos de estudo de várias formas de estados incomuns de consciência, eu concluo que as experiências e observações desse trabalho mostram uma urgente necessidade de uma revisão profunda do nosso pensamento em psiquiatria, psicologia e psicoterapia. A profundidade e alcance desta revisão poderia ser comparada com o que aconteceu na física nas primeiras três décadas do século XX - a mudança da física Newtoniana para a teoria da relatividade e então para a física quântica. Eu escrevi sobre estas implicações em meu último livro "Psicologia do Futuro: Lições de Pesquisa da Consciência Moderna".

Você e sua esposa desenvolveram um método de terapia de auto-exploração que denominaram trabalho com a respiração holotrópica. Você poderia descrevê-lo?

O trabalho com a respiração holotrópica é um método que utiliza o potencial transformativo e de cura dos estados incomuns de consciência. Ele induz esses estados através da combinação de meios muito simples - respiração acelerada, música evocativa e técnica de trabalho corporal, que ajudam a dissolver bloqueios residuais bioenergéticos e emocionais. Esse método provê acesso para muitos níveis profundos da psique inconsciente, tais como memórias reprimidas da infância e adolescência, nascimento e período perinatal e mesmo um espectro completo de experiências que denominamos transpessoal - estados místicos, experiências de vidas passadas, encontros com figuras arquetípicas, visitas aos domínios mitológicos da psique e outros. Nessa teoria e prática a respiração holotrópica traz junto e integra vários elementos das tradições antigas e aborígenes, filosofia espiritual oriental e psicologia profunda do ocidente.

Em quais casos o trabalho com a respiração holotrópica pode ajudar e quando não poderia trazer benefícios?

O trabalho com a respiração holotrópica não poderia influenciar problemas mentais e emocionais que têm claramente causa orgânica, de base biológica, tais como infecções cerebrais, processos cardiovasculares, degenerativos ou tóxicos. Ela tem também rigorosas contra-indicações, tais como problemas cardiovasculares sérios, doenças debilitantes, gravidez ou epilepsia. Em caso de sérios problemas emocionais, o trabalho com a respiração holotrópica pode ser utilizada no contexto de relacionamento terapêutico com cuidados residenciais disponíveis 24 horas/dia.

Olhando para o lado positivo, nós temos visto através dos anos numerosos exemplos de participantes nos workshops e nos treinamentos serem hábeis para saírem da depressão, que conviviam nos últimos anos, superarem várias fobias, libertarem a si próprias dos sentimentos irracionais que as consumia e radicalmente melhorarem sua auto-estima e autoconfiança. Temos também sido testemunhas, em muitas ocasiões, do desaparecimento de dores psicossomáticas severas, incluíndo enxaquecas e observamos melhoras radicais e duradouras ou mesmo completo desaparecimento da asma psicogênica. Em muitas ocasiões, participantes dos treinamentos ou de workshops comparam favoravelmente seus progressos em várias sessões de trabalho com a respiração holotrópica a anos de terapia verbal.

Quando falamos sobre avaliação da eficácia de formas poderosas de psicoterapia experiencial, tais como trabalho com psicodélicos ou respiração holotrópica é importante enfatisar certas diferenças fundamentais entre essas abordagens e as formas de terapias verbais. A psicoterapia verbal frequentemente se estende por um período de anos e o mais excitante resultado são raras exceções além do habitual. Quando ocorrem mudanças dos sintomas, elas ocorrem em uma ampla escala de tempo e é difícil provar sua conexão causal com eventos específicos relativos à terapia ou ao processo terapêutico em geral. Por comparação, em uma sessão psicodélica ou de trabalho com a respiração holotrópica, mudanças poderosas podem ocorrer no período de poucas horas e elas podem estar ligadas de forma convincente à experiência específica.

As mudanças observadas na terapia holotrópica não estão limitadas para as condições tradicionalmente consideradas emocionais ou psicossomáticas. Em muitos casos, as sessões de trabalho com a respiração holotrópica levam a um aumento dramático das condições físicas que nos manuais médicos são descritos como doenças orgânicas. Ocorrem mudanças de melhora nas infecções crônicas (sinusite, faringite, bronquite e sistite) após desbloqueio bioenergético, abrindo a circulação sanguínea nas áreas correspondentes. Fica inexplicado para os nossos dias a solidificação de ossos em uma mulher com osteoporose, que ocorreu no treinamento do trabalho com a respiração holotrópica.

Nós temos visto também a reconstituição de toda a circulação periférica em várias pessoas sofrendo de doença de Raynaud, um distúrbio que envolve frieza das mãos e pés acompanhadas pela mudança distrófica da pele. Em várias ocasiões, o trabalho com a respiração holotrópica leva a notável melhoria da artrite. Em todos esses casos, o fator crítico que conduz a cura parece ser a liberação de excessivos bloqueios bioenergéticos na parte afetada do corpo, seguida de vasodilatação. A mais espantosa observação nessa categoria foi a dramática remissão de sintomas avançados de arterite Takayasu, uma doença de etiologia desconhecida, caracterizada pela oclusão progressiva das artérias na mais alta parte do corpo. Sua condição é usualmente considerada progressiva, incurável e potencialmente letal.

Em poucas ocasiões, o potencial terapêutico da respiração holotrópica foi confirmado em estudos clínicos conduzidos por praticantes que tinham sido treinados por nós e que de forma independente usam este método em seus trabalhos. Temos também tido, em muitas ocasiões, a oportunidade de receber feedback informal de pessoas, anos após a melhora ou desaparecimento de seus sintomas emocionais, psicossomáticos e físicos, após sessões de trabalho com a respiração holotrópica em nosso treinamento ou em nossos workshops. Isto tem nos mostrado que as melhoras advindas das sessões de trabalho com a respiração holotrópica são frequentemente duradouras. É previsto que a eficácia deste método interessante de terapia e auto-exploração será no futuro confirmado pela pela bem desenvolvida pesquisa clínica.

Qual tem sido o impacto de suas idéias no meio científico?

Meu trabalho tem sido recebido de forma muito entusiástica em certos círculos científicos. Surpreendentemente, as primeiras respostas positivas vieram principalmente dos físicos quântico-relativistas, de pessoas como Fritjof Capra, Fred Wolf, Saul Paul Siraq, Nick Herbert, David Bohm e mais recentemente Amit Goswami. Esses cientistas são conhecedores do fato que a velha filosofia materialista monística e a imagem Cartesiana Newtoniana do universo da ciência acadêmica dominante estão irremediavelmente fora de época.

Minhas idéias têm também sido muito positivamente aceitas pelos cientistas de vanguarda, representantes de várias outras disciplinas do novo paradigma - biologia, abordagem holográfica do cérebro, teorias de sistemas, tanatologia, parapsicologia, etc. A maior resistência vem do círculos acadêmicos que são geralmente fechados para todas essas novas correntes na ciência. Muitos cientistas tradicionais perseveram em paradigmas superados de modo que pode ser melhor chamado "cientificismo" do que ciência. Suas atitudes parecem abordagens fundamentalistas utilizadas em religiões; eles já maquiaram suas mentes sobre o que o mundo parece ser e são completamente inacessíveis às evidências de qualquer espécie ou alcance.

Existe algo muito estimulante descoberto pelas pessoas do movimento transpessoal. Nas últimas várias décadas, sempre que ocorria algum avanço científico, ele sempre provou ser uma surpresa chocante para os representantes do velho pensamento, mas tem sido bem-vindo e abraçado pelos psicólogos transpessoais como compatíveis com suas próprias descobertas. Isto aconteceu com as implicações filosóficas dos físicos quântico-relativistas, com o modelo holográfico do cérebro de Karl Pribram, com a teoria do holomovimento de David Bohm, com a teoria das estruturas dissipativas de Ilya Prigogine, com o conceito de campos morfogenéticos de Rupert Sheldrake, com o campo psi de Ervin Laszlo e muitos outros. Se esta tendência continuar, em pouco tempo os novos pensamentos poderiam ganhar suficiente sustentação. Eu certamente espero que aconteça, antes que seja tarde demais. Pode ser nossa única real esperança na crise que vivemos em nosso mundo conturbado.

Porque você atribui atenção especial aos temas espirituais em seu trabalho?

Minha pesquisa da consciência tem me convencido que a espiritualidade é não somente uma muito real e legítima dimensão da psique humana e da ordem universal, mas também uma dimensão de importância crítica. Em seu livro "The Natural Mind", Andrew Weil, um bem conhecido médico americano, expressou a opinião que a necessidade de viver uma experiência mística é a mais poderosa condutora da psique humana, muito mais poderosa que a sexualidade, que tem sido tão fortemente enfatizada pelos psicanalistas freudianos.

E eu não posso concordar mais. Acredito que essa atitude corrente, em direção à espiritualidade, descobriu um sério e trágico erro na ciência materialista de hoje e na psicologia moderna. A civilização industrial ocidental está pagando um pesado preço por ter rejeitado e perdido a genuína espiritualidade. Acredito na probabilidade de que este fator é uma das principais razões da crise global de hoje; o ateísmo, formado pela ciência materialista, contribui, de modo significante, para que a humanidade moderna siga um curso destrutivo e suicida.

Há algum modo científico para abordar a espiritualidade?

Isso é exatamente o que a psicologia transpessoal está tentando fazer - mostrar que a ciência e espiritualidade não são incompatíveis, mas são duas abordagens complementares para a compreensão da realidade. A Psicologia Transpessoal é uma disciplina que integra a ciência e espiritualidade, filosofia oriental e pragmatismo ocidental, antiga sabedoria e ciência moderna. Mas para sermos hábeis para fazer isso, temos que diferenciar claramente espiritualidade de religião e ciência de cientificismo.

A espiritualidade está baseada em experiências diretas de dimensões e aspectos incomuns da realidade. Ela não requer um lugar especial ou uma pessoa designada oficialmente para mediar contato com o divino. Os místicos não necessitam igrejas ou templos. O contexto no qual eles experienciam a dimensão sagrada da realidade, incluindo sua própria divindade, são os seus corpos e a natureza. E ao invés de ordenar padres, eles necessitam de um grupo de apoio de colegas buscadores ou a orientação de um professor, que está mais avançado na jornada interna do que estão eles próprios. A espiritualidade envolve um tipo especial de relacionamento entre o indivíduo e o cosmos e é, em essência, um caso privativo e pessoal.

Por comparação, a religião organizada é uma institucionalizada atividade de grupo que tem lugar em um local designado, um templo ou uma igreja e envolve um sistema de oficiais marcados que pensam ou não ter tido experiências pessoais de realidades espirituais. Uma vez organizada a religião, frequentemente, perde completamente a conexão com a fonte espiritual e torna-se uma instituição secular, que explora as necessidades espirituais humanas, sem satisfazê-las.

As religiões organizadas tendem a criar sistemas hierárquicos, focando sobre perseguição de poder, controle, políticos, dinheiro, possessões e outras preocupações seculares. Sob essas circunstâncias, as hierarquias religiosas, como regra, discordam e desencorajam experiências espirituais diretas para seus membros, porque eles criam independência e não podem ser controlados efetivamente. Quando esse é o caso, a genuína vida espiritual continua somente no ramo místico, ordens monásticas e seitas extáticas das religiões envolvidas.

Não há dúvida de que os dogmas das religiões organizadas estão geralmente em conflito com a ciência, se essa ciência usa o modelo materialista-mecanicista ou está ancorado no paradigma emergente. No entanto, a situação é muito diferente, ao considerar o autêntico misticismo, baseado na experiência espiritual. A grande tradição mística tem acumulado extensivo conhecimento sobre a consciência humana e sobre o domínio espiritual, de um modo que é similar ao método que cientistas usam para adquirirem conhecimento sobre o mundo material. Envolve metodologias para indução de experiências transpessoais, sistemática coleta de dados e validação intersubjetiva.

Experiências espirituais, como algum outro aspecto da realidade, podem estar sujeitas a cuidadosa pesquisa de mente aberta e estudadas cientificamente. Nada há de não científico sobre ser imparcial e estudar rigorosamente o fenômeno transpessoal e os desafios que eles apresentam, para uma compreensão materialista do mundo. Cada abordagem somente pode responder à questão crítica sobre o estado ontológico da experiência mística. Elas revelam uma verdade profunda sobre algum aspecto básico da existência, como mantido pela filosofia perene, ou elas são produtos da superstição, fantasia ou doença mental, como a ciência materialista ocidental as vê?

Qual a importância do domínio perinatal na formação da personalidade?

A quantidade de estresse emocional e físico envolvidos no nascimento da criança ultrapassam claramente o trauma pós-natal, na tenra infância e na infância, discutida na literatura psicodinâmica, com a possível exceção de formas extremas de abuso físico. Várias formas de psicoterapia experiencial têm acumulado convincentes evidências que o nascimento biológico é o mais profundo trauma de nossa vida e um evento de importância psicoespiritual superior. É relembrado em nossa memória, em minúsculos detalhes, abaixo do nível celular, e tem profundo efeito em nosso desenvolvimento psicológico.

Reviver de forma consciente e integrar o trauma do nascimento representam importantes papéis no processo de psicoterapia experiencial e auto-exploração. As experiências originárias no nível perinatal do inconsciente aparecem em quatro distintos padrões experienciais, cada um dos quais é caracterizado por emoções específicas, sentimentos físicos e imagens simbólicas. Esses padrões estão relacionados estreitamente com as experiências que o feto teve antes do início do nascimento e durante os três estágios consecutivos do parto biológico.

Em cada um desses estágios, a criança experiencia um específico e típico contexto de emoções intensas e sensações físicas. Essas experiências deixam marcas inconscientes profundas na psique, que mais tarde têm na vida, um importante influência na vida do indivíduo. Eu me refiro a essas quatro constelações dinâmicas do inconsciente profundo, as Matrizes Perinatais Básicas ou BPMs.

As matrizes perinatais podem formar nossa percepção do mundo, influenciando profundamente nossos comportamentos diários e contribuindo para o desenvolvimento de vários distúrbios emocionais psicossomáticos, reforçados pelas significativas experiências emocionais da tenra infância, da infância e, mais tarde, a vida integra estas experiências em sistemas COEX. Em uma escala coletiva, podemos encontrar ecos de matrizes perinatais na religião, arte, mitologia, filosofia e várias formas de psicologia social e política e psicopatologia.

As implicações socio-políticas das observações com respeito às dinâmicas perinatais são particularmente fascinantes. Eu escrevi sobre isso, pela primeira vez, em meu livro "Realms of the Human Unconscious", em 1975. Brevemente após sua publicação, recebi uma carta entusiástica de Lloyd de Mause, um jornalista americano e psicanalista. De Mause é um dos fundadores da Psico-história, uma disciplina que aplica as descobertas da psicologia profunda para a história e ciência política. Lloyd de Mause estava muito interessado em minhas descobertas, no que diz respeito ao trauma de nascimento e suas possíveis implicações sócio-políticas, porque eles supriam apoio independente, para sua própria pesquisa. Por algum tempo, de Mause tinha sido estudante dos aspectos psicológicos, dos períodos precedentes às guerras e revoluções.

Interessou a ele como os líderes militares, na mobilização de massas, tinham êxito, praticamente do dia para a noite, em transformar civis pacíficos em máquinas assassinas. Essa abordagem foi muito original e criativa; somada à análise das fontes históricas tradicionais, ele extraiu dados de grande importância psicológica de caricaturas, piadas, sonhos, imagens pessoais, atos falhos, comentários laterais de oradores e mesmo rabiscos e garatujas de documentos de policiais à beira de rude destacamento. Por um tempo ele fez contato comigo, analizou, de dezessete modos, situações precedendo o princípio do levante de guerras e revoluções, atravessando muitos séculos desde a antiguidade até época mais recente.

Ele foi atacado pela abundância extraordinária de figuras da palavra, metáforas e imagens, relacionadas ao nascimento biológico, em seu material. Desta forma, os líderes militares e políticos, de todas as idades, descrevem uma situação crítica ou declaram guerra, tipicamente, usando termos que, igualmente, se aplicam à aflição perinatal. Eles acusam os inimigos de os estar sufocando e estrangulando, colocando para fora a última respiração dos nossos pulmões ou nos confinando e não dando espaço para viver ("Lebensraum" de Hitler). Igualmente frequentes são alusões a cavernas escuras, túneis e labirintos confusos, abismos perigosos para dentro dos quais podemos ser empurrados, ameaçados de engolfamento pela traiçoeira areia movediça ou um terrível remoinho de água.

Similarmente, a resolução da crise vem na forma de imagens perinatais; o líder promete salvar-nos do labirinto agourento, levar-nos para a luz do outro lado do túnel e criar uma situação onde todos, novamente, respirarão livremente, após o perigoso agressor e o opressor serem superados. Desde suas primeiras pesquisas, de Mause coletou centenas de posteres, cartoons, discursos e outros materiais de tempos de crise, que apóiam essa hipótese.

Há alguma relação entre sua teoria e as teorias de Freud e Jung?

A cartografia expandida da psique que desenvolvi, baseado em meus estudos com estados incomuns de consciência, integra a psicanálise freudiana e a psicologia analítica de Jung, mas inclui também a teoria do trauma de nascimento de Otto Rank e a compreensão dos aspectos bioenergéticos da psique de Wilhelm Reich. Todas essas teorias estão incluídas em minha cartografia, que apresenta três níveis ou domínios.

O mais superficial deles é o nível biográfico-rememorativo, que meu modelo compartilha com a psicanálise freudiana e a principal corrente da psicologia e da psiquiatria. Na psiquiatria tradicional e psicologia, a psique humana é limitada a este nível. Minha cartografia da psique tem, em adição, dois domínios transbiográficos. O nível perinatal, relacionado ao trauma de nascimento, é estreitamente relacionado (embora não idêntica) à psicologia de Otto Rank. O nível transpessoal então, inclui o inconsciente coletivo de Jung, em seus aspectos históricos e arquetípicos (mitológicos) e alguns elementos adicionais não descritos por Jung.

Há alguma diferença entre espiritualidade e o inconsciente?

Há, certamente, uma conexão entre espiritualidade e o inconsciente. A genuína espiritualidade está baseada em experiências envolvendo dimensões da realidade das quais não estamos conscientes em nosso estado ordinário de consciência e que, nesse sentido, são inconscientes. Mas nem todas experiências inconscientes são espirituais em natureza e têm o que C. G. Jung chamou "qualidade numinosa", por exemplo, o conteúdo do inconsciente individual freudiano (memórias reprimidas da tenra infância e infância) e o reviver do trauma do nascimento. Também, muitas experiências espirituais, embora tecnicamente inconscientes, poderiam ser mais apropriadamente chamadas "superconscientes".

Você poderia explicar mais sobre estados incomuns de consciência?

Como mencionei anteriormente, eu despendi mais de quarenta anos conduzindo pesquisas de estados incomuns de consciência. Meu primeiro interesse foi focalizado no que chamamos aspectos "heurísticos" desses estados, isto é, em que eles podem contribuir para nossa compreensão da natureza do consciente e da psique humana. Desde meu treinamento original que era como psiquiatra clínico, também dediquei atenção especial ao potencial evolucionário, transformativo e de cura dessas experiências. Para esse propósito, o termo estados incomuns de consciência é muito amplo e geral. Ele inclui uma ampla variedade de condições que são de pouco ou nenhum interesse para a perspectiva terapêutica ou heurística.

A consciência pode ser profundamente mudada por uma variedade de processos patológicos - por traumas cerebrais, por intoxicações com venenos químicos, por infecções ou por processos circulatórios e degenerativos no cérebro. Tais condições podem certamente resultar em profundas mudanças mentais que poderiam relega-las à categoria de "estados incomuns de consciência". No entanto, tais impermanências causam "delírio trivial" ou "psicoses orgânicas", estados que são muito importantes clinicamente, mas não são relevantes para nossa discussão. Pessoas sofrendo de tais estados estão tipicamente desorientadas; elas não sabem quem são ou onde estão e em que data se encontram. Somados a isso, suas funções intelectuais são significativamente prejudicadas e elas tipicamente apresentam amnésia subsequente de suas experiências.

Tenho focado meu trabalho em um largo e importante subgrupo de estados incomuns de consciência, o qual difere significativamente do resto e representa uma fonte incalculável de novas informações sobre a psique humana, na saúde e na doença. Eles também têm um notável potencial transformativo e terapêutico. Através dos anos, as observações clínicas diárias convenceram-me sobre a natureza extraordinária dessas experiências e sobre as implicações de longo alcance que elas têm, para a teoria e prática da psiquiatria. Descobri, e é difícil acreditar, que a psiquiatria contemporânea não reconheça suas características específicas e não tenha um nome especial pra eles.

Porque sinto fortemente que eles precisam ser distinguidos do resto e colocados dentro de uma categoria especial, é que cunhei para eles um nome, holotrópico (Grof, 1992). Essa palavra composta, literalmente significa "orientada em direção à inteireza" ou "movendo em direção ao todo" (do Grego holos = todo e trepein = movendo em direção a ou movendo em direção a algo). Sugere que, em nosso estado de consciência diário, nós nos identificamos somente com uma pequena parte de quem realmente somos. Nos estados holotrópicos, podemos transcender nossos estreitos limites do corpo do ego e reclamar nossa completa identidade.

Nos estados holotrópicos, a consciência é mudada qualitativamente em uma maneira muito profunda e fundamental, mas ela não é grosseiramente prejudicada como nas condições causadas organicamente. Nós tipicamente permanecemos orientados, de forma plena, em termos de espaço e tempo e não perdemos completamente o contato com a realidade diária. Ao mesmo tempo, nosso campo de consciência é invadido pelos conteúdos de outras dimensões da existência, numa maneira que pode ser muito intensa e mesmo esmagadora. Nós, então, experienciamos, simultaneamente, duas realidades muito diferentes, "tendo cada pé em um mundo diferente".

Os estados holotrópicos são caracterizados pelas mudanças perceptuais dramáticas em todas as áreas sensoriais. Quando fechamos nossos olhos, nosso campo visual pode ser inundado com imagens advindas de nossas histórias pessoais e do inconsciente coletivo e individual. Podemos ter visões e experiências retratando vários aspectos dos reinos animal e botânico, da natureza em geral ou do cosmos. Nossa experiência pode nos levar para dentro do reino de seres arquetípicos e regiões mitológicas. Quando abrimos os olhos, nossa percepção do meio pode ser transformada, de forma ilusória, pelas projeções vividas do seu material inconsciente. Isso pode ser acompanhado por uma ampla variedade de experiências envolvendo outros sentidos - vários sons, sensações físicas, cheiros e tatos.

As emoções associadas com estados holotrópicos cobrem um muito amplo espectro, que tipicamente estende para bem além dos limites de nossa experiência diária, ambos em natureza e intensidade. Eles variam de sentimentos de arrebatamento extático, felicidade celestial e "paz que foge de toda compreensão" para episódios de terror abismal, assassinatos raivosos, pronunciada desesperança, culpa arrasadora e outras formas de sofrimentos emocionais inimagináveis. Formas extremas desses estados emocionais combinam com as descrições dos domínios celestiais ou paradisíacos e de infernos, descritos nas escrituras das grandes religiões do mundo.

Um aspecto interessante, em particular, dos estados holotrópicos é seu efeito nos processos do pensamento. O intelecto não é prejudicado, mas funciona de um modo que é significativamente diferente do modo diário de operação. Enquanto podemos não ser capazes de depender do nosso julgamento, em matérias práticas ordinárias, podemos ser literalmente inundados com notáveis informações válidas, em uma variedade de assuntos. Podemos encontrar insights psicológicos profundos no que diz respeito à nossa história pessoal, dinâmica inconsciente, dificuldades emocionais e problemas interpessoais. Podemos, também, experienciar revelações extraordinárias concernentes a vários aspectos da natureza e do cosmos, que por uma larga margem transcendem nossos antecedentes intelectual e educacional. Contudo, grande parte dos mais interessantes insights, que se tornam disponíveis nos estados holotrópicos, gira em torno de assuntos espirituais, filosóficos e metafísicos.

Podemos experienciar sequências de morte e renascimento psicológicos e um amplo espectro de fenômenos transpessoais, tais como sentimentos de unidade com outras pessoas, a natureza, o universo e Deus. Podemos descobrir o que parecem ser memórias de outras encarnações, encontros poderosos com figuras arquetípicas, comunicar com seres desencarnados e visitar numerosas paisagens mitológicas. Experiências holotrópicas dessa natureza são a principal fonte das cosmologias, mitologias, filosofias e sistemas religiosos, descrevendo a natureza espiritual do cosmos e da existência. Eles são a chave para a compreensão da vida ritual e espiritual da humanidade do xamanismo e cerimônias sagradas de tribos aborígenes das grandes religiões do mundo.

Você fez pesquisa usando o LSD. Quais as suas descobertas e conclusões?

Dediquei mais de vinte anos conduzindo pesquisa em terapia psicodélica, na Checoslováquia e nos Estados Unidos. Como resultado senti grande espanto e respeito em relação a essas substâncias - o que elas podem fazer tanto no lado positivo quanto no negativo. É importante enfatizar que elas são ferramentas poderosas que não tem benefícios intrínsecos ou propriedades prejudiciais. O resultado, é igual a todas as coisas, depende de como o homem usa essas coisas.

Em caso de psicodélicos os resultados dependem do que podemos chamar "set e setting" - quem os administra, para quem, sobre que circunstâncias e com que intenção. Eles podem ser usados como uma arma química ou, quer dizer, para fazer lavagem cerebral, como poderoso agente de cura ou como sacramento que pode facilitar experiências espirituais de transformação da vida.

Há alguma conexão entre sua pesquisa e o trabalho de Timothy Leary?

Realmente não. Nós nos encontramos em numerosas ocasiões, primeiro em 1965, quando eu o visitei em Millbrook e mais tarde em várias conferências, onde ambos fomos conferencistas, e também durante suas visitas ao Instituto Esalen, em Big Sur, Califórnia, mas nossa abordagem para psicodélicos era muito diferente. Ele era um colossal experimentador, tendo tomado LSD mais de mil vezes e com a exceção do seu mais novo trabalho em Havard, suas experiências com outros eram num contexto ao acaso e sem supervisão. Ele era um brilhante pensador, mas permaneceu em seu coração um rebelde irlandês, contrário ao estabelecido, não conformista e "agente provocador".

Eu, pessoalmente, usei psicodélicos para auto-exploração, mas numa escala muito mais conservadora. A maioria de minhas pesquisas psicodélicas foram trabalhos extensivos com outros, em um contexto clínico, primeiro no Instituto de Pesquisa Psiquiátrica, em Praga, na Tchecoslováquia e mais tarde no Centro de Pesquisa Psiquiátrica Maryland, em Baltimore, Maryland. Eu tentei formular minhas descobertas em artigos científicos e livros, com intenção de tornar aceita a terapia psicodélica, na corrente psiquiátrica.

Você poderia falar sobre seu novo livro?

Escrevi meu mais recente livro, "Psicologia do Futuro: Lições da Moderna Pesquisa da Consciência ", a pedido da State University Press, que publicou vários de meus livros anteriores. Eles queriam que eu descrevesse, de um modo sistemático e compreensivo, minhas observações de mais de quarenta anos de pesquisa, de uma importante variedade de estados incomuns de consciência, que chamei holotrópico (literalmente movendo em direção ao todo do Grego holos = todo e trepein = mover em direção a alguma coisa). Exemplos de tais estados são os transes xamânicos ou iniciações em rituais aborígenes, estados encontrados em práticas meditativas sistemáticas, episódios místicos espontâneos, experiências psicodélicas e psicoterapias experienciais com formas poderosas de auto-exploração, como, por exemplo, terapia primal, renascimento e trabalho com a respiração holotrópica.

O livro, basicamente, aponta, muito especificamente, para diferentes áreas, nas quais nosso pensamento sobre a psique humana na saúde e doença deveriam mudar radicalmente, para acomodar essas novas descobertas. Eu também delineio a direção e natureza das mudanças necessárias. Exemplos de tais áreas são a natureza e origem da consciência, arquitetura dos distúrbios emocionais e psicossomáticos e estratégia da psicoterapia. Alguns outros problemas, descritos no livro, são a teoria e a prática do trabalho com a respiração holotrópica, aspectos espiritual e filosófico da morte, terapia psicodélica com pacientes com câncer, insights metafísicos da pesquisa da consciência e implicações desse trabalho em relação à crise global.

O livro poderá estar disponível no Brasil, traduzido para a língua portuguesa, no início de dezembro de 2000. Estou planejando voltar ao Brasil, no início de dezembro, para dar algumas entrevistas e autografar o livro, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Vocês poderão ter informações mais específicas sobre a edição brasileira, através do Kiu Eckstein, no Rio, que é quem está envolvido, na tradução e negociações com o editor.

Tradução de Álvaro Veiga Jardim

Obs: O livro Psicologia do Futuro, escrito por Stanislav Grof, M. D., Editora Heresis, Niterói - RJ., e está disponível no Brasil, desde dezembro de 2000.

Fonte : Aljardim (www.aljardim.com.br).

site:www.rizoma.net

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Deleuze e o xamanismo


Há alguns dias, um grupo de amigos e eu trocamos alguns comentários acerca da passagem abaixo, de autoria de Renato J. Ribeiro (Fonte: http://www.renatojanine.pro.br/Ciencia/pensando.html).

Para alguns, tratou-se de uma "má porta de entrada" a Deleuze, pois o autor não seria a melhor opção para interpretar o "caso" abaixo (haveria preconceito, arrogância etc).

Para outros, o interesse se encontrava justamente na "consideração ao outro", que se evidenciava tanto na "estória", como na interpretação do autor.


Para mim, todas as considerações guardam seu interesse, e creio que, além disso, o autor deixou de ir "às últimas consequências": acho que a filosofia de Deleuze propõe uma especie de xamanismo, onde o perspectivismo implica uma mudança radical, uma superação ou transformação (ou mesmo uma dissolução) do "eu", uma transitoriedade em nome de um fluxo positivo e permanente.


"De 1972 a 1975, assisti aos seminários de Gilles Deleuze, na Universidade de Vincennes, perto de Paris, onde o governo francês criara um território para os estudantes mais radicais do pós-1968. Era um espaço livre, mas ao mesmo tempo degradado – no restaurante universitário, por exemplo, como furtassem os talheres, a administração parou de fornecê-los, e só comia quem os trouxesse de casa. O pó às vezes se acumulava nos corredores. Mas as aulas, melhor dizendo, os "seminários" (il n’y a pas de cours! não há aulas, dizia Deleuze, quando lhe perguntavam se podiam assistir a elas) faziam pensar. Um dia, Deleuze elogiou as obras de Carlos Castañeda, antropólogo mexicano que estava em voga pela série de livros sobre um feiticeiro indígena com quem aprendera muito – e, em especial, a ver de uma maneira nova, diferente. (Mais tarde, Castañeda foi acusado de falsificar seus relatos mas, para o que nos interessa, tanto poderia ter escrito um documentário quanto uma obra de ficção; Deleuze também estudou Kafka, e ninguém vai perguntar se "o processo" ocorreu mesmo, e quando). Falou da importância de se aprender com a experiência. Um senhor na sala, o único de terno e gravata, lhe perguntou se por "experiência" entendia o que Husserl chamou de Erlebnis, que numa tradução literal seria "vivência".

Deleuze respondeu que não sabia alemão, que não conhecia Husserl – o que era tudo falso, porque ele era um fino entendedor da história da filosofia; só que, sendo mais um filósofo do que um historiador do pensamento, ele permitia-se esse duplo jogo. Por um lado, um certo charme: fingia uma ignorância que não tinha. Por outro, uma lição bem clara: não estava interessado no pedigree de suas idéias ou no pedantismo de seu ouvinte, mas em pensar a experiência. E concluiu, ante a insistência do senhor esnobe: "Pode definir experiência por vá ver o que está acontecendo, como Carlos Castañeda foi fazer com seu mestre índio".

Há, nesse diálogo entre o filósofo e o aluno engravatado, um lado algo coquete. Deleuze não endossaria um vale-tudo com o pensamento. É difícil alguém que passou pela filosofia avalizar uma irresponsabilidade em que qualquer opinião valha. Mas ele também rejeitava uma tentativa de o enquadrarem, ele ainda vivo, como um pensador já canônico, cujas raízes alguém estudaria. Mais que isso, o que lhe importava – e por isso estava em Vincennes, apesar da agressividade de parte dos estudantes da escola, que de vez em quando invadiam as salas de aula, diziam absurdos e, no caso dele, assim o faziam desaparecer por duas ou três semanas – era que suas idéias vivessem.

E por isso, ao pedigree nobre que lhe oferecia o porta-voz do espírito de seriedade, fazendo remontar sua "experiência" à fenomenologia, ele preferia contrapor uma origem de registro quase vulgar. É claro, Deleuze não sabia que talvez Castañeda tivesse mentido. Mas ele recorria à antropologia e não aos clássicos, a um autor do Terceiro Mundo e não da Europa, ao saber de um adivinho e não ao de um acadêmico, ao mundo popular e não ao culto, à empiria e não à dedução. Este é um dos modos, certamente não o único, de nos fazer pensar. Melhor ainda, se combinarmos as duas origens, a culta que Deleuze marotamente ocultava e a vivencial, que ele enfatizava.

É o que procuramos, aqui. Relatamos toda uma experiência com a política procurando, ao mesmo tempo, pensá-la. Este projeto não veio do nada. Cada texto, cada passo que demos esteve marcado por anos de reflexão sobre a política. (Algo disto se pode encontrar em meu A Universidade e a vida atual – Fellini não via filmes, ao qual remeto, mas lembrando que são dois livros inteiramente diferentes, até porque o eixo aqui é a questão da nova política)."

Doença da Terra



Cuidados paliativos




Por Rubem Alves


Crescimento sem limites num planeta que tem limites não é possível. Uma hora o "Dia do Julgamento" chega

FAZ ALGUNS ANOS escrevi um livrinho no qual falava sobre a necessidade de se criar uma nova especialidade ("O médico", Ed. Papirus). Assim eu argumentava:
A vida começa com uma chegada. Termina com uma despedida. Chegada e partida são, igualmente, partes da vida.
A gente prepara com carinho e alegria a chegada. Tem de preparar também com carinho e tristeza a despedida. A obstetrícia é a especialidade que cuida dos que estão chegando.
Pensei então na necessidade de se criar uma especialidade que cuidasse dos que estão se despedindo. Até inventei um nome para ela: "morienterapia", combinação de duas palavras: "moriens", "que está morrendo" e "therapeuein" que quer dizer "cuidar".
Passado o tempo fiquei sabendo que uma nova especialidade havia nascido: "cuidados paliativos". "Paliativo" é algo que alivia mas não resolve. O diagnóstico está feito mas os médicos sabem que não há nada a ser feito: o paciente vai morrer.
Os que se dedicam aos cuidados paliativos são aqueles que, sabendo da inutilidade dos tratamentos, ficam ao lado do enfermo para garantir que a sua partida seja a menos dolorosa possível, sem dores nem ansiedade. Acho isso uma coisa muito bonita.
Os "cuidados paliativos" me vieram à cabeça quando pensei nessa enferma tão querida, a nossa Terra, mãe de onde viemos e de quem dependemos. Se ela morrer, morreremos também.
Sou favorável a todas as medidas para prolongar a sua vida: educação, reflorestamento, proteção das florestas e dos mananciais de água, despoluição dos rios, diminuição da emissão de gases pelos aviões, carros e fábricas...
Mas todas essas medidas são "cuidados paliativos". Não evitarão que nossa Terra morra. Elas não vão às raízes da enfermidade mortal.
Quando a doença é feia e provoca dor, a gente se movimenta. Mas a enfermidade de que sofre a Terra é prazerosa, cria objetos maravilhosos que todos desejam e os países brigam uns com os outros para ter mais dessa deliciosa enfermidade. Enquanto os cientistas anunciavam o efeito estufa em Paris, no Brasil os governantes e economistas discutiam medidas para que ficássemos mais doentes e mais felizes!
"Crescimento econômico": esse é o nome da doença. Há muito que se sabe que a Terra sofre dessa doença. Foi anunciado em 1968 pelo "Clube de Roma" no seu relatório "Os limites do crescimento". Crescimento sem limites num planeta que tem limites não é possível. Mais cedo ou mais tarde o "Dia do Julgamento" chega. Mas ninguém ligou.
Essa doença é mortal porque, para haver crescimento econômico é preciso que haja aumento no consumo de energia. Aumento de energia implica aumento do calor na superfície da Terra. O aumento do calor, por sua vez, aumentará o ritmo do aquecimento global. Já se fazem previsões sinistras sobre o que acontecerá quando os bilhões de chineses, acometidos da deliciosa doença do "crescimento econômico", atingirem o nível de "prosperidade" dos Estados Unidos...
Resta-nos o conselho que o médico deu a Manoel Bandeira, tuberculoso:
- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito está infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

sábado, 20 de outubro de 2007

Caminho da Meditação Estabilizadora




"Esta ilustração é a reprodução de um desenho tibetano que representa nove cenas, os nove estágios do caminho da meditação estabilizadora ou shamatha.
Há dois personagens: o homem, o meditador, o observador; e o elefante, que representa sua mente. Para desenvolver shamatha, a mente usa duas ferramentas: a atenção e a lembrança. A afiada machadinha representa a acuidade da atenção vigilante, e a corda com um gancho é a lembrança da prática. Já que muitas distrações interrompem seu estado alerta, vigilante, o meditador deve retornar a ela através de constantes lembranças. A vigilância é a acuidade na base da meditação, e a lembrança assegura sua continuidade. O estado de shamatha tem dois obstáculos principais: o primeiro é a agitação ou dispersão criada pela fixação sobre pensamentos e emoções passageiros; o segundo é o torpor ou preguiça, a estagnação mental. O torpor é representado pela cor preta do elefante e a agitação pelo macaco. O fogo que diminui ao longo do caminho representa a energia da meditação. Conforme avançamos, a prática requer menos e menos esforço.
As seis curvas ou voltas no caminho marcam seis platôs, masterizados sucessivamente pelas seis forças da prática, que são: ouvir as instruções, assimilá-las, lembrá-las, vigilância, perseverança e hábito perfeito. Ao lado da estrada há diferentes objetos: um katha, algumas frutas, uma concha cheia de água perfumada, pequenos címbalos e um espelho, representado os objetos dos sentidos; objetos tangíveis, sabores, odores, sons e formas visuais, que distraem o meditador que se desvia do caminho do shamatha ao segui-los.

[1] Na base da ilustração, no primeiro estágio, há uma distância consideravelmente grande entre o meditar e sua mente. O elefante da mente é guiado pelo macaco, ou agitação. O grande fogo mostra que a meditação requer bastante energia. Os obstáculos são os piores possíveis; tudo está preto.

[2] No segundo estágio, o meditador chega mais próximo do elefante por causa de sua atenção. O macaco — a agitação — ainda conduz a mente, mas o ritmo diminui. A estagnação e a agitação diminuem; algum branco infiltra-se no preto do elefante e do macaco.

[3] No terceiro estágio, o meditador não mais caça a sua mente; agora eles estão cara a cara. O macaco ainda está à frente, mas não conduz mais o elefante. O contato entre o meditador e a mente é estabelecido pela corda da lembrança. Ocorre uma forma sutil de estagnação, representada por um pequeno coelho. A escuridão da estagnação e da agitação diminui.

[4] No quarto estágio, o progresso torna-se mais claro e o meditador chega ainda mais perto do elefante. A alvura do macaco do elefante e do coelho aumenta. A cena torna-se mais clara.

[5] No quinto estágio, a situação torna-se invertida. O meditador conduz o elefante da mente com a atenção e lembrança contínuas. O macaco não conduz mais, porém o coelho ainda está lá. A cena fica ainda mais clara. Em uma árvore próxima, um macaco branco pega uma fruta. Isto representa a atividade da mente de se engajar em ações positivas. Apesar de essas ações normalmente precisarem ser cultivadas, ainda há distrações no contexto da prática do shamatha; é por isso que ela é preta e está fora do caminho.

[6] No sexto estágio, o progresso é mais definitivo. O meditador conduz e a lembrança é constante; ele não tem mais que colocar sua atenção sobre a mente. O coelho se foi e a situação torna-se cada vez mais clara.

[7] No sétimo estágio, a cena torna-se muito pacífica. A caminhada não mais requer direção. A cena torna-se quase completamente transparente. Alguns sinais de preto indicam pontos de dificuldade.

[8] No oitavo estágio, o elefante anda domado pelo meditador. Não há virtualmente mais nenhum preto e a chama do esforço desapareceu. A meditação torna-se natural e contínua.

[9] No nono estágio, a mente e o meditador estão ambos completamente em descanso. Eles são como velhos amigos acostumados a estar juntos calmamente. Os obstáculos desaparecem e a meditação estabilizadora é perfeita.

As cenas seguintes, nascida do raio de luz que emana do coração do meditador, representa a evolução da prática no coração deste estágio de shamatha. A realização do shamatha é caracterizada pela experiência de alegria e radiância, ilustrada pelo meditador voando ou cavalgando sobre as costas do elefante. A última cena refere-se às práticas combinadas de shamatha e vipashyana. A direção é revertida. A mente e a meditação estão unidas; o meditador senta-se escarranchado sobre o elefante. O fogo revela uma nova energia, a da sabedoria, representada pela espada flamejante da sabedoria transcendente, que corta os dois raios negros das aflições mentais e da dualidade."

(Kalu Rinpoche. Luminous mind: the way of the Buddha. Compilado por Denis Töndrup,traduzido por Maria Montenegro, prefácio de S.S. o Dalai Lama.Boston: Wisdom, 1997. Pág. 157-158. )

Sobre as práticas Shamatha e Vipashyana, mencionadas no texto acima, temos o seguinte ensinamento de Hsing Yün ("Only a Great Rain"), extraído de http://www.dharmanet.com/:

As práticas de meditação da escola T'ien-t'ai são baseadas no chih-kuan (jap. shikan) — literalmente, "parar e ver", "cessar e contemplar". Estas práticas correspondem respectivamente à meditação estabilizadora (sânsc. shamatha, chin. chih, jap. shi) e à meditação analítica (sânsc. vipashyana, chin. kuan, jap. kan). As principais escrituras de meditação desta escola são a Grande Cessação e Contemplação (chin. Mo-ho chih-kuan, jap. Makashikan), os Seis Portões Maravilhosos do Dharma (chin. Liu-miao Fa-men) e a Cessação e Contemplação para Iniciantes (chin. T'ung-men Chih-kuan). A técnica completa e súbita de cessação e contemplação, conforme ensinada pelo monge Chih-i, é uma das três técnicas de meditação T'ient-t'ai, sendo esta considerada a mais completa.

A técnica completa e súbita tem duas partes. A primeira parte é chamada quatro tipos de samadhi, e a segunda parte é chamada os dez veículos de contemplação. A primeira parte enfatiza o shamatha, enquanto a segunda parte enfatiza o vipashyana.[1] Os quatro tipos de samadhi [absorção meditativa]: O samadhi é um estado de shamatha perfeito. Em samadhi, as funções mentais e discursivas cessaram, e a mente é preenchida com sabedoria e repouso. Os quatro tipos de samadhi discutidos abaixo são métodos excelentes para atingir o shamatha perfeito. Uma vez que o shamatha perfeito, ou samadhi, tenha sido atingido, o verdadeiro vipashyana pode começar.

[1.1] Samadhi do longo sentar: O método do longo sentar é tomado do Manjushri Paripriccha Sutra e do Sutra do Discurso de Manjushri sobre a Sabedoria. Este método é bem difícil. Requer que o praticante passe noventa dias em reclusão. Durante este período, o praticante deve se sentar continuamente em meditação e contemplar o nome de um buddha. A concentração que se desenvolve desta prática é muito forte e á capaz de superar uma grande quantidade de karma ruim. A simplicidade intensa desta prática vez com às vezes seja chamada de samadhi da prática única.

[1.2] Samadhi do longo caminhar: Este método é às vezes chamado método pratyutpanna samadhi, já que é tomado do Pratyutpanna Buddha Sammukhavasthita Samadhi Sutra. O samadhi do longo caminhar requer que o praticante passe noventa dias em um templo, caminhando ao redor de uma imagem do Buddha. Não se permite sentar, exceto durante breves intervalos de refeição. Conforme o praticante anda ao redor da imagem do Buddha, ele deve cantar o nome do Buddha Amitabha enquanto contempla os trinta e dois sinais de seu estado búddhico. Se esta prática for realizada com concentração e dedicação, o praticante eventualmente terá uma visão de todos os buddhas no universo. Por esta razão, o samadhi do longo andar também é conhecido como samadhi da visão dos buddhas.

[1.3] Samadhi metade andando, metade sentado. Como seu nome sugere, este método emprega uma mistura do andar e do sentar. Há dois tipos básicos de samadhi metade andando, metade sentado:

[1.3.1] Grande samadhi universal: Esta prática é tomada do Sutra do Grande Dharani Universal. Durante um período de sete dias, o praticante deve se confinar em um templo, onde canta mantras.

[1.3.2] Samadhi do lótus. Esta prática é tomada dos capítulos Manjughosha e Shubhavyuha-raja do Sutra do Lótus. Durante um período de vinte e um dias, o praticante se engaja em cantar, meditar, circum-ambular o Buddha, arrependimento e outras práticas calmantes.

[1.4] O samadhi do não-sentar e do não-andar. Esta prática é tomada do Maha-prajna-paramita Sutra. Não é restrita a qualquer período de tempo ou qualquer lugar. Supõe-se que este tipo de samadhi seja praticado no curso de nossas vidas diárias. Às vezes esta samadhi é também chamado samadhi da consciência iluminada porque enfatiza a atenção e a contemplação durante o dia. Se realizarmos esta prática sinceramente e com dedicação, definitivamente experienciaremos um aumento em nossa consciência iluminada.

As três primeiras das práticas mencionadas acima enfatizam claramente o shamatha e vipashyana estritos. Apesar de estas práticas serem difíceis, são muito poderosas e muito efetivas. Os longos períodos de tempo envolvidos com a dificuldade de seus empreendimentos físicos fazem estas práticas serem difíceis para a maioria dos buddhistas modernos. Porém, a última prática mencionad
a acima é perfeitamente adequada para a vida no mundo moderno. [...]
[2] Os dez veículos do vipashyana: As contemplações seguintes são chamadas veículos porque podem nos levar do mundo samsárico do sofrimento para a liberação última. Os dez veículos do vipashyana são realmente dez aspetos de um vipashyana magnífico. As limitações das palavras e a tendência de nossa mente focalizarem apenas uma cosia por vez, entretanto, nos forçam a tratá-los como se fossem separados.

[2.1] Contemplação do reino indescritível: Nesta, o meditar contempla que cada aspecto de cada momento da vida é contingente sobre o universo inteiro e que cada momento sempre reflete a generosidade e completude tenebrosas do universo inteiro. Uma vez que apreciemos que a maioria das coisas "insignificantes" são uma parte avassaladora do universo inteiro, não podemos fazer nada mais que apreciar a completude e perfeição indescritíveis da bodhichitta.

[2.2] Contemplação sobre a importância do surgimento da bodhichitta: Seguindo a contemplação acima, o meditador deve reconhecer que, em geral, a maioria de nós não aprecia completamente a maravilha e o temor da consciência da iluminação. Já que não a contemplamos completamente, devemos contemplar a importância do surgimento da bodhichitta.

[2.3] Shamatha e vipashyana com tranqüilidade hábil: Este método nos pede par usar nossas próprias mentes para figurar o melhor modo de ganhar paz e segurança dentro do Dharma.

[2.4] Quebrar o agarramento de todos os fenômenos: Está um ato, um voto e uma forma de contemplação, todos em um. Quando quebramos o agarramento de todos os fenômenos, consideramos que toda atração e aversão são fundamentalmente ilusórias. Já que todo apego é baseado na ilusão, decidimos quebrar o agarramento de tudo isto.

[2.5] Entendendo a perda e o ganho: Esta contemplação é às vezes chamada "entendendo a obstrução e a não-obstrução". Esta contemplação é usada quando e se um praticante reconhecer que ele não quebrou o agarramento de todos os fenômenos com sucesso. Nesta prática, o meditador contempla a vacuidade de todos os fenômenos e a vacuidade tanto do ganho quanto da perda. Uma vez que vejamos que nada é ganho quando algo é ganho, e que nada é perdido quando algo é perdido, chegaremos mais perto de sermos capazes de superar nossos apegos.

[2.6] Contemplação das trinta e sete condições que levam ao estado búddhico: Esta contemplação é usada quando realizamos que, apesar de podermos ter quebrado o agarramento de todos os fenômenos, ainda não estamos fazendo um bom progresso em outras áreas. O método usado para esta prática é contemplar todas as trinta e sete condições que levam ao estado búddhico, um a um. Conforme contemplamos cada um deles, devemos nos avaliar e decidir onde ainda estamos deficientes. Uma vez que tenhamos determinado nossas deficiências, devemos contemplar que passamos tomara para superá-las. Conforme crescemos em nossa prática e entendimento do Dharma, devemos realizar que a autoconfiança e o auto-entendimento são extremamente importantes. Não espere que alguém sempre lhe aponte como você deve se melhorar.

[2.7] O método da cura direta: Este método é usado para superar deficiências que identificamos em nós mesmos. Por exemplo, se determinamos que estamos deficientes em compaixão, então devemos passar mais templo contemplando a compaixão. Se determinarmos que estamos deficientes em alegria, então devemos passar mais tempo contemplando a alegria, tanto para si quanto para os outros, e devemos reconhecer que a alegria é uma parte da sabedoria verdadeira. Falando de modo geral, o método para superar qualquer falta específica é enfatizar seu oposto positivo. Não permaneça em sua deficiência. Ao invés disso, identifique-a e enfatize o seu oposto. Este método é muito poderoso e ninguém deve ignorá-lo, não importa o quão avançado seja.

[2.8] A contemplação do saber onde você realmente está: Quando pensamos que nós sabemos mais do que realmente sabemos, fechamos a porta para o crescimento. Por esta razão, é muito importante que cada um de nós determine, tão apuradamente quanto possível, onde nós realmente estamos. Se você pensar que está mais avançado em sua prática do que realmente está, você causará muitos problemas para si mesmo. Uma avaliação pobre de sua própria mente criará um o obstáculo maior para um crescimento adicional. Falando de modo geral, é difícil ser muito humilde e, assim, geralmente é melhor entender a nós mesmos do que nos superestimarmos.

[2.9] Ser capaz de agüentar: Nossa capacidade de resistir a dificuldades é nossa maior ferramenta, assim como o melhor marcador que temos para a profundidade de nosso progresso. Em um dia ensolarado após uma boa refeição, praticamente qualquer um pode ser compassivo. Nosso teste real vem quando somos chamados para suportar dificuldades com graça e dignidade. Se você puder manter a paz mental até mesmo em situações adversas, então você pode estar certo do que está fazendo um bom progresso. Uma palavra de precaução: ninguém deveria procurar as dificuldades por elas mesmas. Devemos intencionalmente encarar as dificuldades quando quer que elas venham, mas ninguém deve procurar por elas. Nossas energias são muito valiosas para serem desperdiçadas em exercícios inúteis como esse.

[2.10] Equanimidade perfeita: Esta contemplação é usada para nos levar além de todo apego — toda atração e toda aversão. Esta contemplação nos revela o verdadeiro caminho do meio, pois ela nos mostra o caminho que viaja entre todos os extremos e todas as dualidades. Eventualmente, esta contemplação nos levará a um estado de equanimidade perfeita onde nasce a paciência perfeita do Dharma. Uma vez que tenhamos atingido a paciência do Dharma, a regressão sobre o caminho não será mais possível.

(Hsing Yün, Only a Great Rain)

Sobre sonhos...(5)

Podemos perceber o seguinte processo na formação dos sonhos:

1) no processo de perda do controle dos penamento - mas antes que os sonhos se formem - ocorre uma perda do referencial físico da mente, ou seja, a referência corpórea/corporal da mente começa a se esvaecer, dando origem a uma característica singular: a mente parece adquirir uma enorme "plasticidade" ou flexibilidade. Parece-me que esse passo é condição para que a realidade onírica se imponha como "a única realidade" para a mente. Ou seja, parece que a perda do referencia corporal e a plasticidade mental estão relacionados;

2) quando esse processo adquire culminância, inicia-se uma fase de formação de imagens dotadas de grande realismo: é o início do sonho. Aqui, creio que uma matriz energética incessante - que fornece impulsos nervosos ou energéticos para a mente em caráter contínuo - tem seus impulsos "interpretados" pela mente (já fora do controle racional, "inconsciente") configurando-os sob a forma de imagens e sensações completas. É como se a mente, "viciada" em excitações sensoriais/mentais e em face daquele fluxo incessante, adotasse o caminho "mais fácil", reinterpretando aqueles impulsos da "forma habitual", ou seja, por meio das imagens/sensações semelhantes àquelas da vigília: iniciou-se o sonho.

3) porém, não há ainda um "ego onírico" formado. Por um momento, é como se estivéssemos assistindo a um filme, onde não nos identicamos com nada. São apenas imagens (pessoas etc.) se movimentando, num enredo em que estamos ausentes. O ego onírco aparece quando tais imagens se estabilizam e começamos a interagir com elas.

Diante disso, surge a dúvida: Como compatibilizar a concentração da meditação (Shamata) com o processo de surgimento dos sonhos ? Ou seja, de que modo a concentração e a manutenção do observador diante das turbulências mentais são possíveis de serem mantidas diante da "necessidade aparente" de perda de conciência, condição (?) para que a mente perca seus referenciais corpóreos e o sonho se inicie ?

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Alan Watts




Fonte: Wikipedia, the free encyclopedia




From The Essential Alan Watts


Alan Wilson Watts (January 6, 1915November 16, 1973) was a philosopher, writer, speaker, and expert in comparative religion. He was best known as an interpreter and popularizer of Asian philosophies for a Western audience.


He wrote more than twenty-five books and numerous articles on subjects such as personal identity, the true nature of reality, higher consciousness, and the pursuit of happiness, relating his experience to scientific knowledge and to the teachings of Eastern and Western religions or philosophies (Zen Buddhism, Taoism, Christianity, Hinduism, etc.).


Early years


Watts was born to middle class parents in the village of Chislehurst (now in the London Borough of Bromley), Kent, England in the year 1915. His father was a representative for the London office of the Michelin Tyre Company, his mother a housewife whose father had been a missionary. With modest financial means, they chose to live in bucolic surroundings and Alan, an only child, grew up learning the names of wild flowers and butterflies, playing beside streams, and performing funeral ceremonies for birds.


Probably because of the influence of his mother’s religious family, the Buchans, an interest in "ultimate things" seeped in. But it mixed with Alan’s own interests in storybook fables and romantic tales of the mysterious Far East. Watts also later wrote of a mystical sort of vision he experienced while ill with a fever as a child. During this time he was influenced by Far Eastern landscape paintings and embroideries that had been given to his mother by missionaries returning from China. With regard to the examples of Chinese paintings he was able to see in England, Watts wrote "I was aesthetically fascinated with a certain clarity, transparency, and spaciousness in Chinese and Japanese art. It seemed to float..." [as presented in his autobiography]. These works of art emphasized the participative relationship of man in nature, a theme that would be important to him throughout his life.

Buddhism


By his own assessment, Watts was imaginative, headstrong, and talkative. He was sent to boarding schools (which included both academic and religious training) from early years. During holidays in his teen years, Francis Croshaw, a wealthy epicurean with strong interests in both Buddhism and the exotic little-known aspects of European culture, took Watts on a trip through France. It was not long afterward that Watts felt forced to decide between the Anglican Christianity he had been exposed to and the Buddhism he had read about in various libraries, including Croshaw’s. He chose Buddhism, and sought membership in the London Buddhist Lodge which had been established by Theosophists, and was now run by the barrister Christmas Humphreys. Watts became the organization’s secretary at 16 (1931). The young Watts explored several styles of meditation during these years.

Education


Watts attended King's School next door to Canterbury Cathedral. Though he was frequently at the top of his classes scholastically, and was given responsibilities at school, he botched an opportunity for a scholarship to Oxford by styling a crucial examination essay in a way that was read as presumptuous and capricious.
Hence, when he graduated from secondary school, Watts was thrust into the world of employment, working in a printing house and later a bank. He spent his spare time involved with the Buddhist Lodge and also under the tutelage of a "rascal guru" named Dimitrije Mitrinović. (Mitrinović was himself influenced by Peter Demianovich Ouspensky, G. I. Gurdjieff, and the varied psychoanalytical schools of Freud, Jung and Adler.) Watts also read widely in philosophy, history, psychology, psychiatry and Eastern wisdom.

Influences and first publication


London afforded him a considerable number of other opportunities for personal growth. Through Humphreys, he contacted eminent spiritual authors (e.g., Nicholas Roerich, Dr. Sarvapalli Radhakrishnan) and prominent theosophists like Alice Bailey. In 1936, aged 21, he attended the World Congress of Faiths at the University of London, heard D.T. Suzuki read a paper, and afterwards was able to meet this esteemed scholar of Zen Buddhism. Beyond these discussions and personal encounters, he absorbed, by studying the available scholarly literature, the fundamental concepts and terminology of the main philosophies of India and East Asia. In 1936, Watts's first book was published, The Spirit of Zen, which he later acknowledged to be mainly digested from the writings of Suzuki.
In 1938 he and his bride left England to live in America. He had married Eleanor Everett, whose mother Ruth Fuller Everett was involved with a traditional Zen Buddhist circle in New York. A few years later, Ruth Fuller married the Zen master (or "roshi"), Sokei-an Sasaki, and this Japanese gentleman served as a sort of model and mentor to Alan, though Watts chose not to enter into a formal Zen training relationship with Sasaki.
During these years, according to his later writings, Watts had another mystical experience while on a walk with his wife.

Priesthood and after


Watts had left formal Zen training in New York because the method of the teacher didn't suit him. He was not ordained as a Zen monk, but he felt a need to find a professional outlet for his philosophical inclinations. He entered an Anglican (Episcopalian) school (Seabury-Western Theological Seminary, in Evanston), where he studied Christian scriptures, theology, and Church history. He attempted to work out a blend of contemporary Christian worship, mystical Christianity, and Asian philosophy. Watts was awarded a master's degree in theology in response to his thesis, which he published as a popular edition under the title Behold the Spirit. The pattern was set, in that Watts did not hide his dislike for religious outlooks that he decided were dour, guilt-ridden, or militantly proselytizing, whether found within Judaism, Christianity, Hinduism, or Buddhism.
All seemed to go reasonably well in his next role, as Episcopalian priest (beginning in 1945, aged 30), until an extramarital affair resulted in his young wife having their marriage annulled. It also resulted in Watts leaving the ministry by 1950. He spent the New Year getting to know Joseph Campbell; his wife, Jean Erdman; and John Cage.
In the spring of 1951, Watts moved to California, where he joined the faculty of the American Academy of Asian Studies in San Francisco. Here he taught alongside Saburo Hasegawa, Frederick Spiegelberg, Haridas Chaudhuri, lama Tokwan Tada, and various visiting experts and professors. Hasegawa, in particular, served as a teacher to Watts in the areas of Japanese customs, arts, primitivism, and perceptions of nature.
Watts also studied written Chinese and practiced Chinese brush calligraphy with Hasegawa as well as with some of the Chinese students who enrolled at the Academy. While Watts was noted for an interest in Zen Buddhism, with its origins in China, his reading and discussions delved into Vedanta, "the new physics," cybernetics, semantics, process philosophy, natural history, and the anthropology of sexuality.


Middle years


After heading up the Academy for a few years, Watts left the faculty for a freelance career in the mid 1950s. He began what became a long-running weekly radio program at Pacifica radio station KPFA in Berkeley. Like other volunteer programmers at the listener-sponsored station, Watts was not paid for his broadcasts; they did, however, gain him a large following in the San Francisco Bay Area. These programs were later carried by additional Pacifica stations, and were re-broadcast many times over in the decades following his death. The original tapes are currently held by the Pacifica Radio Archive, based at KPFK in Los Angeles.
In 1957 when 42, Watts published one of his best known books, The Way of Zen, which focused on philosophical explication and history. Besides drawing on the lifestyle and philosophical background of Zen, in India and China, Watts introduced ideas drawn from general semantics (directly from the writings of Alfred Korzybski) and cybernetics (Norbert Wiener's early work on cybernetics had been recently published). Watts offered analogies from cybernetic principles possibly applicable to the Zen life. The book sold well, eventually becoming a modern classic, and helped widen his lecture circuit.
Around this time, Watts toured parts of Europe with his father, meeting the renowned psychiatrist Carl Jung. In relation to modern psychology, Watts's instincts were closer to Jung's or Abraham Maslow's than to those of Freud.

Experimentation


When he returned to the United States, he began to dabble in psychedelic drug experiences, initially with mescaline given to him by Dr. Oscar Janiger. He soon tried LSD several times with various research teams led by Drs. Keith Ditman, Sterling Bunnell, and Michael Agron. He also tried DMT, later stating that it was 'like loading the Universe into a gun and firing it into your brain'. Watts’s books of the sixties reveal the influence of these chemical adventures on his outlook. He would later comment about drug use, "When you've got the message, hang up the phone." [1]
For a time, Watts came to prefer writing in the language of modern science and psychology (Psychotherapy East and West is a good example), finding a parallel between mystical experiences and the theories of the material universe proposed by twentieth-century physicists. He later equated mystical experience with ecological awareness, and emphasized whichever approach seemed best suited to the audience he was addressing.

Philosophical development


Watts's explorations and teaching brought him into contact with many noted intellectuals, artists, and American teachers in the human potential movement. His friendship with poet Gary Snyder nurtured his sympathies with the budding environmental movement, to which Watts gave philosophical support. He also encountered Robert Anton Wilson, who credited Watts with being one of his 'Light[s] along the Way' in the opening appreciation of Cosmic Trigger.
Though never affiliated for long with any one academic institution, he did have a fellowship for a couple of years at Harvard University. He also lectured to many college and university students. His lectures and books gave Watts far-reaching influence on the American intelligentsia of the 1950s-1970s, but Watts was often seen as an outsider in academia. While some college and university professors found his writing and lectures interesting, others said things like: "He's not really a scholar of Eastern philosophy. He's not that disciplined. Alan Watts doesn't teach Eastern philosophy, he teaches 'Alan Watts.'" To which he replied in numerous lectures that "the scholar who is interested in medals and prizes and not interested in the fun of it, has amazing put downs." He pointed this out with an example: "The original scholars in history were men that owned land, and being rich they had enough free time to study in their library, not for the progress of science, but for fun." Another Japanese Zen master, Maezumi Roshi, however, once remarked, "Alan Watts? He is not Zen!"--a perfectly Zen-like response that may well have delighted Watts.

Applied aesthetics


Watts often alluded to or wrote about a group of neighbors in Druid Heights[2] (near Mill Valley, California), who had endeavored to combine architecture, gardening, and carpentry skills to make a beautiful and comfortable life for themselves. Druid Heights was founded by the writer Elsa Gidlow.
Regarding his intentions, it can be argued that Watts attempted to lessen the alienation that accompanies the experience of being human that he felt plagued the modern Westerner, and (like his fellow British expat and friend, Aldous Huxley) to lessen the ill will that was an unintentional by-product of alienation from the natural world. He felt such teaching could improve the world, at least to a degree. He also articulated the possibilities for greater incorporation of aesthetics (for example: better architecture, more art, more fine cuisine) in American life. In his autobiography he wrote, "… cultural renewal comes about when highly differentiated cultures mix" (Watts, In My Own Way).

Later years


In his writings of the 1950s, he conveyed his admiration for the practicality in the historical achievements of Chán (Zen) in the Far East, for it had fostered farmers, architects, builders, folk physicians, artists, and administrators among the monks who had lived in the monasteries of its lineages.
In his mature work, he presents himself as "Zennist" in spirit as he wrote in his last book, Tao, the Watercourse Way. Child rearing, the arts, cuisine, education, law and freedom, architecture, sexuality, and the uses and abuses of technology were all of great interest to him.
On the personal level, Watts sought to resolve his feelings of alienation from the institutions of marriage and the values of American society, as revealed in classic his comments on love relationships in "Divine Madness" and on perception of the organism-environment in "The Philosophy of Nature".
In looking at social issues he was quite concerned with the necessity for international peace, for tolerance or even understanding among disparate cultures. He also came to feel acutely conscious of a growing ecological predicament; as one instance, in the early 1960s he wrote: “Can any melting or burning imaginable get rid of these ever-rising mountains of ruin – especially when the things we make and build are beginning to look more and more like rubbish even before they are thrown away?" [The Joyous Cosmology] These concerns were later expressed in a television pilot made for NET filmed at his mountain retreat in 1971 in which he noted that the single track of conscious attention was wholly inadequate for interactions with a multi-tracked world.

Political stance


In his writings, Watts alluded to his own political shift from Republican conservatism to a more liberal legal and political outlook. However, his opinions did not lean to the political left. He was more libertarian, distrusting both the left and right, and finding an early libertarian outlook in the Chinese sage Chuang-Tzu. He disliked much in the conventional idea of "progress". He hoped for change, but personally he preferred amiable, semi-isolated rural social enclaves, and also believed in tolerance for urban tenderloins, social misfits, and eccentric artists. Watts decried the suburbanization of the countryside and the way of life that went with it.
In one campus lecture tour, which Watts titled "The End to the Put-Down of Man", Watts presented positive images for both nature and humanity, spoke in favor of the various stages of human growth (including the teenage years), reproached excessive cynicism and rivalry, and extolled intelligent creativity, good architecture and food.

On spiritual and social identity


Watts felt that ethics (at least of the judgmental Judeo-Christian kind) had nothing to do with the fundamental realization of one’s deep spiritual identity. He advocated social rather than personal ethics. In his writings, Watts was increasingly concerned with ethics applied to relations between humanity and the natural environment and between governments and citizens. He wrote out of an appreciation of a racially and culturally diverse social landscape. At the same time, he favored representative government rather than direct democracy (which he felt could readily degenerate into mob rule).
He often said that he wished to act as a bridge between the ancient and the modern, between East and West, and between culture and nature.
Watts led some tours for Westerners to the Buddhist temples of Japan. He also studied some movements from the traditional Chinese martial art T'ai Chi Ch'uan, with an Asian colleague, Al Chung-liang Huang. Watts lived his later years at times on a houseboat in Sausalito on San Francisco Bay and at times in a secluded cabin on Mount Tamalpais. Laden with social and financial responsibilities, he struggled increasingly with alcohol addiction, which probably shortened his life.[3] In October 1973 he returned from an exhausting European lecture tour. Watts died of heart failure in his sleep at home the following month at the age of 58.

Family life


Alan Watts was married three times and had five children including two sons, the oldest of whom, Mark Watts, has recently served as curator of his father's work.

Books
1936 The Spirit of Zen, Paperback. 1969 ISBN 0-8021-3056-9
1937 The Legacy of Asia and Western Man
1940 The Meaning of Happiness, Paperback. 1970, ISBN 0-06-080178-6
1944 Theologica Mystica of St. Dionysius, (translation from Greek of pseudo-Dionysius, now available online)
1948 Behold the Spirit:A Study in the Necessity of Mystical Religion, Vintage ed. 1972, ISBN 0-394-71761-9
1950 Easter - Its Story and Meaning
1950 The Supreme Identity, Vintage ed. 1972, ISBN 0-394-71835-6
1951 The Wisdom of Insecurity, Vintage ed. 1968, ISBN 0-394-70468-1
1953 Myth and Ritual in Christianity, Beacon Press 1971, ISBN 0-8070-1375-7
1957 The Way of Zen, Vintage Spiritual Classics 1999, ISBN 0-375-70510-4
1958 Nature, Man, and Woman, Vintage reissue 1991, ISBN 0-679-73233-0
1960 "This Is It" and Other Essays on Zen and Spiritual Experience, Vintage reprint 1973, ISBN 0-394-71904-2; excerpted essay: "The New Alchemy"
1961 Psychotherapy East and West, Vintage ed. 1975, ISBN 0-394-71609-4 (excerpt here)
1962 The Joyous Cosmology - Adventures in the Chemistry of Consciousness
1963 The Two Hands of God - The Myths of Polarity
1964 Beyond Theology - The Art of Godmanship, Vintage 1973, ISBN 0-394-71923-9
1966 The Book - On the Taboo Against Knowing Who You Are, Vintage reissue 1989, ISBN 0-679-72300-5 (excerpt here)
1967 Nonsense, ISBN 0-525-47463-3. This book is an interesting spiritual application of literary nonsense.
1970 Does It Matter?: Essays on Man's Relation to Materiality, Vintage ed. 1971, ISBN 0-394-71665-5
1971 Erotic Spirituality - The Vision of Konarak
1972 The Art of Contemplation
1972 In My Own Way - An Autobiography 1915-1965, Vintage 1973, ISBN 0-394-71951-4
1973 Cloud-hidden, Whereabouts Unknown: A Mountain Journal, Vintage 1974, ISBN 0-394-71999-9

Posthumous publications

1974 The Essence of Alan Watts, Celestial Arts 1977, ISBN 0-89087-210-4
1975 Tao: The Watercourse Way, with Al Chung-liang Huang, Pantheon 1977, ISBN 0-394-73311-8
1976 Essential Alan Watts
1978 Uncarved Block, Unbleached Silk: The Mystery of Life
1979 Om: Creative Meditations
1982 Play to Live
1983 Way of Liberation: Essays and Lectures on the Transformation of the Self
1985 Out of the Trap
1986 Diamond Web
1987 The Early Writings of Alan Watts, Paperback. 1995, ISBN 0-89087-794-7
1990 The Modern Mystic: A New Collection of Early Writings
1994 Talking Zen
1995 Become What You Are, Shambhala Expanded ed. 2003, ISBN 1-57062-940-4
1995 Buddhism: The Religion of No-Religion
1995 The Philosophies of Asia
1995 The Tao of Philosophy, edited transcripts, Tuttle Publishing 1999, ISBN 0-8048-3204-8
1996 Myth and Religion
1997 Taoism: Way Beyond Seeking
1997 Zen and the Beat Way
1998 Culture of Counterculture
1999 Buddhism: The Religion of No-Religion, edited transcripts, Tuttle Publishing, ISBN 0-8048-3203-X
2000 Still the mind : an introduction to meditation, New World Library, ISBN 1-57731-214-7
2000 What is Zen?, New World Library, ISBN 0-394-71951-4
2000 What is Tao?, New World Library, ISBN 1-57731-168-X

Audio and video works, essays

Including recordings of lectures at major universities and multi-session seminars:
1960 Eastern Wisdom in Modern Life, television series, (here)
1960 Essential Lectures, audio recordings, (here)
1960 Nature of Consciousness, essay, (here)
1960 The Value of Psychotic Experience
1960 The World As Emptiness
1960 From Time to Eternity
1960 Lecture On Zen
1960 The Cross of Cards
1960 Taoism
1962 This Is IT
1968 "Psychedelics & Religious Experience", in California Law Review (here)
1969 Why Not Now: The Art of Meditation
2005 Do You Do It, or Does It Do You?: how to let the universe meditate you (CD)
2007 Zen Meditations with Alan Watts, DVD, (here)

References


^ http://www.erowid.org/culture/characters/watts_alan/watts_alan.shtml Erowid Character Vaults: Alan Watts
^ http://www.techgnosis.com/index_druid.html Druids and Ferries
^ Zen Effects, p. 188–189
Charters, Ann (ed.). The Portable Beat Reader. Penguin Books. New York. 1992. ISBN 0-670-83885-3 (hard cover); ISBN 0-14-015102-8 (paperback)
Furlong, Monica, Zen Effects: The Life of Alan Watts Houghton Mifflin. New York. 1986 ISBN 0-395-45392-5, Skylight Paths 2001 edition of the biography, with new forward by author: ISBN 1-89336132-2
Watts, Alan, In My Own Way New York. Random House Pantheon. 1973 ISBN 0-394-46911-9 (his autobiography)

External links

Wikiquote has a collection of quotations related to:
Alan Watts
The Alan Watts Archive
Alan Watts Podcast - The official Podcast of Alan Watts
Alan Watts Online - Project Unicorn
Watts essay on Nothingness
"Alan Watts Theatre" - audio recordings of Watts set to animations by Trey Parker and Matt Stone, the creators of South Park
Audio archive from Do It Yourself Dharma website
Alan Watts Lectures and Essays Audio, video, essays and articles - resources from deoxy.org

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

A construção de uma brecha

Iniciado como um projeto coletivo, Diacrianos tinha como propósito servir de ponto de apoio e de troca entre os membros de um pequeno grupo de pessoas que, em comum, possuíam uma preocupação bastante ampla: seria possível mapear, à luz do pensamento contemporâneo, as causas que engendraram a atual configuração cultural, ela própria geradora de colossais resíduos - aquilo que poderíamos denominar "cultura do cinismo" ? Ainda seria possível pensar uma saída coletiva a partir da filosofia e da Teoria Social contemporâneas ? Como estas se posicionam, enfim, frente à "cultura do cinismo" ?


A partir desse impulso inicial, esboçou-se uma espécie de "programa de estudos", partindo-se de autores pós-marxistas e pós-estruturalista (desconstrucionistas?), ficando implícito que a chamada "geração pós-68" teria algo a dizer sobre a pós-modernidade.(1)


Logo, entretanto, Diacrianos assumiu uma forma diferente, pois pensado como fórum coletivo, serviu de expressão, na quase totalidade, para apenas um dos integrantes daquele pequeno grupo. O que, evidentemente, traduziu-se em alterações no formato e na "linha editorial": se observadas em seu conjunto, as postagens e o lay-out parecem apontar para uma direção e expressam, de fato, não uma situação estática, mas a evolução e a transformação de uma personalidade particular.


Qual o resultado disso ?


Dentro daquele universo inicial de preocupações, podemos dizer que Diacrianos "segue em frente", tendo, não obstante, ampliado seu foco, como não poderia deixar de ser.


Vejamos.


Já nas décadas de 1950 e 1960, os Situacionistas levavam ao seu limite a crítica marxista, centrando a análise da modernidade na crise da linguagem e na reificação, pensamento-ação este que culminaria na obra mais importante de Debord (1967) e na própria Revolução de 1968. Se os Situacionistas protagonizaram o último movimento revolucionário visto no Ocidente, isso, por si só, tem muito a dizer e merece uma atenta reflexão. Pois em uma sociedade totalitária, o pensamento libertário não pode deixar de enfrentar uma questão "que não se cala": a de que a ideologia hegemônica apóia-se, reproduz-se e, sobretudo, aprofunda uma grande separação, que poderia ser exposta por meio, por exemplo, do seguinte conjunto de cisões (em um processo que ainda está movndo-se para novos desdobramentos):






  • natureza x cultura


  • inconsciente x consciente


  • indivíduo v coletivo


  • público x privado


  • comunidade x sociedade


  • dominados x dominadores


  • objeto x sujeito


  • intuição x pensamento analítico


  • ação x passividade


É dizer: a crítica da razão não pode pretender se desdobrar apenas em ação política ou econômica; que a transformação coletiva pressupõe um transformação individual; que a busca por uma alternativa concreta ao cotidiano moderno passa pela vida comunitária; que o colapso da comunicação e do diálogo - a crise da arte e da linguagem - somente pode ser superado por um movimento de reconciliação psíquica; enfim, que o processo de "autonomização" (atomização ?) das esferas deve ser detido em seu conjunto, pois sendo ele próprio produtor e expressão dos sintomas e resíduos, localiza-se na fragmentação e na negatividade uma fonte e uma expressão dessa cisão, onde quer que elas se manifestem (2).



De igual forma, podemos e devemos buscar, em cada configuração cultural hegemônica as bases emocionais em que ela se apóia e se desdobra: se, como em Freud e Elias, a modernidade foi a expressão da vergonha, poderíamos especular: a burocracia não se apoiaria no medo, sendo esta "a" emoção da pós-modernidade ?



É certo que importantes movimentos surgiram na história moderna como "brechas". Citamos o Situacionismo e a Revolução de 1968. Poderíamos, é claro, acrescentar sobretudo o Romantismo e os mivimentos contra-culturais do século XX. Por tras do aparente fracasso de seus resultados, encontramos importantes contribuições de fundo que merecem atenção. Por isso, tais "momentos" encontram-se no horizonte das análises a serem expostas em Diacrianos.



Urge, assim, um movimento de afirmação e de positividade radicais, posto que o sistema ideológico hegemônico cria e se alimenta da negatividade e da própria crítica: a configuração atual já foi muito apropriadamente taxada de "neo-Dadaísta" e, acrescento, alimenta-se de tudo o quanto contra ela é arremessado.(3)


Diacrianos, portanto, é uma janela, uma tentativa de brecha que encontra seu impulso nesse movimento de integração, sendo, ela própria, a expressão de inquietações filosóficas/emocionais, que tenta romper as dimensões público/privado, individual/coletivo.





Notas





(1) Esse esboço encontra-se neste Blog, sob o título "Grupo de Estudos... ", de 24 /05/2007.


(2) Por exemplo, no multiculturalismo de inspiração anglo-saxã, que se desdobra em políticas de ação afirmativa e que buscam aprofundar a fragmentação em curso.


(3) Aqui devo mencionar o Budismo, pois penso que essa positividade libertadora encontra sua formulação mais profunda nessa filosofia/prática.